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História

Formação é mais que assistência

História de: Thereza Angélica Marino Galvão
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 13/07/2010

Sinopse

Em sua entrevista, Thereza fala sobre a imigração de sua família italiana para o Brasil, o armazém de seu pai e sua criação em Rio das Pedras. A seguir, nos conta sobre sua educação num internato de Piracicaba e a formação no magistério, que a levou a lecionar em São Paulo. Aqui, conhece seu marido, Galvão, engenheiro que na época morava em Volta Redonda. A partir daqui, comenta sobre as diversas mudanças que o emprego do marido exigiu ao longo dos anos, junto de seu casamento e do nascimento de seus filhos. Depois, Thereza nos conta sobre a formação da Creche Madre Camila, na zona oeste de São Paulo, e sobre a posse de seu marido como prefeito de Rio das Pedras, mandato em que Thereza foi fundamental na parte social e assistencial. Seu depoimento finaliza com a história do nascimento de seu primeiro filho e seus sonhos para o futuro.

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História completa

Vocês conhecem o Colégio Anchietano aqui na Heitor Penteado? Na esquina tinha um colégio, chamava Anchietano. Essa minha amiga morava aqui nesse bairro. E faziam parte desse grupo de oração. E numa noite, nós já estávamos em São Paulo voltando dessas andanças todas, ela telefonou perguntando para o meu marido se ele não queria ser presidente de uma, que eles estavam formando, uma Diretoria. Que o padre, que era o Padre Brandão na época soube da creche que estava sendo mantida por uma freira que tinha tido um derrame. As crianças estavam em situação precária. E o padre soube através de um grupo de jovens que foram fazer um encontro e sobrou marmitex, sobrou comida. E eles então perguntaram na padaria para quem que eles podiam dar. Se tinha um local, um asilo. E eles disseram: “Nessa rua mesmo tem um grupo de crianças que estão passando necessidade. Porque a freira que tomava conta sofreu um derrame.” E eles então foram levar comida. E levaram essa informação para o Padre Brandão. Então o que o Padre Brandão a noite reunindo com os casais, falaram: “Olha, não basta só rezar, vocês têm que agir também. A oração e a ação.” Na terça-feira eles iriam fazer uma visita aqui no Jaguaré pra visitar a creche, marcando um encontro que o meu marido fosse. E ele foi pra lá. Então ele ficou presidente. Quer dizer, foi sem, né? E ele aceitou. Então foi uma tristeza o que a gente encontrou lá. Porque as crianças estavam assim com mil problemas. Que não tinha água, não tinha água encanada. Tinha, sabe, elas estavam assim cheias de vermes, cheias de problema de pele. De impetigo, de uma porção de coceira, de sarna. Porque não tinha água para tomar banho. Elas estavam ali abandonadas. Porque a freira tinha tido um derrame, a que tomava conta. E tinha sido levada para Divinópolis. Então as crianças estavam com duas mães tomando conta delas, mas sem um tostão. Não tinham como. Estavam vivendo ali da caridade das pessoas vizinhas. Então foi todo um trabalho. E o Galvão foi desde o, fazer existir a creche, porque não existia. Era um local onde tinha as crianças. A freira tomava conta para as mães irem trabalhar. Mas não tinha, legalmente elas não existiam. Então foi todo um trabalho de documentação para que a gente pudesse ter recursos também municipais. Então foi todo um trabalho que eles tiveram de, para utilidade pública. De federal, no nível federal, estadual e municipal, para poder fazer com que a creche existisse. E a par disso fazendo campanhas pra melhorar a situação da creche de água. Para deixar as crianças, cuidar da saúde das crianças. E o Galvão acabou ficando quatro anos como presidente lá. E assim foi até construir depois o outro núcleo. Eu, no começo a gente só tinha essa de levar criança, de ver exame. Não tinha muita atribuição. Depois eu fiquei na, como secretária. Eu que fazia as atas. E também com as crianças, eu tinha um contato com as crianças de, os maiores, a gente tinha, dava noções de higiene, dava aula de catecismo, né? Também para as crianças. Desenho. Que era de uma maneira assim muito sutil as aulas de religião que a gente fala. Não era uma aula de religião. Era assim uma brincadeira, um desenho, que elas vissem que tem alguém superior, né? Um Deus. Então era isso que a gente fazia com elas. Até eu me mudar. Ainda durante o primeiro ano eu vinha nas reuniões mensais, mas depois, como primeira dama você tem outras atribuições em Rio das Pedras. E você morando lá você tem que se, tem que participar das coisas de lá. E não dava. Às vezes coincidia os mesmos, as mesmas datas. Então eu falei: “Olha gente, nós ficamos, o que vocês precisarem nós estamos aqui à disposição, mas não dá mais para vim correr assim para as duas coisas.” porque ou você faz uma coisa bem feita ou você não faz. Porque a gente não é de fazer meia boca, como diz, né?Então, de uma grande, a grande maioria das nossas crianças eram mães que trabalhavam como domésticas, como faxineiras. A maioria não tinha pai, né, assim, pai ausente. Outras tinham pais. Eram crianças que precisavam mesmo. Aqui da região do Jaguaré, mas mais pra frente: Vila Yara, Osasco. Elas vinham, algumas tomavam ônibus para trazer as crianças para a gente. Então eram crianças que ficavam conosco até quase sete anos no começo. Elas ficavam até seis anos e onze meses. Então elas já saíam alfabetizadas, hoje não, as crianças, a Secretaria de Educação passou a manter só as crianças conosco até quase quatro anos.Quando nós começamos eram 19. Aí depois fomos aumentando para 50. Hoje tem 100, né, em cada núcleo. Nós temos 210 crianças dos dois núcleos. Porque nós temos dois locais hoje. Então mantemos muita criança. Para as mães que ali não era um depósito de crianças. Isso sempre falamos e contamos o que era, o porquê da gente ter uma creche. Que era pra ajudá-las. Porque elas iam trabalhar sossegadas, mas que ali não era depósito. Que elas também tinham responsabilidade. Porque no comecinho com a Madre Camila, as crianças dormiam lá. Passavam a semana lá. Só iam para os pais no fim da semana. Então até isso nós tivemos que tirar. Logicamente que não, porque as mães têm que ter responsabilidade. Elas levam para casa e são mães das crianças, não pode esquecer disso. Então não é um lugar que elas deixavam as crianças e esqueciam que tinham filhos, né? Então as crianças já iam banhinho tomado, jantinha pronta. Elas podiam até chegar e botar pra cama, mas as crianças iam para os pais. Com funcionários nós tivemos um problema grande, sério. Não sei, até Rosa Maria pode até ter contado essa mesma história. Nós tivemos uma empregada, uma funcionária de serviços gerais, ela era faxineira. Ela teve problema de câncer. Ela teve um câncer, depois ela voltou, ela ficou uma temporada afastada. Ela teve toda assistência da creche, inclusive da gente visitá-la e ter todo conforto possível dentro da situação dela. Ela voltou a trabalhar. Depois o câncer voltou novamente. Então ela não podia mesmo, por exemplo, carregar um balde de água, não podia fazer nada disso. E então tinha que ter uma ajudante pra ela. (riso) Além, e ela não queria ser mandada embora porque ela ia ganhar pouco se ela aposentasse. E nós mantivemos essa pessoa. Aí nós ganhamos uma máquina de costura. E ela então pediu para nós essa máquina porque na casa dela ela poderia ganhar um dinheirinho a mais. E nós levamos a máquina para, era uma máquina antiga, para colocar - agora fugiu o termo - pra ficar elétrica. Tem um nome. Porque primeiro era pedal. Então para deixá-la para ela não ter esforço nenhum pra poder costurar. E ela levou pra casa. Mas ela, aí ela se aposentou, né, e levou a máquina que era da creche. Só que ela nos levou pra Justiça. Ela arranjou duas testemunhas dizendo que ela costurava na creche e que nós não pagávamos hora extra pra ela. Então isso marcou muito, porque foi uma pessoa que foi muito ajudada. Mas ela foi induzida pelo companheiro dela, por um filho que era drogado. Ela foi induzida. Nos levou e nós perdemos. Porque mesmo a advogada percebendo que as testemunhas eram falsas, deu ganho de causa para ela. Só que ela não pode aproveitar do dinheiro. Quem ficou foi o filho e o amante, o companheiro dela, porque ela morreu. Mas antes de morrer ela nos chamou. Chamou a Rosa Maria, pediu perdão do que ela tinha feito. Então foi uma cena que a gente não esquece. Viemos na favela onde ela morava pra ela pedir perdão do que ela tinha feito conosco. Quer dizer, a creche que ajudou-a tanto, e ela prejudicou e não aproveitou do dinheiro. Então isso marcou muito. E o fato dela pedir perdão. Dela ter reconhecido, né? Porque ela sabia que ela ia morrer. Então nos chamou, fomos lá. Então foi assim uma cena que a gente não esquece essa. Uma cena muito triste que aconteceu. E as coisas alegres das crianças, né? Até trouxe uma fotografia dos natais que a gente fazia com as crianças. A gente ensaiava o Presépio vivo com as crianças. Punha uma vestidinha de São José, outra de Nossa Senhora. (riso) Pegava uma criancinha filha de uma delas lá para fazer o Menino Jesus. Então foi, teve uma época muito boa. E muita luta. Porque não é fácil você manter assim uma creche como hoje nós temos. As dificuldades são grandes, são grandes. Mas houve um tempo bom também. É isso. Então é isso. A gente ter essa lembrança boa de um trabalho que a gente fez e ainda continua ligado. A gente está ligado. Se estamos aqui hoje é por causa da creche.

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