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História

Fundação de comércio familiar

História de: Wilmon Barbieri
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 27/07/2005

Sinopse

Nascimento em Araraquara. A origem da família e a fundação do comércio familiar. Os irmãos e a participação da família no comércio. O funcionamento da loja e como o empreendimento evoluiu. As viagens que realizava a trabalho e a equipe que trabalhava na loja. A relação com os clientes. As datas festivas passadas na loja. As brincadeiras de infância e os estudos. As ocasiões em que salvou diversas pessoas do afogamento. As ações comunitárias que realizou e as aspirações para o futuro.

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História completa

P/1 – Para começar a entrevista, diga  o seu nome completo.

 

R – Wilmon Barbieri.

 

P/1 – Onde nasceu?

 

R – Em Araraquara.

 

P/1 – Em que data?

 

R – 17 de agosto de 1922.

 

P/1 Qual o nome dos seus pais?

 

R – O meu pai chamava José Domingos Barbieri, conhecido mais como Domingos, e minha mãe, Romilda Taparelli Barbieri.

 

P/1 – Sabe a origem da família dos seus pais?

 

R – Da família?

 

P/1 – Dos seus pais. O seu pai, por exemplo, de onde veio?

 

R – Ele veio da Itália, de Monte Leone, mas fica num... A cidade chamava Vivo Valêncio. Monte Leone é o bairro, a cidade chamava Vivo Valêncio. Ele veio com um irmão dele, que era Rafael Barbieri. Veio junto os dois. E vieram para Araraquara direto, da Itália para cá.

 

P/1 – Os seus avós não vieram da Itália para cá?

 

R – Os meus avós vieram antes deles, né? Então eles vieram da Itália... Para Araraquara direto e ficaram depois, se acomodaram uns tempos. E depois de um certo período pediram que chamassem os dois meninos. E eles vieram, por intermédio do Consulado Italiano. E veio para Araraquara direto. Aí começaram a trabalhar na loja. Era uma firma de conserto de sapato, sapataria. E começou a trabalhar nesse sistema. Depois meu pai e meu tio montaram uma firma que ao invés de consertar sapato, compravam sapato já feito e foram vendendo as mercadorias e foi crescendo. De sapato foi para meias, camisa e coisas. E começou a fazer seções mais completas que tivessem relação; mais artigo para homem. Depois fizeram um prédio na Nove de Julho, a Casa Barbieri e ampliaram mais os negócios deles, com muita dificuldade; mas lutaram. Eram muito lutador. Eles cresceram, fizeram depois seção de senhoras, seção de jóias, seção de disco, seção de presente, seção dentária, eletrodoméstico. E a coisa foi crescendo e foram ampliando. Compraram outros terrenos e aumentaram a loja. E assim foi, a Casa Barbieri cresceu bastante e estava numas instalações muito bonita, muito bem feita e ficou até famosa a Casa. Diversas pessoas, você pode inclusive, de toda essa região e fora da região, era conhecida como uma das lojas mais bonitas do Interior. Sendo que quando vinha autoridade para Araraquara, uma parte da visita era visitar a Casa Barbieri, uma tradição; que era uma Casa muito bonita. Então, foi crescendo, crescendo, vieram os filhos, né? E comecei a trabalhar depois mais tarde nessa firma com pouca idade, com 11 anos. Porque tinha problema da vista esquerda, perdi completamente, e a outra fiquei enxergando muito pouco. Então, meu pai falou: “Bom, você não pode estudar, mas tem que trabalhar para fazer alguma coisa, que não pode ficar parado.” Então, ele me botou pra trabalhar  na loja, fiquei na seção de pacote, seção de entrega, era coisa de acordo com a minha idade. Mas fui me esforçando, fui lutando. E quando tinha 16 anos já passei a tomar conta de uma loja, de uma seção, que é a seção de perfumaria, de artigos de presente, utilidade doméstica, seção dentária. E fiquei tomando conta mais desse setor. E eu, graças a Deus, nessa loja e em outras depois que eu trabalhei mais tarde, sempre fui muito bem-sucedido  por causa da equipe, que como eu tinha um problema visual e um pouco também de audição, eu precisei ser mais humilde com as pessoas com quem eu tinha contato. E então, trocava idéias, dialogava com essas pessoas, para dar certo as coisas que fossem serem feitas. E as pessoas que trabalhavam comigo se sentiam à vontade, dialogavam e me ajudavam. E o elemento humano é muito bom. Depende da gente saber se comunicar, trabalhar, e então a gente consegue bons resultados. E nós estamos na firma que a parte que fiquei tomando conta cresceu. E depois participava também em outros setores; na venda participava também. E fomos crescendo. Depois meu pai faleceu, fomos obrigados a separar a firma e tal. Ficou o meu tio com o filho dele e nós fomos para uma outra loja, que chamava Consular Barbieri. Então era um ramo que eu não conhecia, mas tinha vontade de trabalhar. Eu não dormia duas horas por noite. Trabalhei bastante para que a coisa desenvolvesse. Então, formamos uma equipe muito boa e a coisa então cresceu muito bem. Depois compramos uma outra loja, que era loja de ferragem, chamava Centrolar. Então, tinha a Casa Barbieri, o Consular Barbieri e o Centrolar. Aí ficava na Nove de Julho também. Aí subi para aquela loja também para ter mais atividade e a parte de baixo, a loja de baixo, já estava formada; eu já tinha um irmão que trabalhava junto. E tinha também a equipe que já estava formada. Então ficou naquela parte e eu subi para a Centrolar para formar a equipe. E lá, não demorou muito tempo, começamos a fazer importações de ferramentas, seção de tintas, seção de artigos de presente e a coisa foi crescendo graças à equipe, sempre a equipe que ajudava a gente a desenvolver. Então, sempre trabalhei com muita humildade, com muita compreensão, muito diálogo. Então, tratava bem tanto os fornecedores como os viajantes, como os funcionários, os fregueses; todo o mundo era respeitado e a gente aceitava o diálogo de todos eles, né? Que hoje a comunicação, sempre a comunicação e o diálogo, sempre foi necessário. Sempre a vida da gente sem comunicação não se vence. Então, eu consegui bons resultados graças a equipe, né? Minha vida foi mais ou menos essa aí que eu tive, que foi muito bom.

 

P/1 – O senhor já contou muito da história da Casa Barbieri e um pouco da sua história. Vamos  retomar um pouco da sua história pessoal. Quantos filhos o seu pai teve? Eram quantos irmãos na sua família?

 

R – Nós éramos em seis irmãos. Um é médico, que é o Doutor José Barbieri Neto; o outro era economista, que trabalhava também na firma, Waldo Barbieri; o outro era arquiteto, Doutor Nelson Barbieri. Trabalhava fora, mas ajudava também na firma. Depois era eu, que era comerciante, que me formei contador; e tinha depois o Arnaldo e o Benito. Os dois eram dentistas. Mas ficaram no comércio também, que gostavam mais do comércio, né? E o Arnaldo é que ficou comigo no Consulado. Depois eu fui para a Centrolar. Aí o Benito ficou comigo na Centrolar. E geralmente nas firmas que a gente trabalhava eu procurava sempre delegar poder para a equipe que estava trabalhando. Então a gente se comunicava. E a gente geralmente pouco executava, mesmo porque tinha o problema da vista. Mas ficava mais pensando o que deveria ser feito, como deveria ser feito. Então, a gente se comunicava com os funcionários. Vamos supor, às vezes um funcionário fazia alguma coisa que eu poderia achar que não era muito interessante. Eu me comunicava: “Escuta, isso aí, o que aconteceu?” Então, ele me explicava. Aquilo que aparentemente não era tão interessante, depois da explicação, a gente via que podia ser aplicado, né? Então havia muito entendimento. Eu não tinha a pretensão de achar que  era o dono da verdade, que o que eu pensava tinha que ser feito. Não era assim. Então, a gente tinha que trocar idéias. É como  falei. Às vezes as coisas para a gente parecia que tem uma idéia de funcionar, tem uma idéia de fazer. A gente achava que estava talvez errado. Mas depois que a gente se entendia, acabava vendo que aquilo que ele pensou ia dar um resultado, porque já alcançava aquele objetivo dele, entendeu? Então, é interessante. E meus irmãos, um que é médico, eles eram... Quando o papai faleceu, eles ficaram. Era S.A. Continuaram como sócios da firma. Só que eu é que trabalhava e o Arnaldo e o Waldo, né? Era a equipe que ficava mais trabalhando na loja. Eram três lojas, então cada um ficava mais ou menos dentro de um setor. E o José e o Nelson participavam das reuniões que fazíamos, mensal. Fazíamos reuniões e eles davam o parecer também. Esses irmãos nunca se preocuparam que ele tinha que retirar ou não. Quer dizer, sempre lutaram para que a firma crescesse. Nunca tiveram interesse particular, nenhum deles, de tirar proveito da firma, e inclusive nós, os que trabalhavam. Era sempre pensando em crescimento, né? E a coisa realmente cresceu bem. Mas depois com o tempo, fomos tendo os filhos, então, fomos obrigados também a separar para dar para os outros, para os meus filhos, o Nelson com os filhos dele, o Waldo com os filhos dele. Tinha que abrir campo para as coisas. Então, não era possível colocar todos no mesmo setor. Então, eu fiquei... Eu era mais comerciante, fiquei com a parte comercial da Casa Barbieri e ficou dois filhos meus no comércio, que é o Luís Antônio e a Luiza Helena. Que hoje eles tomam conta da loja, hoje eles dirigem a loja, né? E eu não tenho mais participação. Dou uma olhadinha de vez em quando assim, para ver se está exagerando em alguma coisa dentro da parte econômica, né? Mas vai tudo bem. A gente vê alguma coisa, dá uma olhada de vez em quando, mas vai tudo bem, né? E, graças a Deus, está funcionando bem. E as filhas, uma é médica, está muito bem, casada com outro médico, o marido dela é médico também, ginecologista. Ela é pediatra. A Wilma é formada em arquitetura urbanista. Trabalha na Cetesb, que é o ramo dela mesmo, que é urbanismo, né? E a Suzana tem diversos cursos de professora. Ela era professora, mas  gosta mais de comércio. Então, ela ficou mais junto com o marido na parte comercial. E a Luiza Helena e o Luís Antônio estão na firma. Então, graças a Deus, todos os meus filhos estão encaminhados. Agora, quanto ao comércio, propriamente dito, era muito gostoso. Durante 63 anos  trabalhei no comércio. E atravessando por diversas etapas, né? E todas elas a gente conseguia vencer porque tinha que trabalhar com muito critério, com muita vontade, com muito amor, muita coisa. E a coisa então funcionou. Dizem que hoje o comércio – eu estou fora – está mais difícil. Eu não sei não, porque se a pessoa se dedicar realmente no setor que  está trabalhando, se dedicar, olhar, tem campo. Que tem muitos comerciantes que vão muito bem, outros não vão tão bem; mas por que será? Não sei, é uma questão de ter senso econômico, porque a pessoa tem que ter senso econômico e visão da coisa, trocar idéia com outras pessoas, ser mais humilde e se comunicar com as pessoas que têm mais vivência no assunto e que têm interesse. Trocar uma idéia e, dentro da possibilidade dele, aproveitar aquilo do diálogo que ficou, aquilo que é bom, dentro da personalidade dele, né? Então o negócio é... Creio que se tivesse no comércio, tenho a impressão que não seria tão difícil não. Porque logicamente hoje tem computadores, tem essas coisas todas, né? Mas a gente não tem condições por causa da vista. Mas tem que pôr elemento certo para aquilo. A gente não tem a coisa, vai e procura aquele que tem. Então, essas pessoas, que conhecem o assunto que a gente não sabe, vai executar. Naturalmente a gente tem que ter, no meu caso, por exemplo, eu tenho um pouco de visão para ver dentro daquilo que foi feito qual vai ser o objetivo, como vai ser. Porque as coisas, digo: “Olha, eu vou fazer isso e vai acontecer isso assim, assim.” Então, tenho que enxergar se aquilo realmente é positivo ou não, né? E a gente, como tem experiência comercial, enxerga as coisas. A experiência ensina a gente a enxergar as coisas que podem acontecer, o que é realizável ou não.

 

P/1 – Quando o senhor estava à frente da Casa Barbieri havia promoções com os clientes, fazia algum tipo de atividade?

 

R – Sim. Faziam promoções diversas, inclusive fazia algumas liquidações, por exemplo, de calçados principalmente. Que geralmente de calçado que chama muito a atenção. Formava fila na porta da entrada da seção de calçado, que andava duas quadras aquela fila formada, né? E para atender todo o mundo a gente deixava um número limitado de pessoas para entrar. Por exemplo, no caso era 30 pessoas, nós contava 30 pessoas; e conforme entrava, fechava a porta. E dava prazo para as pessoas que estavam lá dentro da loja, 20 minutos, meia hora, para escolher o que queria. Se não desse, nós pedíamos para a pessoa sair para entrar outra turma para poder atender todo o mundo. Era interessante. E o pessoal era de Araraquara, aceitava bem essas condições. Muitas vezes, não tinham condições de completar a compra que estava interessado, porque o negócio era a promoção, e de fato era, né, então, voltava na fila de novo para depois entrar para pegar mais 30 minutos para poder comprar. (risos) Então, era muito interessante, né?  Agora, promoções de disco e essa seção já era mais amena. Mas calçado que era mais difícil. Que a base na verdade da Casa Barbieri, que sustentava mais, era a seção de calçado. Tinha outros setores, mas a que resolvia mesmo era a seção de calçados, é que era maior. E a Casa Barbieri, acho que não tinha quase pessoas que não tivessem comprado na Casa Barbieri. A Casa Baribieri quando chegava a época de pagamento, que tinha as fábricas que pagavam no dia 5, então  recebia cheque de pagamento. E quase todos os funcionários daquela firma, daquela fábrica, tinha conta na Casa Barbieri. Então, ia pagar a conta e descontava o cheque. Então, vinha dois, três caixas do banco Bradesco e ficava lá para fazer os trocos porque era muito movimento. Então, ficava na caixa para poder descontar o cheque. E a Casa Barbieri também foi a primeira casa do Interior que abriu o crediário na cidade. Elas começaram a fornecer pelo crediário para o pessoal da Estrada de Ferro Araraquara, que era descontado no holerite os pagamentos. Então, parcelava os pagamentos e descontava no holerite. Mas com o tempo a Estrada suspendeu esse desconto e a Casa Barbieri continuou vendendo. Então, aumentou o crediário para outras pessoas que não fossem funcionários e a coisa foi resolvendo nessa época. E a Casa Barbieri foi a pioneira de muitas seções, muita novidade; ela trazia muitas coisas. Nós éramos importador. E na época nós importávamos geladeira dos Estados Unidos, que aqui não tinha fábrica no Brasil, né? As primeiras geladeiras que foram feitas foi na Pereira Lopes. Ela era feita com resistência e queimava em pouco tempo, quer dizer que trocava a resistência...

 

P/2 – E as marcas, o senhor lembra? Os nomes dos refrigeradores, da geladeira o senhor lembra?

 

R – Essas da Pereira Lopes chamava Clímax.

 

P/2 – Ah, Clímax.

 

R – É, Clímax. E ela foi feita com resistência. Mas nós fazíamos importações dos Estados Unidos, que eram geladeiras que hoje as nossas fábricas estão fabricando. Por exemplo, geladeira que fabricava gelo, que tinha torneira que saia água gelada, tinha batedeira para fazer sorvete. Tudo isso estava naquela geladeira, aquela Crosley, Leonard, West House, RG. Todas essas firmas nós trabalhávamos, importávamos. E fazíamos também importação de raio X da Siemens, fazíamos importações de cadeiras de dentista, daquela famosa marca Rhiter. Nós fazíamos importações dessa coisa, importações de piano. Fazíamos importações por exemplo de 40, 50 pianos da Inglaterra, Kenwood, né? Então, fazia essas importações de piano e para todos os setores. Então nós fomos pioneiros de muitas seções da cidade. Eu mesmo particularmente no setor, depois da Casa Barbieri, da Centrolar, eu trouxe muitas coisas para a cidade na época que não tinha. Por exemplo, existia lá aquelas furadeiras elétricas, serra circular para cortar madeira. Então tinha alguns carpinteiros que tinha e alugava para outros. Eles compravam em São Paulo e alugava essas peças para outros carpinteiros aproveitar. Então, eles tinham que pagar o aluguel das peças. E eu mandei buscar, comprava, e passei a vender para eles, que era mais vantagem; então eu trazia, né? Copa de fórmica, por exemplo, eu também comecei a trabalhar, muitos setores. Agora a Casa Barbieri, com 80 anos de vida que a casa tinha quando... Eu tinha 60 e poucos, mas a Casa Barbieri, bem mais velha, trouxe muito mais coisa. Fazíamos importações diversas, muito bom.

 

P/1 – E como  era a loja? Estava dividida em departamentos?

 

R – Como era?

 

P/1 – A loja, como é que ela estava dividida? Em departamentos? Em setores?

 

R – Começava com seção de calçado, no fundo da seção de calçado tinha a seção de meias. Mas era completo: para senhoras, para crianças, tudo desse negócio de meias tinha na seção, no fundo da seção de calçados. Depois ao lado tinha a seção de homens. Então, tinha camisa, cuecas, corte de casimira, corte de linho, suspensório, cinto, a linha completa. Porque antigamente quando eu era novo não existia terno feito. Era tudo feito em alfaiate. Então nós tínhamos as peças para fazer a parte de alfaiate. E tinha depois a seção de senhoras, a seção de tecidos, que também não tinha vestido feito. Tinha as costureiras que faziam, né? Então, vendia tecido, essas coisas todas. Na frente da seção de tecido tinha a seção de jóias, que tinha anel de brilhante, coisas finas mesmo, relógio de ouro, coisa muito fina tinha na Casa Barbieri na seção de jóia. E tinha ao lado uma seção de perfume, mas de extratos, que é só essência mesmo, que são os mais caros. Então aquilo ficava separado dessa seção de perfumaria, que era noutro setor, que trabalhava com perfume, mas coisas mais comum. Então essa vitrine só tinha mesmo perfumes, extratos, coisas finas. E tinha uma vitrine também de cristal importado na frente da loja. Depois mais de lado tinha outra vitrine com exposição de laise, tecidos mais finos. Depois tinha a seção de discos, depois tinha a seção de eletrodoméstico e faqueiro de prata; aqueles móveis altos, tudo bem envernizado. Inclusive, tinha caixa de faqueiro que você abria uma gaveta, tocava uma música, abria outra tocava outra música. Quer dizer, coisa muito bonita o faqueiro. E ao lado tinha a vitrine de seção dentária. Agora, depois no fundo tinha uma parede e tinha o escritório lateral. E logo na outra frente, a seção de armarinho. Agora, a nossa seção de armarinho era completa. Tinha todas aquelas confecções para completar terno, botões que as senhoras queriam comprar para fazer vestido, tudo quanto é tipo de botão a gente podia ter, linha, tricô, lã. tudo desse negócio de costura, uma seção muito grande de armarinho. Depois, ligando com uma outra loja que foi feita posteriormente – essa loja é onde eu fiquei tomando conta com 16 anos – era loja de artigos de presente, seção de perfumaria, seção dentária - que a seção de cadeiras de dentista é da parte de cima – para vender dentes, boticões, essas coisas, ficavam ao lado da seção de perfumaria. Era onde ficava. E seção de brinquedos. Chegava no fim do ano era uma maravilha a seção de brinquedos. Depois tinha seção de utilidades domésticas, tinha seção de enfeites de bolos, para fazer confecções de bolos, e uma pequena parte de artigos domésticos, artigos de cozinha, sabão, sapólio, papel higiênico, sabonete, essas coisas toda. A seção de perfumaria, que ficava ao lado da seção de presente, também era uma seção grande. Tinha diversos tipos de água de colônia, de litros, pequenos, de qualquer tamanho. Tinha a seção de barbearia, seção de cabeleireira. Quer dizer, tinha aqueles aparelhos para fazer permanente e essas coisas; e tinha também navalha, máquina de cortar cabelo tinha toda a seção completa de homem e seção completa de perfumaria. Era uma casa muito interessante, muito grande, sabe? Ela estava com 2 mil e poucos metros, 2 mil e 500 metros de área de construção, né? E tudo bem completo a seção. Tinha seção de atacado, de utilidades, seção de louça. Era o que eu tomava conta, né? Eu ia nas fábricas para comprar e comprava de caminhões. Então, chegava caminhões de mercadoria. Que aí, quem fazia compra desse setor era eu. Então, saía, ia de caminhão e fazia a compra, enchia o caminhão e vinha embora, né? Saia por aí para fazer compra, né?

 

P/2 – E ficava quantos dias viajando?

 

R – Não, quando ampliou seção de móveis, que eu estava sozinho na época, a cada 15, 20 dias eu ia para o Sul. E lá eu comprava móveis. Que tudo eram fábricas pequenas naquela época. Então a gente ia a muitas fábricas. Eles estavam começando e não tinha recurso para comprar madeira, né? Então, eu financiava madeira para eles, depois eu voltava para Araraquara. E depois ele me telefonava, que estava pronto. Então ele fazia um preço mais interessante porque eu dava a madeira, ia buscar a mercadoria e trazia. Então, viajava muito para fazer coisas. E até por causa de quê? Porque tinha equipe boa, porque tinha os funcionários, a gente fazia de tal maneira o trabalho, que no fim quase que eu atrapalhava a vida deles porque eles tinham até ciúmes da seção. Seção de presente, tinha uma moça que se eu comprava ela ficava meio enciumada. Eles tinham ciúmes da seção, dos setores deles. Então, eu saia para fazer compras, trocava idéias, né? Só que tinha uma coisa: eles tinham ciúmes e eles confiavam muito em mim, né? Sempre que tinham que fazer alguma coisa eles me consultavam: “O que o senhor acha se fizer isso?” Então, havia muito respeito da parte deles todos.

 

P/1 – Nessa época, quantos funcionários tinha a Casa Barbieri?

 

R – A Casa Barbieri mesmo? A Casa Barbieri tinha oito na seção de calçado, na seção de meia tinha dois, seção de homem tinha dois, na seção de tecidos tinha cinco homens e quatro mulheres, na seção de disco tinha um, na seção de atacado tinha uma moça, na seção de perfumaria tinha duas moças, na seção de brinquedos... Ferramenta era uma, mas depois no fim do ano a coisa aumentava, então aquelas daquele setor iam ajudar porque os outros setores quase que não funcionavam. Então, elas atuavam mais na seção de presente. E no fundo, na seção de utilidades, tinha quatro moços, né? No total, não contei, mas também não precisei.

 

P/2 – 30?

 

R – Mas devia ser mais.

 

P/2 – Aproximadamente 30?

 

R – 30 pessoas, mais ou menos isso, né?

 

P/1 – E eles usavam uniforme?

 

R – Oh, botava. Meu pai fazia questão, né? Geralmente era saia azul marinho, senão preta - mais azul marinho – e blusa branca. Então, botava o nome das moças assim, das pessoas. Eles faziam questão de ir, os moços de gravata, sapato tinha que estar engraxado, essas coisas. Meu pai, principalmente, nessa parte é que se preocupava muito. Ele achava que se a pessoa fosse relaxada, ele achava ruim; achava que a pessoa tinha que se prezar, tinha que se zelar. Então, eles eram bem uniformizados.

 

P/1 – E como é que eram os clientes da loja? Quem eram os clientes da loja?

 

R – Como é?

 

P/1 – Os clientes, como eles eram, que tipo de clientes eram?

 

R – A clientela era muito boa. Nós pegamos desde a faixa mais baixa até alta, porque tinha artigo para todo... Calçado, por exemplo, que era o forte, tinha desde operário até os médicos e esse pessoal, eram todos clientes nossos. Araraquara acho que dificilmente podia ter alguma casa que não tinha. Geralmente ferroviários, pessoal da fazenda. Que naquela época nas fazendas tinha colônia, né? E nessa colônia eles faziam as casas para eles. Eram casas bem feitas. Eles ganhavam bem porque era época do café. Então, os fazendeiros pagavam muito bem os funcionários. E geralmente no sábado eles saiam para fazer compra. Então, tinha umas fotografias, que vinha família,  o homem com o saco nas costas maior, a mulher com um saco um pouquinho menor e as crianças, conforme o tamanho, com um saco menor, diminuindo. Então, botava quatro, cinco crianças como se fosse uma escada, né? Então, eles brincavam, faziam essas piadas, que era realidade. O que o meu pai, com essa gente mais simples, fazia no Sábado, quase correspondia ao resto da semana nos outros dias. Era um faturamento! Tanto é que na época nós tínhamos uma seção onde tocava discos, nós tínhamos uma vitrola que tinha dois alto falantes em cima do terraço. E até lá no carro, a pessoa ouvia. Algumas pessoas até se irritavam porque fazia muito barulho, era muito alto. Então nessa época... Era uma loja fina, mas as pessoas mesmo simples se sentiam a vontade porque eram bem atendidos, né? Então era a faixa toda. O número de clientes que nós tínhamos era um fichário enorme. Não posso precisar quanto, mas é coisa de mais de 20 mil clientes, era coisa tremenda que tinha de clientela.

 

P/1 – Vinham pessoas da região ou só de Araraquara?

 

R – Não,  da região. Araraquara era mais forte, mas da região toda. Na época, no auge, o pessoal de Taquaritinga, até de Rio Preto, que é mais longe, a Secretaria da Fazenda Central era Araraquara. Rio Preto não tinha. Então o pessoal de Rio Preto vinha para a Secretaria da Fazenda e iam na Casa Barbieri fazer compras, que  na casa lá em Rio Preto tinha uma casa muito grande do calibre da nossa, que se chamava Casa Bueno, né,  também era famosa, como a nossa também. Só que a nossa era mais chique, era uma loja assim, mais bem cuidada, era muito bem envernizada, era uma beleza de casa, né? Depois com o tempo passou para os primos, então não vai ligando muito, as coisas vão... Porque nós não ficamos, quando separamos e fomos para o Consular, a outra loja ficou com os meus primos. E eles não foram muito felizes, infelizmente, né? Não deu certo.

 

P/2 – E nessa época o que mais se vendia na loja? O que os clientes mais compravam? Quais os produtos?

 

R – Os produtos que mais compravam?

 

P/2 – Isso.

 

R – Bom, como eu falei a força maior sempre foi calçado. Agora, depois tinha seção de tecidos, seção de armarinho, seção de jóias. Porque tinha muito fazendeiro na redondeza, que  esses  extrato que eu te falei que tinha que só pessoas de muita posse que podia comprar, eles entravam nos extratos e compravam dois, três. Na época de agora um extrato hoje custaria, vamos dizer, 5, 7, 8, 10 mil reais É coisa caríssima, que era a essência, né? Hoje até não tem, não existe mais. Então, era coisa muito fina. Era uns vidros de cristal muito fino. Inclusive tinha pessoas que às vezes compravam,  pessoas que tinha recursos, para dar para uma filha. Como no caso falava assim: “ Eu comprei esse perfume, eu sei que é caríssimo, mas eu vou dar para a minha filha, para mostrar o quanto eu gosto dela.”  É a mesma coisa que pegar dinheiro e jogar fora. Quer dizer que então, para mim é como dizer: “Como eu gosto da minha filha, para dar esse perfume para ela.” Quer dizer, então era coisa só de pessoas de muita posse que comprava essa mercadoria. Mas nós tínhamos já essas fazendeiras que moravam no Rio de Janeiro e que tinham uma fazenda aqui em Monte Alto. Ela vinha e comprava toda a roupa dos filhos, a dona Maria, da Fazenda Guanabara... Porque esses fazendeiros antigamente estavam numa posição muito privilegiada, né? Sancarli, tinha os Facchini, era pessoal todo que caíam aqui. Todos esse fazendeiros da redondeza compravam tudo porque aqui era Interior, se sentiam melhor e achava as coisas finas aqui. Em Araraquara tudo que se podia achar de coisa fina comprava aqui. E os preços, que se preocupava de ter um preço razoável, dentro do esquema, né, então vendiam bem mesmo. Todos os setores cresciam muito bem.

 

P/2 – Vocês entregavam mercadoria na casa do cliente?

 

R – Ô...Entregava.

 

P/2 – Como é que era o sistema?

 

R – Tinha justamente a seção que quando eu era menino comecei a trabalhar, a seção de entrega, né? Inclusive naquela época costumava levar também na casa dos clientes sapato para escolher. Então, fazia umas cordinhas especial, botava cinco ou seis caixas de calçado cada uma. Então, mais ou menos sabia o modelo que a madame queria. Então, levava lá para escolher. A pessoa escolhia, não gostava, voltava, pegava mais, né? O comércio não era tão fácil como se falava assim não. Uma costureira, por exemplo, para comprar um botão para botar no vestido, telefonava e eu  mandava duas caixas  grandes de botão embaixo do braço, para ela escolher um botão só pequeno. Quer dizer então, que o negócio era ter que trabalhar mesmo. Quer dizer, aquela caixa pesada, caixa de madeira, cheia de uma cartolina e pregada diversos botões. Então ela falava: “Manda um desse aqui, manda um desse aqui, dois desse. Ah, não serviu nenhum, tem que trazer outro.” Então, tinha que fazer isso. Coisa mais difícil. Falaram que era, mas não era fácil não. Tinha que trabalhar mesmo, né? Diz que antigamente era, mas não era. Tanto é que poucos comerciantes dos que tinham venciam, porque eram trabalhador, né? Nós tínhamos diversas casas de comércio em Araraquara, todos comerciantes tradicionais. Quase todas as firmas que tinham no centro da cidade, tudo comerciante de 30, 40, 50 anos, porque tinha condições de trabalho, né? Se dedicavam demais. E antigamente quase todos os comerciantes moravam na loja de comércio. Hoje não, hoje moram fora. Então, no nosso caso, meu pai e meu tio moravam na parte de cima. O prédio era grande e tinha uma porta dividindo no meio. Uma parte era meu pai e outra parte era o meu tio, né? Antigamente era aberto. Depois os primos, os irmãos... Ao todo éramos em 12, seis de cada lado, né? De vez em quando saía algum quebra pau. Então, puseram uma porta. Mas a porta era sempre aberta, que nós mesmo dava jeito de se comunicar. Então, ficávamos todos morando no prédio. E todos os comerciantes moravam no próprio prédio. E quando chegava depois das 6 horas, eles tomavam seu banho, jantavam e botavam as cadeiras na rua. Então, um comerciante ficava conversando com outro, e conversava e coisa... Então ficava lá fora. Só que meu pai e meu tio não faziam isso. Eles ficavam andando em frente da loja. Os dois estavam sempre juntos. A loja tinha 36 metros de cumprimento; então eles desciam conversando, viravam e desciam, voltavam. E ficavam conversando umas duas horas. Todos os dias, podia acertar no relógio, 5:30 da manhã, os dois saíam juntos para passear. E andando eles conversavam sobre o negócio. Quando era 7, 7 e pouco, no preciso horário, eles chegavam para tomar café e descer. Tanto é que o pessoal via o relógio e dizia: “Os Barbieri vão passar aqui já, já.” Porque era a mesma rua, né? E esse pessoal do interior conhecia, né? Então, já sabia que eles iam passar todo o dia, né? Era uma vida, dessa parte afetiva era bem interessante. São tantas coisas para a gente lembrar, né? No tempo de Natal, fim de ano, aonde era essa loja que eu falei que aumentou, que tinha perfumaria, presente, que eu tomava conta, era a casa da minha avó naquela época, né? Então, ela ficava numa parte mais... A casa tinha uma diferença de terreno que ficava um pouco mais baixa. Tinha que descer uns dois, três degraus para ir na casa dela. Ela tinha a copa na parte baixinha; deixava a janela aberta. Então ela arrumava a mesa, botava uma toalha e deixava café, chocolate, bolacha, bolo, tudo pronto para os funcionários comer, beber. Geralmente não tinha propriamente um horário. Mas até que eles obedeciam mais ou menos. Então, ela botava um pano em cima da coisa e eles lá levantavam o pano, tinha bolinho, tudo que ela fazia. Então, eles tratavam como se fosse a família. Chegava na época no Natal, não é como agora que tem horário. Porque antigamente não tinha horário. Eu, por exemplo, com o seu Tomás, que era um fiel da casa, nós éramos os últimos a sair. Saía 1 hora, 2 horas da manhã. Nós ia num barzinho lá, tomava um guaraná e ia dormir. Ficava conversando e dormia tarde. Isso era na época de fim de ano, época de brinquedo. Que a seção de brinquedo era minha, eu que tinha que tomar conta, né? Então, eu ficava até tarde. E as pessoas queriam que entregasse a mercadoria no dia 24 à noite. Então, era uma ginástica para fazer. Como era muita entrega, a gente então precisava botar a mercadoria na rua, na calçada, fazendo rota assim, para depois começar a procurar. Porque ficava tudo misturado no fundo. Depois botava na rua, a exposição, para escolher os lotes e entregar. Então, eu ficava até 11 horas, meia noite com motorista entregando. Uma época até,  alguns pediram para fazer Papai Noel. E eu tinha um motorista, o Barrela, que gostava de fazer Papai Noel. E ia na casa já de tarde, no horário certo, né, e ia lá mexer com as crianças de pessoas amigas que pedia, né? E nós botávamos na loja na época de Natal uma caixa para as crianças colocar os pedidos delas de presente de Natal. E depois então tinha até uma cadeira de balanço que ficava um Papai Noel de saco assim colocado na cabeça e coisa. E nós éramos mocinhos, meninos ainda nós amarrávamos um barbante naquela cadeira de balançar, quando alguém ia lá, passava lá atrás com o barbante e ficava balançando. E as crianças davam risada: “O Papai Noel está balançando.” E aquelas crianças botavam na caixa. Nós depois abríamos e líamos. E uma vez até lemos uma carta de uma menina dizendo ao Papai Noel que ela era muito pobre, mas que ela tinha pena do irmãozinho dela, que o irmãozinho dela andava descalço e que era para o Papai Noel levar um sapato para ele, né? E botou o número do sapato dele. “Agora, eu também estou descalça; se o senhor puder, traz para mim também um, né” Aí, nós pegamos os sapatos e levamos para as crianças na época de Natal. Então, tinha cartas bonitas que a gente lia. Então tinha essas coisas, a menina escrevendo, né? Então, nós levamos o sapato para o menino e dela também, que ela pediu. Ela não pediu para ela, ela pediu para o irmão que tinha o pé machucado. Mas se desse jeito, era para levar para ela também. Então, no comércio tinha essas coisas assim, que a gente vai lembrando. Então, tem muita coisa bonita no comércio. O comércio eu acho a coisa mais maravilhosa do mundo.

 

P/1 – Vocês faziam publicidade da loja? Faziam propaganda no rádio?

 

R – Faziam.

 

P/1 – Folhetos? Como é que era?

 

R – Fazíamos bastante até por sinal. Fazíamos muita propaganda. Não tinha televisão. Mas quando começou a Rádio Cultura, que foi a primeira rádio que começou a fazer, elas não tinham disco na seção, estava começando. Então, o ouvinte fazia o pedido do disco, né? Eles iam buscar na Casa Barbieri o disco. Nós fornecíamos para eles. Em troca, eles faziam propaganda. Então, eles iam na loja, faziam propaganda, entrevistar freguês, fazia sorteio e essas coisas todas. Faziam sorteio, organizavam. Eles eram muito organizados. Jornal, época do carnaval, nós éramos os únicos que mandava buscar... Que na época não era proibido lança perfume, podia ficar à vontade. Então, vinha lança perfume, confete, serpentina, tudo vinha da Loja da China, que fabricava confete e essas coisas. Então, vinha aquilo tudo em consignação, né? E aquilo a gente dava para os funcionários para vender. E não vendia na casa. Então eles faziam ponto, né, em todos os clubes eles alugavam para fazer uma área para eles venderem esses produtos. E na rua eles faziam locais de madeira. Faziam quiosque para ficar vendendo. Então, passava lá dentro e se abasteciam na Casa Barbieri. Era um depósito e quem ia buscar eram os empregados. Aquilo era como se fosse um prêmio, que não existia naquela ocasião décimo terceiro. Então, nessa época era um prêmio. Então, eles davam a mercadoria para eles pelo custo e o lucro era deles. Quer dizer que então eles vendiam e nós garantíamos. Então, ficavam vendendo coisa, porque o corso antigamente no carnaval. o que eles gastavam era de monte. Porque os funcionários da Casa Barbieri que trabalhavam, de vez em quando aqueles que passavam de carro, pediam serpentina. Então, levava de engradado. Não levava um não, pegava um engradado todinho e jogava dentro do carro. Depois marcava e acertava mais tarde. Que os carros eram tudo aberto, era tudo pé de bode, como eles falam. Então, jogava um para o outro. Isso lá para 35, 36, por aí. Nessa época era tanta a serpentina, que ficava aquele monte no carro que quase que praticamente um carro puxava o outro assim. Precisava parar, que não dava para o carro andar, para limpar, para continuar. O que tinha de serpentina aqui! O carnaval de rua era muito mais bonito que o carnaval de salão, né? Então, era muito alegre. Depois vieram os carros fechados, então complicou tudo, não deu mais, mudou tudo. Então, o carnaval era muito alegre. Os funcionários, era como eu te falei, como se fossem uma família, né? No Natal, quando chegava depois da época que passava o Natal, desmanchava... Antes de ficar comigo a loja debaixo, antes era só a parte de cima; o brinquedo era vendido nessa seção, que era a jóia. Então, eu encostava e deixava tudo dependurado. Botava umas prateleiras, alguma coisa, tudo dependurado. E quando passava dia 26, dia 27, os funcionários desmanchava tudo para voltar cada um no seu setor. Então, ficava até meia noite, 1 hora, ficava todo o mundo trabalhando. Aí eles iam fazer serenata para a minha avó abrir a janela para eles comer lá dentro. Então, era como se fosse uma família, era muito alegre o comércio, viu.

 

P/1 – O senhor estava falando da publicidade do rádio, tinha algum slogan, alguma chamada para chamar o freguês na rádio? Como é que era?

 

R – Na rádio? Geralmente tinha para citar preços e essas coisas todas, propaganda eles faziam muito.

 

P/1 – Mas tinha algum slogan característico? Algum slogan assim: Casa Barbieri?...

 

R – Não tinha propriamente assim. Era Casa Barbieri... Porque geralmente a Casa Barbieri era a tradição de Araraquara. E usava mais o nome tradição, né? Mas não era muito explorado assim nesse sentido. Era mais comentário. Voltando ao assunto de carnaval, eles às vezes forneciam tecidos para aqueles corsos, que eles conseguiam nas fábricas, um pouco eles davam, um pouco  as fábricas davam, então eu fornecia para eles fazer fantasia. Então, eles botavam um negócio de madeira, ficavam num stand assim em cima: “Obrigado Casa Barbieri.” Então, eles subiam cantando e ficavam em frente à Casa cantando um tempão e depois andavam. De vez em quando parava lá em frente.

 

P/2 – Passava em frente a Casa Barbieri o carnaval?

 

R – Que a Casa Barbieri, eles forneciam. Meu pai e meu tio era muito bom. Para tudo quanto era coisa eles entravam porque eles tinham condições de acertar, né? Um pouco eles pediam para as firmas, fábrica e um pouco para eles, né? Então, naquela época, modéstia à parte, era uma das famílias que mais comentavam,  os Barbieri, né? Depois, como eu disse, que a família era muito grande, doze filhos, cada um dum setor, cada um para uma coisa. O único que ficou no comércio fui eu, que era eu mesmo que era comerciante, né?

 

P/1 – E tinha embalagem específica, alguma sacola, caixa, papel?

 

R – Hum, embalagem! Nossa, era uma coisa.... Foi bem lembrado. Nós tínhamos um rapaz, que ele fazia, por exemplo, no cristal, pegava aquelas caixas com serrinha de madeira, serrava a madeira, depois, com um alfinete, ele martelava e fazia a caixa. Depois,  punha a peça que era para presente e fazia uma cama com a madeira. Depois ele enchia com aquele lamê... Você sabe o que é lamê, aquelas coisas brilhantes. Que tinha muito saldo de tecido. Então ele botava aquele lamê vermelho, bonito, brilhante. Então ele botava algodão e fazia aquela cama para colocar a mercadoria dentro e arrumava toda a caixa com papel, couro, e botava um pedacinho para abrir. Então, o presente nosso ele fazia a parte de cima também e ficava aquele lamê da mesma cor, cheio de algodão. Então, a coisa ficava deitada, ficava comprimida naquela caixa, que podia ser grande, pequena. Então, uma das coisas mais bonitas era a Casa Barbieri, essa parte de presente que nós tínhamos; era uma coisa linda, essa parte eles caprichavam mesmo. O pessoal até presente venderam para pessoas do estrangeiro e que levavam presente. Faziam questão que fosse na embalagem da Barbieri. Hoje não tem isso mais aqui, mas antigamente até era famosa a embalagem da Casa Barbieri. Era coisa muito bem feita. Um alemão lá, um rapaz, que tinha muito jeito para as coisas. Os preços que eles faziam, tudo que eles faziam, tudo direitinho, faziam curvado, faziam os preços para colocar na mercadoria. Coisa muito boa, muito bonito o serviço deles.

 

P/1 – Tinha algum papel especial da loja? Fita, sacola? Como é que era ?

 

R – Naquela época não existia sacola. Mas os papéis era papéis muito bons, o que havia de melhor. Alguns imprimidos com o nome da Casa Barbieri, coisa comum. E às vezes papel comum. Mas a freguesia naquela época fazia questão que mandasse com o papel da Casa Barbieri, mesmo quando era presente, com etiqueta. Até hoje quando vai lá na casa, tem que por a etiquetinha da Barbieri em cima. Então, tem etiquetinha da Casa Barbieri que põe. Mas naquela época era demais, porque a seção de pacote era muito bem feita, né? Eu não tinha jeito para essas coisas não, só embrulhava assim, mas muito mal. Mas o pessoal que fazia era muito caprichoso na parte de embalagem, né? Como eu disse, todo o mundo falava: “Eu quero um presente da Casa Barbieri.” Quando a pessoa recebia um presente da Casa Barbieri, falava: “É coisa fina.”

 

P/1 – O senhor falou que tinha uma seção de atacados?

 

R – Nós tínhamos atacado.

 

P/1 – E vendia para que tipo de clientes essa seção de atacados?

 

R – Era mais pessoas assim que trabalhavam em sítio, para vender as louças deles. Eles faziam os negócios deles, trocavam a louça a troco de frango, depois revendiam o frango. E faziam os rolos deles. Quer dizer que eles compravam e pagavam para a gente. E a gente então, para ajudar essas pessoas, geralmente é mais para ajudar, dava a prazo para eles. Então ele vinha: “Foi duro, eu pago uma parte.” “Então, está bom, vai embora.” Então a gente trabalhava mais com esse pessoal e tinha também casas comerciais de fora que compravam. Mas eu gostava mais de vender para esse pessoal que trabalhava em sítio, que eles eram mais honestos. Os outros geralmente atrasavam um pouco e essas coisas todas. Eles eram simples, faziam questão. Então eles faziam rolo. Eles vendiam... Eles que faziam, né? Trocava a troco de porco, a troco de galinha, depois eles vendiam o porco. Aí eles vinham e pagavam com o dinheiro o que tinham comprado, né? Mas não era uma coisa tão acentuada assim. Tinha esses atacados porque tinha muita louça e então compravam. Era mais para atender essas pessoas mais simples, né? Que o meu pai e meu tio eram muito bons. Eles sempre procuraram colaborar com as pessoas mais humildes. Como esse pessoal de carnaval eles faziam mais para contentar pessoas simples, né? Mas ele sempre procuraram ajudar pessoas mais simples, com tudo o que fosse. Contribuições deles eram bem generosas e em tudo que tinha coisa para ajudar alguém, estavam sempre participando, ou em espécie ou em dinheiro, né? Eles eram muito bons, não é por serem meus pais não, mas eles eram muito bons. Tanto o meu pai quanto o meu tio, nessa parte. Minha mãe também. Minha mãe, minha tia também. Mas a minha mãe era... Não sei, minha mãe, coitada, era muito boa. Então, ela tinha uma porção de afilhados, que levava presentes. Chegava no Natal era aquela fila na escada. Deixava um pacote de tecido para um e algumas coisas. Todo mundo, ficava como se fosse uma romaria para receber os presentes que a minha mãe dava, né? Minha mãe era muito boa.

 

P/1 – O senhor estava falando do Papai Noel. Vocês faziam uma decoração especial no Natal? Como era essa decoração?

 

R – Ah, tinha. Nós fomos pioneiros dos presépios de Araraquara. As vitrines que eu te falei que trabalhava na parte da Avenida, que trabalhava com faqueiros e eletrodomésticos e seção dentária, eram esvaziadas, as duas vitrines grandes. E lá então era feito um presépio com movimento. Vinha dois senhores do Rio, dois portugueses. Eles vinham só para isso. Eles vinham mais ou menos em fim do outubro, comecinho de novembro, para fazer. Demorava quase um mês. No fim de novembro que eles montavam o presépio. Então, era tudo movimentado. Aqueles carneirinhos, tudo por meio de correias, presos, andando. O monjolo funcionando, caindo a água, a água voltando, a luzinha acendendo e apagando, Nossa Senhora abaixando e suspendendo o menino Jesus. Tudo com movimento o presépio. Foi o primeiro presépio, porque eles trouxeram isso tudo de Portugal. Eles eram industriais. Estavam muito bem financeiro, não precisava...  Tinha até muito. Então, eles largavam as coisas para vir porque eles gostavam. Vinham aqui para a Casa Barbieri, que eram muito amigos de meu tio. Seu Araújo e seu Teixeira, eram os dois. Então, eles vinham e ficavam lá fazendo isso aí. E nós também fazíamos um pequeninho, né? Só que nós cobrava o nosso. Depois,  nós íamos tomar sorvete.

 

P/2 – E esse presépio era bastante conhecido na região? As pessoas vinham visitar o presépio?

 

R – Vinha gente porque depois, além de fazer esse presépio em movimento, na marquise da Casa Barbieri era feita uma peça maior. Então, tinha aqueles trenós grandes e o Papei Noel com uma rédea. E tinha aquelas corsas lá na frente com movimento, como se estivesse andando. Tinha duas assim em movimento e o Papai Noel e o trenó como se estivessem em movimento, aquela coisa. Depois botava a árvore de Natal feita de madeira pintada de verde e a cor do pinheiro e colocava nos buracos e fazia lâmpada. Então, acendia lâmpada. E naquele canto da esquina ficava uma Nossa Senhora com o menino Jesus grande no colo. Então, a marquise toda era feita assim, com esse movimento do trenó e o resto; punha os pastores também, tudo em quadro. Tudo feito na parte de cima, sem movimento, grande. E na rua na loja nossa ficava a da Nove de Julho com 36 metros e depois pegava a Duque de Caxias mais 32 metros para baixo. Então pegava a avenida. E eles botavam num lado até o outro lado também, um poste de madeira alto, enterrado. Depois botava, para não aparecer o poste, treliça, tudo fechando o poste ali, num lado e no outro. E na parte de cima bem alto, eles botavam um negócio de madeira, maior que viga, uma coisa grande mesmo, de rua a rua. No meio ele fazia dois buracos da madeira. E botavam um Papai Noel de  madeira com oito metros de altura. Então os pés do Papai Noel  enterrava naquela parte aqui assim, Papai Noel pintado  dos dois lados. Quem via da rua o Papai Noel estava com um saco nas costas. E amarrava nos prédios a figura do Papai Noel, para ele não tombar. Tanto era feito na Nove doe Julho como na Duque de Caxias. E então ficava. E dessa rua na outra  ficava uma serie de cordões pendurados, de lâmpadas diferentes piscando de rua a rua. E mais a marquise em cima e mais o presépio embaixo. Aquilo ficava , eu tenho a fotografia para te mostrar , cheio de gente. Vinha gente de São Carlos, todo esse pessoal, vinha das  fazenda e coisa  e ficava lotado, não tinha jeito, ficava de rua a rua, o presépio. Depois, na última semana, meu movimento ia caindo. Então eles ficavam vendo o presépio. Eles promoviam muito essas coisas todas, né? Era uma tradição muito bonita a época de Natal.

 

P/1 - Falando em vitrine, vocês tinham alguma pessoa especial só para cuidar das vitrines, para montar as vitrines?

 

R - Cada um do seu setor era vitrinista, porque eles fizeram curso  e eram apaixonados pelo setor. Só que meu tio principalmente ficava fora, ele gostava disso, né,  e fazia assim: “Põe mais para cá, põe mais para lá. Põe aqui.” Então, fazia,  ele ficava lá fora, para examinar. Isso quase todo sábado e domingo ele ficava lá fora na vitrine e quando fazia exposição também, que a loja tinha vitrines de lado. Agora, o centro da loja mesmo era aberto. Então, ficava uma grade protegendo. Então, para a seção de tecido ficavam aqueles cavaletes com tecido, faziam um formato de coisa. Então, fazia todo o  setor de tecido a pessoa ficava lá pendurada. E nas paredes das colunas da Casa Barbieri em volta era feita uma vitrine que abraçava a coluna. Era mais ou menos dessa largura o vidro e ele fazia a curva, né? Então as três vitrines ficavam lotadas de relógio de ouro. E atrás dessa coluna tinha um balcão grande de mais ou menos uns 8 metros, cheio de jóias colocadas e as gavetas com correntinha de ouro, anel de formatura, tudo colocado por setor. Então, a exposição era feita. E na loja de baixo, naquela seção de brinquedo, eu fazia a exposição. Não tinha vitrine; só ficava aquelas grades de madeira , sabe aquelas coisas assim? Então, botava o negócio e a pessoa ficava dependurada assim vendo os brinquedos, né? Eu fazia exposição, quando era dia comum, fazia de louça, isso fazia no  sábado. Ficava até tarde fazendo. E de presente, na época do Natal,  eu fazia. Tanto é que nós ficávamos até tarde, eu com o senhor Tomás, e depois quando chegava no dia seguinte  às 8 horas eu levantava para fazer a exposição. Esta cansado, mas fazia a exposição. Só que eu fazia o fundo lá, mais distante, que a pessoa pra olhar, né? Em vez de  botar muita coisa,  a parte do fundo fazia mais , coisa, então dava a impressão que estava bem arrumado, mas deixava uns vazios para ir depressa, né? Depois,  normalmente sempre ia ter com a minha mãe também na parte de cima. Um Natal, eu estava deitado e, conforme eu estava deitado, tremi na cama, depois do almoço. Aí minha mãe chamou  o meu irmão que é médico: “José, vem ver o Wilmon, o que está acontecendo?” Ele falou: “É estafa, mãe. Ele trabalhou até muito tarde. Eu vou dar um jeito nele.” E eu ouvia ele falar, eu queria levantar, mas não conseguia. Estava prostrado. Aí não sei o que ele fez. Senti uma agulha aqui de injeção e apaguei, né? Mas cansava, trabalhava bastante mesmo, viu. Mas eu gostava, tanto é que quase todas, modéstia à parte, as empreitadas e que eu pego... Que nem agora, estou inventando coisas. Estou reformando o prédio para fazer lojas para alugar. E não é com o objetivo de resultado. Dá o resultado naturalmente, mas o objetivo não é isso. O objetivo é dar serviço para mais gente e fazer a coisa para embelezar a cidade, fazer a coisa para outro trabalhar para ganhar. Depois sobra o meu, tudo bem. Mas também não sou ganancioso. Tem que estar de acordo e tudo bem. Então, não é tanto, é mais para construir. A pessoa tem que fazer. Tem que mexer, né? Então, está no meu temperamento de não ficar parado. Com 77 anos, eu vibro como se tivesse 20. Já estou pensando quando acabar aqui, já vou mexer na chácara para fazer qualquer coisa, né? Talvez um spa, que minha filha é médica. Vou conversar com ela. Para pessoas de mais idade que precisa descansar, então fica lá. Quer dizer, sempre invento coisa para... Sei lá, esta no temperamento...

 

P/1 - Senhor Wilmon, a gente vai dar um... Poderia agora falar  sobre as transformações que aconteceram no comércio e na Casa Barbieri ao longo de todos esses anos?

 

R – As diversas fases do comércio? Bom, como eu disse, começou com a seção de calçados, não é isso? E foram aparecendo oportunidades e foram crescendo, você está entendendo? E geralmente, principalmente meu pai, se preocupava muito em conseguir comprar com preço bom para vender por um preço bom também, para poder ter não muita renda, mas ter movimento e essas coisas. E foi crescendo. Então houve a época, por exemplo, da guerra na Itália. Eles eram italianos. Passaram uma fase difícil porque o governo brasileiro todo o dinheiro que os italianos tinham no banco, como os alemães e o pessoal do Eixo, foi tirado o dinheiro. Então, não tinha nada. Eles lutaram com muita dificuldade e foram em frente, não esmoreceram. Ficaram sem recurso, né? Eles eram naturalizados brasileiros. Aliás eram mais brasileiros do que muitos brasileiros, eles vieram crianças e naturalizaram. Mas o governo não quis saber, de origem italiana foi geral. Não eram só os Barbieri, eram os Lupo, eram os Barbieri, todos que eram italianos, eles recolheram todos os bens, o dinheiro que eles tinham no banco. E houve uma fase difícil para eles, né? Mas venceram, entendeu? Depois normalmente a Casa Barbieri não sofreu tanto essas modificações porque na época era interessante ter estoque, né? E ela tinha muito crédito. Então, quando as coisas estavam mais difíceis, muitas firmas, muitas fábricas também passavam certas fases difíceis. Então, eles mandavam mercadoria em consignação. Eles mandavam caminhões de mercadoria para nós, que nós éramos clientes que eles tinham confiança, né? Então, mandava e a gente ia pagando conforme ia vendendo, em consignação. Essa foi uma das fases difíceis, mas eles conseguiram apoio, pela seriedade e pelo procedimento é que eles conseguiram bons resultados, né? Então, teve as suas fases difíceis. Mas que eu lembre assim que foi uma coisa muito complicada, não foi não. Eles conseguiram sempre com muito trabalho, sempre com muita reserva, sempre pisaram em terreno firme, sempre com o pé firme. De maneira que eu tenho a impressão que .. A pesar de que uma parte de mocinho eu quase não participava. Participava no trabalho, mas essas coisas, as fases assim, não foi tanto, né? Não teve muito problema não.

 

P/1 - Em relação aos empregados, aos funcionários,  eles eram treinados? Vocês faziam treinamento com os empregados?

 

R - Os empregados? Se eles eram?

 

P/1 - Treinados. Eles eram treinados para trabalhar com determinado produto, para atender à clientela?

 

R - Como eles ganhavam?

 

P/1 - Não. Vocês faziam cursos para os funcionários?

 

R – Isso eu não sei porque antigamente não tinha muito como tem hoje o Senac, que dão os cursos, né? São coisas mais ou menos recentes, né? Eles não tinham. Mas meu pai, que tinha muita experiência, se reunia com os funcionários mais novos e conversava, trocava idéia, né? E convidava às vezes pessoas de São Paulo que estavam em evidência nessa parte de promoções, para aparecer, para entrar na loja. Mas era difícil até porque não existia essa facilidade que tem hoje, né? O Senac é uma beleza. Que eu, modéstia a parte, fui bom vendedor, sabia trabalhar bem, né? Conversei com muitos promotores de figurões. Mas o que eu mais gostei é esse pessoal do Senac. É coisa fabulosa o conhecimento deles da exposição. Porque a gente sabe, como tem vivência, quando vem esses figurões para fazer comentários sobre vendas e aquilo tudo, antes dele falar já... Estava uma vez num curso conversando com o meu gerente, o Nelson. E eles estavam fazendo exposição sobre venda. Então, eu falava para o meu funcionário: “Agora ele vai falar isso. Esse assunto. Agora ele vai falar esse outro aqui assim. Ah, agora não sei o quê. Agora ele vai vender o peixe dele.” O meu funcionário se matava de rir, meu gerente, de ver a experiência que tenho. Agora, com o pessoal do Senac eu nunca consegui não. Eles tinham uma exposição das coisas de uma maneira que era lógico, que tinha fundamento, né? Os outros era uma espécie de uma cartilha, mas não era uma pessoa que tinha prática. Eu não sei como é que o Senac tem essas pessoas, que pelo menos no meu tempo de moço... Que eu não sei se eles tem vivência no comércio ou só estudaram. Eu não sei como é que eles têm esse conhecimento, né? São mais simples. Não são pessoas assim de gabarito e coisa. E conhecem melhor a exposição do que as outras.

 

P/1 - Senhor, Wilmon, a gente vai fazer agora umas perguntas de ordem pessoal, da sua vida pessoal.

 

R - Pois não.

 

P/1 - E se a gente for lembrando de outras coisas, sobre a Casa Barbieri, a gente vai perguntando.

 

R - Sim.

 

P/1 – Fale um pouco sobre a sua infância,  as brincadeiras e os esportes, a escola, a vida mais pessoal do senhor.

 

R - Pessoal minha, não é? Bom, até a idade de 12 anos eu estudei, estava estudando, fiz o exame de Admissão para entrar no Ginásio e entrei. E logo no começo do ano apareceu esse problema na minha vista, que ela começou... Eu sentava na última cadeira. Em pouco tempo, praticamente... Era problema na córnea, que é embaçamento da córnea e ela estufa e vai saindo e vai cobrindo a vista, né? Então, chegou de uma maneira que antes, nos meados do ano já não enxergava mais nada na vista esquerda. E a direita também caiu bem a visão. Aí eu não pude mais estudar. Com 11 anos eu não tinha mais condições. O médico falou: “Você não tem condições de estudar porque senão piora mais a situação.” Aí meu pai falou: “Bom, você não pode estudar. Mas eu acho que você não pode ficar sem fazer nada. Então, você vai trabalhar. Você vai para a loja e vai trabalhar. Só que tem que obedecer o horário. Tem que ter disciplina.” Eu falei: “Está bom.” Porque o meu pai era muito enérgico. Era bom mas ele era muito enérgico. Ele fazia as coisas com firmeza, né? E realmente eu comecei a trabalhar. Mas antes de ter a vista já fraca eu costumava ir com um tio meu no Clube Atlético fazer ginástica. Eu sempre tive paixão por isso e já tinha um pouco disso. Aí com o problema da vista e trabalhando, incentivou, tive mais estímulo, né? E em Araraquara não tinha ainda piscina. Tinha só o clube Atlético. Praticava mais atletismo. Então, quando eu tinha 16, 17 anos foi feita uma piscina e eu comecei a freqüentar. E aí a me dedicar na época no comércio e ao mesmo tempo esporte. E então, levantava todo o dia às 5 da manhã, ia correndo até onde estava a piscina e voltava 7, 7 e pouco, tomava café e descia para trabalhar. E à noite ia no departamento de Educação Física e fazia ginástica. Ia da loja, ia jantar e depois quando eu voltava às 8, 8 e pouco, 9 horas. Então, fazia 2 horas de ginástica no Departamento de Educação Física. Então, minha vida foi de esporte e trabalho, que eu não podia estudar, Depois mais tarde só, que eu tinha 18, 19 anos por aí, meu pai falou: “Todos os seus irmãos têm diploma. Eu gostaria que você também tivesse algum. Você não quer fazer Escola de Comércio à noite?” Eu falei: “Mas agora, pai, 18 anos, eu vou ficar colega de amigos meus, moços de 12, 13 anos. Já sou homem, né, pai.” “Mas, filho, todo o mundo tem diploma, você precisa ter.” Então acabei indo para a Escola de Comércio, com dificuldade visual, mas fui ajudado pelos professores, pelo diretor, que sabia da minha situação; então ele me deu apoio o máximo possível à minha deficiência. Eles me ajudavam para que eu fosse bem sucedido em setores que eu não tinha condições físicas. Em datilografia eu não tinha condições. Mal e mal enxergava a máquina. Como é que ia escrever, né? Então, ele falou: “Tudo bem.” Dava um jeitinho de acomodar. Agora o resto não. O resto que eu podia estudar, estudava e me saía bem. E me formei contador, entendeu? Então, praticando esportes – a natação, por exemplo, que é um esporte que eu mais gostava – eu passei a competir em campeonatos, jogos abertos, em diversas competições. E uma das vezes que eu tive oportunidade de estar lá em Rosa Martins, uma lagoa, uns amigos que estavam na lagoa, estavam numa canoa e a canoa estava afundando. E começou a pedir socorro, gritar e o único que tinha lá que conhecia mais natação era eu. Então, me falaram: “Wilmon, o rapaz está lá.” E eu fui lá buscar. Então, fiz ele deitar em cima de mim, peguei pelo pescoço e fui segurando e com a mão ia batendo e com o pé ia levantando o corpo dele. Eu falei: “Relaxa o corpo senão você vai escorregar.” Porque ele queria levantar e eu falei: “Relaxa o corpo.” Então ia relaxando e ia. Eu estava no meio da lagoa, um lugar longe, né? A sorte é que ele me obedeceu. Quer dizer que ele relaxava o corpo, conforme ele afundava, ele queria... Eu falava: “Fica quieto.” E ia conversando com ele para ele ficar distraído. Porque se eu deixasse ele, ia querer fazer alguma coisa. Então eu mandava: “Relaxa aí.” Com o pé empurrava a perna dele para ficar boiando e a parte de cima ficava em cima do meu peito, até chegar naquela parte. Aí ele me beijava o pé, o rapaz, ficou desesperado. E outra vez em Rosa Martins também a canoa nossa virou e um dos moços que estavam conosco, no virar a canoa a canoa veio para cá, ficou a uns dois metros mais ou menos longe da canoa. Mas ele era muito grande e forte, uns braços compridos, né? Ele se batia, pensei que ele fosse... E não teve jeito. Então eu mergulhava, ficava de costas, jogava o meu pé para cima, dava um ponta pé, levantava, para eles levantar, para jogar até perto da canoa. Eu falei assim: “Eu não pego lá porque se eu fosse me abraçar com ele, não tinha jeito.” Então eu ia empurrando com o pé, mergulhava, fugia dele até chegar perto da canoa. Quando ele chegou perto da canoa eu dei a mão para ele. E ele ficou na canoa. E outro também, que mal e mal sabia nadar e ficou na canoa também. O outro que estava junto conosco. Aí eu peguei, tinha uma corrente na canoa, botei a canoa no peito e fui com a canoa e tudo junto. A canoa foi difícil de sair. Mas depois que ela pega impulso ele vai praticamente sozinha. Quer dizer, dei umas braçadas com violência até sair. Isso também foi feito. E outro foi na piscina, nós íamos vindo embora e um menino falou: “Tem um rapaz que está aí no fundo faz tempo.” Então, eu falei: “O que é isso?” Aí, tinha uma muretinha da piscina que nós íamos embora, eu e um outro amigo meu, quando ele falou aquilo eu pulei e vi. Quando eu vi, tirei o sapato, a camisa e pulei, fui buscar ele lá no fundo e trouxe. Trouxe ele para a piscina, mas depois tiramos ele fora. Mas quem salvou mesmo foi esse amigo meu, que ele tinha feito CPOR, e fez então a respiração artificial. O rapaz demorou para voltar, praticamente estava morto. Se não fosse pelo Roberto o rapaz morria. Então, o Roberto ficou fazendo massagem, respiração boca a boca, tentou de tudo, até a hora em que ele começou a vomitar e a sair água e tal. Então o rapaz sobreviveu. Na natação teve isso de bom: além de competir e fazer coisas, tive a oportunidade de salvar essas pessoas de ser afogadas. Isso aí me deixa contente. Inclusive um desse moços aí da canoa que eu falei, há pouco tempo encontrou com a minha mulher no elevador. Então ele perguntou para a minha mulher: “A senhora é mulher de quem?” Ela falou: “Eu sou a mulher do Wilmon.” “Que Wilmon?” “O Wilmon Barbieri.” Ele falou: “Eu estou vivo por causa dele.” E ela: “O que foi?” Aí ele contou a verdade. Então, isso dá satisfação. Agora, eu fazia competições. Uma vez nós fizemos um campeonato de 100 quilômetros, naturalmente em diversos dias. Então, nadava umas horas. E teve domingo que eu pulei na água às 8 da manhã e nadei até às 6 da tarde. Fiz 24, 25 quilômetros, mais ou menos e encerrei a prova. Mas outros que estavam bem atrás pediam para mim: “Não acaba, espera um pouco, que está muito lá embaixo, né?” “Bom, então vou deixar 6 metros a menos. Quer dizer, eu vou botar menos 6 metros, para dizer que eu não completei. Porque esse amigo que estava nadando também foi no dia 15 de novembro, nas eleições. Ele era mesário. Aí ele falou: “Você espera um pouco porque está muito longe. Então, você não encerra porque eu estou aqui.” “Então, você tem razão. Você fica mais uma semana.” Mas ele não conseguia fazer mais. Aí acabou, pulei na água. “Ah, mas falta 100 metros. Mas não precisa nadar.” Já pulei na água, já completei os 100 metros. Aí foi feito um jantar de homenagem para a gente, né? Então, eu gostei muito da minha vida, como o comércio e como esporte também. Tanto é que comentando com ela o problema da vista, que eu fiz o transplante da córnea e passei a enxergar em 75. E então, meu globo ocular, agora eu enxergo vocês aqui, dá para ver com essa vista esquerda, né? E então, estava deitado quieto, que eu vi que estava enxergando bem e pedi a Deus, falei: “Agora que eu tenho a vista melhor, se eu começar a achar que eu sou o tal, que eu conheço, que eu sei, eu prefiro ficar cego outra vez.” Porque o que eu ganhei de amizade com quem eu convivi! O elemento humano é muito bom. Quando ele sabe que a pessoa tem uma deficiência, eles querem ajudar. Apesar dessas cargas que os jornais põem e não sei o quê, o elemento humano tem coração bom. Você vê uma pessoa, um aleijado, você vai socorrer. Não vai? Vai atravessar a rua uma velhinha, você ajuda. Quer dizer, o pessoal sabia de minha coisa, tinha pena e os funcionários eram a minha vista, os clientes que iam lá às vezes, iam ver a etiqueta: “Pode deixar, Wilmon, que eu vejo o preço.” Os clientes ajudavam, quer dizer, tudo isso é carinho, né? E a pessoa que dá o carinho se sente bem. A gente fazer alguma coisa, como eu fiz muita coisa para muita gente e então me sentia bem, porque o bem não é para a pessoa que você fez, é para você próprio, né? Que a coisa mais gostosa é fazer bem para alguém, né? E eu fiz muitas coisas quando moço, apesar dessa deficiência, tive oportunidade de ir em centros comunitários, participar com outras companheiras, outros companheiros, gente muito boa, prestativa. Fizemos lá um centro comunitário. Tinha umas moças lá do centro, umas amigas, que eram professoras de corte e costura. Então ensinava aquelas senhoras para fazer corte e costura. Ganhamos quinze máquinas de costura do banco Sudameris, mais outra. E assim a gente ia trabalhando. Depois pusemos uma farmácia, arrumamos um farmacêutico que era aposentado. Graciosamente ele ficava lá fazendo remédios caseiros para tosse. Ele era farmacêutico, sabia fazer, para dar para os pobres. A gente pedia remédio para médicos para dar para as pessoas que precisavam. Levava para lá. Depois arrumamos dentista para trabalhar também de graça, arrumamos cadeira. Então, a gente ajudava um pouco. Foi muito gratificante. Inclusive tinha o curso também de criança, de pequenininho, primário, pré primário, coisa assim para gente pequena. Às vezes eu ia lá, então ficava tudo naquelas cadeirinhas próprias de criança, aquelas mesinhas pequenininhas. A gente entrava, eles já levantavam, de respeito pelas pessoas. Levantavam e ficavam olhando. Então, eu sentava numa das cadeirinhas e: “Vamos ver os cadernos como é que está?” Então todos corriam, se amontoavam um em cima do outro, a gente olhava e coisa. Então eu enxergava pouco, dava para por perto aqui da vista, colocava aqui perto e tal. Aí via aqui perto e falava para eles: “A sua letrinha está ruim, eih, rapaz!” E tal e não sei o que, e falava que ia melhorar. Eu vou voltar aqui e vou ver. Então, eu tinha dificuldade para ver de perto, mas via de perto. Então falava: “A sua letrinha está ruim.” E quando eu voltava depois de uns tempos ele era o primeiro a correr para mostrar que tinha feito letra melhor. Então, era gostoso ver essas coisas com essas crianças. São pequenas coisas que gratificam a gente de fazer essas coisas. Que a gente dar amor é a coisa mais gostosa que tem, que a gente recebe em dobro. Então, o comércio é isso: se você não trabalhar com amor pelos clientes, pelo fornecedor, pelo rapaz que entrega, pelos funcionários, então não adianta. Então, fala: “Eu sou derrotado.” Tem que ser derrotado mesmo. Se você faz com amor, respeitando todo o mundo dentro da sua posição. Os meninos novos, eu nunca falei para um funcionário, menino pequeno: “Oh, vai fazer isso!” Não, de jeito nenhum: “Faça o favor, quer dar uma olhada.” E da mesma maneira com pessoa adulta. E eles dão a informação, porque geralmente se a pessoa vem trabalhar são crianças cujos pais têm poucos recursos. E essa falta de recurso, sabe lá o que essa criança está passando em casa. O pai não tem dinheiro para fazer isso. Então o moleque apanha ou sei lá como é que é. Como é que vai receber carinho se está... Então, se ele não recebe no ambiente da gente... Depois a própria equipe que trabalha faz as coisas. Aí falam: “Ah, mas você é bom.” Não é questão de bom, a questão é não fazer para os outros o que não quer que faça para si. Só isso. E dá muito melhor resultado. Então, os funcionários que eu tenho, todos eles, se preocupa com aquelas crianças mais simples. Eles também fazem porque aquilo é uma coisa que é automático. Então, a pessoa já sabe que assim já é melhor e aquele ambiente é gostoso para todo o mundo. Quantas crianças que... Eu há pouco tempo num casamento encontrei um menino que foi meu funcionário. E depois ele trabalhou no Banco do Estado de São Paulo, aposentou. No casamento eu estava lá. E depois ele veio lá me cumprimentar: “Senhor Wilmon, queria ver o senhor. Eu lembro que quando eu era criança você me tratava tão bem que eu me sentia alguém dentro da coisa.” Então, a coisa mais gostosa é você ver alguém sentir que é alguém no mundo, né? Agora, eu vou pisar porque está pagando? Isso é covardia, uma coisa que não pode ser feita. Então, quer dizer, não tem nada de extraordinário. Então, todas as empresas, todas as coisas que eu fiz, foram feitas, cresceram em função da equipe, fornecedor, o que entrega, o cliente, todo o mundo. Todo o mundo tem sua cota porque todos estão me ajudando. E eu vou ser ingrato? A pessoa que entrega eu não vou falar: “Põe lá essa mercadoria!” Não é assim. É: “Faça o favor, vem aqui por para mim.” Então, o que acontece? Eles tratam com carinho a mercadoria da gente. Ele chegam lá, colocam direitinho e coisa. Eu falo: “Quer fazer o favor: quer por para mim lá no fundo.” “Poder deixar, senhor Wilmon, que eu levo.” “Vai tomar um café lá.” Quer dizer, estão na estrada, passando o quê e chega na coisa: “Põe lá!” Como se não fosse ninguém. Então, o normal é agir como eu ajo. Não está certo? Não agir diferente. Então sempre fui bem sucedido na minha vida particular, na minha vida de trabalho e, graças a Deus, Deus me deu pouca vista, mas eu enxergava outras coisas, né? Eu não enxergava de vista, mas enxergava outras coisas. Porque eu fui obrigado. Talvez não sei nem julgar hoje se fui era obrigado a fazer aquilo ou é por causa da minha própria índole. Pelo sim, pelo não, acabei sendo. Agora é por índole. É porque achei que é melhor assim do que ser diferente. Porque aquilo é: você dá, recebe. O que você planta, você colhe. Então, não tem problema para mim na vida. Tantas coisas interessantes a gente passou. Em São Paulo a gente ia fazer compra, fazer coisa, entende? Uma vez nós estávamos lá em São Paulo, naquela estação Armênia, na parte debaixo. E tinha um moço, um senhor que estava lá. Não sei se você conhece. O ambiente lá é barra pesada. E eu não sabia. Então, uma pessoa, que era justamente meu motorista na Barbieri pediu para eu esperar que ele ia encontrar comigo. Aí veio um senhor, um homem e começou a conversar comigo: “E não sei o que, até agora não comi nada, porque não sei o que, não sei o que lá.” “Porque o senhor não come?” “Ah, eu estou sem dinheiro.” Eu falei: “Ah, toma lá. Vai comer um sanduíche.” Então ele foi. Quando eu dei o dinheiro ele assustou. Eu falei: “Come um sanduíche, toma um leite.” Aí ele voltou e falou para mim: “Aqui onde o senhor está é perigoso. Mas aqui ninguém encosta a mão no senhor porque o senhor foi bom para mim.” Daqui um pouco apareceu um amigo dele com um punhado de ficha de telefone. Não sei onde que ele arrumou aquilo. Aí ele falou assim: “Olha aí o que eu tenho aqui.” Ele falou: “Dá para o moço aqui.” Aí abriu minha pasta e encheu de ficha de telefone. No fim ganhei muito mais do que eu dei para ele. Aí meu motorista veio e nós fomos embora. E esse motorista que trabalhou na loja, quando entrou para trabalhar eu não conhecia. Ele se ofereceu para trabalhar na loja. E aí eu falei: “Tudo bem.” Gostei do moço e não pedi informação. Aí ele veio, ele e a mulher, mas não tinham nada. Aí eu falei: “Bom, então, vou arrumar uma casa aí.” Mandei um rapaz arrumar uma casa para ele ficar. Então, falei: “Tudo bem.” Paguei o mês para ele e fiz uma despesa de armazém para ele poder começar. Falei: “Olha, você está sem nada. Então, já te dei o primeiro mês, já te dei comida. Você não me deve nada. Você vai começar a trabalhar agora.” “Depois eu pago.” Eu falei: “Não, se você for trabalhar para pagar, você não paga. E se você pagar, você vai sofrer. Você ganha isso aqui e esquece. Você começa agora.” Então ele começou a trabalhar comigo e aquela coisa e foi indo. Ele recebeu sempre um tratamento, ia viajar comigo diversas vezes. Um dia ele encheu o caminhão de combustível. Depois ele levou o caminhão no quintal da casa dele, que ele tinha um quintal. Depois no dia seguinte não tinha quase gasolina. Óleo, aliás, tinha acabado. Eu falei: “O que aconteceu?” Falou: “Ah, não sei.” Deu uma desculpa qualquer e tudo bem. Depois mais tarde ele vendeu uma televisão para um empregado que trabalhava, outro empregado; e ele tinha roubado de uma outra casa. Ele era ladrão e a gente não sabia, né? E aí ele roubou e vendeu a televisão. Depois descobriram. Prenderam o rapaz e tomaram conta. Aí ele me falou: “Senhor Wilmon, vê aquele dia que faltou combustível? Eu ia roubar o caminhão do senhor. Mas não deu coragem. Peguei e voltei para devolver o caminhão para o senhor.” Você vê? Aquele pequeno tratamento e... Você vê como o elemento é bom? Então, o que acontece? Às vezes falta coisas, justamente isso, né?

 

P/1 –O senhor tem ainda algum projeto para o futuro? Um sonho?

 

R – Se eu tenho projeto para o futuro?

 

P/1 – Projeto para o futuro.

 

R – Se eu tenho? Chiiii... Se tenho. Tenho tantos projetos. Que dez anos, 20 anos não dá para fazer. Quer dizer, agora estou fazendo a loja, vou fazer uma outra. Depois estou pensando em arrumar a chácara, né? Eu não sei até onde vou. Mas eu acho que eu sou obrigado a fazer isso aí porque eu tenho ainda capacidade de trabalho. Reconheço que sou ancião. Quer dizer que velho é aquele que entrega as pontas, né? E eu não. Eu tenho condições de ter cabeça, de fazer. Há oportunidade. Então, eu acho que tenho que criar trabalho para dar serviço para gente, para fazer a coisa crescer, para ser alguém no mundo. Dar oportunidade para fazer. Porque naturalmente aquilo que você faz você tem uma compensação. Mas o objetivo hoje não é tanto aquele retorno porque para mim se às vezes o sujeito se aperta e não dá para acertar, eu falo: “Está bom. Deixa, esquece isso e começa de novo.” Quer dizer, eu não faço muita questão dessa parte assim, né? Às vezes, em qualquer situação, não compensa estar brigando. Então, eu gosto de fazer, gosto de trabalhar, gosto de organizar. E agora tem mais um moço que está trabalhando e combinamos o preço, foi tanto. “Oh, senhor Wilmon, eu estava quebrando essa coisa aqui, deu prejuízo para o senhor.” Eu falei: “O que foi?” “Quebrei a pia.” “Ah, na chácara tem outra, vamos pegar outra na chácara, que tem lá.” “O senhor vai cobrar de mim?” Eu falei: “Não, deixa para lá.” Então, está fazendo. Aí ele falou: “Ah, senhor Wilmon, comecei a ver, tem um esgoto aí também.” “Então, quanto é que vai ficar a mais?” Ele falou: “Não, o senhor me perdoou a pia.” Eu falei: “Não, aquilo é outra coisa. Vê o que é certo. Eu não quero te explorar. Vê o que é certo e eu pago isso aí. Tudo bem, aquilo eu tenho na chácara outra. Você já foi buscar, já pôs. Esquece isso. Que agora você tem que manter a família. Eu sei que você não quebrou de propósito.” Ele foi tirar do lado, estava no cimento e quebrou. Ele falou: “Obrigado, senhor Wilmon.” Então, ele está fazendo. Quer dizer, não é que a gente está contando esse caso como vantagem. É porque geralmente já cobrou um bom preço quando fez o serviço razoável. Não explorou. Ele pediu e eu achei que está justo. Agora se ele fizer aquele outro ele vai perder. Então, não é justo se teve um acidente que para mim não tem problema nenhum. Então pega e tudo bem. Resultado: ele está trabalhando com mais carinho, com mais coisa porque, entendeu,  a gente ganha a pessoa. Muitas vezes você passa por bobo, mas por sem vergonha não. Quer dizer que então, é preferível perder do que... Então, eu gosto de crescer, gosto de produzir. Quase todos os funcionários meus tinha casa. Graças a Deus, a maioria deles não precisei ajudar, foi só com orientação da gente, explicando, fazendo economia ao invés de gastar em... Tinha umas moças que compravam bijuterias. Eu falei: “Para com isso. Compra um terreno que é melhor para você.” Então, a gente ia orientando, né? E alguns, de vez em quando, dava uma alguma mãozinha e tudo bem. Às vezes pedia: “Senhor Wilmon, estou precisando. Eu vou no banco, eu não tenho quem endossa para mim.” Eu falei: “Quanto é que dá?” “Dá tanto.” Falei: “Ah, vai lá comprar.” “Paga em quantas vezes?” Eu falei: “Ah, vê aí como você quer fazer.” Então pagava uma, duas vezes, eu falei: “Esquece, vai embora. Não tem mais nada.” Então, eu esquecia mesmo. Se você me perguntar para quem foi, sinceramente eu nem lembro também, porque esqueço muito das coisas, né? Mas teve casos. Dois ou mais casos talvez, que não vou detalhar o que foi feito assim. Só alguns que dei algum cheque para eles que depois me deram o cheque de volta, então, está guardado lá, mas tudo bem. Mas o que é importante que eles fizeram a casa deles, estão morando na casa deles, estão com os filhos deles, estão bem instalados e não fez falta para mim. A empregada de casa lá da minha mulher, tem um terreno lá em cima. Minha mulher falou: “Dá lá para ela morar de graça lá. Aquilo não vai dar nada. Vai dar 100 e poucos reais. Não resolve nada e resolve a vida dela. Só que você não cobra ela não. Não vai falar, nunca se você falar para ela: Eu te dou isso e você me dá aquilo. O que ela ganha aqui não tem nada a ver com isso aí. Dá a coisa e acabou, né?” O marido dela é pedreiro, arrumou a casinha e está morando, não paga nada. Custa para mim alguma coisa? Agora ela está contente, já comprou o terreninho dela, vai fazer a casa dela. Quer dizer que então,  deu oportunidade, ela está crescendo, está fazendo outras coisas, né? O interessante na vida é com os funcionário, com tudo, e a gente saber a posição das outras pessoas, aquilo que não faz falta para a gente, aquilo Deus deu a mais, você entende,  eu tenho demais, não há necessidade, né? Então, não custa nada, uma pequena parcela que se tem demais, ajudar. Então minha vida com os funcionários sempre, sempre eu recebi.... Nunca eu tive um caso que eu falei: “Esse aqui foi ingrato.” Não tive. 

 

P/1 – Agora já estamos  encerrando o depoimento. O senhor  gostaria de acrescentar algo mais que a gente não tenha perguntado? O senhor quer acrescentar mais alguma coisa?

 

R – Não, acho que não. Acho que eu até falei demais, né? Não falei demais?

 

P/1 – Não.

 

R – Coisa particular eu falei aquilo que eu sinto, como a gente é, como coisa, não é isso? São detalhes, mas é o meu modo de pensar. Que eu me lembre não tem nada. É mais ou menos isso, né?

 

P/1 – Então, agradecemos muito a sua presença  aqui hoje pra contar a sua história.

 

P/2 – Muito obrigada pela entrevista.

 

R – Obrigado.

 

P/2 – Foi um prazer para nós.

 

R – Vocês foram heroínas porque não é fácil enfrentar o microfone. É a primeira vez que eu estou enfrentando um microfone, mas vocês me deixaram muito a vontade.

 

P/2 – Se deu muito bem.

 

R – Até não sei se me sai bem. Está gravando ainda? Então,  está bom.

 

P/2 – Obrigada.

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