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História de: Jefferson de Mello
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 05/12/2012

Sinopse

Jefferson de Mello nasceu em São Paulo no ano de 1964. Passou a infância nos bairros de Tatuapé e Vila Formosa e, de origem pobre, começou a trabalhar aos onze anos, quando mudou-se para Vila Formosa. Trabalhava em dois lugares, de segunda a segunda: uma fábrica de doces e uma feira livre. Prestou uma escola técnica e passou a trabalhar como contador, mas considerava-se explorado no trabalho. Quando criança tinha o sonho de ser piloto ou ir para a marinha, que recuperou tornando-se, depois de anos de estudo e treinamentos pesados, um oficial do Corpo de Bombeiros. Jefferson gosta muito do que faz, gosta de estar presente nas "ocorrências", de pensar as estratégias de resgate. Participou de alguns casos de destaque, como o acidente do avião que transportava os integrantes da banda Mamonas Assassinas, a queda do avião TAM 3054, que aconteceu em Congonhas em 2007, entre outros. Seu sonho é tornar-se Coronel do Corpo de Bombeiros, mas não um Coronel aposentado, e sim ainda na ativa, fazendo o que realmente gosta: salvando vidas. 

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História completa

P/1 – Capitão Mello, seja bem vindo!

R – Obrigado!

P/1 – Para a gente começar, eu peço que o senhor fale o seu nome completo, a data e o local de seu nascimento.

R – O meu nome é Jefferson de Mello, eu nasci em sete de julho de 1964 na cidade e no estado de São Paulo.

P/1 – Jefferson, qual é a primeira lembrança da sua infância que vem a sua mente?

R – Eu era de uma família pobre, o meu pai era militar, ele se aposentou como sargento e sempre trabalhou muito, eu tive pouco contato na minha infância com o meu pai, quando ele não estava trabalhando na polícia militar, ele trabalhava no policiamento, ele estava trabalhando em uma segunda atividade, vamos dizer, para melhorar a renda. Então, a minha proximidade foi mais com a minha mãe. Em virtude do local em que a gente morava que era um local bem simples na zona leste, eu morava ali no Tatuapé, depois eu fui morar na Vila Formosa. Então, nós éramos uma família simples, as outras famílias também eram simples. Eu comecei a trabalhar muito cedo, porque todas as crianças trabalhavam, então a gente quase não brincava, tinha muito aquela necessidade da família ou do homem da casa, não só na minha casa como nas outras casas, tinham muitas necessidades e todas as crianças começaram a trabalhar muito cedo, então eu comecei a trabalhar com onze anos. Eu trabalhava em dois lugares: em uma fábrica de doces, eu me lembro como se fosse hoje, eu entrava às seis horas e saía ao meio dia; e aí a tarde eu ia para a escola e aos finais de semana eu trabalhava na feira transportando pastel, de onde fritava o pastel para onde vendia. Então com onze anos eu trabalhava de segunda a segunda, foi uma coisa que marcou muito a minha vida e dali eu nunca mais parei de trabalhar e nem de estudar. Então a minha infância foi assim, foi uma coisa que marcou bastante, inclusive eu converso muito com os meus filhos, eu tenho uma menina de sete e dois meninos, um de onze anos e o outro vai fazer treze anos, eu brinco com eles que na idade deles eu já trabalhava e hoje a gente está fazendo de tudo para que eles não passem por isso, então isso foi uma coisa que marcou bastante.

P/1 – E antes desses onze anos? Nos sete, oito anos de idade o que você tem de lembrança?

R – Ah, eu tive uma infância normal, a única coisa que marcou muito também é que a minha mãe sempre foi muito doente, tanto que já fazem treze anos que ela faleceu… A minha mãe vivia muito internada e o meu pai como trabalhava muito, então ou eu ficava sozinho na minha casa, tipo com quatro, cinco anos, enquanto os meus irmãos iam para escola ou eu ficava com os meus avós, os pais da minha mãe né? Mas eu brinquei bastante, tive muitos amigos na minha infância. O problema é que eu tive aquela passagem, essa parte da minha infância, antes de eu começar a trabalhar, eu morava no Tatuapé, então ali eu tinha muitos amigos de infância, brincava na rua, como toda criança normal, aí quando eu mudei para Vila Formosa, eu fui cair nesse bairro onde a maioria das crianças, praticamente todas, já trabalhavam, então eu entrei no ritmo deles, por necessidade, por eles estarem trabalhando e também por necessidade, a minha mãe até não queria, mas eu comecei a trabalhar muito cedo. Mas brinquei bastante, naquela época a gente brincava muito na rua, o que não acontece hoje, a gente tinha uma família muito unida, fora a minha casa, a minha família era muito grande em virtude dos parentes da minha mãe. Os parentes do meu pai são todos do interior, são todos de Franca, o meu pai nasceu lá. Agora, a família da minha mãe era tudo ali da região da Vila Formosa, então eu tinha muitos primos, a gente sempre se reunia em virtude dos avós, era uma família bem unida, porque a minha mãe tinha muitas irmãs e irmãos. Hoje a maioria infelizmente já faleceu, inclusive ela. Então praticamente todo final de semana a gente se reunia, reunia os tios com os avós e a sobrinhada, isso é uma coisa que foi boa na minha família, na minha infância, a família era muito unida. Os meus avós paternos eu nem conhecia, o meu avô paterno faleceu antes de eu nascer e a mãe do meu pai eu tive pouco contato porque ela era do interior, eu tive muito contato com os pais da minha mãe, aí com o falecimento dos meus avós maternos a família acabou cada um tomando o seu rumo, o tempo foi passando, alguns tios foram falecendo, aí a família realmente perdeu aquele vínculo, a gente até se encontra, mas por acaso, não é nada marcado. Então, a minha infância eu passei muito com a minha família, esse período antes de eu começar a trabalhar eu realmente brinquei muito com os meus primos, levei uma vida normal, estudei, comecei a estudar na época certa digamos assim, então foi muito agradável a minha infância.

P/1 – Capitão, me fale sobre os seus irmãos.

R– Então, eu tenho dois irmãos, um deles chama-se Wilson, ele é o mais velho dos três, ele é casado, já foi casado uma vez, está no seu segundo casamento, no primeiro casamento ele teve três filhos, desses três um infelizmente já faleceu, ele mora na zona leste, mora ali perto do Parque do Carmo, ele mexe com venda de autopeças. A adolescência do meu irmão foi naquela fase dos anos 1960, então ele foi sempre o mais rebelde, quis pender pro lado da música, parou de estudar, mas nunca parou de trabalhar. Mas assim, não foi adiante com os estudos, casou novamente, depois desse segundo casamento ele teve mais dois filhos; é uma característica na nossa família, até por parte do meu pai, o meu pai teve três homens, o meu irmão mais velho teve três homens, casou de novo, teve dois homens, o meu outro irmão teve um filho, aí eu havia me casado e tive dois meninos, ia parar nos dois, mas aí veio a menina, depois de muito custo veio a menina, é ela que manda na casa (risos)... Quem mandava era a minha esposa, agora quem manda é ela. Então, voltando a falar do meu irmão, a gente não tem muito contato, inclusive na infância a gente não tinha muito contato, ele era muito independente na época, eu convivi muito com o meu outro irmão, até por causa da proximidade da idade, então a gente passou a infância mais junto porque a diferença do meu irmão mais velho para mim são catorze anos, ele era adolescente e eu estava nascendo, então essa distância influenciou muito no nosso contato, hoje a gente tem muito mais contato. Depois que a minha mãe faleceu, de lá para cá o meu pai sempre morou comigo, então em virtude até do meu pai morar comigo a gente tem mais contato do que talvez na infância e na adolescência, porque ele vai lá ver o meu pai, aquela coisa toda.

P/2 – Sobre esse seu irmão, você falou que ele era meio rebelde nos anos 1960 e bem mais velho do que você, você se lembra de algum episódio que tenha acontecido nessa época, você criança e o seu irmão envolvido nas histórias dos anos 1960?

R – Tem algumas situações, por exemplo, naquela época todo mundo queria ser músico, eu acho que até em virtude dos Beatles, então tinham aqueles conjuntos de garagem. Ele tocava guitarra, não foi para frente, mas ele tocava, tentou ser músico, mas não deu certo. E o meu irmão nunca foi muito aberto, até por essa rebeldia da época, a querer estudar, então ele vivia com os amigos lá, todo mundo no mesmo ritmo, aí eu me lembro que um dia ele apareceu na minha casa com um cavalo, né? E a minha casa tinha um quintal grande, a minha mãe questionou e ele na realidade tinha pego lá… Porque naquela época tinham muitos terrenos e o pessoal tinha aquelas carroças, aquele negócio todo, então o pessoal deixava os cavalos nos terrenos, amarrava e deixava lá comendo capim, ele foi lá com os amigos dele e pegou o cavalo, amarrou e levou embora, acontecia muito isso aí, de vez em quando eles pegavam os cavalos que o pessoal deixava nos terrenos se alimentando e eles saiam com os cavalos, davam umas voltas, depois devolviam, mas nesse dia não, ele levou o cavalo para casa (risos).

P/1 – Como era esse bairro, esses terrenos? Descreve um pouco o seu bairro nessa época.

R – Esse bairro que eu falei, que na época eu estava morando era o Tatuapé. Eu posso dizer que foi a fase da minha infância em que eu mais me diverti, porque quando eu mudei para Vila Formosa eu já entrei naquele ritmo de ter que trabalhar, então eu senti muito essa mudança. Porque eu tinha um círculo de amizade com as crianças, era uma coisa sadia. Aí eu saí dali com seis para sete anos, então as casas eram casas simples, era um bairro simples, o Tatuapé hoje é um lugar muito grande, mas ali na época seria uma periferia, São Paulo foi crescendo e a periferia foi se afastando. Era um bairro simples, onde eu morava não tinha violência, mas como todo local a gente sabia onde eram os locais onde a violência imperava, então a gente já evitava: “Não pode ir a tal local porque ali tem problema”. E naquele círculo em que as casas eram muito simples, então tinham as casas, sempre tinha um terreno, alguma coisa, hoje já são tudo casas, aí sempre forma aquele campinho, aquela coisa que é natural da periferia, você forma um campo de futebol, aquela coisa. Então era muito agradável e eu tinha o meu círculo de amizade das crianças da minha idade, o meu outro irmão, o do meio, tinha o círculo de amizade dele, porque o meu irmão do meio é quatro anos mais velho do que eu, e no final das contas todo mundo brincava. A gente brincava e ali perto da minha casa tinha uma coisa que eu acho que não tem mais hoje, que são os tais dos parques infantis. A minha mãe colocou a gente, eu fiquei mais tempo, a gente ia lá quando criança, tinha o uniforme e na época eram os chamados parques infantis... 

P/1 – Que hoje é a pré-escola?

R – Isso, hoje é a pré-escola, a criança já entra na pré-escola e já vai para escola, na época tinham os parques, lá não tinha continuidade, você saía do parque aí você ia para escola né? Então lá perto da minha casa tinham esses parques que eu frequentei, eu não sei dizer hoje quanto tempo eu fiquei no parque, eram mais brincadeiras, recreações. Era um parque, eu creio que municipal, não era pago, então eu fiquei um tempo nesse parque que era perto da minha casa e brinquei bastante. Era uma região que existe, até hoje as casas não mudaram muito, a casa que eu morei não existe mais, mas a maioria das casas da minha época, na rua que eu morei, ainda estão lá.

P/1 – Qual é o nome da rua?

R – Ah, agora eu não me recordo. Ele é travessa de uma rua chamada Rua Gomes Cardim, tinha uma principal que é essa Rua Gomes Cardim, é próximo da Praça Silvio Romero, descendo ali. O que aconteceu, na minha época, a gente morava em uma casa alugada e o meu pai estava tendo problema até financeiramente, isso daí eu fiquei sabendo depois né, então a gente teve que mudar por necessidade, por a gente não estar conseguindo pagar o aluguel ele acabou se esforçando e comprou a casa, aí ele comprou a casa no bairro da Vila Formosa, então nós saímos do aluguel e fomos morar em uma casa própria, mas aí pagando e aí como essa negociação demorou muito tempo, para nível de escola o que os meus pais fizeram, eles me colocaram em uma escola já na Vila Formosa, mas eu ainda fiquei morando por um bom tempo no Tatuapé e aí naquela época condução era mais difícil, eu me lembro dos ônibus elétricos, eu acordava muito cedo com a minha mãe e o meu irmão do meio, o Luís, então a gente ficou praticamente por mais de um ano morando no Tatuapé e estudando na Vila Formosa. Naquela época era bem sofrido, a gente saía muito cedo, pegava aqueles ônibus elétricos que tem até hoje e íamos para a Vila Formosa. Eu estudava no período da manhã, eu estudei em um externato inclusive...

P/1 – Qual era a escola?

R– Externato Nossa Senhora do Sagrado Coração. Ali na Vila Formosa tem a Igreja Nossa Senhora do Sagrado Coração, uma igreja bem grande, e ao lado da escola tinha esse externato que quem administrava eram freiras né? Então isso aí ajudou muito na minha formação, porque pelo fato de ser um externato a gente já tinha uma formação muito forte a nível de religião, patriotismo, a gente entrava em forma, parecia até um regime militar, todo dia cantava um hino, ia em forma tudo certinho para sala de aula, só que era uma escola particular.

P/2 – Mas nessa época que você fazia esse trajeto, acordava bem cedo, apesar de você morar longe, o que você se lembra desse percurso de ir até escola? Como era esse trajeto?

R – Eu me lembro de uma coisa bastante interessante, porque assim, até eu chegar na Avenida Padre Adelino, é uma avenida muito conhecida, eu nem sei se o ônibus elétrico ainda passa lá, então para a gente chegar nessa avenida, a gente andava um quilômetro mais ou menos e tinha uma subida e a gente pegava o ônibus elétrico. Era todo dia o mesmo horário, o mesmo ônibus, o mesmo motorista… Então é engraçado, porque às vezes a gente acabava se atrasando um pouco, aí o motorista do ônibus vinha, ele sabia que todo dia a gente estava lá no mesmo horário, quando ele não nos via no ponto ele parava na rua, que era uma subida, e ficava olhando. E ele via a gente subindo (risos) e ficava esperando a gente chegar, eu, o meu irmão e a minha mãe né, ele ficava esperando a gente chegar para não perder o ônibus, porque se perdesse o ônibus ia perder o horário, então isso aconteceu várias vezes, de o motorista ficar esperando a gente, pelo fato de ser o mesmo motorista. Aí a gente ia para a escola, a gente chegava lá muito cedo, porque se pegasse o ônibus depois ia chegar atrasado, então a gente chegava cedo e ficava esperando lá por um bom tempo na frente da escola, até abrirem os portões, aí eu ia assistir às aulas, a minha mãe voltava para o Tatuapé. Para ela não ter que voltar na hora da saída, quem ia me buscar era a minha avó, que morava ali perto, a mãe da minha mãe. Então a minha avó vinha buscar eu e o meu irmão, a gente ia para a casa dela e a minha mãe voltava no final do dia para nos buscar, aí nós voltávamos pro Tatuapé. Então isso aí eu não sei te falar ao certo por quanto tempo foi, até a mudança, porque nós mudamos, eu sei que foi no mínimo um ano fazendo esse trajeto dessa forma. Aí nós nos mudamos para a Vila Formosa, perto da escola, vamos dizer assim, uma distância de um quilômetro. E aí eu e o meu irmão íamos andando sozinhos, eu era pequeno, eu tinha seis para sete anos e o meu irmão devia estar com dez, onze anos e a gente ia andando para a escola, eu e ele sozinhos. Naquela época a distância não tinha tanto problema como tem hoje, trânsito, essas coisas assim, aí com o decorrer do tempo foi ficando pesado para o meu pai porque era uma escola, apesar de ser externato, era pago e aí chegou uma hora que não deu mais e ele tirou nós dois do externato e nos colocou em uma escola pública, que inclusive era mais perto ainda da minha casa. Era a “Escola Estadual Professor Paulo Cavalcante de Albuquerque”, então era pertinho da minha casa, da minha casa eu conseguia ver a escola. E ali eu fiz até, na época o que se chamava de ginásio, hoje já não se fala mais ginásio, mas ensino fundamental, então eu fiz todo o ginásio ali, mas aí já naquela situação, já estava trabalhando.

P/1 – Me fala do seu trabalho na fábrica, o que você fazia na fábrica de doces, qual era o seu trabalho?

R – Então, como eu comecei a trabalhar nessa fábrica? Primeiro a minha mãe até não queria porque eu era pequeno, eu tinha onze anos, mas assim, na rua em que eu morava todas as crianças trabalhavam, tinham dois locais que eram os principais lá. Ou trabalhavam nessa fábrica de doces ou trabalhavam em uma fábrica de chinelo de um senhor, ele era nordestino, inclusive era atrás da minha casa, só que a minha mãe não queria, porque a função das crianças nessa fábrica de chinelos era passar cola na forma do couro, então elas ficavam cheirando cola o dia todo, da minha casa eu sentia o cheiro daquela cola, então tinha esse problema. E tinha outro amigo meu, de infância, que trabalhava nessa fábrica e ele comentou comigo que estaria precisando de uma criança, lá só trabalhavam crianças, era um senhor, ele era nordestino, a esposa dele, as filhas, as filhas crianças, só trabalhavam crianças e a especialidade dele lá era fazer aquele canudinho que você colocava o côco dentro, eu acho que tem até hoje, aquele canudinho de massa que enrola, então para que ele precisava de uma criança? A esposa dele fazia a massa, as outras crianças enrolavam essa massa nos canudinhos metálicos para ele assumir aquele formato de cone, ele fritava os canudinhos do óleo quente, então era só ele que fritava e prepara aquele côco, aquele creme, que era uma receita secreta que ele guardava em um cofre. 

P/1 – (risos)

R – É verdade, ninguém sabia a receita. E aí ele precisava de uma criança para durante a semana ficar enchendo o canudinho com esse creme de côco, então durante a semana ficava só uma criança fazendo isso e depois um dia da semana faziam um mutirão para todo mundo só encher o canudinho, então a minha função era ficar enchendo o canudinho durante a semana. Então você pegava aqueles canudinhos prontos de massa, fritos, com uma colher e tinha toda a medida né, tinha todo um histórico, toda uma técnica, você não podia encher o canudinho porque senão ia muito para outro (risos), então você tinha que ter um jeito com a colher, que até você pegar essa prática demorava um pouco. Você pegava certa quantidade daquele creme e colocava no canudinho e ele ficava com uma consistência que estaria cheio, mas na realidade ele não estava.

P/2 – Você aprendeu com quem essa técnica? 

R – Eu aprendi com as outras crianças, vamos dizer assim, era uma função secundária, quem está entrando vai encher canudinho (risos) porque era bem desconfortável, você ficava o dia inteiro em pé, eu trabalhava das seis ao meio dia, então ficava esse período todo em pé, na frente de uma panela grande, esse creme quente, ele vinha quente, ele cozinhava até ficar no ponto e jogava ali, quente e você tinha que puxar ele para cima para deixar a calda escorrer. E aí eu aprendi com outra criança, então você ficava o dia inteiro ali curvado em frente a essa panela com a colher, que eu aprendi com outra criança, quando eu já tinha pego o jeito, aí eu fui subindo, eu não sei dizer quanto tempo eu fiquei fazendo esse serviço aí, eu sei que assim, foi engraçado porque eu fui trabalhar lá e eu não perguntei quanto eu ia ganhar, e a minha mãe me perguntou: “Você está trabalhando? Quanto você vai ganhar?” “Eu não sei (risos)” “Como você não sabe quanto você vai ganhar?” “Eu não sei, eu não perguntei”. Eu fui lá conversar: “Não tudo bem, começa tal” e eu não perguntei, e comecei a trabalhar, aí ficou aquela dúvida porque as crianças tinham salário. Esse meu amigo que me levou ganhava, vamos dizer assim, hoje, eu me lembro que eu ganhei 700, mas eu não me lembro a moeda, esse meu amigo ganhava 800, vamos dizer que se fosse hoje, em reais, seriam 800 e as outras crianças ganhavam 600 e aí nós ficávamos naquela expectativa, todo mundo naquela expectativa de quando fosse receber o primeiro salário, qual seria o meu primeiro salário, se seria 600, se seria menos que 600, 800 não seria porque o meu amigo era o mais experiente, ele tinha a minha idade, mas já trabalhava lá, então ficamos naquelas lá, aí foi engraçado, eu me lembro como se fosse hoje, aí chegou o dia do pagamento, aí ele veio e me deu o dinheiro, eu peguei o dinheiro, enfiei no bolso, não contei e fui embora, aí fomos eu e o meu amigo: “E agora, quanto você ganhou?” eu falei: “Não sei, vou contar na rua?” “Ah, vamos contar” paramos lá, contei, comecei a contar as notas de cem, uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete, eu ganhei 700, nossa, eu saí vibrando né?

P/2 – Você lembra o que você fez com esse primeiro salário?

R– Eu dei para minha mãe.

P/2 – Todinho?

R – Todinho. Então criou até um problema na empresa porque eu entrei, eu era mais novo e acabei ganhando mais que a maioria, não igual ao meu amigo, mas ganhando mais que os outros, aí deu um tumulto lá e ele acabou aumentando o salário de todo mundo e todo mundo foi ganhando como eu, aí eu cheguei em casa, naquela época eu não sei dosar se era muito ou pouco, aí eu cheguei para minha mãe e aí eles ficaram também aliviados porque viram que não foi pouco, foi uma coisa que fez uma diferença, vamos dizer assim e eu dei tudo para ela e esse hábito foi um hábito que eu continuei durante muito tempo, de dar todo o dinheiro para ela.

P/1 – Como era trabalhar e estudar nessa idade? O trabalho não atrapalhava os seus estudos, como se dava isso?

R – A escola era pública, então, digamos assim, apesar de que naquela época o ensino público em alguns lugares ser melhor do que hoje, até que não era tão puxado. E assim, uma característica minha é que eu sempre tive muita facilidade de estudar, eu sempre gostei de estudar, nessa parte aí eu sempre fui muito responsável, então não me atrapalhou, se eu tinha lição eu acordava mais cedo, eu me lembro que a minha mãe não precisava ficar mandando eu fazer as coisas, lição, estudar, então antes que ela mandasse eu já estava fazendo, é uma característica minha desde a infância né e assim, nós que trabalhávamos, as crianças do bairro que trabalhavam, a gente estudava junto, a gente estava sempre juntos ou estava trabalhando ou estava na escola estudando e na realidade a gente acabava brincando mesmo a noite, então a gente até fazia lição rápido, a gente estudava, eu não me lembro até que horário, mas vinha para casa, fazia lição e a noite brincava, saía na rua porque naquela época a gente brincava na rua.

P/1 – Quais eram as brincadeiras?

R – Ah tinham várias, brincadeiras de rua, futebol que fazia o gol com dois tijolinhos, uma bola pequena, gol a gol, fazia dois times, mas tudo na rua, as brincadeiras de rua, elas eram muito de época, então uma época era só futebol, outra época é aquela brincadeira mãe da rua que tinha que atravessar a rua em uma perna só e quem estava no meio tinha que pegar, vocês já ouviram falar dessa brincadeira?

P/1 – Eu já ouvi, mas eu não me lembro como que era.

R – Essa brincadeira é assim, tem as calçadas, então sorteia lá e alguém fica na rua, o restante fica tudo na calçada, então você só pode atravessar a rua pulando em uma perna só e quem está no meio da rua tem que pegar o que está tentando atravessar a rua e fazer ele parar de pular em uma perna só, ou seja, conseguir colocar as duas pernas dele no chão, aí ele também fica no meio da rua e fica tentando pegar as outras crianças e assim até que no final acaba todo mundo.

P/1 – Todo mundo no meio da rua (risos)?

R– Todo mundo no meio da rua. Tinham aquelas brincadeiras de bolinha de gude, que naquela época a gente fazia os furos no chão, tinha que ir vencendo os furos, tinha peão… Nas férias, eu acho que isso aí não mudou muito, nas férias tem muita pipa, que geralmente a fase de empinar pipa era nas férias porque antes você ficava empinando pipa o dia inteiro né, então isso daí era nas férias. Eu brincava na rua, mas brincava em frente a minha casa porque todas as casas eram muito próximas, então era na rua, mas na porta de casa, a gente não sumia no bairro, era tudo muito próximo ali, a minha mãe ou o meu pai quando queriam chamar saiam no portão e a gente já entrava, mas chegava a ficar até onze horas da noite, às vezes até meia noite na rua porque naquela época era possível né? E no meu bairro era assim, a gente era muito centralizado, porque saindo dali, algumas ruas paralelas já tinham aquela situação, eram locais mais perigosos né?

P/1 – Naquela época?

R – Naquela época já tinha e tem locais que até hoje, eu morava na Vila Formosa, na Rua Fábio e subindo ali tinha a tal da Vila Guarani que até hoje é violenta, ponto de tráfico e essas coisas, então é um local que a violência desde aquela época já tinha e até hoje é um bairro violento. E subindo mais um pouco já ia para Sapopemba, não sei se vocês conhecem, Sapopemba é um dos bairros mais perigosos de São Paulo hoje, então a gente não se afastava em virtude disso aí, até de receio de acontecer alguma coisa, mas ali no nosso mundinho a gente se divertiu bastante nesse período, então pelo fato de a gente trabalhar e estudar, as brincadeiras eram todas no período noturno.

P/1 – Você trabalhava em uma feira também né?

R – Eu trabalhava em uma feira de sábado e domingo, porque assim, eu tinha outro amigo de infância, o Carlos, e ele trabalhava na feira e aí o que acontece, depois veio uma lei e nós perdemos o emprego porque o pastel antigamente, pastel de feira, ele era fritado em uma rua próxima e ele era vendido no meio da feira, então o que eles faziam, esse transporte de onde ele era frito para onde ele era vendido, então nós utilizávamos umas caixas de papelão e geralmente eram orientais né, como a maioria até hoje que faz pastel são orientais, eu lembro que eu trabalhava para um chinês, não era japonês, era um chinês, onde ele fritava os pastéis era uma rua paralela e a gente ficava lá aguardando, ele fritava, colocava nessa caixa e a gente pegava a caixa de papelão, ia até o centro da feira onde a esposa dele montava, não era nada muito chique não, colocava um caixote assim, uma bandeja metálica e ali ela colocava os pastéis enfileirados e vendia, a gente fazia esse trajeto não sei quantas vezes em uma feira, mas nós chegávamos lá bem cedo, tipo cinco e meia, seis horas da manhã.

P/1 – No próprio bairro?

R – No próprio bairro, na Vila Formosa. Na realidade é o seguinte, como eu trabalhava de sábado e domingo, eram feiras diferentes, então a feira do sábado era nesse bairro que era mais violento, a Vila Guarani, e a feira do domingo era em uma avenida porque assim, lá tem a Vila Formosa e tem o Jardim Vila Formosa, essa feira de domingo era no Jardim Vila Formosa que era em uma avenida chique, até hoje inclusive tem, as mesmas feiras existem até hoje, é uma avenida que se eu não me engano chama-se Avenida Magdo de Deus, só que era em um lugar perigoso também, até na época tinha o apelido de buraco quente, era um local violento também, então esse trajeto aí a gente fazia com receio né? Inclusive acontecia várias vezes de a gente estar transportando o pastel e de repente vir um monte de criança e tomar da gente, isso aí acontecia, só que como era uma coisa mais ou menos comum, então o chinês lá sabia que não era culpa da gente, a gente falava: “Ó, não teve jeito, apareceram várias crianças e tomaram” eles sabiam que a gente fazia esses transportes, só que eram muitas crianças, porque tinham vários pasteleiros, então eles se concentravam em uma rua em que eles estavam fritando e na feira, geralmente as mulheres, elas se dividiam, cada uma colocava um filho… Porque eu falo que eu perdi o emprego porque depois veio a lei de que eles tinham que fritar onde vende, então aí eles tiveram que adaptar e montar, como é hoje né, eles não podiam mais fazer, aí acabou essa necessidade das crianças fazerem o transporte, aí nós perdemos o emprego, depois que veio essa lei a gente teve que parar de trabalhar na feira.

P/1 – Eu gostaria que você descrevesse um pouco a sua escola nesse momento de adolescência na escola, como foi?

R – Como eu falei, eu estudava no externato, era um regime bem forte ali, vamos dizer, tanto na área religiosa, do catolicismo, como na parte disciplinar né, então ali talvez eu tenha até adquirido esse ritmo de estudar porque lá inclusive tinha na época, às vezes acontecia da professora bater nos alunos, nessa época ainda tinha isso, eu sou de 1964. Então quando eu fui estudar no colégio público foi mais tranquilo para mim, porque eu tinha tido um início puxado, então foi mais tranquilo estudar no colégio público. Só que eu passei aquela transição de quando você está no primário, na época era só uma professora, quando eu fui para o ginásio tinham várias matérias e tal, mas eu me adaptei bem nesse período aí.

P/1 – Como eram os amigos, essa coisa do ginasial, essa adolescência? O que vocês faziam para se divertir nessa época?

R– A escola era muito simples também, eu lembro que era uma escola grande e naquela época, hoje não, porque a escola está lá até hoje, a mesma escola, naquela época ela não tinha quadra, então ela tinha um terreno onde as atividades esportivas eram feitas, e pelo fato das crianças que moravam próximo de mim também estudarem no mesmo horário, então nos intervalos a gente também se encontrava e acabava brincando, às vezes até das brincadeiras que a gente brincava.

P/1 – Na adolescência vocês brincavam?

R – Assim, eu fiquei nessa escola mais ou menos até os catorze anos que é o período de ginásio porque depois eu fui para o segundo grau, então a gente brincava bastante nesse período.

P/1 – Havia brincadeiras na adolescência?

R – Havia brincadeiras, teve aquela época em que começaram as namoradinhas, aquele negócio todo, já faz parte da idade, da própria escola, mas assim, como era um bairro simples, todo mundo que estudava na escola também morava próximo, não é como hoje, todo mundo mora longe, vai de perua, era muito próximo, então você estudava junto, morava próximo, brincava junto, estava sempre junto. Então eram aquelas professoras antigas, não é como hoje que tem um rodízio muito grande, tem aquelas mais bravas, as menos bravas… E uma coisa que eu comecei nesse período foi me enveredar para o lado do esporte, então naquela época eu já comecei a jogar vôlei e aí eu fiz parte do time de vôlei, a gente saía muito para jogar, naquela época a gente ia muito para outros colégios, um colégio jogava contra o outro e como era tudo muito simples não tinha condução, então às vezes a gente andava duas horas para chegar no outro colégio, o time todo, para o professor de educação física poder fazer um jogo de vôlei.

TROCA DE FITA

P/1 – Como começou a sua história com o vôlei?

R – Foi assim, eu comecei no ginásio, me dei bem no esporte, tanto que depois que eu saí do ginásio eu continuei a jogar vôlei, mas aí em time de bairro, era o time da Vila Formosa. Cheguei a ser federado e tudo, mas eu não sei por que eu não fiquei só nisso, mas sempre pratiquei esporte, então eu comecei a praticar esporte ali na época do ginásio.

P/1 – Nessa época do ginásio foi quando você começou a namorar, você lembra do seu primeiro beijo?

R – Para ser sincero eu não me lembro exatamente do primeiro beijo, eu posso até lembrar talvez da primeira namorada, que eu chamei de namorada, vamos dizer assim… Porque na época você se relacionava, mas você não falava: “Estou namorando”, você ficava mais junto com uma garota, conversava mais e outros falavam: “Eles estão namorando”. Eu posso lembrar talvez da primeira namorada, mas não sei exatamente do dia do primeiro beijo, não foi uma coisa que me marcou muito. Então a primeira namorada que a gente fala: “Não, é minha namorada”, foi até uma coisa engraçada. Ela morava perto da minha casa, assim como todas as crianças e o irmão dela era meu amigo, só que ficou aquela situação: “Eu estou namorando a irmã dele, mas ele não sabe (risos) em que momento eu vou falar para ele que eu estou namorando a irmã dele e tal?”. Até que chegou um dia que eu contei para ele, mas o namorar também o que era? A gente conversava a noite porque a gente até estudava na mesma escola, mas a gente conversava a noite, eu ia lá na porta da casa dela ou ela vinha perto da minha casa, a gente morava a duzentos metros de uma casa para outro, esse era o namorar, ficar alguns instantes ali juntos porque a noite a gente ficava com os amigos, então alguns minutos eu ficava com ela, mas era uma coisa assim, muito rápida, um dia eu até contei para ele: “Eu estou namorando a sua irmã”, “Ah não, eu já desconfiava”. Ficou tudo bem, eu já fiquei com receio que ele fosse ficar chateado, sei lá, mas aí deu tudo certo, mas não foi uma coisa assim que durou muito, foi uma coisa passageira, bem rápida.

P/1 – O que vocês faziam para se divertir nessa época?

R– A gente começou a frequentar as famosas matinês, naquela época tinham os bailes de bairro, hoje não existem mais, então tinham as matinês, então nós, nessa faixa de quinze, dezesseis anos, nós frequentamos muitas matinês, né, porque os mais novos iam às matinês, depois de um período, de certa idade que você começava a ir ao período da noite, então nesse período tinham vários salões, na época eu não sei se já chamava de discoteca… Então a gente variava, ia em uma que era ali na Vila Rica, outra que era na Praça Silvio Romero, tinha outra que era na própria Vila Formosa e assim, a gente ia aos domingos, às matinês de domingo ou de sábado também, e a gente sempre ia andando até para economizar dinheiro, a gente sempre ia andando, então a gente andava bastante, andava, por exemplo, da Vila Formosa até a Praça Silvio Romero (risos) para ir a uma matinê. E como era uma coisa assim, que na época você frequentava muito, então você criava um círculo de amizade ali também né, nas matinês todo mundo se conhecia, então você ia lá, você dançava, brincava, naquela época ainda tinha aquele negócio das músicas que tinham balanço e uma sessão de músicas lentas, ainda existia isso daí… Eu mesmo estou recordando coisas que eu já tinha esquecido, então às vezes você queria dançar com alguém e você ficava ansioso por aquela sessão, se desse certo naquele dia deu, se naquele dia por algum motivo você não conseguiu dançar com quem você queria, ou seja, só daqui a uma semana que você ia ter outra oportunidade né? Então isso daí foi uma fase gostosa, digamos assim, que eu passei com os meus amigos, que foi criar um círculo de amizade onde já não envolvia só meninos né, já começou a entrar um grupo de adolescente de meninos e meninas, mas só que era assim, criava-se um vínculo de amizade onde você acabava não se relacionando, namorando com as meninas, porque eram todos amigos. Se você arrumava uma namorada, era fora do grupo, isso te afastava do grupo porque você arrumava uma namorada de fora daquele grupo e você se afastava, aí alguns ficavam com raiva: “Agora começou a namorar, não fica mais com a gente” e até os namoros não duravam muito.

P/1 – Nessa fase das discotecas qual era o grande sucesso? Tinha alguma que você gostava muito?

R – Eu não tinha muita preferência, tinham os balanços, eu não sei te falar agora os nomes, mas na época os Bee Gees, tinham até aquelas músicas da época, Hippopotamus… Agora eu nunca fui muito de guardar nome de artista, eu nunca fui muito para esse lado, mas era essa época aí, das discotecas, a gente saía, frequentava bastante. O que era interessante é que naquela época tinham as danças que elas eram ritmadas ou seja, todo mundo dançava igual, era igual a coreografia né, então quando você começava a ficar muito antigo na discoteca, você sabia a coreografia toda. 

P/2 – Você dançava?

R – Eu dançava, eu gostava de dançar, todos dançavam, então era uma coreografia onde todo mundo fazia igual.

P/2 – Como as pessoas se vestiam naquela época nos bailes? Tinha uma moda de baile também né?

R – Assim, a gente não tinha muita alternativa também, porque todo mundo era muito simples, tinham algumas coisas que se despontavam, eu vou dar o exemplo do All Star, aquele tênis, que quem tinha um era o top, porque no Brasil não tinha.

P/2 – Em que década isso, de 1970?

R – Ah, acho que sim, por aí, como eu nasci em 1964 no final de 1970 eu deveria estar com uns 14, 15 anos, por aí, então foi na época que surgiu o tênis All Star, porque ele era um tênis importado, você não comprava na loja né? Ou alguém trazia para você ou você tinha que viajar para fora, eu nem pensar né, então quem tinha um era o top: “Pô, o cara tem um All Star”. Você reconhecia a pessoa pelo All Star (risos). Agora, a gente, o meu grupo, a gente não tinha condição de falar: “Agora é época de a gente usar isso”. Não, cada um se vestia normal, e eu como era o irmão mais novo, então tinha muito aquela coisa de usar roupas que vinham dos meus irmãos né, a minha mãe para ajudar o meu pai, tem uma coisa que eu não falei, ela costurava, ela fez vários cursos de corte e costura, então muitas roupas que eu usei foi a minha mãe que fez, depois ela parou e quando ela pegava as roupas dos meus irmãos ela tinha uma habilidade tremenda de diminuir a roupa para que eu pudesse usar (risos) então eu usei muitas roupas dos meus irmãos. Eu sofri um pouco com isso, porque nunca ficava do jeito que a gente queria, né, porque era uma roupa usada, mas eu acabei acostumando… Depois de um período, depois dos 14, 15 anos, chegou uma época em que eu fui obrigado a chegar para a minha mãe, todos os meus amigos trabalhavam, eles tinham dinheiro e eu até muito tempo eu não via a cor do dinheiro, naquela época a gente recebia em envelope fechado, recebia dinheiro né, eu pegava o dinheiro na empresa e dava para minha mãe.

P/1 – Qual era o trabalho dessa época, dos 14, 15 anos? Você já tinha saído da fábrica?

R– Eu já tinha saído da fábrica, então, aí na época tinham os office boys né, aí eu comecei a trabalhar de office boy em uma empresa perto da minha casa, onde o meu irmão do meio, o Luís, trabalhava. Era tudo perto ali, dava para ir trabalhar andando. Mas a gente recebia os famosos envelopes fechados, você pegava o envelope fechado com o dinheiro dentro, aí eu levava para casa e dava o envelope para a minha mãe, e quando eu precisava sair, se desse, se ela tivesse alguma coisa ela me dava, senão não me dava, era um valor semanal de fim de semana, eu me lembro que era pouco e eu nunca tinha dinheiro, aí os meus amigos começaram: “Pô, mas você trabalha e você nunca tem dinheiro”. Aí eu conversei com a minha mãe que eu faria diferente, eu me entendi com ela, eu não ia dar o meu salário para ela, eu ia dar um valor e eu ia ficar com um valor, uma parte para mim né, ela concordou, aí eu comecei a me tornar um pouco mais independente, a comprar algumas coisas, aí a minha vida começou também a tomar outro rumo né?

P/1 – E o colegial, foi onde?

R – Então, naquela época dos 14, 15 anos, eu tentei entrar nas academias militares, tem a marinha, tem o exército, a aeronáutica, então eu trabalhava e eu comecei a estudar por conta.

P/1 – Você trabalhava como office boy?

R – Como office boy.

P/2 – Quando surgiu o desejo de ser militar?

R – Quando eu estava conversando com outro amigo meu de infância, o meu pai era militar, mas eu nunca pensei na polícia militar, a gente ficava com aquele sonho de repente de ser piloto, trabalhar na aeronáutica ou ir para a marinha, mas nas academias militares, como oficiais. E eu não lembro como surgiu essa idéia, eu nem sei se foi o meu pai que mostrou para mim esse caminho, eu não lembro da conversa, mas nós começamos a ir atrás e a gente viu que era uma carreira boa, porque você quando entrasse na academia se tornaria um aluno, você já ia ter um salário e teria uma formação. E quando você saísse de lá você já seria oficial, já tinha um emprego, um salário, então a gente viu isso como uma coisa boa. Só que a gente não pensava em polícia militar, a gente pensava na forças armadas, então naquela época existia um curso para quem não tinha o segundo grau, hoje eu acho que não tem, eu acho que é só para quem tem o segundo grau. Então a nossa idéia era fazer o segundo grau já em uma academia militar, eu e um amigo, o Adelmo, nós começamos a estudar, mas assim, sem orientação. A gente que pegava lá os programas e procurava as matérias, porque é muito concorrido né, a gente não conseguiu entrar porque a gente não teve condição de estudar. Eu cheguei até a fazer um cursinho na época, mas mais para frente, então nas primeiras tentativas que eu fiz eu não consegui… Eu lembro que a gente ia prestar o concurso que tinha lá para 14, 15 anos, a gente ia no Ginásio do Ibirapuera e ficava lotado, todo mundo para fazer a prova, era assim, era uma vez por ano, era ao final do ano, a gente prestava para tudo, para marinha, exército, aeronáutica e se você conseguisse passar você ia para Academia.

P/1 – E uma prova só prestava para todas as forças?

R – Não, cada força tinha a sua prova.

P/1 – Separadamente?

R– Separadamente. Por exemplo, ia ter a prova da aeronáutica, era no Brasil todo, na mesma hora, em locais diferentes, todo mundo estava fazendo a prova, então a concorrência era muito grande.

P/1 – E vocês não tinham uma preferência?

R – Na época eu vislumbrava a aeronáutica, eu e esse meu amigo, aquele sonho de ser piloto, mas assim, qualquer uma que passasse a gente gostaria. Mas na época, é como eu falei, eu não tinha muita orientação porque depois que a gente foi descobrir que todo mundo fazia cursinho, cursinho específico para esse tipo de prova né? Então a gente passou um período tentando entrar, mas não deu certo, aí já nasceu um pouco essa vontade de entrar em uma academia militar vislumbrando o futuro né, uma formação, uma profissão.

P/1 – E daí você acabou fazendo o colegial onde?

R – Aí como eu era office boy, apesar de não ter entrado nessas academias militares eu tinha me preparado, tanto eu como esse meu amigo, a gente andou por um bom tempo muito junto e aí a gente pensou o seguinte: “Bom, nas academias militares nós não passamos, mas nós estamos indo para o segundo grau, vamos estudar onde?”. Então perto da minha casa tinha um colégio público muito conhecido, que era o Marquês da Cruz, a maioria dos nossos amigos estudaram lá, a gente até pensou um pouquinho mais longe, vamos entrar em uma escola técnica e aí naquela época, eu acho que até hoje se eu não me engano também, tinha o vestibular para o segundo grau, então nós prestamos o vestibular para a Escola Técnica Estadual Getúlio Vargas que é ali no Ipiranga, na Avenida Nazaré e nós dois passamos, era difícil também, mas como a gente estava estudando para entrar nas escolas militares, aí nós passamos, ele fez mecânica e eu fiz eletrotécnica na época, só que era em quatro anos, o segundo grau era em três anos, mas lá era em quatro anos e eu fiz o segundo grau na Getúlio Vargas que era puxado e trabalhando de office boy. Lá no meu emprego, em uma época, o meu irmão saiu, aí eu fui fazer a função do meu irmão, a empresa era uma empresa de niquelamento, você pega alguma coisa plástica para tornar ela prateada, chama niquelar. Era uma empresa que usava produtos químicos, só que a gente trabalhava no escritório e a contabilidade era feita por uma máquina que se chamava Shark BA 1000, era uma máquina enorme que tinha uns cartões, você enfiava o cartão ali, por exemplo, o material, um produto lá, então cada produto lá tinha um cartão, então você pegava aquele cartão, chegava na máquina e você lançava a quantidade que entrou e saiu. O meu irmão fazia essa função, aí o meu irmão saiu, aí eu deixei de ser office boy e fui fazer essa função dele e aí eu me dei muito bem, porque você ficava o mês inteiro lançando produtos e no final do mês, em um determinado dia você tinha que ver a contabilidade e as colunas tinham que bater, o que entrou e o que saiu, então dia tal era a grande expectativa, vão bater as colunas? Eram seis colunas, os números tinham que dar iguais, se eles não batessem era porque eu tinha lançado alguma coisa errada. Aí eu tinha que pegar e conferir o que eu tinha lançado no mês inteiro, era o dia inteiro lançando números. Eu me lembro que quando eu fui fazer essa função do meu irmão ficou aquela expectativa do primeiro mês: “As colunas vão bater?” (risos) aí o mês inteiro lançando, aí chegou o dia tal, que eu não me lembro: “Vamos ver a contabilidade” aí deu lá o total, a máquina começou a girar, tinham aqueles rolos de papéis imprimindo, aí eram seis colunas e eu tinha que bater de duas em duas, aí bateu tudo, aquele dia foi uma festa. Porque se não batesse, era uma semana de trabalho para tentar achar a diferença, então a minha primeira experiência ali deu certo.

P/2 – Teve alguma vez que as colunas não bateram?

R – Às vezes acontecia, aí o contador trabalhava na empresa, ele preparava umas planilhas de entrada e saída, aí eu tinha que ver o produto, pegar o produto, pegava o cartão, enfiava na máquina, lançava entrada, lançava saída, tirava o cartão, essas planilhas a gente ia arquivando e você ia imprimindo, aí tinha que pegar todas as planilhas que imprimiram, e as planilhas escritas a mão por ele e procurar, achar ali, em algum lugar, o que eu tinha lançado de errado. Porque tudo o que entrava, saía, e as colunas tinham que bater.

P/2 – No que isso te ajudou na sua vida?

R – Ah, assim, nessa faixa de idade, dos 14, 15 anos, era uma coisa que eu percebi que era uma sobrecarga para minha idade, era uma coisa a mais para minha faixa de idade, então eu acho que me ajudou intelectualmente, na parte de responsabilidade. Porque tudo na parte administrativa da empresa girava em torno de mim, eu era até explorado porque eu trabalhava há três anos nessa empresa fazendo essa função depois da escola e eu não tirei nenhuma férias. Chegou uma época que ninguém mais sabia fazer o que eu fazia, nem o próprio contador, porque ele não tinha contato com o máquina, aí ele não sabia fazer mais e aí eles não me deixavam entrar em férias, eu estava esgotado, eu cheguei para eles: “Pô, estou cansado, eu preciso entrar em férias”, “Pô, eu preciso de você e você quer sair de férias? Ou você trabalha ou eu vou te mandar embora” “Ah, então me manda embora” e aí ele resolveu que ia me mandar embora, aí ele ficava ligando na minha casa perguntando como é que fazia as coisas (risos) até o meu irmão falava: “Ah, não fala não”, mas eu falava, eu falava: “Não, não tem nada a ver. para que fazer isso?”. Então ele me ligava, porque aí quando ele me mandou embora ele que teve que ir lá na máquina fazer até ele arrumar outra pessoa, preparar, aí ele ficava lá na máquina fazendo e me ligava e eu falava para ele: “Olha é assim, assim, assado”. Aí eu tive até propostas porque quem adquiria essa máquina era o top na época da parte de contabilidade, não se trabalhava com computadores naquela época, então quem adquiria experiência nessa máquina que era a tal da Shark BA 1000 arrumava emprego em qualquer lugar, aí as outras empresas que trabalhavam com essa empresa que eu trabalhava descobriram que eu tinha saído e eles ficavam me ligando para trabalhar lá, para trabalhar em outra empresa. Mas eu não fui, porque eu vi que eu ia cair no mesmo problema, ia ser explorado. Aí eu entrei na Getúlio Vargas, comecei a fazer eletrotécnica, fiz, me formei, mas não segui carreira, não pendi para essa área técnica. Quando eu terminei o colegial eu já devia estar beirando aí os meus 18, 19 anos, talvez 20 anos, eu não sei dizer ao certo… Sempre morando na Vila Formosa, sempre com os mesmos círculos de amizade, nessa época eu não conseguia entrar nas academias militares, aí eu fiquei fazendo algumas coisas, dei uma pequena parada nos estudos nessa transição de segundo grau para a faculdade e comecei a trabalhar no banco. Eu saí de lá e comecei logo em seguida, porque assim, quando eu trabalhava na empresa, eu ia muito nos bancos, então eu criei amizades nos bancos, eu estava todo dia no banco, aí eu comecei a trabalhar como caixa no Bradesco, eu fui lá, fiz um teste e passei, porque eu tinha muita agilidade em digitar em virtude do que eu fazia. Aí eu entrei e já fui trabalhar no caixa, fiz um teste lá, me deram um bolo de cheque: “Soma esses cheques aí”. Eu somei lá rapidinho, deu certo, fiz mais algumas coisas e me admitiram. Só que eu fui trabalhar na Tobias Barreto, uma agência que tem até hoje ali no Belém e aí eu comecei a trabalhar no Bradesco. Aí eu dei uma parada nos estudos, porque a gente trabalhava nos caixas e a gente chegava cedo, o Bradesco dava uma explorada na gente, a gente chegava cedo, antes de abrir o caixa, fazia outras coisas, aí você trabalhava durante o dia que na época abria as dez da manhã e fechava as quatro e meia da tarde e depois que fechava o banco você ainda fechava o caixa e demorava. Resumindo, acabava saindo do banco quase a noite. Então nesse período que eu trabalhei no banco eu fiquei um pouco sem estudar.

P/1 – Você já tinha se formado no colégio técnico?

R– Eu já tinha me formado, aí o que acontece, eu parei por um tempo, fiquei um pouco naquela transição do que fazer e durante um período no banco eu comecei a ficar sem perspectiva, porque ou eu entrava de cabeça no banco, ia fazer uma faculdade nesse ramo e virar bancário, alguma coisa, eles já estavam até me oferecendo outras funções, de supervisor… Aí eu não aceitei, porque o caixa já saía tarde, o supervisor saía mais tarde ainda, aí que eu não ia estudar nada né? Aí eu não aceitei, pelo fato de eu não aceitar eles falaram assim: “Então você vai sair do banco”. “Tudo bem”. Aí eu fiquei desempregado por um período, eu não podia ficar desempregado, a minha família necessitava, eu necessitava, naquela época a gente precisava de dinheiro de alguma forma, eu comecei a ficar preocupado, aí eu pensei em voltar àquela idéia de entrar em uma academia militar. Aí eu comecei a estudar de novo, eu fui fazer um cursinho, eu não sei se tem até hoje, chamava Teles Pires, que é um cursinho voltado para esse tipo de vestibular. Naquele ano o meu pai me ajudou, foram alguns meses que eu fiquei só estudando, sem trabalhar. Eu prestei para a Academia Militar do Barro Branco, que é onde formam os oficiais da polícia militar, eu estava desempregado e estudando. Aí eu passei na primeira fase, que é a mais puxada, que é o exame intelectual, só que a minha média não foi muito alta, eu passei em tudo porque tinha o teste intelectual, o teste físico, o exame médico, o psicotécnico, eram várias fases e eu passei em tudo, só que naquele ano tiveram poucas vagas, eu passei mas não peguei classificação. Aí surgiu outro problema, eu estava desempregado e não tinha passado, eu tinha decidido “eu quero entrar”, então chegou naquela hora e eu decidi o que eu queria fazer: “Eu quero me tornar oficial e tal. Eu vou fazer o seguinte: eu vou entrar como soldado, porque se eu começar a fazer a escola de soldado eu começo a receber um salário (que era uma necessidade que eu tinha) e já estou no militarismo”. Mas a minha idéia não era ser soldado, nada contra as praças, eu tinha o foco muito grande em ser oficial, aí eu me inscrevi como soldado em 1987, fiz todos os testes, a mesma coisa, só que em outro nível. Passei em tudo e assim, quando você vai lá prestar para soldado são milhares de pessoas, você pega aquelas filas enormes, tudo é muito grande, muita gente quer entrar. Mas deu tudo certo, eu passei em tudo e quando você passa, até hoje, você fica aguardando para eles te chamarem e esse aguardar começou a demorar, isso estava me incomodando: “Pô, não adianta eu procurar um emprego (era difícil arrumar emprego na época) e se eles me chamarem?”. Então eu fiquei por alguns meses desesperado, sem trabalhar e aguardando, até que um dia me deu uns cinco minutos e falei: “Eu vou lá” a minha mãe me pressionando: “E aí?”, eu falei: “Eu vou lá”. Eles: “Aonde?” – “No Centro Administrativo, ali na Cruzeiro do Sul”, onde é até hoje, a gente chama de panelão e eu assim, civil, novo, eu falei: “Eu vou lá ver o que está acontecendo, eu não sei nem o que eu vou falar”. E o meu pai era militar, mas nessa época ele já tinha se aposentado, tem muito tempo que o meu pai se aposentou, eu entrei lá e fui perguntando, eu falei: “Olha, eu fiz exame e não me chamam” falaram: “Vai lá” – “Onde?”- “Na seleção” eu fui entrando e falei: “Olha, eu fiz o exame e eu queria ver se aconteceu alguma porque não me chamam para fazer escola”. Aí eles me apresentaram para um sargento que cuidava disso, eu expliquei a situação para ele, eu falei: “Olha, eu fiz os exames há tanto tempo, até onde eu sei eu passei em tudo, só que não me chamam e eu queria saber”... Aí ele pegou os meus dados, levantou lá, conferiu que eu tinha feito os exames, viu que estava tudo certo, aí ele explicou, em Pirituba tem uma escola de soldados muito grande, então eles estavam juntando um grupo muito grande, mil e quinhentos alunos, para começarem juntos, por isso que estava demorando, porque eles estavam fazendo a seleção e eu entraria nesse grupo, eu fui lá em uma sexta-feira, aí ele pegou e falou assim para mim: “Só que tem uma escola que começa na segunda-feira, só que é em Mogi das Cruzes, que é o 17º Batalhão de Polícia, você quer entrar lá?” eu falei: “Olha, eu vou para qualquer lugar”. Então ele me deu uma ficha e falou: “Então está aqui, se apresenta lá em Mogi das Cruzes na segunda-feira em tal hora”. Aí eu fui embora contente, sem noção porque eu morava na Vila Formosa (risos), aí eu cheguei em casa com uma solução, digamos assim: “Ó eu vou começar na segunda-feira, eu fui lá e deu tudo certo. Ele me encaixou nessa escola, mas é para chegar em Mogi das Cruzes, era segunda-feira, eu acho que seis horas da manhã.” Aí que eu fui ver, eu tinha que pegar o primeiro trem ali no Tatuapé, o trem saía do Brás e para eu pegar o primeiro trem eu tinha que acordar às três horas da manhã. Eu sempre fui meio independente (devido ao fato de eu começar a trabalhar muito cedo, eu sempre fui independente nesse sentido), então o que eu fiz, naquela época que já tinha feito dezoito anos, fui a autoescola para tirar carta de motorista, então eu fui lá, fiz os exames, passei, tirei a minha carta, quando eu o meu pai foi ver eu já estava com a CNH, aí eu falei para o meu pai: “Eu vou comprar um carro”. “Mas como você vai comprar um carro?”. Nem o meu pai tinha carro: “Eu vou comprar um carro velho, eu não sei, vou comprar qualquer carro aí”. Aí o meu pai como estava aposentado mexia com revenda de carros, ele falou: “Não, então calma que eu vou te arrumar um carro” aí ele me arrumou uma Brasília bem antiga, enferrujada, foi o meu primeiro carro, eu não me lembro o ano dela. Eu nem sabia dirigir direito e tinha a Brasília, mas na realidade ela ficava mais na garagem, o meu pai dirigia, então era com essa Brasília que ele me levava até a estação porque nesse horário não tinha ônibus, então ele tinha que me levar de carro até a estação, eu morava na Vila Formosa e a estação era no Tatuapé, então quando eu chegava na estação só tinha eu, eu pagava lá e ficava na estrada, só eu, sozinho. E vinha esse trem que saía do Brás, ele era o primeiro trem, eu pegava e como o trajeto ali era perigoso, havia muito roubo no trem e tudo, então todos os alunos soldados na época, que nós ficaríamos no primeiro vagão, então a gente se unia porque a gente usava o cabelo máquina zero, eram quatro dedos, quatro dedos era raspado e a gente na época, como é até hoje, o aluno soldado ele usa calça jeans, camiseta branca e um tênis preto, até ele receber a farda é esse uniforme, então os marginais sabiam que a gente era soldado, a gente ficava unido porque podia de repente acontecer alguma coisa.

P/2 – Mas e esse primeiro dia?

R – Então, no primeiro dia o meu pai me levou.

P/2 – Você descobriu que não seria tão fácil?

R – Não seria tão fácil, aí eu fiz os cálculos lá, peguei o primeiro trem e fui, era lá em Mogi das Cruzes, mas era no bairro do Cocuera e esse bairro é afastado do centro, então você chegava ao centro de Mogi das Cruzes e tinha um ônibus fretado pela polícia que levava os alunos soldados para esse bairro que era uma escola municipal que foi transformada em escola de soldado, só que quem transformou essa escola municipal em escola de soldado fomos nós, nós que pintamos, nós que fizemos tudo, nós fizemos a pista de aplicação, o que é a pista de aplicação? É onde tem aqueles obstáculos para você fazer os exercícios militares, túnel, ferros, passar por cima, pular, então fomos nós que montamos tudo e aí quando eu cheguei lá nessa escola, que eu peguei o ônibus com eles, esse grupo de alunos soldados já estava lá há dois, três meses, porque eles foram chamados antes para construir a escola e eu cheguei na época que faltava uma semana para começar o curso, eu fui apresentado na hora que ia começar o curso, então eu fiquei uma semana trabalhando com eles sem ter aula e aí começou o curso, então a gente ali, alunos soldados, todo mundo muito simples e era um grupo de 120 alunos.

P/2 – Você estava com quantos anos nessa época?

R – Eu estava com 22, 23 anos. Então esse curso de aluno soldado foi um curso para 120 alunos, então eram três pelotões, cada pelotão com 40 pessoas; foi um curso de seis meses e assim, a escola não tinha alojamento para quem quisesse ficar alojado, então tinha que ir e voltar todo dia, então foi outra situação bem puxada para mim, porque eu acordava por volta de três horas da manhã, ia lá, assistia a aula, não era o dia inteiro, a gente ficava lá até duas, três horas da tarde e aí eu voltava e o que eu fazia? Eu estudava, porque aquele ano – isso aí foi em 1988 – era um ano político, eu falei: “Ó, já que eu vou entrar como soldado, de preferência eu não vou trabalhar na rua com policiamento, eu quero ir para o corpo de bombeiros fazer outra atividade”. Mas aí com o decorrer da escola a gente percebeu que todas as escolas daquele ano iam para o policiamento, para reforçar o policiamento, para ajudar o governo, porque era um ano de eleição e a minha turma inteira, os 120 alunos iriam para a zona sul, que na época era a zona que estava mais violenta em São Paulo. Aí todo mundo ficou: “Caramba! Nós já vamos lá para zona sul?” Tipo: Jardim Ângela, Vila Sônia, tanto que quando a gente se formou, logo de cara já morreram alguns.

P/1 – Os formandos? Os seus colegas morreram?

R – Morreram alguns já em confronto com marginais e aí qual foi a minha saída? Eu falei: “Só tem uma saída, os três primeiros colocados vão poder escolher para onde querem ir” porque toda escola é assim, todo curso é assim, a minha alternativa foi estudar, aí o que eu fazia? Eu ia de manhã, assistia às aulas, chegava em casa e estudava, então eu já entrei em uma clausura a partir daí, me afastei dos meus amigos, na realidade assim, até quando você se torna militar, hoje talvez nem tanto, mas naquela época você já era um pouco excluído, então eu já me afastei bem dos meus amigos e comecei a estudar, foi uma engraçada nessa escola porque eram três pelotões e durante as provas que você vai tendo durante o curso os alunos ficam olhando as notas dos outros e o pessoal começava a falar: “Fulano de tal vai ser o primeiro colocado”, o outro: “Não, vai ser do meu pelotão” aí ficaram três pessoas nessa situação que poderiam ser os primeiros colocados, cada um de um pelotão e criou-se uma rivalidade muito grande porque cada pelotão era comandado por um sargento e um cabo auxiliar, aí ficou aquilo, ficou aquela briga. 

P/1 – Você estava entre os três?

R – Eu estava entre os três, só que eu era de um pelotão e os outros era cada um de um, só que assim, durante o curso eu tirava as minhas notas altas, eu acho que durante o curso todo eu tirei um dez, só que eu mantinha aquela média alta e os “meus concorrentes” eles tiravam muito dez, mas de repente tiravam uma nota mais baixa e ninguém sabia quem ia ser o primeiro colocado, eu queria ficar entre os três ali, mas: “Vamos ver o que vai acontecer” até que chegou o último dia de aula, a gente ia se formar, estavam lá os 120 alunos, alguns tinham saído, mas tinham entrado outros, porque durante o curso tem uma investigação e algumas pessoas não tinham aptidão para ser militar.

P/1 – Que tipo de investigação?

R – Uma investigação social, pessoal, eles investigam a sua vida inteira durante o curso, se tiver alguma coisa que te desabone durante o curso você é desligado, mas ninguém fala nada, eles falam assim: “A partir de hoje você está desligado”. Às vezes não ficava nem sabendo por que, então acontecia isso daí algumas vezes. E chegou o último dia de aula e eu me lembro que quem comandava a escola era um capitão, o Capitão Oliveira, aí ele pegou com os outros oficiais e falou: “Nós vamos falar a classificação de todos os alunos, só que nós vamos falar de trás para frente (risos) nós vamos começar do 120 até chegar no primeiro” e nós lá, os três pelotões, todo mundo em pé.

P/1 – Quantos passaram?

R – Permaneceram 120, saíram alguns, entravam outros, vinham transferidos de outra escola, mas no final formaram 120 alunos.

P/1 – Mas da classificação?

R – Não, dos 120 alunos ninguém foi reprovado, é muito difícil um aluno ser reprovado, até existe, mas é muito difícil; o que foi puxado na escola é que assim, eles queriam que esse curso fosse interno, só que eles não tinham acomodações para todo mundo, então uma forma que eles acharam de segurar a gente na escola era você puxar muito serviço, 24 horas, então durante uma semana eu ficava pelo menos três dias lá por 24 horas, dava plantão de portão, plantão do fundo do terreno, plantão do banheiro (risos), plantão do alojamento, então pelo menos umas três vezes por semana eu dormia lá.

P/1 – O que aconteceu?

TROCA DE FITA

R – Aí eles começaram a falar a classificação dos 120 alunos, aí começou, falou todo mundo até que chegou nos três primeiros, o meu nome ainda não tinha falado e nem aqueles outros dois que eram os três que estava ali: “Vamos falar o terceiro colocado” aí foi a expectativa né? Eu não lembro o nome deles, aí falou o terceiro, não era eu, era um do outro pelotão, aí os outros dois pelotões pularam e tal, aí o outro pelotão: “Ah tudo bem e tal” aí falou o segundo colocado e também não era eu, aí quando ele falou o nome do segundo colocado o meu pelotão me pegou e começou a me jogar pro alto, foi uma festa né? E aí eu fui o primeiro colocado nesse curso, aí podia optar, eles queriam muito que eu ficasse lá: “Não, você é o primeiro colocado, você tem que ficar aqui no policiamento de Mogi das Cruzes” eu falei: “Não, aqui é muito longe para mim, não dá” aí eu optei pelo corpo de bombeiros, até o meu pai conheceu o capitão, o Capitão Alcântara, ele trabalhava no 1º Grupamento de Bombeiros, que naquela época era agrupamento de incêndio, tinha uma separação, GI – Grupamento de Incêndio – e GBS – Grupamento de Busca e Salvamento – e eu fui para o GI, na área de incêndio, aí ele falou para o meu pai: “Fala para ele escolher os bombeiros que eu puxo ele para trabalhar aqui comigo”. Aí eu optei ir para os bombeiros e eu fui trabalhar com ele, ele trabalhava no Primeiro  Grupamento de Incêndio no posto da Consolação e eu fui para lá já, isso em 1988 e estudando porque o meu foco era Academia de Oficiais, então eu cheguei lá em 1988, comecei a trabalhar, fiz até um curso como soldado na área de bombeiro, no período de adaptação e aí chegou o fim do ano, aí eu fui fazer inscrição para entrar na Academia, só que como não tinham publicado ainda a minha a transferência, eu tinha que pegar a autorização lá em Mogi das Cruzes e aí eu fui lá pegar essa autorização, aí o capitão que tinha comandado a escola não queria deixar eu me inscrever porque ele falou assim: “Pô, você acabou de se formar soldado, já quer ir para Academia? Não vou autorizar”. Aí me deu um desespero, porque eu já estava estudando que nem louco, aí ele não assinou, porque tinha que assinar a autorização para eu poder me inscrever, todo militar tinha que pegar a autorização do superior, como eu tinha sido transferido, mas não tinha lá publicado eu tinha que pegar lá com ele, aí eu voltei para São Paulo, falei com o Capitão Alcântara, aí ele ligou para o outro capitão, os dois até se desentenderam, ele falou assim: “Vai lá que ele vai assinar” eu falei: “Eu estou perdido né?”. Aí eu fui lá, falei com ele, ele pegou, olhou para mim, assinou, não falou nada, deu um sorriso e eu fui embora. 

P/2 – Você tinha entrado para o Corpo de Bombeiros... 

R – Eu era soldado no Corpo de Bombeiros.

P/2 – Você era soldado dentro do Corpo de Bombeiros?

R – Soldado dentro do Corpo de Bombeiros.

P/2 – É uma função à parte da Academia?

R – A Academia é um concurso, é uma Academia de Oficiais. Quem pode entrar nessa Academia? Tanto militares como civis, mas eu já era militar.

P/2 – Você tem algum privilégio por ser militar ou não?

R – Não, você faz todas as provas iguais, só que eu como era militar, todo o exame que o militar faz ele tem que pedir autorização para o superior, e como não tinham publicado a minha transferência eu tive que pedir autorização lá em Mogi, eu já tinha sido transferido, mas era como se eu pertencesse a Mogi das Cruzes e aí esse capitão não queria deixar. 

P/1 – Você sabe o motivo? Por que você era muito recente na polícia?

R – Ele alegou isso aí: “Não, trabalha um pouco aí, mais para frente você pode ser oficial”. Só que eu estava esperando, mas aí ele assinou, eu fiz a inscrição. Só que naquela época eram dois exames, porque tinha um curso preparatório de oficiais para quem não tinha o segundo grau e o curso de formação de oficiais para quem tinha o segundo grau, quem já tinha o segundo grau fazia o curso de formação em três anos, quem não tinha o segundo grau fazia em cinco anos, como eu já tinha segundo grau o que eu fiz? Eu me inscrevi para os dois. Porque você podia se inscrever para os dois. Se eu não conseguisse em um, de repente eu entrava no outro, aí eu já estava lá dentro. Só que como eu me inscrevi em Mogi, o concurso era feito lá, então no dia da prova eu tive que ir lá em Mogi e era assim, de manhã eu prestava um concurso para um e a tarde eu prestava para o outro, no outro dia eu voltava para fazer a redação de manhã e à tarde fazia para o outro, aí eu fiz os dois concursos dentro da polícia para quem tem o segundo grau e para quem não tem, aí saiu o resultado, aí eu tive que ir lá em Mogi para ver o resultado, porque o resultado saía no batalhão em uma lista, só que o resultado era da cidade toda, envolvia militares e civis. Aí tinha uma lista lá do curso preparatório de oficiais e curso de formação de oficiais, tinha uma lista de cinco, seis em cada um e o meu nome estava nos dois, ou seja, eu tinha passado nos dois. Aí a gente foi para a segunda fase, que era o exame físico, psicotécnico, de saúde. Saiu o resultado da segunda fase, eu fui lá em Mogi para ver se eu tinha entrado e aí só estava o meu nome, ninguém mais da cidade passou e eu tinha passado no curso de formação de oficiais que era para quem já tinha o segundo grau que era para fazer o curso em três anos. Aí foi uma felicidade, eu trabalhava na Consolação, eu era o soldado mais recruta, quando saiu o resultado eu passei a ser aluno oficial, então eu passei de soldado mais recruta, eu estava acima do subtenente, do dia para noite, eu dormi e no outro dia eu era aluno oficial.

P/2 – O oficial já tem uma...

R – É, ele está entre o sub-tenente e o aspirante, eu estou acima do subtenente, um dia antes eu era o soldado mais recruta e no dia seguinte eu era aluno oficial, aí foi aquele choque né? Eu cheguei lá no posto e sub-tenente prestando continência para mim como se um tenente fosse prestar continência para ele, todos os sargentos, de repente foi aquela transformação e aí eu fui para a Academia em Janeiro de 1989, entrei no primeiro ano da Academia.

P/1 – Aí parou de trabalhar? Só estudou?

R – Só estudei, só que assim, é regime de internato, você dorme lá.

P/1 – Onde é essa academia?

R – É lá zona norte, na Água Fria, é enorme, Academia de Oficiais do Barro Branco.

P/1 – Ah, a Barro Branco! Você entrou no Barro Branco.

R – No Barro Branco.

P/1 – Ah tá!

R – Eu era soldado aí eu passei no Barro Branco.

P/2 – Como era a vida dentro da Academia?

R – Ah, então, os cursos militares tem uma fama de exigir muito fisicamente e como eu tinha passado para uma escola de soldados que tinha sido relativamente puxada, a gente ficava no meio do mato com o sargento, o sargento “judiava” da gente, então na Academia teve um período que a gente chama de quarentena, você fica um período sem sair, que é para você se adaptar no começo do primeiro ano e nesse período você é bem exigido, os famosos ralos digamos assim, mas para mim foi tranquilo pelo fato de eu ter passado pela escola de soldados. E aí você começa a estudar, então na minha turma tinham cento e oitenta alunos oficiais, cadetes, então nós éramos em seis pelotões de trinta. A Academia é dividida em companhias, então tinham três companhias, porque tem os alunos do primeiro, do segundo e do terceiro ano, depois durante o meu curso que se criou o quarto ano, porque quando eu entrei não tinha quarto ano, então cada companhia se dividia em alunos de terceiro, segundo e primeiro ano. E existe uma hierarquia, o segundo, o terceiro, eles são superiores à gente. E você vai tendo funções de acordo com o seu ano, o primeiro ano, por exemplo, ele é sentinela em tudo, corredor, o segundo ano já faz uma função de ronda, não tem hora para ficar parado, fica só rondando, e o terceiro ano já assume uma função mais de comando. E lá dentro você estuda, então você tem aulas de muitas matérias voltadas para a área de direito e muitas matérias profissionais e na época, hoje está um pouco diferente, só podia entrar casado se você fosse militar, então se você fosse militar casado você era externo, você podia ir embora, eu era solteiro, então eu era interno, e os civis todos internos. Então você estudava o dia inteiro, fazia atividade física, as matérias profissionais e a noite tinha o tal do turno noturno, então a partir das oito horas você era obrigado a ir para sala de aula estudar. Eles exigiam bastante, a formação é bem complexa e ali eu voltei a me enveredar na parte de esporte, aí eu comecei a praticar atletismo e assim, quando você é titular em alguma modalidade você tem alguns privilégios, por exemplo, você vai competir nos outros estados. Na época eu fazia lançamento de dardos, eu viajei para vários estados do Brasil e tinha um horário diferenciado, porque a gente ficava treinando até a noite. Então eu vislumbrei isso aí também, pelo menos um pouco de privilégio para me ajudar, aí eu me enveredei para o lado do atletismo e o curso todo praticamente, além de estudar eu fiquei na parte de esportes.

P/1 – No fim de semana saía? Tinha folga? Ia para casa, saía, se divertia?

R – Fim de semana saía, se divertia se você não tivesse serviço, porque tinha uma escala de serviço, e se você também não tivesse algum problema disciplinar porque lá nas escolas militares tem um negócio que chamam de LC (Licenciamento Cassado). Então vamos supor, você está com a bota suja hoje, aí você recebe uma anotação, se você receber mais uma anotação do mesmo problema você já não vai sair na sexta, vai sair no sábado de manhã, se você receber mais uma do mesmo problema você já não vai sair no sábado de manhã, você vai sair no domingo de manhã, se você receber mais uma, tudo do mesmo problema, aí você já não vai mais embora, você vai emendar o final de semana entendeu? Era assim, isso aí tem até hoje em todas as escolas, de licenciamento cassado individual eu praticamente não fiquei, geralmente eu acabei ficando de licenciamento cassado quando era coletiva, acontecia alguma coisa e o comandante da escola: “Ninguém vai embora”. Aí por essas situações eu passei. Aí eu ia embora para o final de semana e tinha as férias escolares, tinham as férias de Julho e as férias do final do ano né? Então, era como uma escola normal, só que você ficava interno. Durante o curso tinham muitas operações militares, Operação Paranapiacaba, uma operação que você fica durante uma semana, Operação Litoral Norte, então todos os cadetes iam para o litoral e ficavam fazendo policiamento, então é muito voltado para o lado do policiamento.

P/2 – A Academia do Barro Branco era para formar militares da aeronáutica, da marinha ou não?

R – Não, só oficial da polícia militar.

P/2 – E bombeiro? Ou não?

R – Na minha época criou-se o quarto ano, quando eu estava fazendo o curso criaram o quarto ano, o que seria o quarto ano? O quarto ano seria já para especializar os oficiais em determinadas áreas e o bombeiro é uma área especializada dentro da polícia militar, então o que aconteceu na minha turma? A minha foi a segunda que fez o quarto ano, quando chegou do terceiro para o quarto ano teve que separar, não tinha vaga para outras especialidades, o que seria? Trânsito, choque, florestal, não tinha vaga, só ia ter vaga para o bombeiro, então nós éramos em seis pelotões, quando passasse do terceiro para o quarto ano, cinco pelotões iam ser voltados para o policiamento e um pelotão ia para o corpo de bombeiros, só que a gente tinha que prestar um exame do terceiro para o quarto ano, esse pelotão era de trinta alunos.

P/2 – E você queria bombeiros?

R – Eu queria.

P/2 – Por quê?

R – Por que eu queria evitar o policiamento para o lado mais violento, eu queria evitar esse lado do policiamento, a gente ouvia muito de fora e eu sentia que eu tinha mais pendor para o lado do corpo de bombeiros, que eu tinha chance de ir soldado… Tinha outra situação que eu estava em dúvida, se tivesse o choque talvez eu gostaria de ir para o choque, que é um serviço mais aquartelado, você não fica tanto na rua, você sai para determinadas missões, é outra coisa que eu estava pendendo também, mas o que aconteceu? Só teve vaga para o bombeiros, só que para ir para o pelotão de bombeiros a gente tinha que prestar um concurso. Dos cento e oitenta, quem quisesse fazer o exame para pertencer ao pelotão dos bombeiros, cem queriam ser bombeiros (risos) e aí nós fizemos o exame interno, que foi o exame em que foi exigida a parte física, não tanto a parte intelectual. E como eu treinava muito, então eu não tive muito problema. Aí eu fiz parte desse pelotão de bombeiro, eram cinco pelotões de policiamento e um de bombeiro. Então durante o quarto ano a minha formação foi toda de bombeiro, eu ia uma vez por semana na Academia fazer as matérias que eram comuns ao do policiamento e o restante da semana eu ficava ali na Praça da Sé tendo aula, a Escola de Bombeiros era na Sé, já aprendendo as matérias de bombeiros. Aí o meu curso, como ele foi comprido, eu não tive férias, porque houve essa transição de três para quatro anos, o meu curso foi em três anos e oito meses. Aí em agosto de 1998 eu me formei na Academia, quando a gente se forma a gente passa a ser aspirante a oficial e de agosto a dezembro eu continuei estudando só nos bombeiros, aí quando chegou em dezembro eu me formei, então era uma coisa que não acontece mais hoje. Em dezembro eu era aspirante com o curso de bombeiros para oficiais, que é o que chama de CBO – Curso de Bombeiros para Oficiais – aspirante com o curso, porque hoje o que acontece? Se um oficial, os tenentes, quiserem ser dos bombeiros eles têm que prestar um concurso que é uma vez por um ano, se eles passarem eles têm que fazer o curso de um ano para depois vir para o corpo de bombeiros. Então ele já vem para cá, segundo o tenente antigo ou o primeiro tenente. Eu não, na época eu já era aspirante com o CBO e quando você se forma você vai ver onde tem vaga para trabalhar e durante o meu curso ficou aquela indecisão: “Vai ter vaga em São Paulo ou não?”, “Talvez tenha que ir para o interior”. Mas aí tinha vaga, de acordo com a situação do curso você escolhe, eu escolhi na época o 2º GI, eu morava na zona leste, mas na minha área não tinha vaga, aí eu escolhi o 2º Grupamento de Incêndio, que pega aquela área da zona norte, zona oeste e um pedaço do centro, que é a sede que fica ali na Barão de Piracicaba né?

P/2 – Aí você finalmente entrou?

R – Finalmente, já oficial.

P/2 – E aí quais eram as funções?

R – As funções são outras totalmente diferentes, você assume uma função de comando né? Então o oficial quando chega no corpo de bombeiros, geralmente quando termina o curso, vai para uma unidade operacional, dificilmente ele sai do curso e vai para uma unidade administrativa. Então eu fui para essa unidade, o 2º Grupamento de Incêndio, que é até hoje uma unidade muito grande, uma área muito grande e uma das áreas que tem mais ocorrências, é uma área que sempre tem muitas ocorrências, e ali eu trabalhei por sete anos.

P/2 – Qual foi a sua primeira experiência que mais te marcou no período inicial?

R – Então, como eu cheguei lá como aspirante, quem comandava era o Coronel Dylon, então eu fui comandar um posto que é a tendência do tenente quando chega, eu era aspirante, mas já me chamavam de tenente, aí eu fui comandar aquele posto de Santana que fica ali na  Avenida Brás Leme. Era um posto pequeno, mas era um posto estratégico pela localização, e eu não tinha experiência de lidar com a tropa e o pessoal muito antigo, sargentos antigos, as praças antigas, então nesse começo de carreira a gente erra muito, a gente erra de comando, então com o tempo, com a experiência até de trabalhar em um lugar que era muito movimentado, então o período que eu fiquei ali, que eu fiquei no 2º Grupamento, eu fiquei sete anos, então foi um período que contou muito na minha carreira porque eu errei bastante trabalhando, mas aprendi bastante a lidar com as pessoas, a nível de comando.

P/2 – Qual foi a ocorrência marcante nesse período em que você estava no comando.

R – Ah, o 2º Grupamento é famoso por ocorrências, inclusive nesses sete anos eu fiquei por três anos na Casa Verde, ali é um posto que tudo de ruim acontece ali, então nesse período de sete anos teve aquela explosão do shopping de Osasco em que morreu bastante gente, mais de cinquenta pessoas, teve uma queda de um avião ali no Campo de Marte, inclusive a gente estava no posto de Santana, o avião foi decolar e já caiu, nós pegamos a viatura, chegamos… Então a gente chegou a ver ainda os corpos se movimentando e queimando, foi uma coisa assim que você não conseguia tirar, eram seis pessoas e as seis morreram.

P/2 – O que isso representou para você na sua formação?

R – Assim, eu graças a Deus eu sempre fui muito profissional nesse sentido, eu sempre me desliguei bastante, as ocorrências que me chocavam assim eram mais ocorrências que envolviam crianças. Fora isso, graças a Deus eu consegui separar bem as coisas. Uma ocorrência que marcou muito a minha carreira foi a ocorrência dos Mamonas Assassinas. Eu comandava o posto da Casa Verde, que foi o primeiro que chegou lá e eu estava próximo ali do quartel porque eu morava na zona oeste. Naquela época a gente usava o bip [pager], então a gente nunca fica incomunicável, então quando caiu o avião eles me biparam, eu liguei pro posto e eu cheguei rapidamente no posto, peguei uma viatura e fui lá para Serra da Cantareira, ali na Avenida Coronel Sezefredo Fagundes, a avenida onde tem uma pedreira, que é onde a gente sabia que tinha sumido um avião, mas até então ninguém sabia que era o avião dos grupo Mamonas Assassinas, os cantores. Nós escalamos o morro, só que era muito perigoso porque tinha uma neblina e como era pedreira tinha uns paredões e era muito alto e você não via aonde você estava andando, aí o Coronel Edson, que na época era capitão falou assim: “Vamos parar porque daqui a pouco nós vamos cair em um buraco”. A gente estava no meio da neblina, mas a gente estava sentindo o cheiro do combustível do avião, e aí nós paramos e voltamos, descemos e montamos uma base embaixo. E aí chegou na época a namorada do Dinho, que era o principal, porque ela estava no aeroporto e lá o avião estava descendo, aí ele abortou a descida, subiu de novo e sumiu, aí ninguém sabia mais do avião e aí surgiu o comentário que esse avião tinha caído lá na zona norte. Aí ela foi para lá, aí ela chegou e nós começamos a ligar uma coisa a outra, que talvez fosse o avião deles… Aí quando deu cinco horas da manhã, o helicóptero da Globo apareceu e eles conseguiram iluminar ao ele deu a primeira batida, porque em cima formava um platô, aí o que ele fez? Ele veio desse platô e arrancou toda a vegetação e depois o morro descia, aí o que ele fez? Ele passou arrancando a vegetação, ele pegou e voou mais um pouquinho e depois caiu no meio das árvores, aí sumiu. Então o helicóptero da Globo visualizou onde ele arrancou essa vegetação e ele ficou ali iluminando, aí nós subimos de novo, chegamos lá aonde mostraram para gente e aí nós começamos a descer o morro, aí nós começamos a ver pedaço de avião pelas árvores, mas assim, o avião foi se desmanchando no morro, até que a gente achou o primeiro corpo, eles eram em nove né, juntando o grupo, segurança, piloto e co-piloto, a gente achou o corpo do piloto parcialmente inteiro, próximo dele estava o do co-piloto e aí nós começamos a procurar os outros corpos, mas eles estavam muito separados e sem membros, se achava um braço aqui, uma perna ali, o tronco, aí a gente foi juntando, chegou uma hora em que a gente não sabia o que era de quem.

P/1 – Juntavam no local?

R – Começamos a juntar no local, e ali aconteceu um fato interessante, porque um soldado levou uma máquina fotográfica e ele bateu algumas fotos, nós não deixamos a imprensa chegar perto. Primeiro porque o local era perigoso, e segundo porque tinha corpo espalhado para todo lado, tinha perícia, o que aconteceu? Ninguém tinha fotos, aí a gente foi tomar consciência de que existiam essas fotos e ele revelou e aí as fotos rodaram o mundo todo, as pessoas imprimiam as fotos e vendiam na rua, virou um comércio e eu estava nessas fotos junto com os corpos. A gente tinha achado todos os corpos e faltava um, que era o do Dinho. E aí a população já estava mais próxima da gente, a gente isolou uma área, eu lembro que chegou uma pessoa para mim e falou assim: “Ó, eu vi um braço no morro, lá em cima”. E a gente procurando, aí eu falei para ele: “Não fala para ninguém, porque eu vou juntar mais alguns e nós vamos lá”. Aí eu juntei mais uns quatro, nós subimos, aí ele mostrou no barranco, lá embaixo, aí eu vi o braço, aí a gente pegou e fez uma corrente, os bombeiros, um deu a mão pro outro e eu fui o último, porque eu ia pegar o braço, eu era tenente, só que quando eu peguei o braço eu vi que estava pesado, não era só o braço, tinha uma vegetação assim, eu falei: “Ó, segura forte aí porque não é só o braço. E aí quando eu comecei a puxar era o corpo do Dinho, na realidade só tinha o braço e o tronco, ele não tinha as duas pernas, não tinha o outro braço e não tinha a cabeça, aí eu puxei e ele estava com uma bermuda, aí o tio dele encostou lá e perguntou: “Esse é o Dinho né? Porque essa bermuda ele estava usando ontem a noite”. E aí a gente recolheu o último corpo, nós juntamos lá, aí tivemos que cortar as árvores para os corpos saírem de helicóptero porque o helicóptero da polícia jogava a corda, nós embrulhamos eles todos em lonas, a gente amarrava e tirava um por um, descia e assim foi com todos os corpos.

P/2 – Foi uma das ocorrências mais difícil para vocês?

R – Foi cansativo até achar.

P/2 – No sentido técnico?

R – Não foi uma coisa assim tão difícil, mas foi uma coisa que marcou bastante em virtude do âmbito nacional com que as coisas aconteceram, e nessa época eu estava fazendo faculdade de fisioterapia e praticamente poucos sabiam que era do corpo de bombeiros, quase ninguém sabia, eu não falava, eu não andava fardado.

P/1 – Poucos na universidade?

R – Na Universidade Bandeirantes eu fazia fisioterapia, eu estava no segundo ano e aí o que aconteceu? Saíram essas fotos para todo lado, aí eu andava na faculdade e as pessoas apontando para mim, saiu no jornal, saiu para todo lado, aí todo mundo descobriu que eu era do corpo de bombeiros e que estava na ocorrência.

P/1 – Foi assediado?

R – Então, a faculdade virou um alvoroço, eu tive até que dar uma palestra, aí eu fui fardado pela primeira vez na faculdade, eu dei uma palestra sobre esse resgate, foi bastante interessante, então foi uma coisa que marcou bastante e como marca até hoje. Eu até tenho as fotos, eu não deixei nem os meus filhos verem, está lá guardado em um bloquinho de recordação, é uma coisa que até hoje muitas pessoas me encontram e falam: “Ah eu me lembro de você na época dos Mamonas”.  Então o 2º Grupamento foi uma unidade que realmente tinha ocorrências, muito incêndio na região do centro, situações misteriosas, até com risco de vida, essas coisas, mas aí são muitas ocorrências. 

P/1 – Você como oficial tem algum privilégio nas ocorrências, assim, de não ter tanto risco de vida?

R – Ah sim, eu vou falar como tenente, não como capitão. O tenente ele tem uma função que a gente chama de guarnição de exploração, então geralmente quando ele chega na ocorrência ele tem a missão de entrar junto com a guarnição dele e avaliar o local, então não deixa de ser um privilégio, tem um risco, porque se não explodiu é capaz de explodir, se não caiu, está para cair, mas dificilmente um tenente se acidenta, aliás o bombeiro em si dificilmente se acidenta, a gente toma muito cuidado, mas assim, o tenente não tem muito privilégio não, ele está sempre junto para dar instruções, porque nos bombeiros o tenente tem essa obrigação de estar presente, apesar de ter essa função de comando, de administrar a ocorrência, ele está sempre perto, ele está administrando, mas está junto, é um pouco diferente da função do capitão.

P/1 – Nesse processo como tenente você tem formação? Você vai, tem que fazer algum resgate, uma prova? 

R – Ah sim, tem vários cursos...

P/1 – Tem algum que te marcou nesse processo?

R – Ah, eu fiz vários cursos, eu não vou citar todos aqui, mas tem um que me marcou bastante. Foi quando eu fiz o curso de mergulho, que dentro do corpo de bombeiros ele é um dos mais exigentes, então para você fazer a bateria de exames dele já é muito grande, tanto o teste físico como o lado de saúde, se você não tiver perfeito a nível de saúde você já não faz o curso, até a nível de vias aéreas, para você poder suportar as pressões. E o curso de corpo de bombeiros é feito com os moldes da marinha, então os mesmos testes aplicados no curso da marinha, eles são aplicados durante o curso de mergulho e assim, o curso de mergulho todo dia é um teste, então você está fazendo o curso, se você hoje não conseguiu vencer aquele obstáculo você está desligado. Então o meu curso começou com trinta e três pessoas e terminou com treze pessoas. Ou fica doente ou não passa nos testes e assim, no corpo de bombeiros só pode mergulhar quem tem o curso de mergulho.

P/1 – Esse certificado?

R – O curso de mergulho.

P/2 – Você pode contar um pouco para gente como é? Como foi?

R – O curso hoje é em menos tempo, ele é em um mês e meio, quarenta e poucos dias, mas o meu curso foi em dois meses e meio. Ele tem uma etapa que é na piscina, só que o curso de mergulho autônomo com cilindro de ar comprimido para você realmente descer. Então no começo do curso é muito exigida a parte de apnéia, você quase não mergulha com equipamento, você mergulha em situações diversas ou seja, você vai aprender a respirar direto do cilindro, sem equipamento, você vai aprender a respirar com a mangueira cortada, você vai aprender a respirar em uma válvula que está com defeito, então você sofre muito nesse período da piscina e esse período você faz ele praticamente todo sem enxergar, você usa uma máscara vendada, até durante o curso você fala: “Pô, mas esse curso é para cego né? Eu não enxergo nunca, como eu faço sem enxergar?”. Você não olhava muito, na apnéia, sem enxergar, em contato com a borda para você não se perder, você vai encontrando os equipamentos, vai respirando… Então todos os dias é um obstáculo: “Hoje vai acontecer isso” e você tem que conseguir e durante o curso tem vários testes, testes famosos, que são aqueles testes que você tem que se preparar muito, se você não passar você está desligado. Tem o teste de piscina que a gente chama de carrossel de fogo (risos) que é um teste onde são colocadas muitas bases dentro da piscina, cilindros dessa forma, cilindros com a mangueira e você vai passando de um para o outro respirando e você vai se equipando, ou seja, você vai para o primeiro cilindro, coloca a mangueira e respira, sem enxergar, é tudo na borda, você vai mergulhando com a mão e encostado na borda, aí você vai para o próximo cilindro e coloca na mangueira e respira um pouco, sem subir, você não pode subir, se você subir uma vez você começa tudo de novo e se você subir de novo você está desligado, isso aí é depois de um mês de curso. Aí você faz todas as bases, no meu curso o carrossel de fogo tinha 26 bases, então eu tive que passar por 26 bases até poder subir e quando eu subi, eu subi todo equipado, aí terminava, era uma das provas. Tem outro teste que é pior, a gente chama de teste tanque, é um tanque de seis metros de profundidade por dois metros e meio de diâmetro, onde você desce todo equipado, só que vendado, sem enxergar, equipado como? Com máscara, nadadeira, cilindro e válvula. Dois instrutores vem trabalhar em cima de você, seria um tempo aí de doze a quinze minutos, onde eles fazem de tudo com você, tiram o seu equipamento, fecham o cilindro, arrancam, então você é submetido a situações adversas, ficam te girando, giram para cá, giram para lá, então são doze a quinze minutos de terrorismo, digamos assim, e você não pode subir, se você subir você tem mais uma chance, só que você começa desde o início, aí se você subir você está desligado. Então ele é feito em dupla, são dois alunos para quatro instrutores porque por período do teste ficam dois alunos com um cilindro só e eles ficam girando a gente... 

P/1 – E você tem que dividir o ar?

R – Só que assim, sem enxergar também, você está vedado, só que você respira direto do cilindro, porque se você abrir o cilindro com muita força, ele sai um fio de ar, ele corta a sua boca. Então você está lá e daqui a pouco você está com a boca toda cortada, em cima está cheio de sangue e quando eu fui fazer o teste do tanque o que aconteceu? O meu companheiro não aguentou, ele subiu, estávamos fazendo o teste e ele subiu e eu não subi, aí eu caí no fundo e fiquei ajoelhado, aí os quatro instrutores tentando não deixar ele subir subiram junto com ele para segurar, mas não teve jeito, ele foi até lá em cima e eles me esqueceram lá embaixo e eu fiquei ajoelhado lá embaixo sem respirar e eu ficava com a mão procurando uma válvula, alguma coisa para eu respirar.

P/2 – Eles subiram com a válvula, foi isso?

R – Não, é que as válvulas ficam todas jogadas e aí eles se esqueceram de mim lá embaixo durante o teste, aí eu peguei e dei o sinal de que só aguentaria um pouco mais, aí não aconteceu nada, ninguém me deu ar, eu lá no chão procurando (risos), aí eu acenei, dando o sinal de que não aguentava mais, eu vou subir, aí que eles viram que eu estava lá embaixo, eles desceram, isso aí os outros contam porque eu não estava vendo nada, aí quando eu estava me colocando em pé já para subir, uma hora eu tinha que respirar, aí apareceu um monte de válvula, eu peguei uma válvula, coloquei na boca e comecei a respirar e aí eles queriam arrancar a válvula e eu não deixava, então eles puxavam a válvula e dizem, os outros que estava olhando, tinha um capitão, o Saulo, ele ficava com os dois pés no meu peito puxando a válvula e eu não soltava a válvula. Eu era o único oficial que tinha, porque os outros oficiais que estavam fazendo o curso desistiram, ficou eu de oficial e o resto da classe, aí ficaram os quatro fazendo o teste em mim, para mostrar que o teste acabou eles tiraram a minha máscara, aí depois que acaba essa parte de piscina, aí você vai para represa e vai pro mar. A parte mais difícil é a parte da piscina, porque quando você vai para a represa ou pro mar aí acabaram essas brincadeiras, porque é perigoso, então você fica todo equipado e já não entra mais nesses testes, aí é mais técnico. Só que nós fomos para a represa, deu tudo certo e nós fomos para o mar, aí a gente foi para a Ilha Anchieta e ficamos uma semana. No primeiro dia tem um mergulho noturno, era na apnéia, a gente descia seis metros na apnéia e depois vinha quarenta metros para voltar. Era em dupla, porque era noturno e para você não ter perigo você se amarrava no outro, porque ninguém enxergava nada. Como eu era o único oficial, tudo o que ia fazer eu era o primeiro, aí eu desci os seis metros e vim, aí eu e o meu parceiro fizemos e aí teve um dupla onde o companheiro subiu e o outro não subiu, ou seja, ele teve um apagamento. Às vezes ocorre o apagamento, ele apagou no primeiro dia no mar e a gente estava na Ilha Anchieta e naquela época, eu acho que era 1994 não tinha comunicação nenhuma com o continente. E aí o outro mergulhador que estava na segurança desceu, subiu com ele com parada respiratória, imagina, uma hora da manhã, em uma ilha e um deles tendo parada respiratória, ele era um soldado, colocamos ele em cima e outro, um cabo antigo, já abriu as vias aéreas e começou a fazer a respiração boca a boca e eu segurei o pulso, eu falei: “Putz, vai morrer um cara no primeiro dia na ilha”. Aí foi respiração e respiração, ele voltou, começou a respirar, começou a convulsionar e deu tudo certo, se ele tivesse morrido naquele dia a gente só ia conseguir se comunicar com o continente depois de dois, três dias porque não tinha comunicação nenhuma (risos), mas ele voltou, deu tudo certo, só que aí o capitão na época deu uma preservada nele, aí ele não fez os outros testes. Aí você vai para o último teste que é o de descer quarenta metros e estava todo mundo doente...

P/1 – Tudo em apnéia?

R – Não, aí é equipado com cilindro, porque a marinha prevê que em até quarenta metros você pode respirar ar puro, a partir daí você começa a respirar misturas, então o teste era descer quarenta metros no mar. Só que assim, a maioria estava doente, era um período de inverno e eu não estava mais conseguindo compensar os meus ouvidos: “Eu não vou conseguir descer os quarenta metros, mas se eu não descer eu estou desligado”. Depois de dois meses e meio e aí eu não compensava, porque eu descia no mar, fazia aquela força para fazer a manobra de compensação e não compensava, eu falei: “Como é que eu vou descer quarenta metros em dois dias?”. Aí a gente foi para o litoral, a gente foi para a Laje de Santos, para o Guarujá, aí lá eu conversei com um soldado, eu disse: “Ah, eu não estou conseguindo compensar o meu ouvido”, ele falou: “Ó, tem um macete aí só que depois o ouvido inflama.”, “Eu não quero nem saber, depois eu me viro”, “Então você faz o seguinte: de manhã antes de sair você esquenta óleo e pinga um pouco de óleo quente no ouvido, porque aí vai compensar”, “Ah beleza”. Aí dormi, de manhã fui lá, peguei aqueles óleos de soja de cozinha: “É esse mesmo” peguei uma colher, esquentei óleo, peguei um pedaço de pano que eu vi na frente e falei: “Quer saber? Eu vou pingar logo nos dois” (risos)...

TROCA DE FITA

P/1 – Você estava falando do ouvido e aí?

R – Deixa eu só falar uma coisa, essa parte aí é uma etapa, as coisas que aconteceram mesmo que foram mais fortes na minha carreira foram essas coisas mais recentes, até depois como capitão, nas missões. Aí eu dormi, coloquei o óleo, a gente pegou o navio para ir para a Laje de Santos, que de lá dava duas horas mais ou menos de mar, quando chegamos lá fizemos um mergulho, eu compensei normalmente, deu tudo certo, só que aí teve a volta, na volta com o navio o meu ouvido já começou a doer, aí começou a doer um ouvido, depois passou para o outro, aí eu pensei que eu ia morrer, isso no mesmo dia, resumindo, eu tive inflamação dental. Aí acabou o curso, me formei, fui até o primeiro colocado, mas todos os meus dentes inflamaram, os meus dois ouvidos inflamaram, aí eu fiquei com uma pequena sequela, eu ouço dois por cento a menos no ouvido direito, não me atrapalha em nada só que, por exemplo, por telefone eu já não consigo conversar, eu tenho que usar o ouvido esquerdo. Esse foi um dos cursos que eu fiz no corpo de bombeiros  (risos). 

P/1 – E as missões?

R – Só fazendo um pouquinho de síntese, eu fiquei sete anos no 2º Grupamento de Incêndio, aí eu fui para escola de bombeiros e fiquei dois anos, depois eu saí de lá em virtude de um problema pessoal. O meu pai que morava comigo ficou um período doente, aí eu pedi para voltar para São Paulo, porque a escola de bombeiros é em Franco da Rocha, nessa época eu já estava casado, a minha esposa tinha um pequeno e ela estava grávida do outro e o meu pai morava comigo, então eu pedi para voltar para São Paulo que era mais próximo para poder socorrer o meu pai, porque vira e mexe ele estava mal, aí eu fui para o 3º Grupamento de Incêndio da zona leste. Eu morava lá na zona leste e aí eu fiquei cinco anos, atendemos a muitas ocorrências, é outra área bastante agitada né? Aí eu fui promovido a capitão, então é outro teste dos bombeiros para você conseguir permanecer nessa condição de tenente para capitão, se tiverem vagas, se não tem vagas você vai embora para o policiamento. Quando eu fui promovido a capitão, em maio de 2006, tinham dezenove capitães para quatro vagas, aí alguns que já eram capitães foram mandados embora para o policiamento e na época surgiram mais algumas vagas e se transformaram em onze vagas, então ficaram dezenove capitães para onze vagas. E na capital só tinha uma vaga, que era no 4º Grupamento de Incêndio, na zona sul e abrange aquela parte da Represa Guarapiranga. E na época tinha um coronel lá, o Coronel Paulo e eu tinha trabalhado com ele na escola e ele tinha me convidado para ir trabalhar com ele e o outro saiu, ele foi mandado embora. Para mim foi um grande desafio ir para o 4º Grupamento de Bombeiros. Primeiro porque eu fui para a Guarapiranga, o capitão comanda um sub grupamento, então tem o grupamento inteiro que se divide em dois sub grupamentos e os sub grupamentos são divididos em postos, então eu comandava o segundo subgrupamento do 4º Grupamento de Bombeiros e eram quatro postos: Capão Redondo, Santo Amaro, Guarapiranga e Teotônio Vilela. Naquela área ali era uma área carente, complicada e a maior área de todas de São Paulo para atender, tudo era longe e assim, os três capitães que tinham passado por esse grupamento dali eles foram embora para o policiamento, aconteceu alguma coisa. Porque assim, como você fica muito sozinho lá, você e os tenentes, do mesmo jeito que você pode se dar muito bem, você pode se dar mal, pode ser que você tome alguma atitude errada, não voltando pro lado de crime, essas coisas, é uma coisa a nível de serviço mesmo, alguma ordem errada e pode ocorrer uma repercussão gigante… Até o corpo de bombeiros na época do Coronel Manuel ele brincava comigo: “Pô, eu ia lá rondar a Guarapiranga e não chegava nunca, eu parei no meio do caminho e voltei para casa”. Porque lá ninguém chegava. E lá eu me diverti muito, porque ficava tudo na minha mão, eu tinha o comando da unidade, só que a sede da unidade era no Butantã, também era longe, e eu ficava ali com quatro postos. Então eu já atendi muitas ocorrências ali que se fossem sentido centro seriam ocorrências gigantescas e sem contar as represas, a gente atendia a Guarapiranga e grande parte da Billings. E como eu sempre fui mergulhador, eu mergulhava sempre que tinham ocorrências de afogamento, então de lá eu tirei muitos afogados, tem o afogamento em curso, que aí é a parte de salvamento, acabou de se afogar e está sendo salvo porque lá a gente tinha a prevenção, o pessoal da Aquatic que ficava na represa, então tinha muitos salvamentos. Salvamento é quando a pessoa ainda tem chance de vida e está sendo salva. E tinham as famosas pesquisas de cadáveres, o que era? Se afogou, ninguém achou, agora deixa de ser salvamento, agora é só procurar o corpo e o mergulho ele é uma ocorrência solitária porque você desce sozinho, você não enxerga nada, você passou de seis, oito metros, tudo escuro, depois que eu fui fazer esse mergulho que eu fui perceber porque o curso é totalmente vendado, é porque durante os mergulhos você não enxerga nada, na realidade quem te guia é quem está lá em cima, porque você sempre mergulha com um cabo guia amarrado na sua mão, então você está lá no fundo você é um instrumento, quem está te guiando é quem está em cima através de toques que ele vai falar: “Vira para direita, vira para esquerda”. E tem as técnicas para você fazer a pesquisa para não ficar nem um ponto sem passar, então é um negócio bem técnico, bastante interessante. Vou contar a última ocorrência em que eu estava antes de sair, o último mergulho que eu fiz lá, vamos dizer assim. A maioria dos afogamentos era na Billings, a Guarapiranga era muito plana e a Billings não, ela é de tombo, então a pessoa está brincando, dá um passo para frente e ela não alcança mais o fundo e sai rolando, aí ela vai mais ou menos a uns vinte e dois metros de profundidade e vinte e cinco metros de distância, a gente chegava lá e o que a gente fazia? Já descia equipado e ia até onde ficava plano, quando ficava plano seguia aquela linha e você achava o corpo, com o tempo você vai pegando essas práticas, eu achava o corpo rapidinho. E no último mergulho que eu fiz lá foi um motoqueiro, a ocorrência repercutiu bastante também, ele estava na balsa, aquelas balsas que atravessam a Billings e ele se suicidou. O que ele fez? Ele pegou uma corda, amarrou na cintura e uma parte ele amarrou na frente e outra parte ele amarrou atrás, quando a balsa chegou no meio do caminho da represa, a represa tem quase um quilômetro de distância, pegou a carteira dele e anotou lá um recado, deixou ali em cima, aí ele ligou o motor da moto, rompeu a cancela da balsa e foi para o fundo, o comandante da balsa não podia parar, ele continuou e atravessou a represa, só que ele pegou uma daquelas boias redondas e jogou na água. E lá a gente tinha como protocolo o seguinte, quando tinha um afogamento na Billings a gente chamava o Grupamento Aéreo, o helicóptero vinha do Campo de Marte, pegava a gente ali no Guarapiranga e levava para Billings, esse trajeto dava mais ou menos seis minutos, o helicóptero chegava ali, a gente entrava com os equipamentos e ia para a Billings, era muito mais rápido do que a gente sair da Guarapiranga de viatura. Aí entrou eu e um sargento com os equipamentos, nós fomos para a Billings, a balsa estava encostada, a gente pegou todos os materiais do helicóptero, eu pus em cima da balsa e eu falei para ele: “Vamos até mais ou menos onde você acha que ele pulou” aí ele chegou: “Ó, foi mais ou menos aqui”. A bóia estava na água, aí eu não sei, me deu um estalo e eu falei para ele: “Vai mais um pouco para frente até passar a bóia, aí ele foi e parou, aí eu falei para o sargento: “Vamos começar aqui” a balsa só tinha um caminho né, eu falei: “Então é aquela faixa só que dá quase quinhentos metros de faixa, eu acho que nós vamos ficar até amanhã”. Aí eu falei pro sargento que também era mergulhador: “Eu vou mergulhar primeiro” aí eu comecei a colocar a roupa e olhando para água, me concentrando, aí de repente eu vi uma bolha, eu falei para o sargento: “Dá uma olhada”. Aí o sargento não acreditou, o que tinha acontecido? Já tinha virado pesquisa de cadáver, mas a gente tinha conseguido sair em cima dele, por uma sorte do além, aí aquela bolha estava saindo da roupa, de algum lugar, aí eu falei para o sargento: “Eu vou para lá, por cima da água e vou descer, vou na linha dele, você deixa o cabo solto porque a hora que eu bater no fundo você só dá uma puxadinha no cabo para eu ver onde eu estou e aí eu vou deitar e vou mergulhar” foi isso que eu fiz, eu cheguei no fundo, eu não estava enxergando nada, dei um toque no cabo, ele me mostrou a direção que o cabo estava, que era a direção da balsa, eu deitei, mergulhei, bati um pouco a perna e já bati na moto, aí eu procurei e ele estava junto da moto, aí o rapaz tinha me falado que ele estava amarrado, aí eu procurei o corpo dele e achei a corda, peguei a faca e cortei a corda, aí eu peguei na mão dele e dei o toque para subir, só que como você não enxerga nada você perde a noção de espaço, de distância, aí eu fiquei parado, a gente tem como referência a hora que começa a clarear, eu achando que eu estava subindo com o corpo e com a mão para cima, a gente sobe com a mão para cima e ficava escuro, não clareava e eu não sabia se eu estava em movimento ou estava parado, eu falei: “Será que eu sai debaixo da balsa?” aí eu fiquei parado, eu pensei: “Quer saber? eu vou descer de novo”, porque a gente sobe e a gente enche o colete. “Eu vou esvaziar o colete e descer de novo”. Vamos descer com o corpo lá de novo, aí eu esvaziei o colete e eu vi que eu desci uns dois metros, aí o que aconteceu? Ele estava amarrado em mais um ponto, aí o que eu fiz? Eu forcei o corpo, eu acho que ele deve ter ficado esticado na minha altura (risos) e fiquei parado, aí quando eu desci, eu vi que ele estava preso, só que eu não enxergava.

P/1 – A outra ponta da corda?

R – A outra ponta da corda, aí eu tive que pegar a cabeça, sem enxergar, eu tive que procurar, aí eu peguei cabeça, braço, tronco, até que eu achei o outro cantinho que ele estava amarrado, eu cortei, aí dei uma chacoalhada nele: “Ah, agora está solto, vamos embora” aí eu subi com o corpo, esse foi o último mergulho, o primeiro e último que eu fiz, o primeiro da minha carreira e o último mergulho. Aí o que aconteceu no Guarapiranga? Eu fiz várias especialidades, mas uma deles é salvamento em cavernas, então eu vou muito ali pro PETAR, pelo menos uma, duas, três vezes por ano eu vou para lá para dar instrução de salvamento em caverna, então eu estava sempre acostumado nessa área, aí o que aconteceu? Deu aquela ocorrência do metrô que estava em obras, o da linha quatro, estão lembradas?

P/1 – De Pinheiros.

R – E lá fazia parte da unidade que eu trabalhava, então quando nós chegamos lá, aquela altura tremenda, desabou a rua e até então a gente não tinha informação de corpos e aí começou a surgir a possibilidade da van que estaria andando na rua e quando houve o desabamento ela teria descido junto, mas ninguém tinha certeza, até chegou uma moça e falou: “O meu irmão estava na van e ele me ligou”. “Será que ligou?” com aquela dúvida, o pessoal que controlava essas vans falou: “A van passa por um ponto, ela emite um sinal até ela passar em outro ponto”. Ela passou em determinado lugar e no outro ela não chegou, então a van estava desaparecida e a gente estava trabalhando por cima com os cães, descíamos lá, estava bem perigoso, estava para cair muita coisa ainda, até que o engenheiro da empresa que estava fazendo a obra falou: “Ó, ninguém foi no túnel ainda, na parte de baixo” até um oficial falou assim: “Não, a gente vai amanhã”. Aí eu falei para ele: “Ó, melhor ir hoje, porque de repente tem um corpo aparecendo lá embaixo e a gente não vai hoje e chega amanhã: “Ó, avisei os bombeiros ontem, só que eles não vieram” . “Ah não, então beleza, então vai lá você, você está acostumado com caverna mesmo, então vai lá” (risos), “Tudo bem”. Eu juntei um grupo e ninguém tinha descido no túnel ainda, nós tivemos que andar uns três quarteirões, você pegava aquele elevador de carga e descia, descendo uns trinta metros no escuro, um negócio macabro, aí desci no túnel, levei mais uma meia dúzia, aí eu olhei no túnel e estava tudo escuro, porque com a descida da terra deu um deslocamento de ar que arrancou a ventilação, arrancou a iluminação, arrancou tudo. Então nós fomos com lanternas em direção aonde o túnel tinha desabado e lá estava infiltrando água. E quando a gente chegou na água já estava com a água pelo peito assim, aí você chegava naquela junção da água com a terra que desceu, era aquela lama. Aí você andava pela lama e começava a se rastejar, porque juntou o teto do túnel com a terra que desceu, aí ficou aquele espacinho. Aí você ia se rastejando para tentar chegar ali aonde o túnel era o teto do túnel.

P/1 – E uma coisa gosmenta, numa lama?

R – É, era mais no começo, depois ficou só a terra. Só que assim, eu consegui ver uma roda; aí será que é da van, não é? Aí quando a gente chegou lá perto eu vi que não era da van, era de um carro pequeno. Aí a gente começou a cavar, conforme cavava com a mão descia mais terra, cavava com a mão. Eu falei: “Assim a gente não vai conseguir chegar em lugar nenhum”. E aí de repente começou a tocar uma buzina lá dentro, aí deu aquele pânico na gente: “Pô, será que é alguém tocando a buzina, e agora?” Mas daí como foi só um pontinho, a buzina ela não parou, eu acho que é algum curto; e era mesmo. E aí depois a gente viu, bom, resumindo, essa ocorrência foram vários dias, ela foi perigosa, houveram dois ou três deslizamentos durante a ocorrência, até que a gente conseguiu atuar de uma forma segura. O único que se machucou foi o engenheiro da Odebrecht, uma empresa até ruim de falar o nome. E a gente deu um conselho para ele: “Não, vamos fazer mais isso, mais aquilo” e na hora a terra desceu e ele foi tentar correr, caiu e fraturou o braço. A terra era novinha e tentar pegar ele correndo, foi a única coisa que deu. Eu não lembro quantas pessoas tinham na van, eu sei que no total foram sete ou oito mortes, de pessoas que estavam dentro da van. Então foi uma ocorrência que repercutiu muito e, na época, o Coronel do Comando de Bombeiros Metropolitano ele, como uma forma que eu creio que de premiar, tinha um curso que ele era muito procurado, ele tinha uma concorrência muito grande para fazer que é um curso de Busca e Resgate em Estruturas Colapsadas. Esse curso era feito numa organização, agora nós já fazemos aqui.

P/1 – Estruturas Colapsadas?

R – Colapsadas, é estrutura para terremoto, desastre, essas coisas. Então esse curso era feito numa organização que chamava Bombeiros Unidos sem Fronteiras, que é uma organização espanhola. E essa organização é voltada para atender grandes catástrofes no mundo todo e eles montaram filiais aqui na América Latina em locais que têm terremoto. Então eles têm filial no Peru e na Nicarágua. E aí ele falou que eu ia fazer esse curso, veio dizer: “Ó, você vai fazer”, era um mês o curso. Aí conversei com a minha esposa, eu tinha os meus filhos, eles eram pequenos, ela ficou meio assim, me apoiou e eu fui. Fiz o curso lá com eles, fiquei trinta e três dias no Peru, por causa de altitude é bem puxado fisicamente, é um trabalho pesado, muita técnica, e lá era altitude, tive vários problemas. Logo na primeira semana quebrei um dente, depois fraturei um dedo e aí fui levando o curso assim. Mas daí eu fiz o curso (risos), não podia decepcionar assim; no curso os instrutores eram espanhóis, tinham alunos de doze países e dos doze países todos falavam castelhano e eu falava também, tudo bem. Mas assim, a gente não consegue, porque eles mesmos entre eles não se entendem, entender um nicaraguense é uma briga. Mas daí eu me dei muito bem no curso com eles e tal, criei um vínculo de amizade muito forte com eles, aí nos outros cursos eles me convidaram para ir, tanto que eu voltei uma vez mais pro Peru e voltei uma vez para Nicarágua lá como instrutor dos outros cursos.

P/1 – Ah, sendo instrutor?

R – Sendo instrutor. E nos outros cursos tiveram outros bombeiros que foram, eu ia só na última semana para participar já com os outros, já com alguns brasileiros fazendo o curso. Até hoje eu tenho esse vínculo com esse pessoal do curso, isso aí foi em 2007.  Aí quando eu voltei do curso em julho, foi um período de frio também lá no Peru, à noite era abaixo de zero, de manhã era zero grau, aí de dia esquentava, no final do dia já esfriava; ou seja, todo mundo ficou doente. E quando eu voltei, foi em julho, deu agosto de 2007 caiu o avião da TAM e como eu trabalhava na Guarapiranga eu estava passando ali no aeroporto. Eu estava indo tranquilo com o meu carro e, de repente, o trânsito parou. “Trânsito? Normal, né?” Daqui a pouco eu não vi nada, era de noite, mas eu comecei a ver os clarões e o barulho das explosões. Eu estava com o meu carro, aí eu peguei e liguei para nossa Central de Comunicação: “Ó, aconteceu alguma coisa aqui em Congonhas” “Caiu um avião aí; as ligações estão entrando, só que parece que é de carga”. Aí eu fiquei desesperado, porque eu estava com o meu carro, no meio da rua: “Eu vou fechar o meu carro e vou para lá, vou deixar o meu carro aqui”. Daí um monte de gente correndo para baixo e para cima; aí vieram, ali perto de Congonhas tem um Posto de Bombeiros que é o de Campo Belo, aí passaram as motos, passaram as viaturas, depois passaram as viaturas do Aeroporto, do Bombeiros do Aeroporto. Aí o pessoal da CET abriu ali o canteiro, tirou aquelas placas de concreto, aí fez todo mundo retornar. Aí o que eu fiz? Retornei e entrei no Posto de Bombeiros e como eu estava levando uma farda para lavar, eu tinha uma farda no carro. Aí o que eu fiz? Eu pus essa farda, entrei no alojamento, peguei uma bota, não sei nem de que número e saí correndo e fui em direção ao local. Só que de farda, sem equipamento, sem capa, sem capacete, sem luva, ______. Aí já estavam os bombeiros do Campo Belo, eu olhei assim, olhei a situação, era fogo para todo lado, aí tinha um táxi assim, o motorista já estava carbonizado. Aí começaram a chegar as outras viaturas; aí eu peguei uma capa ali, um capacete lá e comecei a trabalhar. E até então tinha a informação que era avião de carga; só que a gente começou a apagar a parte da cauda e ali já começaram a aparecer alguns corpos. Aí tinha o Tenente-Coronel que na época era o Coronel Luciano, ele comandava o 1º Grupamento de Bombeiros e aí eu falei para ele: “Ô Coronel, se é de carga eu não sei, mas dá uma olhada”, já estavam a aparecer um monte de corpos. Aí que veio a informação que não era de carga, era de passageiros, que tinham cento e noventa e nove, cento e alguma coisa de passageiros. Para resumir, ali dentro dessa ocorrência eu já comecei a ensinar as técnicas que eu tinha aprendido durante o curso, da estrutura _______ para os bombeiros, ali mesmo in loco, e tiveram uns locais lá que eram de difícil acesso, porque o avião entrou no prédio, só que como o prédio era muito forte, que era uma estrutura reforçada – se fosse um edifício residencial o avião talvez tivesse até varado o prédio – mas ali não, ele bateu e parou. E o que acontece, um dos andares cedeu, em virtude de caloria, de abalo de estrutura. Então ficou esse vão, onde o avião entrou, ficou esse vão onde era mais ou menos de oitenta centímetros a um metro de altura. E era muito difícil a gente entrar lá, em virtude da caloria e do espaço e também da estrutura ________, era muito perigoso e estava cheio de corpos lá. Então o acidente foi numa terça-feira, a gente só foi conseguir entrar lá numa quinta-feira, para resfriar e tal. Aí o Coronel Manuel me chamou e falou: “Ó, vai entrar lá, né?”, eu tinha feito o curso, aquele negócio todo: “Sim, senhor”. Aí ele pegou e brincou – brincou, não, ele falou assim: “Você vai, mas vai com pouca gente”. Eu até pensei: “Será que ele está falando isso, porque se morrer morre só uns quatro ou cinco, morrem menos?” (risos) Aí eu falei: “Sim, senhor”. Aí eu olhei, perigoso, eu falei: “É para entrar?” “É para entrar” “Sim, senhor”. Aí nós entramos e começaram a sair vários corpos que já não tinham mais, porque na primeira noite foram retirados mais ou menos uns cem corpos compactados assim; então o grande número de corpos foi retirado na primeira noite, porque foi onde o avião bateu, foi todo mundo para frente compactado, eles não queimaram, eles ficaram compactados e ali foi cortando lata e tirando os corpos.  Numa noite inteira assim foram mais ou menos cem corpos. Depois que foi já, aí tiveram os corpos do prédio, das pessoas que trabalhavam e esse que é onde entrou a cabine e uma parte do avião, que o último que nós conseguimos realmente achar foram os pilotos; só que nós achamos o quê? O osso esfarelando e alguma coisa ou outra, mas assim, isso depois de doze dias, eu não conhecia também.


P/1 – Doze dias vocês ficaram trabalhando?


R – Doze dias. Só que assim, não era a minha área porque eu era do 4º Grupamento e ali era do 1º Grupamento, onde eu trabalhei. Aí chegou um dia que eu não fui: “Pô, eu acho que eu vou voltar para minha unidade”. E aí o Coronel Manuel, que era o Comandante do Bombeiro mandou me ligar: “Ó, onde você está?” “Coronel, eu vim para minha unidade”. “Não, pode voltar aqui”. “Sim, senhor”. Aí voltei: “Quê que foi, Coronel?” “Não, tem um buraco ali e eu quero que você entre” (risos). Aí eu pensei comigo: “Pô, não tem mais ninguém para entrar no buraco?” “Eu acho que tem uma coisa lá”. Aí eu olhei, estava perigoso assim, aí eu falei: “É para entrar?” “É para entrar”. Aí eu entrei e tal e ali eu achei mais dois corpos. Entramos eu e mais um Tenente e achamos mais dois corpos ali. Mas era assim uma fase que você não estava mais achando o corpo inteiro, porque o grande problema dessa ocorrência foi a identificação. Daí quando você achava um corpo inteiro assim você ficava contente e tal, até a nível de familiares e tal. Foi uma ocorrência que também marcou bastante, foi em 2007. Aí quando chegou em 2008, eu lembro que eu estava na minha casa, num domingo à noite, estava entrando nas missões, missões extra-territoriais.


P/2 – Como que funcionam as missões?


R – Não, aí é o seguinte, o Corpo de Bombeiros tem uma equipe que a gente chama de Força-Tarefa, alguns oficiais, praças, eles fazem parte dessa força-tarefa que são usados em ocorrências de vulto. Então quando tem determinadas missões esse grupo é acionado. Eu faço parte da Força-Tarefa e até também devido às especialidades que eu fiz e tudo, pelo menos nessa área de salvamento terrestre que eu me especializei. Aí semanalmente tem uma escala, que é a escala de sobreaviso da Força-Tarefa. Só que assim, eu estava na minha casa, aquela escala praticamente ninguém tomava conhecimento porque não era direto que chamava, a escala até não chegava mais direto para gente. Aí num domingo à noite eu estava na minha casa com a minha esposa, com os meus filhos e tal, aí tocou o telefone, umas dez horas da noite. Aí eu mesmo atendi e era o Coronel Manuel que comandava o Bombeiro na época; só que ele falou assim: “Ô Mello, é o Coronel Manoel”, dez horas da noite, no domingo ou é algum amigo aplicando um trote ou é o Coronel. É melhor eu deixar o meu amigo contente do que mandar o Coronel andar (risos). Aí eu falei: “Sim, senhor, Coronel”. Aí ele falou assim: “Você está pronto?” Falei: “Olha, eu estou pronto”. “Mas você não sabe do que eu estou falando” “Ah, o senhor perguntou se eu estou pronto, eu falei: ‘Ta bom’”. Aí ele falou: “É para ir para Santa Catarina”. A gente já estava sabendo que estava tendo as enchentes. “É para ir para Santa Catarina”. “Eu estou pronto”. Falou assim: “Então você arruma tudo que de manhã vocês vão sair” Falei: “Sim, senhor”. Aí ele desligou. Nunca São Paulo tinha mandado um grupo grande para outro estado, tinha mandado uma pessoa, algum determinado caso, mas não um grupo grande. Aí veio na minha cabeça: “O que é arrumar tudo para sair de manhã?”. Aí até eu tinha feito o curso, “Vou trabalhar de acordo com o que eu aprendi para grandes catástrofes”, ou seja, você tem que ser auto-suficiente, você nunca pode chegar num lugar: “Ó preciso de alimento”. Você vai para ajudar: “Preciso de alimentação, preciso de alojamento, preciso disso”, se você fizer isso você chegou para atrapalhar. E o que que eu fiz naquela noite, era um domingo para segunda-feira? Primeira coisa, eu liguei pro nosso Centro de Comunicação, eu defini uma quantidade: “Ó, vou com cinquenta pessoas”. Eu ia comandar a Operação, eu como Capitão ia comandar a Operação. Então, naquela noite, depois que eu desliguei, eu não dormi mais. Já não tinha dormido, acordado comecei a escrever: Vou mandar cinquenta pessoas, cada pessoa tem que levar esse material. Aí eu liguei para nossa Central de Comunicação oficial e falei assim: “Ó, liga pras unidades acionarem cinquenta pessoas na Força-Tarefa e eles têm que levar esse material individual: fardamento, capacete, aí vai, uma lista”. Então, era ligado para casa da pessoa: “Você pode ir?” “Posso ir” “Então, amanhã, oito horas da manhã no Glicério com esse material, pronto para viajar”. Aí eu eliminei a parte pessoal, comecei a relacionar a parte de material: “O que eu preciso para atender esse tipo de ocorrência?”, que para nós chegou que era enchente. “Preciso de embarcação, motor de popa, corrente”, aí vai, fiz uma relação de materiais operacionais do que precisa levar. Aí eu fiz uma outra relação de materiais de necessidades nossas; seria: barraca, roupa de cama; não vou pedir nada, então vou ter que levar o quê? Fogão, tem que levar geladeira, tem que levar tudo que vocês imaginarem.


P/1 – Comida, alimentação?


R – Comida, e lá a gente aprende que assim, nesse curso que eu fiz até, o grande calor de um desastre são os 12 primeiros dias, depois já começa a entrar em ações humanitárias, vamos dizer assim. Então eu fiz um cálculo para 15 dias, levar tudo para não pedir nada para ninguém durante 15 dias. Aí relacionei tudo que vocês imaginarem, desde fogão, comida, papel higiênico, tudo. E daí de manhã, no dia seguinte, o pessoal ia chegando e eu, junto com os oficiais que eu relacionei, os tenentes que foram comigo – foram cinco tenentes – a gente foi juntando esse material operacional e esse material para cuidar da ocorrência para gente, então foi o dia inteiro juntando material. E o Coronel Manuel, na realidade quando ele me ligou ele estava no nordeste, participando de um Seminário Nacional de Bombeiros lá de Fortaleza. E aí ele ligava para São Paulo: “Já saiu?” Eu falava: “Não, ainda não” (risos) “Já saiu?” “Não, ainda não”. E aí isso foi o dia inteiro; até quando deu cinco horas da tarde, nós saímos aqui de São Paulo com dezoito viaturas, equipe especializada, tudo que vocês imaginarem. Daí eu falei: “Mas eu vou para onde?” “Ó, seguinte, vai pro sul, no meio do caminho você fica sabendo para onde você vai” (risos). Aí eu saí com 18 viaturas, 52 bombeiros, mais quatro cães de busca e pegamos, fomos em direção a Santa Catarina. Aí foram 17 horas de viagem, as viaturas todas quebrando, que foi tudo muito de repente, não houve um, viatura quebrava e pára no posto, troca filtro, não sei o que, tudo o mais. Até que nós chegamos em Itajaí, lá tinha um tenente esperando a gente. A São Paulo já tinha se comunicado, Comando de Bombeiros de São Paulo já tinha se comunicado com Santa Catarina, aí eles falaram assim: “As cidades aqui estão assim, que eles vão direcionar você para uma cidade que não tem bombeiro, tem um monte de problema, que é Luiz Alves”. Eu falei: “Ó, pode me mandar para pior que tiver aí, para mim não tem problema”. Daí nós fomos em direção a Luiz Alves. Aí nós chegamos ao município de Luiz Alves, em Santa Catarina, que é um município que não é muito grande, é um município com dez mil habitantes e vamos dizer aí, uns cinquenta quilômetros de diâmetro. Só que tinha um problema, a área urbana dele era um bairro aqui de São Paulo, o resto era tudo área rural. E aquelas enchentes, que falaram para gente que era tudo enchente já não eram mais enchentes, já tinham virado deslizamento de terra. O primeiro deslizamento de terra lá pegou um povoado que matou cento e cinquenta pessoas, era um negócio desproporcional ao que a gente estava acostumado. E quando dava um deslizamento de terra não é que nem descer o morro aqui, a gente está aqui em São Paulo está vendo o morro, não, era descer um quilômetro de morro. E quando descia um quilômetro de morro só o vento que vinha na frente já jogava as pessoas longe, já matava, só o deslocamento do vento. Então surgiram várias preocupações; uma delas era acomodar os bombeiros, que a gente não sabia quanto tempo a gente ia ficar, você tem que ver a condição sanitária do homem; para gente poder trabalhar bem, tem que se vestir bem, tem que dormir bem, tem que se alimentar bem e tem que ir no banheiro, parece que não, mas a gente tem. E aí a minha sorte qual que foi? Que eu fui recepcionado lá pelo Comandante de Bombeiros de Santa Catarina, o Coronel Mauros e o município era muito católico, tinham muitas igrejas, e as igrejas tinham aquelas paróquias. E ele disse assim: “Ó, tem uma igreja aqui, se quiser dar uma olhada”. Eu fui lá dar uma olhada, tinha a igreja e tinham vários salões, tinha cozinha, tinham várias salas, tinham os banheiros: “Não preciso de mais nada” e ali nós ficamos dezesseis dias. Só que a gente fazia a comida, a gente fazia tudo, foi bem interessante. E aí qual foi a minha preocupação? Que não acontecesse nada com os bombeiros, que eles estavam sob o meu comando e a gente estava numa área desconhecida. Então nos primeiros dias nós utilizamos guias na região e depois que a gente acostumou, já parou de utilizar os guias e eu consegui instalar repetidoras de som no município todo para eu poder me comunicar com todos os bombeiros o tempo todo, para que ninguém ficasse incomunicável. E quando nós chegamos lá, essa parte de telefonia e tudo não tinha nada; e logo que eu cheguei eu fiz várias reuniões com o Prefeito da cidade, com os bombeiros para gente definir isso e aí definiu que Luiz Alves ficaria com São Paulo. E ali nós ficamos dezesseis dias e houveram alguns deslizamentos de terra, mas daí eu passei todas as técnicas de segurança que eu tinha até aprendido para os bombeiros, então graças a Deus com os bombeiros não aconteceu nada. Durante esses quinze dias que eu fiquei lá houveram três grandes deslizamentos em Luiz Alves. Desses três grandes deslizamentos, morreram mais ou menos umas seis pessoas, foi uma quantidade pequena em torno do que a gente já tinha, pessoas que a gente tinha retirado e eles tinham voltado pras suas casas, em virtude disso também, e foi uma missão assim que, pode-se dizer, quase perfeita, que deu tudo certo.


P/1 – Descreve para gente como é que é estar numa tragédia dessa, sendo uma peça fundamental para que as pessoas estejam mais amparadas, se sentindo melhores, como é isso para você, como é se sentir essa peça fundamental comandando tanta gente?


R – Assim, o que aconteceu foi uma coisa nova, os bombeiros não tinham saído, foi a primeira missão da Força-Tarefa de efetivos para outro estado e eu fui comandando. Então a expectativa era muito grande mesmo, eu me cobrava muito; então, durante os 16 dias, apesar do cansaço eu sabia disso, eu estava exigindo muito e uma hora isso lá na frente ia refletir. Mas assim, a gente dormia, ia dormir eu e o Tenente, que é o Coronel _____, hoje é Capitão Resh. A gente ia dormir por volta de uma, duas horas, que a gente parava a parte operacional com os bombeiros, a gente não saía da base, administrando e coordenando, a gente mandava todo mundo, quando o pessoal, quando recolhia o pessoal, que à noite a gente não trabalhava em virtude do risco, eu e esse Capitão a gente ficava fazendo relatório, que a gente tinha uma cobrança muito grande em São Paulo, cobrança inclusive do Governador, ele queria diariamente o que estava acontecendo. A gente fechava o relatório e mandava para cá via internet, só que lá a gente tinha uma internet de escada lá com muito sufoco. Por que eu estou falando isso? A gente ia dormir uma, duas horas e cinco horas a gente estava levantando. Assim foram dezesseis dias. Então eu coordenei essa parte, o Resh ficou mais na parte administrativa, porque quando a gente vai para uma missão dessas tem que montar tudo lá como se você estivesse aqui. Você tem que montar o setor de pessoal, tem que montar o setor de almoxarifado, você tem que montar tudo como se você estivesse na sua casa, normal, não muda nada, vamos dizer assim. Eu fiquei mais voltado à área operacional, onde eu mandava as pessoas para tal lugar, tal missão, então eu que dividia os grupos, quem faz isso, quem faz aquilo, essa parte operacional ficou mais comigo. Está certo que eu tenho mais um pouco de facilidade de fazer isso aí, mas assim, não é fácil, você pode tomar uma atitude. E as decisões são muito rápidas: “Ó, está acontecendo isso agora, e aí?”. E as pessoas vêm falar com você, tanto civis como militares. Então vou até citar um exemplo: “Ó, tem 45 mil frangos num local que não pode ir ninguém. Se passar de hoje eles vão começar a morrer. Tem condições de mandar alguém ali? E lá é um local que talvez tenha um deslizamento de terra, não pode ir mais ninguém”. E aí você fica: “E agora, o que que eu faço?”. Então, mas eu mandei, mandei uma guarnição com o dono da granja, ele foi lá e alimentou os frangos. Então, são atitudes que você tem que tomar e depende só de você, você pode estar tomando a decisão certa como pode estar tomando a decisão errada. Que nem, chega uma pessoa para você e fala assim: “Ó, da minha família morreram sete, sobrou eu só e tem corpo lá que ninguém consegue pegar e eu sei onde ele está, está debaixo de uma laje; só que ninguém deixa eu ir lá porque eles dizem que está perigoso. Você não pode ir lá buscar, é o único corpo que falta enterrar, já morreu todo mundo da minha família?” Aí você pensa, chama uma pessoa de confiança e diz: “Ó, vai lá assim, assim e assim, tira o corpo e vem embora” e não falo para ninguém, porque tudo que eu fazia eu comunicava os oficiais de Santa Catarina, só que algumas missões. E lá aconteceu um fato que foi muito interessante, porque lá nessa missão eu tinha o pessoal da Força Nacional. A Força Nacional são bombeiros que ficam em Brasília fazendo parte de uma força para atuar em qualquer estado, são bombeiros de todos os estados. E eles foram para Santa Catarina, só que eles foram com o foco de procurar cadáveres e eu fiz um rol de prioridades: o meu primeiro item era salvamento e tal, procurar cadáver era o último item. E como eles não podiam mais procurar cadáveres porque aonde tinham cadáveres não tinham mais condições de procurar, primeiro porque tinham deslizamentos de terra, segundo porque eles estavam muito profundo, não tinham mais como cães, manualmente, fazer isso. Então eles ficaram a ficar meio que sem função, aí eles começaram a entrar em Luiz Alves e aí os bombeiros de São Paulo falaram: “Ó, tem bombeiro da Força Nacional em Luiz Alves”. Aí eu liguei para um Coronel e falei: “Ó, não é que eles não possam entrar aqui, mas é bom eles conversarem comigo que aqui é perigoso, e de repente eles estão chegando agora”. Aí eu falei com o Coronel em Santa Catarina de manhã e aí quando deu à tarde deu um deslizamento de terra e eles estavam juntos, tinham três bombeiros da Força Nacional. Eles estavam tirando um homem, duas mulheres e cinco crianças de um local e eles tinham voltado para sua residência, e aí o que aconteceu? Um correu, dois foram soterrados, uma criança e uma mulher morreram na hora, os outros conseguiram correr e uma criança ficou desaparecida. Aí chegou essa comunicação para mim: soterramento em tal bairro com o pessoal da Força Nacional. Aí o que eu fiz? Mandei os bombeiros para lá rapidamente, eles acharam o pessoal e tiraram com vida os dois da Força Nacional que eles estavam soterrados. Só que um ficou totalmente desfigurado porque o deslocamento do vento jogou ele contra um trator, ele bateu o rosto e, bom, ele teve trauma de face, fratura de fêmur, pneumotórax e ele ficou inconsciente. Aí o que eu fiz? Peguei um médico, coloquei no helicóptero e falei: “Vai lá intubar e salvar esse bombeiro”. E foi o que ele fez, salvou o bombeiro com o médico que eu mandei de helicóptero. Só que quando o médico chegou lá, o médico é civil de São Paulo, ele estava lá com a gente, esse bombeiro da Força Nacional estava todo cheio de lama e o pessoal tinha cortado a farda dele, que eles usam uma farda camuflada. E alguém falou para esse médico que é bombeiro, mas bombeiro da Força Nacional e esse médico pensou que era bombeiro nosso, bombeiro do nosso grupo; aí o que ele fez? Ele como médico falou assim: “Ó, se esse bombeiro ficar aqui ele vai morrer. Eu vou ligar para São Paulo e lá eu consigo um hospital melhor e a gente já manda de helicóptero”. Aí o que ele fez? Ligou para São Paulo falando que era bombeiro de São Paulo.


TROCA DE FITA


R – Aí começou a tocar o celular, uma cobrança muito grande de que teria acontecido alguma coisa com o bombeiro de São Paulo. Até o Coronel Manuel que era o Comandante me ligava: “Ô Coronel, não foi o pessoal de São Paulo. O que aconteceu eu não sei ainda”. “Não, Mello, mas já saiu na imprensa: ‘Bombeiro de São Paulo soterrado’, saiu na imprensa”. Aí como o pessoal estava longe eu comecei a ficar preocupado também porque eu tinha montado uma técnica assim: quando desse alguma coisa todo mundo corria, ficava numa posição segura e eu conferia pelo rádio as guarnições. E eu tinha feito essa conferência, só que pelo rádio, estavam todos seguros; mas só que como foi pelo rádio eu comecei, aí o que eu fiz? Chamei todo mundo para base, aí eu peguei um papel e fiz uma chamada oral dos cinquenta e dois, aí estavam todos ali. E aí que me explicaram: “Não, Capitão, foi o pessoal da Força Nacional, fomos nós que tiramos”. Aí liguei pro Coronel Manuel: “Ô Coronel, realmente foi com um bombeiro, só que não São Paulo, da Força Nacional”. Foi um negócio muito positivo para gente, que eles foram soterrados, foram salvos com vida, me mandam email até hoje agradecendo. E depois, só depois que nós voltamos lá porque ficou uma criança soterrada, aí eu fui junto, nós achamos ela com a utilização dos cães. E nesse período aí que a gente estava procurando a criança que desapareceu, eu dei uma volta e achei as mochilas, celulares, máquinas fotográficas desses bombeiros que tinham sido soterrados. Aí eu devolvi pro Comandante de Santa Catarina, aí ele me agradeceu muito, veio aqui em São Paulo, inclusive, foi uma coisa muito positiva. Foi uma missão que eu posso dizer assim que deu tudo certo, tanto na nossa ida como na nossa volta.


P/2 – Nessas missões que você já fez, você tem idéia de quantas vezes você sentiu que a sua vida estava em risco?


R – Você diz assim durante a minha carreira?


P/2 – É.


R – Eu já passei por algumas situações que eu achei que a minha vida estava em risco e podemos dizer até que por muito pouco não aconteceu, eu ia até falar isso para você. Mas, assim, é bom você não pensar muito nisso também, se preparar para que você não fique na próxima vez naquele limiar, né, por um pouco, por muito pouco não aconteceu. Se você de repente avaliar porque que você precisou ficar naquela situação, se não tinha outra alternativa… é realmente evitar porque qualquer hora pode acontecer. Então hoje, eu pelo menos e o bombeiro em si, está trabalhando muito nesse sentido de não passar pela situação. Então eu passei por umas duas ou três que você chega aquela fração de segundo e pensar: “Não tem volta”.


P/3 – Você pode contar uma delas?


R – Uma delas aconteceu comigo num incêndio, foi ali na área do 2º GB, que marcou muito também, porque a gente foi atender uma escola, um incêndio numa escola, e o que aconteceu? O incêndio era no último andar, acho que tinha uns seis, sete andares e no último andar era um teatro, um salaozão gigante, era um teatro com cadeiras, com palco, com tudo. E nesse teatro ele era, o último andar, que a gente não sabia, a cobertura dele era de estrutura metálica, então o que aconteceu? O sistema de hidrante do prédio não estava funcionando, então a gente teve que montar as linhas de mangueira todas pelas escadas. E quando você monta as mangueiras pelas escadas, dependendo, as mangueiras começam a estourar. E para você conseguir entrar no prédio… Ele estava pegando o andar inteiro, então estava caindo muita alvenaria… Então para você conseguir entrar no prédio tinha que ficar olhando para cima e achar o momento certo de correr para entrar. Aí nós entramos com a equipe – eu era Tenente na época – e nós subimos. Quando eu cheguei no último andar, aquela porta grande, fogo, o andar inteiro em chamas. Aí o que aconteceu? Ficaram dois bombeiros do meu lado direito com uma mangueira e dois bombeiros no meu lado esquerdo com a outra mangueira, a gente mais ou menos no meio desse teatro e combatendo o incêndio. E tinha uma janela de vidro fechada, mas sem o vidro. Nesse período aí o que aconteceu? Chegou uma viatura que chama auto-escada, que é uma viatura que sobe uma auto-escada de uns quarenta metros e eu estava lá com os bombeiros e eu olhei para janela e eu vi essa auto-escada aparecendo, a escada aparecendo – o Coronel sabe do que eu estou falando – a escada aparecendo. E eu estava com o rádio, o que eu imaginei? Eles vão jogar água com a escada, a escada tem esguicho que joga muita água. Só que assim, quando você tem alguém lá dentro você não deve jogar, primeiro, por causa da caloria e segundo porque era estrutura metálica, então poderia desabar tudo e foi o que aconteceu. Então chegou um Capitão no local, mandou montar a escada e mandou subir a escada para combater o incêndio com o esguicho da escada, só que nós estávamos lá dentro. E aí quando eu vi a escada subindo, eu vi pelo vidro, a hora que eu falei, eu ia falar: “Não” pelo rádio, não deu tempo e veio aquele jato de água da auto-escada e já derrubou esse vidro e já caiu para dentro aquele jato enorme. Aí eu peguei e corri para um lado, eu chamava os bombeiros, só que eles não ouviam, eles estavam com o equipamento de proteção respiratória que é uma máscara assim. Aí eu peguei, corri até um e falei para eles: “Corre”, corre em direção à escada. E aí eu corri pros outros dois, mostrei para eles, nós largamos tudo e saímos correndo. E tinha uma porta assim gigante, porque era um teatro, e a porta já era uma escada. Então a gente estava em cinco e os cinco pularam de cabeça assim, então não sei como ninguém machucou porque pular numa escada grande, num cilindro, cinco pessoas juntas. E assim, foi o tempo de pular e o teto desabou, então foi uma fração de segundos assim. Se eu não olho para o vidro, por um acaso que eu dei uma olhada, eu não tinha visto nada. Então essa foi uma situação que depois eu parei, pensei, xinguei muito, na época era o Capitão, aí deu aquela explosão do desabamento do teto, aí os bombeiros que estavam lá em baixo falaram: “Pô, morreu todo mundo”, ninguém nunca ia imaginar que nós tínhamos corrido para escada. E aí o soldado chegou lá para esse Capitão e falou assim: “Olha, se o senhor quer me prender o senhor prende, mas vou cortar a água dos caras”. Aí ele cortou a água, mas assim, o teto já tinha desabado. Aí foi uma ocorrência que até ver que ninguém, não aconteceu nada, depois retoma o incêndio, mas foi uma situação que foi assim que se não tivesse corrido, tinha ido para _______


P/1 – Jefferson, como é ser bombeiro e ser pai, ser esposo, como é isso?


R – É, não é fácil não, a minha profissão, em virtude até dos anos, eu já consigo administrar bem, em virtude dos problemas, no serviço a gente tem bastante problemas.


P/1 – Como é que a família te...?


R – Então, eu estava falando isso porque eu ia direcionar para a família, eu evito levar, eu tenho muito problema no quartel, mas eu evito levar, algumas conversas, coisas que acontecem, eu evito falar na minha casa. A não ser coisas boas, eu evito ficar falando de coisas ruins. A minha família encara a minha profissão hoje como uma profissão normal, porque meus filhos eles nasceram eu já era bombeiro; então a vida toda deles eles me enxergam bombeiro. Os meus dois filhos, não sei, até pelo fato de eles serem meninos, eles são mais desencanados com relação a isso. Me preocupo muito, às vezes eu dou uma entrevista, dá uma ocorrência, sabem que eu estou na ocorrência, mas quase que não me perguntam nada: “Como é que foi, o que aconteceu?”, já estão assim, já virou bem rotina para eles. A minha filha, como ela é muito apegada comigo, então ela já pergunta mais, já é mais curiosa e tal. E tem aquele outro lado, eu na situação, na ocorrência, a gente não adianta, quando você passa por uma situação você pensa na família; a família, depois que a gente casa e depois que a gente tem filhos também, a família ela está sempre em primeiro lugar; então em muitas situações eu dei uma dosada, sempre penso na família. Hoje, por exemplo, se eu tivesse que por algum motivo sair da minha família eu sei que ia ser um choque muito grande, porque eu sou muito presente, é do serviço para casa, da casa pro serviço. Passando do horário ou não, eu me entrego totalmente ao serviço, mas ou eu estou trabalhando ou eu estou com a minha família.


P/2 – Quando você era criança, alguma vez você pensou que seria bombeiro?


R – Para ser sincero, não. Quando eu era criança eu tinha outras perspectivas, eu nunca tive uma orientação, assim, profissional. Tudo o que eu fiz foi uma coisa que foi acontecendo na minha vida, então ninguém nunca chegou para mim e falou assim: “Ó, vai por esse caminho”, como eu estou procurando orientar meus filhos nessa área assim, eu nunca tive, então as coisas foram acontecendo.


P/2 – E você, como você avalia o Corpo de Bombeiros na sua vida?


R – Ah, é uma coisa assim, que profissionalmente eu não conseguiria, hoje durante a minha carreira eu não saberia dizer para você se eu conseguiria conviver sem isso, como é que eu seria em outra profissão, é uma coisa que incutiu na minha carreira, eu gosto muito, eu procuro fazer da melhor forma possível. Quando eu, apesar de estar até nessa posição de Capitão, a gente se torna um pouco menos operacional, fica mais em administrar, vamos dizer assim, quando eu vou para ocorrência eu realmente me realizo, então é uma coisa que eu realmente gosto muito, de estar na ocorrência, de estar naquela movimentação, naquela organização, de ver o pessoal trabalhando e ver o que você está fazendo estar dando certo. Que às vezes você vai para uma ocorrência e você fica sem alternativa, algumas coisas não dão certo, você está com um suicida que você não consegue convencer, está com uma pessoa idosa, uma pessoa que está presa em algum lugar que está difícil tirar, você entendeu, mas tudo são lições de vida. Então depois que você para, é uma coisa que está incutido em mim, eu gosto muito. Eu com quarenta e oito anos, perspectiva de carreira minha mais uns cinco, seis anos, a tendência minha é major, mais um pouco tenente-coronel, ou eu vou ser coronel ativo ou não, mas vai ser nesse período aí, uns cinco, seis anos. Agora, daqui para frente é tudo muito rápido. Então eu estou assim, porque no máximo em cinco, seis anos acabou a minha carreira de bombeiro, então eu já estou me preparando para isso porque eu sei que se eu não me preparar o choque vai ser muito grande, para eu largar isso do dia para noite. Como acontece com a maioria dos bombeiros: trabalhar de bombeiro parece uma doença, você às vezes reclama, mas também não larga e aquilo lá faz parte de você, você quer estar junto, você gosta, você quer estar lá todo dia, você vai de folga, você vai de férias, passa no quartel, você não consegue se desligar. Eu falo isso por mim, que a minha vida toda eu trabalhei ali na área operacional, não saberia te falar hoje se eu tivesse trabalhando no setor administrativo para mim seria meio difícil. Se um dia eu for, eu vou, lógico, você tem que trabalhar, mas eu vou sentir bastante. Então é uma coisa que realmente, hoje, de zero a cem por cento, setenta a oitenta por cento é voltado para isso, e à minha família, que para mim é muito importante.


P/1 – Você tem um sonho, um grande sonho na vida?


R – Profissional ou familiar?


P/1 – Os dois.


R – Tenho vários sonhos.


P/1 – Ah, que bom!


R – Tenho vários sonhos, porque eu acho que o homem tem que viver de sonhos, tem que ter um objetivo, independente de estar trabalhando ou não. Por isso que eu te falo, eu tenho sonhos para minha família, eu tenho sonhos profissionais.


P/1 – Um grande e único, não?


R – Posso falar dois?


P/1 – Pode, claro.


R – Dois, assim, porque senão eu não vou ser honesto.


P/1 – Claro.


R – Primeiro com a minha família, por isso que eu te falei em dois, um familiar e o outro profissional. O meu grande sonho com a minha família é eu e a minha esposa a gente estar assim junto o maior tempo possível. Não estou falando em separação, estou falando em convivência até o dia dos dois partirem, para poder dar o melhor suporte que for pros meus filhos, que eu quero realmente, o meu grande sonho é ver os meus filhos bem formados profissionalmente, encaminhados. E na adolescência dar tudo certo para eles, que eles sabem que depois que eles saírem da porta de casa tudo pode acontecer. Às vezes a gente toma um caminho aí que a gente não quer, então eu estou tentando cercar isso de todas as formas, não mantendo eles presos, mas que dê tudo certo, que eles saiam para vida e tomem o rumo correto. Realmente que eles continuem estudando, se formem, sejam bem profissionalmente, formem as suas famílias, quero ver os meus netos, para mim esse é um grande sonho, que dê tudo certo e nada desvirtue, que a gente está na rua, está aí e de repente vem alguém dá um tiro. Você está aqui e de repente você recebe uma notícia que o seu filho morreu… Isso é uma coisa que seria muito difícil, como é difícil para qualquer um. Então o meu grande sonho familiar é realmente manter a minha família o maior tempo possível e que os meus filhos realmente realizem os seus sonhos profissionais e familiares, tenham famílias, esse é o meu grande sonho. Profissionalmente, é permanecer no Corpo de Bombeiros, chegar até o último grau que seria o grau de Coronel. Eu sou Capitão hoje, então para assumir o meu próximo posto é Major, Tenente - Coronel e o último que é Coronel. Para chegar ao coronel na ativa, é muito difícil para chegar coronel na ativa. Então tem que fazer curso, é tudo, tem que alinhar os astros aí, chegou a sua vez, tem vaga; então não é fácil. E mais sonho ainda é ser coronel também na ativa no Corpo de Bombeiros, que você pode ser coronel, mas não ter vaga no Corpo de Bombeiros, então esse é um grande sonho meu, realmente.


Coronel – E você não sonha em ser Comandante de Bombeiros?


R – Coronel, assim eu nunca pensei nisso porque eu acho que talvez seja até um pouco de pretensão. É um objetivo muito grande, eu acho que até é um sonho de todos, todos os oficiais do Corpo de Bombeiros têm esse sonho de ser Comandante do Corpo de Bombeiros. Só que eu não coloco isso como meta porque não depende só de mim, tem coisas que dependem só da gente: o que que depende de mim? Eu estudar, me esforçar, fazer curso… Agora ser Comandante do Corpo de Bombeiros ou até ser coronel envolve outras situações, como eu te falei, envolve outras pessoas, os comandantes da época, vaga. Então eu procuro até não focar isso em muito forte. Se dependesse só de mim, aí eu entrava de cabeça, mas como não depende só da gente... Então o meu primeiro foco é ser coronel na ativa. Por que na ativa? Porque eu posso chegar até tenente-coronel e dar o meu tempo e eu ter que ir embora, não ter vaga na ativa para eu ser coronel. Então eu vou embora como tenente-coronel e sou coronel aposentado, na reserva, mas o meu sonho não é ser, é ser coronel na ativa, é ser coronel trabalhando. Agora ser comandante do Corpo de Bombeiros aí já não é mais sonho, aí é o auge do emprego (risos), que não depende só da gente. Então por isso que eu ponho um pouco a cabeça no lugar para não sonhar muito e de repente o sonho não realiza e você fica frustrado. Então esse é o meu sonho.


P/1 – Como foi prestar o depoimento para gente?


R – No inicio eu fiquei, até que nem eu falei, eu até nem trouxe as fotos porque eu não sabia o direcionamento da entrevista, eu tenho bastante foto. Até como o Coronel tinha comentado das missões eu fui até como jogador, eu levo foto das missões, eu levo foto da minha vida. Então até a missão do Maranhão que eu fui também, foi outra missão totalmente diferente. Então a entrevista eu fiquei assim (risos), que aí foi a segunda missão foi bombeiro.


P/1 – Pro Maranhão?


R – Que foi para outro estado que eu comandei também que foi a do Maranhão, que aí foi em 2009.


P/2 – A gente podia marcar, você vai trazer as fotos, você têm muitas, a gente podia marcar em outra oportunidade só para contar essa missão.


R – A missão do Maranhão, agora eu já sei aonde é porque eu demorei um pouquinho para achar aqui.


P/2 – A gente vai tomar nota, aí a equipe entra em contato também, aí se existir a oportunidade.


R – Existe. Então, aí eu fiquei meio assim, até achei legal a forma como vocês conduziram porque a minha preocupação seria o início, como é que vai ser o início, é um depoimento, vai ser uma entrevista? Eu acho que é um depoimento. Não sei, que rumo que eu vou tomar? Eu não esperava, foi uma surpresa a forma como vocês conduziram, fiquei à vontade, foi bastante interessante. Obrigado.


P/1 – Obrigada a gente. Obrigada.


FINAL DA ENTREVISTA

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