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História de quem construiu, na educação, a própria história

Sinopse

A história de Vera - Maria Veranir Fonseca - essa potiguar nascida no que chamava “interiorzinho”, está inteira e salutarmente impregnada pelo saber, pela educação como vocação, compromisso e missão. De interior em interior, chegou ao que considera o seu lugar - a Serra do Mel. De lá, só saiu justamente em busca de mais estudo. E para lá voltou para se dedicar ao ensino. Então sua vida tomou novos rumos - o do casamento, da maternidade e até de uma certa acomodação - para, em determinado momento, retomar a senda do crescimento, da inovação, da qualificação no plano educacional por meio do Telecurso. Considera essa experiência a mais marcante em sua vida, colocando no mesmo barco todos os que estavam em busca do conhecer, do aprender. E, de fato, fez a diferença: na sua vida profissional; dentro de sala de aula; na experiência com métodos avançados, plurais; no desafio de planejar e implementar didáticas e práticas educacionais inovadoras. Vera tem orgulho das pessoas que influenciou a almejar mais, buscar mais e adquirir mais conhecimentos. Como uma estudante que, do desânimo com o estudo, chegou ao magistério. Identifica no Telecurso o motor de toda essa transformação, reunindo competências e experiências num programa interdisciplinar, em que todos os envolvidos se disponham às novas formas de se apropriar dos conteúdos e compartilhá-los. Vera, hoje formalmente afastada da sala de aula, não hesita em considerar possível que volte a contribuir, caso a educação volte a acender como no tempo em que o Telecurso distribuía raios luminosos de ensino e aprendizagem.

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História completa

Sou de Carnaubais, Rio Grande do Norte, onde nasci aos 17 de junho de 1962. Filha de gente simples, os primeiros anos de minha vida eu os vivi no interior - aliás, eu chamo de “interiorzinho”, que me parece mais apropriado pelo pouco povoamento e pelo modo de vida caracteristicamente rural. Enfrentávamos também a escassez na oferta de educação, que foi assim o foco de minha infância; sem dúvida, de toda a minha vida. E isso muito por conta de meu pai, um guerreiro que desejava dar à sua descendência as melhores possibilidades para as suas conquistas. Tive assim, desde pequena, o gosto pelo saber e o privilégio da educação.

 

As primeiras lembranças do meu aprender são do então chamado grupo escolar da época em que vivemos no município de Porto Mangue. De muito valor na minha vida, mas que só ia até a quarta série. Isso foi determinante para que o pai-guerreiro nos levasse - a mim e meus irmãos - para um lugar maior; na verdade, o meu referencial, o meu lugar até hoje: Serra do Mel. Lá eu cheguei com dezoito anos. Lá eu acompanhei a transformação de uma cidade que tinha então só dez anos. Lá eu construí toda a minha trajetória na educação. Lá eu vivi como filha e irmã; depois, como esposa e mãe. É praticamente de lá que eu extraio a história que tenho para contar, pontilhada de dificuldades mas também de conquistas e realizações, expectativas e confirmações.

 

Quando eu cheguei à Serra, o que viria a ser uma cidade - minha Serra, minha cidade de referência - era um projeto de colonização com o objetivo de acolher os que tinham perdido suas ocupações na salina. Havia cerca de mil famílias e uma estrutura incipiente, por exemplo, na área de educação: um grupo para cada vila e um ensino médio que não acontecia por falta de professor. Então, o mais provável é que a pessoa desse o seu jeito de ir para uma cidade vizinha, como eu fiz. Fiquei um ano em Mossoró e voltei. Voltei como estudante ainda e como professora da pré-escola. E aí se iniciou a minha caminhada.

 

Ocorre que na vida existe, também, o momento certo. E aquele que eu vivia não parecia ser o meu. Não se mostrava compatível com o gosto que eu tinha pelo estudo, com o desejo de ser - “Eu quero ser”, dizia sempre -  com a ânsia pelo saber. Por quê? Porque, naquele momento, não segui em frente, meio que deixei o estudo de lado - casei, tive filhos, exerci o magistério, mas não olhei para além da Serra, como se aquela vidinha, e principalmente o ensino médio e a minha formação, fossem o ponto de chegada. Mas aí, lá na Serra, chegou o tempo de acontecer na educação a oportunidade de alcançar o futuro.

 

 

(...) meu referencial maior, lá na Serra do Mel, foi o Telecurso. Eu estudei tanto que, quando eu fiz o vestibular, eu passei.

 

O Telecurso, sem dúvida, acrescentou muito, individual e profissionalmente, inclusive a mim. Não posso dizer que não estivesse me esforçando para dar àquelas crianças, meus estudantes, uma boa educação. Eu tinha compromisso, formação e dedicação. Mas, a bem da verdade, havia uma mesmice naquilo tudo. E o Telecurso chegou inovador. A começar pela reorganização das séries: primeira fase, quinta e sexta séries; segunda fase, sétima e oitava séries. E pela oferta do ensino médio, até então dependente de ter professor e transporte. Em sala de aula, uma nova dinâmica, uma nova metodologia de ensino. Estávamos bem acostumados com o giz e a lousa, ambos tradicionais, e de repente chegam o vídeo, a TV, a mídia, a participação, o movimento. Tudo isso fez diferença no interesse pelo curso, as aulas em vídeo traziam um novo ânimo ao processo de aprendizagem.

 

O Telecurso tem aquela forma de juntar todo mundo em torno do mesmo objetivo, que era o aprendizado.

 

O Telecurso veio resolver a grande defasagem que havia, na Serra do Mel, entre a idade dos estudantes em relação aos anos de escolaridade - jovens com dezesseis, vinte anos ainda na quinta série. Isso era reflexo da ausência de oportunidade, de estrutura e, principalmente, de estímulo, já que os anos posteriores de ensino - o denominado ensino médio - pareciam destinados apenas aos com boa situação financeira, posto que teriam que ser cursados em cidades vizinhas. Embora eu tenha cursado o meu sem ter essas condições. Assim, o Telecurso veio resgatar o quadro de desigualdade e injustiça na área da educação, como veio motivar os profissionais, até então restritos ao ensino fundamental, a aceitar o desafio de serem pioneiros na expansão do universo educacional do município. Eu, por exemplo, me sentia pronta e disposta a ser parte desse desafio. Nem todos se sentiram confiantes ou capacitados, mas os que aderiram o fizeram com garra, cientes de que seria em benefício de todos. Por exemplo, com o avanço até à oitava série, o estudante só teria que se deslocar de sua vila para estudar, no caso do ensino médio, que, finalmente, tinha lugar na chamada Vila Centro. E quanto a nós, professores, vencer o desafio significou qualificação. Passamos a ser professores interdisciplinares, trabalhando com tudo ao mesmo tempo, fazendo uma inter-relação de disciplinas.

 

Deu-se, então, o inesperado: o Telecurso tirou o grande atraso que havia, o Telecurso qualificou o corpo docente, o Telecurso expandiu a oferta - da quarta série para a oitava, e mais o ensino médio.

 

“A semente foi plantada, nasceu, agora (...) precisa (...) podar, regar”.

 

Um outro aspecto que eu sempre enfatizo quando lembro dos anos em que a luz do Telecurso iluminou o cenário educacional da Serra do Mel, diz respeito à possibilidade que eu e tantos outros colegas tivemos, quando estávamos no período universitário, de juntar os saberes que aprendíamos com os formadores do projeto com os dos professores da faculdade e ainda partilhar esses saberes como professora.

 

Eu gostaria que as minhas palavras finais fossem no sentido de, primeiro, relembrar a frase de meu pai: “Quem estudou está aí, quem não estudou fica aí vendo a história dos outros”. E, em seguida, destacar que o que de mais marcante eu vi e vivi nessa experiência do Telecurso é que era todo mundo junto, no mesmo barco, o barco do conhecimento. E o professor não era dono do saber, ele ensinava e aprendia junto com os estudantes; na verdade, ali se construía uma espécie de educação coletiva, em que um não estava interessado em saber mais do que o outro, mas em que todos aprendessem. Uma troca entre professores, e entre esses e os estudantes. Todo mundo num barco só. Seguramente conduzido e seguindo em frente.

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