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História

Jacira pra toda guerra

História de: Jacira Roque Oliveira
Autor: Associação Cultural Cachuera!
Publicado em: 29/07/2017

Sinopse

O sonho de ir para a escola foi logo desfeito no primeiro dia: a estrada a distanciava cada vez mais de casa. Jacira foi colocada num colégio interno regido por freiras, onde sofria torturas, como corte violento do cabelo, beliscões nas axilas e horas de sono forçadas num banheiro. A visita semanal da mãe era regada de silêncio, caso contrário, a ameaça podia ser cumprida. Quando enfim volta para casa, não reconhece seus amigos no quintal: as árvores e os bichinhos já não lhe respondiam. Aos seis anos, já era uma adulta. Na nova escola, junto aos colegas negros, era obrigada pela professora a limpar os banheiros e o pátio. A violência invadiu novos muros. Mais tarde, após dois relacionamentos, Jacira se liberta. Discute sua sexualidade, começa a compreender sua história, entender o silêncio da mãe e torna-se uma escritora em busca de recuperar todo o tempo e escritas perdidos. Por preocupação, acompanha os shows que o filho Leando, o Emicida, faz e percebe o lado sério do filho piadista: é preciso falar sobre a violência que o negro sofre, é preciso falar das nossas mulheres caladas. Já em tempo, Jacira dá a sua voz para o mundo.

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História completa

Eu sempre fui uma pessoa muito solitária, gostava muito mais dos bichos e das plantas do que das outras criancinhas. Um dia, descobri que tem as coisas que crescem e as que não crescem! Como o feijão, que no outro dia inchava, a casquinha abria para sair duas folhinhas! Mais tarde, nasciam as gavinhas, mas naquele tempo eu não sabia que chamava assim. Fui vendo que se eu colocasse um pauzinho ali, a planta se abraçava nele e subia. E, se tivesse outro mato junto, ela subia mais ainda! Aí saía flor e, de dentro dela, um negocinho que era a vagem. O dia em que eu descobri que dentro da vagem saía meia dúzia de feijão igual àquele primeiro, fiquei boba! Corri e puxei minha mãe pela saia: “Olha o que eu descobri!”, mas pra mim o que era uma descoberta, o adulto já sabia, né? “Ah, vai brincar!” Tentei falar várias vezes que eu tinha descoberto de onde saía o feijão que ela cozinhava, mas ela nunca quis ouvir.

 

O meu nome é Jacira Roque Oliveira, nasci em São Paulo, em 25 de dezembro de 1964. Minha casa sempre foi muito festiva, então o ensaio do Natal já começava no dia 26 do ano anterior! Depois, em setembro: troca cortina, troca a cor das coisas, passa veneno BHC em tudo, vem a decoração! Arrumava tudo e a sala ficava reservada. A gente fazia a parte serviçal. No dia do Natal, quem ia ocupar o sofá era a parte branca da família, o meu tio Cido. Ele chegava, tinha o pé cheio de frieira e ficava esfregando aquilo, que caía no chão. Ele trocava o vão do dedo e passava até correr todos os outros vãos. Ele só saía do sofá pra fazer coisas que a gente não pudesse fazer, porque ele era o dono da situação. Tudo era feito para o tio Cido. Quando alguém falava: “Mas hoje também é o aniversário da negrinha”, que era eu, as pessoas falavam: “Não, hoje é o aniversário de Jesus”. Desde que eu saí da casa da minha mãe, não faço festa de Natal. Não gosto.

 

Quando criança, meu sonho era ir pra escola que nem a minha irmã. Ela tinha uniforme, camisa branca, saia plissadinha azul marinho, meia branca, sapato Vulcabrás e eu queria por tudo aquilo também! Num domingo à noite, minha mãe arrumava uma mala muito grande. Eu não imaginava que era pra mim. “Amanhã você vai pra escola!” Me deu um travo no coração. Na manhã seguinte, a gente se levantou e foi tudo muito rápido: minha mãe pegou aquela mala e eu queria perguntar onde era a escola, mas a minha mãe não dava essa chance de perguntar. E, se perguntava, ela não dizia.

 

Pegamos o ônibus que ia pra Furnas. Ele foi a Sezefredo Fagundes toda e eu querendo perguntar onde era essa escola. Chegamos no lugar, que hoje eu sei que é no Jabaquara. Veio uma mulher que chamou todas as crianças pra entrar numa Kombi. Disse: “A mãe não cabe, ela vai na outra viagem”. Aquela mulher devia estar acostumada a fazer aquilo toda hora. A gente chegou num lugar com muros enormes, homens armados, tipo o que eu vejo hoje que é a Fundação Casa. Passei a apanhar. Era um colégio interno de freiras. Fomos colocados numa sala e aí veio essa mulher de novo, a Cida, e disse: “Nós vamos cortar os cabelos ruins”. Ali eu fiquei sabendo que meu cabelo era ruim. Em casa, eu mesma penteava o meu cabelo e as mulheres diziam: “Jacira penteia o próprio cabelo, lava louça, tudo sem precisar mandar”. Quando a Cida veio e raspou a cabeça de todos nós, com tanta violência, falei: “Como é que minha mãe vai me reconhecer?”. Cida era uma mulher horrível. Ela beliscava a axila da gente todos os dias.

 

Eu queria ter uma chance de falar pra minha mãe que eu estava apanhando. Um dia, numa visita de domingo, ela me falou: “Eu venho aqui e você não fala uma palavra!” “Eu quero ir embora, não quero ficar aqui.” Até que um dia eu parei na UTI do Hospital Santa Marcelina. O hospital tinha uma ordem pra me mandar de volta pro colégio, porém o médico foi contra: “Dona Maria, ela não vai melhorar porque toda vez que ela acorda, ela vê as freiras do hospital e piora, entra em choque de novo. Quando ela melhorar, a gente vai dar um jeito e a senhora vai levar ela pra casa”. E então eu volto pra casa.

 

Quando eu cheguei, eu não andava e não falava. O quintal não falava mais comigo. Minha planta, os bichinhos, nada. Aquilo foi uma dor tão grande que achei que eles tinham ficado com raiva porque eu tinha ido embora. Eu não sabia porque eu não tinha mais uma relação com meu quintal. Volto a ter essa relação muitos anos depois, fazendo hemodiálise, quando caiu nas minhas mãos o livro O meu pé de laranja lima. Ele tinha muito a ver com a minha vida: pai desempregado, situação difícil. A gente não sabe o que é desemprego na infância, não sabe das dificuldades. Quando eu cheguei na parte que o português morre e o pé de laranja lima entra dentro do quarto pra falar com o menino, fecha-se o ciclo que tinha acontecido há mais de 25 anos comigo. Eu não sei quanto tempo eu fiquei no convento e no hospital, mas eu cresci. E, apesar de eu ter voltado pra casa com seis anos, eu já era adulta. O convento destruiu a minha infância.

 

Quando eu fui realmente estudar, a escola ficava na igreja. Então eu me recusava a entrar nela. Era a Escola Estadual Cássio da Costa Vidigal. E aí sabe como que é, né? Adultos forçam a criança. Mas a professora era a Leila e tudo o que ela falava eu já sabia! Um dia, ela mandou a gente chegar em casa e por um feijão no algodão e ir anotando as mudanças. Falei: “Eu sei o que acontece, ele vai crescer!” Expliquei tudo e ela ficou de boca aberta. Me pegou pela mãozinha e, feliz da vida, foi falar com a dona Cecília, a diretora: “Ela tem que ir para o segundo ano, ela já sabe escrever o nome!” E a diretora recusava. Várias vezes a professora tentou e a diretora sempre negava. No segundo ano, a minha vida mudou bastante. A maioria das pessoas na minha região eram filhos de portugueses e brancos. Os negros ainda estavam chegando no Jardim Ataliba Leonel. Alguns japoneses também. Nós éramos a minoria e, a partir do segundo ano, passei a lavar as latrinas da escola. Os outros negros e eu. A gente lavava os dois. Eram nojentos. E eu tinha pavor porque no convento me mandavam dormir num banheiro.

 

No terceiro ano, veio a dona Neli. Ela declarava o ódio que tinha pela gente. Além de lavar os banheiros, ela mandava a gente varrer todo o pátio da igreja. Ela nos separava pela cor da pele: as meninas loiras na frente e, lá pra trás, a gente, que também estava proibida de ir até a mesa dela. Ela dizia que a gente fedia. Comecei a cabular aula, não era aquela escola que eu queria. Então me metia no mato da Serra da Cantareira de ponta a ponta.

 

Quando eu escrevia, a maioria das minhas professoras rasgava e jogava fora. Elas diziam que não fazia sentido o que eu tinha escrito. “Não foi você que fez!” Pronto, rasgavam e jogavam fora. Nas reuniões, eu não tinha nada pra mostrar pra minha mãe porque todas as minhas notas tinham sido rasgadas. Eu usava o lápis como ser fosse uma arma. Também tinha afronta dos outros alunos e ali eu decidi partir pra briga. Descobri que eu era muito boa na pedrada. 

 

Um dia, meu irmão morreu afogado. Depois do enterro, fiquei pensando: “A gente compra sapato pra deixar guardado em caixa! Eu não vou guardar mais nada!” Eu já namorava o Miguel e falei, um dia depois do enterro: “Nós vamos fazer sexo hoje”. Fiquei grávida na primeira relação. Eu tinha 13, ele, 16. Gente, ninguém tinha me falado nada de como eram essas coisas! A minha filha nasceu e eu fiquei morando no quintal da minha mãe. Um ano depois, meu sogro me convidou pra morar na casa dele. Os dois bairros eram muito próximos, mas o Ataliba, que era o bairro da minha mãe, tinha de tudo, e o Fontalis não tinha nada. Não tinha água, não tinha luz e não tinha nada na mesa. A casa da minha mãe tinha fartura, no outro só tinha miséria e pancada, todas as mulheres apanhavam no Jardim Fontalis. Naquele mesmo ano, já esperando a segunda filha, a Tiana, meu sogro matou a minha sogra. E aí eu fui lavar roupa, fui pra mina, eu era responsável por manter a casa. Também entrei pra política e comecei a ouvir o que eram direitos e deveres. Estava ruim, mas estava bom porque eu comecei a ver que algo estava realmente errado e que eu estava certa. Foram dez anos pra finalmente eu falar pro Miguel: “Chega!” e botar ele pra fora de casa.

 

Miguel morreu dois anos depois, foi a melhor coisa que Deus me fez, desculpa Miguel, mas foi só aí que minha vida deu uma melhorada. A minha vida dependia de mim e, então, fui pra escola concluir o ensino fundamental. Eu ia completar 30 anos e eu não era boba, era quando acabava a idade profissional, principalmente da mulher. Fiz enfermagem, consegui me empregar como auxiliar e comecei a ter um salário. Ganhava menos do que quando eu trabalhava por conta, mas algo me dizia que eu precisava registrar na carteira. Esta fala que me dizia isso, esta fala que estava comigo desde criança, toda hora uma coisa dentro de mim falava que a coisa ia melhorar. E eu também brigava muito com essa voz, essa voz eu tenho até hoje, sabe?


Quando estava trabalhando na enfermagem, conheci o Eduardo e fomos morar juntos. Ele era branco de olho azul e a família dele se afastou por causa da cor da minha pele. Já a minha família não queria aceitá-lo porque dizia que ele ia estuprar minhas filhas, que não sei o quê! A minha região é uma região de muito tarado, sempre teve muito tarado. Então do Fontalis pro Doze, a gente andava armado de faca. Eu era aquela mulher do livro Vidas Secas, a mulher do Fabiano, com os meninos e a faca, eu vou, não interessa.

 

De repente, comecei a sentir fraqueza. Eu já não tinha mais o rim e não sabia. Só vim a saber quando fui fazer um exame e não tinha urina pra colher. Eu já estava indo pra 32 anos e foi um choque quando tive que aposentar por invalidez. Eu estava prestando vestibular pra fazer Letras. Fiquei seis meses internada no Hospital das Clínicas e foi um pesadelo. De repente, minha vida novamente caiu. Aprendi a viver com aquele pouco dinheiro e se a insuficiência renal me tirou algumas possibilidades, ela me devolveu a chance de voltar a frequentar as reuniões de escola dos meus filhos e acompanhar a vida deles. Conforme as coisas vão melhorando, vou descobrindo o quanto o Eduardo era racista. Mas até então eu já era Jacira pra toda guerra, né? Igual a Tereza Batista cansada de guerra? Comigo é assim! Estava aposentada, as crianças crescendo, entrei em depressão durante o tratamento e descubro que Eduardo tinha outra mulher.

 

Aí eu conheci o Sesc. Fui fazer uma aula de dança e me apavorei: “Gente, isso é macumba!”, porque minha avó dizia que aquele batuque era coisa do Satanás. Mas fiquei encantada com aquilo e, no final, falei: “Onde eu fico sabendo mais disso?” “Tem um lugar que chama Cachuera!”, me disseram. Não me deram endereço, nada. Até que, um dia, meu filho Evandro falou: “Vamos pegar um táxi e passear”. Aí eu vi lá: “Cachuera!”. Entrei, tinha uma salinha onde ficava a Paulinha, secretária, que me falou tudo o que acontecia ali. “Semana que vem, começa um curso sobre diáspora”. E eu: “O que é diáspora?” Eu achava que a África não existia, falei: “Existe mesmo negócio de África?” “Existe!” “Ah, mas é esse lugar onde as pessoas têm três braços, duas cabeças, que tem o demônio!”. Me inscrevi.

 

Nunca fui pra uma escola com tanto orgulho! O lápis, o caderninho, saí da hemodiálise e fui. Era todo sábado. Antes disso, eu já estava na biblioteca Alceu Amoroso Lima fazendo aula de mitologia grega. Adoro mitologia! Nesse grupo, o doutor Ajax reúne pessoas que precisam de medicação. Eu queria que o doutor aumentasse a dose do meu calmante. Ele disse: “Você precisa conhecer a sua história. Você é muito inteligente pra se perder com remédio”. Fiquei com muita raiva dele, ai, uma raiva! Bom, aí, na primeira aula, eu não queria falar nada. De repente... Vi que todo mundo ali era professor, me senti mais rebaixada ainda! Quando chegou a minha vez, o professor Salomão falou: “Então?” Eu falei meu nome e: “Eu vim aqui porque meu psiquiatra me encaminhou pra cá! O psiquiatra falou que não tem remédio que dê jeito em mim, então eu vim”. Acho que foram seis meses de aula. Passava a semana inteira babando por aprender aquilo.

 

Nesse mesmo tempo, meu filho Leandro ia pra rinha. As pessoas falavam: “A polícia vai pegar esse menino e vai esquartejar, você não vai achar nem pra enterrar”. Aquilo me doía tanto! Ele chegava em casa duas, três horas da manhã. Ônibus não parava, então ele vinha a pé do Tucuruvi até em casa e eu ainda brigava com ele, dava uns tapas e punha ele pra dormir: “Para de ficar falando mal das coisas! Você não vai cantar rap dentro da minha casa”. Mas ele não parava. Tive que acompanhá-lo pra ver com quem ele estava andando. Aí eu fui conhecer e eram pessoas centradas. Quando eu ouço aquelas pessoas, tudo o que elas falavam casava com o curso do Cachuera!. “Então ele está fazendo o mesmo que eu e eu estou brigando com ele!” Comecei a ouvir o que ele falava. O meu Leandro sempre foi muito brincalhão em casa, a gente ria muito das coisas que ele falava, mas a parte séria eu não tinha escutado ainda. Quando ele fala que a polícia para pra gente e o taxista não, é isso! Comecei a achar bonito e passei a ver os shows dele. Comecei a me entender com aquilo e, ao mesmo tempo, todo dia ia ao Cachuera!

 

Lá, aprendi tudo: Carybé, Jorge Amado, Pierre Fatumbi Verger, o jongo, a umbigada. Tem um amigo nosso que morreu, o Reverendo. Foi um enterro diferente, as pessoas dançaram em volta do caixão em homenagem a ele. Me emocionei tanto que eu não conseguia sair de lá, aquilo era bonito demais, era uma forma de reverenciar a África. No Cachuera!, conheci outras pessoas, outros lugares. Ali, fui me inserindo dentro das faculdades não como estudante, como pesquisadora, e eu não era mais aquela pessoa que impediam de escrever lá atrás. Fui me tornando a Jacira, aquela pessoa que pesquisa e que passa a ver o que ela pensa, que o que ela sente tem uma razão e tem uma necessidade.

 

Esse amor que eu descobri é o amor por essas coisas, é o amor por mim. Comecei a rever meus cadernos e eles tinham muita raiva, muito sangue, muito suor da minha família. Fui fazendo esse movimento de lidar com os meus e fazer esse reencontro com a história da minha mãe, 38 anos depois de voltar pra casa. Então meu primeiro livro começa assim: “Eu já ia sair quando ela me disse: ‘Fica, eu vou passar um cafezinho pra nós’. E aí eu falo: ‘Mas por que ela vai me dar um café agora?’ ‘Porque você está esperando esse café!’” Esse é o início do meu livro e só quando eu começo realmente a abrir aquilo e escrever seriamente é que eu começo a entender aquilo que aprendi na análise: cada hora do dia te remete a uma coisa, descubra o que você pode dar pro dia, porque todos os dias o universo te abençoa com um dia novo. E aí eu descobri: meu horário de escrever é de madrugada.

 

O Cachuera! me devolveu a possibilidade de voltar a dançar, com o conhecimento da chula, do samba de roda, do mestre Ananias que eu conheci vivo, da Nega Duda, que tem um samba que parece um pouquinho com Martinho da Vila, lembra o Luiz Gonzaga. Quero trazer isso pra minha casa, é aquilo que me acorda, que é o meu remédio, aquilo que desperta essa criança em mim, essa criança que ficou lá com cinco ou seis anos de idade e que agora veio fazer parte da minha vida quando eu conheci o Cachuera!, quando me devolveu a música. A música me deu essa possibilidade. Pude recuperar o carinho pela minha mãe porque, na verdade, a minha mãe é uma negra silenciada. O espaço da mulher é misto porque a mulher aceita todo mundo, e os outros não aceitam, não é? Foi ali que me enxerguei: sou mulher, sou negra, sou Jacira.

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