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Histórias de uma dama dos direitos humanos

História de: Margarida Genevois
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 11/07/2019

Sinopse

Margarida Genevois é carioca, nascida em 1923. Teve uma educação esmerada; primeiro com as freiras do Sacre Coeur, depois com as do Sion. Foi alfabetizada em francês e rezava no idioma. Casou-se com um francês. Fez Biblioteconomia e a Escola de Sociologia e Política. Porém, o mais importante é que fez o que pôde - e algumas coisas além do que podia - para, de uma forma cristã, ajudar o próximo, assisti-lo em suas necessidades e misérias, inclusive sociais, resgatando-lhe a dignidade. Trabalhou com Dom Paulo Evaristo Arns, participou da Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo, dentre outros organismos. Na verdade, começou muito jovem, lá na fazenda onde viveu por 22 anos e onde ajudou a erguer uma cidade. E lá, também, criou condições de vida para os semelhantes e salvou vidas. Por tudo isso, considera-se uma mulher de sorte, por ter vivido e por ter feito tudo isso.

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História completa

Meu nome completo, Margarida Bulhões Pedreira Genevois. Bulhões Pedreira, de solteira; Genevois com o casamento. Carioca, nascida em 1923. Do lado paterno, eu descendo de fundadores da cidade, lá pelo ano de 1530. Meu pai, o pai dele e os irmãos, com exceção de um que formou-se em Medicina, foram todos ligados ao Direito - meu avô foi desembargador. Do lado materno - família maranhense - meu avô foi senador - existe até rua com o nome dele, em São Luiz. Não conheci os avós maternos, praticamente.

 

Em casa, éramos papai, mamãe, eu e dois irmãos mais novos. Fui alfabetizada em Francês, rezava em Francês, conhecia muito melhor a História e a Literatura francesas do que a brasileira. Comecei estudando no Sacre Doeur; quando fui para o então Ginásio, mamãe me transferiu para o Sion - outros ares, outra mentalidade. Aprendi muito ali. Se bem que, naquela época, questionava-se o estudo para mulheres, principalmente de classe social mais elevada. Diziam: “Aprender para quê? diploma oficial para quê? se nunca vai precisar trabalhar...!” Minha mãe, mais esclarecida, contra-argumentava: “Não, hoje não precisa, mas amanhã pode precisar”. Sábia, não é?

 

Da minha infância - eu considero que tive infância e adolescência absolutamente normais, felizes - uma imagem marcante são as enormes samambaias que existiam no quintal de casa; e uma lembrança é a brincadeira com os irmãos e os primos: todo mundo jogando futebol, e eu no gol… com uma vassoura! Lembro também que eles me consideravam “muito mandona”. E tínhamos uma casinha na árvore - feita de caixotes, por nós mesmos.

 

Tínhamos empregados e um dado curioso: o garçom só precisava usar uniforme quando tinha visita. Minha mãe sempre gostou muito de receber, mas dentro de protocolos sociais. Isso eu herdei dela - também gosto de receber, acho que possibilta uma maior integração e a gente pode escolher as companhias.

 

Papai partiu cedo - aos 52 anos. Foi brilhante na profissão, admirado, estimado, era alegre, otimista. Minha mãe, mais introvertida, mas com uma grande visão social. Viúva, foi ser voluntária na Santa casa - criou a “Obra da Mãe sem Lar”, destinada a acolher de menores que engravidavam e, em geral, eram expulsas de casa.

 

Como eu disse, toda a minha formação foi dentro do universo francês - do idioma à História nacional - e isso me favoreceu amplamente. Porque casei com um francês, mais velho do que eu, com uma posição na empresa que o obrigava a receber pessoas importantes de seu país. E eu consegui me sair bem no desempenho dessa missão. Lembro de um episódio marcante: recém-casados, fomos morar numa fazenda, em Campinas. E, um dia, recebemos um membro da Academia de Letras francesa, de quem, por sinal, eu nunca tinha ouvido falar. Primeira providência: comprei as obras do cara e me especializei em sua literatura; preparei a comida brasileira e a recepção com toques de brasilidade - vesti moças de baiana e outras de índia. Eu sei que foi um sucesso, o tal escritor foi às lágrimas. E muito impressionado por sua obra ser conhecida ali, naquele cantão de mundo.

 

Permaneci trinta e cinco anos casada, uma relação que foi muito positiva, até certo ponto. A minha atuação política, focada nos aspectos sociais, durante a ditadura, trouxeram embaraços para a relação. Por exemplo, a minha visão aguçada no sentido de uma justiça social, foi considerada - por ele e por minha mãe - péssima influência para minhas filhas. A mais velha envolveu-se no movimento estudantil e foi presa no famoso Congresso de Ibiúna. 

 

“Qualquer hora você vai ser presa e vou também ser preso e ser expulso, porque eu sou estrangeiro”.

 

Mas não adianta, parece que a vida nos encaminha para o que temos que fazer. Quando eu casei, já havia feito Biblioteconomia. Mas aí, fui para a fazenda e lá plantavam cana, que a base dos produtos da empresa era álcool. E eu me vi, de repente, participando de um dia-a- dia cuja miséria maior era a ignorância. Crianças que morriam porque as mães trocavam cuidados médicos por superstições. Lembro de uma criança que não havia tempo de socorrer em médico e eu mesma cuidei, sei lá como. O médico me disse, depois, que eu havia salvo a vida daquela criança. E essa frase nunca mais esqueci. Quando dei por mim, estávamos criando uma cidade e eu, em particular, realizando um trabalho social intenso. E lá, nessa fazenda, acabei ficando por 22 anos. E aí, eu aprendi, definitivamente, que não adianta dar coisas materiais; é preciso garantir Educação e os direitos essenciais da pessoa humana - dignidade. E foi o que, mais adiante, me levou à Comissão de Justiça e Paz. Sem eu perceber, a minha vida tomou um rumo que nem mesmo eu seria capaz de prever, lá atrás, quando me ocupava de desenvolver uma pequena cidade. Porque aí veio a ligação com a Teologia da Libertação; com os dominicanos; com os grupos da Ação Católica; com o importantíssimo grupo Veritas; com o pessoal do CEBRAP; com a Sociologia - fui fazer a Escola de Sociologia na mesma época em que minha filha fazia a USP. E aqui cabe uma menção especial a esse grupo Veritas, por suas propostas, por sua ação. Pessoas com boa formação intelectual, interessadas em debater o momento, em suas perspectivas social, política, econômica, humana. Tentando envolver mais pessoas, pessoas mais simples e analfabetas: para tanto, criou-se um grupo de alfabetização. Mas, em essência ele era um mini curso universitário, com enfoques antropológicos, sociológicos, econômicos, abordando os grandes temas e a realidade de variados países. Aí, veio o convite para a Comissão de Justiça e Paz - convite que partiu de Dom Paulo Evaristo Arns. Passei a participar do apoio às vítimas das arbitrariedades da ditadura - prisões, sumiços, tortura, morte. Providenciava ajuda jurídica, apoio material, assistência familiar. E a difícil questão da saúde, quando necessário. Porque eram todos clandestinos, como ir a um hospital? Enfim, um trabalho heróico de pessoas que arriscavam suas vidas e suas profissões. Mas todos sob a liderança corajosa, lúcida, vibrante, inteligente de Dom Paulo. Que como ninguém, mereceu o Nobel da Paz. Só não o teve porque os militares lutaram contra. Um ato de revanchismo.

 

E eu viajei com a Comissão - fora e dentro do território nacional. Para buscar recursos e para chegar, em nome de Dom Paulo, aos ameaçados, aos vitimados, às famílias desesperadas. Agora, a Comissão nunca teve envolvimento partidário, nunca fez política, sempre voltada à causa da dignidade humana. Pode-se dizer que o término da ditadura determinou um certo esvaziamento da necessidade da Comissão, mas ela continua existindo. Mas eu tive outros compromissos, na mesma área, outros desafios, e também fundei a Rede Brasileira de Educação e Direitos Humanos.  

 

(...) Porque quando a pessoa está morrendo, tem que dar de comer, mas não resolve o problema dela, tem que dar Educação, capacidade de se virar, não é?

 

Uma outra participação minha, marcante, que me ocorre agora, foi na Comissão Teotônio Vilela, um trabalho que mexe com a estrutura emocional da pessoa. E a Comissão Arns, ainda uma expectativa… Enfim, o fato é que eu pretendo morrer em campo, atuando, trabalhando essas questões. E levo comigo a consciência de que fiz o que pude, me esforcei muito; acertando ou não, o importante é que estou tranquila.

 

… espero continuar até o último dia, morrer em pé, trabalhando.


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