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História

Leandra, suave diferença

História de: Leandra Migotto Certeza
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 10/01/2020

Sinopse

Leandra nasceu em 1977, São Paulo – Capital. Escolheu fazer Comunicação Social. Até porque acredita estar, nessa área, valioso acervo de dados, pesquisas, estudos para se desvendar o território das diferenças – físicas e intelectuais. Um mundo que ela acompanha de perto – ela convive com a diferença. Leandra nasceu com uma rara doença – osteogênesis imperfecta – de natureza óssea, que compromete a retenção de cálcio na estrutura óssea, provocando fraturas constantes e, muitas vezes, espontâneas. As suas próprias dificuldades pavimentariam o caminho para a escolha do curso a ser feito; trabalhar para que as diferenças não excluam e nem depreciem. Só de uma coisa nunca abriu mão: a sua imagem não seria, por si só, justificativa para impedi-la de estar em qualquer lugar.

Acesse o blog da Leandra em: www.leandramigottocerteza.blogspot.com

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História completa

Meu nome é Leandra, nasci em 1977. Sou casada, e natural de São Paulo, Capital. Tenho uma condição física chamada osteogênesis imperfeta, que significa má formação óssea. Meço 96 centímetros de altura. Sempre tive  várias fraturas porque não tenho absorção e a retenção do cálcio pelos ossos. Os meus braços e pernas meus já nasceram fraturados. Havia tão pouca crença entre os médicos, de que eu sobreviveria que mandaram secar o leite da minha mãe, então uma menina, de 18 anos. Naturalmente pensavam: “Não vai sobreviver! Com toda essa propensão a se quebrar sozinha, ou num simples empurrão... Os meus ossos eram assim com uns furinhos, mais parecendo esponja”.

Sempre fui amante do ato de estudar, do saber, do desvendar, do pesquisar. E, sempre contei com os cuidados da família, e o estímulo da escola. Com cinco anos, eu comecei a andar em barra paralela, depois em andador, e muletas… Aos sete, na escolinha, eu cheguei a andar sem muleta. Daí a pouco, eu vou ter um lapso de memória e vou me ver, com nove anos de idade, no terceiro ano primário, sendo carregada. Parece que todo aquele progresso chegou a se perder e eu regredi para essa fase de ser carregada. Levada no colo para o recreio, para o banheiro. 

Os tempos eram outros, em que a pessoa com deficiência era vista como alguém que precisa de muitos cuidados. Pois, ainda não haviam chegado à sociedade, conceitos e noções de direitos, oportunidades, etc. Na verdade, naquele tempo, havia tal atraso na educação de pessoas com deficiência, que as mães – como a minha, por exemplo, não conseguiam vagas nas escolas públicas. E existiam poucas escolas particulares, que por idealismo e desafio, aceitavam as matrículas de alunos com deficiência, mas sem investir em alguma adaptação. Em uma escola assim foi onde eu permaneci dos 9 aos 14 anos, aprendendo, para muito além das disciplinas, que toda aquela atenção voltada para mim - porque era necessário - deveria ter certos limites. Não deveria ser confundida a atenção especial com salvo-conduto para notas baixas ou indisciplina, por exemplo. 

Naquela época, aprendi o valor da amizade – tenho amigas daquele período – e que receber atenção não me autorizava a ser centro das atenções. Até mesmo nessas questões delicadas, como a do corpo; do corpo-adolescente; do corpo idealizado; da sexualidade, eu me apoiei muito no que esse colégio me ensinou. E, no meu caso havia o único corpo possível, por isso, a adolescência foi doída. Então, eu busquei me aceitar e preservar corpo que tenho e a minha imagem. Fosse qual fosse esta imagem, ela deveria refletir quem eu de fato era, e jamais impedir de eu estar nos lugares. Procurei acompanhar a luta, os esforços, o que propunham, o quanto e como evoluíam as pessoas com deficiência. Não apenas as pessoas com deficiência física, como as com deficiências intelectuais também. 

Depois, começaram a surgir  preocupações com o curso superior. Optei por Comunicação Social para falar com todos, e contar sobre as dificuldades para estudar numa Faculdade não adaptada às pessoas com deficiências. Aí comecei a fuçar dentro da área, queria saber sobre o que se escrevia, o que se discutia nas Feiras, Congressos, Simpósios... Mas na hora de conseguir um estágio mesmo, falavam para mim: “Ah, na área em si não tem; só tem para atender telefone”. 

Depois as coisas foram acontecendo e eu comecei a trabalhar como Monitora Educacional na exposição Êxodos do fotógrafo Sebastião Salgado. E quando eu já era repórter em uma revista, as pessoas não acreditavam e perguntavam: “Eu vou ser entrevistado por uma jornalista com deficiência?” Acompanhei, na década de 80, aquela transição na legislação pertinente às pessoas com deficiência, transformando do modelo assistencialista, de cuidados especiais, para  o modelo do direito humano, da autonomia, da independência. Talvez, por isso eu tenha conduzido esse trabalho a partir de um viés mais sentimental e menos ganhos financeiros. Sinto que poderia ter feito essa equação melhor. O fato é que segui a minha intuição em relação à forma e o jeito de fazer a minha carreira profissional. Em 2007 viajei para o Peru de avião sozinha para apresentar um trabalho na Universidade de lá, e vi que a situação das pessoas com deficiência era pior do que aqui no Brasil. 

Conquistei o espaço que me foi possível e autonomia até esbarrar nas minhas limitações. Mas sempre eu consegui fazer da independência o meu valor maior. Acredito que tanto na vida pessoal, quanto na minha profissão:

       Liberdade é estar no mundo como a gente é.


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