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História

Fugindo do Fascismo

História de: Sandra Maria Salvestrini
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 25/04/2019

Sinopse

Sandra Maria Salvestrini fala sobre a ascendência italiana e as motivações dos familiares para emigrar para o Brasil. Conta sobre a atuação do avô materno que era comunista e como foi a trajetória da família em São Paulo. Relata, ainda, lembranças do bairro Pompéia de quando era criança e a imagem de São Paulo da qual tem saudades.

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História completa

P – Por favor, diga o seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R – Meu nome é Sandra Maria Salvestrini, São Paulo, São Paulo, 5 de junho de 1952.

 

P – Você é descendente de imigrantes. Explica essa descendência, por favor.

 

R – Eu sou neta de imigrantes italianos por parte de pai e filha de imigrantes italianos por parte de mãe.

 

P – Algum deles está vivo?

 

R – Só minha mãe.

 

P – Qual é a sua atividade hoje?

 

R – Professora.

 

P – Sabe de que região da Itália sua mãe veio?

 

R – Ela é vêneta. Minha avó por parte de pai era de Bolonha. E os outros três avós, todos vênetos.

 

P – E a senhora sabe por que eles vieram para o Brasil?

 

R – Bom. Começando pela minha avó paterna, ela veio pra trabalhar na lavoura de café, no início do século vinte, veio com seis anos. Meu avô paterno veio para o Brasil com dez anos de idade, para comprar terras. Eles compraram um pequeno sítio e trabalharam nesse sítio. Agora, meus dois avós por parte de mãe, eles fugiram do Fascismo, chegaram no Brasil em 1927, minha mãe com quatro anos de idade, sendo a mais velha. Meu avô era comunista. Ele fugiu para o Brasil depois que o Mussolini matou o Matteotti .

 

P – Isso quem conta pra você?

R –Minha mãe. E minha avó também. Porque minha avó morreu em 1977, eu já era adulta, mas a minha mãe conta.

 

P – O que eles fizeram quando eles chegaram?

 

R – Eles foram morar no Ipiranga. Tanto que a minha mãe conta que eles foram visitar o Museu do Ipiranga e ficou presa lá dentro. (risos). Porque ela ficou olhando umas coisas lá dentro e se distraiu, se perdeu da minha avó, e ela não sabia falar português para avisar o vigia do Museu... E meu avô por parte de mãe era engenheiro, e ele não podia trabalhar no Brasil por causa do problema do diploma. Depois ele conseguiu emprego na Sorocabana e foram morar em Sorocaba. E meu avô se aposentou aqui no Brasil, como engenheiro da Sorocabana.

 

P – Quer dizer, o lado da sua mãe parece que tem uma história mais interessante.

 

R – Sim, porque envolve política, fuga. Porque falaram pro meu avô que se ele não fugisse, não saísse da Itália, seria morto por ser comunista. Ele fazia campanha, ele tinha muito dinheiro na Itália. Minha mãe conta. E que ele gastou toda a fortuna dele, que ele recebeu de herança dos pais, ele gastou toda. Ele era o único filho homem, parece que tinha três irmãs, mais velhas que ele, todas muito bem casadas. E uma delas era casada com um industrial. E meu avô ia na porta da fábrica fazer campanha pros operários entrarem em greve porque ele era comunista (risos). E eu não conheci esse avô. Ele morreu antes de eu nascer. Eu só sei de ouvir falar. A minha mãe conta, a minha avó contava, as irmãs da minha mãe contam, então... Mas depois eu fui pra Itália visitar os parentes da minha mãe que ainda moram lá, todos os primos da minha mãe, e a história foi confirmada. Porque meu avô tem... a prima da minha mãe viva. E essa prima é dez anos mais velha do que minha mãe, então ela se lembra quando eles embarcaram para o Brasil. Que minha mãe tinha quatro e ela tinha catorze anos. E ela está viva ainda hoje na Itália.

 

P – E como é que foi esse embarque?

 

R – Foi em Gênova. Foi uma choradeira danada. Porque a família da minha avó ficou brava, porque não queria que eles viessem pro Brasil. Porque não estavam acostumados. Eles tinham dinheiro lá na Itália. Não vieram por motivo de miséria, procurar uma vida nova. Mas, não teve jeito. Tanto que meu avô pensava em voltar. Ele não acreditava que ia haver guerra, ele acreditava que o Mussolini ia cair logo do poder, e que um dia ele ia voltar pra Itália. Tanto que ele não quis registrar os filhos como brasileiros, porque eles eram muito pequenos. Ele achava que um dia voltaria pra Itália. Aí estourou a guerra, que terminou em 1945, e ele morreu em 1950. Morreu de câncer. E pra Itália não adiantava voltar, estava toda destruída, não tinha emprego, não tinha nada...

 

P – O que você notou na sua casa de infância dessa cultura italiana.

 

R – Ah, a comida. Costumes. São bem diferentes dos brasileiros. Eles não valorizam muito a aparência, valorizam o trabalho, o estudo, porque a minha avó por parte de pai ficou viúva novinha, com seis filhos pequenos pra criar. E ela era semi-analfabeta, trabalhava de lavadeira em Sorocaba e botou todos os seis filhos pra estudar. Todas as minhas tias, irmãs do meu pai são professoras, e meu pai terminou o científico. E ela passava dia e noite lavando roupa, e o principal era eles estudarem. Não tinha roupa... era comida e estudo. Roupa veste o que tem, não tem problema. Mas, o estudo, ela queria dar pro filho. E isso brasileiro não faz. Põe o filho pra trabalhar desde pequinininho e não vai pra escola. Com dez, onze anos, tira da escola, deixa a criança trabalhando e não se preocupa em estudar o filho. É essa a diferença que eu sinto. A valorização que eles dão para o estudo. Então meu pai conseguiu um bom emprego, nós temos uma boa aposentadoria dele graças à minha avó que fez. Com o científico, naquela época, se conseguia um bom emprego.

 

P – Qual era a profissão dele?

 

R – Ele trabalhava como inspetor fiscal da prefeitura. Era nível universitário. Mas quando ele fez o concurso pra prefeitura, era só até Segundo Grau. E ele passou...porque ele fez o estudo na década de 1940, escola de Estado, era super difícil. Essa coisa da comida, da valorização do trabalho, do estudo, não se preocupar com as aparências, quê mais, do orgulho da Itália, de ser hoje um país rico, isso tudo a gente sente, a Itália é hoje um país rico, desenvolvido, ainda mais a minha mãe que se corresponde com os parentes, com os primos, eles escrevem...

 

P – E sua mãe, como ela fazia o ambiente em casa? Quem mandava na casa?

 

R – Isso não sei, porque minha mãe trabalhava fora, nós nos virávamos sozinhas.

 

P – Em que bairro foram morar?

 

R – Primeiro, na Pompéia. Vim morar na Pompéia em 1954.

 

P – Você se lembra de como era o bairro?

 

R – Lembro. Bom, onde eu moro hoje, na rua André Dreyfus, no Sumaré, era mato. Só tinha a Tupi, a TV Tupi, algumas casas... Era mato. A gente vinha fazer piquenique aqui no Sumaré. Isso na década de 1960. As ruas eram de paralelepípedo, aqui tinha as fábricas do Matarazzo, que poluíam o bairro inteiro (risos). Uma era aqui embaixo do Viaduto Antártica, era o Sol Levante, onde é hoje o Shopping Center Matarazzo. Eles vendiam retalhos de tecidos da Matarazzo, aqui por perto, mas eu não lembro direito que eu vinha com a minha mãe, ela vinha comprar... biscoitos quebrados também da Matarazzo, que eles vendiam, não sei onde era, mas sei que era um escritório... Era um bairro da classe média baixa, as casas com jardim, sem garagem, algumas ainda tem por aí, que eles não derrubaram pra fazer prédio. Eu estudei no Miss Browne, eu ia a pé, porque ônibus só tinha um, que era da CMTC, cor de laranja. A gente ia a pé, porque o ônibus demorava muito. Então aquelas casinhas que tem ali na rua Caraíbas, algumas ainda sobraram. O bairro era calmo, sem violência, a gente fazia festa junina na rua, a criançada fazia fogueira, brincávamos na rua de amarelinha, pulava corda. Fazia tudo na rua. Uma São Paulo que não existe mais. Na minha casa tinha televisão, mas a gente assistia só de noite, de vez em quando. Era uma São Paulo da qual a gente tem saudade. Tanto que quando eu falo para os meus alunos de Geografia dessa São Paulo, eu pergunto para eles: “Em que São Paulo vocês gostariam de viver?” “Ah, nesse que a senhora viveu, era mais gostoso, mais tranquilo, as pessoas eram mais calmas.” Isso pra mostrar, a evolução da cidade. Mas o bairro da Pompéia não era como é hoje, um bairro de classe média, média média, média alta. Era de classe média baixa. As pessoas não tinham carro, as casas não tinham nem garagem, e o bairro era desvalorizado por causa das Indústrias Matarazzo. E tinha muito mais indústrias por aqui. Tinha um cheiro insuportável, tinha a Saturnia, também, que ficava na Rua Padre Chico que poluía o bairro, que fazia bateria, e o bairro era cheio de fábricas.

 

P – Vocês tiveram alguma relação com o futebol, por causa do estádio?

 

R – Não, meu pai não gostava de futebol. Só me lembro que tinha o Palmeiras aqui. Eu vinha num parquinho que tinha na avenida Pompéia, mas com futebol não havia nenhuma ligação. Meu pai não gostava.

 

P – Vocês frequentavam algum clube?

 

R – Palmeiras. Mas a gente ia para nadar, para atividades esportivas, para as festinhas que tinha no Palmeiras...

 

P – Vocês falavam italiano em casa?

 

R – Não. Não falávamos pelo seguinte: durante a guerra era proibido falar italiano, alemão e japonês. Então perdeu-se o costume. Minha mãe morava em Sorocaba, uma cidade pequena, mas hoje é grande. Então, a colônia italiana era muito visada, lá a colônia é muito grande, é só você ir no cemitério lá, tá cheio de sobrenomes italianos. Então, não se falava italiano porque o governo de Getúlio Vargas proibiu. Mas, a minha avó falava dialeto vêneto. Eu entendia, mas respondia em português. Mas foi perdendo o som, que ela morreu faz vinte e quatro anos. Porque os meus dois avós morreram antes de eu nascer. A minha outra avó por parte de pai morreu quando eu tinha nove anos. Então, a minha avó com quem eu convivi mesmo, que morreu bem velhinha, com quase noventa anos, foi a minha avó materna. Ela morava em Sorocaba, onde, quando éramos crianças, passávamos todas as férias. Minha irmã é bem loira, de olhos azuis. Ninguém diz que ela é brasileira.

 

P – Então, tá bom. A gente quer agradecer a entrevista...

 

R – Agora, eu trago a minha mãe aqui, que ela pode contar mais sobre o problema que eles passaram na guerra.

 

P – E da travessia também.

 

R – Ela pode dizer alguma coisa, mas ela não lembra, que ela fez quatro anos no navio.

 

P – Deve lembrar alguma coisa de ouvir a mãe contar.

 

R – É. Minha avó falava muito da guerra, da Primeira Guerra, que ela passou na Itália. Dos bombardeios, tinham que se esconder. E imagino o que deve ter sido a Segunda, se a Primeira foi desse jeito...

 

P – Muito obrigada, então, pela entrevista.

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