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História

Grandes lutas, pequenas felicidades

História de: Lydia Tavares Schellenberg
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 13/07/2009

Sinopse

A história que Lydia Tavares Schellenberg contou ao Museu da Pessoa, quando estava prestes a completar 81 anos de idade, em 2008, soou quase como um desabafo. Com sensibilidade e boa memória, ela fez das grandes lutas e pequenas felicidades de sua vida uma narrativa envolvente. Foi assim que ela se recordou da casa simples, com privada fora e trinco de barbante, onde nasceu e passou a infância, em Osasco. Foi assim que ela se lembrou do pai que bebia além da conta, mas por quem nutria especial orgulho, sobretudo por sua luta pela emancipação da cidade. Foi assim que ela falou dos dois casamentos, um deles terminado com a notícia de que o marido mantinha uma segunda família; o outro, com a morte do companheiro em sua própria cama. Com a alegria de quem já passou pelo pior, Lydia traça um interessante retrato de seu cotidiano como mulher, em meados do século XX.

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História completa

Vou dar o nome de solteira, né? Era Lydia Dorigon Tavares, data de nascimento: 21 de agosto de 1927. Nasci em Osasco, na Rua Primitiva Vianco, só não me lembro o número. Eu sempre morei ali, mesmo depois de mais grandinha eu morei ali. Ela era arborizada, fechada mesmo, tinha o Clube Floresta, depois tinha uma chácara, uma chácara muito grande. E do outro lado era só mato.

Entrávamos em casa assim: o trinco, não tinha trinco, era um barbantinho. Tinha uma sala assoalhada. A minha mãe sempre foi muito caprichosa. Então, tinha a sala, depois tinha uma cozinha com fogão a lenha. Tinha o quarto dos meus pais e tinha o quarto meu e da minha irmã, e minha mãe dividia para fazer o quarto. Tinha um quintal muito bom, aquele tempo era tijolo, todo atijolado. A privada, porque não tinha banheiro, era fora. Depois que o papai fez uma espécie de um barracão, pôs um chuveiro para a gente. A água era de poço, a gente tinha que puxar água de poço no fundo do quintal sempre. Mas bem muradinho, uma casinha boa, casa de aluguel.

Tinha o Clube Atlético Floresta. Então tinha baile, tinha as matinês dançantes com vitrola, e a gente se distraía ali. E na rua, não sei agora como é que chama, tinha o Cine Collino. Era um cinema, mas que, quando chovia, você tinha que levantar os pés ou tinha que abrir guarda-chuva, aquele cinema bem antigo. E uma vez por mês vinha uma orquestra de São Roque, aí tinha o baile à noite. Aí a gente se preparava toda bonita, tudo para ir no baile, ver os rapazes de São Paulo, para dançar ali. O Floresta era muito conhecido. Eu fui criada assim.

Comecei a trabalhar com 13 anos. Eu tirei documento falso e comecei a trabalhar, porque a gente sempre foi, não digo paupérrimo, mas pobre, né? Precisávamos de ajuda. Trabalhei uns tempos ali. Depois, como o meu pai trabalhava no Frigorífico Wilson, ele me levou para lá e a gente trabalhava na seção de embalagem. Embrulhava mortadela, embrulhava salame, essas coisas. Aí trabalhei ali até conhecer o meu marido. Mas os meus pais não queriam o casamento, eles lutaram, lutaram, não queriam de jeito nenhum.

E eu vivi bem com ele dois anos só. Depois ele começou a fazer coisa errada. Sumiu a primeira vez, e eu já tinha um menino. Aí voltou. Como eu gostava dele, perdoei. Comprou o caminhão, comprou uma carga de batata, e eu o ajudei a sair da vila, de madrugada. Sumiu. Passado um mês, eu recebi um telegrama. Nunca me esqueço, que tinha quebrado a coroa e o pinhão do caminhão. Eu estava grávida de quatro meses. Quando ele voltou, meu filho já tinha um ano. Voltou para casa, aí sabe como é, a gente gosta, né? Voltou. Ele começou a trabalhar no Clube Ação Cascadura, aqui na Lapa. Nós não tínhamos telefone, atendia telefone na fábrica. Eles vieram chamar, e ele falou: “Olha, Dona Lydia, tem uma senhora aqui com uma criança que diz que é a mulher do teu marido.” E, quando eu falei que ele era casado e tinha três filhos, ela desmaiou. Então, ele foi para o Rio de Janeiro, em Campos, casou com ela. Casou com ela mesmo, e ela veio com a menina em casa. Até eu dei roupa do meu filho para agasalhar ela. Aí não teve mais condição de viver com um homem assim.

Comecei a levar uma vida de solteira, só que com as rédeas, que a mamãe não deixava sair. Fiz amizade com umas vizinhas, podia ir ao cinema com elas, que a mamãe não deixava de jeito nenhum eu sair. Aí se passaram oito anos e eu já trabalhava no Frigorífico Wilson. Um colega ia se formar e me convidou para ir na formatura dele. Eu e mais duas primas. Nós fomos. E lá que eu conheci o segundo marido. Na Casa de Portugal, no baile. Eu sempre gostei muito de dançar, muito mesmo. Ali conheci, e ele me levou em casa e nunca mais me abandonou.

O papai amava Osasco. Osasco era tudo para ele. Aí, começaram a lutar, se uniram umas pessoas lá e começaram a lutar para fazer a emancipação de Osasco. A primeira eles perderam. Lutaram para fazer a segunda. Tinha muita indústria, tinha Frigorífico Wilson, tinha a Ervi, o Cotonifício Beltramo, tinha a Eternit, tinha um monte de firmas, e o dinheiro ia tudo para São Paulo. E Osasco não tinha melhoria nenhuma. É uma questão de Osasco querer se emancipar, assim como todos. Cotia é emancipada, Vargem Grande é emancipada. Osasco, naquela época, era muito difícil ter uma vida própria. E nós conseguimos. Uma luta ou um mal feito ou bem feito, nós conseguimos. Vai em Osasco agora. O Leandro me levou para passear em Osasco, e eu falei: “Pelo amor de Deus, se me soltar aqui em Osasco, eu vou me perder”, de tão bonito que está, de tão bem aproveitado. Fizeram boas estradas, uma coisa louca. Eu amo Osasco.

Meu segundo marido achava que mulher dele não tinha que trabalhar fora. Aí ele me tirou do emprego. Quando a Valéria, que é minha filha, estava com uns 14, 15 anos, eu com a mãe da Kátia, abriu o concurso de caixa no Pão de Açúcar. “Vamos, Lydia?” “Vamos.” Passamos as duas. Eu e ela trabalhamos ali uns tempos. Ele gostou porque entrava mais dinheiro, eu trabalhava no supermercado, levava coisas boas para a casa. Aí ele me deixou trabalhar.

Eu morei 20 anos no Rio de Janeiro. Fiquei 20 anos lá chorando que eu queria vir embora. Não deu certo. Aí eu voltei com o meu marido, que era muito bom. Andou fazendo as pilantragens dele, desculpe a expressão, mas o que todo homem faz. Nós éramos muito amigos, muito ligados. Tanto que eu sinto uma falta enorme dele. Vinte anos sozinhos lá no Rio. Os filhos iam visitar muito, né? Depois viemos para cá e nós fomos morar lá no Tijuco. Ele falou: “Ai, eu não saio do Tijuco de jeito nenhum.” É uma maravilha morar ali. Vargem Grande Paulista, ar puro, diz que é o melhor ar do Brasil. Ar puro, Cotia.

Alugamos a nossa casinha, os dois aposentados. Meio apertadinho. Aí tinha o carrinho, nós tínhamos um Gol. Alugamos um apartamentinho assim, mas não tinha garagem para o carro. Ele morria de ciúmes do carro. Aí ele arrumou uma outra casa, que eu chamava de buraco, porque eram os fundos de uma casa boa, lá nos fundos, mas tinha garagem para o carro. Mais 13 dias só, e ele morreu. Eu acordei às duas e meia da manhã e falei para ele: “Fernando...” Chamava Nanando. “Dá um pouco de coberta para mim?” Ele fez assim com o corpo para ajeitar a coberta para mim. Às oito e meia da manhã, eu acordei, e ele estava esticado nos pés da cama, um braço caído, outro assim, todo urinado. Meu filho chamou o resgate, mas não tinha mais nada o que fazer. Fizeram a autópsia dele e disseram que o coração dele estava enorme e não sabiam como ele estava vivendo. Mas eu sinto muita, muita falta. Agora eu estou com 11 netos, nove bisnetos, e vou levando.

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