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Guiado por Nossa Senhora

História de: Albano Fuso
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 24/08/2018

Sinopse

Descendente de uma família italiana que veio morar em São Paulo, no Brás, Albano Fuso contra sobre sua infância, as festas e como ele se tornou um tecelão, profissão que herdou de seu pai. Apaixonado por música e pelo rádio, desde novo já realizava bailinhos em casa com a presença da vizinhança e foi em um destes bailinhos que conheceu a sua esposa. Através do seu gosto pelo rádio ele conheceu diversos artistas da música brasileira. Sua outra paixão é o cinema, que quando novo engraxava sapatos para poder ir aos domingos. Albano fala ainda sobre as festas que aconteciam no dia 1º de maio, onde se realizava a procissão de Nossa Senhora, e do seu desejo em relação à maioridade penal.

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História completa

P/1 – Bom dia, seu Albano. 

 

R – Bom dia.

P/1 – Para começar eu queria que o senhor dissesse o seu nome completo, local e data de nascimento.

R – Eu me chamo Albano Fuso. Nasci no dia 29 de setembro de 1928 na Rua Doutor Almeida Lima, no Brás, perto das oficinas da Central do Brasil.

 

P/1 – Muito bem. E o senhor sabe o nome dos seus avós?

R – Meus avós eu não sei, não.

P/1 – Nem os paternos, maternos...

R – Não. Não lembro o nome deles porque já faz tanto tempo, eles partiram há tanto tempo. Não ficou gravado na minha memória.

P/1 – O senhor não os conheceu?

R – Conheci, conheci meu avô, minha avó por parte da minha mãe. Por parte do meu pai, não.

P/1 – Eles eram italianos?

R – Eram italianos também, mas já faleceram faz tanto tempo que eu não guardei o nome deles.

P/1 – Os pais do senhor, qual o nome deles?

R – Meu pai chamava-se Gervásio Fuso. A minha mãe chamava-se Teresa (Pili?) Fuso. A minha mãe, infelizmente, Deus a levou muito cedo.

P/1 – Seu Albano, qual a origem dos pais do senhor?

R – Eles eram italianos. Nasceram em Veneza e vieram depois para o Brasil. Mas isso eu não sei determinar porque entre todos os meus irmãos, eu sou o caçula. O que eu sei dizer foi por intermédio deles. Da minha parte eu quase não lembro, nem da minha mãe. Eu lembro muito pouco.

P/1 – O senhor não sabe nem o motivo pelo qual eles vieram para o Brasil?

R – Não sei, não. Para dizer a verdade eu ouvi um rumor que o meu pai e minha mãe se gostaram. E como naquela época em que os pais é que mandavam, "tem que casar com fulano ou com cicrano, não sei o que", meu pai e minha mãe fugiram.

P/1 – E em que lugar eles vieram morar aqui no Brasil? Vieram logo para o Brás?

R – Não sei te dizer, porque não chegou ao meu conhecimento. Eu só sei que parece que todos os meus irmãos nasceram aqui em São Paulo, ninguém é do interior.

P/1 – Quantos irmãos o senhor tem?

R – Seis irmãos. No momento somos só dois, porque os outros já estão lá com nosso senhor Jesus Cristo.

P/1 – E o pai do senhor fazia o quê?

R – Meu pai, isso eu lembro, era tecelão. Eu ia levar almoço para ele e, enquanto ele almoçava, eu ficava mexendo na máquina de tear. Eu fui pegando aquele gosto pela tecelagem e foi indo e eu me tornei um tecelão também.

P/1 – Ele trabalhava numa indústria?

R – Trabalhava numa indústria na Rua Santa Clara, no Pari. E a firma parece que chamava Albino e Fonte, se não me falha a memória.

P/1 – E que lembranças o senhor tem do seu pai em casa? Havia tradições italianas em casa?

R – Do meu pai não havia tradições italianas pelo seguinte: como minha mãe faleceu muito cedo, ela tinha 34 anos, de uma doença chamada úlcera no estômago, meu pai ficou viúvo jovem, então ele batalhou bastante. Meu pai era um homem trabalhador e não faltava nada em casa, tinha de tudo, mas faltava quem fizesse. Com cinco anos mais ou menos, eu fiquei com meu outro irmão, minha outra irmã, a irmã que não enxerga. Esta estava até no colégio, para aprender a ler e escrever no Instituto Padre Chico, onde ela aprendeu ler e escrever e tinha uma inteligência fora do sério.

P/1 – Então vamos agora lembrar um pouquinho da época da infância no Brás. Que lembranças o senhor tem do bairro, como era a rua que o senhor morava? Conta para gente.

R – Eu não queria voltar no passado. A lembrança que eu tenho do Brás é o seguinte: a gente morava numa casa muito grande, eram seis casas iguais. Na frente tinha um quarto, depois tinha um outro quarto, uma sala, a cozinha, um corredor, no corredor tinha mais três quartos e o quintal onde tinha um tanque e um quintalzinho onde eu gostava de reinar, plantar, criar galinha. Eu fazia isso lá, eu vivi ali no Brás praticamente 25 anos, sempre no mesmo lugar. Eu nasci ali, lá eu vivi. Depois da partida da minha mãe, a gente ficou sozinho, eu e meus irmãos, a gente tinha medo de entrar na casa e, sabe o que fazia? A gente dormia num corredor que tinha na sala e quando meu pai chegava, às 11 horas da noite, ele pegava aqueles dois pedações de gelo e punha na cama. E assim a gente foi levando a vida, uma vizinhança muito boa, muito boa mesmo. Todos nos acudiam, até que um dia meu pai se engraçou com uma outra pessoa já conhecida e acabou casando. Eu então já estava com quase nove anos, mas naquela época, quando falava assim: “vai ter madrasta, ai meu Deus do céu, a madrasta da Branca de Neve, que horror!”, aquilo punha a gente num estado de desespero, mas não foi isso que aconteceu, ao contrário, a pessoa que se casou com meu pai se tornou a nossa segunda mãe. Ela, (Estiver?), era o nome dela. (choro) E depois ela também partiu e aí começou novamente a luta. A luta começou, só que a minha irmã já tinha saído do colégio. Ela foi boa, ela cuidou de nós, nos pôs no colégio, no grupo e ficou ali. Ela nos criou como se fossemos filhos dela. Ela já tinha filho, tinha tudo, o filho veio morar junto, ela era uma portuguesinha muito trabalhadora, dona Piedade, que Deus tenha a sua alma, onde aprendendo a fazer comida, a lavar roupa, cuidar da casa e passou essa tarefa para nós, porque a nossa madrasta, não madrasta, eu não quero falar esse nome (choro), a dona Piedade, ela ensinou tudo isso para nós e a gente guardou. E se hoje eu já sou um senhor de 75 anos, eu sei fazer tudo, eu devo a ela. E a gente foi tocando a vida, tocando a vida e, depois, quando eu tinha mais ou menos entre dezesseis, dezessete anos, como a casa era grande, a gente pedia para o meu pai, isso é uma recordação que ficou de bom daquela Almeida Lima, ele deixava a gente fazer um bailinho na casa. Então eu já ganhava alguma coisa, eu comprei uma vitrola, naquela época eram 78 rotações e o pessoal se reunia e dizia assim: “As mulheres trazem os comes e os homens vão entrar com a bebida”. A nossa festa começava umas oito horas, quando era meia noite aí parava, armava-se uma mesa na sala, os meus irmãos iam buscar a bebida e quando eles voltavam, nós tínhamos um banquete porque cada pessoa que vinha trazia uma coisa diferente. Então era um come-bebe à vontade. Quando chegava mais ou menos uma hora da manhã começava o baile de novo e ia até às seis horas da manhã, porque o pessoal gostava, até a própria vizinhança vinha na minha casa para assistir o baile. Havia muito respeito, havia uma sinceridade. E quantos casamentos não saíram de lá, porque vinha e acabaram namorando e se casando. E eu...

P/1 – Seu Albano, que tipo de música se tocava nesses bailes?

R – Para dizer a verdade, todo tipo de música, mas principalmente música brasileira. Era samba, bolero, valsa, tudo, tudo que estava ali, porque o pessoal me dava os discos e a gente punha. A gente fazia esse baile ali que era uma coisa muito bonita, isso ficou de recordação de bom da Almeida Lima. Até que quando eu completei 25 anos, mais ou menos, eu conheci uma pessoa e acabei casando.

P/1 – Vamos voltar um pouquinho, só para saber um pouco das brincadeiras do passado, na infância. Do que o senhor brincava, seu Albano?

R – Eu brincava de jogar bola, amarelinha, caracol, pular corda. Na época de São João soltava balão, bebia quentão, comia pinhão, porque tudo isso o pessoal fazia na rua. Podia pôr as cadeiras na rua e cada um trazia uma coisa, a gente comia ali, conversava, não havia nada de maldade, não tinha perigo de assalto, nem de roubo nem de nada. E quero dizer uma outra coisa: eu conheci a família, brinquei até com a Isaura Garcia, a família deles morava ali na Rua 21 de Abril. A Isaura era uma menina que depois quando foi lá pra Record, o pai dela pôs um rádio na janela e nós ficamos ouvindo. E quando ela acabava de cantar, o pessoal gritava: "Já ganhou, já ganhou, já ganhou!". E ela acabou ganhando mesmo. Até que ela se tornou a nossa Isaurinha Garcia do Brás. Isso também é outra boa coisa que eu guardo de lembrança.

P/1 – O senhor já era um apaixonado pelo rádio naquele tempo?

R – Acho que desde que eu nasci eu já era apaixonado pelo rádio. Porque eu ia na Rádio Cultura na Avenida São João, era a Rádio Cultura; eu ia na Rádio Tupi Difusora, era no Sumaré; eu ia na Rádio Piratininga, me parece que era lá na Praça... ; eu ia na Rádio Record, era na (direta?) com ______ alguma coisa e era uma coisinha pequena. Porque eu sempre gostei da música brasileira. Eu conheci Francisco Alves, Orlando Silva, Sílvio Caldas, o Trio de Ouro, que é a minha paixão. Eu conheci vários artistas, porque uma vez no Largo da Concórdia, agora é o Largo da Barraca, houve uma festa no Theatro Colombo que a Coca-Cola ia patrocinar, era gratuita a entrada. Passaram todos os artistas que foram convidados e acabei conhecendo todos. O Orlando Silva que recebeu o nome do cantor da multidão, porque ele veio cantar no Teatro, no Minas Gerais, e o Largo da Concórdia era só cabeça de gente, porque o resto não tinha mais lugar para ninguém. Foi onde recebeu o nome de cantor da multidão, porque a multidão que tinha ali para ver ele cantar era inacreditável. E também uma coisa triste que ficou: eu assisti o último show do Francisco Alves, no Largo da Concórdia, sem saber que no dia seguinte ele ia morrer.

P/1 – Era um local de apresentações dos músicos?

R – Era praticamente o Largo da Concórdia, tinha um cinema e um salão de festas Minas Gerais. Eles armavam um palanque no Largo e o povo ia lá cantar. Porque naquela época o cantor só era conhecido pela rádio e na rádio quase não se via, não tinha televisão, não tinha nada. Então quando algum cantor ia se apresentar, já viu né, era uma multidão. E quando era Orlando Silva era uma multidão, tinha até em cima das árvores.

P/1 – Voltando ainda um pouquinho lá para o Brás, na infância do senhor já era um bairro comercial?

R – Era. O Brás já era um bairro comercial, porque perto da casa onde eu morava com meus irmãos tinha do lado as oficinas da Central do Brasil e lá se faziam as máquinas, os vagões, do lado de cá da rua tinha o Leite Paulista. Então já era um bairro... Dali mais para frente tinha lojinhas e tinha hotel, todas essas coisas. O pessoal que vinha e descia na estação do Brás se acomodava mais próximo do hotel, vinha fazer compras na [Rua] Maria Marcolina, na 25 [de março], e era o ponto mais prático para eles.

P/1 – E a vizinhança do senhor também era de origem europeia, a maioria era italiana? Como é que era?

R – Praticamente, acho que a minha vizinhança também era de origem europeia. Tinha lá uma família que também era de fora, eram seis casas iguais e cada casa morava uma família. Então eu recordo, mais ou menos, que na primeira casa morava a família do seu Valdemar Martins. Na outra morava a família do pessoal da dona (Ozonia Pazito?), também essa foi muito boa para mim (choro). Depois eram outras casas que virou uma pensão. A casa que eu morava e mais uma outra família que também deviam ser, mais não sei mais ou menos. E tinha a venda do seu Vitor, também eram italianos. Era venda, antigamente a gente comprava tudo ali e eu lembro que era um tustão, um tremendo de um tustão desse tamanhão, eu ia lá falar para ele: "Seu Pascoal, me vende um tustão de bala?". E ele ia e enchia um pacote deste tamanho.

P/1 – E tinha festas ali no bairro? Festas populares? Como era, seu Albano?

R – Festa popular no bairro não tinha. Na época de São João no quintal do seu Vitor, ele tem um quintal grande, eles faziam fogueira e assavam batata, pinhão, todas as coisas da época e nos convidavam para ir comer lá, mas na rua essas coisas quase não tinham. A única festa que tinha muito popular é essa que eu pretendo contar mais para frente.

P/1 – Ah, o senhor quer contar depois.

R – É, se você quiser, conto.

P/1 – Não. Então vamos falar da época da escola e depois a gente vai para essa festa. O senhor entrou na escola com quantos anos, seu Albano?

R – Eu entrei na escola praticamente com oito para nove anos.

R – Que lembranças o senhor tem dessa escola? Como se chamava?

P/1 – A escola que eu entrei parece que chamava-se Rocca Dordall. Ficava na rua, agora esqueci o nome, no Brás mesmo. Era muito boa, ensinou muito bem. Tive umas professoras muito boas e aprendi o que eu pude. Por causa de falta de dinheiro, meu pai lutava para vida, a gente não pôde estudar mais. Antes de tirar o diploma eu já trabalhava numa fabriquinha de fundo de quintal, eu fazia caixãozinho para vender fruta na feira e dava para ganhar um tustãozinho. E cheguei a ser engraxate, fui engraxate, fiz uma casinha de engraxar sapato e engraxava sapato para poder ir ao cinema.

P/1 – E onde era o ponto que o senhor ficava?

R – Ficava na porta da minha casa e engraxava o sapato e tinha quase uns pares de freguês que ficavam todos prontos, mandava os sapatos sem o pé, eu ia ao cinema. Naquela época tinha o (Berdão?), o Babilônia, o Colombo, o Piratininga e tinha outro lá. A gente, o Roque, a gente ia ao cinema porque passava aquelas fitas de seriado: “Próximo domingo”. A gente, no próximo domingo, ia lá assistir. Até que...

P/1 – O que o senhor mais gostava de ver nessa época?

R – O Tarzan. Ah, quando tinha o filme do Tarzan, nós estávamos todos lá. Como nós gostávamos de assistir o filme do Tarzan! Tarzan, o Zorro. Nossa, o filme do Zorro, ______ é assim que fala o nome? Se não for também ______. (risos) Um filme que ficou muito na minha lembrança foi aquele “Por Quem os Sinos Dobram”, com a Ingrid Bergman. Um outro também que ficou muito na minha lembrança foi um que Fred Astaire sapateava, “Marujos do Amor”. Pena que não passa mais esses filmes, só passa agora coisa de guerra, de guerra, de guerra! Eu queria que voltasse a passar “Escola de Sereia”, mas...

P/1 – O senhor estava contando da época de adolescência que tinha os bailes na casa do senhor.

R – É. Depois que a minha madrasta morreu e também a Dona Piedade, a gente combinava, tinha uma sala grande na minha casa e uma vitrola, eu falava com o meu pai, a gente pedia e ele dizia assim: "Não saindo briga, muito bem. Se sair briga, acabou, nunca mais". A gente combinava, convidava as moças e dizia "você convida quem você quiser, só que cada uma traz uma coisa. Não todas iguais!". Porque se não todas iam trazer pastel. Uma trazia empada, outra trazia um sanduíche, cada uma trazia uma coisinha de bom, diferente. E quando chegava no dia, cada uma ia entrando e pondo tudo num lugarzinho. Quando era de noite, meu irmão pegava o chapéu e ia com os rapazes, a gente mais ou menos calculava quantos rapazes iam vir na festa e a gente encomendava a bebida. Era guaraná, refrigerante, tudo. A turma dava o dinheiro e eles iam buscar a bebida. Enquanto eles iam buscar a bebida, as moças arrumavam a mesa na sala e quando chegávamos nós tínhamos um banquete. Que coisa gostosa!

P/1 – Como é que as pessoas se vestiam nessa época, seu Albano?

R – As pessoas nessa época se vestiam simples e moderada, mais ou menos com as roupas abaixo do joelho. Aquela que punha acima do joelho já era, oh, pic-pic-pic, falada! Não tinha esse negócio não, era abaixo do joelho. Havia um respeito muito grande na minha época, meu Deus do céu. Que coisa gostosa! Não se ouvia falar em roubo, não se ouvia falar em assassinato, não se ouvia falar em "fulano fugiu com a moça, fez não sei o que, era...", não! Não tinha nada disso. Quando acontecia era raro, era raro acontecer isso. Do contrário, a moça casava praticamente virgem.

P/1 – O senhor começou a namorar nessa época de adolescência?

R – Eu comecei a namorar nessa época. Namorei uma moça, não deu certo. Aí depois, namorei uma outra moça. Aí a gente foi se entrosando melhor, se entrosando melhor, até que um dia a gente falou: "Como é? Vamos sair dessa, vamos casar?". E em 1954 eu resolvi casar. No ano que vem, se tudo correr bem, eu vou fazer cinquenta anos de casado.

P/1 – O que o senhor lembra do casamento? Teve festa, casamento na Igreja?

R – Hum! Posso ir falando?

P/1 – Só um minutinho.

R – Já passou o tempo?

P/1 – Rapidinho, pode ser?

 

(PAUSA)

P/1 – Seu Albano, o senhor ia contar sobre o casamento do senhor.

R – É. Meu casamento, naquela época, eu era mariano e a minha futura esposa, era filha de Maria. Só que eu morava num bairro e ela morava em outro. Eu pertencia à paróquia de Senhor Bom Jesus do Brás e ela pertencia à paróquia de Aricanduva lá de São Pedro. Quando chegou o dia do nosso casamento, é assim: quando é uma filha de Maria que vai casar, são convidadas quase todas as filhas de Maria para fazer a fila na Igreja para depois a noiva entrar. No meu casamento, a minha irmã tinha um senhor que praticamente acabou sendo meu padrinho de crisma, seu (Jeso?). Ele tocava violino e dizia: "Eu quero fazer questão de tocar violino no seu casamento". Tinha outro senhor que tocava órgão, ele também não enxergava. Quando chegou na semana, ele foi ensaiar e a madre que ia tocar com ele falou: "Faça um favor, o senhor arruma outra pessoa que eu não vou aguentar o seu violino. Isso mexe com o coração da gente". Quando chegou o dia do meu casamento, entraram os marianos. Eu com a minha fita dos marianos (choro). Depois entraram as moças cantando e por último minha noiva, que na época era minha noiva, com meu padrinho de casamento que era meu cunhado, veio ser meu cunhado. A minha irmã que era minha madrinha e aquele violino, aquela fileira de moças brancas e minha noiva estavam muito bonitas (choro). A minha mulher hoje, mas ela estava muito bonita, o vestido dela era muito bonito (choro). A minha cerimônia começou às seis horas. Como eu já frequentava a Igreja, o padre não teve problema nenhum de demora, acabou quase sete horas. Ele falou, falou, falou, falou, falou, falou, falou, falou tanto! Depois que acabamos de casar, minha patroa foi... Hoje minha patroa, minha noiva, foi no altar que tinha de Nossa Senhora e lá foi tirada a fita da filha de Maria, porque dali pra frente ela passaria a ser já uma senhora, porque ela já estava... Não tinha quem não chorou (choro) emocionado pelo violino e o casamento muito bonito. Quando nós saímos, as filhas de Maria estavam todas já na porta e nós subimos no carro e elas com o véu acenando tchau, tchau, tchau, tchau! E depois foram para nossa festinha. Teve um bolinho... 

P/1 – Ah, a festa onde que foi? Foi em casa?

R – Foi na casa de meus sogros, teve uma mesinha, todos comeram, beberam à vontade e depois nós fomos para lua-de-mel. Sabe aonde? Na minha casa! (risos)

P/1 – Vocês foram morar onde depois de casados?

R – Quando eu casei, fui morar na Vila Aricanduva, na Avenida Ibiúna. Um cunhado meu que tinha um terreno falou: "Um dia quando você for casar, eu vou construir um cômodo e cozinha para você aqui". Eu ajudei muito nesse cômodo e cozinha e ele construiu. Nós fomos morar lá. Comecei a minha casa com um quarto, uma cozinha e um banheirinho junto. E, graças a Deus, estamos lutando.

P/1 – Sobre aquela festa, seu Albano, eu queria que o senhor contasse melhor, essa festa o senhor participava quando ainda era solteiro?

R – Participava. Essa festa que eu quero tanto falar, eu participava pelo seguinte: a festa era no dia primeiro de maio, o dia do trabalhador, nas oficinas da Central do Brasil. Porque lá nas oficinas tinha uma capelinha e foi trazida de Aparecida do Norte uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, que ela é a padroeira dos ferroviários. No dia primeiro de maio, antes, os operários iam ao pátio da Central do Brasil das oficinas, tinha um altar e era convidado o povo para vir, porque às 10 horas da manhã o padre vinha celebrar a missa. A imagem de Nossa Senhora que ficava na capelinha, ninguém via ela durante o ano todinho quase, ela era colocada no altar. O povo vinha assistir à missa, mas era bastante gente, vou dizer, era bastante gente mesmo. O padre vinha, rezava a missa e eu e a minha irmã ficávamos em jejum para poder comungar. Depois da missa, quem quisesse conhecer as oficinas, ia conhecer as oficinas. E quem não quisesse ia para casa. Eu, como já conhecia quase tudo, ia para minha casa, porque na janela da porta da minha casa eu fazia um altarzinho. Às três horas da tarde, saía uma procissão das oficinas. A imagem de Nossa Senhora Aparecida era levada para casa da pessoa que naquele ano se prontificava a enfeitar o andor. Quando era mais ou menos duas e meia, por aí, começava a chegar os andores com os outros santos que iam participar da procissão e às três horas da tarde saía a procissão com a imagem de Nossa Senhora. Praticamente, parece que era até um santo, São Benedito ia sempre na frente, falavam que era pra não chover (risos), para não estragar a procissão. (risos) Saía a procissão. E a procissão corria as ruas do bairro e quase todas as ruas que ela ia passar o povo jogava flores, enfeitava as janelas, acendiam vela. E a procissão, conforme ela ia passando, o povo ia se aglomerando, se ajuntando e no final, quando eram cinco horas, cinco e pouco da tarde, a procissão já estava regressando de novo. E cada andor que passava, o povo estava todo aglomerado perto das oficinas, cada andor que passava, o povo aplaudia os santos, mas quando começava a se aproximar o andor que estava a imagem de Nossa Senhora Aparecida, aí (choro) o povo começava a aplaudir e dar viva a Nossa Senhora de Aparecida (choro): "Viva a Nossa Senhora, palma para Nossa Senhora!". (choro) E os fogos subindo e a banda tocando forte que nem sei, as máquinas no pátio apitando, apitando, todos saudando a Virgem Maria. No fim eu chorava naquele momento, é só isso. (choro).

P/1 – A iniciativa de fazer um altar na janela partiu de quem da casa do senhor?

R – A iniciativa de fazer um altar na janela partiu de mim mesmo, porque eu ganhei uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, a minha é de barro, quando eu fiz 21 anos. Eu sou muito devoto de Nossa Senhora (choro) e fazia o altar. Cada ano eu fazia de um modo diferente. Quando acabava a procissão o povo que vinha todo regressando de volta parava no meu altarzinho e fazia prece, altas, em conjunto. Cada um parava, fazia a sua prece, fazia o seu pedido. Eu acho que até minha pequena imagem, que eu ainda tenho na minha casa, fazia acontecer um milagre (choro), mas...

P/1 – O senhor participou durante muitos anos dessa...

R – Participei. Quase todos os anos eu participava, até que eu casei. Todos os anos, porque eu ia à missa e na procissão participava, como eu também ia ajudar nas oficinas, no altar, todas essas coisas. Eu era muito... Era um dia muito festivo no bairro aquele dia primeiro de maio. O povo todo se concentrava ali. Creio que até hoje ainda tem isso, só que agora fizeram uma capela diferente na rua, já modificou muito. Eu quase não tenho ido assistir devido à condução, devido a outras coisas não tenho mais participado.

P/1 – Seu Albano, a gente não falou muito do trabalho, não é? O senhor contou que começou trabalhando ainda criança, fazendo caixas em casa, depois como engraxate. Eu queria que o senhor contasse um pouco sobre essa trajetória profissional.

R – Meu trabalho comecei pequeno, saía da escola e ia trabalhar no fundo de um quintal, fazer caixinha. Depois, eu com catorze anos, fui numa firma e fazia lã de aço. Depois, quando eu passei a namorar a minha esposa, o meu cunhado era tecelão. Ele que me levou para eu praticar bem a tecelagem, foi onde eu aprendi, foi ele que me deu uma mão para eu aprender. Eu aprendi, eu já tinha vontade, eu aprendi muito fácil a ser tecelão e acredito que, não quero me gabar, mas até hoje eu sou, me julgo que eu fui um bom tecelão, porque eu trabalhei em várias firmas e todas as firmas que eu trabalhei, a última então, o patrão gostava tanto do meu serviço que a gente tirava peça do tear e ia lá para cima para ser revistada e as moças olhavam para ver os defeitos e quando elas olhavam na etiqueta e estava lá “Albano”, elas diziam: "Essa daqui pode passar até de olho fechado". Porque a peça estava direitinha, tudo em ordem, não tinha defeito. E trabalhei de tecelão até me aposentar. Me aposentei...

P/1 – A escolha, o senhor disse que foi um cunhado seu que levou o senhor...

R – Foi um cunhado meu quem me ensinou.

P/1 – Mas no fundo, no fundo, tinha um gosto pelo trabalho por causa do pai?

R – Tinha, eu já achava bonito ver aquilo, aquele tear ir para lá, para cá, para lá, para cá, aquela lançadeira prac-prac-prac-prac e largando aquela linha e fazendo o tecido e saindo o tecido. Aquilo eu achava muito bonito e eu tomei gosto daquilo mesmo e me tornei um bom tecelão. Eu era um bom tecelão!

P/1 – E as condições de trabalho na época? Como era isso, seu Albano?

R – As condições de trabalho na época eram boas, está ouvindo seu Lula? Eram muito boas. Em São Paulo chamava-se o São Paulo industrial. Havia firma, fábrica por todos os lados. Então você saía de uma, entrava em outra. Você saía da outra, entrava em outra. Mandavam vir até na porta procurar operário para trabalhar. Depois eu não sei o que aconteceu, começou a sumir Matarazzo, a Santista, a São Paulo (Apagata?), a não sei o que, não sei o que, a não sei e São Paulo hoje não tem firma nenhuma. E é por isso que está essa falta de serviço em São Paulo. Tudo isso que está acontecendo em São Paulo no momento é a falta de serviço.

P/1 – Seu Albano, o senhor tem filhos?

R – Tenho uma filha que está aí do meu lado!

P/1 – E com quantos anos o senhor se aposentou?

R – Me aposentei eu estava mais ou menos com 55 anos, eu acho. Eu me aposentei em 1979.

P/1 – E depois da aposentadoria como é que passou a ser o cotidiano do senhor?

R – Depois da minha aposentadoria ainda fui chamado para trabalhar em outras firmas, outra firma, porque o pessoal gostava, sabia do meu serviço e tudo. Ainda trabalhei numa firma quase um ano. Depois de ser incentivado por essa minha filha, ela viu no jornal uma propaganda de um sítio e ela me levou e a gente acabou comprando o sítio. E eu fiquei no sítio cuidando dele quase dez anos, quer dizer que eu não parei. Aposentei, mas eu não parei, continuei trabalhando e tudo. Cultivei, criei galinha, comi ovo, colhi verdura (risos), engoli, né (Breni?), o quê?

P/1 – Coelho também o senhor tinha lá no seu sítio?

R – Coelho. Quer dizer, tudo que eu fiz eu não me arrependo. Trabalhei, gostei, depois também passou, larguei. E agora estou em casa. Tem uma coisa que eu também quero dizer: onde eu moro tem uma praça que chama Praça Vieira do Couto, no Jardim Vila Formosa, e nessa praça tem um jardim e sou eu quem cuida do jardim. Eu planto, faço os engradadinhos, rego as plantas, podo, não deixo ninguém mexer, acho ruim! (risos) Acho ruim, tenho um ciúme da minha planta! Lá no bairro tem dois Albanos. Eu sou o Albano que cuida do jardim e tem outro senhor que tem uma papelaria, chama seu Albano, é o seu Albano da papelaria.

P/1 – E esse gosto pelo rádio continua ainda hoje, seu Albano?

R – Ah, esse gosto pelo rádio continua até hoje. Como eu gosto de ouvir rádio! Eu dispenso televisão, eu dispenso tudo para ouvir rádio. No momento eu não estou ouvindo muito rádio porque não estou fazendo o servicinho que fazia, eu ouço todas as noites um programa na rádio Cultura que chama Gramofone. É o Márcio (Barque?) que produz, que... E eu já me tornei até amigo desse, eu gostaria tanto de conhecer ele. É por intermédio dele que eu estou aqui. Ele só toca música popular brasileira, mas é música daquele tempo de 1920, 1930, 1940 e 1950. Para mim é a música que, quase todas as músicas que tocam ali mexem com meu coração porque alguma coisinha no meu bailinho era tocado. Depois que acaba o Gramofone, entra esse programa que é Memória do Museu, Memória da Pessoa e aí entra Musicalidade que é também um outro programa produzido pela (Kari?) Amoroso. Toca música de 1900 e tanto, também mexe... Quando dá dez horas eu desligo e vou dormir. (risos)

P/1 – O senhor acha que o brasileiro hoje ouve menos rádio que na sua época?

R – Eu acho, porque no meu tempo não tinha televisão, era tudo rádio. E outra, nem rádio tinha no meu tempo. Era pouco rádio que tinha. Em poucas casas que tinha rádio e eu na minha casa, só apareceu rádio quando a gente já era meio mocinho, quando o meu pai e o meu irmão conseguiram comprar um rádio.

P/1 – O senhor lembra como é que era esse rádio, a marca dele?

R – Olha, a marca eu não sei dizer. Mas ele era um modelo, feito uma capelinha, era o modelo do rádio. E um quadradinho, mais ou menos quadradinho. Era o modelo mais simples, não é que nem agora que tem cada modelo. Nunca que a gente ia pensar que ia andar com radiozinho e ouvindo as coisas. Jamais, era tudo na tomadinha! (risos)

P/1 – Seu Albano, o senhor disse que já viveu tantas coisas, não é? Se você pudesse mudar alguma coisa na sua trajetória, o senhor mudaria?

R – Ah, se eu pudesse mudar alguma coisa nessa trajetória, eu mudaria. Ah, como eu mudaria, meu Deus do céu! Pode falar de política?

P/1 – Pode, à vontade.

R – Ah, eu mudaria, sabe a primeira coisa? Essa lei que está para querer sair, estão combatendo. O menor tem que pagar pelo crime que cometeu, dezesseis anos é pouco até. Tem que abaixar mais porque eu fico horrorizado. Eu nunca pensei que na época de hoje, eu nunca pensei que quando eu chegasse na idade que eu estou meu Brasil estaria tão bonito, não tinha crime, não tinha maldade, não tinha. Eu estou vendo tudo diferente (choro). Não é isso, não? Eu queria mudar, eu queria pedir às pessoas que em vez de ficar pensando em maldade, pense em Jesus, pense em Deus, vá numa Igreja, reze, peça para Deus iluminar, não ficar falando: "Eu vou matar aquele fulano, eu vou mandar matar aquele". No nosso Jardim nós temos uma base policial, nós trabalhamos tanto para ter aquela base lá. Depois que nós conseguimos, deu uma segurança para nós enorme, tem que ver, mas outro dia eu estava conversando com o policial e falei para ele: "Oh, meu amigo, nós vamos mandar derrubar a base". Ele falou: "Por quê?". Eu falei: "Porque isso não está dando mais segurança, está dando insegurança para nós. Estão metralhando todas as bases. O policial em vez de estar aqui, está lá fora com a metralhadora na mão, que coisa horrível!". Ele falou: "É, seu Albano", como eu sou muito amigo dele, ele falou "é, seu Albano, o senhor está vendo que situação a nossa? Se um carro parar suspeito, é bala que vai". Eu falei: "E a bala que erra vai matar um inocente lá, não é?". Ele falou: "Infelizmente". Por isso, senhores deputados, senhores senadores, senhor não sei quem mais que está tudo, mudem essa lei, pelo amor de Deus! Dá um castigo mais severo para o bandido.

P/1 – O senhor gostaria de contar mais alguma coisa que talvez eu não tenha perguntado?

R – Não, eu acho que eu falei demais até! (risos) Eu acho que eu contei tudo, falei demais.

P/1 – E o senhor gostou de dar o depoimento para o Museu Aberto?

R – Adorei dar esse depoimento. Apesar de que eu pensei que era uma coisa totalmente diferente, mas eu gostei! Como eu gostaria que quando meu depoimento saísse, que a pessoa que fosse falar dissesse: “Preste bastante atenção nesse depoimento, vocês vão ver que coisa bonita essa pessoa que está dando depoimento”. E desejo a vocês, à Rádio Cultura tudo de bom, que a Cultura vença, que a Cultura vá para frente e que ela continue sempre tocando música popular brasileira. Isso é a coisa mais bonita porque, para dizer a verdade, eu não sou muito da música estrangeira, não é comigo. (risos)

P/1 – Está certo, muito obrigada seu Albano, a entrevista foi ótima, viu?

R – Não tem de quê.

P/2 – Foi muito legal, obrigada mesmo.

R – Não tem de quê.

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