Busca avançada



Criar

História

Histórias de Beatriz del Castillo

História de: Amandy da Costa Gonzalez
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 22/06/2015

Sinopse

Em seu depoimento, Amandy da Costa González fala sobre sua infância conturbada no Paraguai, onde morou com sua avó, pois seus pais eram perseguidos políticos da ditadura militar peruana. Comenta sobre como o pseudônimo Beatriz del Castillo surgiu, aos 3 anos de idade, ao ser interrogada, e sobre a vinda para o Brasil encontrar sua mãe, que era refugiada politica no país. Amandy fala sobre suas impressões de São Paulo, seus estudos, sobre os movimentos sociais que participou  e sobre sua caminhada na literatura. Ela escreveu um livro, montou uma editora e organiza os sarais  “Sarau Erótico de Yopar” e “Utopia do Asfalto”. 

Tags

História completa

Meu nome é Amandy da Costa González. Eu sou de Assunção, Paraguai e nasci no dia 1º de agosto de 1972. Meu pai é Juan Carlos da Costa de Castillo, ele era escultor e pintor. E minha é mãe Nidia González Talavera, ela era pau pra toda obra, ela fazia de tudo. Ela trabalhou de várias coisas, até porque ela teve diversos nomes, diversas personalidades diferentes também porque ela foi fugitiva por bastante tempo, ficou foragida, então ela precisou ter várias atividades. Tudo por causa da ditadura que existia no Paraguai e eles faziam parte de um movimento armado, chama OPM, Organização Primeiro de Março ou Organização Político-Militar. E eles eram uma resistência foquista ao regime. Eram os dois. Um era responsável do campo e outro era responsável urbano, da mesma organização. Eles se conheceram em debates clandestinos sobre Marx. Se apaixonaram, ficaram juntos e eu nasci primeiro. Eu acho que já começou a ter alguns enfrentamentos, acho que chegaram a acontecer assaltos, chegaram a acontecer movimentações do organismo e eles começaram a ser perseguidos. E nesse meio tempo também ela ficou grávida da minha irmã.

Meu pai já na época do colegial, ele já foi preso. Ele era do movimento estudantil. Ele já era clandestino quando eu nasci. Mas a minha mãe ainda não, minha mãe ficou depois. Ele foi emboscado e assassinado. Foi no enfrentamento com a polícia, foi um fuzilamento. Ele estava numa casa, ele e um casal, e a mulher estava grávida. E a polícia entrou, cercou a casa, subiu no telhado e quando eles perceberam que a polícia estava lá e que eles deram a voz de que eles estavam lá o casal, ele saiu pra enfrentar a polícia pro casal poder fugir. E o casal conseguiu fugir. Conseguiu fugir, se refugiou numa igreja e a igreja chamou a polícia.

Eu fiquei com a minha mãe num primeiro momento, até um ano de idade mais ou menos, mas também não ficava muito com ela, eu ficava mais com a minha avó. Porque ela trabalhava bastante porque ela era a que era legal. Meu pai já estava na clandestinidade. Minha mãe estava no sistema, digamos assim, ela trabalhava, e eu ficava com a minha avó, a mãe do meu pai: Amália del Castillo. Ela que foi minha mãe nesse período todo.

Quando a gente ficou numa casa mesmo da família, que era da família, que a gente chegou na casa, assim que a gente chegou veio a polícia e levou a gente pra delegacia, eu e a minha avó. E foi o primeiro interrogatório que eu sofri, digamos assim. Porque eles queriam saber dos meus pais, queriam saber da minha mãe, porque ela já estava foragida, tinha acabado de sumir. Com a morte do meu pai ela teve que assumir muito mais coisas porque todo o aparelho estava em crise. Então ela sumiu. Eu tinha três anos de idade. Fui interrogada com luz na cara. E foi a primeira vez que surgiu a Beatriz del Castillo, que hoje é a Bia Castillo, que é atriz, dramaturga, diretora. A Beatriz falou que não sabia de nada, falou que não tinha pais, que ela estava de passagem. E depois eu fiquei me chamando Beatriz, tanto que quando eu vou lá perto daquela casa onde eu morei até meus 12 anos, ainda hoje tem gente que me chama de Beatriz quando eu vou lá. Porque eu fiquei em choque com isso: “Ser Amandy é muito perigoso”, então eu já na hora virei Beatriz e falava pras pessoas que meu nome era Beatriz e tal. Eu só era Amandy na escola, porque ali eu tinha que ser.

A minha mãe sobreviveu. E sobreviveu a minha irmã também, que é a Mbyja, que estava na barriga da minha mãe quando meu pai morreu. Minha mãe foi pra Bolívia, depois pra Argentina e, quando ela entrou no Brasil, ela entrou com um documento. Este documento ela perdeu, foi roubada, ela não tinha como sair do país. Ela acabou ficando no Brasil. Em 1984 viemos eu e minha avó.  A gente teve que passar a fronteira clandestina e foi um problema na hora de embarcar porque eles não queriam embarcar sem o papel, aqui em Foz do Iguaçu, sem o papel da aduana. A gente veio morar em São Paulo. Aí eu vim conhecer a minha mãe. Foi muito forte, foi forte. Mas eu estava conhecendo ela. Ela não me reconheceu na hora porque ela esperava uma criança.

Finalmente eu pude ter livros, podia estudar. Eu estudei no Colégio Equipe, que era aqui em Pinheiros quando eu estudei. Então eu vinha lá de Tatuapé, vinha até aqui, pra mim era uma viagem. Tomava ônibus, metrô e ônibus pra chegar na escola, então era o dia todo isso porque eu estudava à tarde, então passava o dia fazendo isso, indo pra escola e voltando da escola.

Eu tenho documentos, mas sou refugiada política. Entrei no status como dependente de refugiada política, assim como a minha avó. E o tempo vai passando, eu termino o colegial, eu estou com 17 anos e a minha irmã começa a entrar em crise lá no Paraguai. Começa a entrar em crise, a não se dar bem, entrou na adolescência. Então quando ela entra na adolescência começa a crise de identidade séria, a definição. E ela briga com todo mundo, faz o maior escarcéu lá e eles falam pra ela vir pra cá, e ela vem. Ela vem pra ficar uns meses, pra entrar na linha, pra qualquer coisa assim. E acaba ficando. Nesse processo que ela fica, a gente passa por toda essa coisa, a gente teve que voltar lá no Paraguai a família inteira, teve que abrir juízo, teve que procurar mudar o nome dela, a identidade. Enquanto isso abrir precedente aqui com a Acnur, que são refugiados, e enfim, finalmente, constituir a família.

Fiz vestibular pra Cinema lá na FAAP, passei, mas lá não tem bolsa, então, não adiantava. Passei pra Filosofia na PUC e eu falei: “Ah, Filosofia na PUC, né?”. Porque lá ainda era, como chama isso? Na época, eles liberavam umas bolsas e tudo e eles tinham no imposto tiravam um pouco, então eles tinham uma coisa mais social lá na PUC, naquela época. Eu entrei na Filosofia e fui pro centro acadêmico da Filosofia, acho que esse foi um dos primeiros desabrochares, a faculdade. A faculdade pra mim foi muito legal porque essa coisa do universo, de você poder, sei lá, estar discutindo Psicologia aqui numa área, de repente você sai, você vai lá e fala de Economia.

Eu fiquei grávida no final dessa faculdade e eu me transferi, fui pra USP. Casei. Ele era da História. Mas lá na PUC é tudo mais misturado, se bem que lá na USP também, FFLCH é toda colada. Só que meu filho, quando ele estava na minha barriga, eu estava lá pelo Cafil, o Centro Acadêmico de Filosofia, debatendo o uso do Minhocão e ocupando o Minhocão com evento, festa junina, passeata, tudo por causa do Minhocão. E lá na USP, quando meu filho já era pequenininho, a gente ainda ocupava o Minhocão, levava lá, foi o Lanny Gordin tocar lá em cima do nosso tablado. Os Hare Krishna distribuindo as comidas e fazendo aquelas festas, Eu vou morar lá em Vila Indiana. É perto da USP, perto de um dos portões da USP, indo lá pra Rio Pequeno. Nesse processo acabei conhecendo toda a galera lá da USP e também levando toda essa galera da USP lá pro Minhocão. Eu saí, eu já comecei meu processo de separação ali, eu já saí até de casa, fui morar no Crusp, junto com os amigos. Eu, meu filho, chegamos lá e entramos, ficamos no Crusp já.

Eu sempre escrevi, mas assim nunca pensei em ser escritora, em ser poeta, nada disso. Pelo contrário, como eu tinha esse trabalho do Minhocão eu sempre estava na caça de artistas, de poetas, de gente que fazia teatro. Eu estava atrás deles para que eles fossem lá no Minhocão fazer. Começou o Fruta. Foi meu primeiro livro e que é dedicado ao meu filho. Todos os livros de poema é alguma referência à árvore, ou é tronco, ou é raiz, ou é caule, ou é folha. Fiz independente. Foi assim, digitado, fui lá e levei na xerox, coloquei a espiral e saí vendendo. Eu estava trabalhando na banca de livros. Então saía distribuindo e comecei a ir pros saraus, porque eu não ia nos saraus como quem ia declamar, eu ia nos saraus pra falar: “Hum, esse é legal, hein? Esse eu vou chamar. Ah, aquele lá”, sabe assim? Esses do Caiubi lá na PUC, no Pátio da Cruz, a gente fazia. Lá na USP também, direto, na Psicologia, na ECA. Isso tudo é de 96 a 2000. Bom, estou lá, fiz o meu primeiro livrinho, eu começo nessa ideia de levar o livro. Eu começo a declamar, começo a ir pros saraus com esse intuito da poesia. Começo a encontrar poetas que publicam seus próprios livros. A gente cria uma editora que chama Epidemia do Livro, que é feita na xerox e que tem vários autores, vários poetas contemporâneos que começam a lançar pela Epidemia do Livro.

Mas eu fiz um curso de massoterapia lá no Senac, na Tiradentes. Massoterapia, Ventosa, Moxa e tal. Eu passava todo dia ali na frente do Parque da Luz e tem as prostitutas lá do parque e tudo e tinha um amigo meu que trabalhava lá, em alguma coisa burocrática ali dessa praça. E a gente conseguiu um espaço numa ONG e começamos a chamar essas prostitutas pra trabalhar e fizemos um trabalho com elas de três meses, a gente criou uma peça de teatro juntos e elas se apresentaram, a peça era As Heroínas da Resistência, onde elas contavam as próprias histórias. E dentro desse processo delas também foi lindo esse trabalho, como elas foram se abrindo, porque essas também são Esquizocênicas: trabalham com outro nome, e uma pessoa é uma, outra é outra, elas têm essa coisa também, dividida, dentro delas. E foi muito interessante todo esse processo e foi, digamos assim, minha primeira experiência com teatro, que a gente foi fazer teatro. Começa a saga do teatro que isso daí é tudo a trilha da Bia Castillo depois, já não é mais como Amandy. O único lugar que elas se juntaram foi lá no Agua de lluvia, que foi juntas.

O meu sarau chama Sarau Erótico de Yopara. De Yopara, que é o nome do movimento lá do Minhocão, 20 anos atrás, é daquele movimento, é o movimento de Yopara. Sou eu, o Betinho e a Flor de Lótus, somos nós três. Nós três que somos, digamos assim, MC do sarau, mestre de cerimônias, porque muita gente participa que são os performers, tem as pratas da casa. Vai encontrar literatura, vai encontrar performances, vai encontrar música, vai encontrar erotismo, vai poder fazer discussões sobre isso, vai se encontrar com a sua sexualidade. Vai poder olhar pra sexualidade sua e dos outros de uma forma limpa, porque essa que é a ideia, você poder ficar livre, você ter um espaço pra você ser livre. Porque a literatura erótica, assim como eu te disse do Sade que você não encontra ele por aí, você não encontra em geral, literatura erótica é não é fácil de achar. É um público muito rebuscado, é um público que consumiria bastante a coisa do erótico, mas não existe um lugar onde você possa trocar informação sobre isso, mesmo de textos, textos famosos, de literatos famosos. A gente até tem um quadro no Sarau Erótico que chama assim “Gozando com os Famosos”. Porque a gente explica pras pessoas que famoso também gosta, já gozaram séculos atrás. A gente faz em vários lugares. Na Nossa Casa é um que a gente sempre faz, uma vez por mês. Esporadicamente a gente faz. Esporadicamente a gente faz na Santa Cecília, num lugar que chama Morfeus. Também no Estúdio Lâmina. E vira e mexe agora a gente vai fazer no Simplão, lá em Paranapiacaba. Onde tiver espaço a gente vai. E eu não disse porque ele é famoso ainda. Ele é famoso porque é o único sarau da Vila Madalena que teve movimento popular para que ele acabasse, fizeram até BO.  Falaram que a gente fala palavrão, que as pessoas ficam nuas e que o pessoal faz sexo. Não, imagina! Eu nem falo palavrão (risos).

Quando a gente fez esse trabalho com as prostitutas lá no Parque da Luz a gente foi chamado pra ser preparador corporal num outro grupo de teatro. Nesse grupo de teatro estava o Betinho. Eles estavam fazendo Beijo no Asfalto, do Nelson Rodrigues, ele era o Amado Ribeiro. A gente se conheceu. Ele é ator. Ele é ator e músico. Com ele eu entrei pra música também. O outro sarau chama Utopia do Asfalto. Esse Utopia do Asfalto é um sarau de rua que ele acontecia no Buraco da Minhoca. O Buraco da Minhoca é um pedaço do Minhocão que sai ali na Rua Augusta, então esse pedaço chamava Buraco da Minhoca, que a gente fez ocupação também lá, fizemos várias festas. Enfim, o lugar tem uma acústica incrível. Foi tão legal que até a prefeitura começou a usar lá como galeria depois e tal, de arte. Porém, colocaram uma grade lá, dois meses atrás, porque está em juízo, parece que tem liminar por causa do barulho. Tem uma pessoa que é muito insistente, que ela é do Conselho de Segurança da região e que ela acha mais seguro ficar lá daquele jeito, abandonado. O sarau de rua tem de tudo. Tem em geral três autores que vão lá lançar livros e se apresentar, tem performances que pode ser de dança, de poesia, ou performances teatrais, curtas. E em geral tem um convidado que vai fazer o som. E o DJ que fecha. E os MCs que sou eu, o Betinho e o Maick Nuclear, que é um cara que também faz poesia, que ficou muito famoso fazendo lambe.

A Beatriz tem uma produção específica. Ela tem peças de teatro, tem companhias, tem uma peça que chama Utopia, que é baseada em Thomas Morus que em geral ela sempre é remontada por várias companhias, já em escola, em vários lugares, a Bia montou essa Utopia.  

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | portal@museudapessoa.net
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+