Busca avançada



Criar

História

Laranjeira, minha vida

História de: Ianarema Coutinho Oliveira
Autor: Ianarema Coutinho Oliveira
Publicado em: 11/04/2018

Sinopse

Laranjeira, conta parte da minha história na roça Tempo em que as felicidades de uma criança eram coisas simples da vida Sem me dar conta do que está ocorrendo a minha volta no mundo dos adultos, me torno portadora de uma carta que vai fazer meu mundo perfeito desabar eme levar para muito longe da minha feliicidade, mas mantendo sempre viva a imagem da minha terra querida

Tags

História completa

Eu nasci em uma pequena cidade do interior da Bahia, mais precisamente em Serrinha, mas a minha criação se deu em um pequeno povoado de nome Retiro O Retiro era composto por muitas propriedades denominadas roças, mas possuía uma espécie de ponto central, onde havia uma igreja, algumas vendas de gêneros alimentícios como; farinha, feijão, carne seca, rapadura, bolachas, pães e coisas do tipo e ainda forneciam fumo de rolo e querosene para acendermos os candeeiros que iluminavam as nossas casas, além claro de possuir algumas poucas casas ao seu redor Meus avós paternos moravam na Laranjeira, nome dado a sua propriedade Na verdade, eram duas Laranjeiras, a nova e a velha, esta última, era a que morávamos, uma casa muito velha com uma enorme sala vazia de mobília e uma cozinha contendo um fogão de lenha que ficava abaixo da pequena janela lateral, que dava vistas para um mato sem fim As paredes da cozinha eram todas pretas, mas não por causa de tinta e sim, pelo resultado de anos de fumaça e fuligem do carvão produzido pelo fogo na lenha do cozinhar de tantos anos A velha porta de madeira que dava para o quintal, raramente era aberta pois havia um capim de uma altura tão imensa, que as cobras por lá costumavam ser frequentes A minha mãe costumava dizer que meu pai sempre respondia que haviam alguns bois fazendo o trabalho da limpeza do mato,em resposta a ela, quando a mesma reclamava da invasão do mato Nunca disse que ele era um tanto preguiçoso, pelo contrário, aceitava e creio que deva ter tido lá seus motivos para tal aceitação Na cozinha tinha uma mesa velha de madeira muito forte e acompanhava-lhe, dois tamboretes, que de tão velhos e frouxos, beliscavam minhas pequenas e gordas coxas de criança Não havia na casa, ninguém que os tamboretes não houvesse um dia dado um beliscãozinho Ás vezes, na minha imaginação de criança, acreditava que eles se divertiam com isto e ficavam esperando o próximo a se sentar Haviam dois quartos, mas deles só me lembro das camas com colchão de palha e que a noite as muriçocas só não nos devoravam o sangue, porque meu pai, imbuído de sua pouca sabedoria, mas valendo-se da experiência, acendia estrume seco de boi, na porta do nosso quarto Não me lembro nunca, de termos sidos molestados por uma muriçoca sequer Minha mãe, pobre mas criativa, professora iniciante, se esforçava para tornar melhor e mais aconchegante a nossa casa simples, mesmo tendo na sala apenas alguns blocos empilhados, sustentando tábuas velhas, que faziam as vezes de prateleiras, como se assim fossem, muitos vasos de plantas espalhados pelos cantos, assim, tudo ficava mais bonito do que já era Apesar das lutas noturnas contra as cobras que insistiam em invadir a cozinha deslizando pelos caibros e algumas aranhas caranguejeiras que minha mãe e alguns agregados combatiam eficazmente, com suas tochas de fogo sempre eficientes, revezando-se nesta batalha, a vida para mim na Laranjeira velha era a melhor vida do mundo Mesmo com todas essas adversidades eu ainda preferia a Laranjeira velha à Laranjeira nova, onde residia vovó, vovô e seus dez filhos Na Laranjeira velha, meus irmãos e eu, andávamos de carro de boi, de carroça, fazíamos bois de barro,bebíamos leite fresquinho e quente tirado da vaca às cinco da manhã, subíamos em árvores para ver quem ia mais além, quem era mais corajoso, além de comermos as frutas que vingavam quando a chuva era abundante Nossos banhos na chuva, pulando nas poças de lama eram os banhos mais gostosos e felizes, a única coisa que podia atrapalhar essa minha felicidade era o surgimento de algumas gias ( espécie de perereca minúscula e gelada), o que me fazia abandonar qualquer banho de chuva na lama No café da manhã a mesa era farta, abóbora cozida com leite, biju, milho cozido, batata doce cozida, cuscuz com manteiga, tudo da roça do vovô Café com leite no caneco azul de plástico, escutar novela de rádio e brincar de cozido de miúdos das galinhas, são coisas simples e até sem graça para muitas pessoas de hoje, mas para mim, foi a melhor coisa que ganhei de Deus Eu era feliz, meus irmãos eram felizes e meu fusca azul de plástico, completava essa feleicidade Mas, um dia a Laranjeira velha se tornou velha de fato, feia e triste Chegou as minhas mãos uma carta para ser entregue a minha mãe Eu estava brincando, mas tive que parar e me tornar a mensageira da carta que destruiria meus sonhos, minhas alegrias, que levaria para longe os meus bois de barro, minha caneca azul de tomar café com leite e meu fusca de plástico As linhas traçadas por letra bonita, trazia o choro e a dor do fim do casamento de mamãe e papai, foi embora, fugira com uma amiga de mamãe, sem adeus, sem abraços e nem justificativas pela fuga empreendida Fechei os olhos tomados pelas lágrimas e quando os abri, já não haviam mais banhos de chuva na lama, nem mesmo as gias e talvez nem mais medo delas teria, se tudo pudesse voltar atrás na vida, como eu queria Tudo ficou esquecido e guardado nas paredes da Laranjeira velha, nas idas e vindas pela estrada de terra que à sua cancela conduzia, nos dias quentes e quase raramente frios,repletos de histórias da vida de meus pais , meus irmãos e eu Eu nunca mais vi a Laranjeira, nem a velha e nem a nova Soube que das duas só restam as ruínas e a cancela que a separa das outras roças, virou pasto para alguns criadores de gado Mas, dentro de mim estará sempre lá, de pé, possuidora de parte da história da minha vida, da melhor parte dela Dentro de mim estará sempre viva e intacta mesmo que me digam que nada mais há lá Hoje vivo distante, mas os frutos que dei na vida são frutos da Laranjeira velha que trago de lá Laranjeira velha, que saudade!

Ver Tudo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | portal@museudapessoa.net
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+