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História

Jeff: do tombo ao pódium

História de: Jefferson Silva Santos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 27/10/2017

Sinopse

Jefferson Silva Santos faz um mergulho em águas profundas, onde se desenrolou o seu drama pessoal vivido no oceano das drogas. Ele começa falando de sua infância na periferia de São Paulo, dentro de uma família comum, origens simples mas com a presença e o cuidado dos pais. Conta de sua atração por esportes e de como o pai o levou a conhecer e praticar a capoeira. O primeiro golpe veio com a perda do pai, ele ainda adolescente, consumido pela bebida e uma vida desregrada. Torna-se, assim, arrimo de família. Na juventude, ingressa na faculdade, vai fazer Educação Física carregando o peso de uma responsabilidade adicional: é o primeiro, entre todos os parentes, a estar em curso superior. Mas logo recebe o golpe terrível, para o qual não estava preparado: sua mãe falece, rapidamente tomada por um câncer devastador. Mergulha no vazio, no caos, na depressão. Busca refúgio no mundo das drogas, que conhece a partir da faculdade. O Jefferson que na capoeira aprendeu que a vida é luta; que na faculdade vislumbrou um futuro promissor; que achava que detinha o domínio das drogas, e não o contrário, esse Jefferson já não existe mais. Que da maconha chegou a consumir 80 pedras de crack por dia; que do ambiente acadêmico foi parar no inferno da Cracolândia; que da casa própria foi viver nas ruas; que do profissional dedicado não havia vestígio quando foi jogado no fundo de uma cela. Destruiu-se, desconstruiu-se, perdeu, sobretudo, a dignidade. Mas não perdeu a vontade e a capacidade de reerguer-se. E foi o que fez: na prisão ainda, planejou a sua volta, a sua recuperação, a sua redenção, o seu renascimento, as suas reconquistas. Pretende contar para todos - no livro que já escreveu e nas palestras que pretende proferir - a sua extraordinária trajetória. Não para exibir a sua atual prosperidade, mas para falar de sua reinserção na sociedade e servir de exemplo a quem precisar e puder acreditar que a força de vontade move montanhas também.

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História completa

Sou Jefferson - com dois ‘efes’ - Silva Santos. Nasci aqui mesmo, na Capital de São Paulo, em 22 de setembro de 1978. Meus pais tinham ocupações modestas: meu pai era motorista e depois se tornou dono de um bar na periferia, onde a gente morava; minha mãe sempre foi costureira mas, no final da vida, trabalhou como doméstica. Formávamos uma família comu. Eu, meu pai, minha mãe e uma irmã mais nova que eu. Humilde, mas harmoniosa. E sempre recebemos orientação, principalmente da mãe, para que nos afastássemos do mau caminho (drogas, bebida, etc.) e optássemos pelo estudo, pela religião e pelo esporte.

 

Dentro disso, meu pai, uma pessoa um tanto rude mas de muita generosidade, me encaminhou, criança ainda, para a capoeira. Ao primeiro golpe mais forte, chorei e quis desistir. Mas meu pai me fez ver que a vida é luta, e dela não se foge. Acabei gostando da capoeira. Também gostava de correr e gostava de futebol. Nas periferias, sem opções de lazer e cultura, o campinho de futebol, a garotada jogando pé no chão, é sempre uma tradição. Acalentei, como todo garoto pobre da periferia, o sonho de ser um jogador profissional, ganhar muito dinheiro e mudar a realidade da minha família. De estudar, não gostava não. Indisciplinado, briguento, mau aluno, trocava a sala de aula pela torcida no estádio.

 

E aí, em plena adolescência - 16 anos - eu perdi meu pai. Perdi para uma vida desregrada como dono de bar: bebida, cigarro, sedentarismo, comida gordurosa. Aliás, era o padrão na família dele e entre os clientes do bar. O fato é que meu pai amargou um final de vida sofrido demais. E não faltaram aí componentes de um drama já conhecido: a separação, a solidão, condições degradantes de vida, a completa entrega ao vício. Tudo isso foi muito triste para mim e, de certa forma, encurtou minha infância, minha adolescência, principalmente porque, com a morte do meu pai, coube-me responsabilidades de filho-homem, filho mais velho, arrimo de família. Comecei a fazer bicos, os mais variados: mexer com cana, serviço de pedreiro, fabricar colchões, vendedor, gráfico, trabalho com sucata de caminhão. Não havia tempo ruim. Eu não rejeitava nem escolhia serviço. Não tinha escolha, era pegar o que viesse, o importante era ganhar o sustento para ajudar em casa.

 

Aí, já na faculdade, na fase adulta, ali por volta dos 25, 26 anos, as coisas começaram a acontecer atropeladamente: a faculdade de Educação Física, significando uma responsabilidade imensa porque eu fui o primeiro das duas famílias - tanto de pai como de mãe - a ingressar em curso superior; já encarava compromissos profissionais, porque eu atuava na área antes mesmo de me formar; a frustração de não ter me formado com os demais da turma simplesmente porque perderam, na faculdade, o meu trabalho de conclusão de curso. E o mais grave: a descoberta de um câncer devastador na minha mãe, que a levou rapidamente. Foram coisas muito densas, vindas em turbilhão, destruindo resistências, desestruturando-me emocionalmente. O resultado é que eu acabei canalizando tudo isso para as drogas. E esse tudo não é pouco: a perda, a saudade, o arrependimento pelo que fez, pelo que deixou de fazer, pelo que falou, pelo que não disse… E aí vem a depressão, que é território fértil para prosperar o vício. Principalmente porque este traz a sensação ilusória do alívio, do bem-estar. Só que traz, também, a dependência.

 

Porque a depressão, na verdade, é isso. É você se isolar das outras pessoas e entrar no seu mundo [...] quando você acha que quer viver só os seus pensamentos.

 

Não importa como você conseguiu a droga, o importante é que ela está ali, disponível. É sua e com ela você vai iniciar uma caminhada sem volta ou, com muita sorte, vai voltar depois de um longo período de sofrimento e desconstrução - física, mental, emocional, social, profissional. Rapidamente ela vai lhe dominando, mas você, ingênuo, acha sempre que ainda está no comando: “Quando eu quiser, eu paro”. Triste engano. Até porque quando você se dá conta, ela já lhe subtraiu oportunidades, já lhe fez deixar de lado as responsabilidades, e você já decepcionou, já magoou muita gente. É hora, então, de buscar ajuda. E foi o que eu fiz, ainda que depois de muita hesitação. Só que não é tão fácil como aparenta: vai lá, se interna, trata, cura. Não, não é assim. É muito mais sofrido por conta, principalmente, do fantasma da recaída. E novas internações, novas recaídas, drogas mais fortes, destruição pessoal mais completa. Você entra num processo de insanidade, altamente autodestrutivo. No meu caso, fui da maconha ao crack; cheguei a usar oitenta pedras em um único dia. Saí da casa própria para o aluguel, deste para a rua e, por fim, para a Cracolândia. Mas ainda não seria este o ponto final: teria ainda a prisão. Da primeira vez, por quarenta e cinco dias, acusado de furto. Quando saí, pedi ajuda à minha família. Não recebi. Reincidi. Nova prisão, agora por um tempo maior. Enfim, o fundo do poço. Da faculdade de Educação Física para o camburão e o fundo de uma cela.

 

Na Cracolândia, a história mais marcante ali foi ver as crianças. Criança mesmo, de dois, três anos de idade, completamente dependente químico do crack.  

 

Curiosamente, eu saí das profundezas da autodestruição, uma espécie de pântano moral, graças à prisão. Entendi, tempos mais tarde, que, de fato, ali, naquele momento, era o melhor lugar para mim e para minhas angústias, meus vícios, meu caos interior. Ali encontrei Deus e, com Ele, a força interior, o acreditar, primeiramente em mim mesmo, a consciência de que eu não era mau, não era bandido, de que eu tinha como me salvar. Que eu poderia. Que eu faria. Que eu transformaria a minha vida e o meu destino. E assim foi. Ainda na prisão comecei a estruturar o que seria a minha nova vida quando saísse de lá. Foi na prisão que eu passei o pior da abstinência. Mas foi, também, onde eu consegui tratamento físico, mental e espiritual. Consegui conceber um projeto de vida, de recomeço, de ressignificação. Aqui fora encontrei muita gente que Deus colocou no meu caminho para me ajudar, para viabilizar minha mudança. Tive então inúmeras provas de que não estava sozinho.

 

[...] para mim, ali eu só via a minha oportunidade de voltar para a sociedade. Deus está me dando uma chance de fazer o meu melhor [...]. Só em busca de conseguir alguma coisa, de batalhar para voltar a conquistar [...] a minha imagem perante as pessoas também.

 

Do emprego que eu consegui, numa academia; do meu trabalho como personal; de uma dedicação extraordinária, quase sobre-humana, de modo a demonstrar qualidade, responsabilidade e seriedade em grau de perfeição; de tudo isso eu fiz uma ponte para o recomeço. Um recomeço sólido e promissor. E hoje eu tenho a certeza de que valeu a pena, seja no lado material, no lado profissional, no lado da imagem e do caráter, seja porque eu pude, finalmente, provar a mim mesmo: “Não, quando eu quis, eu parei”. Bem ou mal, com todas as dificuldades, construí uma história de aceitação com meu filho, deixando claro que ele ditará os rumos dessa história. Eu optei por não forçar nada. Nesse meio tempo, escrevi um livro sobre a minha caminhada. Sonhos? Tenho um, sim. Quero me tornar palestrante. Não para ganhar dinheiro nem prestígio, mas simplesmente para que outras pessoas que eventualmente estejam em situação análoga a que eu já vivi possam acreditar ser possível uma recuperação. Como foi possível para mim.

 

E a pessoa mais importante sou eu, eu que tenho que estar bem, eu tenho que estar lúcido, eu tenho que estar sereno, eu tenho que estar limpo para as outras coisas acontecerem na minha vida.

 

Editado por Paulo R. Ferreira

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