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História

Gigi: nascida para bater

História de: Gigi (Girlei Luiza Miranda)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 10/10/2017

Sinopse

Mais conhecida como Gigi, Girlei Luiza Miranda, nascida e criada na Brasilândia numa família de sambistas ligados à escola Unidos do Peruche, fez circo, teatro, musicou contação de histórias, deu aula de percussão, pintou e bordou. Brigou para ganhar seu espaço como mulher negra que toca tambor, e faz muito mais. Então descobriu que podia unir sua veia feminista, sua luta no movimento negro e sua paixão pela música numa iniciativa que alcançou grande sucesso: foi uma das criadoras do grupo afro Ilú Obá De Min – nome em yorubá, cuja tradução é mãos femininas que tocam tambores para o rei Xangô. Gigi foi uma das precursoras entre as mulheres percussionistas no Brasil. Uma guerreira.

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História completa

Nasci em casa, imagina, eu nascendo e a escola de samba dentro de casa, tocando, cantando, o povo comendo feijoada. Isso em 17 de janeiro de 1962, na Rua Zilda, na Casa Verde, São Paulo. Acho que essa circunstância tem muito a ver com o que eu faço hoje.


Fui criada na Vila Brasilândia em três cômodos de tábua, três barracos com um quintal muito grande, com várias árvores frutíferas, pato, porco, galinha, galo, tartaruga. Não tinha cerca, não tinha muro. Meu pai tinha oficina de funilaria e pintura, era pintor. Aos finais de semana os amigos se reuniam na oficina. Arrumavam um motivo para fazer uma comida para poderem fazer sambas, músicas para o enredo das escolas de samba, dos blocos. Meu pai e minha mãe tinham uma atividade muito grande com relação à escola de samba, à parte cultural, à parte da raiz da nossa história. Um dia fiquei encantada com um amigo do meu pai chamado Açúcar, que rodava um pandeiro na mão. Era um pandeiro lindo, cor de rosa, enorme. Eu queria rodar o pandeiro na mão, e não sabia que tinha o dom de tocar.


Eu ouvia muita música em casa, música que meus colegas não ouviam. Na escola a gente começou a tocar batendo nos baldes e eu cantava Jorge Ben, Alcione, Ângela Maria, Ataulfo Alves. Essa musicalidade da minha casa ficou guardada comigo. Terminei o colegial no Professor Augusto Ribeiro de Carvalho, no Piqueri, precisava trabalhar, e entrei para a música. Se eu não soubesse tocar, não teria encarado. Realmente me colocavam à prova, era um desacato atrás do outro. Os instrumentos que eu tinha eram de samba e eu entrei num universo pop, com instrumentos tipo tumbadoras, congas, djembê, timbales, tontons de bateria. Um dia fui a uma festa onde os músicos tinham esses instrumentos e tive coragem de pedir a eles para ver e tocar nos instrumentos. Emocionante. Já no mundo do samba a minha paixão pelo pandeiro era tão grande que meu pai me deu um pandeiro cor de rosa.


Nos shows, sempre tinha aquele momento: “Vamos tomar uma água, dar um tempinho”. Os músicos deixavam os instrumentos, eu pegava e arrasava com eles, aí começava a se formar um grupo para ver. “Olha só que negona, da hora! Deixe a menina tocar”. Nas rodas de samba do Camisa Verde e Branco, às segundas-feiras, nas rodas do Unidos do Peruche, aos sábados, com feijoada. Sempre um ou outro me conhecia: “Ah, a filha do Gilberto Bonga. Deixe-a tocar.” Mesmo assim, eram aqueles três segundos, sabe o negócio dos três segundos no garrafão, no basquete? Logo você lança e faz a cesta. Tem de pegar o instrumento e aproveitar aquele momento, valorizar com graça, para chamar atenção e ganhar espaço.


Então resolvi começar a frequentar a Unidos do Peruche, a escola dos meus pais. Me colocar ali. Por outro lado, comecei a me encontrar com pessoas do movimento negro, que era muito forte em São Paulo. Nas reuniões tinha música, e eu comecei a ter meu pandeiro comigo, e a desempenhar músicas que eram palavras de ordem na época. No espaço da Unidos do Peruche, eu podia juntar esse pessoal do movimento negro, e fazer a música. Comecei a sacar que a música era esse elemento que podia juntar. O movimento negro me deu esse start, essa visão do meu lugar, do que eu quero.


Quando eu cheguei à escola de samba, Dofona (Suelena Francisca da Silva) já estava. Imagina o quanto ela me deu força. Toquei com ela. Ela lida com tambores na mão, dá aula para crianças, dá aula de capoeira. Aí não dava mais para tocar só o pandeiro, eu pegava um tantan, dava outro ritmo no samba, estava mais ousada. E os outros percebiam que eu tocava porque gostava, gosto muito de tocar. Então sentiram, viram amor, viram talento. Eu adorava estar no conjunto, via que a minha posição não era somente eu. Aí comecei a ouvir Leci Brandão, Jovelina Pérola Negra, Dona Ivone Lara, Beth Carvalho, cantoras cuja referência é samba que colaboraram muito para a minha formação musical em nível instrumental.


A essa altura eu já tinha um grupo chamado Banda-Lá, que ensaiava dentro da Unidos do Peruche. Já estava tocando tambor. E era funcionária pública na Prefeitura de São Paulo. Um dia Beth Beli me levou ao Brincante. Fomos de bicicleta. Uma mesa medieval linda, um monte de artistas. Vi um cara tocando violino e andando de perna de pau, outro cara tocando sax e andando de perna de pau. Quando me dei conta, já estava na corda, andando. É encanto, você vê a infância. Eu comecei a chorar, porque mexeu com muita coisa interior. Era como se eu tivesse ultrapassado uma barreira, uma porta, e tivesse entrado em pleno estado de felicidade, em pleno estado de equilíbrio. Conheci Lígia Veiga e comecei a fazer um curso de perna de pau. E foi montado um espetáculo chamado A Saga de Jorge. Aí minha vida mudou completamente. Porque eu me apaixonei por essa atividade. Pedi exoneração da prefeitura.


Eu fui para a Europa cantando e tocando zabumba. Fazendo A Saga de Jorge. E tive várias crises. Pensava: arte não dá dinheiro. Por mais que todos sejam maravilhosamente artísticos na minha família, meu pai era diretor de bateria, minha mãe saía na ala das baianas da Rosas de Ouro, eu quero saber onde está a grana. Arte circense? Tocar tambor? Viver como? Foram várias crises.


A Lígia me contratou para dar aula de samba na Casa do Teatro. Montei um Olodum lá, fiz todo mundo tocar tambor. Montei uma escola de samba com todos os alunos. A Simone Grande e a Kika Antunes tinham um grupo de contação de histórias e me colocaram para musicar algumas partes dos espetáculos. Foi um casamento perfeito, que se desdobrou por dez anos. Ganhamos prêmios com Princesa Jia, Por Que o Mar Tanto Chora, Papagaio Real e As Velhas Fiandeiras. Foram dez anos maravilhosos, com as quatro mosqueteiras do teatro infantil: Simone Grande, Kika Antunes e Luciana Viacava, e Girlei Miranda. Esse foi outro momento que provocou muita mudança em mim, porque eu descobri que tenho um dedinho com a criançada. Não dá para mentir para criança. Ou ela gosta de se rasgar, ou fica imparcial. Ser diretora musical, participar dos espetáculos, tudo foi demais para mim.


Mas então, no paralelo, tinha o bloco afro Ori Axé, que tem a ver com o movimento negro, e comecei a levar para a Unidos do Peruche. Me convidaram para fazer parte da Fundação do Ori Axé, que tinha um instituto de cabelereiro afro na rua Santo Antônio. Quando o bloco Ori Axé fez a primeira viagem internacional para a Costa Rica, eu descobri que a gente cantava, que eu podia compor músicas. O instrumento, a música, o som dos tambores, começaram a fazer sentido na minha vida, porque eu comecei a usá-los para resolver minhas amarguras, minhas indecisões. Eu tive que assumir: “É isso mesmo, é o tambor. É o instrumento. E a música”. E sem dor. Eu tinha que encarar e segurar minha amargura e colocá-la em música também.


No Ori Axé, a gente criou toda a estrutura para ser o que somos hoje. Vimos o quanto tínhamos de bagagem. Um dia a Beth disse: “Estou querendo montar um grupo. Vamos? ” Eu sou apaixonada pelo Ilê Aiyê, pelo Ara Ketu, o Muzenza, os blocos afros da Bahia são as nossas referências. Por que não fazer um negócio desses em São Paulo? Com tanta referência musical, as nossas culturas afro-brasileiras, o sincretismo. A gente tinha muita responsabilidade com o Ori Axé, ali tocavam juntos homens e mulheres. Mas no mesmo dia, na casa da Beth na Eduardo Prado, ela fez uma pesquisa e veio com esse nome, Ilú Obá De Min. E a gente começou a chamar as meninas do Ori Axé para compor. Não esperávamos que as pessoas fossem nos acompanhar da forma que acompanharam, fossem acreditar na proposta. Hoje, como compositora do Ilú, tenho orgulho da Beth estar lá dirigindo. Eu me coloquei nessa posição: “Quero compor, quero dar aulas, quero tocar, quero cantar”.


Fui fazer inscrição em um curso de Percussão Erudita, na Universidade Livre de Música, e acabei dando aula ali. Aí fui para o Souza Lima, onde várias mulheres já estavam: Valquíria Rosa, Miriam Capua, várias guerreiras. Mulheres que já começavam a tocar instrumentos de percussão. E aí conheci Dinho Nascimento, conheci Dinho Gonçalves, um grande percussionista que tinha acabado de chegar da África, com vários tambores cubanos. Fiz curso com ele porque queria ter mais elementos de ritmos que têm a ver com tambores. Toquei com Dinho Nascimento, um baiano maravilhoso, no Morro do Querosene, e hoje ele tem a orquestra de berimbau.


O Ilú Obá realiza e estamos para realizar muito mais. Tem muita coisa para ser feita. Musicalmente e historicamente. Pessoalmente, penso em gravar um disco meu. Em fazer um show meu. As meninas do Ibeji estão cantando uma música minha, da cigana. Foram para Cuba, levaram a música, colocaram no Face, todo mundo dançando e cantando. É a coisa mais maravilhosa você ver as pessoas cantarem a sua música. Eu acho que todo artista gostaria de ter as suas coisas registradas. Eu tenho pouca coisa minha registrada. Algumas das minhas músicas ainda estão no celular.

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