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História de: Nagiba Abrahão Dib
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 03/10/2019

Sinopse

Em seu relato, Nagiba relembra momentos marcantes de sua história, fala sobre sua adoção sem a autorização dos pais por uma família que a maltratava, sobre suas passagens pelo Juizado de Menores e diversas fugas. Conta também como fugiu com o circo da cidade e acabou se casando com um empresário de diversas companhias circenses, que mais tarde a abandonou com seis filhos.

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História completa

P/1 - Dona Nagiba, qual o seu nome?

 

R - Nagiba Abrahão Dib.

 

P/1 - O local que a senhora nasceu e a data de nascimento?

 

R - Aqui em São Paulo, na Rua Visconde de Parnaíba.

 

P/1 - E o seu pai? O nome de seus pais, local e data de nascimento deles.

 

R - Antonio Nassade Dib, minha mãe Badir Jorge Andrelo.

 

P/1 - E o nome de seu avô? O local que ele nasceu.

 

R - Só sei da minha avó materna, que é Meire.

 

P/1 - E o local que ela nasceu?

 

R - Quem?

 

P/1 - A sua avó materna?

 

R- No Líbano.

 

P/1 - Líbano?

 

R- É.

 

P/1 - Data de nascimento a senhora não lembra dela?

 

R - Não, eu não sei. Ela veio antes deu nascer.

 

P/1 - Há certo!

 

R- Olha, como eu estou bonita!

 

P/1 - Conta um pouquinho de como que era sua família? Como era a sua família, assim quantos irmãos a senhora tinha?

 

R - Eu tenho só uma irmã, não posso dizer muito sobre minha família. Minha mãe, logo começou a aparecer distúrbio mental e meu pai não suportava, porque ela gritava muito e brigava.

 

P2) Mas isso quando mais ou menos?

 

R- Eu era muito pequena ainda, eu tinha uns dois anos pra três anos, depois meu pai queria, reconciliou e nasceu minha irmã, depois ele voltou a viajar e saia pra longe e ficava dias fora, e eu fui criada mais ali pela Rua Pajé, Rua 25 de Março. Minha mãe começou a cozinhar num restaurante, mesmo doente ela trabalhava.

 

P/1 - Que bairro que era?

 

R- Na Rua 25 de Março, Rua Barão do Pra. Ali eu morei, morei em diversos porões ali da Rua 25 de Março, e papai sumiu, e eu então ficava horas e horas às vezes trancada, as vezes nós fugíamos, eu e minha irmãzinha, e tem muito trecho da minha vida que foi bem difícil.

 

P/1 - Conta um pouquinho desses trechos. Eu sei que a senhora foi parar num orfanato, não é? Numa escola.

 

R- Depois minha mãe começou a mostra mais agressiva, nos largava sem comida. Um dia ele pós fogo no quarto, foi quando uma senhora pediu ao juizado de menor que levasse eu embora, pediu pra minha mãe se deixava eu ficar com a filha dela. Ela tinha sido vizinha nossa e a menininha dela se apegado muito a mim, e então ela me levou embora, mas minha mãe não tinha deixado, e ela me levou pra Rio Claro. Lá eu fiquei com essa senhora me maltratando, me batendo.

 

P/1 - Quantos anos a senhora tinha?

 

R - Eu tinha uns seis anos pra sete anos. Um dia eu fui fugi dela, peguei a linha do trem e comecei a andar na linha de trem e um senhor... Já alta hora da noite: “Menina o que você ta fazendo na linha do trem?”. Eu falei: “Vou embora pra São Paulo”. Ele riu de mim.

 

P/1 - O bairro que a senhora estava, qual era? Com esse senhor?

 

R- Eu tava lá em Rio Claro.

 

P/1 - Em Rio Claro!

 

R - Nessa época aí, esse senhor me e levou pra uma pensão. Mandou chamar o juizado de menores. No dia seguinte, ela me levou, era uma professora. Ela até entrou de férias, então ela me levou pro interior, sem ordem da minha mãe, daí quando eu fui chamada as pressas por minha irmã. Fui morar na Penha, acima do pontilhão da Penha, lá ela me batia muito, fazia eu fazer serviço pesado, carregar água, encerar a casa. Um dia ela me deu uma surra, tornei catar uma trouxinha e sai, quando eu subi a escada que dava pra rua, ela me viu, correu atrás de mim até o bonde, na entrada do bonde eu gritei: “Motorneiro, por favor segue, segue, essa mulher não é nada minha e me maltrata”. Quando chequei na cidade, na Praça do Correio, fui até a Rua 25 de Março, procurar minha mãe, já não estava mais lá. Tornei tomar o bonde que ia pra Lapa, desci na Matarazzo, que eu sabia que tinha uns parentes por ali. Vaguei, vaguei até tarde, ai uma senhora de cor, e eu perguntei pra ela: “Você conhece uma família estrangeira?” E ela disse: ”Oh, tem uma aqui, mas tem que subir essa rua, lá em cima tem umas famílias estrangeiras”. Então eu subi a Rua Pinageste. Ela falou: “Se você não achar você volta, fica aqui com meus filhos, até você encontrar sua família”. Aí eu fui até a Rua Pinageste, ali a Rua das Belezas, por ali tinha uma porção de criança escorregando o barranco, já escurecendo, já umas seis horas, aí eu perguntei: “Ô menina, faz favor aqui”. Ela falou: “Você quer falar com a mamãe”. Então pela linguagem que ela chamou a mãe, já vi que era da mesma cidade do meu pai, ai veio aquela senhora gorda que tava arrumando o jantar, que o marido trabalhava a noite. Ai ela perguntou: “O que você quer menina?” “Você conhece Antônio Nassade Dib”. Ela parou assim e ficou me olhando assim e perguntou: “O que é que você quer dele?” Eu falei: “Eu sou, sou filha dele. Quando eu falei: “Eu sou filha dele” . Ela perguntou: “Você é Latife ou Eusida?”. Porque todos me chamavam só de Latife, que era o nome que eu trazia comigo. Ai ela me abraçou e me beijou e disse: eu sou sua tia.

 

P/1 - Como é que surgiu esse nome?

 

R - Esse nome veio, que minha avó que me registrou foi embora pra Síria e carregou meus documentos, e naquela época ninguém fazia questão de nome não. Como eu era muito miudinha...Latife quer dizer delicada, então eles me apelidaram de Latife. Começaram me chamar Latife, e ai Latife, e ficou. Até hoje eu trago esse nome que todo mundo me conhece como Latife, apesar deu ter outro nome, mas é uma história muito comprida muito longa, não dá tempo pra contar tudo agora.

 

P/1 - Me fala um pouquinho qual era a ocupação exata do seu pai, da sua mãe, ela foi cozinheira não é? A senhora colocou ai.

 

R - Foi cozinheira sim. Depois meu pai me pegou, mandaram um telegrama pro meu pai. Meu pai me pegou, nessa época e foi que ele me entregou no juizado de menores e lá já estava minha irmã.

 

P/1 - Foi aí que a senhora foi parar naquela escola?

 

R - É foi. Foi no juizado, fiquei internada lá uns tempos, depois me chamaram, fizeram uma porção de perguntas, me levarem pro Colégio Sagrada Família, Casa da Infância. Uma casa que ficava órfãos e ficavam só até quatorze anos. Fiquei lá nos tempos... Passei a revolução de trinta e dois, lá nos porões. Até tem bastante escrito sobre isso também. Fazendo, pregando botões de fardas. Depois em 1934 eu fui transferida, porque eu completava 14 anos. Já, 33 pra 34, eu fui transferida para a Escola de Educação Doméstica da Liga das Senhoras Católicas.

 

P2 - Quer falar mais alguma coisa sobre isso?

 

R- Ah!

 

P2 - Quer falar mais alguma coisa sobre isso?

 

R- Ah! Tem bastantes trechos. Estudei lá quase todos sos cursos. Fiz um pouco de enfermagem, policultura, fiz bordado corte e costura

 

P/1 - Em que colégio que é?

 

R - Interno. Fiquei até 1937, recebi um diploma de segundo lugar com a nota 37 virgula quarenta e pouco.

 

P/1 - E nesse contato tinha.....

 

R- Depois fiquei lá bordando. Todas as meninas foram embora, e eu fiquei lá, ainda internada. Ai houve um desagrado meu, de ver minha irmã ser apanhado pelo me... Ser espancada por um aluno e eu fugi do colégio, junto com a minha irmã, mas eu não fugi propriamente porque eu disse a irmã: “Eu vou embora”. Ela viu, ela disse: “Eu não acredito que você tenha coragem de fazer uma coisa dessas”. Arrumei uma roupa que eu mesma tinha feito pra exposição, pôs embaixo do uniforme e vesti minha irmã também, a mesma coisa. E saímos pela porta do da frente, atravessamos o jardim e fomos. Que eu sabia que logo, eu seria telefonado para o juizado de menores. A gente chegou.... Era ficava ali no Cambuci, essa escola, agora tem outro nome, tem Instituto Santo Amália, não é? E esta bem longe daqui. Ai eu fui até a Rua 25 de Março, vagamos, vagamos até tarde da noite.

 

P/1 - E o quê que aconteceu? Ai a senhora foi ficando....

 

R- Já mocinha, já com 18 anos minha irmã com 16, não achamos. Ai pegamos o bonde que ia pra... Como é que chama a rua? Que fica nas Perdizes? O bonde subia até lá em cima nas Perdizes. Eu fui até lá no alto das Perdizes, descemos ai eu perguntei pra um transeunte, né? Que tava no bonde: “Conhece a Rua Apinajés?”. A mesma rua que eu tinha ido na minha infância, ai ele falou: “Eu vou pra aqueles lados”, e nos levou até a rua. Foi o maior desespero da minha tia, meus primos, eu aparecer ali tarde da noite, tinha fugido do colégio, né?

 

P/1 - Ai a senhora ficou com a sua tia ou..?

 

R- Ai eu fiquei com a minha tia um mês e pouco. Ela telefonou, telegrafou pro meu pai. Meu pai mandou um dinheiro pra nossa viagem, pra ir pra São Miguel Arcanjo, ai nós viajamos, minha tia escondida. Nós viajamos pra São Miguel Arcanjo, quando chegou depois de Itapetinga, na entrada de São Miguel Arcanjo, dois, dois comissários nos prenderam. Nós chorávamos, a gente dizia: “Pelo amor de Deus deixa só ver meu pai, cumprimenta, abraçar meu pai”. Ele disse: “Não, não pode você ta presa”. Prendeu nós duas e nos levou até Itapetininga. Como era carnaval ele nos deixou, invés de deixar na casa do meu pai, né? Deixou nós duas na casa de uma família, nós passamos todo o carnaval trancadas.

 

P/1 - Ele alegou o que?

 

R- Alegou que nós tínhamos que ser presa, porque nós fugimos. Nos ficamos na casa dessa família os quatro dias de carnaval. Quando foi na quarta feira nós voltamos pro juizado, ficamos lá presas também, no meio daquelas meninas rebelde. Muitos dias ai, a super... A vigilante lá... Por que lá não é, né? Ela, ela sabia que eu era bem comportada, colocou eu na sala de costura, então eu fixava costurando pra fora. Apareceu uma senhora da alta sociedade me levou como dama de companhia________. Ai eu fiquei com essa senhora, muito tempo, mas eu tinha vontade de andar, de viajar, de sair. Eu não queria ficar presa. A primeira vez que eu fui num cinema, foi ali na Santa Cecília, que foi demolido, aquele cinema. Ai eu comecei a fugir, ir lá no circo, vir visitar o circo. Um dia eu pedi pra ela visitar uns tios lá na Moóca, ela deixou. Eu fui visitar justo aquele dia que minha priminha fazia ano, dia nove de julho, de... Fazia, fazia nove anos. De... Não, seis anos a menininha fazia, foi em 39, 38.Ai eu fui no circo, e lá no circo um palhaço chegou até perto de mim e começou a conversar comigo, tudo. Depois nós fizemos amizade, ai eu sai da casa dessa senhora, até não posso citar o nome porque é irmã da Condessa Matarazzo. Eu sei o nome dela todo mas não posso... Que é família... Mais ou menos.

 

P/1 - Ai a senhora foi trabalhar no circo?

 

R- Ai eu fui porque esse senhor queria que eu tomasse conta de duas crianças, uma tinha paralisia infantil, tava na casa de um tio e a outra tava numa creche, interno. Eu fiquei com dó deles, pense porque o que eu passei na infância... Não queria que outras crianças passassem. Então eu comecei a tomar conta dessas crianças, num quarto ele me levava, uma vez por semana, mantimentos, e eu cuidava. Porque tinha um, que tinha paralisia infantil e não andava, tinha dois anos, tinha quase três anos. Ele é de 36, e foi 1939. E comecei tomar conta deles, depois tiveram que viajar pro interior, e eu acompanhei.

 

P/1 - Então a senhora ia pra tomar conta das crianças, não pra trabalhar exatamente no circo?

 

R - Ai acabei ficando com ele, também.

 

P/1 - Ah!

 

R - Porque viajava junto, dormia junto, tudo junto.

 

P/1 - E a senhora comento que trabalhou também no garimpo?

 

R - É depois dessa história....

 

P/1 - Veio em seguida?

 

R - Viajei por muitas cidades com aquele menino, carregando ele do lado. Eu grávida, e a criança se acomodou toda de um lado só. Numa cidade de Goiás, depois viajamos pra Minas, São Paulo quase inteiro, depois entramos em Goiás. Em Goiás nos fomos pra aquela Goiás velha, onde tinha aquelas grandes festas do Divino, mas não tinha praça, já tava lotada a praça. Então nós voltamos pra trás. Viajando em diversas cidades chegamos até Estrela do Sul, onde nasceu meu primeiro filho. Teve um desastre de caminhão, o caminhão quebrou uma mola na traseira e carregava o globo da morte, lá. Ai, eu com oito dias eu tive o neném, nasceu de oito meses, oito meses, em Estrela do Sul. Depois no dia que nasceu meu nenê ele tinha, ele tinha quebrado a _______contrato com a companhia. Nós ficamos sem dinheiro, que ele teve que pagar o contrato. Ele era muito rebelde, muito agressivo. Ai ele veio e nos levou pra outra companhia. Viajamos em diversas companhias.

 

P/1 - Ele quem seria?

 

R - Aí nos fomos pra Goiás passamos em (Paneli ?), (Capalão ?) uma porção de cidade. Goiandira, muitas cidades, chegamos até Cristalina. Em Cristalina ele achou por bem eu ficar na cidade, que eu já estava grávida do segundo filho. Em Cristalina nasceu meu segundo filho, ai ele comprou um monte de terra de um conhecido, mas bastante terra mesmo. Fazendas, terras, tudo, que esse senhor tinha matado a esposa e ido pra Formosa. Ele era delegado, ficou delegado de policia no lugar, e ele levava processos pra serem assinados pelo juiz de Luziana, então ele chegou até Formosa e comprou todas as terras desse, desse homem, que era uma grande herança dele e da filha. Tinha fazendas, garimpo, tudo. Eu tenho documentos, mas eu não achei hoje_____. Ai eu fui morar, numa, na Ci... Na...Depois que eu sai da pensão fui morar numa casinha de barrota, depois nós fomos todos, pro rancho de capim, rancho de buriti, madeira com buriti, né? Nos garimpos, lá nasceu meu terceiro filho, nasceu o segundo na casa de barrota.

 

P/1 - Como é que seria essa casa de barrota?

 

R - É barro com madeira, sabe ? E capim junto, Depois eu fui pro rancho, o rancho era madeira e palha de buriti, madeira e palha de buriti, até o rancho quase caiu em cima de nós, por causa do temporal. Eu com as crianças, tudo pequena. Depois disso, que nasceu o terceiro filho, eu cuidava muito dos peões. Deu varíola, varíola brava mesmo, nós tivemos cinco, seis peões com varíola, vinha os outros ranchos que os patrão mandava embora. Quando ficava doente, largavam eles a mingua mesmo. Eles deitavam tudo na minha porta, então eu mandava que estendessem a rede no rancho que é o vizinho. O primeiro rancho, que quase caiu em cima de nós. Ai ele mandou fazer outro rancho bem grande então tinha um boteco, tinha o meu quarto, o quarto das crianças, a cozinha e depois o quarto dos peões.

 

P/1 -  Eles mandaram...

 

R- Depois, é graças a Deus ficaram bons

 

P/1 - Eles mandavam muito pra senhora porque a senhora tinha feito uma escola de enfermagem, né?

 

R- Eu tinha, eu sempre tratava, banhava eles, dava remédio e muitos, muitos remédios. Eu pegava no campo mesmo, no mato, carobinha do campo, punha creolina, punha tudo na água. Banhava meus filhos, nenhum teve. Depois disso eu... Teve um assalto lá no meu rancho. Que roubavam as vendas e iam embora pra Bahia, pra pegar na estrada carne seca, bebida, né? E eu estava com um recém nascido de sete meses, nasceu com 980 gramas. Eu dormia com ele no meio da venda. Ai eu via aquela cara estranha, assim na janelinha de pau a pique, ele falou que não queria nada não, mas eu percebi porque ele... Tinha uma porção de carneiro deitado, ele não fez barulho, nem nada. Ficou horas ali olhando, e eu linhavava uma touquinha pro neném, que era pequenino demais. Uma touca pra encher de algodão. Ai eu tava armada, eu quase atirei nele, e falei: “O quê que você quer ai? Já faz quase meia hora que você ta ai”. Eu vou chamar os peões”, mentira não tinha nenhum peão. Como eles viram que estava de dieta de poucos dias ainda, com o menino novinho daquele jeito... Precisava toda hora, água quente, uma coisa e outra. Eles falaram: “Nós vamos dançar na cidade”, era sábado eles dançavam no ranchinho ali no, no boteco, né? Eles forram pra cidade, todos eles. Mas eu citei o nome dos meus filhos tudo pequeninho, que estavam deitado. Eu falei que eram peões sabe? Ai o homem se apavorou e foi embora, mas eu apontei a arma pra janelinha. Quando chegou na estrada, que era um pouquinho afastado da estrada, ele deu um assobio, era um bando. Era um monte deles, rapazeada, uma algazarra, ali.

 

P/1 - A senhora estava sozinha? O marido da senhora não estava em casa?

 

R- Não tava, ele viajava pra Luziânia, pra tudo quanto era lugar.

 

P/1 - Ele viajava no circo, né?

 

R- Me deixava eu sozinha, com as crianças, os peões tomavam conta de mim. Eles eram bons mesmo, eram, eram humildes, muito respeitosos, nunca me desrespeitaram, uma coisa. Pareciam filhos meus, mas aquele dia deixaram eu sozinha. Eles foram pra cidade.

 

P/1 - Foram pra cidade?

 

R- Fazer algazarra.

 

P/1 - O seu marido, ele, qual era a função dele? Ele trabalhava no circo?

 

R- Ele trabalhava no circo. Ele era empresário de diversas companhias, quando ele parou nessa cidade, ficou delegado de policia, ai entrou na política, sabe?

 

P/1 -  Conta um pouquinho pra mim, o que a senhora contou, lá na hora que a gente tava preenchendo o cadastro, sobre o casamento da senhora. Como que foi o seu casamento?

 

R- Ah,! Ele falou... Ele me levou até a igreja, tinha um casamento, ele falou: “Se ajoelha bem na frente ai, porque assim nós ficamos casado”. Ai, eu tinha saído do colégio... Era uma menina inocente de tudo, boba que nem... Eles riam, de mim. O pessoal do circo, ria de mim, de ver minha ingenuidade. E eu acreditei.

 

P/1 – A senhora tinha quanto anos?

 

R – Ah, eu tinha 18, 19 anos, já quase 19 anos, 18 anos e pouco mais. Fui criada desde sete anos no colégio, oito, por aí.

 

P/1 – E qual era a expectativa da sua família, de você? Para o seu futuro naquela época?

 

R – Olha, eu não pensava em nada, a única coisa que eu pensava na minha vida. Toda vida eu tive essa ideia fixa, era criar bem os meus filhos, honestos, trabalhadores. E eu tenho uma casinha aqui em São Paulo. Porque lá, eu abandonei tudo, eu vim com a roupa do corpo. Cheguei em São Paulo, fiquei uns 15 dias na casa do meu pai, porque tava muito doente do coração.Tinha o coração já inchado, então eu fiquei uns dias, uns 15 dias na casa do meu pai, mas meu pai começou chorar. Cada vez que me via, ele dizia: “Agora que eu não posso fazer mais nada por você filha, é que você me vem desse jeito”. Eu: “Papai a única coisa que você pode me dar é um apoio moral, eu sei que o senhor tá muito doente”. Então logo que eu cheguei, com três meses meu pai faleceu. Ai, eu arrumei um quartinho em cima do Rio Cabuçu, cabia só uma caminha de solteiro que meu pai tinha me dado, e a maquina de costura. Foi a única coisa que eu trouxe, e ali eu comecei costurar pra um, pra um outro. Costurava no colégio também, uniforme pras crianças, que eu consegui duas vagas das crianças, nessa casa da infância. Eram as mesmas freiras que me olharam.

 

P/1 - Pro seus filhos?

 

R - É, eu conheci, eu consegui com a Liga das Senhora Católicas. Eu conheci, eu consegui duas vagas, internei dois, um de três anos e outro com cinco anos. Ficaram quatro anos lá. Ai como queriam transferi um, já pra educandário, eu não deixei, eu fiz tudo, corri pra cá pra lá, pra todos lados, e consegui retirar-lo do colégio, que eu já tinha dois cômodos feito, num lugar que tinha aberto uma vila. Não tinha luz, não tinha água, não tinha condução, não tinha nada. Mas eu tava no céu, porque eu tava debaixo de um teto, e meus filhos.

 

P/1 - Nessa época tava a senhora só com seus três filhos?

 

R – Não.

 

P/1 – Quando a senhora veio pra São Paulo?

 

R – Quando eu vim pra São Paulo eu trouxe a menina de quatro anos, que nasceu na outra casa. Depois do garimpo eu fui pra um casarão, um tipo de chácara, que também ele comprou, também ele perdeu com bebida, com vícios. Foi um casarão grande, que lá nasceu a menina, que é essa Divani.

 

P/1 – Tá certo.

 

R – Eu vim pra São Paulo com ela, com um ano e oito meses. Quando ele viajou, ele viajou pro norte, deixou ela com dois meses, deixou com seis filhos.

 

P/1 – Com seis filhos?

 

R – É, dois eu criava, que era dele, que era os dois que eu tomava conta, e os quatro que eu tive, são seis.

 

P/1 – Ele foi pra lá... E foi e a senhora ficou aqui?

 

R – Como?

 

P/1 – Ele viajou e a senhora ficou?

 

R – E eu fiquei na cidade, ai eu comecei, eu tive uma hemoptise, né? e_____ sangue pelo nariz, pela boca,tudo. Meu deu uma pneumonia, o pessoal se assustou, sabe? Nesse lugar, pequeno assim, nossa! Aquilo era um absurdo, fiquei na casa de uma comadre uns dias, mas ela ficou com medo também. Voltei pra chácara, sozinha, lá. E cada um cuidou de uma criança minha, os vizinhos. Até ela queria me tomar a Divanir, que tava novinha com, um ano e oito meses. Ai ela escreveu pro meu pai falando que eu tava muito mal, que eu tava com pneumonia, que eles achavam que eu estava tuberculosa. Ai ela mandou uma carta pro meu pai, e quem recebeu foi meus primos, um que tava casado com minha irmã, sabe? Ai na hora eles fizeram um abaixo assinado com todos os árabes aqui, ali e pegaram o dinheiro e foram me buscar. Ai eu cheguei, fiquei uns dias na casa do meu pai, como eu contei. Depois fui morar num ranchinho na Vila Palmeiras, eu falei pra você, né? O primeiro lugar, que eu fui morar. Morar num casebrinho, fiquei lá. Foram quase dois meses, ai deu enchente, minha máquina até soltou as gavetas, soltou tudo. Perdi diversos cortes de costura dos clientes. Ai, fui pra casa da minha tia, fiquei uns três dias até a água abaixar, depois eu mudei pra uma casinha na olaria, que o dono da olaria me cedeu o quartinho e falou: “Você fica ai mas tem que sair logo daqui, que é muito úmido passa o riacho ai do lado” . Eu tive pneumonia de novo, ai esse senhor, esse que eu morei a segunda vez com ele, segundo. Ele foi buscar o doutor Álvaro no bairro do Limão, junto com minha irmã. Minha irmã viera de Campos do Jordão fazer compra, tinha ganhado neném, justo no dia que eu cheguei. Eu tava ruim.

 

P/1 – O seu primeiro marido, a senhora não viu mais?

 

R – Ai ele falou: “Você não quer mudar mais lá pra cima? Você quer?”. Ele já vivia me escrevendo carta, todo mundo me chamava de viuvinha, porque papai havia falecido e eu andava só de preto, então eu falei, falei pra ele: “Eu tô com um pé na terra outro no chão, o que vocês fizerem comigo eu aceito”. De fato eu tava tão magra, tão magra, era só osso, eu tenho fotografia também. Ai, ele arrumou uma garagem que tinha sido até uma carvoaria, no alto da Vila Palmeira, na Rua N, lá na Vila Palmeira mesmo, e eu fiquei lá nessa carvoaria quase um ano. Ai a vizinha tinha um porão, ela falou: “Você quer sair dai, vem pra cá”, porque o chão era muito inclinado, então tinha que pôr causo na cama, na mesa, tudo e era terra também. Ai tinha o porão, fiquei lá dois anos, mais de dois anos. Ai nasceu meu nenénzinho também. Essa filha eu perdi com quase três anos, dois anos e pouco. Ai eu fiquei nesse porão, que até minha filha hoje foi trabalhar pra eles, na Rua Maria Paula, foi tratar de umas cortinas dela. Até hoje ela tem amizade comigo, manda as coisas pra mim. Fiquei com ela até comprar o terreninho, a última, o último aluguel ela falou assim: “Não, olha ó Latife, eu não vou cobrar de você o aluguel, pra você comprar o terreninho que você tem ideia. Ela me deixou os últimos alugueis, pra pagar o terreninho. Eu dei entrada no contrato, sabe? Ai eu fui morar nesse lugar com meu companheiro, meu novo companheiro, né? Que é bom pra mim até a hora da morte, desse eu não tenho queixa dele, só passamos muita privação, muito, tinha (paga?). Eu costurava com lampião, com lamparina até tarde da noite, e construí minha casa, aos pouquinhos fui construindo, construindo, educando meus filhos. Eles começaram, tudo a trabalhar com 12 anos, que tirava o diploma de grupo com dez, 11 anos, porque eram muito esforçadinhos, e eu não tinha condição de pagar, pra eles estudar longe. Ginásio não havia, então eles começaram tudo a trabalhar novinho mesmo, mesmo sem registrar. Em alfaiata... Alfaiataria, não. Como é que se diz, lavagem de roupa?

 

P/1 – Lavanderia.

 

R – Tinturaria.

 

P/1 – Tinturaria!

 

R – Isso, ai começaram a trabalhar em tinturaria, tudo cedo mesmo. Depois, um começou a trabalhar numa tecelagem, como faxineiro, foi aprendendo, quase todos são tecelã também, mas depois de um tempo, um entrou  numa casa de rolamento. De lá ele foi aperfeiçoando até que, o dono de uma casa de rolamento abriu e pediu pra ele cooperar, né? E, ele entrou a polícia já com esse, com esse dono deixando ele faltar, tudo e pagando o ordenado certo. Hoje ele é tenente.

 

P/1 – Além dessas atividades, atualmente qual é a atividade que a senhora está exercendo? O que a senhora gosta de fazer atualmente?

 

R – Não, agora eu curto minhas horas fazendo crochê, tricô. Faço bolsas de raque, faço bonecos, palhacinhos. Faço muito palhacinho, gosto mesmo, só porque ele é alegre, não deixa tristeza no meu quarto (risos).

 

P/1 – Eles então ficam no seu quarto?

 

R – É, pode ir lá que tem uns dois palhaços no meu quarto, três aliás.

 

P/1 – Três!

 

R – Eu dou de presente, outra hora eu vendo..

 

P/2 – Faz muito tempo que a senhora começou a fazer essa atividade? Palhaço?

 

R – Toda vida eu fiz, mesmo trabalhando na Secretária de Saúde. Eu entrei na Secretária da Saúde em 1959, em janeiro, com_________. Foi ele quem me nomeou, era o último despacho dele no tempo do Jânio Quadros. Entrei na Secretária de Saúde e, nas horas de folga, eu ensinava até os vizinhos. Quando acabava meu serviço, os vizinhos vinham, que viam sempre eu com a agulha na mão. Toda vida eu ensinei, dei aula também de corte e costura pra Secretária Social do Bem Estar, na Paróquia Nossa Senhora Aparecida.

 

P/1 – Conta um pouquinho desse período que a senhora ficou na Secretária da Saúde.

 

R – Não tenho muito a contar, tenho que eu fiquei quatro anos sozinha fazendo... Sendo atendente, servente, escriturária, vacinadora, tudo. Porque eu tinha que fazer o que tava no meu alcance, então eu desempenhava o que eu podia.

 

P/1 – Não tinha então quem ajudasse?

 

R – Não tinha que ajudasse, as vezes eu levava minha menina de 12 anos pra carimbar os papeis, pra facilitar. As vezes não sentia muito bem, ela vinha me ajudar na limpeza, também.

 

P/1 – Ninguém tinha um cargo lá dentro, especifico________?

 

R – Não, era só eu mesmo. Fiquei até 1962, até setembro... Outubro de 1962.

 

P/1 – Era um posto de saúde? Ou alguma coisa assim?

 

R – Posto de Saúde.

 

P/1 – Posto de Saúde!

 

P/1 – Onde ficava?

 

R – Depois eu comecei ir muito na secretária levar os papeis. E eu pedia pra um pra outro, pra pôr mais um funcionário, né? Ai mandaram outra servente, eu continuei com os papeis. Ai, foi extinta a epidemiologia, né? E um dos funcionários foi pro nosso setor, como atendente, já melhorou mais um pouco.

 

P/1 – E quais os bairros que esse posto de saúde atendia?

 

R – Atendia tudo, atendia crianças, adulto, geral. Não posso contar muito sa secretária de saúde porque, o final foi triste pra mim.

 

P/1 – Qual foi a atividade que você considera...

 

R – Eu comecei ficar doente, eu já não engolia mais, minha comida parava no esôfago. Vivia só no hospital, no hospital direto.

 

P/1 – Na época que a senhora tirava no...

 

R – Eu_______, tão nervoso também.

 

P/1 – Nervoso!

 

R – Constrangimento também, né?

 

P/1 – A senhora ficava nervosa por quê?

 

R - - Ah não posso falar agora, tudo, tudo, não posso citar. Porque ai, tem que dar o nome, não é?

 

P/1 – Qual foi atividade que você considerou mais importante? Família? Política? Hobby? Religião? O quê que a senhora acha, assim, dentro das várias coisas do que tem dentro da sociedade?

 

R – Olha, primeiro a família, ta? Em primeiro lugar, depois o hobby, trabalhos.

 

P/1 – O hobby entre como trabalho?

 

R – Como trabalho, é! Política eu onde... Eu deixo pro fim.

 

P/1 – Religião? A senhora...

 

R – Religião, eu sou católica, a que eu fui criada, né? Eles me deram o pão e me deram educação também, né? Eu não posso tá mudando o pano (risos). Cuspindo no prato, né?

 

P/2 – A senhora poderia falar um pouquinho, como é que escreve, né? A senhora poderia falar com a gente?

 

R – Sobre o quê?

 

P/2 – Sobre o que já escreveu, né? Sobre seu próprio livro, você poderia falar?

 

R – Não entendi, bem.

 

P/1 – A senhora comentou com a gente, quando a gente estava cadastrando que a senhora já escreveu um pouquinho, a sua vida. Conta um pouquinho como é essa sua experiência de escrever, sobre sua própria vida.

 

P/2 – Começa falando agora então...

 

R – Eu comecei a escrever porque, eu tive uma vida muito agitada, que poucas pessoas tem, né? E me interessei de escrever passagens, que eu achei interessante e vontade mesmo de escrever.

 

P/2 – A senhora passou pra alguma pessoa ler ou a senhora escrevia só pra senhora mesmo?

 

R – Só pra mim e minha filha. Minha filha tem alguns dados que ela mesmo até repassou, as vezes tem duas folhas da mesma história.

 

P/2 – É.

 

R – É, eu gosto de escritura. Eu gosto de ler, eu gosto de escrever, gosto mesmo.

 

P/2 - Hoje a senhora escreve?

 

R – É.

 

P/2 - Hoje a senhora escreve?

 

R – Como?

 

P/1 – Hoje a senhora coloca a sua vida no papel? Escrevendo? Coloca? Continua?

 

P/1 – Bonito!

 

P/1 – A senhora participa de alguma associação, clube?

 

R – Como eu falei, eu só participo do grupo de idosos. Tem o grupo de idosos da zona oeste que frequento, todas as quartas feiras tem missa, tem baile, né? No Clube de Pinheiros, as vezes eu vou, mas eu não sou muito fanática pro baile, não.

 

P/1 – Não!

 

R – Não, só quando convocam mesmo, que a gente é obrigada a ir. Tem palestra, tem. Eu gosto das palestras.

 

P/1 – A senhora frequenta há quanto tempo?

 

R – Ah, já faz muitos anos, bem uns quatro a cinco anos.

 

P/1 Ah, é!

 

R – Ë.

 

P/1 – Atualmente a senhora mora sozinha? Com quem que a senhora mora?

 

R – Quer dizer, meu quarto é sozinho. Agora tem meus filhos, tem dois cômodos que tá com um filho meu, né? Que ele veio da Vitória, e eu dei dois cômodos pra ele, e do outro lado tem três cômodos que está a minha filha. Quer dizer no quintal, tem três famílias, né?

 

P/1 – A senhora e mais os dois filhos?

 

R – É, mais eu sou eu, minha sala é minha (risos). Apesar dele em assistir televisão.Ele gosta muito de trabalhos também, artesanato. Ele gosta de fazer gesso, gosta de fazer cortinas de cordas, e todas as vezes ele fica trançando lá e assistindo televisão, e eu fico também.

 

P/2 – Ajudando?

 

R – Trabalhando, fazendo o meu trabalho porque... O dele não. Ele faz o dele e eu faço o meu.

 

P/1 – Então a senhora convive bastante com seus filhos. Só com seus filhos. Assim no dia a dia, a senhora tá mais em contato com sua filha e com seu filho?

 

R – Eu tenho uma irmã. Tenho uma moça que ela acabou de criar comigo também. Ela veio pra minha casa, também a mãe dela perdeu a memória também, e ela tinha medo da mãe e de um rapaz que morava lá com a mãe dela. Então ela começou ir pra minha casa, morava na outra esquina da minha casa. Começou vir, vir sempre. Acabou ficando comigo, ficando comigo, depois a mãe desapareceu. Morreu lá no engenho de dentro, no Rio de Janeiro. Ai ela tá bem casada. Acabou ficando comigo, mas ela sempre comunica comigo, vem na minha casa, sempre tá na minha casa.

 

P/1 – Além dela e dos outros dois, que tão sempre em casa, teve mais algum que a senhora criou?

 

R – Tem, tem mais o filho desse segundo marido. Tinha um, tinha um rapaz, né? Ele ficou comigo até casar também.

 

P/1 – Então além dos seus filhos mesmo, a senhora criou outras crianças?

 

R – Outras, outras crianças.

 

P/2 – E eles, sempre tão em contato com a senhora?

 

R – Tá sempre em contato comigo, até esse filho que tá morando em (Castilio?). Tem um filho que é guarda florestal e está na divisa de Mato Grosso. O mais novo meu, tá em (Castilio?). Então ele deixou esse outro filho, que é de criação, morar no apartamento dele na COHAB, pra deixar ele ocupado.

 

P/1 – A senhora poderia colocar assim, como é um dia da senhora. Da hora que levanta até a hora que vai dormir. Como que é? O que tem normalmente?

 

R – Ah! Hoje por exemplo coei café. Alguma loucinha que eu deixei do jantar. Faço um almoço rápido, depois eu fico ou bordando ou costurando, ou escrevendo. Eu passo as horas. Eu ocupo com qualquer coisa, ou bordando ou costurando. Faço cocha de retalho com minha filha, mais nova. Fiz três, cocha agora de retalho.

 

P/1 – Pra ela mesmo? Pra sua filha mesmo?

 

R – Pra minha filha que tá em Matão, essa que é professora.

 

P/1 – Ah! Certo.

 

R – Ela tem cinco crianças, né? E eu fiz uma que ficou muito bonitinha, tudo com cores claras, sabe? Fiz babado na ponta. Ela gostou muito, ela falou: “Mãe são quatro, são duas beliches de duas camas, a senhora lembra bem, tem que fazer outras, para as outras” (risos).

 

P/1 – Ah! Então ela te cobrou?

 

R – Me cobrou, até estou aguardando um telefonema dela. Que eu mandei umas peças de gesso, pra ajudar um pouquinho, né? Eu ajudo essa filha, ajudo no mais que eu posso, que ela tem quatro crianças.

 

P/1 – Essa sua filha tem quatro filhos, ne?

 

R – Tem quatro filhos.

 

P/1 – Então são quatro netos?

 

R – É.

 

P/1 – Quantos netos no total a senhora tem? A senhora sabe?

 

R – Ah, total? Dos meus mesmo é beirando uns 30.

 

P/1 – Trinta!

 

R – É.

 

P/1 - -Ainda, nem um bisneto?

 

R – Bisneto? Tenho, tenho um...tenho seis bisnetos.

 

 

P/1 - Ah é!

 

R – É, tenho seis bisnetos.

 

P/1 – Se a senhora assim, pudesse pegar e voltar a história da sua vida, né? Reviver, a senhora mudaria alguma coisa? O quê, que a senhora mudaria?

 

R – O quê eu poderia mudar se já foi, já foi acontecido. Não poderia voltar pra trás, nada, nada. O que passou minha filha, passou, né?

 

P/1 - E qual a coisa que mais marcou, na sua vida?

 

R – Ah, muito, muito episódio. Marcou muito foi um menino que eu criei, que faleceu de desastre, aquele que tinha paralisia infantil. Morreu na marginal, um ano de casado. Isso marcou bastante. Meu velho também, meu companheiro também, deu um derrame. Ele morreu dentro do banheiro, marcou bastante. Uma menina que ... Eu mudei pra lá não tinha luz, não tinha nada. Ela começou sentir falta de ar. Ela tinha, tinha o coração grande, né? Mas, eu não sabia. Eu corri...São passagens que não esquece nunca, viu?

 

P/1 – Coisas boas, bonitas, tem alguma que marcou?

 

R – Ah! Coisas boas... Que eu tava no garimpo, aparecia cobra, parecia bicho (risos).

 

P/1 – E o que a senhora faz ai quando eles apreciam?

 

R – Eu achava bonito.

 

P/1 – Achava bonito?

 

R – A siriema, vinha cantar atrás do rancho, acordava a gente. Agora as cobras, eu tinha medo,viu?

 

P/1 – Coisas que não acontecem mais, né?

 

R – É.

 

P/1 – E assim qual...

 

R – Uma vez a cobra desceu pro rancho, na palha, uma cobra branquinha, branquinha, mas eu dormia com cortina de...Um pano bem fino, sabe?

 

P/1 – Certo.

 

R – E prendia em volta, por causa dos animais, né? A cama das crianças também, eu fazia aquilo. Ela não vivia descendo na cortina.

 

P/1 – Que susto (risos).

 

R – Meu menino pegou a cobra na gaveta, pensando que era a gravata do pai. Ela saiu de dentro, o cachorinho late. Tinha um cachorro chamado luluzinho, latia a noite inteira. Quando foi de manhã, meu filho se arrumando, coitadinho, aquele que pegou a paralisia. Pegou a cobra pensando que era a gravata do pai. Quando ele sentiu aquela coisa roliça, fria, largou e caindo, caindo, gatinhando, chegou até perto de mim, mais branco, branco, branco. Ai ele disse: “Mãe cobra, cobra no quarto”. Custou ele falar, e eu sacudi ele pra falar.

 

P/1 – Tava assustado, né?

 

R – Tava assustado, nossa! Coisa horrível, e era uma coral. Ela toda colorida, né? E coral. Eu agachei, queria pegar ela na mão e os vizinhos falaram: “Não essa ai é perigosa, essa tem veneno até no rabo.”

 

P/1 – Vocês nunca tiveram nem um problema nesse tipo? Com cobras?

 

R – Não.

 

P/1 – Não! Que bom.

 

R - O Douglas, teve sim. O Douglas foi pegar um pica-pau dentro de um cupim e um bicho mordeu ele. Não se sabe se foi aranha, foi cobra, o que foi, mas o pé dele ficou assim ó.

 

P/1 – Douglas é seu filho?

 

R – Esse era, esse que eu criava. Esse que pequei pra olhar.

 

P/1 – Certo.

 

R – Esse era... Era vítima, coitadinho, era vitima!

 

P/1 – Por quê? Acontecia tudo com ele?

 

R – Depois... Acontecia tudo com ele. Depois deu paratifo, na cidade quando eu fui pra casa, que eu sai do garimpo. Deu paratifo, na cidade, num é que ele pegou! Quarenta dias de febre, quarenta graus. Era banho, ele o dia inteiro. Trocar o dia inteiro. Ele perdeu as pernas de novo, ficou sem andar. E o pai no dia que ele tava com... Já com começo de febre, o pai viaja pro Rio, e o único médico da cidade vai embora. Quando ele viu um caso atrás do outro, pegou e foi embora, mas tinha um farmacêutico velhinho. Tinha mudado lá. Eu acho que é alguma coisa de família. Porque ele mudou e vivia sozinho, esse farmacêutico. Ele ia no campo recolher remédio, mas ele era farmacêutico mesmo. Então ele cuidou do meu filho, e pagava o que podia.

 

P/1 – A senhora pagava o que podia?

 

R – Toda hora ele tava lá, todo dia. Tinha umas seis, sete pessoas com paratifo.

 

P/1 – E me conta assim, a senhora tem algum sonho, ainda a ser realizado?

 

R – Sem realizar?

 

P/1 – É, que a senhora ainda quer que realize.

 

R – É escrever.

 

P/1 – Escrever! A sua história?

 

R – (risos)

 

P/1 - Que bom !

 

R – Só que eu não posso contar até o fim tudo, tudo.

 

P/1 – Por quê?

 

R – Por que o final, final quando sai da Secretaria da Saúde... Eu não quero magoar certas pessoas.

 

P/2 – O maior sonho é continuar escrevendo?

 

R – É.

 

P/2 – E como foi então, a senhora tá contando, né? Essa história da vida da senhora aqui pra gente? Como que se sentiu?

 

R – Como?

 

P/2 – Como a senhora se sentiu, né? Contando a história de vida pra nós?

 

R - É, eu fiquei emocionada, né? Fiquei emocionada mesmo, porque... E não contei quase nada.

 

P/2 – A senhora teria alguma mensagem pra passar assim pros jovens? Falar alguma coisa?

 

R – A única mensagem, que eu peço, que eu dou mesmo. Todo jovem que nunca entre no vício, não entre nas drogas, procure escrever, ler, estudar. A única mensagem. Que eu não pude dar estudo pros meus filhos.

 

P/1 - A senhora deu estudo sim, pro seus filhos.

 

R – Graças a Deus, todos eles seguiram um bom caminho. Nenhum, nunca foi preso, né? Já é alguma coisa. E tiveram um caminho certo, deram uma profissão que é o importante, né?

 

P/1 – É.

 

R – Todos eles. Esse que tá comigo é chaveiro, é bombeiro e tem é certificado. De chaveiro, de tudo. Hidráulico, bombeiro hidráulico, faz de tudo, que tecelã! (risos).

 

P/1 – Bonito.

 

R – É, e tudo quanto é cursinho ele faz. Ele gosta de estudar.

 

P/1 – Certo. Então a gente termina por enquanto aqui.

 

R – Certo.

 

P/1 – Que a gente registrou o máximo possível da sua vida, né? Da sua história. E agora a gente continua...

 

R – Você quer ver fotografia do colégio.

 

P/1 – Ah, agora eu quero ver as fotos.

 

R – Você vai dar risadas, tenho do garimpo....

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