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História de Vida

História de: Maria Albertina Prado Ribeiro Campos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 29/10/2004

História completa

Por favor, diga seu nome completo. Maria Albertina Prado Ribeiro Campos, como eu assino. Meu nome de solteira, a família de meu pai era Castro Prado e a família de minha mãe Egídio Souza Aranha. Minha mãe se chamava Maria do Carmo Aranha Castro Prado. Seu local de nascimento? Aqui em São Paulo, na rua Frei Caneca, na maternidade, mas meus pais residiam nos Campos Elíseos. Que dia a senhora nasceu? 11 de janeiro de 1926. Qual o nome de seus pais e de seus avós? Meu pai se chamava João Bierrenbach de Castro Prado. A mãe dele chamava-se Albertina Bierrenbach de Castro Prado, e o pai dele Antonio de Castro Prado. Todos são de São Paulo? A minha avó tinha um avô alemão. De que parte da Alemanha? O avô dela era um general que veio na guarda de honra da princesa Leopoldina, quando veio pra se casar com Dom Pedro I. Quantos irmãos a senhora tem? Eu tive um irmão, que infelizmente faleceu há cinco anos. Qual o nome dele? Meu irmão se chamava Rocio de Castro Prado. Ele era engenheiro. O Rocio era mais novo ou mais velho que a senhora? Ele era mais velho que eu sete anos e meio. A senhora lembra da casa, quando a senhora nasceu, da casa, como era, da sua infância, alguma coisa que marcou? A casa quando eu nasci, não me lembro, mas eu me lembro dessa casa da Barão de Campinas, onde eu saía pra tomar o leite, que eu falei, os tais sobradinhos em que morávamos, ladeados pelos tios. Alguma coisa que aconteceu nessa casa, que a senhora guarde assim com carinho, alguma estripolia que a senhora fez com seu irmão. Eu não fazia estripolia com meu irmão porque nós tínhamos uma diferença grande de idade. Ele era um menino e eu era um bebê. Quando eu era menina ele era um moço E qual a lembrança que a senhora tem de seus pais? Eram muito rigorosos? As melhores possíveis. O meu pai era muito condescendente, porque eu era menina e quando eu nasci meu irmão já tinha sete anos, e eu tinha o nome da mãe dele. E meu pai dizia que não sabia brigar com mulher. Disse que preferia ter filho homem. A minha mãe era de temperamento severo. A família dela era de muita severidade, mas era uma severidade que ela queria que a gente atingisse a perfeição. Entende? A senhora conheceu seus avós? Sim. Meus avós maternos, meu avô, que era o Coronel José Egídio de Queiroz Aranha não era coronel no sentido pejorativo que se diz. Ele era coronel da guarda nacional porque ele era de tradicional família de Campinas, e do lado de minha mãe são todos descendentes dos aristocratas nomeados pelo imperador. Minha avó era Josefina de Queiroz Aranha e era prima irmã do marido, por mãe e por pai. As mães eram irmãs e os pais eram irmãos. Até era considerada uma verdadeira loucura. Mas, no tempo antigo eles tinham preocupação do nome de família, e de dinheiro. Então casavam com parentes. Qual era a atividade de seu pai? Meu pai era formado pela Escola Luiz de Queiroz de Agricultura, e a atividade dele era o café. Na plantação, no comercio, na exportação. Ele tinha fazenda de café, também? Eles tinham várias fazendas. E qual sua lembrança de infância dessas fazendas. Ou a senhora só ficava em São Paulo? Não. Eu não ficava só em São Paulo. Eu ia com eles. A lembrança da fazenda que eu tenho, no município de Pirajuí, na Noroeste, era uma imensa fazenda, eu tenho excelente. Sou muito apegada a ela. A princípio nós morávamos na casa do administrador. Em 1930 foi construída a casa da sede nova. Eu me lembro até hoje, quando mamãe disse: “Nós vamos mudar, mas você vai depois do almoço...” Porque criança dormia depois do almoço. Então me lembro até hoje, depois do almoço, ele pôs minhas bonecas no carrinho e ir empurrando o carrinho pra ir pra casa nova, acompanhada da governante. O seu pai tinha algum título, dona Albertina? De engenheiro agrícola. E como ele trabalhava, na cultura do café? Qual era o nome que ele recebia? Ele era um dos grandes fazendeiros de café? Ele era porque ele tinha as fazendas dele, mas meu avô, pai dele, é que era justamente, vamos dizer, o chefe da organização. Mas meu avô, com meu pai, o filho mais velho, que se dedicou a isso. Além disso, meu avô era deficiente visual. Então, as fazendas eram de meu avô com uma companhia em Santos, de exportar café, que era ao lado das docas. Também era de meu avô. Era Sociedade Anônima. Os filhos também tinham parte. Mas, meu pai representava, encabeçava os negócios de meu avô. E eles tinham cinco fazendas no Estado de São Paulo, que naquela época, diziam que ele era o segundo fazendeiro. O primeiro o Lunardelli e ele o segundo. Seu pai recebeu o título de Barão do Café? Que recebia naquela época? Não. Ele não recebeu título, isso era uma coisa que se dizia por ai. Ele era realmente um líder, vamos dizer, desse comércio de café, mas ele... recebeu um artigo lindíssimo escrito por Augusto Frederico Schmidt. Eu poderia trazer. Mas na época, ele era tido como um barão? Não se dizia. Eles que falam os tais do Barão do Café. Antigamente não falavam. Tinha o rei do café que era o Lunardelli, e eles que eram os segundos. Agora que usa essa história de... Até está fora de moda, porque agora o que vale é o negócio da imigração italiana por causa da novela. A senhora me disse que seu pai herdou de seu avô cinco fazendas de café? Ele não herdou, porque meu pai morreu aos 48 anos, antes do pai. Ele trabalhava com o pai. Fazia parte da organização deles. A senhora se lembra do nome dessas fazendas e a localização? Muito. Tinha uma em Araçatuba, que se chamava Santa Clara, que pertence até hoje a uma prima minha; tinha uma em Ribeirão Preto que se chamava São João, e uma outra que se chamava Graciosa, que me parece que era no município de Descalvado. E uma outra em Campinas, que se chamava Espírito Santo, e que hoje deu o nome ao bairro de Valinhos. No seu período de infância, a senhora se dedicava a que atividade, além de ir pra escola? Eu brincava com minhas amigas, muitas, como eu mencionei, a minha primeira amiga, e depois que mudamos pra Av. Angélica, tinha uma amiga íntima. Passeávamos de bicicleta, brincávamos, íamos à natação, na ginástica, nessas coisas. Festas. Festas maravilhosas. Tínhamos festa de Carnaval. O Automóvel Clube fazia árvore de Natal como eles chamavam. Tinha festa do Paulistano, que fazia de Natal, de Carnaval. No domingo nós almoçávamos na casa do meu avô, eu com as primas todas e depois íamos as vezes ao cinema. Havia o Paramount, que ia ser derrubado. Uma vez nós fomos pra lá, pegamos a fila toda, porque nós éramos várias primas. A senhora disse que morava ali por volta da Barão de Limeira, da Barão de Campinas? Por volta não. Exatamente na Alameda Barão de Campinas, que fazia parte do terreno da Barão de Limeira que era a casa da minha avó com esquina da Helvetia, e no fim da Barão de Campinas, que era deles também, no tempo dos cavalos e das carruagens, e que depois que compraram automóvel, fizeram esses sobradinhos pros filhos casados. A senhora gostava do bairro e da casa onde a senhora morava? A senhora poderia descrever um pouquinho pra nós? A casa não era uma casa de luxo. Era uma casa que eles chamávamos sobradinho. Era uma casa relativamente pequena, com sua entrada, sua salinha, sala de jantar e uma saleta. Em cima, meu quarto era muito bonitinho, porque mamãe era muito caprichosa. Mas não era nada de luxo. Era casa de casal que estava organizando a vida. Mas eu tenho boas lembranças, sobretudo porque eu ia a pé até a casa de meu avô, mas como eu disse tinha que sair na rua porque tinha muro, e nós vivíamos em função da casa grande de minha avó, onde eram as festas, os lanches. Aquele sistema matriarcal. As filhas recebiam as amigas lá, pra aqueles lanches imensos. Então a grande lembrança é a casa da minha avó, que era enorme. Até tenho pena de não ter fotografia nenhuma, e de lá que mantinha muita tradição. Por exemplo, domingo ela reunia os filhos pra rezar o terço, e depois tínhamos o lanche. Lanche imenso. No domingo à tarde. E os almoços eram na casa de minha outra avó. Qual o lugar da casa que a senhora gostava mais da casa da sua avó? Da casa da minha avó, eu acho que eu gostava do conjunto. Tinha a sala de visita, que a porta era fechada com chave, como se usava antigamente, e quando chegava a minha professora de piano, eu tinha que ir lá abrir e tomar aula. Mas era assim uma coisa meio reservada. O escritório do meu avô era bem grande, muito bem decorado pelo Liceu de Artes e Ofícios, e tinha um termômetro em forma de anjo, na mesa, que eu tenho até hoje em minha casa, e me trás muitas lembranças. A senhora disse que tomava aulas de piano. E o professor ia à sua casa? Na casa da minha avó, porque lá em casa, acho que não tínhamos piano. Nessa casa da Barão de Campinas. Quantos anos a senhora estudou piano? Eu estudei muito pouco porque depois eu fiquei com esse defeito que eu tive na paralisia, o médico não queria mais que eu ficasse tantas horas sentada. Aquilo usava antigamente como educação. Mas eu vou te dizer. Quando o médico disse que eu não podia ficar mais sentada, fiquei radiante. Detestava estudar piano. Gostava de assistir, como até hoje, assisto muitos concertos, mas pros outros tocarem (risos). No bairro dos Campos Elíseos, a senhora se lembra como eram as ruas, se passava... qual era o meio de transporte daquela época? A Alameda Barão de Limeira era bastante larga, e na Alameda Barão de Limeira passava o bonde, e todo mundo andava de bonde, mesmo as pessoas muito bem situadas, porque o bonde ia vazio e era costume. Eu tenho poucas lembranças porque eu saí de lá com sete anos. Era pequena, ia a pé até a casa de minha avó e depois a gente saía de automóvel. E quando a senhora visitava seus avós, seus avós paternos? Então. Os meus avós paternos, como eu disse pra você, eu me lembro mais quando eu mudei pra Brasílio Machado, essa virada da Alameda Barão de Limeira pra Angélica, que eu disse pra você, que me deixava entusiasmada, quando íamos lá. Porque meu pai trabalhava com o pai, o escritório era o mesmo, eles estavam o dia todo, juntos no escritório. Mas como eles tinham um armazém em Santos, de café, tinha uma vez por semana que meu pai saia cedo e ia pra Santos, ia a serviço, e as estradas não eram como hoje. Então quando ele chegava, antes do jantar, ele ia fazer uma visita pro pai, porque não tinha visto o pai nesse dia. E era aí que eu ficava encantada com a iluminação da Avenida Angélica. E na casa dessa minha avó que se chamava Albertina, que era descendente de alemães, de onde vem o meu nome, que era minha madrinha, é que nós almoçávamos todos os domingos, onde eu tinha muitas primas com pequena diferença de idade minha. O que chamava bastante a atenção da senhora essa questão da iluminação, como era? Já existia luz elétrica? Ah. Mas claro que existia luz elétrica. Na Brasílio Machado, falei, que era lampião de gás. Existia luz elétrica dentro de casa. Na rua. Mas na Avenida Angélica, era iluminada nessa iluminação linda, que eu falei, que eram globos imensos, que eram no meio da rua, porque agora me parece que é na lateral. Como nós estávamos tomando algumas informações antes do início da entrevista, a senhora falou no leiteiro que passava, chamava sua atenção. Ah. Sim. Na Avenida Angélica, ainda era a carrocinha que passava de manhã... O leiteiro não me lembro, mas passava a do verdureiro, e a cozinheira ia então na porta pra escolher as verduras. Passava o padeiro. Tinha a carrocinha do padeiro, como eles diziam, e o padeiro vinha de manhã cedinho pro café. O pão, eu acho que ele punha na caixa de pão. E na hora do almoço vinha com aquelas rosetas, aquele pão redondo, pro almoço. E era comum dizer: “Meu Deus, o padeiro está atrasado. Fulano já precisa almoçar.” E não compreendia outro jeito. Quantos anos a senhora tinha quando se mudou dos Campos Elíseos? Aí a senhora foi pro Higienópolis, não é? Pra Rua Brasílio Machado. Tinha sete anos. E lá, como é que era a sua casa? Ah. Essa casa era linda. Era uma casa muito chique, muito bonita. Depois minha mãe vendeu até pra uma prima que ia se casar. A casa era muito bonita, tinha pertencido a um senhor da família Junqueira, tinha sido feita por um engenheiro da época, e a casa era muito bonita, o meu quarto era de frente. E eu gostava de sair na janela pra ver o movimento da rua. Meu irmão tinha um quarto lateral. Depois tinha um segundo banheiro, que era novidade na época. Esse banheiro era pra mim, minha irmã e pra governante. Minha mãe tinha outro no quarto. O apartamento da minha mãe era uma beleza. Você entrava numa sala, as paredes eram todas empapeladas, desse papel que tem desenho de veludo, e era roxo batata. Eu acho que aí eu aprendi a gostar de roxo. O lustre era de cristal, também roxo. Depois, dentro tinha o quarto dela, que era todo fraise, com sofá, cama, tudo embutido, e o banheiro era dentro do quarto, que também era comum naquele tempo, e a porta do banheiro, do lado do quarto era um grande espelho. Era muito bonita essa casa. A sala de visita, o escritório do meu pai, tinha também saletinha de almoço, toda empapelada. Era bonita. Minha mãe gostava muito da casa. Eles gostavam de receber. Então, passado algum tempo, eles queriam uma coisa maior, e compraram a da Avenida Angélica. Aí a senhora mudou na própria Avenida Angélica, mesmo? Sim, mas não perto de meus avós. Nós morávamos lá em baixo, perto da Alameda Barros e meus avós moravam aqui em cima, perto da rua Bahia. Quando a senhora foi pra escola, quando sua mãe foi inscrevê-la na escola, foi fazer sua matrícula, pra que colégio a senhora foi? Externato Ofélia Fonseca, na rua Bahia. E como é que foi sua vida no colégio, as amizades, as professoras. Tinha alguma professora que chamava mais a sua atenção? A nossa professora, que era uma professora pra tudo, porque era o primário, a nossa professora chamava-se dona Nicolina. Ainda comentei isso ontem, com uma ex colega que eu encontrei. Dona Nicolina era muito boazinha. Dona Ofélia Fonseca era uma senhora de um valor muito grande, tinha uma grande cultura, muita garra, como se diz hoje, para organizar o colégio. Era considerada bravíssima. Quando dona Ofélia chegava, todo mundo morria de medo. Eu entrei lá no primeiro dia de aula do ano de 1934. Eu já era alfabetizada, porque eu tinha governante inglesa em casa, então já era alfabetizada. Fui alfabetizada em inglês. Então, ela quis que eu fosse pro segundo ano, ao contrário da opinião da minha mãe, que achou que eu nunca tinha estado em colégio, que não ia dar certo. Então ela me pôs. E no primeiro mês, eu fui a primeira da classe. Tanto que dona Ofélia mandou perguntar pra mamãe, se ela ainda queria que eu voltasse pro primeiro ano, porque mamãe tinha dito: “Olha, ela vai, mas se ela não acompanhar ela volta.” E depois, eu fiquei três meses no colégio e não saí do quadro de honra, porque ia até o terceiro lugar. Nos outros dois eu fiquei eu fiquei em terceiro lugar, porque eu falava demais e atrapalhava a aula das outras. (risos) Então, a nota de comportamento desceu. Mas não a de aplicação. Era um grande colégio. Daí, quando chegou perto do inverno, meu pai ia pra essa fazenda na Noroeste, que era muito grande, e ele precisava assistir a colheita. E eu só tinha oito anos, então nos levaram. Mas dona Ofélia mandou uma carta lindíssima pra mamãe, dizendo que era um absurdo ter me tirado do colégio. Mas, as organizações familiares eram assim antigamente. Depois, quando eu tinha dez anos eu entrei pro Colégio Assunção, que era um colégio novo, que tinha sido fundado no ano anterior, onde eu chamo até hoje de meu colégio, trabalho também na associação dos antigos alunos que mantém asilos, mantém creches, e eu entrei em 36, era um colégio de freiras francesas; eram freiras muito finas. Umas delas eram até da aristocracia européia. Tinha uma até que eu ouvia dizer que ela era a princesa da Bélgica. Que era minha chefe de classe. E lá eu fiquei o ano todo de 36, 37 e 38. Mas depois, foi quando eu tive essa febre, que era paralisia, que a princípio os médicos não entenderam. Pensaram que fosse coisa no pulmão, que era tuberculose. Porque deu um febrão e minha paralisia foi localizada, então na hora não dava pra eles perceberem nada. A febre foi embora, então eles acharam que era uma gripe muito forte que passou. Mas é que, como a paralisia foi localizada nas costas, depois entortou a espinha. Então daí, eu não podia mais estudar em colégio, tanto é que eu estudei em casa, com professores particulares todos. Tinha professora de Francês pra me ensinar literatura francesa, tinha o professor Marques da Cruz que ensinava Português e Matemática, e acho que também História. E aí então eu fiz os meus estudos em casa. Esse período difícil da senhora, acometida pela paralisia, ele durou? Dura até hoje, meu anjo, porque você vê que eu não ando com facilidade porque a esquerda... Mas assim, a senhora ter superado essa coisa pra estar saindo mais. Porque daí a senhora não voltou mais pra escolas não é? Pro colégio não porque eu não podia ficar na postura de uma carteira, e também cumprir o horário. Eu fiz depois de moça, que tudo estava menos intenso no tratamento, um curso no colégio Assunção, que eu te disse que era, o que chamam na Inglaterra de Finishing School, aqui chamam de curso de aperfeiçoamento, e que na brincadeira, na sociedade diziam que chamavam “espera marido.” (risos). Nessa época de “espera marido”, como eram os bailes que a senhora.. As festas eram maravilhosas. São Paulo tinha festas maravilhosas. São Paulo tinha festas lindíssimas. Mesmo antes do “espera marido” eu já ia em festas. Eu fui ao primeiro baile, acho que eu tinha 16 anos. Depois continuei indo. Nessa casa que hoje pertence à família Diniz, donos do Pão de Açúcar, antes pertencia à família Crespi. E na inauguração dessa festa, eu me lembro, nós dançamos até sete horas da manhã. E as sete horas da manhã serviram chocolate. Mas, eu sempre fui profundamente religiosa, desde menina. Era filha de Maria e sempre fui, e assim estou e não é hoje que eu sou. Esse negócio de dizer que gente moça tem mais o que pensar, pra mim é um absurdo. Então, não havia missa à tarde. As missas eram só de manhã. Então, eu saí da festa, tirei o vestido de baile, troquei de roupa, fui à missa e depois voltei e dormi até quatro horas da tarde. Apesar de gostar muito de freqüentar, gostar muito de festas, de fazer muitos programas, eu nunca deixei, nunca perdi missa. Essa foi sua primeira festa? Não. Essa não foi a minha primeira festa. Essa foi uma que nós dançamos até clarear o dia. A minha primeira festa foi na casa de uma amiga, que depois foi primeira dama de São Paulo. Se chamava Maria Melão, que depois se casou com Roberto de Abreu Sodré. Foi no aniversário dela. Até hoje eu a felicito por essa lembrança. Mas essa eu era mais mocinha, foi uma coisa mais moderada. Conta pra gente, a senhora estava contando antes, que a senhora gostava de ir na Guarda Civil. Como que era? Ah. Sim. Isso era na minha infância. Você está perguntando lembranças da Barão de Campinas. Porque como eu lhe disse, a casa da minha avó era na esquina, depois tinha umas casa menores, e a outra maior que ficava no mesmo quarteirão, que era a casa da família Baruel, era uma casa muito linda, mas como era Guarda Civil, não era vedada. Tinha uma grade muito linda, você via todo o jardim e via os guardas lá em posição. Eu não sei a organização da Guarda Civil, mas eu dizia: “Vamos ver os soldados.” Eu achava lindo ir ver os soldados. E nos era contado naquela ocasião, que a casa pertencia à família Baruel e que estava alugada para a Guarda Civil. Agora, eu ouvi muitos elogios à Guarda Civil, quando foi a Revolução de 32, que eles foram maravilhosos. Sempre a gente saia na rua e via aqueles guardas perfilados, que nós chamávamos de “grilo”, por causa do apito, que eles apitavam. E que nos davam muita ordem. Hoje você não vê ninguém, né? E depois eu não sei o que aconteceu com a Guarda Civil. Teve um problema aí que eu desconheço. Não sei se ficaram aquartelados? Não deixaram mais ir pra rua? Não sei. Eu sei que até a Revolução de 32 eles fizeram uma beleza de trabalho. Eram muito bonitos, muito perfilados, muito bem vestidos. A senhora nos disse também, no nosso contato inicial, que sua mãe chegou a receber a Guarda Civil, nessa casa... Não meu bem. Não foi a Guarda Civil que minha mãe recebeu. Quando meu pai foi à Revolução de 32, ela preparou na casa da mãe dela, na alameda Barão de Limeira, o lanche, 400 lanches pra todo batalhão dele. Era o pessoal que estava servindo na Revolução? É. O batalhão em que meu pai fazia parte. Meu pai era segundo tenente, e mamãe ofereceu o lanche de partida para todo o batalhão. E o que tinha nesse lanche? Por isso que eu digo pra você. Hoje, inclusive eu me lembro, porque eu achava lindo, porque ela fazia também o meu lanche e possivelmente ela devia ter coisas que eles podiam levar pra comer. Porque eles tinham aquela...me falta o nome agora, aquela garrafa que eles penduravam aqui, que eles levavam a água. Cantil? É cantil. Que era redondo, com feltro em volta. Pode ser que tivesse café. Então, inclusive eu não me esqueço. Agora, possivelmente devia ter sanduíche, quem sabe uma fruta, não sei. E, como eu disse, eram todos embrulhados em papel de seda nas cores da nossa bandeira, sendo que eu acho que o papel preto e o papel vermelho era até uma imprudência. Acredito que mamãe tivesse posto a banana que tem cacho com isso. (risos). Mas é como eu disse, aquele tempo, o entusiasmo falava mais alto. Qual a outra coisa que a senhora lembra da Revolução de 32? Eu lembro muita coisa da Revolução de 32. Meu pai foi, minha mãe fez parte da campanha que arrecadou ouro para o bem de São Paulo, a carta que ela mandou para o Dr. Ruy Mesquita prestando contas. Ele publicou na primeira página do Estado de São Paulo, eu tenho até hoje. Meu irmão foi ser escoteiro. Ia de bicicleta entregar carta, porque os carteiros foram requisitados. As senhora todas iam com pacotes, costurar na Cruz Vermelha, porque os automóveis não estavam... Acho que não tinham gasolina e os choferes também tinham ido pra guerra. E eu me lembro uma coisa muito engraçada, que nós morávamos na rua Brasílio Machado e naquele tempo passava ônibus na rua Brasílio Machado. Depois deixou de passar. Passava só em cima e em baixo. Mas passava o ônibus. E mamãe, que era uma pessoa não acostumada a andar de ônibus, tinha seus compromissos lá com a costura e com as coisas. E o chofer do ônibus tinha a maior das boas vontades, porque sabia que todo mundo estava lutando por uma causa só. Então, me lembro uma vez que, mamãe saiu na janela do meu quarto, do andar de cima, e gritou pro chofer do ônibus, que ela já estava indo. E o chofer esperou, parou, esperou, e ela desceu e saiu pra pegá-lo. Então, você imagina, pensar isso nos dias de hoje. Uma pergunta, voltando mais ainda no tempo. A senhora sabe como seus pais se conheceram? Sei. E sei muito bem como eles se conheceram. Eles pertenciam de um certo modo, nuns troncos bem longe, às mesmas famílias como era antigamente, famílias tradicionais de São Paulo. E a minha mãe me dizia, ela foi fazer uma estação em Caxambu, e meu pai também foi pra Caxambu, porque estava na moda. Se conheceram em Caxambu. E, meu avô, pai de minha mãe, era diretor da Companhia Mogiana de Estradas de Ferro. Então mamãe foi várias vezes pra Caxambu, inclusive quando foram inaugurar a estrada de ferro lá. Eu nem sabia que a Mogiana ia até Caxambu, porque Caxambu é em Minas, e a Mogiana é de São Paulo. Mamãe, quando era mocinha, ela só viajava em trem especial, com o pai dela. Não é vagão. Trem especial com locomotiva, tudo. Porque era critério da diretoria. Os diretores todos viajavam assim. Os diretores todos. Então, mamãe, as vezes dizia modestamente que nós íamos porque os colegas mandavam então ele também mandavam para os colegas porque era o regulamento. Então, eles se conheceram em Caxambu. E quando eles se conheceram, que começou um certo interesse, daí meu pai falou pra mamãe que gostaria de se casar com ela. Minha avó que era muito rigorosa, não tinha esses tempos de hoje. O que ela não iria pensar. Ela disse que meu pai tinha que se retirar de Caxambu. Porque desde que ele falou em casamento pra ela, não podiam ficar os dois no mesmo teto. Estavam no hotel. No hotel de Caxambu. Então meu pai veio embora. Aí a família também voltou quando terminou a temporada, e daí o namoro prosseguiu. E depois eles vieram a se casar. Se casaram no dia 20 de junho ,eu acho que de 1916 E a senhora, como conheceu seu marido? Eu conheci meu marido no Rio de Janeiro. Ele era pernambucano. Eu conheci meu marido no Rio de Janeiro porque nós íamos fazer temporada no Copacabana Palace e, meu pai já tinha morrido e mamãe disse que queria muito mandar pintar um retrato a óleo, meu. Então, chegamos lá no Rio, tinha um pintor russo. Ele até era casado com a princesa russa. Essa princesa russa me disse que o avô dela foi o último czar, o último ministro do czar. A mãe dela era princesa. Mesmo no passaporte dela estava princesa de tal. E ele chegou de Paris, onde eles moravam e no Copacabana Pálace estava fazendo um sucesso, diziam que era um pintor de muito nome, dançava muito bem...Tinha feito em Paris o retrato da Coco Chanel, enfim. Mas, mamãe não entendia de pintura, e além disso nós não tínhamos visto ele pintar nada. Contava-se no hotel. Daí, minha mãe já tinha, já conhecia meu marido por outros conhecimentos, ele foi visita-la, e mamãe disse: “Você podia me dar uma opinião sobre o serviço desse pintor, porque, ele pra fazer o retrato de Albertina, ele me pediu dez contos. Então quero saber se ele é ótimo.” Então meu marido foi lá no ateliê do pintor pra saber, e ele viu belezas na parede, mas não viu o pintor pintando. Meu marido era pernambucano, foi morar no Rio de Janeiro. Então, você sabe, fica com um pé atrás, o que os franceses dizem “Arrière pensée.” Então, pra dar uma responsabilidade dessa pra minha mãe, falou: “Bom, se o que tem na parede foi ele que pintou, é muito bom. Mas eu não ví ele pintando”, Então, depois ele ficou muito amigo desse pintor e eu contei pra ele: “Você sabe o que o Ubirajara falou de você... Se o que tivesse na parede fosse feito por você.” Então daí achou o que tinha nos livros. O Benezi é um dicionário dos grandes pintores. E ele consta do Benezi. Meu marido entendia muito de arte, porque ele fez o curso de arte do Rio de Janeiro, do Museu de Belas Artes do Rio de Janeiro, então ele era identificado não só ele gostou da pintura, como ele viu esse pintor constava. Então daí começou a pintar o meu retrato. Meu marido, que gostava muito, foi lá pra assistir as poses, e começou o namoro. Enquanto isso, eu tinha um grupo de amigos, muito grande, indo às festas, à praia. Mas esse foi o verdadeiro namoro. Então meu marido chagava lá e dizia pra mim: “Vamos passear. Está uma tarde tão bonita, vamos passear na Lagoa, no Rio de Janeiro. Como é que chama? Rego Freitas? Rodrigo. Rodrigo de Freitas. “Vamos passear na Lagoa.” Então ficava lá minutos e íamos passear na Lagoa. Acontece que o retrato não acabava. Eu não pousava, o retrato não acabava. E evidente eu não ia falar pra mamãe, nenhuma filha fala. Então um dia mamãe telefonou pro pintor e disse: “Mas o senhor falou que fazia em dez, doze dias esse retrato, e já faz quase um mês, e o retrato não está pronto? Eu não moro aqui no Rio, eu moro em São Paulo. Estou construindo uma casa em São Paulo, tenho meu outro filho em São Paulo e preciso voltar. E o senhor não termina.” E o pintor, que viu um namoro nisso mas que quis ser muito correto, mentalidade estrangeira, disse pra mamãe: “Ah. A senhora sabe, eu realmente errei quando eu falei pra senhora, porque eu não estava acostumado com o clima do Rio de Janeiro. Eu sou de outro país, e as tintas estão reagindo diferente. Mas a senhora pode estar sossegada que eu agora já me atualizei, já sei, e que agora vai acabar logo. Daí quando eu cheguei pra pousar, ele falou: “Se você não ficar aqui pra pousar, eu vou contar pra sua mãe que você sai com um rapaz.” “Eu vou contar pra sua mãe que você sai com um rapaz.” Então aí eu fiquei, o retrato acabou, está até hoje na minha cabeceira, no meu quarto, ficou a história da minha vida, depois foi pra casa de mamãe, porque eu morei com mamãe cinco anos aqui em São Paulo, quando me casei, porque meu marido tinha... era do Rio, quer dizer, morava no Rio, então veio aqui.... Então estava na casa dela, porque a casa era dela, o retrato era dela. Aí, quando nós construímos nossa casa, que nós fomos embora, meu marido disse pra mamãe: “A senhora quer ficar com o retrato?” Mamãe disse: “Pode levar, leve. Pode levar.” Como quem diz, já que vai levar minha filha, leva o retrato também. E esse retrato acabou sendo a história da minha vida. Dona Albertina, qual o nome do seu marido? Ubirajara Ribeiro Santos. Ele foi seu primeiro namorado? Não. Não foi não meu primeiro namorado. Foi a grande emoção da minha vida, mas não foi o meu primeiro namorado. Tive vários outros namorados. Casei com 20 anos. Comecei a namorar com 15. Mas eram coisas ligeiras. Na época da sua juventude, de sua adolescência, a senhora disse que freqüentava muito as festas. São Paulo tinha festas maravilhosas. E as músicas que tocavam. A senhora tem alguma recordação assim, que tocou assim na senhora? Nós éramos da época dos “blues”, pras festas. Naturalmente o samba era no Carnaval. E então tinham muitas. Ia até...agora a memória não ajuda muito, eu não vim preparada para isso, mas havia até um programa de rádio, que você organizava o programa. Você escolhia. E no dia que eu escolhi, me lembro que eu escolhi de Deep Purple, escolhi Picolino. E tem outras músicas que ainda me falam, mas eu não saberei dizer agora. Assim, da música popular brasileira mesmo, a senhora não tem lembrança de.... Do samba de Carnaval. Então, vamos falar um pouquinho de Carnaval agora...A senhora se fantasiava, ia aos bailes? O Carnaval de rua como é que era? Muito. Uma que eu lembro, essa eu já não era tão pequena, aquela.. você sabe... Cachaça... água...Cachaça não é água não. Tinha uma, Jardineira, parece. Tinha a Mulher do Padeiro...tinha muitas músicas...... O Carnaval...A primeira festa de Carnaval que eu fui, foi em 1931. Eu fui fantasiada de chapeuzinho vermelho, como eu pus no meu relato. Quantos anos a senhora tinha? 1931, eu nasci em 26...cinco. E essa fantasia era realmente uma beleza. Tinha uma senhora aqui, Dona Cristina, que só fazia fantasia. Ela era linda. Ela tinha milhares de babados vermelhos. Mamãe era muito caprichosa, então tinha uma cestinha que ela mandou pintar de dourado, e ela arranjou miniaturas de garrafas de vinho, mandou fazer pão pequenininho pra por na cestinha, o lencinho era de tafetá vermelho, escrito “vovó.” Mandou bordar em dourado. E tinha um chapelão. Só o que não combinava era a cabeleira, que não se dizia tanto peruca, a cabeleira tinha tranças, era loira, não combinava nada com meu tipo. Mas, enfim era como eu estava. E eu ganhei o primeiro prêmio na festa do Trianon, que em baixo tinha uma festa. Eu tenho poucas lembranças porque eu era pequena, mas eu lembro que eles pegaram e me levantaram assim, e aquela ovação em volta. Não era assim uma passarela, nem um palco. E esse retrato, há dois anos atrás, saiu no jornal de São Paulo, dizendo, Carnaval do passado. E uma amiga minha me mandou pro Canadá. Eu estava com uma prima que já é falecida, que estava muito bonitinha também, então eu dei esse jornal pra filha da minha prima, porque não conheceu a mãe nessa ocasião. Mas eu tenho fotografia. A senhora chegou a freqüentar os bailes do Municipal? Do Municipal, eu fui depois de casada no Municipal do Rio, com meu marido que era muito bonito. Aqui, talvez eu tivesse ido, a uma matinê no Municipal. Mas eu me lembro mais das festas da Hípica, do Paulistano e do Harmonia. Carnaval de rua era animado? Carnaval de rua era animado. Quando eu era menina, era na Avenida São João, mas eu não peguei ainda o corso da Paulista. No meu tempo já era na Avenida São João. Era muito agradável. Nós íamos de carro aberto, tinha microfone na rua, depois, era só gente conhecida. Você descia do carro, jogava serpentina nos seus amigos. Como a senhora andava aqui em São Paulo? Era com sua governanta, antes de casar? Não o tempo todo. Depois que fiquei moça, não andava mais acompanhada. E a senhora andava de camarão? Isso quando eu era pequena, com a Tata. Mas era pra passear quando eu tirava nota boa. Porque automóvel pra mim era novidade. Todo mundo tinha automóvel e eu também. Conta um pouquinho pra nós como era o bonde, esse bonde de camarão? Ah. O camarão chamava camarão porque era vermelho e era um bonde fechado. E persistiu por algum tempo. Agora, na Al. Barão de Limeira tinha bonde aberto. Mas eu quase nunca andava de bonde. Eu ouvia falar. Os homens andavam, até meus tios todos que tinham automóvel também andavam, porque bonde era vazio, passava devagar. E naquele tempo tinha essa praça, onde tem os ônibus, tem metrô hoje. Bonde aberto era aberto. Você entrava e sentava nos bancos. Eu tenho a impressão que o condutor, tenho quase certeza, que o cobrador ficava em pé no estribo, que tinha estribo. E vinha cobrando das pessoas. E no camarão só pagava quando descia. Por isso eu gostava de passar a tarde inteira, porque só pagava uma vez. Então a senhora ficava passeando pela cidade de São Paulo? Nós dávamos uma volta, duas voltas, três voltas e a Tata concordava com tudo. E fazia suas vontades e de seus irmãos? A senhora deveria gostar muito dela, não? Claro que eu gostava muito. É? A senhora não...Era bem afeiçoada a ela, não é? Até hoje eu tenho contato com a família dela. A sobrinha dela no interior, ainda falei no telefonou a semana passada e me trouxeram um presente de Páscoa. E como que ela veio morar, veio se agregar à sua família, cuidar da senhora... Era de uma família muito fina de Serra Negra. O pai dela era fazendeiro, o avô era fazendeiro. O pai morreu muito moço, e eles então...esse atrapalhação de família não foram pra diante. Tanto que ela tem um primo, que é um pintor muito bom, que assina Serra Negra, mas o nome dele não é Serra Negra. O nome dele, de família é Abreu. Pra fazer charme de pintor assina Serra Negra. Pintou uma igreja lá de Serra Negra. Mas, a Tata era professora substituta, gostava muito de criança, sempre foi solteira. Morreu com 85 anos, então eu sou uma mulher privilegiada porque quando eu fiz 60 anos eu ainda tinha a Tata. A enfermeira da minha neta falou: “Ih. A vovó ainda tem Tata?” E qual o nome da Tata? Ana. Mas, acontece que ela me escrevia cartas lindas Ela era professora substituta, ela tinha uma letra linda, e ela queria saber tudo o que acontecia comigo. Depois de eu casada, quando eu ví, assim: “Eu dei um jantar, servi isto, servi aquilo...” Mas o irmão dela, que era mais moço, foi copeiro da minha mãe, já estava na casa da minha mãe quando eu nasci, na Barão de Limeira, o irmão dela foi se empregar de copeiro. Depois descobriram que ele era de família boa. Mas eles ficaram sem nada, e antigamente não tinha tantas ofertas assim. E ele teve um gesto muito nobre porque, a irmã estava estudando, e ele não quis interromper os estudos da irmã. Então ele foi se empregar de copeiro. E depois, ele nem ligava. Foi servir, em todas as festas, em São Paulo, festas finas. Então, ele ficou assim mesmo. Eles eram pessoas de um nível muito bom. E ele era do lado da família de minha mãe. Mas como meu avô ficou cego, esse meu avô paterno, minha mãe pediu pra ele ir ser empregado particular do meu avô, pra ajudar. E quando o João, que era esse nosso copeiro estava trabalhando em casa de mamãe, ele falou: “Eu tenho uma irmã que gosta muito de criança.” E aí a Tata entrou na nossa vida. Então ela era assim a sua acompanhante. Pra todos os lugares que a senhora ia... E fazia assim barbaridades. Que barbaridades? Barbaridades, porque eu já estava casada. E eu sempre gostei de ter gente de visita, de convidados. Fui pro Rio de Janeiro, convidei embaixadores pra jantar lá em casa, e ela disse pra minha mãe disse: “Olha dona Carmelita, Betina (que era como ela me chamava). Betina, imagine, convidou embaixadores pra jantar, nós estamos sem cozinheira. Mamãe disse pra ela: “Você não me venha queixar não. Porque a culpa é só sua. Porque ela sabe que você resolve tudo, por isso que ela faz. Se ela soubesse que você não resolvia, ela não fazia." E de fato, eu sabia o que estava fazendo, porque ela fazia tudo maravilhoso. Ela fazia o governo de casa. ela fazia tudo maravilhoso, ela cozinhava que era uma beleza, ela arrumava a mesa que era uma beleza, ela cuidava de criança que era uma beleza...“ Ela inventa, porque ela sabe que você faz. Por isso não venha me reclamar.” (risos) Foi seu anjo da guarda, né? Ela ainda fez um vestido de crochê pra minha neta, e igual pra boneca da minha neta. Entrando na fase de seu casamento. Como foram os preparativos? Quando meu pai falou que queria casar com ela , minha avó disse que ele não podia estar no mesmo teto. Isso é coisa de muitos anos. Que não podia ficar em hipótese alguma, no mesmo teto, no hotel. Eu quando me casei, não tinha mais pai. Meu pai morreu eu tinha 12 anos. Minha mãe preparou, planejou tudo como pode. Não era uma coisa exagerada, que mamãe era muito contra esses exageros que fazem hoje, que convidam mil pessoas, pessoas que se conhecem de cabeleireiro, de cruzar na rua. Você convidava as famílias que eram mais amigas, que freqüentavam a sua casa, e era uma coisa mais discreta Foi tudo muito bonito. Meu vestido muito bonito. A melhor costureira de São Paulo se chamava Dona Maria Solavagone. Ela punha a gente em pé em cima da mesa pra arredondar o vestido. E eu tive como dama de honra uma grande amiga minha, que vivia na Avenida Angélica, de quem eu sou amiga até hoje... Qual o nome dela? Maria de Lourdes. Ela era Camargo. Depois, ela está casada com Sérgio Bardella. Nós somos amigas desde 1937. Até hoje nos falamos duas, três vezes no telefone. Ela foi minha dama de honra. Ela estava linda, com um vestido muito lindo, todo branco, mas com parte de baixo tinha três listas: azul claro, rosa claro e amarelo claro. Quer dizer, a saia. Depois tinha várias saias de organza por cima. Então, quando ela andava parecia um vidro de perfume. E foi o cardeal que fez o meu casamento, na Igreja Coração de Jesus. Eu tenho um filme do casamento. A senhora lembra o nome do cardeal? Muito. Pois ele rezou minha missa de Bodas de Prata. Foi Dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta. Ele fez o meu casamento, e 25 anos depois ele rezou uma missa na Aparecida, que eu estava morando lá, de ação de graças, nas minhas bodas de prata. E, a data de seu casamento, exatamente, qual foi? 11 de dezembro de 1946. A senhora tinha 20 anos? Eu fiz 21 um mês depois. Nós fomos pra Buenos Aires, e voltamos pra passar os 21 anos aqui em casa de mamãe. Então, quando a senhora se casou, a senhora foi morar onde? Em que bairro de São Paulo? Então, no Jardim Paulista, em casa de minha mãe. Na rua Mena Barreto, esquina Henrique Martins. Hoje é um prédio, estilo francês. A senhora passou lá quanto tempo? Cinco anos. Daí, a senhora foi... Daí eu aluguei uma casa no Itaim, enquanto construía a minha, na travessa da Faria Lima. E foi nessa casa do Itaim, que também faltava água, muito... e eu quis dar esse jantares que a Tata se queixou, mas deu conta muito bem. Quer dizer que a Tata acompanhou a senhora. A Tata resolvia tudo. E quando nasceu o seu filho, João a senhora morava com a sua mãe, não é? Foi o primeiro neto dela? Primeiro neto. Conta mais um pouco de seu irmão. Meu irmão me queria também muito bem. Fazia muito as minhas vontades, e como eu lhe disse, ele tinha sete anos quando eu nasci, então meu pai tirou um retrato, eu no jardim quando eu era bebezinho, e meu irmão tem... foi meu primeiro retrato, que você sabe, naquele tempo, em 1926, não tinha aparelhamento assim tão bons pra amadores tirar dentro de casa, essas coisas. Então, o primeiro dia que eu pude sair no jardim, estava sol. Então, meu irmão pôs a mão assim, que era pro sol... Eu admito. Vi esse retrato que ele está com a mão assim, protegendo, para me proteger do sol. Então eu digo que, ele começou naquele retrato, e a vida toda ele sempre quis me proteger. Ele me queria muito bem e eu queria muito bem a ele. Nós temos gênios completamente diferentes. Tínhamos um modo de pensar, em várias coisas, completamente diferente. Então, nós até achávamos graça porque, um contava pro outro o que queria fazer, mas já sabia de antemão que o outro não ia aprovar. Mas contava. E depois eu fui pro Canadá, e eu estava lá quando eu fui chamada, que ele estava mal, teve problema de coração. E quando eu cheguei aqui, infelizmente ele já estava em estado de coma. Vai fazer agora, dia 14 de junho, cinco anos. Ele faleceu acometido por qual doença? Pois é. Ele tinha uma pequena coisa no coração. Parece que alterou a parte respiratória. Ele era viúvo da primeira mulher, Maria Helena Quartim Barbosa, depois ele se casou uma segunda vez com Rachel de Toledo Piza, mas os quatro filhos são do primeiro casamento. Meus sobrinhos queridos, que até hoje acompanham a minha vida, sendo que o mais velho, que é meu afilhado, veio de surpresa, almoçar comigo no Dia das Mães. Ah. Que lindo. Aliás, quero muito bem a ele. Só tenho uma sobrinha mulher que era afilhada de meu marido, de quem eu gostava muito. Quero muito bem os meus sobrinhos. A senhora disse que tinha 12 anos, essa fatalidade na sua vida, a morte de seu pai. Ele veio a falecer de que? Meu pai tinha pressão alta devido ao mau funcionamento dos rins. Ele tinha 48 anos quando ele morreu. Ele foi para os Estados Unidos pra Mayo Clinic, que foi a única que descobriu a minha paralisia, porque até então ninguém sabia o que tinha acontecido comigo. Eu tive um febrão em outubro, pensaram no pulmão, fizeram radiografia, isto, mais aquilo, não era pulmão. Daí, passou, acharam que eu não tinha mais nada. Que era gripe forte. Daí nós fomos para os Estados Unidos, que meu pai foi...que eu falei daquele cartão que o carteiro entregou direto para o professor de inglês. Fomos pra Mayo Clinic pro meu pai fazer uma operação, que se fazia na ocasião. Que cortava uma veia dos rins. A operação era para que o mau funcionamento dos rins que ele tinha, não afetasse o coração. Mas ele chegou lá, não pode fazer a operação, porque estava muito adiantado. E o médico disse que não era possível. Então, estavam se preparando pra voltar para o Brasil. Meu pai era uma pessoa muito otimista. Tem carta dele escrevendo para Ademar de Barros, que era nosso interventor, e depois da operação, se fosse bem sucedida, ele ia representar o Brasil no pavilhão do DMC, na exposição de São Francisco. Eu ia pra um daqueles colégios de meninas, aqueles colégios internos , que eu me lembro que veio catálogos, uma beleza, as meninas passeando de bicicleta, o uniforme era lindo. Aí, meu pai teve um derrame e faleceu na Mayo Clinic. Então nós voltamos pro Brasil. Ele veio a falecer no exterior? Nos Estados Unidos. Mas, foi lá nos Estados Unidos, que assim que ele chegou, começou a fazer os exames, eu também fui fazer os meus e descobriram meu desvio era disso Aí nós voltamos pro Brasil. E, minha mãe não falava inglês. Falava só francês. Que ela morou em Paris muito tempo. E eles levaram um secretário americano pra fazer a parte em inglês. Meu pai falava inglês. Mas acontece que esse secretário, como bom homem de negócios, quando viu que meu pai morreu, e que ele já estava nos Estados Unidos, ele resolveu ficar. E mamãe só soube que ele não vinha, quando estava dentro do navio. Eles tinham um contrato com esse secretário, naturalmente eles pagavam a viagem, uma quantia pra ele, e ele tinha que trabalhar pra minha mãe até 14 de janeiro. Para meus pais. Que era a ocasião que meu pai imaginava de já ter sido operado e ter voltado. E nós chegamos aqui em São Paulo, parece que no dia 6 ou 7 de janeiro. Portanto chegamos uma semana antes do tempo que ele tinha obrigação. Disseram ã mamãe que ela podia questionar. Mas, questionar o que? Meu pai já tinha morrido, nós já tínhamos chegado, ela já estava tão contrariada...Então, ele que foi para se encarregara de tudo, avisou mamãe que não vinha. Então, o navio era um navio inglês, e quem cuidou de todas as coisas fui eu, com 12 anos, porque acontece que as comunicações eram péssimas. Não havia telefone, os telegramas chegavam truncados. Quando nós paramos em Recife. Meu irmão já havia escrito pra mim dizendo nos esperar. Tinha até uma carta de meu irmão lá. Então, nós chegamos ao Rio de Janeiro, meu irmão entrou a bordo pela lancha da polícia, antes do navio ancorar. E mamãe era da família Aranha, prima de Oswaldo Aranha, chanceler Osvaldo Aranha, que mandou o governo recomendar. Então, o cônsul de Nova York foi a bordo, disse ao comandante que papai era recomendado pelo governo do Brasil. Então, quando chegou em Santos, no navio, o caixão de meu pai foi suspenso com a bandeira brasileira, no guindaste, com aquele toque fúnebre que fazem, e desceu no cais do porto de Santos. No cais do porto de Santos tinha essa companhia, que era do meu avô junto com os filhos, que chamava Companhia Internacional de Armazéns Gerais. Era uma sociedade anônima, meu avô era o maior acionista, mas os filhos também eram acionistas, e meu pai foi diretor muitos anos. Depois, ele tinha cedido o lugar pra outra pessoa que precisava, e minha avó, descendente de alemães era muito formal, então no cais do porto estava a bandeira militar dos armazéns, e os empregados da companhia, eles eram empregados que carregavam sacas de café, então eles estavam do jeito que eles usam, mas todos com, todos com fumo no braço, porque minha avó era descendente de alemães, e exigia muito. E o cais do porto estava repleto de amigos nossos, todos de luto fechado. Olha, era janeiro, um calor horroroso. E aí desceu o caixão do meu pai e veio em trem especial que já estava lá no desvio, que essa companhia atinha um desvio, veio pra São Paulo, pra Estação da Luz. Aí, chegou lá, na Estação da Luz, e também tinha muitos amigos lá, ele foi enterrado na Consolação. Não havia mais terreno na Consolação pra vender, e o prefeito Prestes Maia mandou fechar uma rua, pra poder fazer a sepultura dele, porque não havia mais terreno pra vender. Agora, acredito que haja, porque muitas pessoas se desfazem. Atrás do túmulo dele, você vê que fechou uma rua, e temos acessos atrás. Isso foi uma coisa horrorosa. Até hoje marcou. A morte de meu pai. Aos 12 anos, nessas circunstâncias... E ele me fez muita falta. E falando nessa falta que o pai da senhora fez, a relação entre a senhora e seu pai e a sua mãe, a senhora era mais próxima do seu pai ou era mais próxima de sua mãe? A senhora tinha mais afinidade com quem? Não é que eu fosse mais próxima do meu pai. Ele é que era mais próximo de mim. Ele fazia tudo o que podia por mim. E, mãe é mãe. E foi ela que teve a parte maior na nossa educação. Mas papai era muito alegre, trazia muita alegria pra dentro de casa, gostava de tudo. O estilo de vida mudando, inclusive o financeiro. E depois, a vida de vocês, como é que ficou, sem o seu pai? Nós prosseguimos, sempre muito amigos, sempre muito empenhados os três com as coisas nos acontecendo. (emoção) A senhora tem um filho de nome Pedro? Não, João, que era o nome do meu pai. E além do João a senhora tem mais algum filho? Tive uma menina, que morreu com sete anos. Acometida de que? Ela nasceu asfixiada. Então ela tinha um problema. E como tudo pra mim tem sido muito trágico, ela morreu no avião da Varig, no céu do Rio de Janeiro. Porque, ela foi pros Estados Unidos fazer recuperação. Depois que ela piorou me chamaram, eu fui buscá-la, quando nós vínhamos voltando com ela, ela faleceu. O que ela teve? A senhora disse que ela ficou vários anos doente? Sete anos. Esteve doente no sentido que ela não andava e não falava. Ela teve um...Como ela nasceu asfixiada, ela ficou com uma parte motora afetada. E nos Estados Unidos tinha esse hospital pra fazer recuperação. Como era o nome dela? Maria Albertina. Nós chamávamos Maria Albertininha. Foi escolha do meu marido. E os seus tios? Fale um pouco dos seus tios. Eu tenho muitos tios de todos os lados. Do lado da minha mãe, como eu disse, na Barão de Limeira, eu era a caçulinha da família. Então eu era mimada não só pelos tios como pelos primos porque todos eram mais velhos. A minha mãe tinha uma irmã casada com o Bandeira de Mello que é minha amiga até hoje, ainda são da minha família, os descendentes. Esse meu tio morava vizinho, até ele me levou ao altar quando eu me casei. Ele que era Bandeira de Mello. Ela era irmã de minha mãe. E eles tinham tido uma filha que morreu na infância. Então, eles só tinham dois filhos homens, então faziam mil agrado para mim. Depois na outra esquina morava outra tia, tia Carmen. Ela era até prima do marido, mas era o marido que era irmão de mamãe. E ela era uma pessoa muito convidativa, muito alegre, muito disposta. Gostava também de criança. A filha dela já era moça, e eu ia todas as manhãs fazer uma visita pra tia Carmen. Agora, você imagina, todas as manhãs, uma criança cheia de ferramentas. Mamãe dizia: “Fico boba de ver a paciência de Carmen.” E uma vez eu fui ao cabeleireiro com mamãe, e ela estava lá, fazendo as unhas, e eu fiquei furiosa, porque ela estava corrigindo meu serviço. Eu sou amiga até hoje, da filha e das netas dela. Depois tinha um... Esses moravam vizinhos. Um outro tio, que também não tinha filhos, esse também era muito gentil, mas esses moravam já mais afastados. E tinha a governante da casa da minha avó, que era uma senhora italiana que criou minha mãe, que foi minha madrinha de crisma. Se chamava Marietta e nós chamávamos de Etta, que me queriam bem. Uma espécie de avó também. Do lado do meu pai, meu pai também tinha vários irmãos, e o caçula... A viúva dele é viva até hoje. Fez 95 anos agora em fevereiro. Ele custou muito a ter filhos, tanto que o filho dele é mais moço do que os nossos, do que os meus e dos meus primos. E tinha primos irmãos, Bandeira de Mello e Aranha, minha prima, que eu fazia as unhas também dela. Hoje meus tios... Meu pai tinha esse irmão mais moço. Chamava-se Plinio de Castro Prado .Fazia parte da Hípica. Ele gostava muito de montar a cavalo, naturalmente como todos da família, tomava conta de fazendas. Mas ele jogava polo. E depois tinha minha tia Lilia, que se casou com um engenheiro, Zózimo de Abreu. Era engenheiro e foi diretor dessa companhia do meu avô em Santos, essa Internacional. Meu pai era diretor, mas depois ficou pra ele, quando ele se casou, pra meu pai cuidar de outras coisas. E tive um tio, Cid de Castro Prado, foi deputado federal. Era muito viajado, falava muitas línguas, gostava muito de viajar, e a esposa dele, apesar de ser minha tia por afinidade, me queria muito bem. Me queria um bem enorme. Ela tinha três filhas moças, mas ela sempre me agradou muito, sempre gostou que tudo desse certo pra mim, me queria um bem enorme. Depois tinha a irmã mais velha de meu pai que se chamava Zuleica, mas ela casou-se mais tarde, com um médico, que nós gostávamos muito, mas eu tinha pouco contato, porque ela viajava muito. Ela não teve filhos. Nossa.... fale um pouco de seu marido. Como eu disse pra você, meu marido tinha uma diferença grande de idade de mim... Acho que por isso talvez ele fizesse muito a minhas vontades. Dizem os psicólogos, talvez pelo fato de eu ter perdido meu pai ainda criança, talvez por isso eu tivesse escolhido um homem mais velho, porque eu tive outras oportunidades que não me interessaram, e ele veio pra São Paulo, que ele morava no Rio, mas ele era uma pessoa de muito bom senso, então ele disse: “Em geral a mulher acompanha o marido, mas é que o Rio de Janeiro não é minha cidade. Minha cidade é Recife. Rio de Janeiro, eu vim pro Rio de Janeiro. Então eu não vou tirar a Albertina do convívio familiar dela e trazer pro Rio, que eu não tenho ninguém pra oferecer.” Então ele resolveu vir morar em São Paulo. Morou em São Paulo, trabalhou...Ele era corretor, mas antes foi diretor de uma firma que se chamava Siparra que fazia imobiliários. Até hoje existe Siparra em Osasco. Depois ele ficou com escritório na Av. Paulista. Ele era corretor mas assim, vamos dizer, um pouco especializado, que eles chamam de Free lancer. Tinha assim uma pessoa que chegava e dizia: “Preciso de um terreno pra uma fábrica em tal lugar.” Fazia assim coisas mais especializadas. Não esse de por anúncio de apartamento. Ele gostava muito de artes, como eu falei ai do museu que nós fomos, ele era amigo do professor Bardi, desde a fundação do Museu de Arte de São Paulo, acompanhou muito depois foi até do conselho, como eu falei, do Oratório. Participava muito dessas reuniões todas de arte. Fundou Sociarte, que é uma sociedade aqui em São Paulo que foi feita, sem fins lucrativos. Pra proteger o artista, porque as galerias, os donos de galeria...aonde eu tenho muitas amigas que me perdões, mas as galerias ficavam com grande parte do lucro do artista. E a Sociarte promovia exposições, onde o artista tinha mais chance. E ele... Eu fui também quando inaugurou o Museu na Avenida Paulista , que foi inaugurado pela rainha da Inglaterra. Como ele era do concelho, e os outros todos, nós todos fizemos parte de uma ala de casais, que estávamos com chapéus largos, luvas altas, e ficamos ali fazendo a cerca, vamos dizer, pra rainha passar. O marido dela com o governador Sodré e a senhora dele, Maria do Carmo. E são lembrança boas. Fizemos Bodas de Prata, demos um grande baile no Jóquei Clube, porque meu filho havia ficado noivo na véspera, um casamento de muito gosto, de uma família muito nossa amiga, que passou a ser desde então a segunda família minha. E nessa época a senhora já fazia algum trabalho voluntário? Ah. Desde menina. Quando era mocinha eu trabalhei na Cruz Vermelha durante a guerra, mas eu organizava as festas em benefício da Cruz Vermelha, e essa parte mais social, fizeram uma exposição de bonecas. Que a Estrela deu as bonecas de presente, a Estrela estava começando, e nós fizemos uma exposição de bonecas em benefício da Cruz Vermelha. E a gente tinha que pedir pras pessoas apresentarem bonecas. Bonecas riquíssimas, todas muito bordadas e com trajes riquíssimos. E mamãe contratou uma costureira em casa, e nós imaginávamos os vestidos das bonecas, porque a Estrela deu as bonecas comuns, que estavam vestidas com aquela coisa padronizada. Eu me lembro. Fizemos uma baiana, todas muito bonitas. E como chamava a associação, que a senhora participa até hoje. A Associação é de trabalho voluntário, trabalho social... E o seguinte: Chamava-se Obra de Preservação dos Filhos de Tuberculosos Pobres. Depois eles acharam que não ficava elegante e tiraram os Pobres. Era um preventório na cidade de Bragança aonde a Viscondessa de Cunha Bueno, há muitos anos atrás, com várias amigas das quais fazia parte a minha vó materna, fundaram essa organização. Eles pegavam os filhos de tuberculosos, levavam pra lá e criavam. Nunca houve um contágio Não teve contágio nenhum. Os pais tinham o direito de visitar os filhos, e era uma beleza. Eu visitei lá várias vezes. Tinha plantação, ensinavam a marcenaria. Mas depois o terreno foi desapropriado, e coincidiu que o governo achou que não devia mais morar lá porque tuberculose hoje já não é uma coisa tão grave. Então fecharam tudo e agora nós temos um posto aqui em São Paulo, que é um posto de atendimento. Os tuberculosos ficam na casa deles, recebem os remédios que são doados por uma organização aí, mas eles tem um posto de atendimento com uma monitora com uma caminhonete, que vai visita-los em casa, pra saber se eles estão tomando o remédio direito, porque diz que se você não tomar o remédio direito no prazo tudo feito aquilo fica crônico, Também se estão comendo, porque nós demos a cesta básica, se eles estão vendendo pros vizinhos os mantimentos. Então tem esse controle. Mas lá é muito bonito, fizeram festa de Páscoa, tem dentista que vai uma vez por mês, atendimento. Até eu telefonei pra ela a semana passada, pra ela mandar uma carta pra uma fábrica de lã, se mandar, que eu faço tricô. Faço pra eles. Estou fazendo agora pra Liga das Senhoras Católicas porque eu moro num hotel pertencente à Liga das Senhoras Católicas. E nós ganhamos um desconto lá. E esse serviço do meu colégio, que era o Colégio Assunção, que mantém também um asilo, que no meu aniversário até eu fui visitar, eles ganharam 800 novelos de lã, do Cotonifício Jorge. Então eu fiz uns cachecol, mas agora eu estou me aventurand a fazer uns susteres. Quero ver no que dá. Eu já fiz, mas a gente perde (risos). Essa obra social é vinculada à alguma instituição aqui em São Paulo, ela foi fundada por quem? Ah. Você quer falar do colégio? Da obra social dos tuberculosos. Ah. Dos tuberculosos. É tudo registrado, 14 médicos que me falta o nome agora, que combatiam a tuberculose, tudo. Considerado órgão oficial A senhora tinha falado alguma coisa das ex alunas do colégio. Isso já é uma outra obra. Chama-se AME, Associação Madre Maria Eugênia. É uma obra fundada, essa bem mais recente, das antigas alunas do Colégio Assunção. Ela também mantém uma creche, também mantém um asilo. E foi esse asilo que eu visitei no meu aniversário. Então, desde jovenzinha a senhora desenvolvia seu trabalho voluntário, seu trabalho filantrópico? Já de mocinha a gente compartilhava de festas em benefício... Depois eu tinha muitas amigas que eram diretoras por exemplo da Liga das Senhoras Católicas. Eu tinha muitas amizades e ajudava a elas. Porque eu nunca fazia... Trabalhei um pouco em correspondência. Eu não podia fazer demais porque fiz a vida inteira muitos tratamentos por causa do meu problema físico. Agora que eu não estou fazendo, porque eu tive que fazer uma operação. Pus uma prótese, e agora o ortopedista não quer. Agora não estou fazendo. E antes o meu tempo era mais de papelada, de telefonar pedindo... Agora a senhora fica mais no trabalho artesanal de preparar os projetos.... Correspondência. Porque eu adoro papelada, embrulhar para arrumar A senhora gosta de escrever né? Gosto de escrever assim. De organizar, classificar. Eu trabalhei no fichário do Padre Sabóia pra classificar, e trabalhei, quando meu filho estava no Colégio Santa Cruz, também na Fundação Santa Cruz. A senhora falou no seu filho, o João. Como era o dia a dia da senhora com seu filho. A senhora o levava ao colégio? Não. Nunca guiei automóvel. Quem o levava ao colégio era meu marido. E eu gostava de dormir de manhã. (risos) Mas eu estava em casa sempre as cinco horas, quando ele chegava, e recebia os amigos dele todos lá, muitos dos quais são hoje executivos de muito nome, e os tratava muito bem. E o João era um bom aluno, um bom filho. Ele era maravilhoso. Ele entrou no Colégio Santa Cruz ente os dez primeiros, e teve sempre as primeiras notas. Mesmo lá no Canadá. E ele hoje é um alto executivo? Nós estamos chegando do Canadá há pouco tempo. A situação aqui não está garantindo fazer muita coisa, mas quando nós fomos pra Vancouver, ele foi diretor de duas companhias muito importantes. Aqui ele teve uma imobiliária, na Avenida Europa, na ocasião que ele se casou, que se chamava Demulan, Campos, tinha quarenta corretores trabalhando por lá, mas antes disso ele assim que se formou, ele trabalhou numa firma que se chamava Univest, aqui. Uma firma que se chamava Univest, que era corretora e era uma das maiores de São Paulo. Ele era mocinho, assistente da diretoria. Mas depois o dono da Univest teve problema de coração e fechou a Univest. Então daí é que abriram essa imobiliária, porque o dono queria fazer alguma coisa, e na Av. Europa era uma casa muito bonita. Hoje até é escritório dos Diniz. Depois no Canadá ele ocupou esses lugares e depois nós estamos apenas chegando aqui, e faz um pouco de medo se meter a uma iniciativa. E como foi sua ida para o Canadá? A minha ida por Canadá foi muito fácil. Eu era viúva, não tenho filha, não tenho irmã. Naquele tempo ainda tinha meu irmão. Eles disseram que iam morar no Canadá. Não tive escolha. Quanto tempo a senhora ficou lá? Sete anos. E como era seu dia a dia lá? O meu dia a dia lá era muito bom. Porque, pra começar, nós não tínhamos empregada. Quem cozinhava era minha nora, que cozinha muito bem. Eu não faço muito bem, mas o que eu faço, faço de gosto. Então eu, ajeitava um pouquinho e trabalhava na igreja católica, no serviço que nós fazíamos de artesanato, e outras coisas também. Tinha reuniões...As coisas que elas achavam que estava errada de moral, nós combatíamos. Uma vez, foi engraçado. Nós mandamos uma carta pra uma pessoa do governo, muito influente, censurando uma coisa que estava errada. E ele respondeu: “Eu acho que as senhoras tem toda a razão. Isso está erradíssimo. Mas eu gostaria que as senhoras me dissessem qual é a solução que as senhora vêem daí.”(risos) .E tinha muitas amigas lá. Lá eles convidam muito. Tinha muitos convites pra chá, e também com minha nora, organizávamos muitas festas em benefício. Mesmo lá no Canadá? Ah sim. Lá mais ainda, porque lá nós éramos ligada à igreja, e fazíamos bazares...E também recebíamos muito em casa, porque todo o brasileiro que ia lá, que nos conhecia.. A senhora gosta muito dessa coisa de receber, viver sempre rodeada de pessoas. Ah gosto. Por isso que eu sinto de estar lá no Hotel da Liga, porque eu tenho muita coisa bonita. Gosto muito de minha casa, de receber. Quando eu tive esse apartamento, embora um ano só, eu já dei festa pra sobrinhos, hospedava afilhados. Mas enfim, tem fases na vida, que a gente tem que se adaptar às circunstâncias. Porque o seu filho resolveu voltar pro Brasil, depois de sete anos no Canadá? Tenho a impressão que meu filho voltou mais por ver que a família inteira queria voltar. E o motivo de eu voltar está escrito no meu final, e o que eu disse, minha filha, que é um país maravilhoso, mas não é o nosso. (risos) É o que dizem os ingleses: Home sick. Mas eu não influi nessa decisão. Eu vim pra São Paulo em visita, sobretudo meus sobrinhos que tinham perdido os pais, e vim passar três meses aqui Quando eu estava com surpresa, minha nora me disse que tinham vendido a casa, e iam voltar para o Brasil. Vamos falar um pouquinho da sua relação com a sua família, seu filho, a sua nora. A senhora tem netos? Tenho uma neta maravilhosa de 17 anos, que é uma grande amiga. Fui ao teatro com ela na semana passada. Como é o nome dela? Silvia. Ela tem o nome da mãe. E a sua nora? Como ela é? A minha nora é um anjo. Não mereço a nora que eu tenho. Minha nora é uma bondade, um anjo, uma moça finíssima Muito culta, muito amorosa, muito cumpridora de suas obrigações. Está casada há 27 anos com meu filho. Quando a senhora veio morar aqui no Lar das Senhoras Católicas? No hotel aqui. Agora em outubro vai fazer dois anos. Mas não foi uma coisa escolhida assim por gosto. É que eu tinha acabado de fazer a operação de prótese, e eu não podia nem ficar em pé direito. Pra ser mais clara, eu não podia nem calçar a meia sozinha, e lá na Liga, eles tem enfermeira 24 horas. Só tocar a campainha. Eu não tinha estrutura pra morar sozinha. Além disso, meu apartamento, que era muito bonito, estava muito bem arranjado, era alugado. E o dono tinha umas exigência, que naquela ocasião, com tanta coisa pra resolver ao mesmo tempo, nós não tínhamos condições de aceitar. Aí então a senhora veio aqui... Aí então entreguei o apartamento e fui pra Liga. E como é seu dia a dia aí na Liga? A minha vida é a mesma, porque eu não faço a vida da Liga. Eu tenho o meu telefone no meu quarto, eu tenho os meus compromissos, as minhas amigas, tenho um cara que trabalha pra mim e continuo almoçando com as minhas amigas, passando o dia, fazendo a minha vida normal. Então quer dizer que a senhora está rodeada de amigas. Amigas eu tenho desde que nasci, mas são as mesmas. Não são do Lar. Lá eu trato todos com a mesma cortesia, tem umas senhoras muito boas, até muito gentis, mas eu não me integro naquela vida lá, porque eu tenho a minha. Qual o seu maior desejo? Bom, eu acho que eu não tenho um maior. Eu tenho vários. Uns eu não gosto de revelar. Eu acho que quando a gente quer muito uma coisa a gente não deve revelar pra que consiga. No teor de viagens que eu fiz muito, eu gostaria de conhecer o Egito. E outros, eu prefiro guardar pra mim. Pra ver, se eles acontecerem daí eu te conto. Voltando atrás, na questão de viagens, a senhora viajou muito não é? Muito não, mas bastante. Com oito anos eu fui pra Argentina. Foi a primeira vez que eu saí do Brasil. Com 12 anos fui para os Estados Unidos, como eu disse pra você, e depois eu fiz várias viagens com o meu marido, com meu filho. Quando meu filho terminou o ginásio nós fomos pra 19 lugares. Saímos começando com a Califórnia. Depois de lá fomos para a Europa. Fizemos tudo aquilo: Inglaterra, França, Espanha, Áustria, e toda aquela volta, e Itália, Espanha, Portugal e voltamos pra Nova York e pro México. Isso foi uma viagem grande que eu fiz quando meu filho se formou, mas de primário. Depois meu filho estudou no Canadá, eu fui lá visita-lo, e fomos passar pelos Estados Unidos, onde nós tínhamos amigos. Depois eu fiz outras viagens com meu marido, inclusive essa que eu chamo de lua de mel da despedida, que foi na Espanha e Portugal, onde foi o casamento dessa princesa, filha de Dom Pedro, nosso príncipe de Petrópolis, que foi um casamento maravilhoso, e uma viagem muito boa também. E pro Rio de Janeiro, que nós íamos muito. O Rio de Janeiro, no tempo em que era capital era uma coisa maravilhosa. Quer dizer, ele continua bonito, mas naquela ocasião havia muitas festas. Eu freqüentei sempre muito o Rio. E apesar de todas essas viagens, São Paulo é a sua cidade? Ah. É A gente percebe que a senhora é apaixonada por São Paulo. (risos) A senhora teve alguma decepção na sua vida? Alguma coisa que a senhora fez e que não gostaria de fazer novamente? Não. Se a senhora está levando pelo lado remorso, eu não tenho. Agora, decepção eu tive muitas. Quem não as tem? Desaponto com pessoas que tiveram comportamento que nos fizeram sofrer, mas eu prefiro não comentar isso. A gente respeita. E, o que a senhora espera da sua vida? Hoje, no ano 2000, mês de maio? O que a senhora vislumbra na sua vida? Eu acho que nessa altura da vida, a gente tem que ser mais condescendente, com os outros, com o comportamento dos outros. Abrir mão de certos detalhes, não fazer planos demais, porque a estrada na frente não é tão grande assim, e levar a vida normalmente. Sem pensar, sem ficar muito afeita ao passado. Tenho boa memória. As vezes eu fico satisfeita. Ir ao teatro com a minha neta, pra mim foi uma noite maravilhosa, conversamos, trocamos idéia. E sonhos? A senhora chega a sonhar, a senhora não idealiza nada ou.. Eu sonho muita coisa, mas não quero revelar. Qual sua melhor qualidade? Eu não tenho nenhuma. E sua auto-avaliação? A única coisa que eu digo sempre é que entre os meus defeitos não estaria a ingratidão. Quando uma pessoa me faz um bem, uma gentileza, um favor, eu sei ser grata. Eu diria pra senhora, embora a gente não possa opinar, que a senhora é uma pessoa muito solidária. Ah. Sim. Solidária, sim. A gente gostaria de saber a sua opinião a respeito de nosso convite, a respeito da senhora ter sabido do Museu da Pessoa, e hoje, especialmente, a senhora estar aqui conosco, dando o depoimento. Bom, quem me falou sobre isso foi meu filho. Ele disse hoje o que eu vi na Internet e fiquei muito encantado com a história da lavadeira que levava roupa pra lavar lá na Alameda Barros porque eu conheci a Alameda Barros, asfaltada e iluminada, porque era justamente entre a Alameda Barros e a Baronesa de Itú, que era nossa casa da Av.Angélica. E era virando por ela que eu via, como eu disse, as iluminações, como eu disse no meu relato. Eu dizia: “Acho que o céu é na Av. Angélica, porque nós vínhamos da iluminação de gás, e passamos pra essa elétrica. E então, eu não estava nem entendendo muito bem o que eu vinha fazer aqui. Me interessei, porque eu gosto de São Paulo, gosto de história, de lembranças. Muitas amigas já me disseram que eu devia escrever um livro. Não acho que a minha vida vá interessar às pessoas. Mas agora, não deixa de ser uma forma, essa relação. Então, eu gostei imensamente. Achei a senhora muito simpática, estava desolada por saber que a senhora tinha me passado pra outra pessoa, que isso tivesse acontecido. Estou muito contente por estar aqui, e estou às ordens de vocês, se eu puder ser mais útil, com São Paulo antigo. Como eu disse, com fotografia, gravuras e outras coisas que vocês precisarem, que você me ligam. Então, a gente só tem a agradecer à senhora, dona Albertina, a gente ficou muito feliz de tê-la aqui ouvir a sua história, ouvir a sua experiência. Eu é que devia agradecer essa oportunidade que foi muito diferente na minha vida. Muito obrigado de conhecer a sua história de ouvir essa experiência A senhora teria mais alguma coisa para falar. Como a senhora gostaria de se despedir? Eu termino esse meu rememorar fixando meu pensamento em meu filho, o sustentáculo moral de nossa família. E minha nora, essa moça que por suas imensas qualidades enfeita nossa vida nesses anos todos. Agora, pondo um laço cor de rosa na imaginação, vejo em minha neta de 17 anos, hoje uma grande amiga. Num elo de recordação, retrocedendo nos anos, chega a sua infância, quando alegrou com seus encantos os dias ainda entristecidos de minha recente viuvez. E assim formei uma família inteira. (emoção)

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