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História

Entre dois mundos

História de: Danielle
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/11/2013

Sinopse

Danielle nasceu em Pernambuco. A mãe era prostituta e o pai usuário e traficante de drogas. Deslumbrou-se, logo cedo, com os objetos obtidos pela irmã durante os programas sexuais: brincos, colares, pulseiras, sapatos. Queria tê-los também. Como o meio da prostituição era familiar, a própria mãe a levou para fazer programas, primeiro em um ponto na rua e depois em uma boate. É verdade que a prostituição era encarada como uma coisa normal, mas Danielle recorria frequentemente a remédios tranquilizantes e relaxantes, além de outras drogas. Só assim era possível encarar o trabalho e se dispor a fazer tudo o que os clientes pediam. Por conta da falta de proteção, engravidou de um cliente. Passou maus bocados para conseguir a pensão da filha, recorreu à justiça diversas vezes. Depois que foi estuprada com a irmã por seis homens em um matagal, decidiu parar de se prostituir. Ficou em casa e ajudava o pai a traficar drogas. Fazia programas ocasionais, com clientes conhecidos. Foi avistada por uma conselheira tutelar enquanto trabalhava na rua. Foi neste momento que conheceu o projeto ViraVida. Hoje ela se dedica para dar tudo à filha e para concluir um ensino superior.

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História completa

Desde meu tempo de criança, meu pai já trabalhava no tráfico e usava drogas. Minha mãe, além de viciada e traficante, também se prostituía. 

 

Minha avó e minha tia, que me criaram desde quando nasci, para me manter longe daquele ambiente, me incentivavam dizendo sempre que eu era uma boa menina, uma boa aluna. Que, se eu estudasse, me tornaria uma advogada. Acho que elas tinham razão, pois eu gostava de estudar e era apaixonada pela língua portuguesa, mas acabei seguindo outro caminho.

 

Comecei a seguir os passos de minha mãe e da minha irmã já com treze anos de idade. Comecei a mentir para minha avó e minha tia. De manhã ia pra escola, mas de tarde, com a desculpa de fazer trabalhos em grupo, ganhava dinheiro, primeiro nos pontos de rua, com minha mãe e irmã, e depois num bordel no centro da cidade. Eu também queria ganhar dinheiro, comprar roupas, sapatos, bijuterias, maquiagem... Ter o que elas tinham. 

 

Minha vida passou a ser assim, dividida entre o modo de vida de minha mãe prostituta, viciada e traficante, e o da minha avó e minha tia, evangélicas. Graças a elas eu me mantive na escola e consegui cursar o Magistério até o terceiro ano. Cheguei até a fazer estágio numa escola privada pra dar aula pra crianças do primeiro grau. 

 

Me lembro direitinho da primeira vez que me prostitui. Foi com um coroa, um homem de uns trinta e cinco anos de idade, advogado. Me levou pra uma pensão no centro da cidade e me perguntou se eu estava mesmo disposta a me perder com ele. Não consegui perder a virgindade desta vez, foi só na terceira ou quarta tentativa, sempre com o mesmo cara. Ele me prometia o céu e a terra, mas foi tudo ilusão. Não me pagava em dinheiro. Me levava no shopping e comprava coisas pra mim. Na primeira vez, lembro que escolhi um par de patins, uma jaqueta. Fiz programa também com o filho dele. Depois de um tempo, ele sumiu.

 

Logo comecei a me drogar a pedido dos clientes, ou para ter estômago para enfrentá-los. Cheirava loló, fumava maconha com crack, tomava muitos comprimidos tarja preta porque, às vezes, não tinha condições de encarar o homem e satisfazer todos os seus desejos. 

 

Passei a fazer ponto junto com minha irmã e minha mãe. Algumas vezes fazíamos programa juntas. Quem acertava era minha mãe. Não sei quanto cobrava. Eles contratavam as três juntas. Era horrível, não gosto nem de lembrar. 

 

Numa das vezes que saí para um programa com minha irmã, acabamos sendo estupradas por seis homens em um matagal. Ameaçaram de nos matar. O que a gente podia fazer? Fizeram tudo que se pode imaginar, depois nos abandonaram no meio da noite. Caminhamos no escuro um bom tempo e, quando encontramos a polícia, nem carona nos deram. Conseguimos chegar na cidade quando pegamos um ônibus. 

 

Tive proposta de ir pra Alemanha, Itália, Portugal, mas não aceitei. Os turistas alemães são muito espertos. Quando chegam ao Brasil, já trazem intérprete para se comunicar com a gente. Os estrangeiros são os melhores clientes, pagam em euro, um dinheiro bom. Hoje, seria algo em torno de oitocentos a mil reais o programa.

 

Depois que fui estuprada, passei a ter medo de encarar a rua, passei a fazer programas eventuais, com clientes já fixos, e a ajudar meu pai e a minha mãe a traficar. 

 

A minha vida foi assim dos treze aos dezoito anos, quando engravidei de um cliente. Aí a casa caiu. Foi um choque para minha avó e minha tia. Mesmo grávida, segui fazendo programas. 

 

Fiquei grávida porque o cliente não quis usar camisinha. O cliente não querer acontecia quase sempre. Tem uns que queriam e outros não. Como a gente estava ali a troco de alguma coisa, a gente tinha que fazer o que eles bem queriam. Tinha que ser tudo do jeito que eles queriam. Naquele momento, a mulher que tá no meio da prostituição não tem o que escolher: “Ou vai ou racha”. E foi com um desses que não aceitam usar camisinha que eu engravidei, tive uma filha.

 

O rapaz de quem eu engravidei era casado. Eu consegui registrar a minha filha com o nome dele. Ele aceitou registrar, mas não queria contribuir com nada. Eu entrei na justiça. Tive uma série de problemas porque ele não queria... Primeiro ele disse que não era dele, queria exame de DNA, aí eu falei: “Eu faço, basta você pagar.” Ele pagou. Deu positivo, a menina é a cara dele. Passou um tempo, ele estava assumindo a pensão da menina, certinho, depois parou. Eu botei ele na justiça. E, hoje em dia, ele dá quando quer. 

 

Mas eu consigo dar tudo pra minha filha. Tudo o que uma criança precisa. Basicamente, tudo o que eu não tive eu dou à minha filha.

 

A minha vida começou a mudar quando procurei o Conselho Tutelar da Infância e do Adolescente e uma conselheira pediu meu endereço e prometeu ajudar. O auxílio nunca chegou, mas consegui uma vaga em um projeto social que me encaminhou para o projeto ViraVida. Eu e outras meninas com quem trabalhei em uma boate.

 

Quando eu comecei no ViraVida continuei fazendo programa, mas só com aqueles clientes já certinhos. Depois de uns três meses não quis mais. Deixei a minha vida de prostituta para trás. Comecei a ir pra igreja com minha avó, aceitei Jesus na igreja, e disse: “Basta, Deus não quer isso pra mim, não.” Aí pronto, foi quando dei um fim. E até hoje, graças a Deus, nunca mais.

 

A primeira atividade no ViraVida é redigir uma redação sobre a vida da gente. Contei tudo. Descobri que nunca é tarde para sair das ruas, das drogas e da exploração sexual. A vida que eu levava não é vida pra ninguém. É preciso agarrar seu sonho e lutar por ele. O meu agora é ter uma casa, me formar e dar um bom estudo para minha filha. Por isso estou batalhando.

 

Uma coisa que me marcou no ViraVida, foi uma aula que motivava a gente a se lembrar das brincadeiras que tínhamos na infância. Minhas colegas lembraram de ter jogado vôlei, de ter brincado de amarelinha e várias outras coisas. Essa aula me deixou deprimida, porque eu queria lembrar de alguma coisa de que eu tivesse brincado, mas não conseguia e não lembrava de nada. Eu pensei: “Poxa, tantas coisas que eu não tive e que eu havia perdido na minha infância.” Mas no projeto a gente tem aulas de autoestima, a gente tem uma equipe que usa muito a autoestima. Então, me fez esquecer o passado e pensar no presente e no futuro. E é o que eu penso hoje em dia.

 

Eu me vejo hoje como uma guerreira, porque eu superei todos os obstáculos. Então eu sou mais do que vencedora. Nunca é tarde para agarrar o sonho da sua vida, porque eu acho que a vida é um  sonho. E os meus sonhos são: ser como uma Ana Neri, a brasileira pioneira da enfermagem, ter a minha casa e ver a minha filha com um bom estudo. É pra isso que eu luto. São os meus três sonhos.

 

 

Nesta entrevista foram utilizados nomes fantasia para preservar a integridade da imagem dos entrevistados. A entrevista na íntegra, bem como a identidade dos entrevistados tem veiculação restrita e qualquer uso deve respeitar a confidencialidade destas informações.

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