Busca avançada



Criar

História

Eu me sinto livre fazendo música

História de: Ronieli Barbosa da Costa (Nelly)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/10/2012

Sinopse

Nelly nasceu em Belfort Roxo, é filho de mãe carioca e pai maranhense. Em seu depoimento, ele relembra a Infância, fala da presença da música na família e o primeiro trabalho nesta área.  Ele conta como conheceu o Afro Reggae e sobre a importância de se tornar professor. Em Suburbia interpreta o personagem Tião da Kombi.

Tags

História completa

Meu pai é maranhense. Eu sei que ele trabalhava e teve um filho. Ele falou pra família que ia vir ao Rio comprar uma sanfona, com 21 anos, depois ele ia voltar. E ele veio conhecer o Rio de Janeiro, e não voltou até hoje. Na realidade ele acabou comprando uma guitarra. E a sanfona de botão, que era o sonho dele, comprou deve ter um ano mais ou menos. Ele tem um grupo de pé de serra, mas ele tocou mais de 20 anos na noite. Eu lembro que eu já era novinho, mas meu pai sempre chegava e fazia o assovio de madrugada. A gente ficava esperando, que só dormia depois que ele contasse as histórias.

Eu gostava de jogar bola de gude, mas quando eu fui chegando a 11, 12 anos, eu não tinha essa aptidão, esse brilho nos olhos pela pipa, por bola de gude. Eu brincava, mas eu gostava de arte, eu gostava de coisas diferentes. Eu gostava de ver aqueles músicos, ficava imaginando show, palco. Meu irmão mais velho tocava num grupo de pagode, que fazia várias apresentações pequenas. Eu ficava louco pra ir aos ensaios, tinha 11 anos. Eu carregava vários instrumentos pesados, montava o palco, não ganhava nada. O primeiro curso que eu fiz foi em Quintino, de cavaquinho.

Mas era longe pra caramba. Comecei a fazer violão na Mangueira, a aprender um pouquinho, parei. Paguei umas aulas de baixo, parei. Só tinha aquela noçãozinha básica, aí parava. Todo sábado eu ia lá para o meu pai, ele mora no Jardim América. Tinha uma bateria e meu pai ficava fazendo um som. Eu falei: “Me ensina?”. Meu pai me deu a primeira instrução pra tocar. Eu sempre ia final de semana lá para o meu pai, mas não gostava de lá. Era um mundo diferente pra mim, ver arma, escutar tiro, eu achava meio complicado. Meu pai comprou um terreno, enorme, mas sempre tava trabalhando em São Gonçalo. Não ficava muito lá, então os vizinhos falaram que nego queria invadir. Meu pai falou: “Bicho, vocês têm que vir cá cuidar do que é de vocês”. Meu pai construiu, na realidade, um barraquinho, uma quitinete, quarto, sala banheiro, três cômodos. Dormi lá de sexta pra sábado. E nessa eu to dormindo, eu tinha 17 anos, e escutando um barulho diferente. Nunca tinha visto aquilo.

O barulho foi chegando mais perto, eu saí no portão e fiquei esperando passar. Quando passou era o bloco do Afro Reggae. Uma porção de jovens. Eu admirado, fiquei deslumbrado com aquilo. Depois passaram três semanas, começou a ter oficina de percussão. Passei a morar no meu pai pra olhar o terreno, e estudando em Belford Roxo. E de tarde eu ficava lá, e quando tinha oficina eu ficava assistindo. Sei que passaram um três meses, eu cheguei num cara e falei: “Posso participar desse grupo aí?”. Com aquela vergonha. Ele: “Vem amanhã”. Não me deu chance de primeira. No outro dia ele me deu uma caixa de guerra pra tocar. Aí ele me deu repinique. Passaram uns três meses, eu me tornei mestre do grupo. A minha história começou aí. Me botaram esse apelido de Nelly. Todo jovem quando faz oficina do Afro Reggae fica meio bobo.

Meu pai gostava de música, eu tinha aquilo dentro de mim, mas não aflorava aquela história de expressar. Eu via os outros fazerem. Então quando eu peguei, significou uma verdade absoluta. Eu me sinto livre fazendo música. Meu pai conseguiu comprar um som muito legal. E eu queimei esse som. Meu pai ficou triste pra caraca. Eu falei: “Pô, bicho, eu vou arrumar um trabalho!” E foi então que eu tive a ideia de ser de uma banda do Afro Reggae que se chamava Afro Lata. Uma banda que é uma vitrine. E todo mundo queria entrar no Afro Lata e é uma banda difícil de as pessoas entrarem. Aí comecei a participar do grupo, e minha primeira viagem foi pra São Paulo. Era bolsa e remunerado. Eu tava “amarradaço” com aquilo tudo, era fantástico, independente de dinheiro ou não.

Eu fui fazendo vários shows, fui crescendo dentro do grupo, dentro da história. Conheci a Inglaterra, aí conheci o mundo. Deixe-me falar agora uma coisa muito importante, que foi coisa de Deus. Eu não sou ator, nunca fiz nada. Tenho esse lado da arte dentro de mim, porque eu já vim com essa bagagem. Então pra arte eu não fico com vergonha, eu chego e faço as coisas. E o Tião, na realidade, é o Nelly, sou eu.O Tião sou eu. A única diferença do Tião e Nelly é que eu não tenho uma Kombi. O Tião dentro da história é um cara do bem, é “amigaço” de todo mundo. Se a pessoa precisar dele ele vai estar ali à disposição e é o Nelly também. Não vou mentir, eu gosto também do style. Eu gosto de me vestir bem, eu gosto de chegar a um lugar e falar eu to aqui. Bota um bonezinho de lado, às vezes bota uma touca, bota uma roupa. Eu costumo usar preto, o prata também, porque me dá uma visualização legal, me divulga.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | portal@museudapessoa.net
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+