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História

“Eu queria ser Chico Buarque”

História de: José Alisson da Paz Alves
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 22/06/2015

Sinopse

Em seu depoimento para o Museu da Pessoa, José Alisson da Paz Alves conta sobre sua infância em Maceió, as dificuldades que seus pais tiveram de enfrentar, a mudança para São Paulo e as novas percepções na cidade grande. Ele descreve como ingressou na Trópis, narra a separação de sua mãe irmãs, que voltaram para Alagoas, e como ele começou a escrever por causa da saudade da mãe. Comenta como ingressou nos saraus, da fundação do coletivo Correspondência Poética e de sua participação em saraus, eventos e caminhadas literárias.

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História completa

Meu nome é José Alisson da Paz Alves, mais conhecido como Alisson da Paz. Eu nasci em Maceió, Alagoas no dia 14 de julho de 1975.  O nome do meu pai é Paulo Ferreira Alves e o nome da minha mãe é Nilza Ana da Paz Alves. O meu pai era de Alagoas, interior de Alagoas, uma cidade chamada Igaracy. Trabalhou como peão de obra, trabalhou em alguns lugares, veio para São Paulo, voltou para Alagoas de novo. Quando ele voltou para Alagoas de novo, conheceu minha mãe. Eles se conheceram pequenos, mas eles começaram a se relacionar, a namorar com 25, alguma coisa assim. Minha mãe nasceu em Pernambuco.

A casa em que morávamos era no chão, minha mãe colocava uns negócios, uns panos, um colchãozinho no chão para gente, dormíamos nós três assim, se eu não me engano era um tijolo com uns papelões no colchão. Mas o que eu me lembro era mais isso, dessa fase do acampamento. Depois que a gente saiu desse acampamento a gente foi para uma casa num bairro chamado Chã da Jaqueira. Ela começou a garimpar um pouco, conseguir montar esse material dela de costura, até então, ela saía, ia costurar para fora, costurava para os outros, era uma casa pequena, era quase um cômodo só a casa, porque tinha uma sala, tinha uma parede, a cozinha, que era um corredor, um banheiro.

A gente inventava as nossas brincadeiras, e é obvio, quando você não tem e você vê, você quer. E tinha muito essa coisa desses moleques que iam brincar, saía na rua, tinham os grupos quando se trombava na rua, era porrada certa.  De porrada, era briga física e pedra. Porque na época, não tinha faca e a gente era pequeno. Entrei na escola um ano atrasado. Eu tinha um desejo muito grande para a escola porque eu via as minhas irmãs saindo e indo para a escola e eu ficava em casa sozinho e elas voltavam cheias de histórias para contar e eu tinha muito essa vontade de ir para a escola e minha mãe injetava muito na gente essa vontade de estudar, porque a minha mãe, ela queria ser professora quando ela era pequena.   Eu acho que eu tinha uns sete, foi logo quando a gente mudou para Morada do Bosque. Acho que eu nem cheguei a terminar a quarta série, estava dez para 11 anos, a gente se mudou para São Paulo, foi quando a gente veio para São Paulo. Na escola, aqui em São Paulo, foi uma coisa muito fácil, para falar a verdade, nessa coisa, porque, eu terminei a quarta série aqui, eu sai na metade do ano, foi mais um ano que eu perdi, inclusive. Perdi o ano porque entrei atrasado.

Grande parte da minha educação, ela se deu mesmo depois dos 14 anos, que foi quando eu conheci a Trópis. A gente, nessa época, estudava no Zulmira aqui em São Paulo, a minha irmã Paula, a Paula nasceu com vários talentos, ela era talentosa para jogar, ela era cheia de talentos e um dos talentos é cantar. Isso a gente fala que ela puxou do nosso pai, porque o meu pai também, ele parecia um passarinho, ele começava a assobiar, você já sabia a música. Ela foi cantar numa banda. E essa banda, eles ensaiavam na Trópis, a Trópis é uma associação que um educador chamado Ralf Rickli estava montando assim junto com o Gil, Gil Marçal, Anabela, assim, uma galera e a Paula começou a frequentar, eles montaram um grupo de teatro, além dessa banda que era uma banda chamada Provisório Permanente, eles montaram um grupo de teatro que era o Grupo Submundo de Teatro.  Depois que eu entrei na Trópis que eu parei de brigar, nunca mais entrei na porrada com ninguém porque eu fiquei tranquilo. Fiquei lá até os meus 25, porque depois eu passei a morar na Trópis, literalmente, com os 14, eu descobri o grupo, a gente montou uma peça que era o “45 minutos de amor”, a gente montou um grupo de quadrinho, os quadrinhos japoneses, estilo japonês, que a gente montou uma história com personagens, tal, tinham as aulas do Ralf. Eu descolei um trampo com 15 anos, o primeiro trampo registrado, eu fui ser auxiliar de um artista plástico, o cara produzia esses quadros em alto relevo, Mário Lopomo, um artista plástico capitalista, a gente discutia muito, porque eu já tinha entrado na Trópis com essas ideias socialistas, comunidades, pá, pá, pá, e ele falava: “Sou capitalista, sou capitalista”, falava palavrão pra caralho e a gente discutia, a gente ia trabalhando e discutindo assim.

Eu acho que era 2001, em 2000, a gente conheceu o Caviar, que estava rolando sarau no Caviar em 2001, a gente resolveu montar o sarau da Trópis e eu comecei a apresentar meus textos, essas quase cartas que eu tentava escrever para a minha mãe. A gente montou de casa, na Trópis, a gente montou um cyber café, a gente montou não, tinha um patrocínio da Ruth Cardoso, mulher do FHC tinha um projeto social. As poesias nasceram dessa saudade da minha família que estava em Alagoas.

Depois desse sarau que a gente montou na Trópis, eu fui mais conhecido como poeta. Eu meio que desisti dessa coisa de ser ator, até porque eu não queria muito ser ator, eu gostava de fazer teatro, só isso! E a poesia, não, eu queria fazer poesia, mesmo. E eu comecei a estudar poesia, foi uma coisa que me veio muito como estudo, que eu gostava de estudar, que eu pesquisava, com 17 anos, eu estudava soneto, métrica, rima, movimentos literários desde o quinhentismo com a carta de Pero Vaz Caminha. Na Trópis tinha uma biblioteca com cinco mil livros, a gente tinha uma viniloteca com mil vinis, a gente tinha um espaço em cima onde acontecia, a gente ensaiava teatro, onde acontecia o sarau e além disso, embaixo, tinha o cyber café com sete computadores, o Gunnar dava aula de violão, tinha atividades do LA, a gente fazia atividades esportivas. Mas a gente mudou para São Vicente e foi muito especial porque foi quando eu comecei também a tomar essa frente. Eu estava com 17 anos. E lá, a gente organizava o sarau, a gente dava aula de violão, eu criei o xadrez coletivo. De lá de São Vicente, a gente foi para Praia Grande e não deu muito certo, voltei para São Paulo em 2005. Quando eu voltei para São Paulo, eu comecei a ter contato com esses saraus periféricos que eram com características diferentes dos saraus que a gente realizava. Eu comecei a frequentar muito o sarau do Binho, entrei em contato com a postesia e enfim, comecei a participar das intervenções que o Binho fazia, até que um dia, conversando com o Gil, a gente conversando sobre “O Carteiro e o Poeta”, o livro e o filme, o Gil perguntou se eu tinha assistido, eu falei": “Não”, eu olhei assim e falei: “Seria bom ter um carteiro e um poeta, já imaginou, um carteiro que ao invés dele aprender poesia, ele ia entregando poesia, em vez de chegar conta, chegar uma poesia na caixa de correspondência assim dos outros? Seria uma coisa muito interessante”, e, essa ideia ficou matutando na minha cabeça de 2007 até 2009. Em 2009, eu tinha descolado um trabalho muito interessante, estava trabalhando na produção de uma peça que estava me pagando muito bem e foi quando a gente teve a ideia de fazer o filme “Curta Saraus”, eu e o Davi. A gente falou: “Vamos fazer”, a gente mandou, eu falei assim: “Porra, mas já está na hora, já trabalho tanto nesse meio, eu queria fazer um projeto meu”. Correspondência veio meio com esse intuito de conseguir levar a poesia para um lugar que não necessariamente, as pessoas têm o hábito de ler poesia, mas instigar com a beleza, com a curiosidade das pessoas para que elas comecem a ter esse hábito, é meio que esse primeiro passo. Depois, a gente foi desenvolvendo outras atividades.  Eu sou meio cigano, então nesse momento eu já casei, já tive meu primeiro casamento. Porque quando eu voltei, em 2005, eu fui morar com o Gil e com o Peu, numa casa que eles tinham alugado, morei durante um tempo, a gente alugou uma outra casa que passou a ser Trópis de novo, que o Ralf subiu de novo do litoral para cá, a gente começou a fazer atividades da Trópis aqui também. Eu me casei com a Katia, foi o meu primeiro casamento. Durou de 2005 a 2011, mais ou menos.  A gente foi mudando. São Luiz, Capão, Campo Limpo, geralmente, nunca fora dessa área, a não ser quando eu mudei para o litoral.

O Correspondência Poética começou principalmente em 2009, antes de 2009, ainda teve essa coisa do panorama, teve a coisa da formação da caminhada, principalmente, a primeira caminhada em 2008, que foi, na minha opinião, a melhor e a principal, que também deu essa possibilidade, deu essa concepção de juntar coletivos. Então, a gente juntou vários coletivos e teve a ousadia de sair do Campo Limpo e ir até Curitiba caminhando. Juntou em torno de 30 pessoas e fomos a pé. E foi mágico, eu lembro que eu dei um pé na bunda do trabalho, fiz até um poema pra isso também, quando eu resolvi me despedir do trabalho, inclusive, esse poema que vai dar nome ao meu livro que eu estou pretendendo fazer esse ano. E fui para essa caminhada, o “Donde Miras”. Eu lembro que nessa época, eu já tinha começado as atividades do Correspondência Poética, e na época, dava uma oficina chamada Oficina de Literatura em Ação.  Na Fábrica de Criatividade, que é um espaço que tem no Capão Redondo, é a Mafê, que inclusive, hoje faz parte do coletivo Correspondência Poética, tinha me convidado. Eu lembro que foi a oficina que eu dei, que eu melhor ganhei assim, um dia só de trabalho.

Quando a gente saiu do Campo Limpo, a gente conseguiu pré-produzir Embu das Artes, Taboão, Embu das Artes e Itapecerica da Serra, três cidades. Então, a gente tinha alguns dias, então quando a gente estava em Embu, a gente ligou, eu lembro que esse foi até o Binho que ligou em São Lourenco, tal, muita gente ia indo, o grupo de produção ia na frente na cidade, entrava em contato com a Secretaria de Cultura, Esporte e Lazer, que geralmente, é tudo junto, nas cidades do interior. E a gente ia dialogando com as pessoas, daí a gente dormia, acampava em escolas, centros culturais, nesses espaços públicos, e a gente que ia fazendo mesmo, ligava. A gente explicava que tinha conversado. A gente dava contrapartida nessa cidade, inclusive, esse sarau. Só que era um sarau diferente dos saraus que acontecem aqui. Acho que o melhor sarau que existe é o Sarau Donde Miras.  Aconteceram quatro caminhadas, elas aconteciam em torno de um mês, a gente passava um mês caminhando, essa primeira, a gente passou literalmente, um mês. A gente saiu dia 5, chegou dia 6 do outro mês em Curitiba. Dia 5 de janeiro de 2008, um grupo de 30 poetas. Isso foi uma coisa muito especial, Donde Miras foi marcante. Foi depois que o Donde Miras acabou, finalizou que putz, final de 2010, que a gente pensou no Curta Saraus por causa do Donde Miras. O Curta Saraus foi um filme que a gente fez, coletivo Arte na Periferia, depois, o Panorama, esse Panorama, eu participei meio que como a 30ª lua de distância, meio que na órbita disso, não participei diretamente. No Curta Saraus, a gente percebeu quanto esse movimento dos saraus estava crescendo.

A gente foi diversificando um pouco isso quanto Correspondência Poética, a gente foi diversificando um pouco essa forma de atuar, a gente começou a ir nos lugares da Oficinas, do Correspondência Poética. Então preparar uma forma de apresentar essa poesia para as pessoas e pensar essa forma de interagir no espaço uma poesia, a gente começou a pensar o Ensaio Poético, de registrar isso daí, então além de difundir, a gente também queria ter um registro disso, óbvio, para difundir e enfim, a gente foi um pouco diversificando, teve as intervenções, teve o Ensaio Poético, a gente também foi trabalhando de 2012, 2013, a gente foi trabalhando mais na área audiovisual. A gente montou um filme chamado Música na Periferia, a gente montou alguns trabalhos junto com o Laboratório Cultura Viva, da URFJ e, enfim, a gente montou um trabalho muito interessante que foi chamado de “A Greve”, esse trabalho que participou na Estéticas da Periferia de 2012, esse é um evento que acontece em parceria com o Sesc Santo Amaro. A gente tinha o coletivo Arte na Periferia, que era um pouco maior, só que por questões mesmo de ideologias de trabalho, a gente meio que se separou, a gente ficou meio como Correspondência Poética.

Vou vivendo de projetos e é isso. Tem o Festival de Poesias agora, mandei um projeto para dar oficina literária nas bibliotecas, que enfim, é uma coisa que muito me interessa também, conseguir passar essa coisa do ziriguidum da poesia, além da estrutura, das formas, dos movimentos, essa particularidade, do construir poético. Fazendo isso, trabalho com audiovisual também, então, volta e meia, faço freela de câmera, de edição, enfim, então são coisas que eu faço, e agora, o meu grande objetivo esse ano, particular, é fazer o meu livro, fazer essa antologia de mim mesmo.  Eu resolvi entrar para a academia, depois de duas vezes que eu já tranquei, eu falei: “Não, agora eu vou continuar”, eu estou fazendo letras, EAD na Uninove.  E vou ser pai, em novembro.

 

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