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Felicidade de criança

História de: ALZENETE DE MIRANDA FERREIRA SILVA
Autor: ALZENETE DE MIRANDA FERREIRA SILVA
Publicado em: 18/02/2010

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Meu nome é Alzenete de Miranda Ferreira Silva, tenho 42 anos, casada, tenho 3 filhos. Nasci em Floriano, no Piauí, e moro em São Paulo desde os 4 anos de idade. Gosto muito de lembrar da minha infância. Morávamos na favela do Rio Pequeno - Butantã - SP, na rua Raul Soares, n° 23, Vila Sol. Interessante que nunca esqueci esse endereço. Eu, a filha mais velha, tinha 10 anos (1977) e o que me marcou nesse ano foi minha primeira comunhão, o catecismo que fazíamos na Igreja São Patrício, o Padre Quirano, a missa das crianças aos domingos, que era às 10h da manhã.

O padre Quirano fazia muitas versões de muitas estrangeiras e transformava-as em cânticos de igreja. Eu e todos os meus amigos dessa época cantávamos na igreja com muita vontade, bem alto, sempre com muita emoção. Minha comunhão foi com aqueles vestidinhos de noivinha com véu e grinalda. Minhas amigas, Nina e Cuca, tiraram fotos em preto e branco junto comigo. Minha mãe fez um bolo simples para comemorar essa data inesquecível. Ganhei de um primo do meu pai, o Luís, um jogo de copos azuis. Já com meus 11 anos (1978), lembro que eu estava na 4ª série e subíamos as escadas após o recreio e uma colega de classe começou a sangrar pelas pernas. Ela estava de saia, eu não entendi nada e perguntei a ela se estava com dor, porque ela chorava muito: me falaram que era menstruação e mesmo assim não entendi nada. Minha mãe nunca me falou sobre isso. Só descobri e entendi alguns meses depois quando, numa manhã, acordei chorando e gritando que estava sangrando. Minha mãe me explicou que eu já era uma mocinha.

Desse período, também nunca me esqueço da minha amiga Muda. Não me lembro mais seu nome, eu morava no barraco da favela e ela na rua em frente numa casa comum de tijolos. Eu adorava a Muda, ela era surda e muda, mas eu a entendia perfeitamente. Ela me ensinou a jogar damas, baralho, dominó. Tenho muitas saudades dela. Já na escola (E.E. Prof. Daniel Paulo Verano Pontes, onde estudei da 1ª até a 5ª série), nessa mesma época, eu tinha vergonha de falar para meus colegas que morava na favela. Falava o nome da rua onde eu morava, mas não especificava o local, coisas de adolescente e de uma infância pobre, creio eu. Só algumas amigas mais íntimas sabiam onde eu morava, porque a gente tinha que fazer os trabalhos escolares, e eu ia às casas delas e elas vinham, na minha.

Eu me lembro que as pessoas, naquela época, eram muito preconceituosas. Mas fui muito feliz. Meu pai, desde que me conheço por gente, sempre teve uma moto. Desde a antiga lambreta, aquela motocicleta com um pneu atrás. Ele me levava e meus irmãos também naqueles parquinhos de diversão, que tinha o dango, o carrossel, a roda gigante, e tantos outros brinquedos que eu adorava. Meu pai ia dirigindo a lambreta, ele colocava o caçula, meu irmão Edilson, na frente, minha irmã Elizabete, Eliete vinham sentadas logo atrás e, por último, eu, sentada naquele pneu traseiro. Eu adorava aquele passeio e meu pai costumava tirar fotos quando nós estamos nos brinquedos no parque de diversão.

Foi um dos poucos períodos de que senti falta do meu pai, quando éramos crianças e ele dava muita atenção pra mim e meus irmãos. Já depois dos meus 12 anos, meu pai se afastou demais dos filhos mais velhos e eu sentia muito ciúme, porque ele só agradava os caçulas. Tem uma coisa que quero relembrar, porque sempre conto essa história para meus filhos: eu tinha uns 10 anos, mais ou menos, e eu nunca tinha comido salsicha, porque no mercado era muito caro e só existia a embalagem com 10 salsichas da Sadia. Outras coisas também eram bem caras como iogurtes, chocolates, comíamos só muito raramente, no período de pagamento de salário do meu pai. Mas, voltando ao assunto salsicha, eu me lembro que era outubro, dias das crianças, e uma senhora (não lembro seu nome) que morava em uns sobradinhos ali perto do córrego Rio Pequeno (que hoje é um córrego canalizado), fez uma festa (almoço) para as crianças da favela. Me falaram que ela fazia isso todos os anos, era promessa.

Eu fui com meus irmãos e tantos outros colegas e adivinha qual era o cardápio? Macarrão tipo ninho, ao molho com salsichas e tinha Coca-Cola e Guaraná Antártica de garrafa, como era vendido na época. Foi uma delícia. Foi a primeira vez que comi salsicha na minha vida e nunca vou me esquecer. Também não posso esquecer da Padaria Cinco Quinas que ficava na Av. Rio Pequeno, de esquina com a Rua Otacílio Tomanik. Sempre ia com minha mãe ou minha tia comprar pão, melhor dizendo bengala, que vinha embrulhada em papel de seda. O pão era dividido para 6 pessoas lá em casa: minha mãe, meu pai, eu e meu 3 irmãos pequenos. Minha mãe teve mais uma filha, a Eliana, mas já morávamos em Carapicuíba/SP, Jardim Ana Estela, onde meu pai comprou um terreno e construiu nossa casa própria. Mudamos para lá em dezembro de 1979.

O tempo que moramos nesse barraco lá na favela no Rio Pequeno foi um tempo muito feliz para mim, mesmo com grandes dificuldades financeiras e materiais, mesmo tendo que dividir aquela bengala para 6 pessoas e eu queria sempre repetir o pedaço, mas não dava para repetir. Ainda assim, foi uma infância e começo da minha adolescência muito feliz. Só tenho grandes recordações. Aconteceram muitas coisas depois até eu chegar hoje aos meus 42 anos, mas este período da minha vida (infância) eu queria registrar. 

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