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História de: Ivo Dias
Autor: Mariana Falcão Duarte
Publicado em: 16/10/2017

Sinopse

Ivo Dias é o morador mais antigo do bairro Luxemburgo, bairro situado na zona centro-sul da cidade de Belo Horizonte. Através do compartilhar de suas memórias Ivo traz a tona fatos que se chocam diretamente com a memória oficial divulgada sobre o bairro. Em sua tomada de palavra ele expõe as lembranças da fazenda de sua avó, lugar onde nasceu, e sua rotina ainda criança nos espaços intactos de cerrado e mata atlântica, além das experiências numa Belo Horizonte da primeira metade do século XX. É importante entender a forma com que estes espaços, que surgem através do seu depoimento oral e de suas fotografias, trazem à tona um conjunto de experiências vividas por sua família ao longo dos anos e que compõem um campo de sentidos constitutivos de sua própria identidade. O ressoar dos nomes e histórias de sua avó e de sua mãe, através da toponímia da rua onde reside atualmente e do compartilhamento de suas lembranças, rompem com a noção geral acerca do papel da mulher como agricultora e trabalhadora rural, pois enfatizam suas contribuições no processo de independência econômica do estado de Minas Gerais e desenvolvimento da nova capital no início do século XX.

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História completa

Meu nome é Ivo Dias, "grande" desse jeito. Nasci aqui mesmo, nesse pedaço mesmo. Silvéria Cândida Pinto foi minha avó. Lembro de tudo, ela era maravilhosa. Minha avó era guerreira, nossa senhora, fora de série, essa foi mesmo, ela que manteve isso aqui. Essa família era de Lapinha, Lagoa Santa. O fundo disso aí eu não tenho guardado não sabe? Eu tenho é dela pra cá. Mas sei que tem essa ligação com Vespasiano, essa área toda aí. Enquanto ela pode, ela deixou isso aqui tranquilo, sempre preservou as coisas aqui, brigou muito por causa disso. Era viúva, trabalhava demais. Ela batalhou, o que produziu aqui ajudou muito BH nessa época. Ela tinha um problema com um soldado que morava ali embaixo perto da pracinha. Ele era soldado e era doido pra pegar um pedaço de terra aqui em cima. E tinha de tudo aqui, esses micos era pra todo lado. E esse soldado vinha pra cá com um bodoque, um bodoque de arco sabe? E ele usava com uma facilidade você precisava de ver! E ele vinha pra pegar os bichinhos aqui. E tinha a hora dele vir, a minha avó cercava ele lá embaixo. Fora de série, ela brigou mesmo, brigou muito. Aqui meus tios trabalharam demais pra essa área, meus tios tinham a preocupação de aceiro, fazer a cerca toda na área, e a noite tinha a hora pra eles saírem daqui procurar como é que estavam funcionando as coisas. Nossa senhora, o que eu já fiz como criança tá doido. Pra ser macaco só precisava de pelo, porque o resto a gente fazia. Muita mangueira, subia nelas todas, qualquer tipo de árvore a gente subia. Mas eu sempre gostei de futebol, então a gente não tinha bola de couro e a gente fazia de meia. Eu gostava muito de correr, corria demais. Tinha um bambuzal aqui, então a gente chegava lá e cortava o bambu, trazia um pedaço dele. E na casa da minha avó tinha uma área muito grande, mas tinha um barranco. Hoje você vê quem faz parte das olimpíadas, aquilo com a vara. Eu fazia isso, na minha época eu fazia isso com bambu! Eu era menino, eu tinha um cavalinho. A parte de baixo era toda plantada, era coisa fora de série porque eu plantava o tomate lá maravilhoso, não tinha agrotóxico, não tinha nada disso e quando começava os tomates, nossa era penca que você precisava de ver! E você podia escolher, eu ficava "qual é que eu vou?". E a minha luta era com os passarinhos. O trinca ferro, ô meu deus do céu! Era uma coisa fora de série porque ele era mais forte, ele chegava e furava mesmo. Até há pouco tempo ainda estava tendo, o sabiá eu ainda tenho aqui, de vez em quando ele ainda aparece. Mas o trinca ferro pequenininho demais, o pessoal achou que tinha que prender. É uma coisa proibida, ele não era pra ser preso. Ele cantava demais, na madrugada amanhecendo o dia, era maravilhoso. Aí começaram a prender ele e ele não era pra ser preso. Então dele não tem mais por aqui. O sabiá ainda tem uns, eu deixo até a água ali pra ele tomar banho. Tinha rolinha! Há pouco tempo, depois que cresceu aqui, mudou tudo. Ainda teve uma “bendita” de uma dona que pôs remédio pra rolinha, matou mais de cem rolinhas.O que a gente tinha nessa época aqui... você conhece Tiú? Tinha tatu, tatu andava aqui pra todo lado. Pássaro tinha demais, sabiá até hoje ainda tem dele. O trinca ferro, tinha canário, tinha a rolinha que ainda tem até hoje. Ela está meio sumida, mas ainda tem dela, de vez em quando ela aparece. Aparecia cobra grande! Galinha, porco, tinha porco, nossa mãe do céu! Complicado. A medida que eles iam crescendo eles saiam do chiqueiro e o terreno era muito grande e andavam pra tudo quanto é lado, eles andavam até na cozinha. A gente brincava com eles, corria. Quando ia chegando o ponto decastrar pra engordar, aí ele ficava preso preparando pra engordar chegava no ponto dele nem levantar mais. Mas depois com o passar do tempo, na época de matar o porco minha mãe não ficava em casa, ela saía, ia lá pra mata e esperava fazer o serviço. E eu segurei a gamela muitas vezes pra aparar o sangue. Hoje, depois que a gente começou a avaliar a vida e, meu deus do céu, você ver o bichinho nascer, cuidar dele... e chegar o ponto disso. E era uma coisa tão fora de série, porque não era só aqui não, a área aqui quase todo mundo tinha. Na madrugada você podia saber, na hora que o bichinho começava a gritar você podia saber, estava na faca. A gente passou por isso. Tudo tem o tempo, teve essa época, hoje mudou, chegou num ponto da vida que as autoridades proibiram de se ter um chiqueiro. Na época achava que isso estava certo, mas na vida graças a deus tudo passa. Daqui a gente podia ver até a Serra da Piedade. Nesse momento agora que o sol está se pondo, você via a igrejinha branca. A igreja de Santo Antônio, a gente via ela daqui, hoje sumiu, você não vê mais. Parte aqui era mata atlântica. As árvores que tinha aqui hoje estão longe. Até que no mosteiro ainda tem dela. Jequitibá, jacarandá, sucupira, tinha essas coisas todas, peroba rosa, era esse tipo de árvore que tinha aqui. Isso aqui era como se fosse fazenda, estava fora de BH. A fazenda ia da Guaicuí à Juvenal dos Santos, da Luiz da Rocha à Fábio Cury. Aqui a gente tinha quase de tudo, meus tios plantavam alface, almeirão, couve, tomate, essas coisas todas. E tudo ia pro mercado. Meus tios no plantar ajudaram demais BH porque produziram pro mercado. Eu era criança e tinha um cavalo aqui pra levar as verduras. Eu ia com meu tio, mas gostoso mesmo era a volta, porque na volta eu voltava montado. A gente ia toda semana, eu ia com ele, maravilhoso esse período da vida. Era difícil aqui, mas graças a Deus era maravilhoso, porque com a tranquilidade dessa época mesmo com as dificuldades que tinha, era maravilhoso. Minha avó morava lá embaixo no fundão, na primeira casa lá debaixo. Enquanto era minha avó lá embaixo minha mãe construiu aqui com meu pai. Minha mãe morou primeiro aqui em cima, onde eu nasci, depois que meu pai foi embora ela foi morar lá embaixo na casa da avó. Aqui faltavam dois quartos, quando foram feitos os quartos eu era menino perto de uns oito anos, ou até menos que isso. Meu pai trabalhava no posto ali na Raja Gabaglia, lá no ministério, e numa tarde ele chegou do trabalho com uma forma grande. Me chamou e falou: isso aqui nós vamos fazer adobe. Eu fiquei encantado com a forma, sabe porquê? É uma coisa que eu sempre gostei, adoro madeira. Aqui era tudo limpo, era cerrado. Lá onde é o hospital hoje era cerrado também, e dava um capim baixinho, maravilhoso, o campo era fantástico. Então no barranco aqui ele cortou, pegou e molhou a terra. E me levou lá em cima no campo, onde ele cortou o capim e trouxe. Quando ele chegou aqui colocou no barro, na terra que estava molhada, jogou em cima e foi amassar. Amassou o barro com esse capim misturado e foi fazer os adobes. Batia, enchia a forma e aquele capim servia como se fosse hoje o arame, a ferragem. Esses dois quartos que estavam precisando foi assim. Em cinquenta (1950) mais ou menos, a corrida de italianos aqui foi absurda, porque houve essa migração né? Tinha terminado a guerra. Foi em 45, quer dizer, mas esse pessoal até 50 estava correndo ainda. E aqui, nossa senhora! O que veio de italiano pra vila aqui, italiano de todo jeito! Mas lá era maravilhoso, pessoal muito alegre, lá tinha um terreirão de todo tamanho. A gente não tinha luz aqui, não tinha estrutura nenhuma, nós íamos pra lá, a lua que iluminava. A gente fazia roda, passa de anel, essas coisas assim. A fazenda não tinha nome, a gente vivia, graças a deus. Lá embaixo chamava assim "vila Afonso Pena". Por exemplo a praça era parte da vila, pra cima não subia ninguém. Era só proprietário dessa área aqui que subia. A gente tinha porteira lá embaixo. Na vila eram famílias, tinha muita gente, moradores, igual a gente mesmo. A Colônia Afonso pena era até determinado ponto. A gente já teve porteira, tinha a porteira lá na Gentios. Aí quando chegava ali, terminava a colônia, entrava nessa área nossa aqui, que era área de plantação. A minha família foi a que mais trabalhou nesse sentido. Tinha duas fazendas, uma dos italianos e a outra era lá embaixo, onde tem um hotel agora. Mas até hoje eu fico pensando, porque dessa porteira? Porque a família que trabalhava na área lá embaixo, eles eram búlgaros, e teve essa porteira, mas eu não sei o porquê que ela foi colocada lá, também nunca preocupei com isso. Então tem essa porteira é a colônia, saiu da colônia pra cá o que era? Era como se fosse uma fazenda, uma coisa assim. Quando a gente precisava de um endereço alguma coisa assim, a gente colocava a Gentios n° 350, a rua mais antiga que tem aqui é ela, e 350 é quase esquina com Alves do Vale. É uma família que tinha lá. A referência é esse número. Mas não tinha estrutura nenhuma, não tinha asfalto, não tinha calçamento, não tinha nada. A única que tinha era a Conde de Linhares, que era a principal e é a principal até hoje. As outras eram tudo de terra. As famílias eram importantes porque quase todo mundo conhecia todo mundo. Mas tudo aqui era muito difícil, não era só pra mim não, pra eles também, porque tudo era no centro. Quando precisava das coisas tinha que ir pra lá. E aqui era pior ainda, nessa época não tinha carro igual tem hoje, condução igual tem hoje. Se precisava de medicamento você ia onde? Lá embaixo na Curitiba, quase na rodoviária pra você comprar um remédio. Não tinha condução aqui, como você ia fazer? Você tinha que pegar o bonde, ele parava na Álvares Cabral, na santa Catarina, ali que era o final dele. Mas você andava daqui até lá e depois você precisava andar dali até o centro, era metade. Era desse jeito. Mas pegava o bonde porque era maravilhoso! Então a gente saía daqui pra você comprar remédio na Araújo perto da estação, lá embaixo. O bairro de Lourdes, que é tão falado né? Na época então, ele era a nata de Belo Horizonte. Mas até o pessoal de Lourdes pra usar o bonde tinha que andar. Era lá em cima na Santa Catarina com a Avenida Álvares Cabral, lá em cima, o bonde vinha até ali. Então ele saía na Rio de Janeiro, na Praça Sete, o ponto dele era ali. Ele subia, entrava na Tamoios, pegava Amazonas, pegava Santa Catarina e vinha até ali. Mas pra gente que tinha que ir lá embaixo comprar remédio, a gente ia a pé. Quando a gente saía pra pegar o bonde era a festa pra gente né? Porque a maior parte a gente já tinha andado. Então o pessoal do Lourdes três ou quatro quarteirões tinha que andar pra pegar o bonde. Aqui era o seguinte, eles fizeram Belo Horizonte só o perímetro interno da Contorno, então nós não fazíamos parte da BH. O Lourdes era a nata, mas ela tinha que andar pra poder pegar o bonde. Depois trouxeram até a Contorno, cá embaixo. Depois resolveram trazer ela até aqui, então veio até a pracinha. Depois puseram os trólebus, e à medida que o tempo foi passando foi evoluindo. Ali perto do museu, ali tudo era mato, numa parte da Conde de Linhares ali na frente daquela pracinha, mais pro lado esquerdo, ali tinha muita taboa. Então todo lugar que tem taboa tem água. E ali fez o aterro pra poder virar o bairro. E ali pros lados do museu era um barranco, você saía lá de baixo da Contorno pra vir pra cá, era alto. Então o Sr. Ribas, ele que fez o trabalho. E ele tinha trabalho porque, tinha que ter a picareta pra cortar, e tinha que ter uma pá, duas pessoas pra trabalhar. Então o que eu perdia horas vendo, tinha as carrocinhas com os burrinhos, então encostava a carrocinha lá, o menino da pá enchia a carrocinha, batia na carrocinha e o bichinho ia até onde precisava ir pra descarregar a terra. Chegava lá tinha uma pessoa pra esperar. Descarregava a terra e batia na carrocinha. Minha avó foi embora eu estava no grupo. Minha avó, meu pai, meus tios, isso eu estava adolescente quando eles foram embora. Houve o inventário. Dos cinco só ficou minha mãe, porque os outros venderam. Minha mãe era do sangue da minha avó, o que minha avó preservou ela também preservou. Tentaram que ela vendesse, mas ela preservou a parte dela. Maria Cândida Pinto. Ela era guerreira, tinha sangue da minha avó. A gente que ficou, que ainda sofreu um pouco aqui, foi minha mãe, ela ficou mais um tempo. Ela ficou até quando construiu a nova casa. Ela não queria que construísse a casa. Ela queria que essa casa que está aqui, que ela fosse reformada. Mas meu irmão achou que não, que tinha que fazer a "casona". Depois ela foi embora, porque a minha mãe sofreu muito por causa disso, porque ela não queria essa mudança. Mas a gente não vai ficar agarrado nisso não. Aqui na parte da minha avó morava minhas tias aqui em cima, a outra só veio morar aqui quando estava no inventário. Meus dois tios, minha mãe, o Juvenal do Santos, tinha o Albert Scharlé, minha mãe o conheceu. Minha tia morava mais em São Paulo, porque a família adorou lá. Na época que São Paulo estava abrindo, meu tio mexia com abertura de estrada. Os dois tios ficaram aqui o tempo todo. E a tia também morava muito fora daqui, vivia nessas cidadezinhas do interior trabalhando. E ela só tinha uma filha. E no que resolveu isso aqui a filha dela arrumou um namorado. Mas quando eles casaram ela não quis ficar aqui, queria ir pro Rio. E é gozado o seguinte, porque minha tia não podia ir pro Rio porque ela não podia suportar o calor, ela tinha asma. Mas são coisas que a vida gosta que é fora de série. A filha não quis ficar e levou todos pra lá. Ela não suportou e foi embora, faleceu, e o pai não saía daqui, porque ele não gostava de lá. E é gozado porque ele brigou demais com minha mãe, era uma briga fora de série, porque ele era espanhol e fechou a área dele aqui. A minha mãe tinha de tudo na casa, as galinhas eram soltas pra todo lado e costumava ter umas que era fora de série, passavam pra lá. Ele armava uma ratoeira e quando as galinhas chegavam lá pra pegar comida, ela fechava, e normalmente eram a pernas né? E ele pegava as galinhas machucada e jogava perto da minha mãe, em cima dela. E ela suportou tudo isso. Mas acontece o seguinte, quando ele ficou viúvo, então ele vinha pra cá. Onde é que ele ficava? Ficava na casa da minha mãe. Chorava no pé dela. Não é fora de série isso? Reclamava da vida e tal, a vida é isso né? Mas minha mãe é maravilhosa, o coração dela!Ela era baixinha, mas ela aguentou ele. E a vida é isso, você tem que fazer o máximo possível pra você estar bem com você, bem com todo mundo. A diferença é que traz problema, porque a gente tá aqui não é a passeio né? Nós temos que acertar as contas. Mas as pessoas acham que não. Mas o tempo é que muda as coisas, porque hoje tá muito bem, passando por cima, mas amanhã, cadê o retorno? A água ainda tem, corre até hoje, ela corre na João Martins. A mina era lá embaixo no fundo. E essa área aqui de baixo era só mato, árvore grandona mesmo, e lá, você precisava ver, maravilhoso o lugar, era um poço muito grande e bonito. Essa mina era maravilhosa, ainda é até hoje. Mas no loteamento, na abertura das ruas, ela subiu, lá era baixo e no subir prensou ela lá embaixo. Mas ela saiu cá em cima. Segurar a água é muito difícil, então ela saiu em cima no terreno, mas ela corre direto e reto lá na rua.A natureza é maravilhosa, não tenho dúvida. A pessoa não para pra pensar na grandeza da natureza, nessa benção maravilhosa. Você tem que ter sensibilidade para preservar isso porque ela brota aqui vários lugares, aqui tinha mina, lá em cima tinha mina, lá embaixo tinha mina. Essa parte aqui embaixo da área tinha água pra todo lado. Tinha a canaleta de água, eles falam rego. Eu deitava assim na beirada quando tinha a mina, você ia vendo a água rolar e eu perdia tempos, horas, deitado lá vendo. E quanto mais você olha mais vontade tem de olhar. Está só saindo água, e como é isso? A água chama atenção da gente né? Um problema muito sério, acho que não falei isso. A gente não tinha água aqui em cima sabe? A água era lá embaixo. Uma mina que tinha lá em cima, onde nós estivemos, ela corria e vinha até aqui embaixo na minha avó. Ela corria lá na minha avó direto e reto, dia e noite a água corria. Para minha mãe lavar roupa, essas coisas, ela tinha que ir lá pra baixo pra lavar. É a dificuldade, a dificuldade era grande desse jeito. Eu tinha dois anos mais ou menos, então eu ia com ela. Mas e pra subir? Ela tinha uma bacia grandona assim, com a roupa já pra secar, e secava aqui em cima. Daqui pra você chegar lá embaixo, você não podia descer direto, a casa está ali, você saía dela, descia um pouco, depois fazia um zig zag pra você chegar lá embaixo. Quando minha mãe estava subindo com a bacia, eu ia agarrado na barra da saia dela. Eu agarrado ali e às vezes eu estava querendo alguma coisa e chorando no pé da minha mãe. São quadros, quando a gente está conversando assim é como se eu estivesse subindo com ela lá! Ela era maravilhosa minha mãe! Ter gravado e registrado esses quadros, é bom, porque ela está “viva” graças a Deus.Isso é bom para mim sabe? Porque enquanto eu estou relembrando uns quadros desses, foram quadros de dificuldade, mas foram maravilhosos. A gente tinha tudo né? Não tinha o que tem hoje, tudo era dificuldade, mas você tinha liberdade, você podia ir e vir. O córrego do leitão, quantos e quantos anos ele ficou aberto! Aconteceu uma coisa, porque ele corria livre, ele lá e o daqui também, o daqui vai lá embaixo e encontra. Lá no São Bento tinha uma baita de uma fazenda, e lá tinha um córrego, lá em cima, maravilhoso. Eu saía daqui fim de semana, domingo, e ia pra lá pescar. Tinha um açude que o pessoal ia pra lá tomar banho, ele corria livre. Uma época cá embaixo perto da pracinha, na avenida Prudente de Morais, era aberto ali, e vieram construir barraco ali na beirada. E era gozado o seguinte, o córrego assim, tinha um espaço aqui em cima e eles plantaram as barracas deles ali, vivia ali desse jeito, olha pra você ver. E nessa época essa parte debaixo aqui já era uma sujeira só. E quando eles fecharam o córrego, que ele foi canalizado, aí é que virou isso que tá hoje aqui. No que canalizou e asfaltou, pronto! A correria pra comprar aqui foi absurda! Os moradores ficaram com medo. Estavam acostumados, tranquilo e sereno, mais aí começou a pressão, porque a coisa foi crescendo. Eu não tenho a cabeça pensante. A gente só viu quando eles já estavam reunidos pra fazer e fizeram. Fizeram o planejamento, fizeram a planta. Muita coisa a gente não gravou porque não fazia parte da preocupação nossa, no meu caso né? Quando assustou a máquina estava aí cortando e abrindo. Tinha uma coisa fora de série, eu descobri um jequitibá na divisa nossa aqui. Era uma árvore maravilhosa e identifiquei com ele, então a gente conviveu junto muitos anos. Mas ele estava um bichão, você precisava ver, maravilhoso, lá embaixo! Então o que eles fizeram pra construir dois prédios de apartamento? Cortou aqui, cortou ali e deixou ele no meio. Fechou, cortou os galhos dele. Quer dizer, é uma árvore que cresce demais, é uma árvore centenária. E foi passando, passando o tempo. Mas não podia crescer. Quando pensa que não, ouvimos o barulho... ele tombou, atravessou a rua. Eu não fui capaz de vir aqui para ver. Uma árvore que tem condição de viver 500 anos ou mais do que isso... uma árvore bonita maravilhosa dessa ter que lutar com cimento, concreto, ferro...Ele caiu porque não tinha estrutura. Mataram ele. Quando aconteceu isso ele tinha mais de cem anos entendeu? São coisas que você, puxa vida, podia ter ficado né? Era uma coisa maravilhosa! Eu já vi uma reportagem de jequitibá de mais de 500 anos. Quando o lote da casa da minha mãe e do meu pai foi vendido, pra eu sair de lá eu tinha que ter um lugar pra ir. Minha mãe queria que fosse reformada a casa da avó, lá embaixo. Se não me engano deve ter entre as fotos uma da casa antiga. Ela era descorada porque já tinha muito tempo sem pintura. Uma das fotos deve trazer isso. Eu tinha esse lote aqui em cima, então me deram esse prazo, um ano. Eu tive um ano pra poder construir minhacasa. Aqui foi com meu trabalho. A construção da casa até colocar ela no ponto de laje foi eu e um pedreiro. Em um mês a gente fez isso. Construiu as paredes tudo direitinho, ele pedreiro e eu servente. Depois disso, nossa senhora, tudo que está feito aí foi eu que fiz. O reboco, a pintura, tudo aqui eu que faço. Isso aqui, o muro, três metros de altura e vinte dois de profundidade. Quando eu fazia eu pegava areia, a brita, cimento, virava, fazia tudo e subia no andaime e meus filhos levavam o material pra mim. No dia que eu terminei, que eu pus a última colher de cimento, choveu. Ah, foi como se tivesse me abençoando o serviço! A natureza esteve comigo nesse momento “ele fechou o que precisava de fazer”. A luta foi grande, então “ele” está merecendo alguma coisa! Quando você fala de lembrar das coisas passadas, é porque tem muita coisa para eu lembrar do que eu fiz na minha caminhada. Eu não fiz curso, fiz alguma coisa de pedreiro, mas eu não sou profissional. Vendo os outros trabalharem eu passei a trabalhar também. Quando eu fui rebocar o teto, eu nunca tinha feito isso na vida. Você trabalhar com o teto, quem está acostumado é uma coisa, mas você fazer de primeira, você vai batendo quando chega aqui, caiu um pedaço lá atrás e você tem que começar tudo de novo. Quando chegava de noite e eu deitava, eu estava vendo só laje na minha frente. Depois era época de passar a massa, tudo isso a gente foi fazendo, pintura, e eu pinto até hoje. Não fiz só pra mim, mas já fiz pros outros também, ganhei dinheiro assim, me chamavam pra fazer e eu fazia. O que eu aprendi, todo lugar que eu passei e que eu trabalhei, eu gravei alguma coisa. Se não me servia na época me serve hoje, de vez em quando tem que fazer alguma coisa e eu paro aqui e busco lá fundo e aparece. Primeiro a gente tem que estar lutando e sempre aprendendo alguma coisa, sempre, sempre! O que você aprende hoje, se não está servindo agora, vai te servir amanhã. E outra coisa importante é você ocupar seu tempo. Da melhor maneira possível, não jogar seu tempo fora, entendeu?Se tiver alguma coisa que eu não fiz antes, para um pouquinho pra pensar que daqui um bucadinho você acha a maneira de fazer, entendeu como é? A vida da gente é essa. O conhecer não ocupa espaço. Quanto mais você aprende mais tem condição de aprender. É só você querer. Quando você fala uma coisa assim, “ah eu não consigo isso”. Isso é um absurdo falar, você tem que estar sempre querendo o que é de bom e positivo. Quando saiu o inventário essas coisas todas, houve a divisão, cada um ficou com sua parte. Então meus tios ficaram com uma parte daqui, do outro lado minha tia, e a minha outra tia ficou lá do outro lado. E aqui no meio ficou a minha mãe, entendeu? Ele tentou muito com minha mãe pra vender essa parte aqui, e ela não quis. Ela segurou. Nesse período de abertura das ruas, os maquinários que tiveram aqui, minha mãe sofreu muito com isso. Mas ela suportou a carga, porque ainda viveu muito tempo aproveitando aqui a mudança. Ela faz parte disso, era a proprietária né, e os proprietários que fizeram isso. Aí já estava encaminhado, não teve jeito. A única coisa que ela fez que contrariou os outros proprietários foi a venda, ela não quis vender. Os que venderam, venderam, mas ela falou “eu não vou vender”. Mas meus tios venderam, cada um uma parte. Pra ela foi muito difícil, ela sentiu demais. Ela preservou, fez a parte dela. Mas ela não esperava a mudança da maneira que aconteceu. Uma máquina trabalhar o dia inteiro, noite e dia, cortando pra cima e pra baixo num lugar igual a esse aqui, só máquina pesada. A minha mãe sofreu muito por conta disso. Tudo que foi feito aqui, cada poste, cada meio fio, cada asfalto, a rede de água de esgoto, tudo foi pelos proprietários, cada um deu a parte deles pra poder fazer, construir o bairro. Cada parte pegou um lote pra poder ter condição de pagar o serviço que precisava fazer. Não teve nada de prefeitura. Quando teve pronto o bairro pra receber os compradores, toda a estrutura do bairro estava pronta. Ai quando começou o loteamento já estava tudo pronto. Eu tenho família que mora em São Joaquim, minha cunhada. O filho dela tem fazenda, nossa mãe! Quando eu cheguei na fazenda, ah meu pai, eu estava em casa! Tudo que eu tive oportunidade de ter aqui, estava lá! Podia subir a ladeira, as árvores, tudo isso! Mas isso é uma coisa que é o tempo. O tempo é tudo na vida da gente. E você tem que saber caminhar no tempo. Você não pode ficar agarrado porquê..."ah eu já tive isso, já tive aquilo", mas graças a Deus eu pude aproveitar o máximo que foi possível. Fico feliz por isso, porque o que eu tive, as dificuldades todas que eu tive, eu precisava delas. Conseguimos vencer né? Mudou, a gente mudou também dentro dessa mudança, não é assim? Então você tem que avaliar essas coisas todas. Eu não posso ficar agarrado no tempo, porque se ele caminha, eu tenho que caminhar com ele também. O apego é a pior coisa que tem. Eu saía daqui pra buscar remédio igual eu falei pra você, lá na praça da estação. Hoje eu tenho a farmácia aqui embaixo. Ela veio pro meu lado "agora eu vou pro lado de você, na época você podia caminhar, agora caminha menos e nós vamos pro lado de você" (risos)! Tem coisas que a gente sente, como você está falando. Eu não posso ficar agarrado nas coisas, mas tem coisa que mexe com a gente. A gente marcou isso, gozado que não esperava chegar no ponto que está hoje, mas a gente marcou essa oportunidade. Ver hoje o que é hoje e ver uma coisa dessa aqui [aponta para a foto], a mudança. Então quem é que ia esperar que chegasse nesse ponto. É maravilhoso de poder ter gravado isso. Hoje o celular grava tudo né? A pessoa tá com o celular e grava até ela mesmo, não é assim? É um pedacinho [aponta para a foto]de tudo que aconteceu aqui, tudo! Quer dizer, quando eu vejo aqui [olha para o quintal], depois eu vejo aqui [olha para as fotos]. É a mesma coisa. Por exemplo, esse pedacinho [olha para o quintal] é a mesma coisa que a gente preservou antes, sentia bem nessa época e procura sentir bem aqui também. Você tem que ter esse contato com a terra em todo momento, nós precisamos dela demais. A pessoa que vem aqui quando é a primeira vez que vem fala "não é possível, um pedaço desse com tanta coisa!". Mas a gente nasceu numa área assim. Eu pisei nessa terra aqui ó desde que eu nasci, meus filhos andavam por isso aqui também. Tinha um lugar que eu tinha medo de ir porque era fechado, tinha a mata, mas eu podia subir em qualquer árvore que eu quisesse subir. Isso aqui ó, subir num coqueiro desse aqui [aponta para foto], eu subia! Já veio jovem aqui, a pitangueira estava com pitanga, e a pessoa perguntou "o que é isso aqui?". A pessoa que vem aqui em casa, às vezes a primeira vez que vem, é só entrar aqui e fala "nossa mãe", é a primeira coisa que a pessoa fala. É diferente, mas porquê? Porque tem o verde. Nós fazemos a casa viver, você sabe disso né? Ela vive por nossa causa. Quanto mais você preservar melhor, não é assim? No meu caso ainda tem registrado aqui o que é que aconteceu, e pra ter a casa do jeito que tem hoje foi uma luta muito grande, foi uma coisa que teve que lutar muito pra chegar nesse ponto. Lutou pra ficar preservado aqui. Porque quem tem condição tudo bem, mas se não tiver. No caso aqui eu fui conseguir mexer com casa, eu tinha sete filhos. É muita luta, luta mesmo. A gente fica feliz porque a gente teve condição de superar, de vencer, a luta foi grande, mas a gente teve sempre o desejo de conseguir. Com a benção de Deus, porque maior é ele né? A gente tem essa benção de, por exemplo, estar aqui na terra, você tem que valorizar o máximo possível essa estada aqui. Porque nós não estamos aqui de graça né? Temos que aproveitar ao máximo essa oportunidade de estar aqui, temos que estar sempre trabalhando, não pode jogar o tempo da gente fora. Você tem que estar sempre fazendo o máximo possível de tudo que for de bom e de positivo, não só preocupar com você, tem que preocupar com os outros também. E lutar sempre pelo melhor. Nosso tempo aqui é acerto de contas. Na nossa vida é assim, uma passagem só. A gente tem alegria de ver as coisas acontecendo e a gente tá aí, lutando pela preservação. Porque eu, principalmente, meu desejo enquanto eu puder, é aqui. A hora que chegar também de sair, é para o outro lado lá em cima.

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