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Gilberto Aparecido Nascimento Teixeira

História de: Gilberto Aparecido Nascimento Teixeira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 22/06/2005

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História completa



Família
Meu nome é Gilberto Aparecido Teixeira. Eu nasci em São Paulo, dia 9 de janeiro de 1967. Minha mãe se chama Zenólia de Jesus Teixeira e meu pai se chamava João Teixeira Sobrinho. A relação minha e dos meus irmãos com meu pai durou pouco tempo, porque ele foi embora muito cedo. Ele trabalhava numa fábrica de vidros de segurança para caminhões e ônibus e também na fábrica de brinquedos Estrela. Nós ganhávamos bons presentes quando éramos garotos. Hoje nós somos cinco irmãos, na época éramos eu e mais três. Minha mãe teve um relacionamento e surgiu minha irmã mais nova, a Gláucia. E nós tínhamos tarefas divididas dentro de casa, pois minha mãe saía para trabalhar. Ela foi operária da indústria de tecido e da de rádio e TV. Trabalhou para Philco Ford muitos anos – foi seu primeiro emprego depois de ter ficado viúva. Uma viúva migrante do interior não tinha formação para trabalhar em outra atividade. Foi dessa forma que ela nos sustentou ao longo de toda a vida. A minha irmã mais velha, a Fátima, quando tinha 12 anos, era quem virava nossa mãezinha: cuidava da gente, fazia as coisas. E o irmão mais velho cuidava de outras partes da casa. A Fátima era severa, mas não era brava. Hoje temos uma relação muito bacana. Na época ela cumpriu o papel direitinho de disciplinar a casa, deixar tudo em ordem. E minha mãe era sozinha, quando ela chegava, a casa tinha que estar limpa, os filhos de banho tomado. Nós não tínhamos hábitos religiosos. Minha mãe, pelo histórico de vida dela que antecede esses anos todos, abdicou disso por livre e espontânea vontade.

Deslumbre com a cidade
Passei minha primeira infância numa cidade da Grande São Paulo: Ferraz de Vasconcelos. Logo depois, na idade pré-escolar, morávamos em Itaquera, e meu pai já havia falecido. Na pré-adolescência, mudamos para o bairro de Aricanduva. Então, morei a vida inteira na Zona Leste, Grande São Paulo. Itaquera era muito bom. Minha mãe trabalhava na época e tínhamos os vizinhos que olhavam por nós, na falta do pai. Nós íamos e voltávamos da escola sozinhos. O que eu lembro da infância é que era diferente de hoje, éramos muito livres. As ruas eram de terra com muito mato. No caminho para a escola atravessávamos plantações de abóbora em terrenos abandonados. Às vezes, nós até olhávamos, antes de ir para a escola, se tinha alguma para, na volta, trazermos para casa. Era um cenário de interior, de chácara. Eu brincava muito de pega-pega, de esconde-esconde, de rodar pneu, carrinho de rolimã, essas coisas de criança. Não tinha nada tecnológico como hoje, eram brincadeiras de rua. Ficávamos mais em Itaquera, muito raramente nós vínhamos para o que chamávamos de cidade. Na época, era raro pois minha mãe não tinha carro e os meios de transporte eram difíceis. Então, era um acontecimento quando vínhamos para o centro. Na época, não tinha metrô, então vínhamos de ônibus. E era uma viagem longa também. Lembro que, ainda molequinhos, nós viemos conhecer a Praça da Sé, que era uma sensação. Tinha metrô, mas acho que ele não chegava até onde vai hoje, era muito reduzido. Para nós eram novidades aquelas praças com chafarizes e tudo mais, era muito inédito. E jogávamos moedinha para fazer desejo naquela fonte da Praça da Sé, porque tínhamos visto na TV e, para nós, era um ritual de boa sorte. Tomávamos um lanche em algum lugar, naquelas pastelarias chinesas, tristes. Para nós estava ótimo, era uma diversão passear com os pais e os irmãos.

Vendedor de geladinho
Eu lembro direitinho da primeira escola, foi a Escola Municipal Brigadeiro Haroldo Veloso, em Itaquera. Era uma escola maravilhosa, bem estruturada, muito limpa, as salas confortáveis, é uma lembrança muito boa. O uniforme era shortinho vermelho e camiseta básica branca. Essa escola existe ainda, e não faz muito tempo que eu estive lá por perto para matar a saudade. A minha primeira professora se chamava Maria de Lurdes. Logo depois nós saímos de Itaquera para outro bairro, então nessa escola eu estudei só a primeira e segunda série do primário. Fomos para o Jardim do Quarto Centenário, região do Aricanduva, onde moro hoje. O que mais senti com a mudança foi a adaptação aos novos amigos. Quando mudamos, precisamos aprender onde fica o boteco, onde comprar pão, onde é o açougue. Existe essa lesão temporária, mas eu me adapto bem a isso, então não foi muito difícil. O Jardim do Quarto Centenário era mais urbanizado – estava aquém de um nível adequado, mas já tinha uma urbanização: alguns pontos de ônibus eram mais próximos, andávamos menos para pegar uma condução. Não era asfaltado, mas para quem nunca tinha visto asfalto, aquilo também não fazia diferença. Eu era bem novo quando comecei a trabalhar. A minha mãe era sozinha, então sentíamos necessidade de ajudar de algum jeito. Eu vendia geladinho, refresco, aquelas bebidas coloridas em saquinhos na porta de escola. Uma moça, moradora da região, me ofereceu esse trabalho. Ela oferecia isso para os moleques. Então, tinha vários molequinhos que vendiam na porta das escolas. No final do dia, trazíamos o que não tinha vendido e fazíamos acerto com ela do que tínhamos vendido. Para vender acho que eu falava o preço, mostrava o produto. Naquela época o pessoal via o isopor pendurado no ombro de um molequinho e já sabia o que tinha lá. Então, às vezes, elas perguntavam quanto custava, que sabor tinha e vendíamos assim. Com o dinheiro que eu ganhava, uma parte eu deixava para comprar coisas que precisava na escola: caderno, lápis. Mas eu ouvia minha mãe em casa reclamando que precisava de algumas coisas, como sabão – que gastávamos muito com as roupas –, então procurei colaborar com essas coisas. Nessa época eu tinha uns 11, 12 anos.

Pastel agora é dez
Depois eu fui trabalhar na feira vendendo pastel. Lá eu tinha o slogan do pastel... “Agora é dez, agora é dez, pastel agora é dez, é dez, é dez”. Eu falava isso quando baixávamos o preço do pastel. Então, no final da feira, criávamos esse slogan para vender tudo. Isso faz muitos anos. Fiquei vendendo pastel na feira dos 11 até os 15 anos mais ou menos. Não conseguia emprego, não tinha idade para trabalhar, então era uma forma de ajudar, de ter algum dinheirinho. Sempre estudei. Minha mãe não fazia questão, mas eu achava importante para mim e para o meu futuro. Na transferência de atividade informal de vender pastel na feira para uma pastelaria, que aconteceu por volta dos 15, 16 anos, foi o primeiro ano em que eu tive um problema escolar. Eu não tinha motivação para continuar: era uma época que estava me descobrindo, tinha muitos conflitos pessoais. Então, no final do ano, eu decidi parar de estudar. Mas no ano seguinte eu retomei e continuo até hoje.

Entre pastéis e pizzas
Eu fui trabalhar para uma pastelaria de rua, dessas que tem em bairros comerciais, na Penha, chamava-se Zona Leste Pastéis. E lá eu fiquei trabalhando sete meses. Trabalhava das seis da manhã até as cinco da tarde. Chegava cedo para limpar e deixar tudo em ordem. Acho que abria efetivamente às oito da manhã para os clientes. Eram poucos fregueses neste horário, mas às segundas-feiras quem não tinha ido para casa no domingo passava para comer um pastel. Já sabíamos pelas roupas que as pessoas usavam e falávamos assim: “Essa pessoa não está indo trabalhar Ela está indo para casa” Eu achei que estava tudo bem, mas não estava: fui demitido. Não lembro o porquê. Era uma empresa pequena, tinha muitos conflitos entre os funcionários e o dono. E hoje eu adoro que eles tenham me demitido Foi bom, porque quando a gente sofre essas instabilidades, arruma outra saída. Então fui trabalhar numa das empresas do Grupo Sérgio, uma rede de pizzaria que era um sucesso na época. Era moda, era chique As pessoas esperavam o final de semana para ir para o Grupo Sérgio, então trabalhávamos muito lá. O público era muito grande, as pessoas faziam filas na porta. Acho que foi a empresa que tornou a pizza o prato mais popular de São Paulo, do Brasil. Vender muita pizza era uma coisa impressionante, assombrosa Não tinha o número de pizzarias que você encontra hoje. Delivery de pizza, imagina Era uma coisa que o Grupo Sérgio fazia e tinha notoriedade. Lá eu fiquei onze meses. Eles tinham um serviço de venda de pizza por pedaço, esfihas, e eu atendia no balcão. Tinha uma sorveteria também na entrada da loja. Pegava fogo

Ingresso na Natura
A Natura surgiu alguns anos depois, logo que eu saí dessa pastelaria e fui trabalhar numa empresa. Nessa empresa eu fiquei quatro, cinco anos. Mas do quarto para o quinto ano, eu descobri a Natura. Queria fazer presentes para minha família com os produtos, então eu escolhi o que eu daria para minha mãe, para os meus irmãos e para os meus amigos mais próximos. Fazia questão que fossem produtos Natura, porque eu já tinha criado uma identidade com a marca. Quando fui fazer o levantamento, vi que não dava para eu comprar. Aí, tive a idéia, falei assim: “Puxa vida, e se eu comprar direto? Ao invés de comprar da Alclair, e se eu comprasse direto da fábrica?” Era o raciocínio que eu tinha, e talvez pudesse ser mais econômico. Então liguei no “0800” da empresa e procurei saber como é que eu fazia para comprar direto. Me informaram que não vendiam dessa forma, só através de uma consultora de beleza. Aí, eu desliguei o telefone um pouco triste, porque o meu plano não daria certo. Mas passaram algumas horas e eu pensei: “Por que não me tornar um consultor de beleza?” Eu liguei no dia seguinte e disse que queria ser um Consultor de Beleza Natura. Me deram as instruções do que fazer. A Natura funcionava ainda na Avenida Brasil e eu fui lá depois do meu expediente na empresa, levei os documentos que me pediram e estou até hoje

Um casarão: entro ou não entro?
A casa da Avenida Brasil era muito linda. Um casarão Quando cheguei, fiquei na frente da casa – era imponente, muito chique E eu via pelas janelas que tinha muitas flores e mulheres muito bem arrumadas circulando por ela, e foi quando eu pensei: “Entro ou não entro?”. Mas aí: “Não, eu já estou aqui, agora eu vou”. Quando eu entrei, perguntei pela pessoa que me atenderia. Ela não estava, e tinha deixado uma outra moça para falar comigo, a Áurea – acho que ela está na empresa até hoje. Sentei e ela deve ter pensado: “Esse negócio não é para esse rapaz”. Eu preenchi todos os dados, entreguei meus documentos e aguardei o contato da promotora, mas ele não aconteceu. Enfim, resolvi meus presentes de Natal de outra forma. Naquele ano, 1986, no dia 24 de dezembro, chegou um SEDEX grande na minha casa, com material que incluía um catálogo – Vitrine Natura, tabela de preço, manual dos produtos. Eu não pensei que eles fossem ter utilidade na minha vida, mas tiveram.

Sucesso na crise
Eu não achei que fosse ter utilidade porque os presentes já estavam resolvidos, mas quando comecei a ler o material e ver os produtos, tive um encantamento: acreditava em tudo o que estava escrito. E aquilo fornecia subsídios bastante fortes para eu sair e oferecer os produtos. Meu primeiro pedido para a Natura aconteceu no dia 17 de janeiro de 1987. Lembro que nesse ano a gente estava com um problema de desabastecimento no país, naquela época dos congelamentos. Estávamos com problema de carne, de automóvel e também de cosmético. E tive uma venda excelente, excepcional para quem não tinha recebido o treinamento nem se proposto a abraçar essa como primeira atividade. Aos finais de semana eu saía com aqueles catálogos debaixo do braço, oferecendo às pessoas, e elas não sabiam o que era Natura.

A novidade
Natura naquela época era novidade. Você tinha que contar o que era um desodorante Sr. N ou um sabonete de erva-doce. Isso era o trabalho do consultor; na época nós não dávamos um conselho, falávamos de um produto que estava aparecendo e o que ele era. Enfim, meu primeiro pedido tinha 117 produtos vendidos, e a marca naquela época não tinha oportunidade de penetração: era um produto caro, comprar Natura era difícil. Hoje é uma marca democrática, atinge todas as faixas econômicas e sociais. Mas o meu pedido veio com problemas, pois estava pela metade, com produtos trocados, porque a empresa também estava passando por uma fase de estruturação muito grande. Quando chegou a primeira caixa de produtos foi muito bacana. Até hoje é muito interessante; você abre, vê os produtos, as novidades, e as testa, mostra para um colega. Era uma vibração tirar os saquinhos – na época era serragem ou papel amassado. Hoje evoluiu, tem outros recursos para mandar os produtos. Mas antes olhava um por um, abria a tampinha, sentia a fragrância, lia o rótulo, lia a bula, admirava a embalagem e sabia que depois ia entregar aquilo para alguém que talvez tivesse a mesma felicidade que eu, era uma delícia. Impossível lembrar da primeira venda Mas vendi muito bem. Como foram 117 produtos, tive de acessar muitas pessoas para ter um pedido desse tamanho. Mas lembro que a sensação de que o material que chegou às minhas mãos não ia ter utilidade durou uns dois, três dias. Depois tive certeza de que poderia fazer alguma coisa dali e, como já tinha algumas experiências comerciais, a Natura seria um complemento de renda de uma atividade que eu já desenvolvia, mas nunca pensei que seria minha única renda. Os primeiros clientes foram os vizinhos, as pessoas mais próximas e os colegas do cursinho. Eu paguei o cursinho e a faculdade inteira com os lucros da Natura.

Consultor empreendedor
O meu setor foi criado recentemente, talvez há uns três anos, para cobrir a necessidade especial de um grupo que se dedica exclusivamente à atividade de consultoria de beleza, que são os Empreendedores. São pessoas que fazem dessa atividade o seu próprio negócio. Neste grupo, talvez com 200 consultores, temos uma analista de mercado, que é hoje a Rita Alves. Ela dá todo o suporte, conduz as nossas reuniões, estabelece as nossas estratégias de crescimento, e seria equivalente à promotora nos outros setores. O meu ingresso no grupo de empreendedores aconteceu um pouquinho antes dele existir, pois sentia que o negócio Natura já estava chegando no limite. Eu não tinha mais como crescer, dedicava uma grande parte do meu tempo para esse negócio e encarava como uma atividade profissional. Achava injusta a relação da empresa comigo, de me tratar como se fosse um vendedor com os mesmos resultados dos outros, como se eu não tivesse uma preocupação em conhecer tanto quanto eu conhecia na época para ser um melhor consultor. Achava que deveria ter um reconhecimento por essa parceria. Afinal, era um diferencial para a empresa ter um profissional como eu. Fui falar com a minha promotora, Solange Horta, e pedi que ela me desse a oportunidade de conversar com a gerente dela, a Sônia Cênamo. Elas me ouviram e a Sônia falou: “Olha, Gilberto, a Natura já identificou essa necessidade. Vai acontecer um projeto nos próximos meses. Eu vou te pedir para ter um pouco mais de paciência”. Então, diante dessas perspectivas que ela me deu, continuei no negócio e participei de uma pesquisa de profundidade para estabelecer o rumo do setor Empreendedor. O setor tem alguns ajustes a serem feitos, mas eu me sinto privilegiado por um prazo e uma taxa de remuneração diferente. Tenho um canal livre de comunicação. Com o grupo reduzido e com as mesmas necessidades, interagimos melhor. Antes estava num grupo em que as pessoas eram muito diferentes de mim, suas necessidades eram outras. Então, na hora de falar alguma coisa, era uma andorinha sozinha. Era mais difícil. Hoje não, se precisamos de algo, validamos no grupo. É mais fácil a empresa conduzir a estratégia para contemplar esse grupo do que para cada consultor.

Escritório em casa
Eu moro em uma casa grande e tenho um escritório montado onde seria minha sala. Tenho uma assistente, a Sonia Luciano, que cuida de tudo para mim. Ela conhece os produtos, manipula bem o computador, o telefone, faz pedidos, planeja nossos pagamentos, depósito em conta. Ela me dá assistência em toda a atividade. Tenho um estoque para pronto atendimento, embora hoje, com o portfólio Natura do tamanho que é, seja praticamente impossível ter tudo. Escolho o que sinto que o cliente pode pedir na hora ou que vai vender mais; até os que oferecem oportunidade de negócio eu estoco, porque esse é o papel do Consultor Empreendedor. Assim eu busco novas formas de escoar produtos e de trazer maiores resultados. Tanto que um Empreendedor tem uma participação mínima para continuar dentro do grupo. Então, periodicamente, é feita uma medida da participação dele; e ela deve ser igual ou maior que o padrão. Então, ele precisa ter um volume comprometimento com o negócio, que garanta a parceria dele com a empresa dentro do Setor Empreendedor. Do contrário, ele sai do Setor Empreendedor e volta a ser um consultor Natura, como todos foram antes. Outra exigência que a Natura sempre faz é que o Consultor Empreendedor não se dedique a outras marcas de cosméticos, uma vez que ela despende recursos para qualificar essa mão-de-obra, e não gostaria de ter talvez esse recurso dividido com outras empresas. No meu caso, nunca vendi outras marcas.

Ajuda familiar
A minha clientela é bastante dispersa geograficamente. Na cidade em que vivemos não dá mais para trabalhar assim – ter cliente em todos os bairros, perfis e padrões socioeconômicos. Isso é um problema que preciso equacionar. Eu entrego pessoalmente em todos os bairros. Mas a maioria é, basicamente, mulher, acima dos 30 anos, com o segundo grau completo. Sempre que preciso, eu procuro a família. Mas acredito que cada um tem sua própria vida e eu procuro respeitar isso também. E vou criando a minha. Mas em algumas circunstâncias os mais próximos acabam ajudando. Quinta-feira agora, véspera de feriado de Sexta-feira da Paixão, uma cliente ia viajar, eu estava longe, precisava fazer uma entrega, e minha mãe foi por mim. Minha irmã me ajuda, faz manipulação de materiais quando precisamos, e a outra também; elas também levam o catálogo para as colegas comprarem.

Estratégias de trabalho
Eu faço uma agenda. Quando eu vou para alguma região, tenho um roteiro que sei que devo seguir. Se for em um cliente, o próximo deve ser aquele, porque eles são vizinhos. Então já fiz um exercício mental de quem tenho que visitar perto de quem para não perder viagem, porque o custo para andar em São Paulo é muito alto. Eu tenho uma mala especial que levo no carro. Porque quando chego num prédio preciso subir os andares, e é lá que eu transporto meu material. Tenho também algumas sacolas e minha mochila, que tem calculadora, talão de pedidos, catálogo. Trabalho de carro, mas pretendo mudar em breve. Espero, daqui a algum tempo, morar perto de uma estação de metrô e fazer muito uso dele e de transporte público e, quando necessário, de transporte particular: táxi, essas coisas. Eu sinto que eu vou economizar tempo e recursos financeiros. O carro hoje, na cidade de São Paulo, está impraticável, exorbitante. Eu não consegui parar para fazer esse estudo na ponta do lápis, mas acredito que vou ter uma economia muito grande.

São Paulo Fashion Week
A Natura tem algumas participações no São Paulo Fashion Week, e já contrubuí em duas edições graças ao relacionamento que tenho com a empresa. As pessoas que conhecem o meu trabalho e a seriedade com que o desenvolvo, sabem que gosto, que faço com amor. Então me convidam para dar a minha contribuição. Nessas edições, a Natura disponibilizava para os profissionais da moda e às pessoas que circulavam no backstage, uma área que antecede a sala de exibição de desfiles, onde as pessoas se arrumam, com massagistas para cuidar do bem-estar das pessoas que estão trabalhando. Era gente entrando, saindo, e modelos que, às vezes, passam o dia inteiro no evento: desfilam para aquele estilista de manhã, não fazem nada à tarde, depois vão fazer um desfile às nove horas da noite, e se alimentam mal. Então, eles acabavam usufruindo desse serviço que a Natura patrocinava nos camarins, e adoravam. Era muito bacana, a gente só ouvia coisa boa. Esse evento cresceu muito no Brasil: o que ouvíamos é que ele era o quinto evento mundial de moda, e está ganhando a quarta posição. E a organização do São Paulo Fashion Week tem uma previsão de que, em dois anos, ele seja o maior evento de moda do mundo. A gente tem hoje eventos de moda em Paris e Milão, e o São Paulo Fashion Week já tem um nível de importância, talvez, maior ou igual ao deles. Acho que a participação da Natura no São Paulo Fashion Week é uma contribuição importante para a empresa que tem a cara do Brasil. E isso para ela também é bacana, porque está em evidência para a mídia, com pessoas que formam opinião, que gostam de novidade, do que é bom e bonito.

Viagem inesquecível
Conquistei muitas coisas. Mas as maiores conquistas são os relacionamentos que construí. Conheço muita gente bacana; isso é uma riqueza que não tem preço. Não consigo mais dividir quem é cliente e quem é amigo. Porque todo amigo é um cliente e todo cliente vira amigo. A Natura me deu uma viagem com direito a acompanhante para o Rio de Janeiro. Foi muito agradável, uma lembrança muito boa. É um prêmio importante e bacana. E tem tantos outros, como eletrodomésticos, TVs, aparelhos de som.

Diversidade incrível
A Visita Vip foi o máximo. Aquilo é um sonho: vale a pena chegar aos 15 anos de consultoria para viver três dias como um príncipe. Com todos os mimos, cuidados, toda aquela preocupação, dedicação, carinho, conforto e atenção. Pensaram em tudo nos mínimos detalhes: no jantar, no reconhecimento. A última noite, quando entregam os broches de 15 anos, é muito especial. Encontrar pessoas que fazem o mesmo que você faz pelo Brasil todo é muito bom. Eram pessoas do norte, do sul, do interior, das capitais, das praias, do Brasil inteiro; mulheres e homens, jovens e velhos; pessoas que tinham terminado apenas o primeiro grau e outras catedráticas; negros e brancos e louros. Num dos almoços eu olhei aquela mesa e, observando essa diversidade, achei encantador, incrível

Fã dos produtos
É difícil dizer quais os produtos que mais vendo. Mas, generalizando, são os hidratantes e perfumes. Quando comecei, os produtos mais conhecidos e que mais vendiam da Natura, eram desodorante Sr. N e o Chronos. Hoje este é uma linha de produtos anti-sinais, mas na época era um produto único, de uma categoria superior, de combate aos sinais do tempo.. E nós tínhamos também colônias que faziam muito sucesso, as Musc – hoje tem uma família grande delas, mas elas eram famosas, vinha em uma embalagem muito interessante: um potinho, que parecia um cofrinho, que juntava as partes de cima e de baixo e o perfume vinha dentro, como aquele tubinho de correio, feito de papelão. E outros produtos da época que eu lembro também são o Erva Doce, a linha Sève, a linha Perenna, a linha Somma de produtos para tratamento do corpo, os produtos antiqueda de cabelos, a L’arc en Ciel, que era maquiagem na época, com embalagens vinho. Dos produtos da Natura eu já usei sabonete, hidratante, shampoo, condicionador, sabonete esfoliante da linha Faces, o hidratante de Chronos, protetor solar, desodorante, colônia, desodorante para os pés, hoje sou todo Natura. Não consigo dizer o que mais gosto de usar, depende: às vezes, você quer uma colônia mais dia-a-dia, às vezes você quer um perfume. Sou fã da linha Ekos. Dela eu gosto de quase tudo: amo os sabonetes, óleos, shampoos, hidratantes.

Dicas e estratégias de venda
Na época da faculdade, quando algum amigo fazia pedido, ao invés de falar “Vou entregar na faculdade” eu dizia: “Eu vou entregar no seu trabalho ou na sua casa”. Porque quando você entrega para ele nesses lugares, tem a oportunidade de conhecer possíveis clientes. E deu certo Hoje em dia é mais difícil, pois tem muita gente vendendo Natura. Eu desenvolvi uma estratégia recente para captação de novos clientes que não deu muito certo. Eu tenho uma cliente que mora em um edifício de bom padrão. Aí, eu pensei: “Puxa vida, eu venho aqui nesse prédio, e atendo só a Marilena. Eu poderia atender mais pessoas e aproveitar minha visita. Considerando ainda que esse edifício não fica longe da minha casa, eu poderia atender rápido”. Isso geraria um ganho para mim e para o cliente, que esperaria menos tempo para ter o produto. Então escrevi um e-mail explicando para Marilena qual seria a ação no prédio e pedindo a parceria dela. Ela deveria me entregar uma relação com o nome das moradoras. E a partir daí, eu dirigiria uma cartinha personalizada para cada uma informando que eu já atendo aquele prédio há anos, que a Marilena do apartamento “xis” já é minha cliente há tanto tempo e que eu gostaria de apresentar os meus serviços. E para estimular essa pessoa a efetivar o seu pedido mais rápido, eu oferecia um presente. Porque comprar de alguém que atende há muitos anos naquele prédio gera confiança nas morados.Aguardei, mas a lista não veio. Apresentei a idéia para a Patrícia Godoy, de outro prédio, mas ela também não mandou os nomes. Vendo muito pouco pela Internet. Teve uma época que eu morei na Paulista e senti que tinha mais oportunidade, talvez pelo perfil da região. Hoje é muito fraco. Acho que vender pela Internet depende da região, ela pode ser mais eficaz para um padrão de consumidor que tem menos tempo, que intera com essas novas tecnologias e acredita mais nessa ferramenta, do que com pessoas que prezam mais o relacionamento cara-a-cara, ou que não gostem de comprar pela Internet. O consultor novo precisa acreditar no negócio que ele tem nas mãos, que será bom, que pode mudar a vida dele. Deve se envolver com carinho, porque ele está do lado de uma empresa legal, que os recursos estão disponíveis.

As diversas belezas
O que tem de bonito no brasileiro é a nossa diversidade. Acho que esse caldeirão de diferenças faz com que o brasileiro seja o que ele é, tenha essa criatividade para encontrar as grandes saídas e sacadas, criar diversas possibilidades para ser feliz de um jeito ou de outro. Então aqui você tem tudo. São Paulo é um marco disso: a diversidade que você tem aqui é uma coisa incrível, tudo o que você pode encontrar em qualquer civilização, você vai ver aqui. De limpeza, de sujeira, de muita gente, de pouca gente, de muito chique, de muito simples, de tudo, é incrível E eu sou convicto em dizer que, se pudesse transformar São Paulo numa única palavra, seria essa: diversidade É uma distância muito grande em tudo, não dá para dizer nada linear dessa terra.

Aprendizados
Efetivamente, a Natura ajudou na minha realização pessoal, porque ela colocou todas as ferramentas na minha mão e eu acreditei. Por isso, ela foi importante para transformar a minha vida, o meu futuro. Ela garantiu um meio para ter o meu negócio e uma receita para que eu mantenha à minha família e a mim, além de pagar a minha faculdade. Talvez sem isso eu fosse um moleque, eu poderia não ter a mesma sorte. Já tive uma fase muito boa, de morar bem, aproveitar o que a cidade oferece de cultura, passeios, de tudo. Então tudo isso é uma riqueza que veio com o meu trabalho como consultor de beleza da Natura. Aprendi muita coisa nesses 18 anos. Eu aprendi a falar, a entrar em lugares que talvez eu não tivesse oportunidade de conhecer e a conversar com pessoas que talvez não tivessem me dado atenção se não fosse pela Natura. Eu também viajei bastante por todo o Brasil, conheci o nordeste, o sul e o interior. Já estive fora do país uma vez, fui para Buenos Aires, e pretendo voltar a viajar para o exterior. Agora faço francês e quero ir para a Europa, para Paris, passar um tempo lá. Acho importante para formar a nossa identidade, valorizar o que é nosso e conhecer o que tem lá fora. Então, viajei bastante, estudei bastante – me formei em Administração de Empresas e fiz especialização em Marketing Direto, além de um bom curso de línguas. São patrimônios que ninguém tira. Minha visão de mundo mudou. Toda pessoa tem um valor: há pessoas que têm muito valor e não são importantes e tem pessoas que são muito importantes, mas não têm valor nenhum. Então, nós precisamos ser muito flexíveis, porque cada um que aparece na sua frente é de um jeito e você precisa dar oportunidade para ele falar, para você conhecê-lo e interagir com ele. Nós não conhecemos ninguém e ninguém nos conhece. Dos conceitos e valores que a Natura tem, o que chama mais a atenção e que mais trago para o meu dia é a transparência, porque é mais fácil se relacionar quando você consegue falar e ouvir. Nós exercitamos isso todos os dias, com o cliente, com a empresa que trabalhamos. A Natura é uma coisa engraçada porque ela me ensinou muitas coisas: não vou só trabalhar, ganhar dinheiro, conhecer gente, mas vou levar algumas coisas que são importantes mesmo, como pessoa. Tem outros conceitos que nós exercitamos, como conhecimento, criatividade e equilíbrio.

Preocupação com o meio ambiente
A venda de refil começou com o Sr. N. Hoje e hoje, 2005, estamos com 20 anos de experiência. Acho fantástico. Acredito que tudo tinha que ter refil para reciclar ao máximo. Eu reciclo até calçado, só jogo fora quando não dá mais. Na hora da venda nós falamos do refil, mas é uma cultura longe de ser plenamente estabelecida. O grande apelo para o cliente que opta pelo produto que tem refil é o econômico. Ele não percebe as diversas economias que faz quando compra um produto que tem refil: que vai agredir menos a natureza, que vai obrigar a indústria a extrair menos material e que pode ter uma embalagem mais simples. De qualquer forma, é uma maneira de mostrar que o refil é uma coisa legal. A Natura tem um avanço incrível nessa área de embalagens. Eu participei de um treinamento recente, a fim de desenvolver um trabalho para a Natura no São Paulo Fashion Week, e me lembro bem: a empresa usa hoje um material chamado reciclato. São as aparas que sobram quando cortam o papel do tamanho que precisam. É papel virgem, só que não tem utilidade porque vira sobra. E as sacolinhas da Natura usam 70% desse reciclato, misturado com 25% de papel reciclado. Toda a concepção da empresa tem esse ideal do meio ambiente auto-sustentável. É fantástica, está bem à frente. Quando você mostra que é parceiro de uma empresa legal, isso ajuda nas vendas. E a Natura pensa em coisas que daqui a pouco serão muito importantes. Ela nos ensina como multiplicar uma informação muito significante: não temos mais lugar para guardar lixo no mundo. Então, se cada um fizer um pouquinho, teremos um futuro melhor para nossos filhos, sobrinhos, amigos, para todo mundo. Ser honesto com o cliente e levar esse conhecimento a eles é muito bacana. Acredito que, quando se compra um produto Natura e se sabe o que a empresa faz, o consumidor deveria ficar feliz. Você compra um produto mais barato, de uma empresa concorrente, não desmerecendo, mas sabemos que ela não tem uma prática ambiental tão consistente: Como ela trata a água dela, e a comunidade local? Como ela dispensa o ar naquela fábrica? Como produz as embalagens? Tudo bem, o produto sai mais barato para você, mas e para o todo? Então, essa preocupação eu não preciso ter, porque a Natura já faz isso por mim. Nós visitamos suas fábricas e ela tem uma prática ambiental muito correta. Há transparência absoluta para qualquer pessoa que queira conhecer e sentir a nossa fábrica e ver como isso funciona. Conhecer os mecanismos que ela emprega, é fantástico. Eu sou apaixonado. Eu amo a linha Ekos. E não é amar só para uso e nem só para vender, mas é por saber do bem-estar que eles geram para várias pessoas. Então, as populações subtraem daquela região, daquele ecossistema de maneira sustentável, o que vai garantir sua renovação sem prejuízo das espécies nativas. E isso também garante uma melhor qualidade de vida para essas pessoas. É o máximo Conhecemos essas comunidades dos vídeos e das entrevistas que são feitas com essas pessoas. Mas tem uma, Iratapuru, que é de onde a Natura traz acho que a Castanha do Brasil, ou Breu Branco, que é um exemplo a ser seguido por muitas empresas. É a venda dos produtos que alimenta esse sistema. Então, é uma cadeia muito bem pensada. Quando eu vendo, garanto a minha subsistência, garanto o meu bem-estar e a permanência desses castanheiros de uma forma digna. Não perco uma oportunidade de contar aos clientes, porque para mim é uma satisfação poder divulgar isso, que amplia o valor do produto de uma maneira incrível. E tem pessoas que gostam de saber, que têm curiosidade. E quando elas conhecem toda essas práticas, elas valorizam muito mais a marca, os produtos e até o nosso atendimento

O valor das lembranças
Preservar o nosso passado é uma coisa que nos ajuda a construir o futuro; só sabemos para onde vamos quando conhecemos de onde viemos. É ter isso claro para mim, de onde vim e como eu era na minha infância, na minha adolescência. Hoje eu já sou um homem, com quase 40 anos. E tudo isso tem um valor para mim, ajudou a formar a pessoa que eu sou. E abordar tudo foi uma experiência muito rica, e eu gostei muito de ter participado dessa entrevista.

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