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História de Vânia Velloso Pereira Neto

História de: Vânia Velloso Pereira Neto
Autor:
Publicado em: 16/10/2015

História completa

IDENTIFICAÇÃO



Meu nome é Vânia Velloso Pereira Neto. Eu sou aquariana, nasci em 28 de janeiro de 1956, no Rio de Janeiro, em Botafogo.

FAMÍLIA



Origem da família
O meu pai é de São João Evangelista, interior de Minas, e a minha mãe é de Viçosa, também Minas Gerais. A minha descendência é essa mistura brasileira, que é super legal. O meu pai, eu acho, tem sangue Krenak, porque ele era uma pessoa de pele bem vermelha, de cabelos lisos, muito pretos. Ele tinha uma coloração engraçada, porque quando ele pegava sol ficava aquele vinho, que é uma cor característica indígena. A mamãe vem de descendência portuguesa, espanhola e inglesa, que são os Velloso. Os Velloso são os cristãos-novos, que eram os judeus fugidos, que adotavam esses nomes: Pereira, Coelho, Velloso... tudo isso vem de origem judaica. A outra área da linhagem da minha mãe vem dos Gosling, que são criadores de gansos no sul da Inglaterra. Então, vejam: tem índio, português, espanhol e inglês.

O encontro dos pais
A minha mãe estava até contando outro dia o primeiro encontro deles, como foi que ele se apaixonou por ela. Ela acha uma gracinha, porque ficou como, digamos, uma história de família, que ele primeiramente se apaixonou por ela, e depois ela se apaixonou por ele. Ele foi apresentado como primo de um outro cara, que estava namorando a minha tia, e quando ele chegou lá, ele olhou para a minha mãe, que tinha acabado de voltar de uma ópera no Municipal. Minha mãe trabalhava recebendo, inclusive, os judeus foragidos de guerra, que eram recebidos na Ilha das Flores. Ela trabalhou sete anos, fala muitas línguas. Mas ela estava voltando dessa ópera, com esse pessoal, e com a minha avó, e ela adorou a ópera. Aí, ela começou a contar e a falar da ópera. A família dos meus avós era, e é, muito musical. Meu avô tocava um monte de coisa, era músico e tudo também. Mas aí, minha mãe pegou a cortina que dividia o ambiente, se enrolou na cortina, e meio que fez uma pequena encenação do espírito da ópera! Meu pai falou que se apaixonou perdidamente por ela com essa encenação do espírito da ópera, enrolada na cortina. É uma memória super legal, saber que você nasceu de uma coisa boa e bem construída. Meu pai era, e minha mãe são pessoas muito interessantes, inteligentes e divertidas. Uma característica de ambas as famílias é o bom humor. Só os ingleses é que são meio mal humorados, mas são engraçadíssimos porque são muito loucos, muito perturbados, e bem diferentes.

DNA Cultural
O meu avô Moacir, pai da minha mãe, era desembargador. Foi juiz. Ele tocava violino, flauta, bandolim, e fez questão que as quatro filhas, e o filho... o filho não seguiu muito bem não, mas as quatro filhas tocaram piano. E minhas tias também, as primas. Então, todo mundo foi para o conservatório, tinha aula de música em casa, e tiveram uma educação muito sofisticada e clássica, por conta dessa questão da advocacia, do meu avô ter sido juiz, desembargador. Meu avô era uma pessoa extremamente preocupada com cultura, com conhecimento, essa coisa já está impressa no DNA da família, graças a Deus! Porque a gente sente que tem uma coisa ligada ao gosto do saber, que é uma coisa que permeia as gerações. Além da coisa da música, porque tinha saraus maravilhosos na casa, todo mundo tocava, cantava, aquela coisa toda. A casa era sempre uma casa de referência no Leblon, na Cupertino Durão, 127. Ela vivia aberta! "Na casa do Doutor Moacir Velloso vai ter sarau, vai ter festa!" E ia todo mundo. Eles tinham muitos contatos, porque o Rio de Janeiro era minúsculo naquela época, Ipanema era quase um areal, Leblon idem. Então, as pessoas todas se conheciam, e as famílias todas tinham uma relação muito intensa. Se você era de classe média, e já mais cosmopolita... Quer dizer, todas estudaram no Colégio São Paulo, colégio de freira, onde tinha uma formação clássica. As pessoas faziam essa coisa de teatro em casa, escreviam peças, representavam para a família. Isso é uma coisa que eu vivi muito! Nós mesmas fazíamos peças, pequenininhas, para as tias e a mãe. E tinha toda uma entourage de tias e parentes ajudando na produção. Esse lado da cultura era muito valorizado, sempre foi valorizado. E isso acho que era o viés do meu avô. Meu pai não, ele era um Krenák com português, uma pessoa terra. Às vezes, eu me lembro dele igual à Ana Terra, do Érico Veríssimo. Aquela coisa toda da dimensão do vento, do tempo. Ele era muito terra, muito raiz. E a minha mãe era uma pessoa extremamente fina e sofisticada, e o grande barato é juntar água e óleo e dar certo. Esse é o grande barato da vida.

Atividade do pai e CVRD
Meu pai era engenheiro. Ele foi engenheiro de vários lugares, construiu estradas, pontes, foi do DNER, trabalhou na irrigação do São Francisco, no Nordeste. E aí ele entrou na Vale em não sei quando. Mil novecentos e muitos. Foi na época do Dermeval Pimenta. Ele começou a construção da Estrada de Ferro Vitória a Minas, como engenheiro calculista das pontes, viadutos e obras de arte da Vitória a Minas. Toda a definição de cálculo estrutural da estrada! E trabalhou lá. Como ele tinha essa história "terra", trabalhar nessa empresa que estava nascendo, e que era uma empresa terra, de minério, daquela dificuldade de um ambiente super inóspito, ele tirou isso muito bem. Eu acho que isso tinha tudo a ver com ele. Para ele, as dificuldades do lombo de burro, coisas assim, não eram tão difíceis, porque faziam parte de uma história de vida, de uma pessoa que morava em um lugar incomunicável, e que ia estudar não sei quantos quilômetros no lombo de um burro para chegar no tal do grupo. Ou ia no grupo de carona no carro de leite, com aquele carro de duas rodas, de burro, que levava aquelas latas de leite antigas, e os garotos iam atrás de carona para chegar na escola. Ele mostrou isso para a gente depois de mais idoso. A gente voltando no tempo, na cidade dele, e vendo como era a vida daquela época. E a cidade mudou pouco. Então, quer dizer, eu acho que o barato é essa coisa da mistura, da minha mãe, que é uma mulher sofisticadíssima, uma mulher que fala línguas, uma pessoa super culta, e o meu pai, que é essa pessoa raiz.

Quando os meus pais se casaram, foram para Vitória. Foi aí que meu pai saiu do DNER, ou dessa coisa do São Francisco. Aí foi trabalhar na ferrovia. Eles foram morar primeiro em Vitória, depois Governador Valadares.

A irmã e o caixote
Minha irmã nasceu em Governador Valadares. E minha mãe se orgulha muito de dizer que ela nasceu num caixote que fizeram lá na oficina, de última hora, e que todo mundo forrou o caixote. Fizeram aquela coisa com rendinha, não sei o quê, e levaram aquele berço, caixote, preparado para ela, que ela achou super afetuoso da parte das pessoas. E a Claudia nasceu num caixote. E, por exemplo, no dia que a Claudia foi nascer, parece que acabou a luz na cidade, aí o cara do hospital mandou ligar o gerador porque a filha do Carlos Neto ia nascer. Eles tinham uma relação muito chegada com os empregados e com a cidade. E ela foi morar lá. Vocês podem imaginar o que era morar em Governador Valadares em 1952? A gente não tem a dimensão. Era uma cidade de faroeste. É como se você tivesse indo para Marabá, não agora, mas Marabá nos anos de 1980. Ou talvez pior, porque já tinha muito mais comunicação em Marabá em 1980 do que tinha em Governador Valadares, se você falar do ponto de vista da tecnologia, em telefone, não sei o quê. Era quase tudo em código morse, o nível de comunicação, a dificuldade de ligação, de tudo.

INFÂNCIA



Cupertino Durão
Eu nasci na rua Cupertino Durão, porque nessa rua morava um monte de gente da família Velloso ou Gosling. Era um monte de tios e primos, todos um ao lado dos outros, aquele monte de casinhas, ou então prédios pequenos. E o prédio que eu moro, ali na Cupertino Durão com Ataulfo de Paiva. Não existia o Álvaro que era no outro lado da rua. Inclusive, o Álvaro era muito amigo do meu pai, que virou Manolo, e depois foi o primeiro botequim do Álvaro. Ali tinha uma padaria famosíssima, desses portugueses que instalam a primeira grande padaria de centro de bairro, como o pessoal chamava. Depois tinha um barbeiro, que até hoje tem, em frente ao Colégio Santo Agostinho, que é o mesmo barbeiro, existe há uns 50 anos. A "velharada" da família cortou o cabelo até morrer com o mesmo cara também, aquela coisa de tradição. E depois vem o meu prédio, que é um prédio que tem hoje, e que era branco com a janelinha azul. E eu me lembro muito de eu sentada da janela, porque era primeiro andar, a rês do chão, e a gente conversando com as pessoas. Eu com uma babá, ou com alguém, ou com a minha irmã, chupando sorvete. A rua tinha essa vivência de rua familiar. E todo mundo na rua se conhecia também, as casas eram abertas. Você entrava e saía de uma casa com a maior facilidade. E a praia do Pinto era no final da rua.

Brincadeiras
Os meninos da praia do Pinto jogavam bola com meus primos, os três, que eram endiabrados, tinham a maior relação com a turma da praia do Pinto, que era todo mundo louco por futebol. E naquela brincadeira do garrafão, que você entra dentro do garrafão e leva pancada. As meninas eram obrigadas a brincar para apanhar dos meninos, inclusive os moleques da favela.

A brincadeira do garrafão é uma brincadeira de pique. É assim: você desenha um garrafão na rua e tem uma prenda para pagar. Aí, quando você entra no garrafão, tem que saltar com um pé, o tempo todo correndo só num pé. E provocando o outro. O que está fora só pode te provocar se entrar dentro do garrafão. Os medrosos ficavam entrando ou saindo toda hora do garrafão e os corajosos ficavam. E aí você no garrafão tem que derrubar alguém, mas num pé só. Eu me lembro muito disso. E a gente entrava no garrafão, a gente apanhava para caramba dos moleques. E tinha que entrar, para poder fazer parte do grupo. Não tem jeito. É a vida. Ser mulher no meio de um monte de primos homens é realmente uma vivência.

As casas e as babás
Essa casa era uma gracinha, tinha um linóleo verde, com um desenho que parecia uns peixes, e para mim aquilo era o mar. E que dava direto na cozinha. A Maria, uma babá que a gente tinha, e a Francisca, elas faziam uma das coisas mais delicadas da minha infância, que eu lembro, são as toalhas de papel em renda que elas faziam cortando com tesoura. Elas dobravam, dobravam o papel. Igual a gente faz cirandinha. Só que elas faziam aquilo com milhões de desenhos, com milhões de flores, e quando você abria tinha as toalhinhas de renda para brincar de boneca, feitas em papel, em jornal. Era uma loucura! Essas lembranças são lembranças interessantes, que ficam. E a gente morava super bem. Dali a gente foi para a Visconde de Pirajá, para o prédio 666, redondo, de esquina. E depois nós fomos, quando eu tinha 12 anos, para a General Osório, e morei na General Osório até sair de casa. Minha mãe mora lá até hoje.

Passeios
Eu acho que era bem dividido. Eu acho que os dois foram pessoas muito presentes. Eu tive uma vivência muito legal, de um pai super presente e participativo. Meu pai levava a gente para o Parque da Cidade todo fim de semana, Jardim Botânico, Parque Lage, viajava com a gente sempre que tinha oportunidade, com um monte de gente. Às vezes ele alugava uma Kombi para poder dar todo mundo. A gente tinha um Sinca, aqueles Sincas bonitões. Tivemos um Aero Wylli's e um Sinca. O Wylli's era branco de couro vermelho. Muito chique. Um Sinca azul e branco com o couro bege. E ele tinha uma Kombi que ele descolava para levar a molecada toda, os primos todos, para Itaipava, porque nós passamos a nossa infância, de férias, num lugar chamado Santa Mônica, que é na Estrada das Arcas, em Itaipava. E ali, esse Santa Mônica, foi fundado pelo marido da irmã da minha avó, mãe da minha mãe. Então, o tio Jorge fundou praticamente esse local. E, com alguns amigos, eles construíram e levaram duas grandes famílias, todo mundo para lá. Aquilo ali, virou, igual a Cupertino Durão, um centro de lazer, de cavalo, de charrete, de jogar jogos, e depois fundaram um clube, construíram quadra de tênis, essa coisa toda, nessa Santa Mônica, que é uma referência de infância também muito importante. E, na questão da autoridade, os dois realmente foram pessoas bem presentes. Óbvio que tinha uma supremacia feminina, por conta que minha mãe parou de trabalhar e ficava mais em casa. Meu pai viajava muito, trabalhava fora. Mas era uma pessoa extremamente carinhosa e presente. Essa coisa de pai ausente eu não sei o que significa. Porque eu acho que é uma vivência da minha geração. Tenho muitas amigas que têm muito mais vivência de mãe do que de pai. Ele não. E ele é uma pessoa extremamente divertida. Ele era uma festa, muito engraçado. Tinha sempre uma piada, tinha sempre uma coisa legal. E ele sempre elogiava as pessoas. Era uma coisa muito interessante.

A Vale na infância
Eu me lembro do prédio antigo, antes de ser esse prédio reformado, onde a gente trabalhava. O prédio da Vale era na Presidente Wilson, não era ali na Graça Aranha. É onde ficava a Vale antiga, ali na Presidente Wilson, acho que do lado do Tribunal Eleitoral, um prédio de fachada preta. Eu me lembro eu indo lá, de vez em quando, muito raramente. Vinha, às vezes, para ir ao médico, não sei o quê, porque a gente tinha médicos no centro da cidade. Então, às vezes, a gente passava no escritório do meu pai. Eu me lembro dos amigos em casa, que minha mãe sempre foi uma pessoa muito receptiva, sempre gostou muito de receber, de dar jantares maravilhosos, não sei o quê. E tinha muita festa, muito encontro, e eu me lembro muito dos amigos, todos, sem exceção, daquela geração. Alguns ainda estão vivos. Eles tinham uma relação muito chegada com a gente, porque a gente conhecia todo mundo. Eles criaram um espírito de família muito grande. Isso porque estavam em cidades diferentes das suas de origem, e as pessoas tinham que vencer a diversidade do local, do ambiente, a saudade, então criava-se uma ligação muito forte. Elas, as mulheres, e os homens, se tornaram muito amigos, muito próximos. Era uma turma. Eu me lembro também viajando na Estrada Vitória a Minas, pequenininha, no trem; foi a primeira viagem de trem que eu fiz. Trem foi sempre uma coisa que eu adorei. Tinha trem para tudo que é lado, trem até no sonho.

EDUCAÇÃO



Colégio de freiras
Tive que estudar em colégio de freira. Foi no Notre Dame, em Ipanema, na Barão da Torre. Foi lá que eu fui alfabetizada, educada. Tinha que fazer aquelas coisas todas, comungar toda quinta-feira ou sexta, fazer confissão. Uma loucura! Cem Ave Marias, 200 Padre Nosso, não sei quantas Salve Rainhas. A gente ficava horas. As meninas dentro da igreja, contando se a gente tinha cumprido tudo, a freira vigiando aquele monte de menina adolescente. E os pecados não eram tão complicados assim para os padres mandarem tanta Ave Maria e tanto Padre Nosso! Eu me lembro, tinha umas meninas levadas, que era assim: 500 Ave Marias, 500 Padre Nosso.

Eu não era das mais levadas. Eu me lembro, coitada, a Dora e Maria Luíza, elas sofriam, porque os pecados delas eram considerados pelas freiras, horríveis. E cumpriam! Elas eram levadas, mas não eram mentirosas. Então, se mandasse rezar as 500 Ave Marias, elas rezavam. Vocês podem imaginar aquelas freiras?

Na minha turma tinha uma freira que dava Religião, que chamava-se Irmã Lucinda. Obviamente, a gente não esquece dessas figuras quase mitológicas que passam na vida da gente. Ela deve ter descido de algum lugar especial ou veio do inferno, eu não sei! Alguma coisa especial essa mulher, porque ela era uma loucura. Ela dizia para a gente, aos 11, 12 anos de idade, que nós tínhamos um véu preto transparente na cara e que nós éramos impuras. Todas. Nós não sabíamos o que era aquilo, o tal do véu preto transparente. E a gente ficava: "Mas irmã, como é que pode ser preto e transparente?" A gente queria lógica na freira. E a freira era completamente enlouquecida. Ela tinha uma transa de poder. O exercício do poder nesses colégios de freiras era uma coisa muito louca. São pessoas que resolvem casar com Jesus Cristo, deve dar um problema... Mas é uma escolha, a gente tem que respeitar a escolha. Só que elas ficam um pouco frustradas dentro da clausura. E aí elas descarregam esse exercício do poder, da autoridade, em cima das meninas.

Um colégio só de mulheres, vocês imaginem! Todas adolescentes, aquele monte de hormônios brotando, aquelas freiras enlouquecidas querendo controlar e formatar a gente. Tinha uma coisa louca na escola que é muito divertida: ela pegava um sino, não sei como ela conseguia pegar aquele sino, ela levantava o sino e, no que ela levantava, a gente tinha que parar como estava. Se alguém filmasse isso naquela época, era um teatro de Augusto Boal. Ficava todo mundo parado, na posição que estava. A gente chegava para ela e discutia: "Mas irmã, se a bola estiver no ar, como a gente vai resolver..." Coitada da irmã. Ela queria que parasse. Vocês conhecem a brincadeira "Stop!", das crianças? Estátua? Era assim, tinha que ficar parado! Aí a gente fazia umas caras bem tenebrosas, e passavam umas outras freiras checando se você não estava se mexendo. Uma loucura! Tem que rir. Isso era procedimento operacional no colégio de freira. Vejam que na Vale do Rio Doce dá para gerenciar depois que você passou por isso.

Minha irmã aprontava muito, ela e uma amiga. A amiga foi expulsa e ela foi suspensa "n" vezes. Não chegou a ser expulsa. Mas nós fizemos planos de incêndio na clausura, planos de roubar roupas íntimas das freiras. Sabem aqueles planos do Cebolinha e da Mônica? Aqueles planos infindáveis. E o legal era a discussão do plano: "Como a gente vai trabalhar?" Muita mulher junta não dá certo, tinha que ter o masculino. E não podia, porque elas não permitiam. Então, a gente fazia essas coisa para tornar o lugar um pouco mais tranqüilo de se viver.

Elas davam aula e tinha também professoras mulheres. Só tinha um professor homem, que era um major, que ensinava a gente a marchar para o 7 de setembro. Marchava de uniforme de gala, com gravata de seda, boina. Todo mundo marchando! "Tem que marchar, menina!" Era uma loucura. E ele era o único que entrava lá, com a fita, e ele vinha. É uma estrutura militar, elas são super iguais aos militares.

Tínhamos aula de Português, Inglês, da parte de humanas, mas não Filosofia, porque elas morriam de medo dessas coisas, então elas discutiam pouco. A gente até tinha aula de Latim, que terminou dois anos depois. Minha irmã pegou o Francês, o Inglês, a gente tinha aula de artes, desenho, bordado, uma porção de coisas. E música. A aula de música era uma zona, a coitada da freira não conseguia coordenar aquele bando! Ela dava os instrumentos para todo mundo e aí ficava aquela coisa dentro do ambiente. E ela tentando fazer a gente ler música, ter um certo ritmo. Quando a gente gostava de cantar, ela chamava a gente para o coral. Aí eu entrei no coral da escola.

Participação no coral
Coral de igreja! Cantava aquelas "Hosanas" todas, porque era uma forma de você não fazer parte das aulas de Religião, que eram chatas, e ia para o coral, que era mais divertido. A gente cantava "Vitória", cantava "Hosana nas alturas", cantava "Treze de Maio"... Eu não posso ver uma procissão que eu começo a cantar e vou atrás. Eu vou cantar: "Vitória, o reinarás. Ó, Cruz, o salvarás. Andando pelo mundo, Cristo é nosso Senhor. E és o solo fecundo de amor e paz, ó Cruz." Aí tinham quatro vozes. É, bem católico, essa coisa.

Festa do Divino eu sei todas as músicas. E vou atrás. E vou mesmo, acho o maior barato! A hora que se está lá dentro, fica no inconsciente coletivo. Adoro um Círio de Nazaré, adoro Festa do Divino em Parati, acho o máximo. É essa coisa interiorizada. Mas você consegue dimensionar essa coisa de religião e fé dentro de você, quando você tem uma educação muito repressora e muito boba do ponto de vista de um conteúdo melhor, do que significa fé para você, do que significa uma espiritualidade. Elas não tinham possibilidade de fazer isso, ainda mais naquela época, 1960, depois anos 70, era tudo muito medroso.

Andrews
Graças a Deus saí do Notre Dame na quarta série. Fiz os jardins todos, depois saí no primeiro científico, fui para o Andrews, que era um colégio misto. No Andrews tinha uns caras muito interessantes. E era um colégio muito legal, muito mais liberal, podia fumar, eu podia ir com qualquer roupa.

Tinha professores variados, maravilhosos. Eu tinha uma professora de Química que chamava-se Maria da "Prenha"! Ela engravidava todo ano! Era Maria da Penha, ela era da UFRJ, uma Química super famosa. Ela tinha sete filhos, adotou dois da irmã, e ainda adotou mais um fora. Não é uma pessoa maravilhosa? E ela dava aula de Química no Andrews, no Santo Inácio, no Santo Agostinho, na UFRJ, em tudo. E fazia mil apostilas, mil trabalhos, era uma referência em Química no Rio de Janeiro. Essa mulher só chamava a gente de "Assombração". Ela entrava aos berros na sala, tinha um metro e meio, super magra, entrava aos berros: "Assombração! Nós vamos hoje conhecer tudo sobre benzeno." Era assim, teatral, e muito legal! Até hoje eu me lembro, a gente tinha um medo dela, que achava a aula dela tão terrível, ninguém passava, ficava todo mundo de segunda época.

Tinha um que era alcoólatra, o Sabino, e ele chegava na maior ressaca. De óculos escuro, tentando dar uma aula, a gente falava: "O cara está doidão!" Tinha muito "doidão" na escola. Acho que o Rio de Janeiro naquela época era uma loucura. Rolava solto.

ADOLESCÊNCIA



Primeiro namorado
Acho que foi aos 12 anos, chamava-se "Amarelo", mas o nome dele era Roberto. Ele era um loirinho, super simpático, depois ficou muito meu amigo. Até já faleceu, morreu quando o Cristiano nasceu. E foi ótimo, foi o primeiro beijo, primeiro namorado. Ele foi me encontrar em Itaipava para me dar meu primeiro beijo, aquelas coisas!

Festas, namoricos e capoeira
A gente tinha muita festinha. Eu ia muito ao Campestre, Monte Líbano, essas sabadeiras e domingueiras. Tinha umas boatezinhas, tocava um conjunto chamado "Analfabeatles", que tocava música dos Beatles. Eles tocavam música dos Beatles e era um show, uma banda super legal. Tocava altos rocks! O rock daquela época era ótimo. Tinha uma turma enorme, o pessoal da escola. Eu andava muito na Cinco de Julho, porque tinha muita gente do Notre Dame na Cinco de Julho que eu me relacionava. Foi onde eu conheci esse meu segundo namorado. Segundo não é verdade, ele foi, acho, que o terceiro ou quarto. Mas ele foi mais namorado. E aí tinha a turma da Gávea. O Roberto, o meu primeiro namorado, e muito amigo, era do grupo Senzala. Os irmãos dele fundaram o grupo Senzala de capoeira. Então eu freqüentava as rodas de capoeira, os batismos, sabia tudo. Ele me ensinava não sei o quê, aquela coisa de capoeira. Eu não fazia não, mas eu tinha o maior conhecimento da técnica. E ele fazia, os irmãos todos faziam, eram professores. Aí conheci o Peixinho, o Borracha, gente toda da capoeira também. De vez em quando eu ia para ver toda essa turma. E aí você começa a namorar firme, aí fica mais nessa coisa de namoradinho, com um único namorado.

Carinho familiar
O meu pai sempre perguntava: "O que vocês querem?" Eu falava: "Eu quero viajar." Ele sempre optou pela viagem. Nada desse troço de ficar dando festa, anel de brilhante, a minha mãe que fazia mais questão desse lado. Mas ele sempre deu força. Ela gostava muito de viajar. Ela ficava com medo de soltar a gente. Mas ele sempre liberou. A gente viajou muito sozinhas, minha irmã e eu. A segunda vez que eu fui para a Europa eu fui com ela, sozinha, numa excursão de navio. A gente se divertiu muito com o grupo. Imagina! 16 a 18 anos, dois meses na Europa com um grupo, em excursão. É um show! É uma oportunidade única. Eu acho que eu fui uma pessoa que tive muitas oportunidades. E eles apresentaram todas as possibilidades da gente ser feliz, todas. Foram pais extremamente generosos, não só com a gente como com todos os amigos, com toda a família. Todo mundo que eles pudessem ajudar eles ajudavam. Estavam presentes, não no sentido só financeiro, mas no sentido de uma estrutura emocional legal. Isso eu sentia muito no meu pai, na minha mãe também. É aquela coisa do abraço. O americano tem um termo melhor, que chama o holding, que é você segurar, carregar. E eles tinham isso, o colo. Um colo na medida! Isso para mim é básico. Acho que quem tem isso tem grande chance de ser um bom profissional, de casar bem, de ser uma boa mãe, um bom pai, de ter bons amigos, de se relacionar com o mundo e de entender a diferença. Porque eu acho que a maior dificuldade nessa vida é entender e internalizar, quando você precisa, as diferenças.

EDUCAÇÃO



Eu fiquei na maior dúvida. Eu queria fazer Arqueologia. Eu queria ser Arqueóloga da Geographic Magazine, sabe aquelas coisas? Viajar para o Egito, para a Etiópia... Foi a minha primeira opção, botei no vestibular Arqueologia. Aí depois falei: "Eu não vou ganhar dinheiro nunca, não vou conseguir fazer nada. Eu vou ser o que? Arqueóloga?" Eu adorava essa área da Arqueologia, mas falei: "O que eu faço? Faço Geografia? Geografia Humana?" Adorava Geografia também. Aí eu optei pela Arquitetura, no último momento, nem estudei nada, não estava a fim. Aí fiz. Depois eu fui fazer Antropologia por opção, já mais velha, na Vale. Eu pedi licença uma época, fiquei dois anos indo ao Museu, três vezes na semana, de manhã. Fiz um trabalho, uma monografia, interna mesmo. Mas o contato com os professores, o contato com o mundo da Antropologia, os livros e tudo, é que foi legal. E o contato com o conhecimento. Mas a Vale é uma oportunidade de conhecimento muito grande. Se você quiser se aprofundar, é uma empresa que te dá oportunidade de conhecer "n" áreas do saber. É só você ter essa coisa gostosa, com a curiosidade. Eu acho que tem esse nicho lá. Ela é enorme, ela fala de tudo.

Fui fazer Arquitetura, depois eu fiz uma especialização em Antropologia no Museu Nacional, que acho que foi o grande barato da minha vida. Foi descobrir na Antropologia o valor das culturas, das civilizações, das pessoas. A Arquitetura, realmente, foi uma coisa que eu fui fazendo, mas não levei muito a sério. Eu estudei muito essa parte da Antropologia, comecei a pegar muitos livros e comecei a ler sobre filosofia. E acho que foi o grande barato meu na Vale do Rio Doce, foi poder ter esse outro lado, que não só técnico, não só ligado ao viés da construção, do projeto. Trabalhar com planejamento com essa perspectiva da diversificação de culturas e de sociedades que se apresentam e que existem na vida. E que você tem que lidar com elas de uma forma ou de outra tentando achar os nichos de conexão. Eles podem ser água e óleo, mas nem todas as moléculas dessa água é só água. Tem um pouco de óleo na molécula da água e tem um pouco de água nas do óleo em si. E você tem que achar esses pontos de conexão.

PRIMEIRO TRABALHO



Foi na Funbren. Eu consegui através de um amigo que me apresentou o Superintendente da Funbren, um arquiteto, Maurício Batista. Eu trabalhei lá num programa de parques e jardins. Trabalhei no final de um projeto que era a recuperação da Fazenda São Bernardino, em São Gonçalo. É a Fazenda Columbandê, em Alcântara, uma fazenda super bonita, que depois virou lugar da polícia militar, e estavam acabando com a fazenda. Foi feito um decreto do governador na época, acho que o Negrão de Lima, e se construiu uma área de centro cultural, uma área histórica, e a gente foi fazer o levantamento. Eu trabalhei em três projetos de patrimônio histórico. Um como estagiária, nesses dois, e trabalhei nesse programa de parques e jardins da região metropolitana. Então, tinha que pegar o carro, visitar todos os campos de futebol em fundo de Várzea, todas as pracinhas, todas as possibilidades de praça... A população, ela cria o espaço público! Mesmo que você não dê a oportunidade, mesmo terreno baldio, daqui a pouco eles cercam, botam quatro tênis que sejam, botam um banquinho, limpam a área, e aquilo vira uma praça daquela comunidade. A gente trabalhou dimensionando isso, o que era espontâneo e o que podia ser investido em termos de um programa de parques e jardins na região metropolitana, nessa área de planejamento. Depois eu fui para a Vale, trabalhar no Carajás, que era um projeto super diferente. Aquela coisa nova.

ENTRADA NA CVRD



E aí ele me perguntou, depois que eu me formei: "Você quer trabalhar no Projeto Carajás? Tem uma vaga." Eu fiquei na dúvida, porque eu queria ir para Natal, trabalhar na Prefeitura de Natal. Eu tinha recebido um convite para trabalhar na área de saneamento da Prefeitura de Natal, depois de ter cuidado anos de saneamento, essa parte de implantação de Plano Diretor. Eu tinha trabalhado na Funbren, foi o meu primeiro emprego profissionalmente, na região metropolitana do Rio, e aí eu conheci esse cara de Natal e ele perguntou se eu queria ir. Fiquei na maior dúvida por causa do namorado, família, essa coisa toda. Mas aí eu consegui uma entrevista no Carajás com a Lourdinha, para ser arquiteta júnior. Assim que começou o Projeto Carajás, 1980, em 1981 já entrou a questão ambiental como uma pressão externa em cima do projeto. E aí a gente já continuou tanto na parte do projeto como na parte ambiental.

Eu não tinha o desejo de trabalhar na Vale, pelo fato do meu pai trabalhar lá. Estava com a maior dificuldade, se eu ia para Natal, se eu não ia. Eu queria trabalhar em escritório de arquitetura, eu tinha trabalhado como estagiária, desenhista, em um monte de escritório de arquitetura, desenhando para Brasília, desenhando para Cabo Frio, Búzios, aquelas casas de projetos de arquitetos aqui do Rio. E eu achava que era mais legal entrar nessa área da arquitetura residencial e tudo. Aí meu pai falou: "Olha, o Projeto Carajás é uma coisa super nova..." Meu pai já estava saindo da Vale nessa época, quer dizer, ele já tinha saído. E ele falou: "É super nova, acho que vale a pena você experimentar. Fica lá um tempo. Eles estão precisando de uma arquiteta por um tempo. Para você desenhar e experimentar uma outra dinâmica de emprego." Aí eu fui lá com a Lourdinha e entrei.

CONTRUÇÃO DE CARAJÁS



A seriedade do Projeto
O Projeto Carajás foi uma coisa fascinante. É um super projeto brasileiro. Se você pensar, construir aquilo no meio da Amazônia, em cinco anos! Ver todo o cuidado, e todo o trabalho de pensar tudo que está lá. Foram feitas consultorias minuciosas de tudo: de conforto térmico, de qualidade de saúde, qualidade de educação, de planejamento regional, de como desenhar cidades. Consultaram os melhores arquitetos, os melhores planejadores. Tudo era discutido. Foi um projeto super detalhado e discutido no âmbito da implantação: como implantar? Depois veio a questão ambiental, que ninguém entendia nada dessa área, e tentar fazer com o mínimo de impacto possível. Como era isso? Era uma pressão externa, o dinheiro era do Banco Mundial, mas já tinha essa notícia na Europa e a preocupação de fazer. Então, é muita vivência. Porque aí a gente conheceu grupos de cientistas super renomados, Ab'Saber, Gilberto Velho... Imagine você estar em contato com essa gente toda do saber nacional, dando dicas de como você implantar um projeto tão grande, tão complexo, numa região enorme. Porque, de fato, se estava criando uma nova região. O Projeto Carajás criou uma nova região, que hoje é a região de Carajás. Não tinha essa noção de região ali. Hoje a gente tem a dimensão da seriedade, mas na hora é tanta coisa, você é tão novinha, não tem essa percepção. Hoje você vê o tamanho que foi e o investimento que foi, de gente, de discussão. Muito legal, um super projeto mesmo. Foi uma oportunidade, porque aí eu pude até gostar um pouco mais de arquitetura. Eu desenhava e entrei na área de fazer a Casa de Hóspede, as decorações de Carajás, e aí eu achei uma delícia.

Cenas de Carajás
Eu me emocionei tanto no primeiro dia. A primeira vez que eu fui lá, eu cheguei no N5, e estava tudo construindo. A primeira casa, acho que também estava construindo. E a gente pediu para fazer um deck de madeira, pequenininho, que fosse um décimo daquele que tem hoje na Casa de Hóspede, projetando na floresta. E eu vi o deck, não tinha nem parapeito, então o pessoal botou coisas para a gente não chegar perto, só para ver como estava a construção desse deck. Eu vi aquela floresta do avião também, e eu falei: "Gente, isso é uma loucura. É lindo mesmo, tão diferente, tão..." Era inabitado, estava-se construindo tudo lá. E pouquíssimas pessoas, quer dizer, estava já começando a fervilhar de gente no N5 em termos de construção, mas Parauapebas não existia, existia uma invasão. A gente estava construindo Parauapebas e teve a invasão do pessoal sem terra, que criou o Rio Verde, toda aquela problemática de grupo de terras, de posseiros, e a gente lidando com aquilo tudo. É um impacto muito grande aquela região. A floresta mexe com você, pelo menos comigo sempre mexeu muito. Eu me emociono até hoje! Eu vou a Carajás há 18 anos e adoro, me emociono até hoje. Acho um lugar maravilhoso, uma experiência muito legal. Fiz muitos bons amigos lá.

Nesse deck eu estava junto com o Mozart, que era o Superintendente, e eu olhando, falei: "Não existe!" E ele morando lá... Eu me lembro tanto dessa cena, o deck sendo construído. E eu ia fazer a decoração, para medir a Casa toda. A Casa já estava quase pronta. Faltava, assim, finalizar vidro, não sei o quê lá. O Caio fez o desenho da casa, a gente fez uma finalizada em termos de acabamento, na prancheta, e aí fomos lá para medir a Casa inteira para escolher o mobiliário. A Casa ia ter que receber os clientes, os visitantes vips, e eu fiquei impressionada, estava uma gracinha, uma casa toda bonitinha, toda avarandada em volta, toda cercada de tela. Muito bonitinha a Casa. E foi uma emoção.

Depois, a gente pegou o carro e foi para N1. Eu não conhecia N1 ainda. N1 foi o primeiro lugar onde os americanos colocaram a primeira Casa de Hóspedes, o primeiro ponto de exploração lá. Aí chegamos, cruzamos o campo rupestre inteiro, que era uma coisa muito interessante, de pegar a transição da floresta. E em N1 a gente viu aquela "Casa dos Ingleses", que também era linda, que tinha um deck enorme projetado no abismo. Linda a paisagem! Foi uma coisa apocalíptica. Você via céu de um lado, nuvem, depois você via a chuva chegando do outro, aqueles milhares de cadeias de montanhas que não terminavam, de mata, de floresta, sem fim. Aí, à noite, final da tarde, você escuta o canto do guariba, que é uma emoção na primeira vez. Tem sempre duas araras voando juntas, porque elas estão sempre em pares, então são imagens bem características do lugar. E é a diferença, a diversidade. Em termos de ecossistema, quando você começa a estudar mais isso, ver essa coisa da mata de transição, do campo rupestre. Eu adoro. Eu acho aquilo lá fascinante. As pessoas vêem, acham inóspito, duro, porque o minério brota na terra, super forte. E vermelho. E é quando tem as flores da época, que bate o vento. Quando elas vão para um lado, elas ficam todas da cor do minério, quando elas voltam para o outro, elas ficam todas brancas. É um ballet aquilo lá, o vento batendo na Serra, uma coisa linda. Eu sentava no chão, com a Manoela, pesquisadora florestal, botânica, eu, ela e o Nelson, eu dizia: "Manoela, isso é muito bonito. O vento batendo na Serra, que bárbaro. Olha as flores endêmicas do campo rupestre." São cenas belíssimas. É um ballet. E tem coisas que só têm lá. Não tem em lugar nenhum do mundo, incrível. E quem viu, viu. Essa é que a grande oportunidade.

Consultorias e qualidade de vida
Nós contratamos uma consultoria de clima para ver o clima todo da região. Foi o José Roberto Tarifa, que é um climatólogo da USP, um cara super legal. Ele estudou toda a questão de vento e chuva. E contratamos, na parte urbana, a arquitetura, a consultoria que fez todo um estudo de incidência solar, de conforto ambiental dentro das residências. Fomos fazendo curso sobre conforto ambiental, dado por ele, que foi arquiteto pago pela Vale. Foram muitos arquitetos fazer o curso, para a gente entender. E aí a gente sabia já fazer: como era a incidência do sol, como orientava as casas, o sentido de orientação dos lotes, as paredes cegas nas laterais, ventilação cruzada, tela não sei onde... E incorporamos todas essas questões de conforto ambiental, onde foi gasto muito dinheiro nesses estudos para melhorar a qualidade de vida e de implantação do projeto.

GEAMAM



O pessoal só falava mesmo de preservar, e tinha o conceito de conservar. Ficou naquela coisa de preservação. E a gente, sob orientação de conversas, é que se criou um grupo de estudos de apoio à Presidência, que era o Geamam. Era um grupo de consultores, super especialista, tipo Ab'Saber e companhia, que dava um apoio direto à Presidência. Eles nos orientavam para algumas questões fundamentais. Nós fizemos um mapeamento, que eu tenho até hoje, de todo o desenho da região em termos de clima, de geomorfologia, de movimento dos ventos, todos esses estudos foram feitos para a gente entender como acontecia no plano macro essas questões. Em termos de localização, melhor localização de núcleos e tudo. E até eventuais indústrias na área, conversão térmica, essas coisas todas. Fizemos esse mapa para poder conhecer a região, definir até uma área de influência, como era o comportamento dessa região, levantamento de todas as unidades de saúde, unidades educacionais, qual era o perfil dessas unidades, qual era o atendimento que a população tinha. Fazer toda um definição em cima dos censos, para ver o que você estava encontrando, que população era, e como era a dinâmica daquela região. E na questão ambiental você tinha a idéia seguinte: tem que se criar ilhas, nichos de preservação. Então, a primeira coisa foi desenhar o Carajás. Nós fizemos a área dos 411 mil, de exploração lá nas lavras, nas serras, e no desenho que se tinha das explorações futuras. Se criou aquele conceito que veio da década de 1960, que chamava-se "zona de proteção". Queria-se, no Carajás, evitar o que tinha em Cubatão, que era o pior dos mundos. Ter uma industrialização, uma mina de ferro extremamente agressiva do ponto de vista ambiental e pessoas morando muito próximas, e você não sabendo lidar. Então, criava-se uma zona tampão e fazia um nicho de proteção, até como banco de germoplasma para as futuras gerações. E se criou grandes áreas. Quer dizer, tinha os Xikrin, e a gente fez todo um trabalho de demarcação, desobstrução, tiramos fazendeiros, madeireiros da área, tudo com recurso da Vale, para proteger a área deles, os 439 mil hectares. Tinha os 411 mil hectares da CVRD e tinha em cima o que a gente chamava de reserva de recursos, que hoje é o Salobo. E depois ainda tinha uma outra área que seria uma área de uma estação ecológica, que foi deletada, porque foi invadida e virou hoje a Colônia Jader Barbalho, acima de Parauapebas. Então, esses mapas todos a gente é que produzia, desenhava, e discutia como ia ser. Para criar essa ilha de preservação, uma vez que você tinha uma visão já de devastação total daquela área. O projeto entrou? É óbvio que acelerou. Mas já estava muito devastada a região, e não foi o Projeto Carajás que devastou a região. Ela já era uma região extremamente agredida. Maranhão, o sul do Pará, Marabá. Vem desde a época da castanha, e vem a história de ocupação da região. Estudamos essa história da ocupação, e isso foi uma coisa que eu adorei. Estudei toda a questão de terra, a questão fundiária, a história da ocupação da região, o sentido de região. Porque os rios sempre norte-sul, e de repente uma ferrovia cortando leste-oeste? Você ia mudar a dinâmica das pessoas, as pessoas demoravam muito para andar nos rios, até pelas estradas, para chegar do ponto A ao ponto B. E de repente uma ferrovia super eficaz que funcionava todo ano. Quer dizer, tem o problema de chuvas, o regime de chuvas da Amazônia, que é o que rege a vida daquelas pessoas, e a ferrovia nunca inunda, projetada para nunca parar. E as pessoas a qualquer tempo, há qualquer momento, podiam sair de São Luís e estar em Marabá. Numa eficácia em termos de transporte e tudo. Essa nova ocupação e compreensão desse espaço. E, para o meio ambiente, foi criado isso. A gente sabia que no meio ambiente, quer dizer, para a devastação não ser total, você tinha que trabalhar através das unidades de conservação e das áreas indígenas, que é o que segura. E hoje as áreas indígenas seguram mais do que as unidades de conservação, porque elas são muito mais invadidas, por conta de serem gerenciadas pelo Ibama, e ele não tem nem poder de fogo, nem financeiro, para tomar conta de uma extensão tão grande. E nas áreas indígenas o pessoal não se mete a bobo, porque os índios pegam mesmo, eles seguram a onda. Eles já avisaram, aqueles mais guerreiros, mais velhos. No Xikrin o pessoal não se mete a besta mesmo. Eles entram e seguram as caras. Vão lá atrás. Então, o pessoal da região já: "Aí é terra de índio." Mas tem muita invasão ainda, tem muita pressão sobre a floresta. Aquilo é grana, é um recurso que está ali, todo mundo quer pegar.

RELAÇÕES COM GRUPOS SOCIAIS



Tem sempre pressão de posseiros na área do Parauapebas, principalmente na área sul da Reserva. Ali tem um problema sério de terras e de conflito agrário. E tem uma área ali protegida com madeira, com tudo. O pessoal acha que tem até pouco, não sei se tem muito ou pouco, mas já teve muito garimpeiro dentro da área de Carajás tirando ouro de aluvião. E o pessoal quer entrar. É uma oportunidade, tirar madeira, vender madeira, então tem sempre como complicar. Não é fácil gerenciar o clima de desorganização fundiária da Amazônia, num projeto desse tamanho. Está ali, é real, e tem que fazer! Eu acho que está até anos luz do Estado se organizar para resolver essas questões. E a empresa passa a ter um papel... então, ela chama a Polícia Federal, ela avisa o pessoal da reforma agrária, faz tudo dentro dos conformes, não tem nenhum conflito de morte, de pancadaria, nada. É tudo só para segurar a entrada. E tenta uma ação menos bélica possível, mas é um clima muito complicado. Volta e meia tem todo o movimento do pessoal sem terra para invasão daquela área.

Antes de privatizar, aquilo era uma área da União, era direito real de uso da Vale. Aí nós entramos no Ibama e criamos uma Unidade de Conservação, Floresta Nacional de Carajás. E Floresta Nacional é o tipo da Unidade de Conservação que permite atividade econômica dentro. É uma categoria que permite atividade econômica.

MEIO AMBIENTE



Nós criamos dentro da Vale as Comissões Internas de Meio Ambiente, as Cimas. Cada área operacional da Vale tinha um representante da Cima, e esse representante tinha seus suplentes que faziam o trabalho junto às áreas operacionais. E fazia-se reuniões gerais dos Cimas, das Comissões Internas do Meio Ambiente, para discutir os problemas e tentar passar isso ao nível operacional, que era uma coisa muito difícil dentro da visão da Vale do Rio Doce de tirar só o minério da terra.

Ela não tinha essa vivência da reposição, da recuperação da área, não achava isso importante. Ninguém achava que a água ia ser um problema na década de 1980. Hoje está todo mundo falando e sabe que água potável é o grande problema desse século. É o problema realmente sério, em termos de abastecimento, desse século. E isso não era uma preocupação para o cidadão comum, nem para a gente. Para nós foi um total deslumbramento no início, de você lidar com essas coisas novas que estavam sendo conversadas na Alemanha, Partido Verde, e vem em cima da Amazônia com aquela pressão. E ótimo, porque o que você vê de 1980 para 2000... A gente era chamada de "as borboletas", Kátia, eu, e a Lourdinha. Você pode imaginar dentro da Vale: "Lá vem as borboletas!" E era engraçado, porque eles queriam jogar a gente lá do 20 andar. A gente tinha essa sensação todo dia. "Essa chatas, essas..." Mulher na Vale do Rio Doce, arquiteta, e cuidando do meio ambiente! Não podia ser mais inóspito para um engenheiro típico do CVRD! Então, nós éramos a diferença. Eu acho que a gente criou a diferença. Acho que teve um grupo, e isso é que é legal, de você poder entrar numa empresa dessas, onde você acha que vai ser massacrada. É claro que tem um jeito CVRD de ser, que é muito difícil de você trabalhar, mas que mudou já com o tempo. É o jeito do mineiro, que é um jeito mais desconfiado, que é um jeito daquela coisa de engenheiro de mina. Tem essa coisa da cultura itabirana, que a gente percebe que permeia um pouco o jeito da Vale. Mas mudou, tem a cultura agora de Carajás, tem as pessoas novas, tem PCJ entrando, tem milhares de profissões. Não é mais uma empresa só de engenheiros como era. A gente entrou numa empresa como arquiteta e depois eu fui fazer Antropologia, a outra cuidava de índio, a outra de posseiro, a Lourdinha criando um grupo especial com os cientistas, e dizendo para aqueles engenheiros: "Olha, vocês não podem fazer isso." Eles olhavam, "Isso é um absurdo!". "Vai dar um problemão com o Banco Mundial. Não pode." E o Banco por trás, dando força, porque o quê acontecia? Todas as orientações do Geamam, acho que eles deram mais de 200 orientações, e a maioria, a gente pode dizer que 80%, foram cumpridas dentro da CVRD. E isso é uma vitória do grupo de meio ambiente. Parauapebas, por exemplo, era uma coisa que eles não queriam: "Tem, não tem? Não, deixa nascer espontaneamente...". "Não, tem que criar uma cidade, porque vão ser atraídas pessoas para o projeto." Só que você não pode deixar aquela bagunça acontecer em termos do ordenamento do espaço. Por quê? Porque no futuro você não consegue instalar uma rede de esgoto, de água, eletrificar, ordenar, definir lote. Você tem que minimamente fazer uma tipologia urbana, foi o que a gente fez, para dali, naturalmente a população que vem ocupando, ela acompanha e continua o desenho. Você só dá o início.

Tem que discutir, quer dizer, tem que fazer essa orientação, porque assim é mais fácil implantar água, esgoto, e depois você só puxa as adutoras. Então, hoje você tem uma cidade como Parauapebas, que recebeu duas vezes saneamento básico. A primeira vez foi para as cinco mil pessoas, depois foi entregue para a Prefeitura e a Prefeitura abandonou e o sistema se perdeu. E agora, financiado pelo Banco Mundial, o projeto que eu participei durante nove anos, que está funcionando, você pode viabilizar água porque o desenho da cidade foi baseado naquela tipologia inicial, naquela célula inicial, dos cinco mil lotes. E hoje é uma cidade de 60 mil habitantes, com água e esgoto funcionando, 90% de água e 40% de esgoto, no sul do Pará. Não tem outras cidade igual a Parauapebas em termos de oportunidade de desenvolvimento. Quer dizer, claro que tem problemas. Tem a miséria, tem o desemprego, tem mil problemas, que são problemas de ordem nacional que a gente tem. Agora, tem que ter aquela área protegida, apesar do portão ser ostensivo, aquela coisa ser dura e ter o rio que divide. Até, no futuro, pode ser que abra o núcleo urbano, não sei, tem uma discussão sobre isso, porque é muito caro manter aquele núcleo. Mas tem que ter, porque se você não criar um mecanismo de proteção dos recursos naturais, vão entrar e vão invadir tudo, e você não vai ter banco de nada, você não vai ter nada para as futuras gerações, vão acabar com os mananciais. E ali é o último reduto, é o último nicho, é um milhão de hectares protegidos por uma empresa, é um custo altíssimo. Mas quem tem cacife e condições de fazer isso? Então, do ponto de vista ambiental, muito interessante a experiência do projeto, porque está lá, a gente pensou: "Vamos criar essa área de proteção assim." E eu vi implantando.

PROCEDIMENTO DE TRABALHO



Museu de Carajás
Entrei como Arquiteta Júnior do grupo de trabalho do Projeto Carajás. Ia com a Lourdinha fazer visitas, ver as obras, desenhávamos o acampamento. O primeiro acampamento, o N5, a gente que desenhou. Desenhei o hotel, desenhamos a Prefeitura, a parte de comércio, e fiz o primeiro museu de Carajás, no N5. O projeto era meu, e eu montei o museu inteiro, levantei todos os dados, botei tudo lá dentro. Fiz todos os painéis, pintei todas as paredes. O primeiro museu lá, com a primeira pedra que foi achada de ouro de Serra Pelada. A primeira pepita estava no museu. Acho que ainda tem coisas dele, deve ter coisas guardadas. Depois, ele foi desativado, foi desmobilizado tudo, porque lá era uma área de lavra, o N5, que está sendo aberta agora.

A Casa de Hóspedes
Depois eu fiz a decoração da casinha de hóspedes, a primeira casa de hóspedes de Carajás. Fiz a decoração junto com uma arquiteta, a Leda. Foi ótimo, fizemos uma decoração super legal, bem tropical, escolhemos tudo juntas. Depois, a Casa de Hóspede de Carajás estava pronta, os detalhamentos todos já prontos, o acabamento pronto, e era para contratar uma arquiteta, a Janete Costa, para fazer a decoração. Era a casa para receber clientes, pessoal vip. Mas aí o João de Deus decidiu: "Não, faz aqui dentro mesmo." E o Luciano, que coordenava o projeto de arquitetura, a parte toda de arquitetura do Projeto Carajás, disse assim: "Eu estou sem tempo." Eu falei: "Opa!" E aí eu fiz, e estou fazendo até hoje. Foi uma oportunidade bem legal.

A entrega do projeto da Casa foi uma emoção. Você vê realizado um trabalho. E eles dão muita força, porque eu fiz a primeira vez, gostaram, então não muda o time. Ali é assim. Eu levo um monte de artista plástico, a gente pinta parede, pinta quadro. Tem manutenção todo ano, e volta e meia tem uma coisa lá para fazer. Hoje eu estou comprando um monte de pequenas coisas que faltam. "Ah, faltou não sei o quê do ralo. Tem que trocar não sei o quê lá. Vou pôr um vaso de flor. Latas de lixo mais incrementadas..."

Personal Estilista
Eu faço até o papel de figurinista da Gerente da Casa. Ela vem aqui, eu saio com ela, escolho as roupas que ela vai vestir, ajudo ela a escolher, corto o cabelo com ela, a gente faz luzes. Eu levei ela numa mulher para ver como se pinta. É muito engraçado. Eu, dentro da Vale, com dinheiro da Vale, vestindo uma Gerente da Casa! Já fiz isso duas vezes com a Gisele, e foi ótimo, divertidíssimo. E eles sabem. Primeiro que eles confiam no bom gosto que eu tenho. O gosto que eu tenho é considerado bom gosto para eles, para ser mais isenta. O pessoal reclamava: "Não estamos gostando muito do tipo de roupa, mais discreto, mais tropical, mais..." Eu falei: "Olha, libera uma grana. A menina precisa ser vestida com recurso da CVRD. Ela não tem recursos para isso." Ela é uma Gerente que mora lá, uma pessoa super competente, e aí eles liberaram. A gente passou dois dias no RioSul só fazendo compras. Foi o máximo! Isso foi uma coisa nova para ela. Ela é uma menina de Osasco, uma menina muito simples, muito batalhadora. Ela tem uma formação super legal, formada em Administração na USP, fez especialização, fala três línguas: alemão, francês e inglês, e português super bem. É uma administradora hoteleira, de alto padrão. Acho que ela pega qualquer hotel hoje, tendo cuidado daquela Casa. Ela tem noção clara de tudo. E aí a gente montou um padrão de uso dela: "Olha, para uso de dia, para uso de tarde, e para uso de noite. Cliente tal, cliente tal, como você mistura..." E aí misturando um padrão de cores, de forma que ela ficou, sei lá: cinco, seis blazers que ela pode trocar e misturar sempre três peças. Sempre sai blusa, que é muito mais fácil. A blusa manchou, rapidinho troca, está com a mesma saia, várias cores de sapato e bijuterias mais finas e brincos mais finos. E ela ficou super satisfeita. Quando ela chegou absolutamente transformada, cabelo cortado, toda bonitona, toda maquiada, o pessoal pediu para eu fazer umas roupas também para as meninas da comunicação, que recebem na Casa, para jantarem com os hóspedes e receberem os hóspedes.

Decoração
Eu sempre quis fazer da Casa um local aconchegante. A casa em si já é um projeto tão lindo e gostoso de estar que eu falava: "Ela é uma casa muito grande, então a gente tem que criar um ambiente que a pessoa se sinta em casa, apesar de ser uma casa muito grande e que pode oprimir o hóspede, o convidado." Então, trabalhar sempre com produtos naturais, sempre os algodões, essas coisas mais gostosas, o toque, essa preocupação. E fazer de lá um mostruário do artesanato brasileiro. A gente andou da primeira vez o Nordeste inteiro, principalmente Belém e São Luís, procurando peças importantes do folclore, do artesanato, para colocar lá. Agora eu estou até fazendo um book. Eu tenho um provisório, que está lá com as peças que eu fotografei, dizendo de onde vem, a procedência, o significado, qual é a festa, não sei o quê. A gente está fazendo um agora impresso para explicar para o hóspede. Você tem o maracatu, e o que é o maracatu? Se você tem lá a Festa do Divino... os oratórios, que são super importantes em toda a cultura brasileira. Do Sul ao Norte você vê oratórios super diferentes. Privilegiando sempre as áreas onde a Vale tem atuação. Eu comprei na Bahia, Minas, mais Maranhão e Pará, o artesanato onde a gente tem expressão. E explicando o significado desse artesanato e, como a gente conseguiu comprar alguns direto do artesão, super legal, você conhece o artesão, a peça, e como foi feita. Cada peça escolhida a dedo. É muito gostoso.

Linhares
Faço no Sistema Sul a implantação de uma unidade de conservação particular chamada RPPN, uma Reserva Particular do Patrimônio Nacional, que é uma reserva natural da CVRD em Linhares. Lá é o último reduto de mata atlântica de tabuleiro, 21 mil hectares, feitas em eucalipto. E estamos criando uma área de uso público, uma exposição, com hospedagem. Futuramente vai ter uma torre de copada, para as pessoas andarem na copa das árvores. E vamos criar uma área de visita mesmo, abrir para o público, mas num primeiro momento a gente vai fazer um Centro de Treinamento da Vale e de outras empresas. Abrir para treinamento, porque é uma área muito gostosa para você fazer esses treinamentos de imersão. E tem hospedagem, tem uma comida deliciosa, tem um monte de frutas. A cozinheira que existe hoje lá, é maravilhosa, faz mil geleias maravilhosas. Uma loucura. Eu estou decorando esses lugares, e também participando da estruturação desse lugar.

Índios e "extra muro"
Os índios já estavam lá há muito tempo. Perambulavam inclusive pela área da Vale, que eles consideram deles, uma área tradicionalmente Kayapó. Em 1982 eu comecei a trabalhar nessa coisa de comunidades indígenas, com alguns grupos do Pará. Eu fui visitar os Gavião e os Xikrin, ainda na década de 1980. Eu fiquei mais com a parte de posseiro, da cidade de Parauapebas, trabalho com pequeno agricultor e outros projetos, que a gente chama de extra Vale. E a Kátia, que trabalhava com a gente, ficou mais com a questão indígena, ela pegou bastante tempo. Eu dava o apoio que era necessário, era muito complicado. Depois eu peguei mais firmemente o programa dos Xikrin, desde 1991, 1992. Eles estavam lá, sempre estiveram. E assinamos o primeiro convênio em 1992, com 13 grupos. Muito índio, uma coisa muito complexa! Não era obrigação legal da Vale, mas como o projeto estava entrando, veio uma cláusula dentro do contrato do Banco Mundial que a gente devia dar suporte e apoio às comunidades indígenas. Então a Vale destinou 12 milhões de dólares, 12,6 milhões de dólares, para o atendimento dessas 13 áreas. E a gente tentou acompanhar esse convênio, com a orientação da Funai. Uma coisa muito complicada, porque é um descaso total com a comunidade indígena. Agora está um pouco melhor, mas naquela época era um descaso total. Não tinha uma política séria. Eles tinham até a política no papel, mas nada era implantado. E a Vale também não tinha a menor noção de como fazer. Aí contratamos antropólogos para nos dar assessoria. Nessa época, a gente ficou conhecendo a Lux Vidal, a Yara Ferraz, um monte de antropólogos, o Nércio, o Zé Luís, que cuidavam cada um com uma especialidade, com cada grupo. E a Lourdinha era Coordenadora do Programa de Atendimento às Comunidades Indígenas. E a gente dava o suporte necessário. Eu cuidava mais do Pará, e a Kátia ficava mais com o Maranhão. Depois ela pegou tudo, porque eu tive que cuidar muito dessa parte de Parauapebas, posseiros, não sei o quê. Sempre foi muito complexo lidar com o que a gente chama "extra muro", toda essa relação de uma política social, de como passar isso para a própria empresa. A empresa também não sabia como lidar com isso, a gente também não sabia. Mas agora eu estou lidando mais diretamente com os índios. Mas já fiz bastante coisa, já cuidei de Parauapebas, já trabalhei com saneamento, trabalhei com implantação da área de Carajás, a área de Carajás nós desenhamos na nossa prancheta, a Kátia e eu, os 411 mil hectares.

Núcleos Urbanos
Esse departamento foi o primeiro de núcleos urbanos. Depois ele virou grupo de trabalho, de apoio aos núcleos urbanos e às comunidades indígenas, e meio ambiente, para o Projeto Carajás. Eu comecei nele em 1980, mas já mudou de nome, incorporou a questão indígena e meio ambiente no trabalho de núcleos, de desenho e implantação dos nove núcleos, ao longo da ferrovia.

Nesse núcleo tinha a Lourdinha, que era a Gerente. Tinha a Kátia, que era arquiteta, o Léo, como arquiteto. Tinha a parte contábil; a dona Mônica, que era da área de engenharia; tinha o Luciano, que era da área de arquitetura também. O Caio, que era arquiteto. E tinha duas secretárias: a Leila, que está lá na Vale até hoje, é Secretária dos Recursos Humanos, e a Eliana, Lili, que já saiu, que está trabalhando em outras coisas dentro da Vale. Depois entrou mais arquitetos, entrou o Ricardo Falcão, o Jacob... era um bando, um nicho de arquitetos, acho que na Vale inteira não tinha mais arquiteto a não ser aquele grupo trabalhando lá. E o Marcos Marrocos, que já faleceu, muito amigo nosso, que também entrou no projeto. E rolou "paulera", de tentar botar tudo em ordem, nove núcleos, desenhos e implantação, e construção, equipar, e tudo! Dessas áreas todas, porque eram todos equipamentos, você construía as casas de apoio do grupo que ia trabalhar na ferrovia, ou ligada ao pátio ferroviário, geralmente uma escola, e tinha sempre alguma coisa de apoio à Prefeitura, não sei o quê, de fazer uma melhoria. Em Parauapebas foi tudo: implantar todo o núcleo urbano, desenhar todo o núcleo urbano para as 4, 5 mil pessoas, com expansão para 10, todo o saneamento básico, a parte de eletrificação e os equipamentos comunitários, como hospital, a cadeia, a polícia, e várias outras coisas, a escola... Construímos escola em todos eles. Centro de apoio comunitário, essas coisas. Para criar uma mini infra de suporte ao pessoal da Vale que estava chegando e também para a comunidade. Você intervinha e fazia convênio com a Prefeitura, e a escola funcionava tanto para os filhos dos empregados da Vale como para a comunidade. E o núcleo de Carajás, que a gente também desenhou tudo e implantou todo aquele núcleo.

TRAJETÓRIA CVRD



Assessora Especial Master
Eu entrei como arquiteta júnior e fui melhorando. É difícil, mulher dentro da Vale é uma coisa meio complicada, mas você vai tentando melhorar um pouco. Hoje eu sou Assessora Especial Master em Projetos Ambientais e Sociais, um título assim! E coordeno alguns projetos. Hoje tem a facilidade de desenhar novos projetos que a gente não tinha nem idéia que a Vale ia aceitar, porque eram projetos de índio, de pintura, essa coisa toda. Quer dizer, mudou. A gente não pode negar que mudou, que tem espaço para fazer isso. E eu coordeno o trabalho dos Xikrin, basicamente, e trabalho também numa área nossa, que é uma reserva natural que se chama Linhares.

Polivalência
Acho que eu nunca deixei de ser um pouco arquiteta, porque eu nunca deixei a Casa de Hóspedes. Fui chamada também para dar algumas consultorias na casa de Itabira. E depois tem essa questão de Linhares, que eu estou fazendo toda a reforma, a decoração lá, então o pessoal me chama. Mas o grande trabalho, como arquiteta, é que também fiz o trabalho, na parte social, em que entrei fundo na área de saneamento básico. Durante nove anos eu cuidei do projeto de saneamento básico, financiado pelo Banco Mundial, de Parauapebas. Peguei desde o início até a abertura da torneira. E qual era o meu papel? Era um papel de facilitadora dos atores envolvidos, porque você tem que botar muita gente diferente conversando, e você tem que promover esse encontro. Então, eu fazia um contato Prefeitura, pessoal de Carajás. E o pessoal de Carajás só visando obra e botar cano dentro da terra, e é mais do que isso. Tem toda uma administração do projeto, de como a Prefeitura lida com isso, como você ensina também uma Prefeitura, que é uma coisa complicada. Tem toda a questão política; como você se relaciona com o Banco Mundial. Às vezes as coisas não estão andando e você tem que fazer os ajustes dentro do projeto. O meu papel era de ligar esses diversos mundos. É isso que eu faço com os Xikrin, é o que eu sempre fiz com Linhares e, no fundo, acho que é a mesma coisa que eu faço em todos os lugares, só que o produto é um pouco diferente. Um é botar abajur de cerâmica e uma pintura rupestre numa parede da Casa de Carajás e dizer que aquilo é bom, e outro é você fazer um projeto com índio e dizer: "Olha, eles têm que ter o direito à sustentabilidade deles, a gente vai precisar se relacionar, não tem jeito. E a Vale tem que ter liberdade para negociar, para trabalhar de uma forma mais coerente." Meu papel hoje é muito de interlocutora, porque eu adoro trabalhar com a diferença. Esse é o meu grande barato: trabalhar com públicos diferentes, com culturas diferentes.

Eu gosto de trabalhar na Vale, mas hoje eu gosto de trabalhar naquilo que tem a ver comigo.

IMAGENS CVRD



O cartão da Vale é um cartão que abre portas, isso a gente não tem a menor dúvida. Eu fui uma vez para Nova York e entrei na área de parques nacionais, para conhecer a mulher, e pedi uma reunião com ela. Era para conhecer, até para pegar folders dos parques nacionais, e quando eu disse que eu era da Vale do Rio Doce, ela conhecia a Amazônia, Carajás, Vale do Rio Doce. Incrível! A mulher lá me recebeu; o cartão da Vale do Rio Doce tem uma expressão!

RELAÇÃO DE TRABALHO



Acho que mudou um pouco com a privatização. As pessoas estão vinculadas, mas mudou um pouco o título de vínculo. Mas eu acho que é melhor. Você tem sempre que ter a perspectiva profissional e se envolver na medida. Tem determinadas pessoas que sofrem muito com a mudança, porque fizeram essa transposição do profissional para o pessoal exagerada, então se envolvem muito pessoalmente, quer dizer, sofrem muito. Você tem que saber separar. Eu acho que eu separo bem, porque o meu lado pessoal é muito legal, eu adoro o anonimato, eu adoro os meus amigos de fora da Vale. Eu não tenho os melhores amigos todos dentro da Vale. Eu até conheço pessoas que não são da Vale que se tornaram meus bons amigos. Porque tem essa coisa da energia, mas não necessariamente. E eu conheço gente dentro da Vale que só tem amigo da Vale, só sabe viver em função da Vale. E eu, para mim, não. Quando estou fora, estou em outra, sou uma pessoa do mundo. Eu não sou da Vale, eu sou minha, e trabalho na Vale. Isso eu acho que é querer uma diferença. Acho que fica mais fácil trabalhar.

QUESTÃO INDÍGENA



Área Xikrin
Trabalho com os Xikrin direto, desde 1991, quando começou o trabalho do plano de manejo. Só em 1994, 1995, a gente conseguiu estruturar com eles a situação ambiental, um contrato. E há dez anos já estamos construindo esse plano de manejo dentro da área, que é um plano super complicado.

Esse plano começou com uma idéia da antropóloga que cuida dos Xikrin há muitos anos, a Isabele, para tentar retirar a pressão dos madeireiros invasores da área, criando uma alternativa para os Xikrin na questão da venda da madeira. Porque a venda é fácil, eles ganham um dinheiro, mas é aquilo: acabou, destruiu, eles não querem saber. Madeireiro entra arrasando para tirar um pé de mogno. O resto eles deixam lá porque não querem nem saber. E o nível de impacto nos igarapés, nos mananciais, na própria floresta é altíssimo, tanto que tem muita intervenção nas bordas da área Xikrin. E do ponto de vista de patrimônio deles, e cultura daquela área, a caça acaba, a coleta acaba, a castanha é prejudicada. A castanheira é uma árvore do Patrimônio Nacional, protegida e proibida de ser derrubada, a castanha do Pará. No habitat onde ela vive, ela tem que estar integrada com aquele habitat. Se você destrói tudo e deixa a castanheira, ela morre seca, em pé. Ela precisa para a polinização. O sistema da Amazônia de floresta é todo com aquilo que a gente chama de liana de cipós, é tudo amarrado, estruturado. Você tem uma camada de solos muito pequena e árvores muito altas. E as raízes bem espraiadas para poder sustentar aquelas árvores enormes, 30 metros. E a castanheira tem esse problema. E o pessoal entrava e derrubava a castanheira também, derrubava tudo, principalmente o mogno, que é a coqueluche do mercado. E eles só queriam mogno. Sai destruindo tudo. E arrasa quarteirão! Madeireiro quando faz estrada, quando entra, não quer saber. E prostituindo os índios em termos de grana e até as índias, levando para a cidade, dando bebida, um horror em termos de total degradação da comunidade. Os jovens entrando em bebedeira, não mais lidando com aquela tradição, com a cultura kayapó. Isso estava preocupando muito, porque a tendência é essa, é a entrada realmente de garimpeiro, madeireiro, nas terras indígenas, acabando com essas culturas. E a antropóloga sempre teve vontade de fazer esse trabalho. Começou a estruturá-lo, começou a pedir grana de vários lugares, tipo Fundação Ford, Banco Mundial, Bird, dinheiro de tudo quanto é lugar para poder estruturar esse projeto.

O projeto foi estruturado do ponto de vista legal. Complicadíssimo para conseguir a aprovação, porque a terra é da União, o usufruto dos índios, e sobre a guarda do Ibama. Você já viu a confusão... E os índios são tutelados pela Funai. Então, os índios não têm lastro nenhum, eles não têm garantia nenhuma. A terra não é deles. Então, como você montar e organizar um projeto, que é um projeto enorme, um projeto de 30 anos, de exploração florestal? A gente contratou uma ONG super respeitada, que é o Instituto Sócio-Ambiental de São Paulo, o projeto foi todo desenhado e detalhado, e está sendo coordenado pelo Instituto Sócio-Ambiental. E nós entramos dando esse apoio, de conseguir eventualmente abrir uma porta, um apoio logístico e discussão do projeto. Agora mesmo a Vale contratou uma revisão da viabilidade econômica e financeira do projeto para os próximos 30 anos em vários cenários. E também estou cuidando disso, dessa parte com um consultor na área econômica. É muita coisa, dentro da Vale você aprende muito.

Relação da Vale com a Funai É complicada. Acho que uma frase só resume tudo. Desde 1982, do primeiro convênio, depois o convênio especial com os Xikrin, e o convênio com os Pacategê, do Pará também, pertinho de Marabá. Mas eu acho que nesse tempo a Funai teve uns 16 ou 17 presidentes. E aí a estrutura toda se esfacela. Como você se articula com uma coisa que muda? Teve um ano que teve dois presidentes, como agora, dois presidentes! A gente estava com uma expectativa e deu essa confusão toda no "Brasil 500 anos" e a Funai está interinamente com o Presidente. É muito difícil em termos da relação, porque é um órgão que precisa ser repensado em termos de política indigenista, de pensar o que se quer e como se quer.

A Vale e os Xikrin
O que a Vale está tentando fazer é: como os Xikrin são nossos vizinhos, e eles existem, estão ali, a gente quer o menor conflito possível com essa comunidade e tentar uma relação positiva. Nós estamos tentando criar projetos que revertam em grana e renda para eles, em vez de ficar nessa atitude de ficar dando dinheiro, como era no passado. As empresas ficam dando mesada para índio! Isso está errado, não é assim! Você só cria o vício. E eles cada vez vão pedir mais mesada, igual a filho. Daqui a pouco: "Ah, mãe, dá em vez de 50, 100?" Não, você tem que continuar nos 50 e tentar ensinar a eles descolar através do trabalho os outros 50. Faça isso para as crianças, também é uma boa coisa. Só que é muito difícil na relação mãe e filho. Só que os índios não são filhos da Vale, mas se comportam como, e a empresa também acaba, às vezes... No passado tinha uma atitude mais assistencialista.

A gente tentou trabalhar junto com os antropólogos numa mudança de postura, que sempre foi a postura da política oficial. Esse projeto é um projeto de risco. Essa viabilidade vai verificar se realmente vai ter condições deles tirarem uma renda satisfatória. Mas só a experiência, o laboratório, de você ter conseguido durante 10 anos tirar todos os madeireiros da área, todos os garimpeiros da área, desobstruir a área, se demarcou a área. Os Xikrins hoje estão em condições de vida muito melhores nas aldeias onde eles moram. E a gente está fazendo essa experiência de tirar a madeira de uma forma seletiva, adequada, com menor impacto possível, cumprindo a lei. Na verdade nada mais é do que cumprir o Código Florestal, só que ninguém cumpre.

A Vale já tem certeza, o Conselho, a Presidência, que eles não querem problema com índio. Porque é real, eles são nossos vizinhos, e efetivamente não tem interesse nenhum que eles parem a ferrovia, que eles parem a área. Vamos tentar trabalhar numa relação mais eficaz, digamos assim, mais profícua. Então isso já é uma questão consagrada. E aí a gente está lidando com isso dessa forma, tentando criar um programa, mas é muito difícil. Não é fácil, porque nem nas ONGs, e muito menos na Funai, você tem uma coisa ainda que você tenha certeza de como é. Tem tantos caminhos, e é tão complexa a relação com os índios. Mas, tentar evitar que a relação seja sempre na pressão e de pedinte. Por aí está errado. E o que a gente está tentando fazer é viabilizar esses projetos para a comunidade, principalmente a comunidade Xikrin. No Maranhão, e no resto do Pará, o trabalho ainda está um pouco desorganizado, mas a gente está montando um trabalho com o Governo do Estado. Temos uma expectativa, a gente não sabe o que vem pela frente, de tentar montar um plano plurianual, um planejamento para atender às outras seis áreas que estão bem vizinhas à ferrovia. Agora, dentro da área do meio ambiente, o pessoal sabe que tem que mudar, é real, está ali, é vizinho.

A interlocução com os antropólogos
Na verdade, os antropólogos estão ligados ao ISA ( Instituto Sócio Ambiental). Às vezes, eram contratados direto pela Vale, consultores da Vale. Mas são ligados ao ISA, senão financeiramente, porque o dinheiro acaba saindo do recurso da empresa, seja para o ISA, seja para o antropólogo, mas a orientação do projeto, do programa, de como lidar com essa questão indígena, é da ONG e tem que ser da ONG que é especializada nisso e que faz isso para vários povos. Não cabe à Vale fazer isso, a Vale não tem esse know how, e nem tem competência legal para fazer isso. É complicado para ela esse relacionamento. Mas eles estão ali, são os nossos vizinhos, a gente tenta fazer uns projetinhos com eles. Projetos de agricultura, estamos renovando as casas, dentro de uma técnica um pouco mais amazônica. É óbvio que eles querem casas iguais às do núcleo urbano. Essa coisa toda é difícil. E mais complicado ainda são todos os passos dia a dia de construção desse projeto, porque vai um passo, volta dez, vai outro, volta. Acho que o Brasil na área social é muito assim.

Cultura Xikrin
Eles fazem pintura. O projeto de pintura que a gente começou lá no passado e está desenvolvendo. Estamos fazendo com as mulheres um projeto de pintura, para mostrar para o mundo essa pintura e esse grafismo, essa linguagem nova. Eles são ágrafos e a pintura tem todo um significado, a pintura corporal, em cada rito de passagem. Aí a gente está traduzindo essa pintura em produtos variados para venda no mercado, para reverter 100% a rentabilidade. Quer dizer, você faz o cálculo do produto, paga-se a produção, guarda uma reserva para nova produção e o resto, o lucro, vai para a Associação. Tem uma associação que os representa, de defesa do povo Xikrin, e essa associação a gente pretende que se fortaleça. A Vale financia junto ao ISA esse trabalho de captação e fortalecimento da Associação. A gente tem um sonho: de que em alguns anos, você tenha dentro da Associação uma estrutura mínima que eles mesmos possam tocar esses projetos. Eles têm consciência plena de tudo que acontece no projeto, e em nome da Associação que tudo é feito. Mesmo que, por exemplo, por trás tenha o ISA, que coloque um consultor, alguém assim, mas a Associação é que contrata, a Associação é que se organiza. Então, ela está se organizando administrativamente, juridicamente, financeiramente para poder, como uma figura jurídica no mundo dos brancos, poder se relacionar. Aí já tem uma marca, vai ser lançado uma marca. A gente quer botar essa marca no mercado e eles passam a vender os seus próprios produtos. Essa é a idéia.

Os Xikrin e o núcleo urbano
Eu acho que agora está melhor, está bem melhor. Eles perambulam lá para caramba. E aí o pessoal já absorveu. É complicado de entender o jeito deles, eles ficam na praça, dormem na praça... é um outro jeito de vida, eles são muito mais livres. É o que constrange as pessoas. Todo mundo tinha o maior grilo, porque não pode se meter com índio, não pode criar um problema, nenhum problema para a Vale, mas as pessoas não gostavam.

Tem umas regras em Carajás. Não pode vender bebida alcóolica para eles. Dentro do núcleo, de jeito nenhum, é proibido. A gente firmou o contrato com o pessoal das cantinas, da padaria e do supermercado. É condição sine qua non. Quer dizer, pelo menos não sai de dentro do ambiente. Se eles vão fazer em Marabá também a gente não tem um controle. A gente faz todo um trabalho dentro da aldeia, de educação e de saúde. E realmente coíbe dentro da área da Vale. E outra coisa também é o seguinte: tem um limite. Eles têm realmente uma verba mensal de alimentação, porque os projetos ainda estão incipientes, estão começando agora a entrar recursos para a Associação, para a complementação de toda essa parte agrícola, porque às vezes nem dá para alimentar tantas bocas: 660 índios. Então, eles têm essa verba mensal e aí tem uma cota. E eles só podem comprar aquilo dentro do núcleo. Se extrapolou, aí é responsabilidade deles, e eles sabem disso. Tudo é negociado em outubro dentro da aldeia, do que vai ser feito no ano seguinte, e quanto será esse trabalho, os projetos, que projeto vai ser. Por exemplo, o projeto do saneamento, o projeto do poço, melhoria da qualidade da água, projeto na escolinha. Tudo é conversado e negociado com eles e estabelecido, faz-se um projeto, determina o valor desse projeto e se negocia com ele. É óbvio que estão sempre pedindo e querem mais e tudo. Mas a gente tem que mostrar o limite, porque senão não tem limite. É muito difícil, mas é interessante. Tem um lado muito rico. Esse lado da pintura é muito legal.

PRIVATIZAÇÃO



Eu acompanhei o processo. Eu estava lá dentro, trabalhando, e vi todo o trabalho de montagem, os cenários. Tinha um clima de muita insegurança, estava todo mundo muito inseguro, todo mundo achando que ia mudar muito, e que ia mudar para pior. Mas acho que isso é natural no ser humano, as pessoas ficam com muito medo da mudança. Mas eu acho que foi bom, que para a empresa foi melhor.

CASAMENTO



Eu e o Luciano nos conhecemos em 1983, quer dizer, eu o conheci em 1980, no Projeto Carajás, mas a gente se conheceu mesmo em 1983, 1984.

Nos conhecemos viajando na ferrovia em Marabá. Comédia! Imperatriz e Marabá. E o amor foi gerado no meio do Projeto Carajás. Aí a gente casou e começamos a viver juntos em 1984. Ele morava em Niterói, com dois filhos, e veio morar comigo num cubículo que eu morava, com a minha filha, no Jardim Botânico. Aí começou tudo. Depois tivemos outro filho juntos. Em 1987 nasceu o Cristiano. Depois mudamos de novo, já moramos em sítio, já moramos em um monte de lugares, e agora estamos morando no Cosme Velho, no Rio. Ele trabalhava na área de núcleos urbanos, depois ele foi para a área de desenvolvimento, e eu fiquei na área de meio ambiente. Quando a área de meio ambiente foi para a Superintendência de Desenvolvimento, nós trabalhamos juntos, mas ele em um outro grupo, no grupo de desenvolvimento. Hoje ele está na Fundação Vale do Rio Doce, e eu estou na área de meio ambiente.

AVALIAÇÃO



Pensando em minha trajetória de vida, eu acho que mudaria alguma coisa, fatalidades. Nós perdemos um filho. Eu acho que mudaria só isso.

SONHO


Eu tenho muitos sonhos. Eu quero voltar a pintar. Eu fiz um curso de três anos no Parque Lage, e pintei muito.

Eu quero aprender a ganhar dinheiro, porque acho que eu sou muito ideológica. Eu não tenho essa veia comercial. Acho que ainda tem tempo, eu faço 44 anos. Mas quero aprender a ganhar mais dinheiro, para ter uma vida mais tranqüila. A gente tem uma vida boa, mas é no laço. Ter três filhos adolescentes, no Rio de Janeiro, não é fácil. Eu tenho vontade de comprar esse apartamento que eu moro para dar uma reformada, e acho que a gente tem uma chance de comprar nesse ano de 2001. Tem que negociar, porque o Luciano não gosta muito de Cosme Velho. Eu gosto mais, as crianças estudam no São Vicente, essas coisas.

Eu tenho uma fazenda que está parada há 200 anos, que eu ganhei do meu pai. É no Friburgo. E a gente tem um sonho futuro de, quando estivermos mais velhos, fazer um hotel fazenda. Mas seria um hotel fazenda com essa questão ambiental, para estudos e pesquisas na área de meio ambiente, de água... Porque é um viés que tem a ver comigo. Lá é uma área preservada, eu comprei por causa dessa questão ambiental, e não tem nada, só floresta no lugar... Comprei uma floresta! O lugar chama "Boca do Mato", é um final de linha de tudo. Tem até uma florestinha de araucária, de Mata Atlântica de altitude, super bonito o lugar. A gente tem vontade de ir curtir o lugar, porque é um lugar onde eu posso encontrar os amigos, meus discos, meus livros e meus quadros. É bem isso.

Mas tenho outros mil sonhos. Eu quero ver meus filhos bem, quero conhecer pessoas, quero viajar muito. Tenho vontade de conhecer Praga. Agora estou com essa mania. Cismei que eu quero conhecer! Mas Praga é muito longe e está meio caro. Então, no momento, eu fui para Gramado mesmo, e estava muito bom. Foi o que deu para pagar.

DEPOIMENTO



É super legal. O que eu mais gosto do projeto, além da perspectiva de poder fazer as pessoas falarem das suas vidas, e a importância do registro real. Porque as pessoas são perenes, e tem que ficar para as futuras gerações, para aprenderem com esse registro. Mas, o quê eu mais gosto do projeto, é ele estar sendo conduzido com tanto bom humor. Porque, para mim, bom humor é fundamental. Tem que ter sempre, o viés tem que ser o bom humor. Em tudo que se faz. Senão, não tem a criatividade, não tem beleza. São duas coisas que eu descobri na vida: solidariedade e bom humor. Com isso fica tudo mais fácil. Acho que com esse tempo todo de vida, de sofrimento, de casamento, não sei o quê, são dois substantivos que eu tento. É difícil, às vezes a gente tem uns desvios de percurso, mas trabalhar nesse viés da solidariedade e do bom humor. E facilita a vida! Se você conjuga na primeira pessoa do plural, se você reconhece a diferença, se você incorpora as idéias das outras pessoas, acho que você fica com uma vida mais fácil. E a gente tem que exercitar isso todo dia. E tem que exercitar o bom humor. É como escovar o dente, tem que exercitar!

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