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Lembranças do meu tempo de criança

História de: Augusto Jeronimo Martini
Autor: Augusto Jeronimo Martini
Publicado em: 25/05/2006

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Esta noite sonhei com meu pai, no tempo em que eu era criança. Ao despertar, fiquei assim absorto, a relembrar aqueles tempos. Eu, talvez porque fui sempre muito preso, controlado, era um menino muito introvertido e carente. Tinha meus amigos inseparáveis. Amizades que tento preservar ainda hoje. Íamos à escola de manhã. Depois do almoço a lição de casa. Brincadeiras só depois do dever cumprido. A cada dia era escolhido o quintal de uma de nossas casas. E o que a gente aprontava naqueles quintais.

Na minha casa o quintal era tão grande que parecia uma chácara. Havia grande variedade de frutas. Sempre havia uma da época. Às vezes era tempo de manga, jabuticaba, mexerica, etc. Comíamos muitas frutas. Subíamos nas árvores para escolher as mais bonitas. Na jabuticabeira, meu pai não gostava que subíssemos. Estragávamos muitas frutas. Ficávamos horas e horas chupando jabuticabas e nem percebíamos o tempo passar. Brincávamos em baixo da mangueira. Era um tempo em que quase não havia brinquedos. Apenas pneus velhos, latas, pedaços de madeira, colheres velhas. Pardais, muitas vezes, eram a mira de nossos estilingues e fatalmente iam parar na frigideira. Hoje teria coragem disso?. Deus me livre de tal imbecilidade.

Havia o jardim da casa, onde nunca faltavam flores cultivadas por minha mãe. Dálias, rainha-margarida e rosas eram plantadas sem simetria, fazendo canteiros de cores diversas. No verão, com o calor escaldante, depois do jantar íamos sentar à porta da sala, pois naquele tempo não tínhamos televisão. Essa era vista apenas na casa da Tia Nica, senhora idosa que havia nos adotado como seus netos - eu, minhas irmãs e uma prima que morava conosco. Foi na casa dela que aprendi a gostar de "Perdidos no Espaço", "Túnel do Tempo", "Vigilante Rodoviário". Dos desenhos animados - "é o lobo, é o lobo".

Em outros dias, a conversa era na calçada, com os vizinhos. Ali surgiam os "causos". O Juca pegava o violão e na pouca luz que havia na rua (eram apenas duas lâmpadas por quarteirão) as meninas soltavam a voz. Minha mãe e suas amigas entravam, sentavam-se à sala para ouvir no rádio a novela "O Direito de Nascer". Nós íamos brincar na rua que era de chão batido. Cada dia uma brincadeira diferente. Peteca, pular corda, esconde-esconde, de bola, rodar pneu. No flamboyant, defronte a casa, tinha uma corda que era nosso balanço. Tantas brincadeiras boas que hoje nem se ouve falar.

Hoje, na rua, não se pode mais ficar. A convivência com os vizinhos tornou-se restrita. E os pic-nics no antigo Horto Florestal?. Em certos domingos, o "Seu" Alcides, que tinha um caminhão, convidava a vizinhança e íamos festejar a beira do lago, debaixo dos bambuzais. Para nós não havia nada melhor Levávamos lanches, limonada e passávamos o dia inteiro perto do lago, numa areinha do riacho. Hoje, o lago está abandonado, a água do riacho poluída, perigo de esquistossomose. Tudo está tão mudado. A cidade cresceu muito e perdeu toda aquela singeleza, apesar de continuar provinciana. As cantigas inocentes (Senhora dona Sanja coberta de ouro e prata, descubra vosso rosto, queremos ver-lhe a cara...) deram lugar a outras. Aquelas amizades ficaram em outras épocas. Presas na parede da memória.

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