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História

Finquei o pé no São Paulo

História de: Antenor dos Reis
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 29/10/2013

Sinopse

Antenor dos Reis cedeu seu depoimento em 1993 para o projeto do Memorial do São Paulo Futebol Clube. Nele Antenor conta sobre a infância passada no interior, as constantes mudanças de cidade em cidade até vir tentar a vida em São Paulo. A chegada na capital justamente na época da convocação para a Segunda Guerra Mundial, como conseguiu escapar de ir para a guerra na Europa e a procura por um emprego fixo, o que conseguiu no tricolor paulista, onde fincou o pé. Conta ainda sobre o namoro e o casamento e fatos sobre a história do clube, como a da "moeda que caiu em pé", evento do qual guarda o distintivo que ganhou até hoje.

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História completa

P - Senhor Antenor, por favor, o senhor diz seu nome e o lugar onde o senhor nasceu e a data.

 

R - Veja bem, aqui pra gente tem uma pessoa, que hoje é uma pessoa, hoje com pouca projeção social, isso não vem a importar. Esse moço nasceu em 1918, dezoito de julho de 1918, na cidade de Pirajuí, estado de São Paulo. Vivi na terra natal até a idade de doze anos, onze anos... Eu estou confundindo com outra data, de doze anos de idade, antes, porém, eu queria deixar claro que eu recebi no batismo esse nome porque a minha madrinha que se chamava, já falecida, se chamava Sebastiana Nogueira, era minha tia e pela amizade que tinha com os meus pais, convidaram-na para o batismo, e ela preferiu esse nome e eu também aceitei, estou aqui até hoje carregando ele.

 

P - O nome dos seus pais...

 

R - Os meus pais chamavam Antônio Gabriel dos Reis, chamavam porque já faleceram, e minha mãe Elisa Gonçalves dos Reis.

 

P - O senhor se lembra dos seus avós?

 

R - Claro, porque nessa época era eu o único, porque eu sou... Eu era o primeiro filho.

 

P - Quantos irmãos?

 

R – Nós... O casal teve... Meus pais tiveram: Antenor, Argemiro, Maria, Décio... Então éramos cinco, seria o caso de ser hoje, cinco, é... E uma que mais tarde apareceu, de criação, substituindo uma irmã que morreu com a idade de um ano, chamava-se Madalena, ainda me lembro disso. Isso, já, eu vou contar essa historia eu vou passar por lá, então prosseguindo, eu estive na terra natal, cidade de Pirajuí, é, até a idade de dois anos, quando nos transferimos para Ribeirão Preto. Transferimos para Ribeirão Preto, ali nós tivemos... Meu pai com diversos serviços, porque ele era trabalhador, era braçal, compreende? E eu crescendo e estudando naqueles grupos que tem por ali, atingimos até o ano de 1929, fim do ano de 1929, quando eles sentiram vontade de voltar pra Pirajuí.   

 

P - Qual foi a atividade dele em Ribeirão?

 

R - Em Ribeirão Preto ele trabalhava em fazenda. Trabalhava, fez muito, quase como uma profissão, distribuidor de leite, diferente desses que tem hoje, vai com o caminhãozinho, né? Bonitinho, não aquele era com tração animal, ele ia pras fazendas, comprava o leite, vinha pra cidade e distribuía tinha a sua clientela, já tudo pronto. Isso ele fez durante muitos anos, foi então quando ele sentiu vontade de voltar para Pirajuí.

 

P - Antes de voltar, como é que foi a sua vida, senhor Antenor, em Ribeirão Preto?

 

R – Foi. Foi uma vida de criança e estudante, estudante de primeiro ano.

 

P - Como era o bairro quando o senhor morava?

 

R - Olha, eu morei em diversos bairros, Pirajuí, em Ribeirão Preto. Eu morei no bairro chamado Bairro da República, que era Rua Caramuru, morei alguns anos ali junto nas propriedades dos meus avôs, parte da minha mãe, se... Dali nós mudamos pra Vila Tibério, que era outro bairro, depois dali nós voltamos, fomos pra outro bairro que se chamava Sete de Setembro, se chama Sete de Setembro, até que então veio essa idéia de voltar novamente, e eu...

 

P - E o senhor...

 

R - Estudando...

 

P - O senhor fazia o quê?

 

R - Era estudante...

 

P - Brincava na rua? Estudava?

 

R - Ah, brincadeira era de rua porque não tinha outra coisa. Era brincadeirinha de rua e tal porque meus pais eram muito severos, principalmente a minha mãe, não deixava sair assim com toda essa liberdade que tem hoje não, a gente saia assim, mas debaixo do controle das suas vista, não tinha disso não de ficar muito longe não, o máximo seria cem metros... É, um quarteirão. E tinha mais: você ficava brincando por ali e tal, quando juntavam muitos, então ela tirava, que era pra diminuir a cota que estava na rua, e daí, assim, uma brincadeira até. E isso dá até saudade, viu? Uma brincadeira de criança, brincadeiras humildes iam até nove horas, nove e meia da noite, nove e meia no máximo. Quando ela dizia: "Fulano, tá na hora, dormir". Dormia mesmo, todos eles iam deitar.

 

P - Qual era a brincadeira que o senhor mais gostava?

 

R - Não, eu não tive preferência por brincadeira porque eu ficava vendo os outros brincar e eu mesmo não, não participei porque é... Eu acho o seguinte, isso é uma verdade, o primeiro filho é o que é mais castigado, naquele tempo, hoje não sei, naquele tempo, então eu que tomava conta deles onde eu estava com eles, e a hora que ela chamava: "Fulano, tá na hora de dormir". Então eu sabia que estavam todos ali e eu falava assim: "Vamos embora, vamos embora, vamos embora". Né? Em casa, dentro de casa, eu sendo o mais velho da casa, o primeiro, então como eu disse, era o mais castigado então eu é que ia fazer isso, fazer aquilo, e fazer aquilo outro, que seria ajudar ela na cozinha, acabava de almoçar, de jantar, lavar prato, e quando chegava de tarde, "está na hora de dar banho nos meninos", dizia isso. Eu é que ia fazer aquele serviço, então eu fui criado dentro daquele regime, não é? Eu vigiava os outros e isso caçava a minha liberdade, então eu ficava mais era apreciando, não tinha um, não tinha ali uma preferência por uma brincadeira nem nada, não, aqueles brinquedos que chamava de pique, aquilo às vezes a gente participava, brincava, mas tudo na visão dos pais, eles ficavam sentados na porta, ali na sa... No passeio, cada um puxava a cadeira e eles ficavam sentados ali, naquele tempo, porque hoje não se pode sentar em lugar nenhum, nem dentro do carro, eles matam a gente. E assim foi indo, até que então eles sentiram vontade outra vez de voltar a Pirajuí, isso foi fim de 1929, eu ainda era estudante do grupo escolar, estava embarcando na estação de Ribeirão Preto, na parte da manhã, que de lá a gente vinha até Bauru, de Bauru depois fazia baldeação pra pegar... E antes também tinha outra baldeação que eu não me lembro agora, é... Estava na estação, meus pais, as malas, tudo assim, e ainda falei pra mãe, eu me recordo disso perfeitamente: "Olha a professora aí". "Que professora menino?”. “A professora lá da escola”. E ela ouviu quando eu falei isso ela veio: "Você vai embora?". "É professora, o pai quer ir, né? Eu tenho que ir com eles". Ela disse: "É, você precisa ir, o seu pai disse que quer ir você tem que ir". Ela se chamava Edith Manso, depois eu vou ver onde eu encontrei essa mulher mais tarde, chamava-se Edith Manso, bem, embarcamos embora então pra... Quando chegamos ao Pirajuí de retorno, meu pai achou que a gente não devia ficar lá, então nessa ocasião estavam derrubando a mata, abrindo a cidade. E era a cidade de Garça, que se chamava Incas, meu pai naquele entusiasmo, “ali seria bom pra ganhar dinheiro”, foi pra lá e ali ele se empregou numa serraria. Parece-me ter essa lembrança que essa serraria era da família Adhemar de Barros, muito bem organizada, tinha colônia e tudo pros empregados morarem, e ali ele se empregou e eu ia fazer o quê? Não tinha o quê fazer, ficava dentro de casa ali com o pessoal, quando de repente uma dessas minhas irmãs, que se chamava Madalena, veio a falecer, um ano e pouco, veio a falecer, veja bem como era lá aquilo nessa época. É... Devia ser lá dentro do ano de 1930, 31. Para sepultar, levava assim, numa carroça, entrava mata adentro numa estradazinha assim, estreita, iam todos armados de espingarda porque as bichas, as bichas que eu digo aqui é onça, os felinos atacavam e muitas vezes precisava dar tiro à toa pra poder espantar até levar lá no cemitério. O cemitério era uma ruazinha que nada mais seria do que encontrava, eu me lembro disso agora, tinha lá uns cavalos pastando lá dentro, e lá ficou sepultada. Meu pai ficou ainda algum tempo trabalhando ali, depois ele saiu dessa serraria e passou pra uma menor, que seria mais no centro de Garça, aí não chamava mais Incas, aí já tinha trocado o nome, Garça, e se... Lá trabalhando ele achou por bem dizer assim: "Olha você vai arranjar um emprego aí pra você, vai fazer qualquer coisa". "Mas também pai aonde é que eu vou empregar?”. "Eu vou te arranjar emprego". E me arranjou um emprego pra lavar vidro numa farmácia.

 

P - Quantos anos o senhor tinha?

 

R - Isso eu teria eu mais ou menos onze anos, para lavar vidro numa farmácia. Veja bem, naquele tempo os farmacêuticos aviavam a receita do médico e precisava ter os vidros em ordem, tudo limpinho, então praticava aquele serviço, lavava muito bem e deixava de bruços, assim, que era pra secar o vidro também. Trabalhei aí uns seis meses tranquilo, tanto é que algum, alguma... Usava muito a limonada purgativa, eu já sabia fazer, eu mesmo fazia.

 

P - Como é que era essa limonada...

 

R - Já fechava os vidrinhos todos direitinho, já amarrava tudo que era pra entregar para o cliente.

 

P - O senhor se lembra de que é que era feita essa limonada?

 

R - A limonada eu não lembro mais, eu só lembro que quando a gente tomava ela era azedinha, ele já tinha me ensinado: “pega aquele vidro, pega esse, pega aquele e faz assim e faz limonada”. Fazia e dava certo, mas um dia, surpresa minha, meu pai chegou com dois soldados, me chamou na farmácia disse: "Que é que você fez?". "Fiz nada, eu nem saí aqui da farmácia ainda hoje". "Eles vieram te buscar preso". "Ah pai que é isso, não é nada disso não". Aí um soldado disse assim: "Não, realmente você precisa nos acompanhar". "Vamos lá, vamos, vamos lá, não é nada não é uma coisinha a toa, não é nada não". E quando eu cheguei à entrada da delegacia o delegado deu uma risada, os dois soldados que me levaram disseram assim: "Antenor dos Reis que nós encontramos foi esse". "Não, não... Ô garoto, não tem nada com você, eles estão brincando aí, é que eles aprenderam teu nome e tão brincando com você", mas eu vi quando ele disse pro meu pai: “Esse Antenor é um homem de cor e é um assassino que mora em São Paulo, fugiu pra cá”. Bom dali eu fui dispensado, não tive mais nada, acabou tudo aquilo, e ficamos morando mais um tempinho ali. Essa farmácia tinha o seu nome, Farmácia Mineira, farmacêutico Joaquim Marcelo de Almeida, com toda certeza já faleceu. Então ficamos ali mais uma temporada e ele resolveu mudar de lá outra vez, mudar pra onde? Mudar, mudar para Marília que então era alto cafezal. Alto cafezal foi em Marília, ali trabalhamos pouco tempo, não deu certo, não sei, não gostou, não sei qual é a opinião dele, pegou os filhos outra vez e voltou pra Ribeirão Preto.

 

P - Por que é que o senhor acha que ele mudava tanto de cidade?

 

R - Eu acho o seguinte, seria a minha opinião hoje, seria uma falta de profissão definida e a falta de certo trabalho também, talvez fosse isso. Ele procurava andar para ver se conseguia coisa melhor.

 

P - O senhor acha que foi bom pro senhor que ele tenha mudado tanto de cidade?

 

R - Não, não me disse nada a mim não. Porque a única coisa que não tomou uma linha certa foi preparar, né? Preparar os filhos o... Muda pra lá, muda pra lá, muda pra cá, muda pra lá, os filhos não se preparam fica só apreciando isso, ouvindo isso.

 

P - Prejudicou o seu estudo talvez?

 

R – Prejudicou. É, no começo prejudicou, então voltamos pra Ribeirão Preto, arranjou lá uma casa lá num bairro lá disse: “Eu vou negociar com leite outra vez”. Foi lá pra uma fazenda, conversou lá com o fazendeiro, esse fazendeiro chamava-se Pedro, intitulado Pedrinho, com certeza já morreu também, disse: “Não, vamos” - meu pai era conhecido por Tonico - "Tonico você vai lá, toma conta do gado lá, extrai o leite lá, faz o que você acha que deve fazer, depois você presta conta". Aí ele ficou uma temporada ali, acho que foi mais ou menos uns dois anos, depois achou que não tava dando certo. “E agora?”. Ele veio pra cidade, pro centro, fomos morar em frente ao Asilo Padre Euclides, que daqui a um pouquinho eu vou falar sobre ele, Padre Euclides. Moramos ali e ele arranjou outra fazenda, com a mesma profissão, no mesmo meio e lá houve uma grande amizade com o fazendeiro e tal, levou a família pra lá, morava perto na própria fazenda, disse: "Antenor você vai fazer o seguinte vai trabalhar aí com o pessoal", sabe lá o que é isso. Eu saía de manhã pegava uma moringa que não era moringa, era cabaça grande, enchia de água, punha dentro dum saco, enrolava no cabo da enxada aqui e punha nas costas, seis horas eu já estava andando na estrada, junto com a turma, trabalhei muito tempo. Naquela ocasião, essa foi uma média, mais ou menos em 1932, eu ganhava 60 mil réis por mês a seco, a seco quer dizer quando não tinha comida. Sessenta mil réis por mês, eu via o dinheiro? Não, não via. Porque ele acertava com o negócio dele de leite, essas coisas foram enrolando. Trabalhei nessa fazenda, e ele também, uns três anos, aí o fazendeiro disse: "Ó, esse negócio de leite eu vou acabar com isso, vou acabar com isso". Eu disse: “E agora?”. Eu vim na frente pra ver se arrumava um emprego.

 

P - Pra onde?

 

R - Fui trabalhar no asilo Padre Euclides lá em Ribeirão Preto, eu com aquela idade de quinze anos, eu me empreguei lá como carroceiro, precisou tirar uma carta especial no trânsito pra eu poder trabalhar, e desempenhei a função. Mais dois anos trabalhei ali, muito bom, trabalhar entre os idosos é uma beleza, gostei e tudo.

 

P - Gostou, por quê?

 

R - Gostei, trabalhava com eles, até banho neles eu dava. Tinha dois mudos lá que eu conversava com eles como a gente está conversando, tá vendo como é a prática da vida? Que beleza. Aí nessa altura meu pai, o que é que eu vou fazer? Mudou dali, eu fiquei ali e ele mudou pra uma outra chácara. Esta chácara era proprietário o Aché Travassos & CIA, que são os laboratórios, eles extraiam do sangue de animais como o cavalo, a égua, a cabra, enfim, extraía sangue, trinta e duas espécies de ampolas para servir mulheres, para homem não servia, e eu trabalhei ali, gostei de trabalhar de ter trabalhado tanto tempo.

 

P - Como que era? Um remédio?

 

R - Era um remédio, eram injeções não sei explicar pra que a finalidade porque era um caso em que o próprio dono do laboratório tinha descoberto, tinha inventado, sei lá como é que era. Era o Doutor Philipe Aché, francês, por isso se chamava o outro sócio Travassos, Aché Travassos & CIA. Trabalhei muito tempo, encaixotava, mandava pra Europa, mandava pros Estados Unidos. Depois um dia meu pai se desentendeu com a gerência e eu falei: "Pronto, lá vai outra vez". Aí, eu também quis sair, eu falei: "Não vou ficar aqui, meu pai foi embora eu também vou, vou junto com ele". Mudamos pra esse bairro, Vila Tibério, o que é que eu vou fazer, imagina? Dezesseis pra dezessete anos, vou ser guarda noturno. Naquela época os guardas noturnos andavam todos fantasiados, com uniforme, tudo direitinho, aqui em São Paulo era um uniforme azul, não sei se vocês se lembram disso, e lá não, era o caqui, né? Trabalhei lá dois anos, e ele quis experimentar trabalhar também, enfrentar a turma na rua. Trabalhou uns dois meses só, não quis mais. Ajeitou-se com a prefeitura, passou a ser empregado da prefeitura, tudo bem, se acomodou aí tá bom, mas eu disse: “Puxa vida, vou continuar nisso aqui? Guarda noturno eternamente não, não pode ser, não pode ser não”. Um dia cheguei em casa e falei pra eles: “Ó pai eu vou... O senhor vai assinar um documento aí me autorizando e eu vou embora pro exército”. Naquele tempo aceitavam voluntários. "Ainda você não está na idade". “Não faz mal, vou voluntário”. É que, realmente, eu sai, então eu já estava começando a pensar sozinho, né? E ele assinou, deu uma autorização. Assinou, eu levei no cartório e deixei-os, vim embora para São Paulo. Cheguei aqui em São Paulo dia quinze de setembro de 1937, desci na estação da Luz.

 

P - Sozinho?

 

R - Eu?

 

P – Sozinho o senhor estava?

 

R - Sozinho.

 

P - Que idade o senhor tinha?

 

R - Não tinha ainda dezoito anos, precisou autorização, devia estar aproximando os dezoito anos.

 

P - Aí o senhor deixou o seu pai, né?

 

R - Deixei-o no interior.

 

P - Mas eles não ti... O senhor seu pai não tinha projetos de vida pro senhor? Não queria que o filho fosse isso ou aquilo...

 

R - Não tinha, não tinha nada quando ele se empregou na prefeitura ele acalmou... Não tinha, não tinha nada. Esse, então eu vim embora para o exército. Cheguei aqui, fui me apresentar, fui pra um hotel ali, tinha uma noite num hotel ali, uma coisa assim tanto é que a... Ali hoje é a Casper Líbero, naquele tempo era Avenida Conceição. Fui lá pro terceiro do Quarto ERI, lá na várzea do Carmo, aquele quartel ali, eu estive ali com a roupa, chegou depois até a desmanchar que não dava nem folga, não incorporava nem nada, ficava naquilo. Uns dois meses eu estive ali, de repente eles me mandaram para o 4º BC, que é ali na Alfredo Pujol, hoje não é mais ali também, ali agora é CPOR, me mandaram pra lá. Bem, lá com oito dias já me incorporaram, me deram uniforme, já tirei aquela roupa, enrolei tudo, guardei lá, “não sei o que vai acontecer” (risos). Bem, aí eu tive treze meses, treze meses, quando dei baixa, isso foi, foi em fevereiro de 39. Mil novecentos e trinta e nove, fevereiro, dei baixa, é... Fui trabalhar numa indústria, essa dos ingleses, Fábrica de Nacional de Parafusos Santa Rosa, aonde foi anotada a carteira de saúde, destinava lá, fui trabalhar lá, eu me empreguei lá. Lá eu trabalhei quatro anos. Nesse ínterim, em primeiro de setembro de 1939 arrebenta a guerra lá na Europa, um mês depois me convocaram, eu falei: “Pronto, lá vai o Antenor de embrulho, acabou”. Quando eu cheguei à sala, que é mais ou menos isso aqui, para apresentação, tanto que o meu certificado tem, ele tem carimbo. Cheguei lá e encontrei um oficial conhecido meu: "Ah, que é que você tá fazendo aqui?”. “Me chamaram, me convocaram". “E você quer ir?". "Eu não sinto com vontade de ir não". Porque eu fui um tipo de ordenança dele, compreende? Inclusive pra viver bem eu ia encerar a casa dele, e não tinha enceradeira não, ele disse: "Ah, então eu vou te dispensar". Marquei o carimbo: "Pode ir embora", tranquilo, fui embora. Continuei no meu trabalho, trabalhando, dois meses depois, outra vez, outra convocação, vou lá, está ele lá outra vez: "Ô capitão como é que pode ser isso hein? Estão querendo me levar!". Ele disse: "Mas não vão te levar". Colocou o carimbo: "Pode ir embora, eu duvido que eles vão te chamar outra vez", e de fato, nunca mais me encheram. E eu trabalhando lá e morando na Rua Abolição, na Rua Abolição na casa de um parente, e muito descontente com isso, porque na casa de um parente é... Eu tenho que arranjar um meio de sair daqui, eu não posso continuar aqui. Aí arranjei na Rua São Lázaro numa pensão, sabe onde é a Rua São Lázaro? É uma travessa da Rua São Caetano, essa mineira que veio comigo aí nos passamos lá, ainda olhei a casa lá...

 

P - Ainda existe a casa?

 

R - Existe... Não. Eles fizeram um prédio agora. E estou ali tranquilo, sossegado e chegou o meu irmão lá com outro parente disse: "Antenor, o pai tá aí?". Quis vir embora. Eu disse: "E agora, como tá aí, vocês nem avisam nem nada, juntou a mala e veio embora". “Aonde eu vou morar?”. Aquela história, aonde eu vou morar, mas eu saí através de informação, essas coisas, e vim morar aqui na Rua Três Rios, eu estive vendo aqui um número aqui na frente, mas não corresponde ao que eu pensava, seria Rua Três Rios 316, em frente à farmácia Três Rios que tem ali, não sei se ainda existe essa farmácia aí, logo de frente ali, esse número, essa casa fica entre a Rua da Graça e a Rua Amazona, ali... Ali moramos como, era uma casa dividida em cômodos. Cômodos deste tamanho assim, ai: "Vocês vão ficar aí até arranjar outra coisa, o que é que vai fazer. Vocês vieram tudo de uma vez, eu não tenho recursos agora", eu disse: "Vou morar aqui com vocês também, que vou dispensar minha pensão que eu tenho que pagar também, vou morar com vocês aqui". E de fato moramos ali, foi quando eu comecei a estudar eu falei: "Vocês vão cuidar das suas vossas vidas, vão arranjar empregos conforme vocês querem, eu vou, eu também vou me ajeitar". E lá estavam eles, ele se ajeitou, começou na prefeitura, deu sorte vamos dizer assim, trabalhou na Secretaria de Higiene da prefeitura, fazia aquele, a limpeza na tração animal na rua. Nas ruas, que hoje isso não existe isso mais, e ele foi trabalhar com aquilo, ele se dava bem com aquilo, tudo bem, “está trabalhando tudo bem”, se... Os meus irmãos também, cada um se arranjou, um emprego pequeno e tal, está tudo bom, e eu que... Eu não tinha um meio para melhor coisa, tem que fazer uma preparação. Então eu fui estudar na escola da Força Pública Cruz Azul, que era ali na Avenida Tiradentes eu falei: "Pô, vou estudar aí”. Eu fui lá saber: “Não, não paga nada".

 

P - Que curso o senhor foi fazer?

 

R - Ali eu fiz um curso preparatório para o curso propedêutico que era o curso ao comércio. E a datilografia também eu fiz ali. Bom, feito isso, encerrou o ano eu falei: “Agora eu vou pra escola”. Fui pra Escola Técnica do Comércio Tiradentes aqui na Rua José Paulino, fiz o curso, tudo bem. O Cavalheiro Prata (?) que era o proprietário da escola, um italiano ativo disse assim: "Isso senhor Antenor. Está bom, muito bom, você vai continuar?" Eu disse: "Vou continuar". Então feito o propedêutico eu passei para o primeiro ano, que seriam sete mais, e eu fui ali e teve um acidentezinho pequeno, veja só como são as coisas, eu estou lá numa sala a... Não me recordo bem qual era a aula que era, não tenho mais lembrança, mas dentro da sala era tudo garoto, toda aquela garotada, e eu com vinte e três anos, eu falei: “Bom, não tenho nada com eles”. Sentei lá e tal, estou fazendo as minhas carteiras de repente apareceu no centro da minha mesa apareceu um cartãozinho, jogaram o cartãozinho. O professor levantou lá: “Eu não tenho nada com isso”. Pegou o cartãozinho: “Mas o senhor fazendo uma coisa dessas?”. Eu falei: “Ué, por que é que o senhor tá falando isso?”. Esse, ele me deu para eu ler, era um cartão pornográfico. Eu falei assim: "O senhor olha bem na minha cara, vê se eu tenho cara disso aí?" Mas eu vi o garoto que tinha jogado aquilo, pra se desviar ele jogou ali. Disse: "Eu não vou querer o senhor mais na minha sala". Eu disse: "Tudo bem". Passei a mão nos meus livros, saí. Saí, fui lá conversar com o diretor, o fundador que era o Ca... Cavalheiro, né? “Ó Cavalheiro...”, contei a história pra ele. “Mas nem pensar que você vai embora, não senhor, vamos lá". Chegou lá, ele foi franco com o diretor: "Esse cidadão continua estudando aqui e se você continuar com essa implicância aqui você vai embora". Positivo, ó apagou tudo. Fiz todo o meu curso maravilhosamente bem, terminei, minha colação de grau foi no Teatro Municipal, nós conseguimos isso, depois o prefeito não autorizou mais. Então foi a única que fez colação de grau no Teatro Municipal, tenho todo o álbum, foi perfeito, todo ele...

 

P - E o senhor se casou em que ano, senhor Antenor?

 

R - Ainda vou chegar lá, é cedo ainda...

 

P - Ainda não conheceu a sua esposa?

 

R - É cedo ainda, bem, precisei sair de repente da Rua Três Rios, porque o prédio foi vendido. Venderam para um judeu, nós que estávamos ali, meu pai principalmente, só... Não me lembro o nome dele, vamos chamar de Moisés, se... “Como é que fica agora?”. “Não, vocês ficam com tudo aí, tudo bem...”. Já, de uns libaneses lá, tudo perto do quartel. Um dia lá veio um oficial de justiça, já sem recurso, judeu danado viu, acertou tudo na surdina, eu disse: "E agora, tem que sair, tem que sair, não tem mais jeito". "Ó senhor Antenor, isso aqui já está por hora já, pode tratar de sair". Saí. Fui procurar uma casa, essa falta de residência aqui em São Paulo já é velha, ihh... Isso aqui é velho toda vida. Fui morar lá no Canindé, mudei pro Canindé, mudei pra Rua Pascoal Ranieri seria assim, o... O clube, que não era situado ali, aqui tinha uma rua, chamava-se Rua Pascoal Ranieri, e eu trabalhava nessa época, na Rua Paganini, que também é no Canindé, uma indústria mecânica Boboti & Mundi logo em seguida mudaram o nome, Indústria Mecânica do Pari LTDA. Trabalhei ali quatro anos, era um almoxarife muito complexo, aprendi muito com eles, muito mesmo, e estudando então esse... De repente um parente meu pediu emprego lá e eles deram, aí eu falei: "Pronto, não tem perigo, mas eu não aceito isso, vou sair já já!". Fui lá, falei com o alemão lá. "O senhor não pode sair". Aquele encarregado dele: "O senhor não pode sair, almoxarife é do melhor que eu já tive aqui". Eu falei: "Mas eu vou sair, viu? Vou sair, não quero mais, eu vou ver o que eu vou fazer agora". Fiquei três meses parado, sem emprego, mas estudando, botando a casa em dia. Mas fazia sacrifício, viu? Saia de lá do fundo do Canindé e vinha aqui até a Rua José Paulino. Passava às vezes, eu... Eu vinha comer um lanche, sabe aonde? Aí no Jardim da Luz, não sei, eles tem um caramanchão ali, embaixo tem uns bancos lá, ali eu sentava e comia um lanche pra ir pra escola, não dava tempo pra muita coisa não, e chegar atrasado eu nunca gostei, estava sem emprego e “agora vou arranjar um emprego, mas agora eu acho que vai ser mais fácil”, eu pensava comigo, “minha cultura já aumentou, estou pra me formar então vai ser mais fácil, se...”. Conversando ali na portaria ali no São Paulo, fazendo amizade com aquele pessoal, vinha saindo ali de dentro o contador, o rapaz disse assim: "Esse contador aí tá procurando um auxiliar". Eu falei: "Ó meu amigo, faz favor, é verdade isso que ele tá falando?". "Que é que foi?". "Disse que o senhor tá precisando aí de um auxiliar de contabilidade". "É de fato eu tô, só que tem três na sua frente, vamos fazer o seguinte, você faz o quarto e faz o concurso entre vocês". Ótimo, muito bom. O São Paulo não teve esse cuidado de guardar essa correspondência, viu? Eu tirei em primeiro lugar. Comecei a trabalhar, aí finquei o pé no São Paulo.

 

P - Aonde era que o senhor trabalhava, no Canindé?

 

R - No Canindé. Finquei o pé no São Paulo ali, agora nós vamos trabalhar, vamos ver. Estou trabalhando sossegado, chegou um administrador, disse: "Lamentavelmente eu vou dispensar o senhor". “Não tem problema, qual é o problema?”. Isso depois de uns seis meses que eu estava trabalhando o di... O meu diretor na época que era o tesoureiro Tomás Carlos Maurer, já morreu, o filho dele ainda é conselheiro do São Paulo, e eu saí dali e fui falar com o Tomás Carlos Maurer que eu tinha que levar prestação de conta, essas coisas, se o contador já tinha pedido a demissão. Aí eu fui lá, conversei com ele, e ele disse: "Vai continuar, vai continuar sim, você está falando que você vai se formar". "Ah eu vou, agora no fim do ano eu tô com a formatura". "Então você prepara os seus documentos e tudo que agora você vai ficar no lugar dele. Ninguém te tira isso, só se você sair do São Paulo". "Tudo bem, eu fico muito contente com isso", passou a mão no telefone e ele: "continua assim, enquanto eu for tesoureiro ele é empregado do São Paulo". Isso deu tempo pra eu me consolidar, essa carteira que o instituto recolheu que tem coisa bonita nela, aí veio a nomeação na carteira, carimbou e ele assinou, eu apresentei meus documentos, então eu já tinha o CRC pronto: 16350. Nunca esqueci e tive a contabilidade do São Paulo por dezoito anos.

 

P - Que é que viu de mais marcante?

 

R – Antes... Antes desses... Chegar nesses dezoito anos, houve um interesse de se construir, o presidente Cícero Pompeu, o interesse de construir o estádio. Foram feitas pesquisas ali onde é a Portuguesa hoje, não servia pra o quê nós queríamos. Começou-se então a construção do estádio da seguinte forma, o Cícero disse assim: "Nós vamos construir". Mudou a secretaria em 1950 para a Avenida Ipiranga, 1267, décimo terceiro, décimo segundo e décimo primeiro, depois ficou resumido num só, o décimo terceiro. A gente conversava ali e... Então ele já fez a licitação das maquetes, apresentou três firmas, eu me lembro, e essa que tá aí que é a vencedora. Então o Cícero dá ordem pra começar a vender cadeira cativa, nós começamos a vender cadeira cativa, nessa altura o senhor Agnelo já estava no clube também e então ele passou a responsabilidade pra ele também e começou esse movimento. Começou esse movimento, logo em seguida ele começou a aplicar onde é o estádio hoje, aquilo ali era um brejão danado. Quando você pensava que estava... O serviço de fundação foi rápido porque tinha uma empresa grande trabalhando a fundação, aí você pensava que estava pronto vinha uma máquina e empurrava aquilo tudo lá pro fundo e começava outra vez, e assim foi, foi até em cima. Tanto que houve a imprensa agora, implicando com o negócio da delatação lá, que tem muito movimento e... Isso. O presidente agora, o Eduardo Pimenta, chamou uma empresa: “Examina isso”. Deram um certificado, não tem perigo pode chacoalhar à vontade...

 

P - Pode chacoalhar...

 

R - Pode encher o estádio de gente aí e não tem problema. E de fato foi muito bem... Bem, mas eu fiquei na contabilidade até 1965, quando houve um acontecimento na minha vida muito importante, eu saí de férias, já fazia muitos anos que eu não saia de férias, saí de férias e tive vontade de passear em Ribeirão Preto, passear na casa do meu irmão que mora até hoje lá ainda, fui lá. Lá eu encontrei uma moça passando assim, cumprimentava eles, aí eu falei assim: "Quem é essa moça aí?". A minha cunhada ensina desenhos em cerâmica, essas coisas. Ele disse: "Ah, é uma aluna da Leonor aí". "É, tudo bem, vamos esperar ela então ela vir à aula é, ela precisa assistir aula". Se... Ela estava lá, essa moça bem na hora, ela tava lá tudo certo, e eu gostei, e eu disse: "Você está estudando isso, você gosta disso?" Ela disse: "Não, eu gosto, é sempre bom sempre aprender as coisas". "Ah, é muito bom mesmo". Disse, já fui direto também viu, parece que estava indicado, viu? Já fui direto: "Que horas você sai daqui?". "Eu vou sair daqui...". Não me lembro agora o tempo, eu disse: "Posso ir com você até na sua casa, vamos bater um papinho". "O senhor é irmão do Argemiro?". Disse: "Sou". "Ah, então o senhor espera um pouquinho". E subi, subi lá e bati um papinho que deve bater. Voltou no outro dia, fui lá: “Tudo bem?”. “Tudo bem”. Disse: "Olha cê viu aquele assunto de ontem, você trata de resolver porque eu preciso voltar compreende? Eu quero levar esse resultado". Disse: "Ah, espera mais um pouquinho, deixa eu conversar com os meus pais”, que ela morava com o cunhado, os pais já falecidos, né? Disse... No outro dia eu fui lá na porta da casa dela: "Como é? Resolveu?". "Eu resolvi, não é pra tão já, né?". Eu disse: "Não, não é pra tão já, tenho obrigações ainda, tem que conversar tem..." Durou essa brincadeira é... Uma... Só por correspondência, essas cartas eu tenho todas elas guardadas até hoje. Bem, quando foi em 1965, eu desci já pronto pra, aí foi umas férias mais longas já, com tudo preparado já, tudo em ordem, cheguei a ela e falei: "Pronto pra casar, como é? Vamos ou não?" Balançou, né? Aí sabe, mas nós vamos resolver isso aí sim, que é isso. Ela disse assim: "Olha, véu de noiva, igreja, eu não quero". Não tem importância nenhuma, imagine, eu já era espírita. "Então vamos fazer o seguinte, vamos ao cartório, acertamos isso tudo e de tarde nós chamamos uma cerimônia e fazemos, pra mim chama o cartório pra ir à sua casa, a do teu cunhado, e chamamos uma pessoa lá que conheça um pouco de evangelização e faz uma palestrinha ali e pronto”. Aconteceu o que eu não esperava, essa pessoa que eles chamaram é uma pessoa afamada da região, fazia as cerimônias de casamento ali que não fossem lá na igreja. Se no dia no cartório dele, no dia da cerimônia, no cartório, e o homem não aparece, o homem não aparece, a casa estava cheia disse: "E agora, você tem a caixinha da aliança aí?". "Tenho”. “Então deixa que eu faço a cerimônia”. Pus o cartório aqui de lado: “Se você vê que eu falo alguma coisa errada você me corrige". E comecei a fazer a cerimônia, e eu fiz, fiz a cerimônia inteirinha. O cartório, quando eu dei por terminado o cartório se levantou e me abraçou assim e disse: "Eu nunca vi uma coisa tão bonita igual a que o senhor fez". Eu disse: "Olha meu amigo eu fiz por orientação espiritual". Casamos, casamos muito bem, isso foi em 65. Ela é de quinze de fevereiro de 1918, era nascida na cidade de Orlândia, estado de São Paulo, e vou lhe dizer com toda sinceridade, trouxe uma boa companheira, muito boa, é... Prenda doméstica, mas tem uma habilidade fabulosa, costura um pouco também...

 

P - Senhor Antenor, como o nosso tempo está quase...

 

R - Tá esgotando, eu sei.

 

P - Eu gostaria de trazer o senhor um pouquinho mais para cá, pra...

 

R – Para...

 

P - Para cá, pro nosso presente e que o senhor dissesse um pouco aquela sala que o senhor fica, é cheia de taças, antes disso talvez contar a história do seu... Do seu...

 

R - Isso é de 1943. Esse distintivo aqui, já chego lá, já já. Esse distintivo é da historia da moeda que caiu de pé. É a disputa do São Paulo, disputando o campeonato Paulista. Então se costuma até dizer, porque quando o juiz joga a moeda pra cima assim, ele para aqui ou ele solta, ou escapa da mão dele. Escapou-se da mão dele caiu de pé, então não vale.

 

P - O senhor ganhou em que ano?

 

R - Isso aqui que eu ganhei lá pra 49, por aí.

 

P - E a do próximo... De 43, é autêntica?

 

R - Ela é autêntica, essa é autêntica. Então até costumava-se dizer, “bom se cair de pé o São,Paulo é campeão, se cair deitado o Palmeiras é vice, e se ele ficar no ar, fica pra Portuguesa”. Uma brincadeira que saiu, né?(risos) Então veja bem, este distintivo é o original, é de lapela, ao passo que o outro não é de lapela, você para colocar na lapela pode colocar aqui, parafusa ele e pronto, esse não, só de lapela.

 

P - E ele serviu de modelo, né?

 

R - Serviu de modelo pra festa de vinte e dois de outubro da... O diretor da promoção do Marketing, então criou uma Ordem da Moeda que caiu de pé, e será, será cedida a personalidades, só algumas. Apesar de que eu esqueci, eu ganhei uma também, uma faixa muito bonita. Se... Então eu dei isso aqui pra ele multiplicar e mostrar pro pessoal, existe essa moeda, essa, esse distintivo e a moeda também. A moeda também, eu consegui com um sócio que tinha a moeda, a dita moeda, e dei pra ele dar uma folha de um mm, que é pra eu anexar o troféu. Então vamos pular para frente vamos, vamos lá!

 

P - E o senhor hoje em dia...

 

R - Hoje eu tenho um cargo de, de supervisor administrativo, só no meu cargo eu tenho a... As tribunas superiores, número de três, as tribunas inferiores, número de três. Eu tenho aquele salão ali que eles chamam Sala de Troféu, que não é sala de troféu, mas não tinha outra coisa, então aquilo ali por idéia nossa, viu? Por idéia até do presidente Juvenal, nós... Ele mandou fazer aqueles vidros aquele guarda-louça lá, isso é uma redoma, não seria bem guarda-louça, então eu datei os troféus, os troféus antigos. Tanto é que agora eu estou começando a tirar os antigos e botar os novos que estão chegando, aqueles já vão ficando mais reservados para o memorial. Então tem ali aquele salão, no fundo tem o auditório Monsenhor Bastos, tem 240 lugares que são destinados às reuniões do Conselho, ali se reúne o Conselho, ali tem a votação do presidente da diretoria. Agora, dia vinte e dois, nós vamos realizar a última reunião ali, e segundo a ordem do senhor presidente, que já veio falar comigo, a parte nova vai ficar toda sob a minha orientação. Então vocês tratem de fazer a coisa bem feita porque depois eu vou cobrar (riso).

 

P - Senhor Antenor, o senhor nos disse que a idéia de se começar a, praticamente, juntar os troféus foi do senhor...

 

R - Ah, perfeitamente. Perfeitamente é uma passagem que ficou lá atrás...

 

P – Em um determinado lugar foi do senhor. Eu queria que o senhor falasse um pouco...

 

R - Isso quando eu desci em 1965, eu estava lá na Avenida Ipiranga, o administrador então que era o senhor Mário Naddeo pediu que eu viesse, ficou no meu lugar e pediu que eu viesse para o estádio para organizar a seção de móveis e utensílios, então eu levantei tudo, fiz um levantamento geral, determinei tudo, cada coisa no seu lugar. E eu então encontrava esses troféus todos perdidos dentro do estádio, até no fosso ali do estádio eu fui encontrar troféu ali. Eu fui ajuntando eles todos e botei tudo num lugar, todos eles. Andava com o pessoal lá onde eu encontrava pegava e fui ajuntando, ajuntando e consegui um número bom, acho que quase todos, bem poucos, um ou outro que perdeu.

 

P - Tem idéia de quantos são?

 

R - Registrado comigo tem 1.500.

 

P - De todos os...

 

R - Em meu poder.

 

P - De todos os tempos?

 

R - De todos os tempos, de todos os tempos. E eu espero que tenha fora da... Que está ao meu alcance, mas eu não vou buscar porque eu não tenho onde por. Dentro das seções, lá na social, tem tênis, tem basquete, tem vôlei tem tudo, cada um lá tem o seu armariozinho lá guardando, porque eu não tenho aonde por. Agora com a construção do memorial, então vai haver lugar pra eles, aí eu vou recolher tudo, vou botar tudo num lugar só.

 

P - Qual é o troféu mais antigo que o senhor tem?

 

R - O troféu mais antigo é de 1931, Torneio dos Campeões. É um troféu pesado, a senhora viu, né? Um troféu pesado de um atleta chutando uma bola.

 

P - De bronze, né?

 

R - É de bronze, eu dei uma entrevista à Record sobre esse troféu e deu uma repercussão, nossa, até hoje.

 

P - Por quê?

 

R - Eu vi você dando uma explicação daquele troféu, aquele primeiro troféu. Todo lugar aonde eu vou a turma fala, repercussão que deu, tudo bem, tudo certo.

 

P - É um atleta com uma bola, né?

 

R - É.

 

P - Qual é a explicação que o senhor deu...

 

R - Ele ficou com a perna esticada pra chutar.

 

P - Qual é a explicação?

 

R - Um atleta simplesmente, naquele tempo eles não estudavam o troféu pra fazer certa definição, compreende? Eles falavam: “Ah, vai jogar futebol eu vou dar um troféu”, pega um troféu qualquer e dava, pronto. E é um troféu pesado, antigo, você veja que eles eram... Eram assim mesmo, todos os antigos são assim, pesados.

 

P - O senhor tem um carinho especial por determinado troféu ou não?

 

R - Não, eu tenho por todos...

 

P - Tem algum que significa mais...

 

R - Eu tenho defendido toda, toda... Toda guarda deles em geral. Fico bravo quando alguém vai lá e mexe sem ser minha ordem, porque eu tenho aquilo organizado, compreende? Se mexerem sem a minha ordem desorganiza. Agora mesmo teve uns pedidos de uns troféus lá pra fazer uma exposição eu disse: “Tudo bem, cê me dá o nome dos troféus direitinho, através de uma CI pedindo esses troféus porque eu vou levar ao diretor, ele que vai dar o despacho”. O sujeito desistiu porque ele fica com medo que suma, é perigoso sumir. Então, é um troféu. Eu me recordo que da minha organização sumiu um, eu confesso que sumiu, já falei, era um trofeuzinho desse tamanho assim. Vocês se lembram da OVC, Organização Vital Costa? Ela tinha um programa que se chamava Miss Campeonato. Miss Campeonato vinha umas moças vestidas, todas trajadas com esporte e fazendo crítica desse jogo, daqui, daquele atleta. E no ano que o São Paulo foi campeão, lá pra 71, então eles premiaram os atletas com esses trofeuzinhos, essa tacinha assim pequena, coube uma ao São Paulo e ele veio pra mim. Esse troféu e essa taça que eu tinha lá junto com os outros eu não tive a idéia de colocar numa gaveta, porque ela era pequenininha, né?

 

P - Era um atleta que ganhou esse trofeuzinho?

 

R - Todos os atletas ganharam, e o São Paulo ganhou um.

 

P - Eu sei, mas não de um atleta em especial?

 

R – Não, não, não... Era uma taçazinha, escrito lá: Miss Campeonato, Campeonato Paulista de ano tal só.

 

P - Tem gente que visita as taças aí?

 

R - Tem.

 

P - Como é que é?

 

R - O pouco que nós temos aí, temos grandes visitas, nós temos uma média de... Uns quinhentos alunos, de grupos que visitam lá. Tem uma pessoa que acompanha, isso não cabe a mim, tem uma pessoa que acompanha e que controla aquilo. E internacional, tem internacional... Tem muitos a... Hoje é... Hoje é?

 

P - Nove.

 

R - Dia... Acho que foi segunda ou terça-feira, não me recordo bem, o rapaz disse assim, porque eu não deixo ver tudo, compreende? Porque eu quero fazer surpresa no futuro, então eu não deixo ver muito, então o rapaz disse assim pra mim: “Não dá pro senhor me abrir a porta aí?”. Eu disse assim: "Por quê?". "Porque essa delegação é da China e é o prefeito de Shangai". Eu falei: “Ah tudo bem, perfeito, tá aqui a chave e cabe a você explicar pra ele, porque eu não quero me envolver no seu trabalho”. Então saíram alguns japoneses, alguns chineses... Veio inglês, francês, vem todos visitar. Eles ficam encantado com isso lá.

 

P - Nós que... Nós queremos agradecer o seu depoimento e acabou, infelizmente acabou o tempo que é curto, né?

 

R - Muito obrigado.

 

P - Muito obrigado senhor...

 

R - Muito obrigado digo eu, e aguardamos outras oportunidades. E eu espero que nós nos encontremos lá. Principalmente na época da inauguração, naturalmente vão me ensinar como é que movimenta aquilo tudo, porque mais tarde eu vou cobrar, está bom?

 

P - Tá certo, muito obrigado.

 

R - Deixa-me ver meus binóculos agora.

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