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História de: Marlene Vono Soares
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/05/2004

História completa



Identificação
Museu da Pessoa - Para começar, gostaria que cada uma dissesse o seu nome completo, data e local de nascimento. Aparecida - Meu nome é Aparecida de Lourdes Vono Palhardi. Eu nasci em 31 de julho de 1954, em Populina, interior de São Paulo. Marli - Eu sou Marli Vono, nasci em 17 de março de 1958, em Populina. Marlene - Marlene Vono Soares. Nasci em 17 de março de 1958, em Populina.

Pais e avós
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P - Uma família de muitos irmãos, Aparecida? Aparecida - Nós somos em oito irmãos. São cinco mulheres e três homens. M

P - Os pais de vocês são aqui de São Paulo também? Marli - Meu pai e minha mãe são do interior de São Paulo. M

P - Onde eles nasceram? Marli - Meu pai em Pindorama, estado de São Paulo, e minha mãe de Tanabi, estado de São Paulo também. M

P - Vocês sabem como eles se conheceram? Marli - Eles contam que eles iam em bailinhos. Eles moravam em sítios próximos e então os amigos eram comuns. A família de minha mãe era numerosa e a de meu pai também. Então, eles se conheceram através dos irmãos. MP -O que vocês sabem sobre a família do seu pai? Aparecida - Eles eram bastante unidos, tanto que, até hoje, a maioria mora ainda no interior. Eles eram bastante unidos, assim como nós também somos. É de família, realmente. M

P - Seus avôs, pais do teu pai, faziam o quê? Aparecida - Quando eles vieram da Itália e da Espanha, eles trabalhavam na lavoura. M

P - Qual o pedaço da família que veio da Espanha? Marli - Da minha mãe. M

P - Como se chamavam seus avós por parte de mãe? Marli - Por parte de minha mãe, a avó era Isabel e o avô Diogo Pérez. M

P - Que lembranças vocês têm desses avós? Marli - As avós, morreram as duas. Tanto a mãe do meu pai quanto a mãe da minha mãe morreram no ano em que eu e a Marlene nascemos. Então, nós só os conhecemos por fotos, que temos até hoje. Com os avôs, a gente também não teve muito contato, porque logo nós viemos para São Paulo e eles ficaram no interior, mas eram muito carinhosos. O espanhol era brincalhão, bem legal.

Infância no interior
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P - Como era a infância lá no interior? Aparecida -Da infância, eu tenho mais história do que minhas irmãs porque eu vim do interior com 12 anos e elas eram mais crianças do que eu. Nossa infância, principalmente a minha e de um irmão dois anos mais velho que eu, foi uma infância muito diferente daqui de São Paulo. Você podia andar de bicicleta na rua, tinha aqueles balanços que fazia em árvore. Nós moramos por três meses num sítio. Meu pai comprou umas terras, uma pequena fazendinha, e então nós fomos, ficamos três meses. Mas como a escola era muito distante, nós voltamos. Mas, mesmo na cidade, nós moramos muito tempo em uma chácara bem próximo à cidade. Ali a gente brincava muito. Subia em árvore, às vezes a gente fazia arte... Eu e meu irmão aprontamos muito. Minha mãe até fala que os que mais apanharam na família fomos eu e meu irmão. A gente aprontava mesmo A gente subia em árvore, minha mãe tinha que subir atrás. Ia meu avô, meu pai... Teve uma vez que a minha mãe subiu na árvore e meu avô embaixo: "Desce, desce". Nossa infância foi muito bonita no interior. Agora, depois que a gente veio para São Paulo, quando também era criança, aí mudou, porque aqui você já é uma estranha. Mas o pouco que nós vivemos no interior foi muito bonito, sim. Foi uma infância bem livre, bem solta, de fazer aquelas caminhas, jogar na enxurrada... Eu e meu irmão mais velho temos bastante história de infância no interior. M

P - E que lembranças vocês têm dessa casa, dessa chácara? Aparecida - Lembra, Marli, que você tomava água doce, de pequena? Era na chácara. Elas duas eram muito pequenas naquela época. M

P - Como é essa história de água doce?(risos) Marli - Minha mãe conta que eu tomava água doce todo dia para dormir. Nós duas éramos pequenininhas, devíamos ter uns três anos. Então aquele dia, ela já tinha dado água doce para mim e eu queria e queria e queria. Aí o meu pai ficou bravo e quis bater. Foi dar umas palmadinhas em mim, e deu na Marlene. (risos) Como somos gêmeas, ele se confundiu. Então até hoje a gente brinca que ela apanhou por minha causa. M



P - Essa água doce o que era? Era água com açúcar? Aparecida - Água com açúcar. M

P - Você lembra do nascimento das gêmeas, Aparecida? Aparecida - Eu não lembro, porque a nossa diferença é de quatro anos. Não tenho lembrança. Minha mãe é que conta. Minha mãe conta que primeiro foi meu irmão, depois eu e depois vieram as duas gêmeas. E não havia gêmeas na família. Quando as duas nasceram, o meu pai tinha uma padaria na cidade. Era interior, cidade pequena, e a nossa casa era na frente dessa padaria. Então foi aquela festa. Era parteira que fazia o parto em casa. E meu pai, muito carinhoso, sempre foi um paizão, muito dez Quando ia nascer o filho, nossa Tinha meu irmão e eu, e nasceu mais uma, pois a Marlene nasceu primeiro. Então meu pai falou, todo contente: "Nasceu minha filha". Foi na padaria todo feliz: "Nasceu mais uma menina" Estava todo feliz. Na hora que ela nasceu, ele saiu que nem um louco. E na hora que ele voltou, para surpresa dele, tinha nascido mais uma. (risos) Aí ele voltou na padaria: "Nasceu mais uma" Foi muito bacana tudo isso para nós. Eu não me lembro muito porque eu era muito pequena, mas a minha mãe conta essas histórias. Marli - E ela conta também que depois da gravidez de mim e da Marlene, ela teve outras duas, e que meu pai no próximo parto ficou esperando: "Vai que venham duas de novo." (risos) Ele esperou e realmente vieram mais duas. M

P - Mais duas? Marli - Mais duas. M



P - Como se chamam? Marli - Marisa e Maraísa. M

P - Essa padaria, vocês têm mais lembranças? Aparecida - Não tenho, não. Eu era muito pequena.

Lembranças do pai e da mãe
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P - Vocês comentaram um pouquinho do pai, que era uma figura carinhosa. Eu queria que vocês o descrevessem um pouquinho mais. Marli - Meu pai sempre trabalhou no comércio, sempre próximo de casa. Ele nunca foi uma pessoa de ter amigos fora. Amigos para ele sempre foram as pessoas da família. Ele ajudou minha mãe na educação e foi um pai muito presente. Nunca foi de repreender demais. Lógico, repreendia dentro do normal, como qualquer pai da época. Mas ele nunca foi um pai muito rígido. Muito pelo contrário. Ele dava mais liberdade do que minha mãe. Minha mãe era mais séria. Carinhosa, porém séria. Então, a parte das bagunças era mais com meu pai. Ela já puxava um pouquinho as rédeas, mas também era aquela mãe que... Nós só fomos fazer a matrícula de escola quando já estávamos terminando o ginásio, porque até então ela ia para a gente. Sabe essa mãe que deixa tudo pronto para você? Ela sempre levantou cedo para preparar o cafezinho dos filhos. Eles passaram isso para a gente. Agora, hoje, quem cuida dela sou eu. (risos) M

P - Vocês têm a mesma lembrança? Queriam completar alguma coisa? Marlene - A lembrança que eu tenho também é que meu pai sempre exigiu da gente a união. Sempre exigiu que a gente se amasse realmente, que a gente fosse unido. Caso houvesse alguma festa, um aniversário, alguma coisa, e um dos filhos deixasse de ir, ele queria saber porque aquele filho não foi. Ele fazia questão de que fossem todos e de que não faltasse ninguém realmente. Ele sempre preservou muito isso, a união da família. Então, ficava muito triste se algum faltava, se deixava de ir por qualquer que fosse o motivo. Ele ficava muito triste. A gente sente muita saudade dele. M

P - Como era essa casa cheia de mulheres? Como era um domingo típico em família? (risos) Aparecida - Em casa sempre teve muita gente. E até hoje tem, na casa da minha mãe. Às vezes a minha mãe até fala: "Vocês parem de ficar se preocupando comigo. Me deixem". Mas, não tem como. Nós somos super apegados. A Marli foi viajar agora nas férias, a Marlene estava na chácara, e eu fiquei só uns dias em Mairiporã e voltei. Então eu ligo, a outra liga, a outra liga... Ela fala: "Puxa vida, não sei porque vocês ligam tanto Estou bem. Se precisar de alguma coisa, eu vou procurar vocês. Vocês não me deixam nem dormir. Às vezes eu estou dormindo, o telefone toca". Eu já falei para a empregada: "Não me chama. Deixa eu dormir. Depois que eu acordar, eu ligo". (risos) Acho que é uma dádiva de Deus. Meu pai e minha mãe nos passaram isso, que é muito legal, para a gente. E sem exigir nada. Eu acho que fluiu natural essa união, esse carinho que a gente tem por eles. A gente até brinca... Meu pai faleceu, mas acho que lá de cima ele fala: "Que família maravilhosa que eu deixei" Também não é só maravilha. É lógico que em toda família existem divergências de opiniões e de personalidades. Não é só brincadeira, só risos, só coisa boa, mas nós somos muito unidos. Ele lá de cima deve falar: "Que família maravilha que eu deixei lá" (risos)

Casa da infância
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P - E, quando meninas, como era o dia-a-dia? Sentava todo mundo na mesma mesa, dormia no mesmo quarto? Marli - Ah, era uma bagunça. (risos) Nós nunca moramos em casa muito grande depois que viemos para São Paulo. A situação não era tão boa. Dormia todo mundo no mesmo quarto. Era sempre o quarto do meu pai e da minha mãe, e o nosso. Tinha sempre aquele irmão que tinha que dormir na sala. Mas a gente não lembra de ter tido brigas. M

P - Era beliche, como era? Marli - Era beliche. Cama para cá, cama para lá... M

P - E as roupas? Marli - Uma usava da outra. Eu nunca fui de dizer: "Ah, não põe minha roupa". Eu não ligo. Mas a única coisa que tinha às vezes era isso, de uma colocar a roupa da outra. A gente saía junto, os amigos eram sempre os mesmos. Nunca tinha problema, não. A minha mãe fala que foi muito fácil criar a gente, porque um era amigo do outro. A gente se bastava. Eu penso assim: para você ter amigos fora, acho melhor você ter amigos dentro da sua própria casa. É lógico que nós devemos ter amigos, como nós temos. Inclusive no Aché, a gente tem amigos de 30 anos e a gente cultiva essa amizade até hoje com carinho, como se fossem irmãos também. Mas, não nunca tivemos brigas. M

P - E quem cozinhava? Era a mãe? Aparecida - Era a mãe. M

P - E qual era o prato mais gostoso que a mãe preparava? Marlene - Arroz, feijão e carne com batata. A macarronada dela também era maravilhosa. Os docinhos... Ela gostava muito de fazer as coisas para a gente. Então ela fazia docinhos, fazia sonhos. Às vezes a gente, aquele monte de filhos, até saía briga porque um pegava mais que outro. (risos) "Por que a senhora deu mais para esse do que para mim?" Então ela dizia: "Não, imagine Eu dou um pouco mais para você". Mas era sempre aquela coisa saudável, gostosa, de família.

Brincadeiras da infância
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P - E as brincadeiras, como eram os irmãos e as irmãs brincando junto? Marlene - A gente gostava muito de cantar. Naquela época, o que a gente fazia? A gente pegava um cabo de vassoura e cantava músicas sertanejas. Eu cantava, a Marli, a Aparecida, o meu irmão mais velho... A gente lembra que a gente cantava muito. M

P - Cantava para quem assistir? Marlene - Os pais, os colegas. Juntava grupinho de colegas e cantavam também. A gente gostava muito de brincar de boneca, fazia até batizado da boneca. Fazia festa. Minha mãe fazia bolo, as mães das amiguinhas também faziam bolo, ki-suco... Era festa, batizado, mesmo. A gente batizava a boneca. Lembra? Que delícia, não? M

P - Qual foi a sua boneca favorita? Você lembra? Marli - Não. Eu participava, mas eu já gostava mais de cantar e eu brincava de professora. Eu tinha lousinha... Boneca, eu não tenho nenhuma que me gravou. M



P - Tem alguma Aparecida? Aparecida - Não. Eu fui mais de cantar também. Por incrível que pareça, não brinquei muito de boneca. Eu era muito delicadinha, muito dócil. Desde criança me comportava que nem mocinha. E o pessoal falava: "A Cidinha é tão educadinha, tão delicada". Eu não tinha boneca, essas coisas. Meu negócio era brincar de casinha. Era comadre... A minha mãe fez um fogãozinho de barro para mim e ela comprava caldeirão de alumínio mesmo, bonitinho. Caldeirãozinho, panelinha pequenininha, e é lógico que quem fazia era minha mãe, mas a gente fazia de conta que era a gente. Então fazia comidinha, chamava as amiguinhas que vinham em casa. A gente brincava de casinha. Era muito legal. Era uma infância assim sadia, diferente de hoje. Muito legal. (risos) M



P - E a cantoria? Vocês cantavam juntas, ou era cada uma que cantava? Aparecida - Eu cantava muito com meu irmão mais velho. O Osmar, ele gostava também de cantar. Meu pai comprava livrinho de música, de Zico e Zeca, Tonico e Tinoco e a gente cantava. Pegava aqueles livrinhos e cantava. Então, às vezes à tarde - interior não tem televisão, essas coisas - de tardezinha, depois da janta, a gente sentava lá e cantava. Vinham amigos de meu pai, vizinhos...: "Venham ver as crianças cantar". A gente cantava. Era uma festa. M

P - Canta um pedacinho... (risos) Aparecida - "Canta um pedacinho, canta filho." Era assim mesmo. M



P - Vocês não querem cantar um pedacinho? Aparecida - Não, não arrisco. (risos) M

P - Um trechinho só. Aparecida - Não, não dá para arriscar mais.

Mudança para São Paulo
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P - Vocês falaram da vinda para São Paulo. Como foi essa vinda? Marli - Nós viemos de trem. A família veio de trem e a mudança veio em um caminhão. Veio nossa família e um tio meu com a família também. O meu pai era mais apegado com esse irmão. Sempre trabalharam juntos. Quando tomou a decisão de vir para São Paulo, veio esse meu tio junto também. M



P - O que vocês se lembram do trem? Marli - Eu não me lembro muito. Eu tinha seis anos. Não me lembro de quase nada. M



P - E a chegada em São Paulo? Chegaram lá na Luz? Marli - Deve ter sido na Estação da Luz. Tinha um amigo dos meus pais esperando por nós e esse amigo já havia arrumado casa para a gente morar. O nosso anjo da guarda em São Paulo foi esse amigo. M



P - Onde vocês foram morar? Marli - No bairro da Brasilândia. Hoje eu nem sei onde é. Nós moramos uns oito meses só. E depois nós mudamos para a Vila Maria. Na Vila Maria, nós moramos muitos anos. M



P - Como era essa casa na Vila Maria? Você se lembra, Marlene? Marlene - Era de dois quartos, sala e cozinha. Era uma casa gostosa. O lugar também era gostoso. Ficava ali na rua Amélia Mendel. Era um lugar gostoso, tranqüilo... Uma casa gostosa. M



P - Que lembrança você tem da São Paulo dessa época? Vocês iam passear onde na cidade? Marlene - A gente não ia passear. M

P - Não? Aparecida - Não, porque a gente não conhecia nada, meus pais também não conheciam São Paulo e então, eles eram assim... Caipiras, mesmo. A gente não conhecia, a gente não ia passear. O máximo que a gente ia era em algum parquinho próximo. No final de semana, a gente ia na casa da tia assistir televisão porque nós não tínhamos televisão em casa. O nosso divertimento no final de semana era ir na casa de uma tia, assistir o Sílvio Santos, Jovem Guarda... (risos) A gente não saía, não.

Brincadeiras da infância
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P - Que outras brincadeiras nessa época? Marli - A gente brincava muito de pular corda, pular amarelinha. Nossa A gente adorava. Era todo final de semana. M



P - Na rua? Marli - Era na calçada. Naquele tempo podia. A gente ficava na calçada, riscava amarelinha no chão e pulava corda. Inclusive, o Carlão, do Aché, a gente já conhecia dessa época da Vila Maria. Isso tem 35, 37 anos. Ele brincava com a gente. Ele era mais velho. A gente sempre lembra que ele batia corda para a gente pular, para mim e para a Marlene pular. A Cidinha já era mais mocinha. Ela já ia para os bailinhos e as criancinhas ficavam... (risos) Marlene - Ficavam lá esperando terminar o baile para eles baterem corda para nós pularmos. (risos) Aparecida - Mas mesmo assim, a gente brincava também. Eu lembro dessa casa, ela era mais baixa que o nível da rua. Então, tinha aquele muro e a gente, o pessoal sentava naquele murinho, no muro da casa. A gente ficava sentado lá, de noite, batendo papo, pulando amarelinha, corda... Os moços da rua também eram amigos da gente. Eu lembro que uma vez nós inventamos de amarrar uma nota de sei lá quanto... Um real, não sei, (risos) com uma linha. E não lembro quem, se escondeu atrás do muro. Ficava todo mundo sentado, e alguém lá a trás. Então, o pessoal passava na rua, via a nota de dinheiro, quem que não vai pegar? Quem não vai abaixar para pegar? (risos) Quando a pessoa abaixava, a gente puxava. Coisa de criança mesmo. Mas é coisa que hoje criança não faz mais. Naquela época a gente se divertia com tão pouco, em vez de ficar brigando, que nem hoje as crianças ficam brigando, aprendendo o que não agrega nada. Pelo menos você brincava. Era uma diversão, uma coisa sadia, de você estar brincando e passar umas horas bem descontraídas. M

P - E o bailinho, como era? Aparecida - Era um pessoal que jogava bola, um time de futebol, tinha lá um salão e tinha os bailes de fim de semana. Mas era só família, o pessoalzinho da rua. Não tinha o que chamávamos de "bicão". Entrava alguém estranho já ficava todo mundo de olho. Era legal. Ia aquela turminha, aquele grupinho e dali saíam alguns casamentos. Foi ali que eu conheci meu marido.

Namoro e casamento de Cida
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P - Como foi esse dia? (risos) Aparecida - O meu marido estudava com o meu primo e com o Carlão lá do Aché. Meu marido estudou o ginásio, o colégio com o Carlão. O Carlão e meu primo sempre convidavam meu marido para ir no bailinho. Meu marido também se chama Carlos, Carlão. "Carlão, vai no baile, dá uma passadinha lá na sede." Como ele freqüentava outro salão, o Olímpia, lá na Vila Maria baixa, ele dizia: "Está bom, um dia qualquer eu passo lá". E nunca ia. Aí, um belo dia ele passou e o meu primo e o Carlão, nosso amigo, falaram: "Entra". Hoje ele até brinca: "Bati os olhos, te vi e foi amor à primeira vista." (risos) Lógico, não começamos a namorar nesse dia. Aí, na semana seguinte tinha o aniversário de um amigo e nós fomos nesse aniversário, todo aquele grupinho de amigos. Fomos no aniversário desse amigo nosso. Você vê como hoje em dia é tudo diferente. Antigamente era tão puro... Ele queria namorar comigo, mas só que ao mesmo tempo gostava de farra e acho que pensou: "Vou namorar com ela...Tenho que tomar cuidado onde piso". Então, o que ele fez? Deixou um chaveiro comigo para arrumar um pretexto para voltar na semana seguinte, para poder me ver. Ele deixou o chaveiro comigo e na semana seguinte ele foi lá no bailinho da sede: "Ah, meu chaveiro..." E a gente começou a namorar. Namoramos uns três anos e nesse ano eu faço 28 anos de casada. Você vê como é a vida da gente? Uma coisa Hoje em dia não acontecem mais essas histórias. M

P - E o casamento? Você lembra, Aparecida, como foi a cerimônia? Aparecida - Lembro... uma chuva danada, meu Deus do céu (risos) Meu casamento foi uma coisa bem simples. No dia do meu casamento choveu muito, não teve festa. Foi aquela coisa simples. Foi o casamento no civil no dia 22 e na igreja no dia 23. A gente marcava assim. No dia 23 a gente já estava de férias do Aché e aí já casava e não precisava faltar. A gente já aproveitava as férias e então nós marcamos o casamento para essa data. E, lógico, foi uma cerimônia simples, mas tinha os amigos de sempre. Aqueles amigos mais íntimos estavam presentes. Mas foi bacana, meu casamento foi muito legal. Só que choveu. Choveu horrores, aquele vestido todo... Ai, meu Deus. E antigamente também, uma família humilde, não era salão, não era nada. Era em casa. A gente fazia aqueles cobertos com lona. Aí choveu e era água para todo lado. Foi um horror. Mas foi bacana. Pelo menos você tem história. Eu falo que se eu pudesse fazer tudo de novo o meu casamento, eu faria. M

P - Você lembra dessa festa de casamento em casa? Muita água? Aparecida - Muita água. Choveu bastante no meu casamento. Eu sempre falo para o meu marido, sempre falei para ele: "Se eu pudesse voltar no tempo, eu faria tudo de novo." Porque o casamento é uma coisa tão bonita. O sonho de toda mulher é que tudo aconteça perfeito. É lógico, de uma maneira totalmente diferente de hoje, mas mesmo para a época, a chuva estragou muito, mas foi legal.

Entrada de Cida no Aché
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P - Quando sua família veio para São Paulo, o seu pai e a sua mãe foram trabalhar com o quê aqui em São Paulo? Marlene - A gente veio em uma situação bem ruim. Meu pai foi ser feirante, e a minha mãe lavava roupa desse pessoal que jogava bola. Minha mãe lavava roupa do pessoal e meu pai trabalhava na feira. Inclusive a Aparecida ajudava também o meu pai na feira. M

P - Era barraca do quê? Marlene - De chinelo. Ele vendia chinelinho. M

P - Vocês também iam para a feira? Marlene - Não. Eu e ela, não. Aparecida - Eu fui durante um tempo. Mas era uma coisa muito cansativa. Meu pai tinha dó porque eu era criança. Eu tinha 12, 13 anos, por aí. Então meu pai falou: "Não, deixa. Não vá, não. O pai vai sozinho e você fica em casa". Aí meu pai não deixou mais eu ir. Eu fui e trabalhei um tempo na casa de um primo meu. Fiquei lá acho que um mês, mais ou menos. Mas a gente, meu pai e minha mãe, éramos muito apegados. Não era legal a gente ficar assim, longe. No meio de tudo isso, meu irmão mais velho já trabalhava no Aché e ele arrumou para mim. Eu já tinha 13 para 14 anos. Aparecida - Uma fechava o frasquinho, a outra rotulava, era uma rotuladeira manual. Rotulava manualmente com aquelas máquinas de cola fria. Não era etiqueta adesiva como é hoje. Eram aquelas máquinas manuais. Rotulava, a pessoa passava na cola, punha na esteira e a outra acertava o rótulo e ia então as caixinhas. Tinha uma equipe que ficava montando no outro balcão os cartuchos, trazia os cartuchos montados e aí a gente pegava o vidrinho. Pegava o vidro, colocava dentro e a outra... A gente empurrava, fazia umas carreirinhas e ia empurrando. Tinha que tomar cuidado para não passar faltando alguma coisa, algum item, uma bula ou outra coisa. A gente empurrava, a outra punha a bula e a outra ia fechando. Mais para frente punha em caixas de papelão com rótulo e tal, e ia para a Expedição. Era muito legal.

O Aché da Nova dos Portugueses
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P - E como era a casa do Aché da rua Nova dos Portugueses, Aparecida? Aparecida - Onde a gente morava? M

P - Não, onde vocês trabalhavam. Como era o prédio do Aché? Aparecida - O prédio dali, ele tinha a entrada, que dava para a rua, e ali ficava a telefonista, a recepção. Aí subia e tinha a parte administrativa. A Hipodermia ficava nesse piso, Manipulação de Líquidos... E tinha uma escada lateral, ali tinha a parte de Sólidos, onde faziam os comprimidos e um grande salão, que era a Embalagem. E ali próximo também, dos lados, tinha onde era o Envase de Líquidos, onde a gente escolhia as cartelinhas de comprimidos. Depois descia e era a cozinha. Nossa, era muito legal Esquentava as marmitas... (risos) M



P - O que acontecia nessa cozinha? Aparecida - De manhã, a gente chegava, tinha os banheiros e a cozinha, onde a gente deixava as marmitas. A Chiquinha era a pessoa que fazia o café para a gente, o café de manhã. A gente deixava as marmitas arrumadinhas e ela desembrulhava e esquentava para a gente, para o almoço. E depois, mais para baixo, era a parte de Expedição, Almoxarifado. M



P - Como você ia da tua casa lá para o Aché? Aparecida - Ia de ônibus. Pegava dois ônibus. Nós morávamos nessa época, na Vila Maria, nessa casa que as minhas irmãs falaram. Eu tinha que pegar duas conduções, dois ônibus para ir até o Aché. Nossa, a gente tem bastante lembrança disso. Meu irmão, que também trabalhava no Aché, eu ficava danada da vida porque ele saía atrasado de casa. Aquilo para mim era a morte. Eu não queria chegar atrasada no meu trabalho. Ele chegava na hora também, mas chegava em cima da hora e eu não gostava daquilo. E eu tinha o quê? 14 anos... Meu pai não gostava que eu fosse sozinha, porque eu tinha que pegar duas conduções. Ele pedia para o Carlão para passar em casa, que era caminho: "Não, Carlão, passa aqui e você vai com a Cidinha, que eu não quero que ela vá sozinha". Ele passava ou passavam outros amigos que trabalhavam por lá também. A turma que passava, a gente ia junto. Então ia para o Aché. A gente pegava um ônibus ali próximo de minha casa, descia em Santana e pegava um outro ônibus aí na Dr. César... M



P - Tinha um tchauzinho da janela, não tinha? Como era isso? Aparecida - Tinha. (risos) O tchauzinho da janela? O tchauzinho da janela era assim: a gente saía para trabalhar, e essa casa, ela ficava num ponto baixo da rua, mas mesmo assim a gente passava por uma rua mais baixa, e elas, a Marli e a Marlene, desciam no quintal, na lavanderia no fundo da casa para falar tchau para a gente. Então ficava lá de baixo: "Tchau, Tata. Tchau, Carlão." A irmã mais velha antigamente era Tata, e o irmão era Tato. M



P - Você se lembra disso? Como é? Ela saía correndo até o quintal? Como era? Marli - Era uma alegria. Para a gente, que era criança, tudo era farra. A gente descia... Isso ficou bem gravado, tenho bem gravado na minha mente. O Tato, a Tata, o Carlão indo trabalhar com a Aparecida. A gente fazendo tchauzinho. E era quase todos os dias. Não era de vez em quando, não. A irmã mais velha estar indo trabalhar criava orgulho. É gostoso.

Entrada de Marli e Marlene no Aché
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P - E vocês foram para o Aché em que época? Marli - Em 1971. No dia 11 de janeiro de 1971 a Marlene começou, e em 11 de fevereiro de 1971 eu comecei. M

P - Lá no Imirim também? Marli e Marlene - Lá no Imirim. M

P - E aí vocês começaram a ir juntas para lá. Como era? Marlene - Íamos nós três. A gente pegava o ônibus. O procedimento acho que era o mesmo. (risos) A gente pegava o ônibus, ia, levava a marmitinha, tudo direitinho. Sempre com muita responsabilidade. M

P - Marlene, você era bem novinha. Marlene - Era. M

P - Tem até uma história que você precisou de uma autorização para trabalhar. Queria que você contasse um pouco dessa história. Marlene - Eu lembro que nós precisávamos trabalhar. E nós éramos muito jovens, tanto eu quanto a Marli. Tínhamos 12 anos. A gente queria trabalhar porque a gente já gostava do Aché só de ver eles comentarem. Eles, o Carlão e outras pessoas que moravam lá no bairro e que eram amigos da gente, comentavam. Então, o sonho da gente era ir para lá também. Aí, estava precisando de funcionários. Nós fomos, mas só que, como a gente era muito nova, não podia ir. Tínhamos 12 anos... Aí minha mãe foi no Juizado de Menor e pegou a autorização, inclusive eu tenho minha carteira profissional com a autorização, e eu tenho o maior orgulho disso. Mostro até para os meus filhos porque eu acho que é um exemplo de vida que eu passo para eles. Aí eu passei a trabalhar no Aché também. M



P - Fazendo o quê, exatamente? Marlene - Auxiliar de embaladeira, também. A mesma coisa que a Aparecida. Trabalhei de auxiliar de embaladeira, rotulava também.

Embalagem manual
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P - Como era esse trabalho? Você podia descrever? Marlene - Quando estava fabricando líquidos, tinha a máquina de enchimento, tinha uma maquininha, ela chamava máquina de vedagem. Era manual. Então você tinha que ser rápida. Você pegava os vidros que vinham assim numa esteirinha, fechava. Você tinha que usar as duas mãos e o pé para fechar. Você tinha que ser super rápida, porque senão vai e vaza. E, lógico, não podia vazar. Então você tinha que ser bastante rápida. Aí você fechava os vidros e ia para uma roda e tinha uma rotuladeira também manual, que você colocava o rótulo. Outra pessoa colava os rótulos, outro funcionário colocava na caixinha, outro colocava a bula e outra funcionária fechava, e outra funcionária colocava dentro das caixas de embalagem. M

P - Só não entendi a parte que tinha que usar o pé também. Marlene - O pé, na hora de você fechar o vidro, a máquina rebate e a gente marca. A máquina rebate, é uma regravadeira. Os vidros não têm aquela tampinha de alumínio? Aquela tampinha de alumínio precisa ser pressionada, que é para fechar o vidro. Você pegava o vidro com a tampa, passava pela regravadeira que você colocava manualmente, punha, encaixava o vidro um por um. Você encaixava o vidro na máquina, apertava o pé, fechava e com a outra mão passava para o outro lado. Tudo manual. M

P - Tinha barulho? Marlene - Tinha. Tinha bastante barulho, sim. A gente se acostumava. Era muito gostoso. M

P - E trabalhavam as três na mesma bancada? Como era? Marlene - Às vezes, sim. Quando precisava, eram as três juntas. Às vezes, não. Às vezes, uma estava nos Líquidos, a outra estava na parte de Embalagem. Eu estava na parte de carimbar os cartuchos. M

P - Como era carimbar os cartuchos? Marlene - Era uma máquina também. Você usava as mãos e os pés também. Era uma máquina que você abria os pacotes de cartuchos, colocava ao lado da bancada da máquina. Com uma mão você empurrava o cartucho para carimbar e com a outra você tirava. E com o pé, você fazia com que a máquina carimbasse os cartuchos. M

P - Cartucho com comprimido? Marlene - Não. O cartucho vazio. Aí você carimbava os cartuchos e depois esses cartuchos passavam para um outro grupo montar, fazer a montagem das caixinhas, que ia para embalar. M



P - E a embalagem dos comprimidos, como era naquela época? Você se lembra? Marli - Lembro. Eu trabalhei pouco na Embalagem, mas me lembro. (risos) Hoje eu sou gerente da Embalagem, mas está totalmente diferente. Mas na época também era manual. As meninas montavam os cartuchos, colocavam em caixas de papelão que a gente apoiava em um banco em cima da esteira. A gente punha a caixa em cima desse banquinho e na esteira um grupo ia selecionando os envelopinhos e soltando montinhos com a quantidade, o acondicionamento por produto. Por exemplo, um produto que iam três strips, soltava um montinho de três e as pessoas que estavam junto a essas caixas de cartuchos já montados iam acondicionando com a bula, o strip... Já fechava a caixinha e deixava passar na esteira. Aí seguia, colocava em caixa de embarque também. Era o mesmo processo dos Líquidos. MP -E depois do trabalho, vocês iam embora juntas? Havia um ponto de encontro? Marli - Tinha barzinho mesmo. Hoje tem lanchonetes grandes. Ali tinha o barzinho do português. (risos) Na hora do almoço ia tomar um lanche se não levasse a marmita. Ou ia tomar um sorvete. Então tinha, sim. A gente se lembra bem do bar do português. M

P - Ia tomar sorvete? Marlene - Sorvete, refrigerante.

Escola na adolescência
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P - E vocês continuaram estudando nessa época ou vocês pararam de estudar? Marli - Nós continuamos estudando. M

P - Como era conciliar o trabalho com o estudo? Marli - Era difícil, porque não tinha ônibus e na época nós morávamos na Vila Maria. Eram duas conduções, mas dava para coordenar. M



P - Vocês saíam de lá e iam para a escola? Onde ficava a escola? Marli - Na Avenida Guilherme Cotching, na Vila Maria, a Escola Estadual João Vieira de Almeida. M

P - E que lembrança vocês têm da escola? Marli - (risos) Eu sempre falo que escola é o lugar onde você se solta. A gente era responsável o dia inteiro no trabalho. A hora que vai para a escola você extravasa um pouco mais. Então, a gente brincava muito. Nossa Senhora Tinha aquelas amiguinhas de escola, paquerava, às vezes cabulava a aula para ir ao cinema. Muito pouco. Até que nós fomos bem certinhas. Mas também tinha...

Paquera na adolescência
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P - Quem era a mais paqueradora das três? Marli - Acho que a Marlene. (risos) Ela sempre foi muito extrovertida. Eu já mais séria. A Aparecida, então, casou muito nova. O primeiro que conheceu, ela casou (risos). Então, nessa parte de paquera, quem participou mais fomos eu e a Marlene e as outras duas gêmeas, que a diferença de idade é de dois anos só. A gente saía junto. M

P - E o pessoal não fazia a maior confusão? Duas gêmeas mais duas gêmeas? Marlene - Não, porque nós não somos idênticas, eu e ela. E as outras duas irmãs minhas também não são idênticas. Então não dá. Eu sempre fui um pouquinho mais forte. E ela, miudinha. As outras duas também, uma é mais fortinha. São como nós. Dá para saber qual é uma e qual é a outra. Se fosse o contrário seria melhor. Mas no nosso caso nunca deu para uma passar pela outra, não. (risos)

Casa no Imirim
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P - Vocês moraram perto do Aché do Imirim, não é isso? Como é a história dessa casa? Marli - Foi bem diferente. Quando nós trabalhávamos no Imirim, nós morávamos na Vila Maria. Quando o Aché mudou para Guarulhos, a casa ficou vazia e foi onde eles ofereceram a casa para a gente morar. Então, aí ficou totalmente diferente. A gente estava morando no Imirim, trabalhando em Guarulhos e estudando na Vila Maria. Mas dava certinho. Saíamos, íamos para a escola, voltávamos para casa. Mas foi uma época muito boa. A casinha era pequena, minúscula. Hoje a gente olha a casa e fala: "Como a gente conseguia viver aqui?" Muito pequena, a casa. Mas foi de grande valia a gente morar ali porque foi a partir dali que nós conseguimos comprar nossa casa própria. É uma coisa que marcou demais. M

P - Era a casa onde funcionava parte do laboratório? Marli - Não. Era assim: o prédio do Aché, a frente era para a Praça Nova dos Portugueses e o fundo para a rua Dona Elfrida. E no fundo, ao lado do Aché, tinha essa casa. Nós morávamos ali. Minha mãe tomava conta do prédio, que estava vazio. A gente também no final de semana dava uma olhada. Acho que moramos ali uns seis meses. Foi muito gostoso. Eu pintava a casa. O muro da casa nós que fizemos, eu e meus primos. A diversão da gente era cuidar, porque embora a casa não fosse nossa, a gente queria deixar bonitinha. Era gostoso. Até fotografei essa casa e eu vou guardar essa foto com muito carinho. M



P - Como era o dia-a-dia nessa casa? Você se lembra, Marlene? Como ela estava organizada? Marlene - Era normal. A gente já trabalhava e minha mãe ficava com meus dois irmãos mais novos em casa, durante o dia, e à noite a gente chegava... Todo mundo estudava e todo mundo chegava no mesmo horário e jantava. Quando nós íamos para o ginásio, nessa época já ia tudo direto da empresa. Então a gente não jantava. A gente ia direto do trabalho para a escola, estudava, e aí, quando a gente chegava, era sempre festa. A garotada, as moças todas jantando, tomando banho, se preparando para dormir.

Escola no Imirim
Marli - Eu queria falar de um detalhe que marcou demais. Depois, com a mudança para o Imirim, no próximo ano nós também mudamos a escola para o Imirim. Nós estudávamos no Colégio Consolata ali no Imirim e como nós íamos direto pra escola, a minha mãe esperava a gente no ponto do ônibus do Aché, para dar o lanche para a gente comer o lanche no ônibus do Aché para ir para a escola. Porque a gente ia direto. (risos) Isso a gente não pode esquecer. MP -Ela esperava vocês descerem do ônibus do Aché... Marli - Não. Era caminho do ônibus, porque a escola era depois da minha casa. Ela ficava no ponto do ônibus próximo da minha casa. O ônibus passava e aí dava o lanchinho para a gente. O motorista parava. Ela dava o lanchinho e a gente ia comendo o lanche no caminho para a escola. M

P - E a escola? O que vocês se lembram dessa escola lá do Imirim? Marli - Era uma época também gostosa. Nós fizemos bons amigos: Claudinha, outra menina que agora me fugiu o nome... A gente tem até hoje muito carinho por ela. Era uma escola de freiras, então era muito gostoso. Era a Virgínia. M

P - Como era o uniforme? Tinha uniforme? Aparecida - Não.

Uniformes no Aché
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P - E uniforme no Aché, tinha? Marlene - Tinha. M

P - Como era esse uniforme? Marlene - Nessa época ele era abóbora. Ele era abóbora de gola branca. A gente usava, mas não gostava muito por causa da cor, porque era da cor desse pessoal que limpa rua. Aparecida - Margarida. Marlene - É, margarida. A gente não gostava muito da cor. A gente reclamava da cor do uniforme. (risos) Até que trocaram. Trocaram para cinza. Dependendo da função, do setor, era a cor do uniforme.

Mudança do Aché para Guarulhos
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P - E a mudança do Aché lá da rua Nova dos Portugueses para Guarulhos? Você participou da mudança? Aparecida - Participei, lógico. Eu nunca vou esquecer o dia que em que o senhor Jonas, o pai do senhor Victor levou a gente para conhecer o Aché antes de mudar. Ele levou a gente em uma Kombi, porque seu Jonas trabalhava, fazia entrega com essa Kombi. Então, um fim de semana ele levou a gente, em um sábado, para a gente conhecer o Aché. Era onde a gente ia trabalhar. Foi muito bacana, muito gostosa essa mudança. Mudança total, porque na Nova dos Portugueses tinha umas duas esteiras, mas era tudo muito manual. Então foi para lá, um prédio... O Ruy Ohtake com as coisas maravilhosas que ele sempre fez no Aché... E continua fazendo. Foi uma mudança radical. Saímos na Nova dos Portugueses, onde o Aché já tinha crescido muito e lá dentro não comportava mais nada daquilo. Quando veio para cá, para Guarulhos, foi assim uma mudança muito grande. Tudo bem montadinho. Lógico, você olha hoje e já mudou tudo novamente. E ainda mais com a fábrica nova. Mas do Imirim para Guarulhos foi uma mudança radical. Tinha mais esteiras, mais máquinas... Estava tudo mais dividido: Hipodermia, Envase de Líquido, Sólidos... Era tudo grande, com seções divididas... Muito legal. M



P - Quais as lembranças mais fortes dos primeiros anos do Aché em Guarulhos? Marli - A mudança era tão natural para a gente, porque o Aché é uma eterna mudança. Ali a gente não tem um dia igual ao outro de jeito nenhum. A gente sempre fala isso. Então, para a gente foi, lógico, tudo muito bonito. Quem não gosta de trabalhar em um lugar bonito? Aí nós começamos a receber treinamento, novas tecnologias e sempre aquele grupo. Não tinha aquela rotatividade de funcionário. Foi tudo muito fácil porque um ajudava o outro. Nós não tivemos grandes dificuldades. Foi bem natural. M



P - Mas a rotina do trabalho mudou? Marlene - Mudou, porque era tudo organizadinho, tudo no seu lugar. O refeitório era bem maior, os vestiários... Era tudo certinho. Para a gente foi um conforto. Foi também muita mudança, mas tudo isso já faz parte do Aché, da gente: aceitar as mudanças. A gente sempre aceitou com tanta naturalidade... A gente aceita as mudanças. Você acompanha, você consegue acompanhar e não ser uma coisa desgastante. Foi legal.

Namoro e Casamento de Marlene
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P - Foi lá que você conheceu seu marido, não? Como foi? Marlene - O meu marido entrou lá no Aché por intermédio do meu irmão mais velho. Eles faziam faculdade juntos. Ele estava desempregado e aí meu irmão viu que precisavam de funcionários para trabalhar na Contabilidade. Ele foi fazer um teste, se saiu bem e iniciou lá em 1980. Foi engraçado, porque eu o paquerava e ele era amicíssimo do meu irmão. Eu comecei a paquerar, só que ele não queria namorar comigo. Ele queria paquerar, só. Mas namorar, assim, uma coisa séria, ele não estava a fim porque estava fazendo faculdade. E eu o paquerava. Todas as sextas-feiras ele chamava a mim e a minha irmã, eu e a Marli, para tomarmos um chopinho. A gente ia, tal... Só que, nada. Chegou um dia, ele falou para o meu irmão: "Eu acho que sua irmã está me paquerando". (risos) O meu irmão falou: "Marlene, você está paquerando o Juvenal?" Eu falei: "Não..." Aí eu pensei: "Filho de uma mãe. Ele tinha que comentar com meu irmão que eu o estou paquerando?" Numa outra sexta-feira, ele chamou eu e a Marli para tomar um chopinho e eu falei para a Marli: "Eu não vou. Vai você com ele." A Marli falou: "Imagina Eu vou com ele? Eu não estou paquerando. Eu não vou não. Você vai." "Não vou." Aí ele chegou para pegar a gente e a Marli falou: "Marlene, pelo amor de Deus, vamos, porque eu não vou sozinha com ele." Aí fomos nós duas. Foi assim que começamos a namorar e estamos juntos até hoje. Namoramos durante três anos, casamos e vai fazer 20 anos que nós somos casados. M



P - E o casamento? Você se lembra de algum detalhe especial da sua festa de casamento, dos primeiros dias de casada? Marlene - O dia do meu casamento, eu me lembro que foi uma festa muito simples. Bom, o casamento atrasou mais de uma hora. Estava marcado para as oito horas e o casamento foi realizado umas nove e meia da noite. A festa foi na casa de uma tia minha e foi aquela festa simples, gostosa. Depois que terminou a festa, nós fomos para a nossa casa. A primeira noite, de núpcias, passei na minha casa, e quando foi no outro dia, a Marli nos levou até Taubaté, que eu tenho uma prima que tem uma casa muito bonita lá. Passei um dia lá em Taubaté e depois de Taubaté nós fomos para Ubatuba. Ficamos três dias em Ubatuba. Fiquei lá em um hotel. Depois nós voltamos para casa. Eu me lembro que no dia que nós voltamos para casa, nós não tínhamos carro, era aquela vidinha bem dura. Nós não tínhamos carro e nós viemos de ônibus de Ubatuba para cá. Estava uma chuva, que pelo amor de Deus E a gente com bagagem e tudo. Descemos na Dutra, fomos à pé até Guarulhos e aí pegamos um táxi. Nós não fomos para nossa casa. Nunca me esqueço. Na volta da lua-de-mel nós fomos jantar na casa da minha mãe. Estava todo mundo lá esperando a gente. Eu nunca me esqueço disso. Foi uma coisa gostosa, e se tivesse que começar tudo de novo, eu faria tudo. É lógico, talvez hoje, com a experiência que a gente tem, a gente se preocuparia com alguns detalhes que nós não nos preocupamos na época. Mas seria talvez da mesma forma. M

P - E os primeiros dias de casada? Foi difícil se acostumar com a vida de casada? Marlene - Não. Não foi difícil porque a gente se programou bastante. Era uma coisa que eu queria. Eu queria me casar, ele também. Então foi uma coisa bem tranqüila. MP -Como era a casinha de vocês? Marlene - Eu morava num sobrado. Eram dois quartos, sala e cozinha. Uma casa gostosa. Inclusive, eu morei lá 15 anos. Faz quatro anos que eu me mudei do sobrado e fui para uma outra casa que nós construímos. Mas a minha casinha era muito gostosa. Não tinha quem não chegasse na nossa casa e que não elogiasse. Todo mundo se sentia bem na minha casa. Uma casa gostosa. Ele fazia faculdade nessa época. Então, nós íamos trabalhar juntos, de manhã eu ia com ele, à tarde eu vinha embora e ele ia para a faculdade. Ele terminou a faculdade dali uns três anos. M

P - Como era no Aché, trabalhar no mesmo lugar que o teu marido? Marlene - Gostoso, apesar de a gente sempre separar muito bem a vida profissional da vida particular. No Aché, ele é o Juvenal e eu sou a Marlene. Às vezes, é lógico, se eu preciso falar com ele, eu ligo para ele, falo com ele, mas esse negócio de ficar namorando, horário de almoço junto, não. Inclusive porque até os horários de almoço são diferentes. Eu almoço em um horário e ele em outro. A gente se encontra mesmo só em casa. Eu fico aguardando ele chegar todos os dias. Ele estuda, ele está fazendo MBA. Ele chega tarde em casa. Eu fico esperando, eu e meus filhos. A gente fica aguardando a chegada dele para preparar a janta. Esse é o nosso dia-a-dia.

Festas no Aché
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P - E nesses anos todos de Aché, teve algum momento mais marcante? Alguma festa, alguma comemoração? Marli - Ao longo dos anos aconteceram várias festas, porque o pessoal do Aché é muito festeiro. Tudo acaba em festa. Tudo é motivo para ter festa. É muito gostoso. Todo final de ano tem sempre uma grande festa. A cada ano a festa é melhor. Agora, sem ser essas festas de finais de ano, tem comemoração, certificado de alguma coisa que o Aché recebe, que é sempre festejado. O ano passado, nós tivemos também uma festa do Dia do Voluntariado, que o Aché parou todos os funcionários para doar esse dia com serviço voluntário. Foi muito bonita essa festa também. Marcou muito. Agora, uma que eu acho que marcou várias pessoas do Aché foi a festa de 25 anos do Aché. Uma festa emocionante. Os diretores participaram. A gente não pode nem chamar aquilo de discurso, porque quando eles participam de festas é aquela coisa, aquele bate-papo com funcionários. Foi uma das festas mais marcantes. M

P - Você se lembra de algum detalhe dessa festa? Aparecida - Com certeza. Todas são marcantes, mas essa de 25 anos foi diferente. Foi uma festa muito bem planejada, muito bem elaborada. Foram famílias... Muito bacana. Na verdade, cada festa tem sua particularidade. Foram puxando aquelas coisas do fundo do baú, onde os funcionários e os próprios donos se emocionaram. Para nós, que estamos lá desde o início de toda essa história, a gente se emociona como se fosse da gente. Na verdade, o Aché para a gente é como se fosse a casa nossa. Uma parte da vida da gente, a gente passou lá dentro. Foi nosso único emprego, e ali dentro nós sempre tivemos... A gente se sente como se fosse em casa. Hoje, com essas evoluções todas, com essas mudanças todas, mesmo assim a gente ainda sente isso. A empresa deixa de ser familiar. Tudo bem, deixa de ser familiar, está se profissionalizando, tem que se profissionalizar. O caminho é esse realmente. Mas não adianta, aquela coisa, aquela raiz que cada um de nós, antigos, temos, isso não vai ter nada que vai tirar da gente. Estar comemorando os 25 anos do Aché como se fosse nosso. É nosso. Nós vimos aquilo desde a época da Nova dos Portugueses, quando não tinha nada do que tem hoje. Então, hoje, quando a gente vê tudo aquilo grande, o que cresceu, essa fábrica nova, a gente sempre se emociona e fica contente. Em cada festa, cada momento, cada conquista da empresa a gente participa. Tem sempre um dedinho de cada um de nós em tudo isso. Para a gente é uma festa, é uma novidade, mas também é como se fosse nosso. É como se fosse nosso. Nós temos parte em tudo isso. Muito legal.

Relação com o Aché
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P - Você estava falando que de forma especial, a história do Aché se confunde com a história da família de vocês... Marli - Vou acomeçar desde o comecinho mesmo. Nós entramos no Aché por intermédio de um primo nosso. Isso há 37 anos atrás, 34, 35, 36 anos. Esse primo arrumou emprego para meu irmão e o meu irmão para a Aparecida, para mim e para a Marlene. Depois nós tivemos também dois irmãos que trabalharam lá um período de cinco ou seis anos, e uma irmã. Dos oito irmãos, uma só não trabalhou no Aché. Isso vai envolvendo a família, tudo gira em torno de indústria farmacêutica. Você vai criando raízes com aquilo. Eu tenho um cunhado que sempre trabalhou em farmácia, minha sobrinha faz Fisioterapia... Automaticamente, como você vê, a família está com todo mundo voltado para a indústria farmacêutica, para a saúde. É gostoso. Você percebe que não é só lá dentro. Você sai dali, você está levando o que você está aprendendo lá, e a resposta são essas atitudes por parte de um sobrinho, um irmão...

Trajetória de Cida no Aché
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P - Queria que cada uma de vocês fizesse um resumo de como foi o caminho de vocês, profissionalmente, dentro do Aché. Vocês começaram como auxiliar de embaladeira. Como isso foi crescendo? Aparecida - Eu iniciei como auxiliar de embalagem. Depois eu fui líder de linha, depois eu passei para a supervisão e atualmente sou gerente da área de Líquidos e Semi-sólidos. Cada fase dessa jornada, dessas passagens todas, tem histórias. Quando eu iniciei, eu trabalhava na Embalagem. Tem toda aquela história que eu contei, de embalar. Depois, você passa a ser líder. O que é? Você passa a comandar uma equipe. Já muda um pouco a tua cabeça, a tua maneira de ser, tua maneira de guiar as coisas. Com o passar do tempo eu fui promovida a supervisora. Nessa época que eu era líder, líder da Embalagem, da esteira de líquidos. A área de Manipulação de Líquidos estava carente, precisando de alguém para tomar conta. Eu fui promovida para supervisora da área de Manipulação e Envase de Líquidos e Semi-sólidos, da parte de pomada. Aí ficou, eu só tomava conta dessa parte da Manipulação e Envase de Líquidos e Semi-sólidos. A área de Líquidos é uma área muito volumosa, tudo é muito volumoso. Manipular aqueles tanques de três mil litros, cinco mil litros, sete mil litros... E, com a vinda da Parke-Davis, esse primeiro prédio antigo não comportava mais. O prédio que então era da Química passou a ser de Líquidos. Lá já foi feito um setor mais amplo. Quando foi para lá, eu fiquei com a parte toda, desde a Manipulação de Líquidos, Envase e Embalagem. A parte de Embalagem também é muito volumosa. Então foi tudo para esse novo prédio. Eu fiquei com a supervisão até 1986. Em 1987 eu fui promovida para gerente da área de Líquidos e Semi-sólidos e que é a minha atual função. A gente aprende muito no Aché. O Aché é uma empresa que proporciona tudo isso para a gente. A gente fala que não tem faculdade que ensina o que a gente aprende no Aché. Tudo o que você faz ali dentro você está sempre crescendo profissionalmente. A gente também já faz parte da cultura da empresa. A gente está sempre mudando, inovando, melhorando as coisas e crescendo. As mudanças vão acontecendo. Como a gente falou no começo, você acaba nem percebendo. A hora que você vê... Se a gente for contar nossas histórias aqui de produção, de trabalho, de tudo, a gente amanhece conversando aqui. A gente tem muita coisa. Cada dia que passa tem uma coisa nova. Tem uma máquina que vem, um treinamento que você recebe, um produto em lançamento... Então, é lógico, tudo é desenvolvido, tem que ter um processo de um primeiro lote que você tem que acompanhar. A qualidade é primordial. Tudo isso são coisinhas que você vai juntando no seu dia-a-dia e nem percebe. Mas a gente tem muita consciência e muita responsabilidade em tudo aquilo que faz. Então, olha só quanta coisa que a gente foi absorvendo nesses anos todos. E o Aché sempre dando esse lado todo de treinamentos, de inovação, de equipamentos. Esses equipamentos novos que vão acontecendo. Eu fui inclusive para a Alemanha. Foi comprada uma linha nova e eu fui para a Alemanha com o Carlão, o pessoal da engenharia industrial para dar o start up da máquina. Então foi muito bom. Para mim foi enriquecedor ir para outro país, ver uma máquina nova. Isso foi muito marcante na minha vida também. Do lado profissional, isso foi muito bom, a gente vê coisas novas, em um país totalmente diferente do nosso. Isso é enriquecedor para a gente. E, sei lá, a gente tem muito amor em tudo isso, gosta do que faz. Eu falo que tudo o que eu faço, eu faço com gosto. Meu marido adora pipoca e eu não faço pipoca. Ele fala: "Puxa, bem, custa você fazer pipoca?" Eu falo: "Não faço. Eu não gosto." Eu gosto de pipoca, mas eu não gosto de fazer pipoca. Eu acho que isso na vida é tudo. Acho que tudo o que você tem que fazer, tem que fazer com gosto, com prazer e com amor. Você vai trabalhar, você tem que fazer com amor. Eu faço com amor. Levanto de manhã... Tem gente que levanta e se lamenta: "Ah, eu vou trabalhar." Não Eu digo: "Obrigada, meu Deus, por mais um dia. Que gostoso. Vou trabalhar num ambiente gostoso, saudável, em que eu me sinto bem." Para mim é muito legal tudo isso. (risos)

Trajetória de Marlene no Aché
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P - E você Marlene? Marlene - Eu comecei também como auxiliar de embaladeira. Depois eu passei para auxiliar de carimbagem, na Embalagem mesmo. Depois eu passei para líder de Embalagem. Trabalhei até, acho que 1976, na Embalagem. Depois fui transferida para ser líder de Expedição. Trabalhei na Expedição de dois a três anos e depois fui promovida para supervisora de Semi-sólidos. Em 1990 eu passei para a gerência de almoxarifado. Para mim, todas essas promoções, essas mudanças, foram sempre um desafio. Porque a cada promoção que você recebe é um desafio que você tem que enfrentar. E acho que a vida é bem por aí mesmo. É um desfio atrás do outro e você aprende muito com isso. Eu me lembro que quando eu fui para o Almoxarifado só tinha computador na parte administrativa. E, na produção, o único lugar que tinha computador era no Almoxarifado. Aí, na hora que eu fui promovida para gerente, falei: "Meu Deus do céu. O que eu faço agora?" Porque para mim aquilo era um bicho de sete cabeças. A responsabilidade é grande demais. A gente é muito exigente com a gente mesmo. Você quer fazer, você quer fazer bem feito. Você tem medo de errar. A dificuldade para mexer em computador era grande. Foi uma fase até engraçada na minha vida. Eu falava: "Meu Deus do céu. E agora? Computador... Eu tenho que mexer nisso. Será que eu vou conseguir?" Só que foi mais um desafio. Hoje eu não sou nenhuma expert em mexer com micro, mas eu já domino. M

P - Um desafio atrás do outro, afinal? Marlene - É um desafio atrás do outro, e isso é muito bom para a gente, porque você aprende muito. Eu encaro da seguinte forma: você tem que ter desafios e ter objetivos também, porque, se você não tiver desafios e objetivos na sua vida, não tem graça, perde o sentido. Assim não, é legal porque você aprende. Você ensina também. Eu aprendi muito no Aché, porque lá foi o primeiro emprego em que eu trabalhei e trabalho até hoje. Eu aprendi muito, mas eu tenho certeza de que eu ensinei muito também. É uma coisa assim muito gostosa. Tenho certeza de que tenho muito ainda a aprender. A cada dia que passa, pode ter certeza de que a gente aprendeu e muito.

Trajetória de Marli no Aché
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P - E você, Marli, como foi a sua história? Marli - Também comecei como auxiliar de embaladeira. Trabalhei pouco tempo na Embalagem. Logo fui promovida à seção de Manipulação. Era até engraçado, porque eu tinha 15, 16 anos, era pequenininha. Sempre fui magrinha assim, e manipulava os tachos que eram maiores do que eu. O pessoal achava até estranho, eu tão pequenininha fazendo aquela coisa que hoje no Aché é feito por homem. Mas eu era uma pessoa agitada, eu queria aprender tudo. Eu sempre fui muito elétrica. Trabalhei uns quatro anos na Manipulação e aí fui trabalhar no Controle de Qualidade com o Toninho Químico. Depois a Emy foi contratada, e nós trabalhamos juntas também. Para mim era uma coisa nova, porque eu nunca tinha trabalhado naquilo, mas foi muito gratificante. Foi uma época muito boa e eu aprendi muito no Controle de Qualidade. Depois eu fui promovida a líder de envelopamento. Trabalhei, acho que uns sete ou oito anos, e depois fui promovida a supervisora de envelopamento. Na época eu tinha 22, 23 anos. Era jovem e tanta responsabilidade, mas o Toninho Químico, o Carlão sempre me deram muito apoio. Na época, a Aparecida e a Dóris já eram supervisoras. A gente trocava muito, e no fim a gente conseguia bom resultado junto à equipe. Depois, em 1989, mais ou menos, fui promovida a gerente da Embalagem de Sólidos, onde eu estou até hoje. É como a Marlene falou, a gente vai subindo degrau por degrau, e sempre tendo apoio total dos nossos diretores. Isso se torna mais fácil. Os desafios... É que nem o computador. "Ah, eu não gosto." Daqui a pouco você está mexendo, você já perdeu o medo. Agora nós estamos estudando inglês, as três. Depois dos 40, estudando inglês. A gente está indo, está gostando. Acho que a gente tem que aprender sempre, porque senão não vai ter graça, até porque também eu acho que o funcionário hoje está se especializando. Se você não acompanhar, não é legal. Você não vai conseguir às vezes exigir coisas. A gente procura sempre ser, não digo modelo, porque ninguém é perfeito, mas fazer com que aconteça diariamente aquela troca de informações, porque a gente aprende, a gente ensina. Acho que é isso que faz o nosso dia a dia não cair naquela rotina chata. Você levantar e dizer: "Ah, vou para o Aché, vou para o inglês..." Nada disso. Você tem que ir legal, saber que vai ser um dia diferente, vai ser um dia legal, que vai dar tudo certo, como deu até hoje. A gente espera que continue assim.

Inauguração do grêmio
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P - Eu queria que você contasse como foi a inauguração do grêmio, porque você disse que tem uma lembrança. Marli - O grêmio marcou muito, principalmente nós, os antigos. Por quê? Porque a gente até brincava: "Puxa, olha, nós vamos construir o Grêmio" E demorava. Aí esticava o Aché para cá, esticava o Aché para lá... E o Grêmio nada. A gente brincava: "Será que nós vamos ver essa piscina?" Virou até gozação. Como tudo que eles fazem no Aché eles fazem muito bem feito, o Grêmio demorou, mas na hora que saiu, saiu um Grêmio muito legal, onde a família pode utilizar também. Foi muito legal. Para a gente foi uma conquista. Uma das primeiras coisas de lazer feita pela gente. Porque até então, o que a gente fazia? Tinha um timinho de futebol que arrumava o jogo. Eu sempre gostei de futebol. Eu gosto de futebol. Eu ia assistir aos jogos. Quando eles inauguraram o Grêmio do Aché, acabou isso. Que legal. A gente tinha ali o que a gente mais gostava de fazer, que era assistir um joguinho e tal. Piscina eu acho lindo, mas eu morro de medo de água. Acho que o pessoal usa bastante. Hoje o Grêmio do Aché é um ponto de encontro muito importante. As pessoas utilizam muito o Grêmio e eu acho que na parte social da empresa, o Grêmio é fundamental.

O Aché em uma palavra
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P - Se vocês tivessem que traduzir em uma palavra o que o Aché significa para vocês, qual seria essa palavra? Marlene - Eu, seria amor. Marli - Eu acho que é aprendizado. M



P - Aparecida. Aparecida - União.

Sonho de vida
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P - Falamos tanto de passado... Eu gostaria que cada falasse de um sonho que vocês têm para o futuro. Marli - Como eu trabalho desde pequena e eu adoro viajar e nunca consegui sair e sair bem relaxada, gostaria de viajar e não ter hora para voltar. Então, logo que eu me aposentar, eu quero viajar um ano. Quero viajar até enjoar. Aí depois, eu quero me dedicar a alguma obra de voluntariado, porque hoje eu tenho muita vontade de praticar, mas eu não tenho tempo porque eu tenho minha mãe, tenho minha família, tenho aquela tia que você tem que dar assistência. Então, eu faço esse voluntariado dentro da família. Eu acho que se eu fosse fazer isso hoje, não sobraria tempo para mim. Não dá. Como faltam cinco anos só para eu me aposentar, meu sonho é fazer isso depois, com tempo, para poder me dedicar realmente. Eu acho que você tem que fazer, mas fazer com tempo, com amor. Não é porque você está se dando, que você também vai correndo. Não. A hora que eu tiver tempo, eu quero fazer isso. Marlene - Meu sonho é conseguir dar estudo para os meus filhos. Eu vou me sentir a pessoa mais realizada no dia que eu conseguir dar o melhor em estudo para os meus filhos. Meu filho mais velho já está no terceiro colegial. Daqui a pouco já começa faculdade e tal. Eu vou me sentir muito realizada se eu conseguir manter uma faculdade boa, de repente fazer um estágio no exterior. Meu sonho é realizar o estudo dos meus filhos. Tanto do Rafael quanto da Tamara. M



P - Aparecida... Aparecida - Para mim, falta aproximadamente dois anos e meio para me aposentar. Mas não é porque você se aposenta do trabalho, que você aposenta tudo. Senão você deixa de viver, você vai vegetar. Não é bem por aí. Mas, quando isso acontecer, eu quero viver um pouco para a minha família. Como a gente começou a trabalhar muito nova, a gente sempre deixou as filhas com empregada. Com minha mãe e depois com empregada. Você pula aquela fase de mãe, porque o nosso horário de trabalho é assim: a gente entra cedo e sai tarde. Às vezes tem segundo turno e a gente fica um pouco mais. A gente acaba muitas vezes deixando um pouco o lado mãe. Lógico, você tenta, mas em alguma coisa fica falha. E minhas filhas sentem muito. Minha filha mais velha, até hoje ela cobra minha presença. Ela fala: "Mãe, eu gostaria anto que você um dia ficasse em casa". Porque infelizmente, a mãe que trabalha, os filhos sentem mesmo. Então, o dia que eu me aposentar, eu sei que vou sofrer muito, vou sentir muito porque eu adoro trabalhar, gosto do que eu faço, mas eu quero ser mãe, eu quero ser dona-de-casa, eu quero curtir meu marido, eu quero viajar. A minha filha, a mais velha não, mas a caçula, ela tem vontade de estudar fora. Se Deus quiser isso também está nos meus planos. Aí meu marido fala: "Vai que a gente deixe ela ir e depois ela não queira voltar?" Eu falo: "Seja o que Deus quiser". Tudo isso é projeto de vida do futuro. A gente fala: "Puxa, vida. Vou trabalhar como voluntário?" Eu acredito que sim, porque ficar só em casa, também, não tem graça. Eu acho que se cada cidadão fizesse um pouquinho, seria muito bom para todos. Então assim, falar: "Não, vou só fazer isso". Não. Eu quero fazer um pouco de cada, porque também não tenho temperamento para ficar muito parada, não. Acho que vou conciliar tudo isso, se Deus quiser.

Contar sua história
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P - A nossa última pergunta é saber o que vocês acharam de ter contado um pouco da sua história. Marli - Nós ficamos muito contentes de participar porque a gente faz parte dessa história. Você ter a oportunidade de contar um pouquinho da sua história, de fazer parte de um livro, um vídeo, seja lá qual for o produto final, é gratificante para a gente. E a gente elogia muito mais essa iniciativa do Aché, porque são poucas as empresas que teriam a coragem de estar fazendo isso. A gente até agradece e a gente entende até como um voto de confiança deles de estarem nos convidando para participar desses depoimentos. Eu fico muito feliz. Marlene - Eu também. Eu agradeço. Fiquei muito orgulhosa. Achei um trabalho muito bonito e muito bacana, porque eles escreverem a história. É uma coisa que não dá nem para explicar de tão lindo. Eu me senti muito bem, gostei de fazer parte da história. Já pensou que coisa mais linda o dia que eu não estiver mais na empresa e mostrar para os meus filhos: "Olha, eu fiz parte dessa história..."? Porque nós fizemos mesmo. Isso foi muito bonito, agradeço. E com certeza muita gente, muitos funcionários vão também querer fazer parte dessa história que é muito linda. M



P - O que você achou do depoimento, Aparecida? Aparecida - Eu achei bárbaro. Quando passaram para a gente o convite, ainda falei para a Marlene: "Puxa vida. O Aché está convidando a gente para fazer parte dessa história". Para nós que entramos meninas, isso tem um valor muito grande. Se eles escolheram a gente para fazer parte dessa história, é porque realmente consideram que a gente faz parte. (choro) Eu fiquei extremamente feliz. Não só por mim, mas por meus filhos, por nossa família. Afinal se nós trabalhamos é porque meu marido entendeu, minhas filhas entenderam, minha mãe olhou minhas filhas na época em que eu não pude. Se a gente conseguiu chegar onde a gente está até hoje, e se a gente vai conseguir fazer parte dessa história, tem um dedinho da família toda. Eu fiquei muito feliz. Nós ficamos muito contentes de fazer parte dessa história toda do Aché. A gente se sente mesmo parte. Se não fosse convidada acho que até ficaria triste. Mas a gente tem certeza: se eles convidaram a gente para isso é porque eles sentem que nós fazemos parte e nós realmente fazemos. A gente fica muito feliz. Vai ficar marcado para o resto de nossa vida. (risos) M

P - Muito obrigada pelo depoimento. Aparecida - Deixa eu enxugar meu rosto. Sou muito chorona... Que raiva M

P - É choro de alegria. Mas a emoção faz parte da história.

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