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Liberdade para dirigir a própria vida

História de: Daniele Angeli Yokoyama
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/09/2018

Sinopse

Daniele Angeli Yokoyama nasceu no dia 23 de junho de 1978 em São Paulo. Na primeira parte de sua entrevista ao Museu da Pessoa, nos conta sobre a origem de seus pais e muitas histórias da sua infância e juventude. Fala das casas onde já morou, a sua relação com os três irmãos, as aventuras que tinha já desde pequena e as brincadeiras de criança. Sobre a sua adolescência, conta sobre as suas paixões, desilusões e confusões amorosas, a independência que adquiriu ao morar muito cedo sem os pais, a responsabilidade adquirida e seu jeito de conhecer as pessoas sem definir limites em relação ao grupo que pertenciam. Conta também sobre um acidente de moto grave e sobre sua recuperação muito rápida e de como repensou todo o modo de vida que agora busca, ser feliz consigo mesma e fazer o que quer em harmonia com o mundo interior e o exterior.

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História completa

Esta história está disponível na íntegra através do Link

 

P/1 – Daniele, a gente queria começar nossa entrevista com você falando seu nome completo e data de nascimento.

 

R – Meu nome é Daniele Angeli Yokoyama, eu tenho 21 anos, nasci dia 23/06/1978, e aqui em São Paulo, capital mesmo. Imagino que tenha nascido na Zona Sul. Não lembro o hospital.

 

P/1 – E seus pais, quais são os nomes deles?

 

R – Minha mãe é Valéria Angeli Yokoyama, ela nasceu em Tupi Paulista, interior de São Paulo. E meu pai é Eurico Yokoyama, ele nasceu, esqueci agora o nome, Álvares Machado, também interior de São Paulo. Ele nasceu em 44 e minha mãe em 51.

 

P/1 – E você sabe a origem da sua família, do seu pai e da sua mãe?

 

R – Meu pai, ele é filho de japoneses, né, se eu não me engano os pais dele vieram do Japão, meus avós vieram do Japão, mas ele nasceu aqui no Brasil. Minha mãe... já o meu avô era descendente de italiano e minha avó filha de índios do Brasil, que a gente chama de bugre. E deve ter outra descendência por aí que eu não lembro direito, eu tenho parentes que já fizeram a árvore genealógica, só que eu não tive acesso. E então é isso, essa miscigenação.

 

P/1 – Você chegou a conviver com seus avós?

 

R – Olha, meus avós paternos eu tive muito pouco contato, né, assim, de distanciamento de famílias mesmo. Agora, meus avós maternos eu perdi muito cedo. Meu avô, me lembro dele quando eu tinha uns dois aninhos de idade, mas eu lembro de algumas cenas, minha avó já não me recordo. Minha mãe fala que eu sou muito parecida com ela, mas eu não lembro.

 

P/1 – E seus avós paternos ainda estão vivos?

 

R – Não, então, aí eles faleceram só que mais tarde. Minha avó faleceu eu deveria ter uns dois anos, meu avô morreu logo em seguida, deveria ter uns três e pouco. Aí, minha avó paterna morreu eu já tinha uns seis anos e meu avô eu acho que eu tinha uns oito... uns nove anos. Só que eu não os via, os vi muito pouco, né? Eu vi eu acho que talvez a mesma quantidade de vezes que eu devo ter visto os meus avós maternos, que, se eles fossem vivos com certeza eu visitaria com mais frequência.

 

P/1 – Eles não moravam aqui em São Paulo?

 

R – Não, Álvares Machado moravam os avós do meu... meus avós paternos. E em Paranavaí, foi a última vez que eu fui visitar o meu avô, materno que era no interior do Paraná, no Noroeste, assim.

 

P/1 – E você sabe de que região do Japão que seu avô era?

 

R – Olha, eu não sei. Assim, da família do meu pai eu sei muito pouco da história, eu não sei direito. Meu avô materno já contava uma história muito engraçada, que ninguém, eu, por exemplo, não sei se é verdade, né? Eu sei que teve uma tia minha que foi verificar se é verdade ou não, mas eu não me recordo o que ela disse, que nós somos descendentes do Príncipe Angeli, e o que fala isso é uma pinta que a gente tem aqui nas costas, né? Tem bastante Angeli em São Paulo mesmo, só que meu avô falou que era essa história, a gente nunca soube se era verdade ou não, se era justificativa para uma pinta que a gente tem nas costas que é do tamanho de uma verruga, talvez par gente nunca tirar, né? Mas é marca registrada, assim, todo mundo da família dele tem. E essa pinta, tem uma pinta aqui também que eu tenho, que é da família do meu pai, do da minha mãe, né, do meu avô.

 

P/1 – E de que região da Itália era a família dele, você sabe?

 

R – Então, aí meu avô Angeli, eu fiquei, acho que minha mãe me contou já, mas eu não me lembro também. Acho que era mais para o norte talvez, não sei.

 

P/1 – E voltando um pouquinho, assim, o seu pai, qual que é a atividade dele?

 

R – Meu pai ele é engenheiro civil. Ele trabalha para a Oxiteno e faz uns trabalhos acho que também para o Grupo Ultra, né? O escritório central é aqui na Brigadeiro Luiz Antônio, só que ele viaja muito. Agora ele deve estar em Camaçari, provavelmente ele fica lá até depois do aniversário dele que é dia 27 deste mês, e aí lá ele é responsável pela construção do pólo petroquímico, né? Então ele viaja bastante, dificilmente eu o vejo, entendeu?

 

P/1 – E a sua mãe?

 

R – Minha mãe é advogada só que ela não exerce a profissão. Ela se formou pela FMU [Centro Universitário das Faculdades Metropolitanas Unidas]. Se formou em 86, oitenta e...  não, 87. Acho que em 88 ela tirou a OAB [Ordem dos Advogados do Brasil] e se formou e exerceu até 95 mais ou menos a profissão, depois parou, né, devido também a problemas, assim, ela deu uma parada.

 

P/1 – E você tem irmãos?

 

R – Tenho, dois irmãos mais velhos e uma irmã mais nova. Minha irmã mais nova, ela é muito parecida comigo só que ela é mais clean. Eu tenho a aparência um pouco mais, assim, traços mais marcantes. Ela parece um anjinho. Loirinha, cabelo por aqui assim, agora deve estar repicado, faz também um tempo que eu não a vejo. E toda delicada, super responsável, um amor de pessoa, ela tem dezoito anos, e ela foi meu presente de aniversário quando eu tinha dois anos. Ela nasceu dia 25 de junho e eu no dia 23 de junho. Aí eu falando: “Mãe, cadê meu presente? Mãe, cadê meu presente”, aí minha mãe falou: “Olha, vem daqui a dois dias, você vai buscar lá no hospital”. Aí ficou essa brincadeira, até hoje eu falo que a minha irmã é minha, que eu posso fazer o que eu quiser com ela, né? No início teve até um fundo de verdade, que eu brincava como se ela fosse a minha boneca, né? Mas eu nunca deixei cair no chão pelo menos, quebrei um braço. (riso) Agora o meu irmão, o Márcio, ele é três anos mais velho que eu, ele nasceu 9 de março de 75, ele também é loiro, né, mas os traços mais nipônicos. E ele é um cara super legal, aquele cara que entende tudo, que, né, qualquer coisa que precisa consertar ele faz em um minuto, computador, línguas, tudo, só que é um insensível. (riso) Modo de dizer, estou brincando, isso vai ficar para a história, não posso brincar assim. (riso) Mas não, ele é mais durão, ele pegou umas características, eu acho, mais do meu pai. Com a namorada ele é um amor, mas assim, ele não consegue passar muito sentimentos. Talvez eu também não consiga muito, mas eu sou mais de conversar com todo mundo. E o meu irmão mais velho, Fábio, ele tem, ele nasceu em 71. Ele não tem traços nipônicos, ele é mais, puxou bem para a minha mãe mesmo. E aí ele já não faz nada, o Fábio. Ele está trabalhando, mas assim, ele ainda não tem metas traçadas na vida. Mas também é um cara assim, ele é o mais, eu acho que o coração mais aberto, perdoa tudo, entendeu? Perdoa não, ele nem percebe que as coisas aconteceram. Se alguém xingou ele, ele nunca vai perceber, ele é, eu acho, o tamanho dele, tem  1 metro e 96, o coração deve ser metade dele de tão enorme. Mas é um cara bem legal.

 

P/1 – E você não convive com sua irmã mais nova?

 

R – Então, o caso é assim. Meu pai, ele é separado da minha mãe, já faz bastante tempo, já faz dez anos, que a gente separou mesmo. E aí, minha irmã, aí, meu pai separou da minha mãe, meu pai ele mora aqui próximo a Bela Vista. Minha mãe já mora ali no Planalto Paulista, que é na Zona Sul de São Paulo, e eu moro na Zona Sul mais Oeste, aqui em Pinheiros. Estou morando aqui faz um ano e meio quase, e isso aí, o que acontece é assim. Minha mãe mora lá com esse meu irmão Márcio, que faz USP. Engenharia Química na USP. Então mora com a minha mãe ainda, está lá morando, acho que sai de casa só para casar. O mais velho é um vai e volta. Ele sai de casa, volta para casa, sai de casa, volta para casa, e assim vai indo. Minha irmã entrou na ESALQ [Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz], né? Agronomia na USP também, foi para Piracicaba fazer lá, que o campus é lá. Foi o começo desse ano. Está sendo um barato também, o primeiro semestre dela na faculdade inteira eu acompanhei. E assim, foram mais descobertas ainda na vida dela que é morar sozinha, longe da família sem precisar sair de casa mesmo. Eu já saí de casa por metas, ideais, coisas assim, e vim morar aqui em Pinheiros sozinha, mas sozinha assim, sem familiares, mas com um amigo e com uma amiga. Na verdade, a Cacau é que eu conhecia, ela fazia Psicologia comigo, mas não na minha sala. Ela fazia na sala de uma vizinha minha. E a gente se conheceu, e um dia ela comentou que a gente poderia morar junto. Eu falei: “É, pois é, ano que vem.”. Só que as coisas acontecem rápido demais, um dia, né, uma terça-feira, saí de casa com minhas malas e avisei para ela que eu ia morar com ela. Ela tinha acabado de mudar, aí foi quando eu conheci o primo dela, que mora com ela, que não foi uma mudança, assim, muito aceita de todas as partes. Porque foi uma invasão. Na verdade eu invadi o apartamento dele. (riso) E a Cacau não entendia que eu estava invadindo e achava que ele deveria me entender. (riso) E na verdade eu achava que cada um estava procurando seu canto, então foi bem complicado, mas a gente levou no bom humor. E as coisas foram acontecendo assim com o tempo, mas aí, eu me distanciei um pouco mais da minha família, aí comecei, talvez a me aproximar mais, mas por alguns outros motivos me distanciei bem mais. E agora, a última pessoa que eu vi acho que foi minha irmã, faz um mês e meio, final de julho, assim. A gente está em setembro. Minha mãe, a última vez que eu a vi foi começo de julho. E meus irmãos falei por telefone no dia do meu aniversário. Aí, meu pai eu já vejo mais assim, de vez em quando, quando ele vai levar vale refeição para mim. Que ele que me ajuda, né? Eu moro fora de casa, trabalho, mas ele precisa dar uma ajuda, que é para faculdade, essas coisas. E aí, ele também leva vale refeição para mim. Que meu almoço ele já acaba arcando. Aí, eu o vi, depois do Dia dos Pais, que eu não tinha o visto depois do Dia dos Pais, e antes do aniversário dele, que ainda vai ser. Passou lá na agência, deu os vales, né, aquele jeitão dele, que é um barato, que ele não fala comigo direito. (riso) “Rugbari.”, “Oi pai, tudo bem? Estava almoçando, né? Quer comer, estou comendo rúcula.” Aí, ele fala assim: “Não, não, estou indo viajar, estou indo para a Bahia, bom, estou indo viajar.”, “Para onde o senhor vai?”, “Ah, estou indo para a Bahia.” Eu falei: “Ah, tá, trabalho, né? Ah, o Dia dos Pais, vai passar aqui?”. Ele: “Não, não, vim só te trazer uns vales.” Aí me deu. Eu: “Ah! Feliz Dia dos Pais atrasado!”, né? Para dar um abraço nele. Ele disse assim: “Ah, tchau Daniele”. (riso) Andando assim pela rua. (riso) Aí, eu: “Tchau, pai.” Imagine a agência, a dona assim da agência que trabalha, olhando e falando: “Nossa, teu pai é rápido, ele não fica um minuto.” Quando ele vai na minha casa me visitar, o tempo de ele entrar, tomar um copo de água, usar o toalete e ir embora, acabou. Então, é mais ou menos assim, o meu relacionamento com a minha família.

 

P/1 – Ô Daniele, a gente depois vai continuar um pouco esse cotidiano seu, mas vamos retomar um pouquinho, a sua infância. Conta para gente um pouquinho, que bairros você morava aqui em São Paulo, com sua família. E como é que foi a sua infância, brincadeira de infância e tudo?

 

R – Minha infância foi... Assim, quando eu nasci, eu morava em uma casa ali perto da Chácara Flora, no Café Solúvel. Ali atrás daquele condomínio que chama Café Solúvel. Aí, eu morava ali e era uma casa, um pouco grande assim, digamos... é que grande, mas eram três andares, né? E morava, na época minha irmã ainda não existia. Então... eu nasci nessa casa, onde meu pai, ele já trabalhava, só que nessa época ele trabalhava para a Engin. Antiga Engin e passou para Oxiteno, e minha mãe trabalhava para prefeitura, acho que era isso. Eu lembro que pelo menos no início da minha infância, não quando eu nasci, quando eu nasci ela não trabalhava ainda, mas aí ela prestou um concurso, acho, e começou a trabalhar na prefeitura. Isso é resumindo um pouco dos meus zero aos dois anos, né, que não dá para falar muito do que aconteceu. (risos) Eu devia mamar bastante, eu sei que quando eu nasci, eu nasci com o olho muito azul e abri um olho assim: chorava, chorava, esse foi o dia do meu nascimento. Eu gritava e meus cabelos eram em pé assim, aquela cara, o olho bem puxado, minha mãe fala que o médico me assustou, por isso que meu cabelo espetou, né? E aí, abri só olho assim um pouquinho para falar: “Tudo bem estou viva, me tiraram do útero.” e meu olho era bem azul. Aí, depois, eu levei quase um mês para abrir o olho de novo. Aquela coisa, preguiça, só dormia e comia muito, né, fui das que mais mamei, assim. Meu parto foi fórceps também. Era para eu ter nascido de bumbum para lua. Minha mãe fala que isso tem alguma relação com o meu jeito de ser. Aí, então foi assim que eu nasci, era muito preguiçosa, na minha infância, comia muito. Aí, indo para os dois anos nasceu minha irmã. E aí, nessa casa que a gente morava ali na Chácara Flora era muito legal. Meu irmão já estudava, meus dois irmãos, eles estudavam no Doze de Outubro. E aí eu lembro que ia o ônibus escolar buscá-los, né, em casa. E eu lembro de trechos assim: o meu pai ia levando mamadeira para mim e eu descendo escondida arrastando minha irmã para gente tomar mamadeira lá em baixo, e a gente tinha passarinho na época, não, não tinha mais. Quando eu nasci ainda tinha passarinho, mas meu irmão colocou na máquina de lavar roupa para lavar o coitado e ele morreu, e aí o segundo passarinho ele fez a mesma coisa e minha mãe resolveu não dar o terceiro. E aí a gente também tinha lebre em casa só que um vizinho meu pulou o muro uma vez, quando a gente estava viajando, e comeu a nossa lebre que era o Davi e veio. E veio me contar ainda, foi mais engraçado. Aí, o que mais? Gatos, minha mãe não gosta de gatos, jamais gostou de gatos, mas foi uma época que a gente teve gatos, porque tinha um gato lindo que andava ali pela região e ele descobriu lá embaixo, no primeiro andar na lavanderia, um armário na área de serviço onde ele entrou e deu cria de muitos gatinhos lá dentro, acho que sete gatinhos. E minha mãe acabou deixando os gatinhos lá e foi a única época que foi permitido ter gatos em casa. Cachorro nessa época não tinha ainda, logo depois a gente comprou. E aí essa era a minha rotina. Comecei a tomar mamadeira escondido, mais porque minha irmã estava tomando, mas só um tempinho, né? Porque quando minha irmã nasceu eu nem mamava no peito mais, nem mamadeira, aí eu resolvi pegar no peito de novo, mas larguei rapidinho, não gostei. Aí desci, eu gostava de fazer guerrinha de pão de leite com minha irmã. Pegava o pão de leite, que é aquele pão maior, arrancava o miolo, fazia bolinha e tacava uma na outra. Ficava assim fazendo guerrinha de pão de leite. E essa foi a infância, né, o que eu fazia mais até os cinco anos. Aí aos quatro anos a gente se mudou ali para uma casa no bairro do Socorro, por ali. E continuou a mesma rotina só que como eu cresci um pouquinho mais, não tinha mais tanta paciência, então pegava roupa da minha mãe, bolsinha, passava batom e descia a rua, ia até o campinho de baixo, onde tinha um pessoalzinho jogando futebol, molecadinha na rua, olhava um pouquinho, subia e me dava por satisfeita. O que mais eu gostava de fazer? Brincava mais com meu irmão, porque quando eu nasci meu irmão se apegou muito a mim, o Márcio, e ele adorava o meu cabelo, ele dormia fazendo cafuné em mim. Então o que eu gostava de fazer era sair, com a minha irmã a gente já não gostava muito nessa época porque ela chorava muito, era muito pequena, menor que a gente, a gente já chorava bastante, imagina ela. Então eu gostava de descer a rua com o meu irmão, era uma ladeira enorme nessa casa do Socorro, e a gente descia a ladeira e andava por de baixo dos caminhões e eu podia andar em pezinha mesmo. Meu irmão tinha que abaixar um pouquinho e uma vez eu lembro muito bem dele perguntando: “Posso levantar a cabeça, acabou o caminhão?” e eu: “Pode.”, eu não tinha ainda essa noção de profundidade e eu estava do lado de fora do caminhão e aí nossa, ele levantou bateu: “Ai, ai.” e eu: “Ai, bateu, desculpa, vem cá”, e ele: “Está sangrando?”, e eu: “Não.” (riso) De repente começou a escorrer sangue no rosto dele, quer dizer, ele não tinha noção de nada do que era estar sangrando, ele: “Sobe correndo e avisa a mamãe, que eu rachei a cabeça.” E aí eu falei: “Tá bom”, mas até eu subir correndo ele já passou por mim, já chamou minha mãe sozinho, aí tomou vários pontos na cabeça. Mas antes disso teve uma cena muito engraçada, que aí eu não me lembro, que é entre os meus zero e dois anos: um primo meu foi visitar a gente, meu irmão mais velho falou: “Vamos levar a Dani para passear.”. Me colocaram no carrinho e saiu ele e meu primo e tinha uma ladeira perto dessa casa que eu nasci. Então o meu primo desceu e falou assim para o meu irmão: “Pode jogar o carrinho que eu seguro aqui.” Meu irmão na hora jogou o carrinho e vai que tá lá o meu primo esperando o carrinho, quando o carrinho passa direto, a Dani descendo rumo a Avenida Interlagos, quase para morrer e os dois correndo atrás: “Ai minha mãe vai me matar, minha tia vai me matar.” Aí um casal de velhinhos e um policial me salvaram antes de chegar na Avenida Interlagos. Aí meu irmão ficou de castigo. Castigo naquela época era bem interessante, minha mãe não punia, né, não pegou essa parte assim de educação de palmatória, de ajoelhar no milho, era ficar assim sem ver televisão, trancado no quarto. Aí o que ele fez, isso eu fiquei sabendo, ele não contou 

para minha mãe: ele levou uma lata de leite condensado, um pacote de bolacha para o quarto e ficou de castigo numa boa, né, ele que me contou essa história depois. Aí foi mais ou menos assim até os cinco anos era a mesma coisa, fazia jardim, comecei a estudar muito cedo com dois anos e meio para três anos. Fazia jardim numa escola, me dava bem com todas as crianças, mas nunca fui assim nessa fase de ficar no meio delas andando, conversando muito, aí mudei de colégio, estudava na Chave Mágica e tive que parar um ano porque eu tinha entrado muito cedo para entrar no pré. Foi quando a gente mudou de novo, dos cinco para os seis anos, para uma casa ali no bairro onde minha mãe mora até hoje, na Avenida Miruna, só que mais para o final da rua, né. Era uma casa que tinha um árvore bem frondosa no quintal de trás, tinha uma edícula, era bem gostosa aquela casa. Eu morei lá e foi quando eu comecei a fazer pré no Colégio Jabaquara e odiava ir para aquele colégio, adorava o caminho de ida que eu passava e comprava doce, um monte de coisa, mas não gostava muito de ir para lá. Aí minha irmã fez o jardim lá e todos os irmãos mudaram para esse colégio. E aí nessa época eu lembro que a gente ia muito ao “Nenê” fazer compras, que era uma mercearia que existe até hoje, cresceu um pouco, é um mercado maior, que fica ali na Rua Piratinins, né, bem próxima a Miruna. Aí a gente fazia compra lá e brincava mais na rua, eu tinha um patins da “Mulher Maravilha”, que eu achava um show, um escândalo, e andava correndo com esse patins. Minha mãe já fazia faculdade nessa época, já fazia Direito, só que nessa época meu pai e minha mãe já não se davam muito bem, meu pai, né, a bebida atrapalha muito, minha mãe sofreu muito também, com alguns traumas já formados e foi passando a ser um pouco mais difícil o relacionamento dentro da minha casa, mas até aí a minha infância foi muito legal, as brincadeiras, nunca fui muito de brincar assim de boneca, de “Barbie’s”, de coisa assim, mas tinha um tapete que a gente levava para fora de casa, colocava no chão, e caixas de brinquedo que a gente colocava e brincava de comidinha, de casinha, eu e minha irmã, e com os meus irmãos a gente brincava mais de correr na rua até que um dia eu pisei num prego. Foi um dia terrível, que o prego estava todo enferrujado e tinha que tomar a vacina anti-tétano, aquela coisa, mas fui e tomei direitinho porque quando eu era mais nova aconteceu uma coisa comigo de eu gostar de tomar injeção, que eu tive uma doença que eu não lembro o que foi que eu precisava tomar benzetacil acho que todo dia, ou quase todo dia, então eu descia na farmácia a noite, meu pai chegava do trabalho e me levava para farmácia, e tinha aquela máquina que você coloca moedinha e cai uma balinha e eu adorava brincar com aquilo. Então o cara da farmácia falava: “Se você tomar a injeção sem chorar - porque era um absurdo tomar benzetacil sem chorar - mas se você tomar sem chorar, eu te dou um pirulito ou uma balinha daquelas.” Lógico, meu pai sempre pagava, mas eu acreditava e não chorava, mas aí facilitou muito a minha vida e a de meus pais quando eu ficava doente. Aí eu brincava nesse dia, furei meu pé, e era mais brincar na rua, subir em árvore, eu tinha um cavalinho imaginário em cima da árvore e meu irmão tinha uma nuvenzinha imaginária que eram galhos da árvore. A gente brincava muito disso, minha mãe teve uma infância muito gostosa, ela passou isso para gente, então era brincar de pular mesmo, de dar cambalhota, de fazer malabarismo no varal até que uma vez eu caí e perdi os quatro dentes, né, de uma vez, esses dois de cima e os dois de baixo.

 

P/1 – Mas eram os dentes de leite?

 

R – Eram dentes de leite, ainda tinha cinco para seis anos. Fiquei banguelaça assim, tinha um cabelão comprido já, né, fio reto, sempre me desenvolvi muito rápido, organismo, né, poucas doenças, pouquíssimas, então a gente brincava muito disso, tinha stop que a gente começou a brincar, mas eu era muito pequena, e uma brincadeira que eu era proibida, né, meus irmãos sempre me expulsavam nessa hora, que é aquela que você coloca três nomes sei lá, de menino ou menina, três cidades que você gostaria de morar, se vai ter um, dois ou três filhos, rico, pobre ou milionário, eu não lembro como é que a gente fazia, e a data que vai casar no meio, né, e eles falavam que não, que aquele tipo de brincadeira eu não podia brincar, né, inocência, cabeça de criança, falar de casamento não pode e foi mais ou menos assim. Aí quando eu fiz sete anos a gente mudou para esse mesmo bairro, para umas quadras para lá para Avenida Guainumbis, 1290, e a gente mudou para lá e era uma casa também muito gostosa, tínhamos vizinhos assim, até hoje a dona Zuila lá, que olhando para casa ela é minha vizinha da esquerda e tinha o filho dela o Carlos, que tocava bateria, que eu achava o máximo, foi a época que eu quis tocar bateria e tinha a filha dela a Cláudia, e o vizinho do lado direito era o Rodrigo, né, que mora em Capivari, que os avós dele moravam lá. Na frente de casa morava a Paula e a Patrícia, que mudaram de lá pouco depois, mas era o pessoal que a gente mais brincava, e na esquina tinha o Marcos, que morou um ano lá, que era um carioca. O primeiro presente do dia dos namorados que eu ganhei foi dele, que foi quando eu tinha nove anos. O pai dele era diretor da Poligram, então ele veio com um monte de vinil, imagina, eu tinha nove anos e ele veio com o vinil do Topo Gigio, de samba, sambão mesmo, do Yngwie Malmsteen, que hoje eu adoro, mas na época eu nem conhecia, e eu adorava o disco porque era um dragão assim na capa e o Yngwie Malmsteen brigando com ele com uma guitarra. Ah, o que mais, deu uns CDs assim que não tinham muito a ver um com o outro, mas foi o primeiro presente que eu ganhei de dia dos namorados. E morei nessa casa dos sete aos dez, onze anos. Lá foi uma fase que brincava muito de correr na rua, de barra manteiga, “Lá em cima do piano tinha um copo de veneno” (canta), que bate na boca, nas mãos e saía correndo para rua, de bicicleta, gostava mesmo, brincava bastante, até os nove anos. A separação do meu pai, da minha mãe foi complicando um pouquinho mais, aí nessa época eu mudei para o Colégio dos Santos Anjos, onde fiz da primeira ao começo da quinta série, e era muito gostoso estudar lá, era um colégio de freiras, era aquela coisa: meia, saia de prega, tênis, e a gente sempre inventava aquelas modas, que imagina, ridículo, e hoje eu olho, eu entendo o que os pais falam que: “Imagina! Escrever em camiseta.”, hoje eu olho e acho horrível, não sei o que as crianças vêem nisso mas eu via, via muito. Gostava de escrever na camiseta, no fichário, no caderno e borrachinhas todas coloridas, papel de carta, tive essa fase, gostaria até de voltar hoje a colecionar papel de carta. E o que mais, meia, a gente enrolava a meia de um jeito que ficava horrível, né, pisava no tênis, tênis novinho levava para escola, tirava o cadarço e ia pisando nele, a saia dobrava, a blusa amarrava por dentro assim, eu sei que ficava horrível, é o cúmulo, a coisa mais horrível do mundo, ia para escola e achava lindo, mochila pichada, rasgada, cortada, imagina o pai, hoje eu sei, né, o que é comprar uma mochila para o filho, não que eu tenha filho, mas eu já trabalho, já tenho noção disso e acho engraçado porque sempre vai ser assim. E eu lembro uma vez, minha mãe sempre gostou de cortar meu cabelo mesmo não exercendo essa profissão e uma vez ela colocou meu cabelo todo para cima assim, cortou e soltou. Ficou como está até agora só que muito cheio aqui, fiquei parecendo dois tomates. Eu lembro que eu me recusava a ir para a escola nessa época, mas eu ia, não tinha problema nenhum, pois nesse colégio eu já gostava de estudar. Brincava muito de menina pega menino, no colégio, sempre me dei bem nas aulas de educação física.

 

P/1 – Essa brincadeira que você falou antes, “barra manteiga”, o que é isso?

 

R – Barra manteiga é o seguinte: vamos imaginar uma rua, só para saber que tem que ter um espaço entre as pessoas. Aí um grupo fica numa calçada e o outro grupo na outra. Não é bom fazer na calçada porque quando você descer você pode cair, há um perigo. Geralmente o que você faz na rua, você só divide os grupos, mas em fileiras. Aí todo mundo fica com a mão assim estendida. Aí é barra manteiga, tem até alguma coisa para falar, mas eu sei que vinha alguém, atravessava, né, correndo do outro grupo, estava todo mundo com o braço estendido, tinha que bater na mão, e na mão de quem batesse a pessoa tinha que sair correndo atrás de quem bateu, então voltava correndo até chegar no limite, na linha, passava, entrava, estava no seu grupo. Não podia queimar, queimar é quando a gente fala pisar na linha, né, entrar e pegar dentro, então isso é barra manteiga, pelo menos é como eu sempre brinquei, né. Menina pega menino é: separa grupo de meninas e meninos, e as meninas saem correndo atrás dos meninos, depois os meninos atrás das meninas. Detetive, que é uma coisa que a gente brincava, que era todo mundo em círculo e dava papelzinho. Havia um detetive e um assassino na história. Então dava papel de detetive para uma pessoa só, mas sorteado, e de assassino para outra e o resto eram todos vítimas. O assassino piscava para matar e o detetive tinha que descobrir quem era o assassino. Disso a gente brincava também. Do que mais a gente brincava? Mais brincadeira assim de corrida, tudo, esconde-esconde (PAUSA). A gente gostava assim de brincar, eu gostava pelo menos. Sempre fui uma boa aluna. Eu lembro que na primeira série eu tive uma decepção, sei que é decepção que marcou porque lembro até hoje. Que eu era aluna exemplar, tudo que a professora pedia eu dava na mão, não era aquela aluna chata que “ai professora.”, tudo professora, puxa saco, mas era assim, tinha tudo sempre muito organizado, e uma vez uma professora me pediu um livro, né, e eu fui dar esse livro para ela e nisso uma aluna foi mais rápida do que eu e deu o livro. Aquilo me magoou tanto por dentro; a professora: “Daniele – porque com criança o professor fala assim mesmo – você não se importa? Eu já peguei o livro da sua amiguinha.” Eu falei: “Lógico que não.”, mas por dentro eu sinto até hoje uma angústia que me deu, que me partiu o coração. Não sei se é porque eu não fui tão rápida na hora ou porque ela tinha pedido para mim, podia me esperar, né, não sei, mas me marcou bastante. Nessa época eu não fazia mais xixi na calça, há muito tempo. Acho que eu deixei de usar fralda muito cedo, sempre tive essa coisa de ir ao banheiro. Nessa época, na primeira série, eu lembro que muitos alunos faziam xixi na calça e era uma situação constrangedoríssima para os alunos, né, que era sair, contar para o professor e para sala, aquela época que todo mundo brinca e ri da tua cara. E nessa época, segunda série em diante, eu tinha uma amiga que eu gostava muito que era a Evelin. A Evelin era muito amiga da Priscila e eu também era muito amiga da Priscila e tinha o Flavinho também, o Flávio Rodrigues. E éramos todos muito amigos, e a Priscila acabou brigando com a Evelin, o Flávio gostava da Evelin, imagina, isso na primeira, segunda, terceira série, né? E o Flávio gostava da Evelin, só que na verdade, isso eu descobri depois, ele era... gostava da Priscila, só que nem ele sabia. E o Flávio era muito meu amigo, e aí, como a Evelin brigou com a Priscila, então o Flávio combinou com a gente que ninguém tinha que falar com a Priscila mais. E eu falava escondido com a Priscila e eu descobri depois que o Flávio também falava escondido com a Priscila. (riso) E a Evelin era mais minha amigona mesmo, e na terceira série eu passei assim por uma, em maio, né, desse ano, na terceira série, foi em 89, se eu não me engano. Eu passei assim, foi muito difícil, eu sofri muito, em 89... imagina. Em 89. Que a Evelin perdeu os pais, a tia, o irmão e a empregada eu acho... não, a empregada não estava. Acho que duas tias, o irmão e os pais em um acidente de carro. E ela ficou sozinha, né, porque a mãe dela arremessou a Evelin para fora do carro, por isso que ela se salvou. E ela ficou em coma no hospital mais de um mês, e foi assim, foi quando a gente descobriu, né, que o Flávio falava com a Priscila, foi uma fase assim que todo mundo sofreu muito. Na escola porque: “Poxa, a Evelin, imagina, nessa idade, sem pai, nem mãe, nem tios, nem ninguém.” Hoje ela está super bem, mora em Santos, parece. Super saudável, sem problema algum. Mas realmente é triste, até hoje, lógico, para ela não passou, entendeu? E foi assim, foi uma das coisas que mais me marcou. E nessa época eu andava muito com a Priscila, aí, comecei a andar mais com a Priscila. Priscila, assim, ela passava dias em casa, eu passava dias na casa dela. O Flávio também era um amigo, que quando eu estava doente, ele passava em casa, levava cachecol para mim. Então era assim que a gente mais se relacionava. Aí, tinham outros, lembro de outras pessoas, né, que andavam mais assim com a gente, mas não marcaram como... tanto é que lembro hoje, mas não fizeram tanta parte assim da minha vida.

 

P/1 – Esses são colegas de escola?

 

R – Colegas de escola. Colegas de rua foram aqueles que eu citei, mas quem eu andava mais era assim. Até a quarta série eu ia muito para a ruinha de baixo, né? “Mãe, eu vou dar uma volta no quarteirão.” Era o meu passeio, que eu levava cinco horas para fazer isso, eu e minha irmã. A gente pegava a bicicleta e ia correndo para rua de baixo. Na rua de baixo moravam, né, o Carlinhos, só que ele era mais velho, ele era anãozinho assim, mas mais velho. Tinha que andar mais com o meu irmão, assim, mas eu conhecia, e tinha quem? A Adriana, que morava na rua de baixo, que tinha dois irmãos, né, três ou quatro. Ela era já mais pobrezinha, né? Esse pessoal que eu descia para conversar, eles eram mais pobrezinhos, então eu levava meus brinquedos para eles, né? Minha bicicleta e tudo, e ficava feliz com eles brincando com aquilo. E de vez em quando eu descia para casa do Jairzinho do... Sabe, o Jair Rodrigues? Ele morava na frente do Colégio Santos Anjos, que era na esquina da minha casa. E eu descia lá porque eles tinham um carro que falava. Nossa, era um absurdo! Eu chegava na casa dele, né, “Oi, tal.” Ia brincar com a irmã do Jairzinho, ele nunca estava lá. Ou mesmo só para conversar com o motorista, né, deles, que tinha um furgão assim. Você entrava, você falava: “Bom dia.”, o furgão respondia. (riso) Não sei como é que era esse sistema, nunca perguntei, mas achava um barato. Ele levava a gente para dar volta, o carro conversava com a gente... uma diversão aquilo para mim. E descia, ia brincar lá, brincava de colher flores, né, coisas assim. Sempre gostei de crianças, mesmo sendo criança. Gostava muito de cuidar até, tipo assim, tinha cinco anos. Menino de dois, três anos, já gostava de cuidar. E aí, eu fiz até o começo da quinta série, no Santos Anjos. Foi a fase, né? Fiz minha primeira comunhão, fui batizada, né, fiz primeira comunhão. Até aí, minha família já estava muito, com muitos problemas assim, muito sérios. De separação, separação de bens, essa coisa material e quem vai, quem fica. Quem fica com a casa e quem fica com os filhos. E aí, minha mãe resolveu que a gente ia para o interior, meu pai não saberia onde estaríamos. E a gente ia ficar por lá e ela iria para Rondônia, trabalhar para o governo de Rondônia. Eu falei: “Ah, tudo bem, né?”. Fomos, e fomos morar na casa de um tio, que é o tio Vlade, que ensinou a gente a jogar truco. Um tio que eu adoro. Bom, o tio que eu mais gostava na minha infância. Hoje não tenho nenhum apego em relação à figura dele. Mas aí, eu ia... até essa época eu ainda o adorava e muito mais o filho dele. Que era o César, bem mais velho que o meu irmão mais velho, mas eu amava esse primo, falava: “Nossa, ele era tudo na minha vida!” Quando eu era pequenininha. E nessa época eu já tinha um pouquinho assim, de receio com ele, porque quando eu tinha nove anos, nove anos... Sete anos, foi a época que o Menudo estava parando de fazer sucesso no Brasil. Do Rick Martin que hoje está fazendo super sucesso, mas eu já era apaixonada por ele. E aí, meu primo estava me visitando, eu falei: “Olha, vou para escola, quando eu voltar você vai estar aqui, né?”, ele falou assim: “Não, Dani, eu preciso ir embora agora.”, eu falei: “Ah, poxa. Fica mais um dia, não custa nada. Não é nem um dia, é só me esperar voltar da escola.”, ele falou: “Não, não vai dar para eu estar aqui.”. E quando eu voltei tinha uma fita do Menudo e uma cartinha dele que eu tenho até hoje guardada. Uma florzinha, “para minha flor”, tal, “tive que ir...”. Isso aconteceu quando eu tinha sete anos. Então, quando eu mudei para lá com dez anos, né, eu fui fazendo birra. Eu mesma sabia que estava, só que, “ah, não vou dar muita atenção para o César.” E ele estava namorando na época, eu lembro que a namorada dele ficou até com ciúmes porque todo o mundo falava: “Poxa, a Dani é apaixonada pelo César.”. Mas imagine, uma criança, né? E ela não entendia aquilo, “Que amor é esse? Como é que ela gosta tanto do meu namorado?” Mas eu lembro até que uma vez, quando eu morava lá, sem meu pai, nem minha mãe. Que moravam meus irmãos e eu. E eu lembro assim, que a gente fazia era o seguinte. Eu estava na quinta série, fui estudar em um colégio de estado lá, que era o único que tinha vaga. Minha irmã também, só que eu estudava à tarde, minha irmã de manhã, que ginásio era só à tarde. E meus dois irmãos estudavam à noite, se eu não me engano é isso. E o Fábio foi trabalhar em uma pizzaria, é meu irmão mais velho. Fazer massa de pizza. Onde ele aprendeu e onde foi uma época assim, muito difícil que a gente comeu até pizza de arroz, nessa época. Não que faltasse o dinheiro a ponto de chegar nessa, né? Mas era uma época muito desorganizada, minha mãe não estava lá, o que ela mandava não dava. Meus tios não colaboravam em nada, ali do lado. Eu até preferia assim, eu fazia de tudo para não ir visitá-los, e era casa grudada. A casa era deles onde a gente estava morando. Mas era uma relação muito difícil com a minha tia. Meu tio já não era aquele tiozão que eu gostava tanto. E minha irmã, pobrezinha, mais uma vez muito novinha e eu já estava nessa coisa, aí, minha infância cortou. Nisso que a gente teve que tomar essas decisões, amadurecer muito mais rápido, aí, eu cortei minha infância. Parei de viver como criança, de brincar e minha vida ficou muito séria. Comecei a levar tudo muito a sério. E foi quando eu dei meu primeiro beijo. Foi muito engraçado e que foi, eu estudava, não era da minha sala. Era mais velho que eu e eu era novinha, né, tinha dez anos. Ele já tinha dezesseis, para fazer dezessete. E tinha a Claudia, que amava esse menino, que era o Reinaldo. E era uma morena, né, bem maior que eu, cabelo curtinho e mais assim, como é que... Hoje a gente fala, é legal até falar porque vai ficar para a história, é mano. Eu falo que esse é o estilo mano de ser. Que é o cara que vem assim, mais, ideias mais periféricas. Acaba sendo um pouco de pré-conceito, mas... vem assim, e fala, e mais o estilo rap. Como é que fala, não, é que, acha bonito falar “pobrema”. Fala: “Ah, aquele mano é forgado.”, entendeu? Ela era mais esse estilo mano de ser. E ela morava na COHAB. E eu, querendo ou não, assim, eu sempre fui muito simples, de conversar, eu sempre gostei de estar com essas pessoas até. Minha mãe ela me deu uma educação um pouquinho mais que o contrário. Tanto é que o jeito que eu estou sentada é mais da minha educação. Que minha mãe, ela falava assim: “Dani.”, só que eu sou muito diferente. Minha mãe queria que eu fosse uma menininha que sairia agora com o cabelo todo preso aqui para trás em um rabo-de-cavalo imenso. Brinco, brinquinho delicadinho, um vestidinho rosa, né, de alcinha com casaquinho assim, por cima. Isso na idade que eu estou, né? Porque se fosse mais nova era aquela coisa de dois rabinhos mesmo. E sentada assim: “Dani, uma mocinha senta assim, com o ombro ereto, ela cruza as pernas, coloca uma mão sobre a outra em cima dos joelhos.”, e assim: “E a mocinha ela não fala alto, Dani.” e: “Nunca entre em uma conversa. E passe sempre por trás.”. É aquela coisa, quer dizer, eram normas, regras assim, de etiquetas muito fortes que a minha mãe levava. Não que ela não deixasse a gente brincar e se sujar, e chupar manga de escorrer, mas falava: “Olha, a voz é macia, é suave, uma mocinha nunca grita.” né? Então tá, eu já sou mais histérica, de gritar, de rir, de expressar sentimentos mesmo e... onde é que eu estava?

 

P/1 – No rapaz do beijo.

 

R – Ah, é. Aí, nessa época, mesmo assim, mesmo gostando, né? Sempre gostei, fui mais desencanada. Sento na sarjeta e fico conversando com o mendigo horas. Isso hoje, até hoje eu sou assim. Só que sempre já, no sentido de vestimenta, né? Querendo ou não a gente acaba descriminando um pouquinho as pessoas, descriminando no sentido de separando. Então, ah, essa Claudia falava que eu era fresca, e que imagina e já não gostava de mim. Quando eu entrei na escola foi muito difícil essa aproximação, porque era um colégio de estado. Então, a maior parte das pessoas era mais ou menos como a Claudia. E eu... era muito bom... Português, não é que eu forço, eu sempre falei mais certinho mesmo. Então foi muito difícil. E aí eu conheci esse Reinaldo que era uma gracinha, super bonitinho. E um dia a gente estava sentado na pracinha que era atrás do colégio. E a Claudia era a ex-namorada dele, e ela não estava nesse dia. E então, que não sei o que, quem já beijou e quem não beijou, e quem já beijou e quem não beijou. Falaram: “Ah, Dani, você já beijou?”, eu falei, né, me sentindo assim, coagida no momento, falei: “É, já beijei já.”, “Imagina Dani, você tem dez anos. Você nunca beijou.”. Sempre andei com pessoas mais velhas, né, falei: “Como nunca beijei? Lógico que já beijei. Já tive namorados.”. E bati o pé naquilo, né? Aí falaram: “Ah é? Duvido.”, não, que não sei o quê, “Que você nunca beijou.”, “Eu já beijei.”, que não sei o quê. Aí o Reinaldo, né, virou, e ele gostava de mim na época. Aí falaram: “É, se você já beijou fica com o Rei”, eu falei: “Então tá”, e beijei o menino, mas morrendo de medo, suando frio. O pessoal cronometrou. Foi o beijo mais babado da minha vida, mais nojento (riso). Achei que durou mais de dois minutos. Aquela coisa de querer provar mesmo, que eu já beijei. Aí ele até fez um comentário depois: “Lógico que ela já beijou”, aí eu me senti super aliviada, né? Eu falei, “ai vai ficar.” Um dia alguém, se alguém vê essa minha entrevista vai me desmascarar. Mas... e falei, né, e bati o pé e foi aí que eu comecei a namorar o Reinaldo. E nessa época eu não tinha, eu já saía assim, tinha aqueles bailes em clubes, né, na cidade. Ou saía de vez em quando à noite, meus irmãos não me levavam muito nessa época. Mas sempre dava um jeito de ir, sair e sumir. Mesmo namorar à noite na pracinha, essa coisa. Como era cidade do interior, eu sempre morri de vontade de fazer e acabei fazendo. Saí escondida à noite, né, para voltar lá para umas dez e meia, onze horas, antes dos meus irmãos voltarem da escola, e saía para namorar, com o Rei. E nessa época tinha um pombal, é que eu lembrei, que gostava assim de mim. Ele sempre ia em casa. Ele foi contar para o meu irmão que eu estava namorando, porque ele ficou decepcionadíssimo, né? E minha irmã acabou descobrindo, porque nessas minhas saídas noturnas, né, escondida. E para tomar sorvete sumia e não levava a minha irmã, e minha irmã chorava, chamava o meu tio. Aí começou que eu era a garota-problema também na família. Mas... aí a Claudia acabou descobrindo, que eu estava namorando com o Rei. E começou a falar um monte. Falou que ia me bater, que ia me pegar e aquela coisa, que eu falei: “Gente, né? Não estou acostumada com isso.” Estava acostumada na escola, menina pega menina que saía briga, mas tal, mas não essa coisa, vou te pegar na saída. Eu falei: “Ai meu Deus, eu. Me pegar na saída...” Eu sempre fui grande, né? Sempre tive, em 91 que eu tinha treze anos eu já tinha essa estatura que eu tenho hoje. Altura, não, né, constituição física. Mas eu tenho 1,75. Com treze anos eu já tinha 1,73. E aí, sempre fui grande, né, aquela coisa, mas um pouco estabanada para estes movimentos, para eu ter que bater em alguém. Nunca tinha vivido isso. (riso) Meus irmãos, a gente não foi criado em um ambiente onde tinham essas brigas, sabe? De um puxar o cabelo do outro. Então a Claudia vai me pegar na saída, vai me pegar na saída. E eu já não queria mais namorar o Reinaldo, não queria. Eu já tinha descoberto outro menino que estudava na escola em outro período, que era o Cláudio, né? Que era uma gracinha, e também não queria, sabe? Imagina, eu vou brigar por causa de homem? Na minha cabeça eu já tinha isso formado. Falei: “Não vou, não quero.” e terminei com o Reinaldo. Só que a Claudia não se deu por satisfeita. E queria me pegar na saída mesmo. (riso) E chamou, juntou toda aquela gangue, né, da escola, que ela tinha, que era uma coisa bem, né, assim de filme americano. A gangue do subúrbio que vai pegar a pobrezinha nova na cidade do interior. (riso) E foi o que aconteceu. Estou saindo da escola: “É, porque vamos para a pracinha...”, batendo, sabe quando vão batendo palmas, assim? Eu falei: “Ai, estou perdida, vou para a pracinha então, né...?” Ao mesmo tempo sempre teve essa coisa um pouco mais... como não tinha os meus pais eu tinha que resolver os meus problemas. Desde cedo eu também nunca fui de falar assim: “Ah, mãe, puxaram o meu cabelo na escola.” Então eu falei: “Vou ter que resolver e não vou fugir. Tenho que fazer com a cabeça em pé.” Como, eu não sei, né? Roxa, mas com a cabeça em pé. E fui para atrás da escola, embaixo daquelas árvores todas, em uma praça linda em Penápolis. E chegando lá, ela: “É, porque você pegou meu homem...” Imagina! Uma menina de dez, não, já tinha feito onze. Onze anos falando isso! Eu rodei, mas tudo bem, né? Falei: “Mas Claudia, olha, não sou nem eu que estou te dando de presente, entendeu? Ele que tem que saber com quem ele quer ficar. Mas eu estou falando, eu não quero mais. Desencana, que eu não estou no seu caminho, não estou mesmo. Fica tranquila” E não, porque: “Você está sim, porque não sei o quê. Porque eu vou te pegar, e vem cá, e vem não sei o que...” E isso ela foi me chutar, e todo o mundo: “Isso! É, vamos ver! Vamos ver quem vai ir...”, né? Aquela coisa... E a Claudia vinha, eu desviava. E nisso ela me chutou e chutou alto. Eu segurei o pé, para não pegar no meu rosto. Isso ela caiu, com o bumbum no chão e pá! Isso que ela caiu, eu falei: “Ai, estou perdida! Agora que ela me pega e me mata!” (riso) Ela do chão, aí levantou, deu a mão para mim. Foi uma coisa muito estranha, eu acho que já é por costume deles aquilo, né? Que deu a mão para mim, me cumprimentou e falou assim: “É, me dei por derrotada.” E todo o mundo: “Eeeee! Porque a Dani bateu na Claudia!” Porque a Claudia era aquela menina que ninguém mexia com ela. Eu falei: “Gente, eu não fiz nada.”, “É, Dani, quem ganhou a luta? Fala! O quê que você acha? Quem ganhou?” Parecia entrevista mesmo. Eu: “Gente, não foi luta, ninguém ganhou.” Mas não tinha como explicar... Passou o tempo, sei que nunca mais ela falou comigo também. Reinaldo ficou chateado comigo. Aí, eu fiquei muito pouco tempo lá, dois meses só. Aí, ia ter uma excursão para vir para o Playcenter, aqui em São Paulo. Eu falei: “Ah, eu vou, eu quero ir sim.”, né? E o Cláudio ia, esse menininho que eu gostava. Ele já tinha uns dezoito anos, tal. Eu achava ele o máximo, super bonitinho. Eu falei: “Eu vou, e ele vai...”, né? E a Maristela, minha vizinha da frente ia, também estudava, né, conhecia ele, eu conhecia... E a gente foi, eu vim. E acabei ficando com ele, dentro do ônibus, né? Vindo aqui para o Playcenter. E foi a segunda pessoa que eu fiquei. Foi, né, um pouco mais... foi diferente. Porque a relação que eu tinha com o Reinaldo era de namorinho mesmo. Então foi o primeiro fico da minha vida. Essa coisa de desapego total, né? Você não se relaciona com a pessoa, sempre diferente você fica, então, já foi um ótimo começo, né? (riso) Para lidar com o mundo de hoje como é que ele está. Não tive ilusão nenhuma. E aí, nesse final-de-semana eu voltei para Penápolis, né? Foi muito legal aqui, tal. Fui para Penápolis, minha mãe estava lá, falando: “Faça suas malas, estamos indo para São Paulo hoje.” Cheguei lá domingo de manhã, voltei, mudei para São Paulo no domingo à noite. Cheguei aqui segunda de manhã. E nunca mais vi ninguém de lá... e nunca mais voltei a Penápolis. Nessa época o meu irmão, meus dois irmãos continuaram lá, voltou eu e minha irmã. E a alimentação deles era a mesma, né? Pizza de arroz, pizza de atum, era o que eles inventaram. E quando eu estava lá, eu lembro muito bem que o meu irmão fazia um bife maravilhoso, o Márcio. Que ele comprava, falava: “Dani, vai lá e compra patinho.” né? Filé de patinho... só depois que eu mudei de lá que eu descobri que não era filé de pato. (riso) Que era uma parte do gado, do boi mesmo. Mas aí, comprava filés finos de patinho, ele batia com alho e sal, ou só com sal, e aquilo ficava maravilhoso. A gente comia, ele fazia uma super salada, um arroz maravilhoso. A gente comia aquilo e de sobremesa era muita paçoca, muito doce de leite, coisa assim...

 

P/1 – Deixa eu te perguntar uma coisa, essa época que vocês moravam lá sozinhos, sem os seus pais. Sem sua mãe, sem seu pai. Quem gerenciava a casa, quem decidia o que vocês iam comer, quem comprava...? Como é que funcionava isso?

 

R – Então, minha mãe, ela passou as primeiras instruções, visitava a gente uma vez por mês, tal. Porque ela estava se preparando para ir para Rondônia. Mas aí que veio a questão que eu falei, que meu irmão mais velho é uma pessoa muito difícil, mas nesse sentido de não ter metas. E ele por ser mais velho seria o responsável pela casa. Só que ele estava mais abalado acho do que qualquer um de casa, né, com a situação que tinha ocorrido. Então era meio difícil ele. E ele era mais porra-louca que eu. Eu, né, ficava em casa mais ainda, cozinhava, o Márcio também. E minha irmã era mais novinha, mas sempre foi muito caseira, né? O mais velho era mais... não dava para contar muito com ele. Nossa, graças a Deus, ajudou a gente para caramba. Não falando o contrário disso, mas ele não tinha essa estrutura mesmo. Então era assim, cada um por si, Deus por todos. Mas lógico, com bom senso, nunca faltava comida, nunca faltava isso e aquilo, tal. Tinha os meus tios, querendo ou não, que eram adultos do lado, então nada de ruim ia acontecer. O que eu ia começar a contar do César, que ele... eu tive uma diarreia lá. Imagine, eu estava sozinha em casa, eu e minha irmã e eu me desidratando, no banheiro, suando, já não tinha mais o que ir. Eu estava falando: “Gente, o meu cérebro vai, né, ser... descarga abaixo mesmo.” E estava mal, pressão baixa, falei: “Não dá para aguentar.” Foi ficando aquela coisa, não tinha quem chamar, e meus irmãos não estavam em casa. Graças a Deus, sempre havia um adulto ao lado. O César passou para visitar a gente esse dia e me encontrou lá. Ele olhou para mim, ele falou assim: “Dani, que olheira é essa? Que olho fundo é esse?”, eu no banheiro falei: “Estou mal, César.” Me levou em uma farmácia, soro, aquelas coisas, tal. Estava desidratada mesmo. Estava anêmica. Porque aí que veio a questão, por mais que nunca faltava nada, não tinha coisas de muito valor nutritivo. Era mais besteira, então, estava anêmica. E nessa época eu já havia menstruado. Foi muito engraçado que eu menstruei também muito nova. Eu menstruei assim, lá para os... nove para dez anos. Nessa época, por não comer muito e a minha menstruação ser muito desregulada, ajudou na anemia, que era muitas vezes por mês, muito tempo por mês. Então aí que o César começou a descobrir um pouco tal, mas isso ele não sabia. E logo depois, com essa estrutura que a casa teve, tal, minha mãe falou: “Não, volta, que São Paulo vocês vão ficar mais dois meses em São Paulo e depois vocês vão morar no Paraná.” Mas ele não avisou isso antes, ela falou: “Volta para São Paulo.” Voltei, para matricular escola nenhuma também não dava, teve que ser no colégio do governo, o Borjão. João Carlos da Silva Borges. Fica ali na, onde termina a Moreira Guimarães, vai começar a Washington Luís, mas na Bandeirantes, ali próximo aquela ponte. Estudei lá, e nessa época foi a época assim, que eu conheci mais o cigarro. É, cigarro. Já conhecia, mas eu não fumava assim sempre. Aí comecei a sair mais para danceteria. Muito nova, mas para mim já, aquilo já cabia na minha vida. Então eu ia mais para danceteria e conversar mais sobre, né, homens, e também... Infância aí, já não existia mais infância. Já estava na adolescência mesmo. E aí eu estudava lá, terminei a quinta série lá. E nessa época eu tive um namoradinho, o João, tal. Até os primeiros dá para contar, depois aí, não dá mais. (riso) Porque a gente perde um pouco o rumo. Mas aí, foi o João. Depois acabei brigando, sempre tem essas brigas, né? Quando a gente é mais nova. Que a Janaína gostava do João. Quando eu fiquei com o João, ela ficou brava comigo, aquela coisa, mas eu sempre levei isso numa boa, né? Aí, foi uma época assim muito legal, assim mais no sentido de estar convivendo com pessoas, né, com adolescentes mesmo, com conflitos, os mesmos que os seus. Anseios, desejos e vai e... época que a gente está mais... meu irmão sempre foi o bambambam da escola. Aquele cara que: “Nossa!”, é o Márcio. E subia naquele poste, não sei quantos metros, e buscava a bola no telhado, e jogava muito bem todos os esportes, então ele fazia parte daquele, da elite assim, do colégio. Então eu sempre estava sempre também nesse meio, né, dos meninos mais bambambans... então nunca tive essa coisa também de querer estar. E foi uma fase tranquila para mim, só que aí começa, né, onde começa muita coisa que eu sinto muita falta hoje. Que foi quando eu fui para o Paraná. Aí meu irmão voltou, meus irmãos voltaram, minha mãe falou: “Olha, vamos passar as férias em Paranavaí.” A gente passou. E até aí, já tinham muito a visão que eu era a ovelha negra da família. Por nada, eu não tinha feito nada para ter esse rótulo. O Fábio tinha por ser o mais desleixado assim, tá, mas focaram mais em mim. Que era muito nova ainda, né, para ser a ovelha negra da família. E aí fui passar as férias lá, conheci meus primos, tal que não sei o quê... e fui em algumas festas. Meu irmão já conheceu a Georgia, que apresentou para a gente o Wesley, não, aí que apresentou para a gente o pessoal. Aí eu fui em uma festa que eu vi um rapaz, né, o Wesley. E vi, e achei, né, bonitinho, tal, interessante. Só que foi uma época assim, que ainda estava tudo muito conturbado. Tanto é que a gente foi para o Paraná sem o meu pai estar sabendo que... foi fuga. Sempre era fugindo, vai para aquele canto, tal. Então eu precisava me apegar em alguma coisa. Ter algum problema que não fosse de adulto, entendeu? Então, nem vi esse Wesley, isso lá no Paraná, e falei: “Olha, estou apaixonada por um rapaz daqui que chama Wesley.” e nisso, minha mãe falou que a gente ia mudar para lá. Falei: “Meu, que barato, tal, que não sei o quê.” E já avisei essa Georgia que, nossa! Adorava o Wesley, que o Wesley era o rapaz da minha vida, que não sei o quê. E está bom. Mudei. Eu mudei para a casa de uma tia, tia Enir. Meu irmão para casa da tia Neusa, que tia Neusa desculpa se escutar um dia, mas é a mais fofoqueira da família, um caos aquilo, não dá, não tem como, tia Enir já é uma cricri também, mas tia Enir é mais assim, é Seicho-no-ie que ela gostava, então ela ia frequentar a Seicho-no-ie e eu ficava lá na minha e ela ia para cultos, essas coisa, não sei muito como fala, não vou falar, porque eu nunca me interessei muito. E minha irmã na casa da tia Marlene, que é a tia mais pomposa assim da família, que quer ser a mais riquinha, não, quem quer ser mais acho que é a tia Neusa, mas é que se mostra mais assim, e para minha irmã foi muito difícil, que ela tem dois filhos, né, o Deco e o Du, e a Suzi, que era mais velha, mas da idade do Márcio, o meu irmão. E minha irmã ela brincava de tudo, tinha eles para brincar, só que minha tia dava muito trabalho de casa para ela fazer. Então ajudar a cozinhar, ajudar na louça, ajudar nisso, e minha irmã tinha que ir para o curso de pintura, de piano, então era muito assim regradinho o dia da minha irmã, e minha irmã era aquela figura doce de pessoa, na opinião da minha família inteira sempre foi, aquela coisa que ai, muito fofinha, né, bonitinha, tal, e meu irmão foi para casa dessa tia fofoqueira e ele era o bambambam, então o Márcio podia fazer o que queria, não tinha importância, e eu fui para casa dessa tia cricri, e eu já não sou muito legal para dar satisfações, para contar muito de mim, né. Então começou uma fase meio difícil, mas tudo bem, pelo menos não tinham outras adolescentes lá morando comigo, mas tinham os netos dessa minha tia Enir, da minha idade, que eu saía de vez em quando. Saía com o meu irmão também, e foi a fase que eu comecei a sair bastante à noite, a gente começou a conhecer as cervejinhas, tal, coisas da vida, mas saía à noite mesmo, só que o interior é muito sexta, sábado e domingo, só, né. Tinha a danceteria Signus que eu ia já, e fui para essa cidade, comecei a estudar no Colégio Evolutivo, que é a mesma linha do Objetivo aqui e meu irmão no primeiro colegial, eu na sexta e minha irmã estudava à tarde. E eu morava num canto da cidade e minha irmã no outro, então eu atravessava a cidade inteira para ir buscá-la para às vezes sair com ela, né, aproveitava, para lá tinha que passar na frente da casa do meu irmão, então eu via o meu irmão, e com o meu irmão eu tive o meu complexo de Édipo, não com o meu pai, porque meu irmão era uma figura muito forte para mim (fim da fita 1) Foi assim um apego total e aí a gente saía muito a noite: “Ah, vamos lá no Frango Frito.”, Chicken-in, que a gente ia ou então no Dogão, não é Dogão, era um trailer que vendia cachorro quente ali mais perto da casa da minha irmã, ia saindo assim com muitos amigos e aí comecei a namorar com o Paulo, que era de São Paulo também, e deu um bafafá por isso, né, porque quando a gente vai para o interior geralmente a gente é de São Paulo, tem um foco um pouquinho maior, ele também era, então as fofocas geraram assim aos montes e aí eu sei que a gente acabou terminando. E eu nessa época ainda estava encanada que eu gostava do Wesley, então terminei com o Paulo falando que eu gostava do Wesley, e o Wesley quando ficou sabendo que eu terminei com o Paulo, muito feliz da vida, foi falar com o meu irmão, o Wesley era amigo do meu irmão e o meu irmão já não falava mais com o Paulo porque, assim que eu mudei, o Paulo e meu irmão gostavam da Georgia e eles começaram a disputar. Uma vez eles fizeram uma aposta boba de tampinha de refrigerante: “Ah, aposto tantas tampinhas de Coca-Cola que eu fico com a Georgia primeiro.”, e o Paulo sacana foi lá e contou para Georgia que meu irmão tinha feito isso. A Georgia ficou puta da vida e falou: “Nossa! Impossível o Márcio ter feito isso.”, e começou a namorar o Paulo Paim e aí comecei a namorar o Paulo, que era o Giraia, era o apelido dele lá. Aí o meu irmão começou a odiar o Paulo e queria que eu namorasse o Wesley. Então quando eu terminei com o Paulo foi aquela felicidade total. Eu comecei a namorar o Paulo por uma coisa interessante, foi o seguinte: Tinha uma rádio na cidade, a Rádio Cidade, né, e que todo domingo todo mundo escutava a rádio para escutar os recadinhos que um mandava para o outro e até hoje – outra confissão que eu vou fazer que nunca contei para ninguém, já contei assim, mas o pessoal de lá não sabe, que é seguinte:  mandaram recado para a rádio falando que dia 23 de junho seria, “Paulo, dia 23 de junho é o meu aniversário e o melhor presente que você poderia me dar é você mesmo. Um beijo, Dani, também de São Paulo.” Aí saí domingo à noite só que eu tinha esquecido que quem tinha mandado esse recado fui eu. Só que eu fiquei com tanto vergonha de ter mandado isso, acho o cúmulo da breguice, só que eu sempre tive vontade, falei “Ah, vou mandar uma, qualquer coisa.” e o Paulo era meu amigo aí “tá bom!”. Só que chegou a noite e eu cheguei na cidade e foi a coisa mais engraçada do mundo, que eu fui descendo a avenidona, né, principal da cidade e todo mundo: “Olha a Dani, que não sei o quê, tal, você ligou para rádio para falar do Paulo.”, aí eu me fiz de desentendida, falei: “O quê? Rádio? Paulo?”, “É, você quer ele de presente de aniversário, estou sabendo, a cidade inteira conhece você, o Paulo.” E eu roxa de vergonha e eu tinha saído com o Wesley, o meu irmão, com todo mundo descendo junto a rua. Ah, e eu estava namorando com o Célio nessa época, um pouco antes de namorar o Paulo, que era vizinho da minha tia e aí terminei com ele antes disso acontecer e aí foi que a cidade inteira falando, falando, aquilo para mim e o Célio me encontrou e falou: “É, agora eu sei por que a gente terminou”, e eu com aquela cara, eu falei, “gente juro, não fui eu, eu jamais faria isso, se eu quisesse mesmo eu falaria para ele.”, porque eu não queria mesmo: “Ai, agora, o que eu fiz?”, ando mais duas quadras, todo mundo me parando e meu irmão rindo da minha cara, falando: “Meu, quem será que mandou isso?”, “Pois é Márcio, quem será que mandou?”, aí dou de cara com o Paulo, aí eu olhei e fiquei com aquela cara: “E agora, o que eu faço?”, e ele: “Oi, e aí Dani?”, o Paulo sempre muito descolado, eu tinha onze para doze anos e ele tinha dezoito, e aí tal, falando, meu irmão olhou, já saiu meio de canto porque não conversava muito com ele e o Paulo era daquela turma que pichava muro na cidade também, então tinha mais receio ainda. Meu irmão sempre foi mais elitista nas amizades dele. E eu sempre andei com esse povo porra loca mesmo, não que eu fizesse, jamais gostei, mas tinha contato, então meu irmão saiu e me deixou sozinha com o Paulo e eu: “E agora, o que eu falo para ele?”, ele: “É Dani, foi você quem mandou mesmo? É serio o negócio?”, e eu falei: “Olha Paulo, sinceramente, não fui eu que mandou, não tinha porque ter mandado esse recado, qualquer coisa eu teria falado com você.”, e o Paulo era super gatinho, hoje ele tá casado e tal, tem uma loja acho que de enfeites para festa, embalagens, alguma coisa assim, e continua em Paranavaí e eu falei: “Não, não fui eu.” E ele: “Ah, puxa, não seria má ideia, o que você acha da gente tentar, e gente pode começar.”, eu falei: “Ah, não sei, tal.” Aí passou, eu não falei com ele, aí no dia do meu aniversário teve uma festa junina e eu o encontrei lá. Aí eu sei que a gente saiu, foi lá para trás das árvores e foi o meu presente de aniversário. Fiquei com ele e a gente começou a namorar. A cidade inteira ficou sabendo, lógico. Daí fiquei um tempo namorando, só que aí deu muito trabalho esse namoro, porque na escola eu já era uma pessoa assim muito visada, por ser nova na cidade, por ser irmã do Márcio que era o “bonzão” e eu era a “porra loca”. Então a dona Ilze, uma gordona assim, nossa, ela me odiava, meu Deus, ela queria me matar, porque o pessoal que pichava muro ia para porta da escola para falar comigo. Então eles ficavam na grade, eu ficava do lado de dentro, e a gente ficava conversando, e a dona Ilze achava aquilo um absurdo porque eles eram vândalos, marginais, né, e eles também faziam umas coisas que era entrar no cemitério à noite, né, então o pessoal da cidade não gostava muito disso, mas eles entravam fantasiados de fantasma, pegavam e quebravam vasos dos túmulos, só para parecer que era assombração mesmo que tinha lá. Meu irmão chegou a fazer muito isso. E aí, eles lá indo até a porta da escola para me ver e a dona Ilze odiava aquilo, e meu irmão tinha aula com o professor Eijo, que era diretor da escola, coordenador, que dava aula para mim também. Foi uma época que eu fui muito radical, de rasgar prova, de falar: “Ah, não quero fazer, entendeu, não vou fazer”, “ah, tem que fazer”, eu falava “Então tá, vou e faço, mas...”, sempre eu que queria saber o dia que eu ia fazer as coisas, né, não deixava, hoje eu sou mais flexível, mas eu nunca deixei muito as pessoas me dando muito data, horário, porque já que eu tinha que fazer tanto minha vida, então como é que as outras pessoas iam me cobrar coisas que eu poderia determinar o dia. Para mim eu acho que era meio assim que eu pensava. E aí continuou isso que eles iam na porta da escola e todo mundo vinha com aquela fofoca: “É, tal, não sei o quê”, termo muito usado no interior assim, eu acho feio, acho muito vulgar, mas quando alguém deu muito em cima do Paulo: “Ah, Dani, fulana de tal abriu as pernas para o Paulo”, eu falo: “Gente que coisa! Nossa, será que é com isso que eu quero competir, entendeu? Não dá.” (riso) Mas foi um namoro, durou um tempo assim, mais de um mês, mas todo mundo falando, falando, meu irmão falando, aquela coisa. Nessa época eu ainda me dava muito bem com o meu irmão, que me pegava no colo e todo dia a gente ia para cantina, comia um Diamante Negro, uma paçoca, né, conversava, tinha aquela coisa, meu irmão sempre foi muito amoroso de dar um bombom, um chocolate, uma flor para uma menina, e ele namorava também nessa época, não a Georgia - ele não chegou a namorar a Georgia - ele namorava a Andréa que tinha até ciúmes de mim, e no dia que eu terminei com o Paulo de tanto bafafá, aí ele estava jogando futebol no campinho e ia ter uma festa de quinze anos à noite e eu tinha que buscar minha roupa na costureira e a Bilu tinha que buscar a dela. E aí “vamos buscar, vamos passar no campinho onde o Paulo tá jogando”, aí eu falei: “Tá bom, né.” As duas de bicicleta, parei a minha bicicleta, sentei lá, aí Paulo estava jogando e aí eu falei: “Dá para você parar um pouquinho para conversar comigo.”, ele falou: “Agora, Dani?”, e eu falei: “É, acho que tem que ser agora”, não sei né, eu tenho surtos de vez em quando e eu virei para ele e falei que não dava mais, que estava sendo horrível aquela situação, que estava me fazendo mal e que não queria mais namorar, pois eu realmente gostava do Wesley e que eu queria ficar com o Wesley e que não ia mais ficar com ele, acabou! Subi na bicicleta com aquela cara de brava, lágrimas nos olhos daqui até aqui doendo, né, porque estava prendendo o choro e indo com a Bilu comprar a roupa e a Bilu querendo conversar e falar da roupa e eu só dando patada. Ela não entendendo por que, peguei a roupa com ela e voltamos assim e meu irmão estava na escola nesse dia, era um sábado, estava jogando vôlei lá, sei que eu larguei a bicicleta na frente da escola, entrei chorando, pulei no colo dele, ninguém entendendo nada, aí que a Bilu descobriu que eu tinha terminado com o Paulo. Aquela coisa: “Dani, mas você está chorando tanto, por que terminou? O que aconteceu?”, eu falei: “Eu não sei, não quero saber, mas falei, falei, agora não volto mais minha palavra. Vai ter que ser isso.” E realmente foi isso, terminei, só que a noite, né, para ir na festa, até desceu a menstruação para mim, eu sou assim, eu fico nervosa, aí desce, aí que eu descobri que eu tenho tensão pré-menstrual, é horrível, não falem comigo nesses dias que eu estou péssima, geralmente. Aí eu fui à noite para festa com o meu irmão, era longe, afastado, e cheguei na festa e a gente sentou e o Wesley foi com a gente e ele todo assim: “Oi Dani, não sei o quê, fiquei sabendo que você terminou com o Paulo”, ele é todo desse jeito, até hoje ele é assim, eu converso com ele e eu brava, furiosa, queria morrer naquele dia e ele lá me enchendo o saco: “Dani, não era o que você queria, olha ele aí, tá aí do teu lado”, e eu: “Não quero”, “Ai Dani, vamos dançar”, “Não! não quero”, “Ah Dani, você vai embora comigo”, “Não, não vou” e meu irmão: “Você vai embora com o Wesley”, “Gente, eu não vou, eu estou de saia e ele está de moto.” E meu irmão: “Você vai!”, e eu: “Eu vou com o Preto”, e ele: “Ah, com o Preto você não vai”, “Vou com o Ratinho”, “Não, com o Ratinho você não vai, você vai com o Wesley”, e eu falei: “Ah, tá bom, não vou discutir.”. E nisso, desde o começo da festa já me jogando para cima do (Wesley?) e eu: “Não aguento mais isso.”, aí eu olho naquelas janelinhas do buffet mexendo. Eu dei um berro: “Os meninos estão aí!”, porque eram esses meninos da cidade que andavam com o Paulo, que era a turminha que todo mundo gostava, mesmo as meninas que estavam debutando adoravam eles, mas eram os maus elementos, que não podiam ser convidados. Quando eu falei: “Olha os meninos”, todo mundo das mesas levantou e começaram a procurá-los. “Ah, Dani, onde você viu?”, e eu falei: “Eu tenho certeza, tão mexendo na janelinha do lado de fora, deve ser eles tentando ver.” Aí eles saíram correndo, realmente eram os meninos, só que eu não tive coragem de ir. Todo mundo: “Ah, é que eles não têm convite para entrar”, e eu falei “eu tenho na minha bolsa, eu não dei convite, se eles quiserem?”, aí ele falou assim: “O único que tem é o Paulo, ele tem o convite porque ele ia com você, só que ele falou que não vai entrar.” Eu falei: “Tudo bem, então tá.” Dei os convites, no final ninguém acabou entrando, aí eu fiquei super chateada e todo mundo: “Você não queria que ele viesse mesmo, foi por isso que você terminou, não foi?” Aí passou o tempo, sei que eu tive que voltar de moto com o Wesley, nossa, eu queria partir a cabeça dele no chão, eu queria que aquela moto caísse (risos). Porque eu de saia, aquele frio, estava garoando e meu irmão me obrigou a voltar com ele. E desde aquele dia, eu não queria namorar o Wesley, falei que precisava dar um tempo, tinha acabado de terminar com o Paulo e eu ia vir passar as férias em São Paulo, férias não, eu ia vir no final de julho para ficar o começo de agosto aqui, né, ia passar uns vinte dias aqui. Ia perder aula tudo, mas ia ficar um pouco com meu pai. E estava tendo uma gincana na cidade nessa época, estava todo mundo da cidade inteira participando da gincana, a Georgia inclusive, a Camila, irmã da Georgia ajudava a organizar e o pessoal que andava com elas era mais elite assim. Eu ficava com eles e com o resto e meu irmão ficava meio bravo com isso, ela falava: “Você precisa definir, se eu fosse você eu ficava mais com o pessoal aqui”, e eu falava: “Não dá, Márcio, eu gosto dessas coisas, de conversar com todo mundo, não tem como eu restringir”, e ele: “Ah, tá bom, só que eu adoraria você namorando o Wesley, tal, aquelas história”, e eu “Não, não vou”. Aí, nesse dia da gincana acabei indo com o Wesley vê como é que era. Eu sei que a gente andando, encontrei o Auro, que era irmão do Paulo, ele: “Oi, tudo bem?”, eu falei: “Estou indo para São Paulo hoje”, ele: “É, pois é. Meu irmão está mudando também para Luanda. Ele vai ficar lá. Vai começar a trabalhar lá, né, e hoje vai ser o último dia que você vai vê-lo aqui”, eu: “Ah, tudo bem.”. E foi, que continuei andado com o Wesley, a gente vai procurar uma sorveteria, que eu queria tomar um sorvete, encontrei o Paulo. Aí todos os meninos que estavam com ele: “É, conseguiu o que queria, né?”, me viram com o Wesley. E eu com aquela cara de “fudeu”. Não aconteceu nada, mas tudo bem, né? A cidade inteira já começa aquele buxixo. Aí encontro a Georgia: “É, estou sabendo, você e o Wesley...!”, eu falei assim: “Ai Gin, desencana que não é nada.” Eu sei que no caminho de volta para casa começamos a namorar, já. (riso) Aí: “Só que não conta para o meu irmão porque, sei lá, estou indo para São Paulo, deixe que eu conto depois.” Aí o meu irmão foi junto, a gente veio e ficou esses vinte dias em São Paulo. Só que no quarto, quinto dia eu já liguei para a Georgia para perguntar como é que estava lá, estava com saudades, aquelas coisas. Ela: “Meu, estou super feliz por você! Até que enfim você conseguiu tudo aquilo que você queria!”, né? Porque, para adolescente é tudo aquilo, é conseguir uma namoro, uma coisa assim. Eu falei: “É? O quê que eu queria tanto, né?”, sei lá, achei que era estar com o meu pai, né? “Não, é, o Wesley falou que vocês estão namorando, que vocês estão super bem”, e a gente não estava namorando, eu só tinha ficado com ele, né, foi isso. Eu falei: “O quê? Namorando?”, ela falou assim: “É. Vocês não estão namorando?”, eu falei: “Olha Gi, para você eu até conto, né? Mas não comenta com mais ninguém não que eu acho que vai ficar chato desmentir o rapaz, mas... (riso) Não tenho nado com ele.” Ela: “Imagine, ele contou para todo o mundo. Foi lá, assim que você foi viajar, tal, no dia seguinte o Paulo já estava sabendo que você está namorando.” E aquilo me apertando o coração. Falei: “Está bom, né? Estou namorando.” Cheguei em Paranavaí, eu nem sabia como é que eu ia me comportar como namorada. Ele foi me buscar na rodoviária, eu fiquei assim, ele carregando minhas malas, mas eu nem cumprimentei nem com beijo no rosto, nem com aperto de mão, nem nada. Falei: “Oi.” Aí meu irmão olhando para aquilo... meu irmão rindo da situação, né? Aí, no final, tudo bem, foi definido, estávamos namorando mesmo. Só que passou o tempo e a gente estava, a gente sempre fazia churrasco, festas, né? E a gente estava lá, tomando cerveja... a gente, né? Num churrascão, e eu escutando Legião... Essa foi uma época muito marcante, né, e eu gostava muito de Legião, e o que estava rolando era “Quatro Estações”, era o que havia de tudo para alguém na vida. E “Quatro Estações” rolando, a galera, né, churrasco. Aí, nos churrascos, misturava. Ia todo o mundo. Ia o Gé, a Jan, Gambá, Chicória... esse era o pessoal que o meu irmão não gostava muito, que eu andava. (riso) Dá até para entender pelos apelidos um pouco, mas... porque, a elite da cidade era mais chamada pelo sobrenome, né? Então, tá. E dava todo esse pessoal lá, e o Paulo geralmente ia nesses churrascos. Eu adorava, né, esses churrascos justamente por isso, que misturava todo o mundo. Então eu estava lá, sentada em uma bancada, né? Balançando os meus pés assim, com uma garrafa de cerveja, tomando no gargalo, né, e cantando que era preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã, né? E coisas assim... aí, nisso veio o Paulo, né, comigo e com uma garrafa de cerveja e começa, gruda do meu lado e começa a cantar. Nossa! Aquilo foi me doendo o coração, me doendo, me doendo. Aí começou a tocar já: “Me acostumei com a sua voz, com teu rosto e seu olhar...” Que eu amo essa música também. Aí começou, né, uma coisa... de repente eu olhei para o Paulo, nossa! Eu gritava de chorar. E o Wesley estava nesse mesmo churrasco que eu, só que ele tinha ido levar acho que o Ratinho embora... não, o Fred... não lembro quem, que estava passando mal de bêbado. E eu lá, que não sei o quê, cantando, de repente comecei a chorar. E o Paulo: “O quê que foi?”, né? (riso) e eu: “Não...” que não sei o quê, e chorava e chorava... Não, não foi isso que aconteceu. Aí ele assim, né, comigo pulando, aí ele virou e falou assim: “Ai, Dani, você está super feliz, né?”, eu falei: “Realmente, eu estou muito feliz”, ele: “Nossa! Mas, está valendo a pena, né, essa tua vida agora?”, eu falei: “Sempre vale”, aí, ele falou assim: “É, porque, espero que o Wesley esteja fazendo você feliz.” Aí eu parei, olhei e falei assim: “Realmente está, né?”, ele: “É, espero que ele esteja conseguindo fazer de você o que eu não consegui fazer.” Nossa! Aí que eu comecei a chorar, né? Foi por isso, que aí eu chorava e ele: “Dani, o quê que foi?”, porque ele tinha me feito feliz e eu não tinha conseguido mostrar e sei lá o que tinha acontecido dentro de mim naquele momento, que eu comecei a soluçar, soluçar, soluçar e ele: “O quê que foi?”, né? E eu: “Nossa!”, e me chegou o Wesley. E o Wesley chegou, viu aquilo... aí já saiu puto da vida, foi falar com o meu irmão: “Está vendo? Só vou levar tua irmã e ela fica com o Paulo!”, meu irmão: “Que ficar com o Paulo!  Minha irmã nunca..., imagine! Essa coisa de traição para ela, não é? Ela prefere virar e te falar: Olha, tchau e nunca. Ela fazer isso? Em um churrasco que você está, né?” Quando meu irmão viu que eu estava abraçada com o Paulo: “Canalha da minha irmã! Que cachorra!”, só que eu estava chorando, né? Por quê? Porque eu estava falando do Wesley. E assim, aí saindo com aquela cara toda amassada e ele vem: “Dani, calma. O teu namorado chegou.” Nisso que ele falou, a gente já, né? Tal. E ainda virei com aquela cara inchada, amassada, imagine, né? Chorar bebendo, você fica muito mais inchada. E nada, não adiantou, chegar com cara amassada, que o Wesley já estava com cara de bunda para mim mesmo. E eu falei assim: “Poxa vida, né?” E aí eu comecei a pensar que não, que eu não gostava do Wesley. (riso) Eu gostava do Paulo. (riso) Que foi todo o dilema dessa minha estada em Paranavaí, que foi um ano, que começou com o Wesley, mas eu achava que era o... que começou com o Paulo, mas eu achava que era o Wesley, foi para o Paulo e foi indo assim... Mas mesmo assim eu continuei ainda, achava que gostava muito do Wesley. Voltei para casa, ele foi um grosso comigo, um estúpido, né, virou a cara para mim e imagine...! Para mim, virar a cara assim para mim assim, sem motivo. Aí falei: “Quer saber? Não dá mais para continuar com ele assim.” Aguentei com ele mais duas semanas e falei assim: “Olha, Wesley, desculpa, mas não dá. Mesmo, não dá mais. Acho que não era bem isso que eu estava querendo...” ele: “Não, porque a gente não vai terminar...” que não sei o quê... Ele vai... Eu sei que o meu irmão, quando ficou sabendo que eu terminei com o Wesley, ele ao invés de me apoiar, ele brigou comigo. Foi a única vez que eu apanhei na vida. (riso) Meu irmão me desceu a mão na cara. Mas foi assim um tapa... mas teve outro motivo, que picharam um orelhão e falaram que eu sabia quem tinha sido. E meu irmão mesmo falou: “Vai perguntar para a Dani, que ela sabe quem foi. Foi esses maloqueiros amigos dela.” E a dona Ilze que me amava, é lógico... que queria me ver morta pelas costas, foi lá falar: “Ou você fala quem foi, ou você... ou você toma advertência”, sei lá o quê que era. Eu falei: “Eu tomo advertência, porque eu não sei quem foi e mesmo que eu soubesse não iria falar.” Só que nisso eu fui correndo para o orelhão e liguei para casa do Jair e do Gé e falei: “Vocês são foda, heim, cara? Mais uma vez vocês vão me complicar.” E meu irmão escutou: “Está vendo, dona Ilze, vem escutar. É ela. Eu falei que ela sabia quem era.” Eu falei: “Não acredito, eu não posso falar no orelhão? Vocês estão me vigiando...” que não sei o quê... começou a dar a maior briga. Sei que o Wesley entrou no meio, falou: “É, você quer defender aqueles caras...” bambambam. Aí eu sei que no final, meu irmão acabou me metendo a mão na cara porque eu tinha terminado com o Wesley por causa daqueles marginais, que não sei o quê. Eu olhei aquilo, só olhei assim, né? Não falei nada. Fui para casa com também aqui, né? Na garganta. Fui para casa, andando, minha irmã: “Dani, não fica assim”, eu falei assim: “Meu, acabou, morreu, né? Agora, sinto-me só.” Porque com meu irmão que eu tinha também essa coisa, né, de paizão. Então foi super duro, né, acreditar que o meu irmão tinha feito aquilo comigo. Mas levei numa boa, não contei para ninguém, né? Para minha tia, para o pai, nada assim. Foi passando o tempo. Aí, nessa época, eu queria mais é que o Wesley e o Paulo sumissem mesmo, e tinha o Marcel. O Marcel dos Reis Fernandes. Que ele já era mais velho. Tinha o quê? Dezenove anos. E meu irmão já achava que ele era muito metidinho, tal, mas era daquele pessoal que... sei lá, curtia mais esportes radicais da cidade e saía e não dava muita atenção, né, para eles. E eu já conversava até com esse pessoal, também. Aí, o Marcel, tudo que eu falava: “Ai Marcel...”, que não sei o quê, “eu queria tal coisa.”, ele fazia para mim. E era um momento que eu estava precisando mesmo. Então ele foi, assim sabe, um amor. E ele era lindo, só que ele tinha uma namorada. A Veridiana. Até hoje eles são noivos. E ela me odeia até hoje, né? Com motivos, com razões. (riso) Não diga que não tem. Aí eu sei que foi assim. Aí, eu desencanei, comecei, né, a me relacionar mais com esse pessoal nessa época. Aí, meu irmão, um dia, a gente estava na AABB, né, que é a Associação do Banco do Brasil, um clube. E estava todo o mundo na piscina e eu fui pular do trampolim... aí, quando eu caí, meu biquíni desarrumou assim, meu irmão veio, me ajudou a arrumar e fazia três meses, quase, que eu não falava com o meu irmão. Aí, foi quando a gente voltou a conversar. Mesmo andando com as mesmas pessoas, não é? Sempre, a gente ficava sem conversar. Voltou a conversar e foi aquela coisa demais, né? Super abraço e... aí, voltou. Só que nessa época eu já comecei a cuidar mais da minha irmã, conversar um pouquinho mais com ela. E eu sei que parou, acabou aí. Essas foram as minhas maiores vivências lá. Escola eu achava o ó. Odiava aquela escola. Assim, ficava lá em um... era mais festa, aquela escola para mim era um ponto de encontro. Ia lá, conversava com todo o mundo, só que nunca ficava mesmo com o pessoal da minha classe. Acabava ficando com o pessoal do segundo, terceiro colegial. Aí eu sei que passou, foi, chegou em dezembro desse ano. Aí acabei me despedindo de todo mundo e vim embora. Meu irmão veio logo depois, também, minha irmã veio comigo. E aí minha mãe decidiu que a gente ia passar o Natal e o Ano Novo em São Paulo, com meu pai, e que a gente ia morar em Rondônia. Aí, vamos à Rondônia, né? Só que aí, passar Natal e Ano Novo, ela já estava em Rondônia, aí, meu pai ficou super feliz que a gente voltou. Vi pouquíssimas vezes meu pai chorar na vida, né? Nos últimos anos foi com maior frequência. Assim, no início, minha mãe viu, que foi quando meu pai pediu para casar com ela, que minha mãe falou que não ia mais se casar com ele, aí ele chorou e minha mãe ouviu chorar e a segunda vez foi... Aí a primeira vez que eu vi o meu pai chorar foi dessa vez quando a gente sumiu, depois a gente voltou, e foi nessa despedida: “Ah, estou indo morar em Rondônia”, porque das outras vezes a gente não se despediu. Foi a primeira vez que eu vi o meu pai chorar, chorar não, meu pai nunca chorou assim de cair lágrimas na minha frente, mas lágrimas nos olhos. Antes disso a gente passou o natal e o ano novo aqui, né, minha mãe chegou, ela trouxe a ceia do avião, porque o vôo atrasou, tal, e nesse dia eu tinha arrumado um gato na rua, o gato era muito arisco, fugiu, eu estava toda arranhada, tal, e aí foi quando a gente se despediu do meu pai, falamos: “Estamos indo para Rondônia”, e fomos e fiquei lá só que aquele lugar é horrível. É um inferno morar em Porto Velho. Lá quando chove, cai uma gota no chão, mas já começa a evaporar de uma tal maneira que você não respira e não tem asfalto lá, não que eu goste do asfalto, mas é aquela terra descendo com esgoto do lado, é terrível aquele lugar. E minha mãe, por eu ser a mais negrinha (riso), a negrinha da família, resolve me colocar num colégio semi-interno de freiras. Nossa, aquilo foi o fim para mim, porque aquilo realmente era horrível. Eu já não respirava bem na cidade, que aquela cidade era suja, horrível, eu falei: “Olha, estou muito mal aqui, eu estou mal de saúde mesmo, eu preciso ir para São Paulo.” Foi quando eu voltei. Mas eu fiquei até o carnaval lá, fiquei dois meses lá. No carnaval vi gente esfaqueada, aquele lugar é horrível, nossa, naquele lugar você vê muita prostituição e tráfico, mas tudo muito envolvido, né, porque é fronteira, tal, contrabando e os políticos de lá, minha mãe estava no meio dessa politicagem. Lá é bem sujo, o ambiente mesmo. Aí eu voltei. Só que eu vim para cá, meu pai viajava muito e nessa casa da Miruna, que é uma casa da minha mãe e do meu pai mesmo, que a gente tem é uma casa pequena e meu pai viaja mais então eu ficava sozinha aí e meu irmão mais velho estava para dar baixa no exército. E eu sempre a mais louca, desligada, imagina, nunca vejo maldade nas coisas, assim que eu voltei fui visitar meu irmão no exército. Levei bombom e vinho e cerveja. Tudo numa sacolinha, o vinho embaixo do braço, uma sacolinha com cerveja e eu tomando uma cervejinha, acho que uma caixa de pizza e um pacote de bombom, tudo assim, né, na porta da PE [Polícia do Exército]: “Vim visitar o soldado Yokoyama.”, eles olhando, né, imagina entrar com bebida, aí eles: “Ah tá”, aí eu já entrei daquilo, mostrei para o meu irmão: “Você é louca, você me vem com isso aqui”, meu irmão passou um ano inteiro que ele estava lá detido porque ele só aprontou. Ele tinha coragem de sair à noite e mandar as contas das bebidas dele para a PE e o pessoal do bar sem malícia mandava, então você imagina o que não acontecia com ele. Aí foi aquilo, né, eu cheguei lá com o vinho e ele: “Nossa, só você mesmo”, escondeu, e eu tomando cerveja, não entendendo porque esconder tudo aquilo. Sei que eu voltei, meu irmão voltou para casa, foi morar comigo, tal, mas meu irmão também sempre na rua. E eu lembro que no dia que ele deu baixa no exército, eu não estava em casa e ele chegou com um monte de amigos dele. Os amigos dele estavam mexendo com todo mundo que passava na rua, né, aí eu estava passando, assim, e eles: “Oi gatinha, onde você mora?”, aí eu virei e falei: “Aqui, comecei a entrar”, aí eles: “Fábio, vem ver, tal, não sei o quê, tem uma menina entrando na tua casa, pan pan pan.”. Meu irmão quando olhou aquilo, imagina, meu irmão é um troglodita enorme, meu irmão: “Porra, vocês estão mexendo com a minha irmã.” Todo mundo: “Desculpa, tal, né”, aí foi meu irmão: “Eu nem sabia que você estava aqui em São Paulo, né”, eu falei: “Não, aquela vez que eu vim te visitar eu vim para ficar.” Então era assim, ninguém sabia da vida um do outro, né, só para você ver. Minha mãe não sabia com quem eu estava em casa, e foi a época em que eu comecei a fumar mesmo, né, com frequência.

 

P/1 – Você tinha quantos anos?

 

R – Eu já tinha doze para treze anos. Fumava assim, só que dois maços por dia, eu fumava muito. Eu ia para o meu quarto, o meu quarto era assim: era cama de casal, só que o resto tudo em volta de roupa porque eu jogava roupa no chão. Era a desorganização em pessoa. O espelho cheio de fotos, cheio de coisas escritas. Cinzeiros embaixo da cama, garrafas de vinho vazias e uva, os cabinhos da uva. Era o que eu ficava fazendo. Nunca dormia bem, sempre tive insônia. Talvez seja ansiedade, talvez não. Com um trabalho assim um pouquinho mais que eu fiz na minha vida, essa reflexão, autoconhecimento, eu sei que eu fui sempre muito ansiosa mesmo, então era a minha bengala. Roer unha, fumar, comer muito, quer dizer, tudo, né, que eu podia me apoiar eu me apoiava. Mas, né, para estar sozinha a gente, não sei, acho que foi a maneira que eu consegui adequar mais. Mas era aquilo. Eu fui estudar no Objetivo e o Objetivo foi o máximo nessa época que eu virei headbanger.

 

P/1 – O que é isso?

 

R – É cabeludo, heavy metal, metaleiro que fala, só que imagina, se alguém falasse: “Você é metaleiro.” (PAUSA)  Eu achava absurdo aquilo: “Que horror me chamar de metaleiro!”.

 

P/2 – Em que ano que era isso?

 

R – Em 91. E aí foi a época em que mais para o meio do ano começou a vir o Skid Row, o Extreme, Guns n’ Roses, Poison, as coisas que a gente julgava que era poser. Que falava: “Imagina, isso aí é som poser.” Então eu gostava de Iron Maiden, é... que mais? Black Sabbath eu curtia. Mais rock, rock progressivo, Heavy metal, só que isso estava muito punk também. E por mais que eu andasse com os cabeludos, que eu gostasse desse som dos cabeludos... dos headbangers, né? Eu andava mais com punk. Com punk... eu lembro, na época eu conhecia os punks tipo aquele A Irmandade, da Devastação, Punk Zona Sul, punk do centro, né? Andava mais com o pessoal, os punks da Devastação. Que eram da Devastação, mas estavam um pouco afastados, né, de lá. E é assim, eu comecei a andar com eles porque no escadão do Objetivo, era uma diversidade naquela época. Hoje eu passo lá, eu ainda vejo, mas não tão forte, tão acentuado, não sei se era porque eu estava envolvida naquele meio. Mas era assim: chegava no escadão... eu sempre comi demais, depois eu conto essa parte do comer demais, que é um barato. O quanto eu comi na minha vida. Mas, chegava lá no Objetivo, tal, subia e entrava na aula, matava aula, enfim... no final se reunia no escadão. Era, no canto de lá ficavam os góticos, mais embaixo os carecas, né, do ABC, os “machadinhos” que a gente falava, né? Mas aí tem o, nossa! Tem várias definições! É muito complicado, né? Quem vive no meio, até falar que são. Mas é mais ou menos assim: eram os góticos, os góticos são aqueles que grosso modo a gente fala que vão em cemitérios, que usam muito preto, que gostam de Sisters of Mercy. Isso é bem mais, né, a grosso modo. Tinha os carecas, lá embaixo, que eram aqueles caras nacionalistas, né? Tatuagem do Brasil no corpo, e coisa assim, culto ao corpo. Mas não é bem assim também, que não usam drogas, é uma farsa, é uma farsa. Aí, tinham os skatistas, os surfistas, aí, vêm os cabeludos, né, nosso pessoal, os hippies, então se dividia muito. E os punks, os punks ficaram mais assim, até que conheceram a gente. E até essa época, tinha muita discriminação, um batia com o outro. Era aquela coisa de se encontrar e sair na porrada. E eu não, sempre fui a mais, né, carregando uma cesta de flores e distribuindo por aí. Então, eu comecei a conversar lá com os góticos, e: “Vem sentar aqui com a gente.” Comecei a conversar com os surfistas: “Ô, senta aqui com a gente.” E com os punks: “Vem cá com a gente.” E as meninas mesmo que eu andava, tinham muito contato com os punks. Então, sei que no final, acabei andando mais com punk. Era aquela coisa de sair na rua, fumando um baseado na Paulista, e pedindo dinheiro para comprar bujão de gás. Era um barato, porque, imagine, eu não precisava disso. Só que eu estava lá com eles: “Vamos comprar o bujão de gás!” (palmas). E dava o dinheiro para eles. Só que quando a gente entrava no ônibus, eles... tinha que entrar por trás, né? De passar por debaixo da catraca. Eu falava: “Não!” De descer por trás, aliás. Eu falava: “Não, vocês vão pagar, porque...” Então, eles achavam tão estranho, porque eu tinha essa coisa, né: “Não, vamos entrar, vamos sentar lá no come...” Tenho dinheiro, pagava para eles todos, comia aquele PF, prato feito, né? E comia junto com eles, e depois ia lá, tomava uma cerveja com eles. Ajudava no, né, para arrecadar dinheiro para o bujão de gás, tudo bem, só que dava dinheiro para eles. A gente pegava ônibus, não deixava eles passarem por baixo. Só que a gente era daquele estilo que o pessoal atravessava a rua para não andar junto da gente. Eu sempre, né, de preto, rasgado, aquela coisa. E aí, andava muito com eles, e nessa época foi uma época em que eu não tinha mais onde recorrer. Foi... isso, tudo que eu estou falando é baseado no que eu sei hoje, né? Não na época, na época eu tinha outra visão das coisas. Talvez fosse interessante se eu falasse com a empolgação da época, com a visão da época. Seria assim a coisa mais hilária do mundo. Mas, e também, saía com essas meninas, que gostavam mais dos cabeludos, né, porque esteticamente a gente achava os cabeludos melhores, entendeu? Então, era aquela coisa dos cabeludos e: “Ah! você viu aquele cabeludo da 206? Meu, cara! Que não sei o quê. Olha o cabelo dele!” Era a meta. Era olhar para cabeludo. Os punks até brincavam: “É, são dos cabeludos que elas gostam mais.” E eu ficava mais com eles, ficava... que eu gostava muito era do Bulldog, que era um que tinha um moicano verde, que eu que furei a bochecha dele com um alfinete. Eu fiz coisas, baladas louquíssimas da vida. E levar larica para eles, uma caixa de bombom. Eu falei: “Não, não vou furar tua bochecha! Imagina, vamos na farmácia, né? Você faz dois furos como se fosse de brinco, aqui.” Chegou lá, o cara da farmácia falou: “Nunca que eu vou fazer isso!” (riso), “Ah, está bom. Então eu furo.” Aí, todo o mundo muito louco já: “Então dá para furar?”, “Dá.” Mas nessa época, no começo desse ano... olha como as datas são, né, na minha cabeça. Aí, comecei a andar com eles, tal, e tinha um vazio muito grande dentro de mim, né? Ficava assim, ah, não sei, mas estava vivendo bem. Conversava assim , tinha bastante grupos sociais, porque eu mudei muito, tal, sempre conheci muita gente, tinha facilidade de conversar. E no dia 14 de agosto de 91 estava eu andando, nessa hora no segundo andar, saltitante, né, como sempre, descendo, toda de preto, toda rasgada, com a Pati, uma amiga minha, com a Maria Naiara. Aí, a gente, hoje não tenho mais contato com nenhuma das duas, aí, a gente sempre descia pela primeira escada, aí eu falei assim: “Não, vamos pela última escada hoje?”, né, no Objetivo lá. Que era mais no fundo do outro corredor, passando o banheiro, né, tinha que andar mais. Aí elas: “Vamos, vamos”, eu falei: “Então tá, vamos.” Nisso vi um lixo assim, né, do lado, alguém agachado assim sentado e só um cabelo, muito comprido, um cabelo preto, liso, lindo. Na hora meu coração começou a disparar, eu comecei a tremer, eu tropecei e caí da escada e rolei pela escada e a Maiara, e a Maria virou e falou assim: “O quê que você tem?”, eu falei: “Nada”, e subi de novo a escada e virei. Aí vi que era um cara. Aí eu perguntei, né, como é que ele chamava, ele falou: “André”, eu falei assim: “Ah, você estuda aqui , né?”, ele: “Não, faço DP aqui toda quarta-feira. E você como se chama?”, “Daniele.”, “Ah, tá”, “Eu estudo aqui”, “Não, a gente se vê depois.” Nossa! Meu coração disparou. Era o príncipe dos meus sonhos. Era quem eu sempre imaginei. Quando minha mãe contava história para mim, quando eu era menor, o quê que eu fazia? Eu sempre visualizei as coisas. Então o castelo, para mim tinha o castelo, cada história era um castelo, mas o príncipe em todas as histórias era o mesmo. Era um cabeludo, né, moreno, nariz, traços fortes, né? Nariz grande, olhos cor de mel, uns cílios alongados, mãos esguias... toda a... tinha uma característica na minha cabeça. E, de repente, ele se materializou. Eu falei assim: “Gente, não é possível”, né? E caí da escada, e tremi e até chegar outra quarta-feira foi horrível, que eu tremia, tremia, precisava ver esse cara. E foi assim, desse dia em diante até 94 foi a minha sina. 94, é? Foi, não consegui ficar com mais ninguém. Não ficava com ninguém , só tinha olhos para ele, e o André era tudo na minha vida. E era mesmo porque eu tinha reações muito estranhas, estranhíssimas. Que era, ele chegava eu ria, chorava, tremia e arrancava o meu cabelo. De arrancar mesmo, de fazer assim: “Aaaaaahhhh!!!!” E de repente eu me acalmava e ia toda inchada lá: “Oi, tudo bem?” e eu sentava no escadão do lado dele e conversava com ele. E foi passando o tempo... e ele foi uma figura assim muito importante mesmo, da minha vida. Foi uma obsessão, aí que eu descobri que era obsessão, que até então eu achava que era paixão, né? Para mim tem definições diferentes, né? Amor, paixão, gostar. E a obsessão, no caso por ele, foi terrível porque eu fiquei assada aqui, embaixo do olho, de tanto chorar e fazer assim. Que mais? O cabelo todo quebrado, descabelada. E começou uma coisa muito maníaca depressiva em mim. A ansiedade que já era muito forte, em geral, aumentou. Era uma coisa de beber muito, de fumar demais, de enfim... Mas curtia, conseguia viver a vi... continuar a vida. E muitos shows e muita balada, e era Bixiga sempre. Foi muito legal essa época, só que eu era muito nova ainda. Só que eu já vivia como se eu tivesse idade suficiente para cuidar do meu nariz. E aí continuou indo assim, mas nunca fazendo nada que alguém pudesse falar: “Está vendo? Você errou.” Entendeu? Não, por exemplo: uma gravidez? Jamais! Nem em perder a virgindade eu pensava, por quê? Porque imagine se acontecesse alguma coisa comigo? “Ah! Está vendo? Porque você fez tudo errado.” Então aquele, esse medo foi o maior da minha vida inteira, de fazer tudo certinho. E das pessoas me respeitarem, do que eu gostava ou não. Então sempre tive muito em vista, em mente o que eu gosto e por que eu gosto daquilo. E o André era a mesma coisa, eu sabia porque eu gostava e precisava também, porque... aí tudo, tudo o que me acontecia era André. E aí foi, saí do Objetivo. E aí, antes disso, aconteceu uma coisa assim: que eu fui convidada para viajar, que a gente ia para São Vicente, tal, no apartamento de uma amiga minha, se ele queria ir. Ele falou: “Se der dou uma passada lá.” Eu falei: “Ah, está bom.” E nisso, uma amiga minha foi falar com ele. Agora eu esqueci o nome dela, minha amiga na época. E começou a conversar com ele, ele falou assim: “Olha meu, no começo eu até pensei em ficar com a Dani, tal. Não sei, ela não aparenta ter a idade que ela tem. Mas o meu medo é ficar com ela e depois ela se apegar mais. Na boa, eu acho que de repente pode acontecer de eu ficar, dar um pé na bunda e acabou. É só ficar mesmo. E para ela eu acho que isso é muito mais importante, de muito mais valor.” Uh! Aquilo meu coração se encheu de mais amor, né? O outro penetrou todo o meu ser e: “Poxa, que cara legal! Entendeu? Ele pensou em mim!” É lógico, talvez hoje eu veja assim, a maneira mais fácil de fugir também, sem magoar, né? De falar não, não vai dar. Mas para mim aquilo foi uma atitude, sabe? De homem mesmo. Homem no sentido de honra. Um cara que eu tinha que respeitar. Então, para mim, o André continua aquela figura. Até que a gente foi viajar, né? E ele foi e não encontrou a gente lá. Eu até vi um carro passando e falei assim: “Gente, parecia o André, né?”, todo o mundo: “Ah, meia noite e pouco, agora ele não vem mais, né?” E segundo ele, realmente ele tinha ido. E aí passou, né, e a gente lá, a gente colocou... foi um barato dessa vez que a gente foi. Que a gente tomou tantas multas nesse prédio que a gente ficou. Porque a gente escutava som alto, a gente ficava, né, colocava, pendurou uma faixa assim do lado de fora da janela. Fomos em seis meninas eu acho, seis ou sete meninas. E a gente colocou a faixa lá, “Procura-se homem...” não sei o quê, deu várias características, “Tratar aqui.” Então meu, e era na frente de uma estação de trem. E os caras ficavam olhando, queriam tocar no prédio, som alto, a gente tomou um monte de multa. E é lógico, a gente nunca atendeu um interfone de quem tocou lá. E só tirando sarro, e a noite a gente saía. Naquela época era assim: “Ah, pegar carona, tudo bem.”, né, pegar carona, passou: “Ah, dá uma carona? Dá?” Então tá, a gente pegou. E a gente passou assim indo de São Vicente para Santos, a gente passou na frente de um prédio e escutou uma música no primeiro andar. E nossa, era um som que a gente curtia. Estava tocando acho que Motorhead, alguma coisa do tipo. Não, acho que era uma coisa mais progressiva, menos punk. E a gente escutou aquilo, né: “Aaaaaaaaahhhhhhhh!!!!!!!”, começou a gritar na porta: “Meu é festa, tal!” E o porteiro do prédio olhando assim. Aí que saiu, saíram, vários cabeludos assim na sacada: “Ô, sobe aí, vamos tomar uma cerveja.” Então para gente a vida era assim, né? Era meio hippie, um jeito meio hippie de ser, vamos conversar todos, sentar aqui, não tem problema. E aí foi indo, até que eu descobri, logo depois o André começou a namorar, aí ele me contou... não, aí ele não queria me contar. Aí eu vi no show do The Cult com a namorada. E, nossa! O show do The Cult foi uma tortura para mim porque o vocalista do The Cult, esqueci o nome dele, é um cabeludo e lindíssimo o cabelo dele, tal, por aqui o cabelo. E lembrava muito o André, né? Não que lembrava tanto a aparência física, mas eu olhava para o palco e eu via o André. Então eu falava assim: “Gente, aquele não...” era no Ginásio do Ibirapuera, fechado, aquela coisa, e eu louca, olhava assim e eu via o André em todos os lados, porque só tem cabeludo nesses shows. (riso) Então passava um cabeludo eu via o André, o André. E foi aquilo terrível, o show inteiro, e no final do show realmente eu vi o André com a namorada dele. Até lembro hoje, ele estava com uma camiseta do Faith no More, e aquilo, nossa! Aquilo foi o que me pegou na veia. Porque uma semana antes a gente estava conversando e teve um show do Faith no More, e eu falei: “Não vou”, e ele: “Ah, eu também não gosto” e tal, que não sei o quê, “Não sei se eu vou, se eu não vou, mas eu não gosto de Faith no More” Para mim, sei lá, Faith no More era muito pop, entendeu? Era mais comercial, então eu achava, não gostava. E ele tinha mentido para mim! Poxa, como! Ele estava com uma camiseta do Faith no More! Ele não gosta de Faith no More! Então porque que ele usava aquilo. Aí eu chorava mais ainda. Sempre chorei, sempre fui uma banana na minha vida, de chorar muito, né? E a Fernanda que estava comigo, uma amiga minha, essa, nossa! Uma pessoa muito querida, não tenho mais contato, mas é demais ela. Ela: “Meu, não acredito, ele ficar assim!”, né? E aí a Pat, também uma pessoa muito querida, e eu: “Mas, meu, ele está com a camiseta do Faith no More”, que não sei o quê, “A namorada eu já até imaginava, mas isso eu não imaginava.” (riso) Então, para mim, eu tinha que desviar para alguma coisa. Aí foi, que passou um tempo. Aí só fui encontrá-lo no Hollywood Rock, no dia que estava tocando Skid Row, nem lembro mais o que tocou no dia. Aí eu o encontrei lá, aí ele veio falar comigo, só que ele estava tão assim, tão fácil, tão disponível aquele dia que eu saí andando por aí, eu falei: “Não, não precisa, não é assim.” Foi a última vez que eu vi. Que foi duas horas da manhã, né? Eu vi esse dia... mas a última vez que eu vi foi às duas horas da manhã, já era dia 18 de janeiro de 1992, 2h30, aliás. E depois não o vi mais. E aquilo ficou marcado para mim e continuou, a minha vida continua ainda... Aí eu saí do Objetivo, eu fui estudar no Colégio... eu estudava no Objetivo da Paulista, né? e fui estudar no Colégio Jabaquara. Colégio Jabaquara é ali na, perto da Avenida Ceci, no Planalto Paulista, onde minha mãe mora. E fui estudar lá, só que eu avisei: “Pai, eu não vou estudar esse ano. Pode trancar minha matrícula, porque nessa escola eu não estudo.”, “Ah, duvido.”, “Pai, é jogar o dinheiro fora. Não adianta, eu não vou. Vai estar pagando mensalidade eu não vou estar indo.” Resultado, eu tinha até notas na média, por volta de cinco, mas eu tive catorze presenças o ano inteiro. Ao todo, de presenças, são dois dias e meio de aula quase. (riso) Então, sem condições de passar, não havia mesmo. Mas tentei, falei para o meu pai: “Olha, tentei até gostar do colégio nesses catorze dias, nessas catorze aulas, mas impossível.” E tinha uma professora que chamava Rita, que era irritante, que fizemos passeata no colégio para tirarem essa professora. E meu irmão, eu, o Francis lideramos essa passeata, tanto é que ela me odiava. E até hoje ela não gosta muito de mim. Mas tudo bem, ela saiu do Colégio, e eu continuei na fase de André. Eu era chama... todo o mundo me conhecia no colégio como a punk, né? “Oi punk, e aí cara?” Meu apelido. E era um barato, que nessa época, olha o que eu fazia, eu estava na oitava série, eu levava cachimbo para escola, cigarro, que não sei o quê, deitava no pátio, podia estar frio, sol, qualquer coisa, deitava, ficava assim fumando... e todo o mundo ia conversar comigo. E todo o mundo do colégio achava meu jeito de ser meio louco, meio estranho, mas ninguém tinha nada contra. Nunca... Ia me preocupar se um dia fossem me julgar porque eu chutei um cachorro na rua, ou porque eu maltratei uma criança, alguma coisa assim, mas por isso eu não me importava. Então eu era conhecida como a punk. E meu irmão era o bambambam do colégio. Minha irmã a coisa mais meiga do colégio. E aquela era a família dos estranhos do colégio. E aí todo o mundo ia lá no pátio conversar comigo e tal. Aí dava dez horas eu ia embora para o bar do seu Nicola, né, que a gente chamava de point. E comecei a andar, nessa época tinha um pessoal, já era mais moda, né, esse tipo de som, então aí tinha um pessoal que era o Erick, as meninas, não é? A Monica. Tinha uma galerinha que curtia esse som, né? Que então saía mais comigo. Então a gente sempre ficava no bar, né? Aquela coisa...

 

P/1 – Mas que som que era esse?

 

R – Oi?

 

P/1, P/2 – Que som?

 

R – Som? Ah, o som. Mais, o rock mais pesado, né? Porque o resto curtia mais, estava na época mais dance, né? É aquela coisa até hoje, né, que tem. E meu irmão gostava, danceteria essas coisas e eu não batia. Meu negócio era bar, era Bixiga, era um violão e nada mais. Para mim um violão e está resolvida minha noite. Então a gente começou a andar mais juntos, ia sempre para o bar, para o seu Nicola, para o point, ficava lá até as seis da tarde. Não sei como eu descia aquela ladeira, chegava em casa assim, andando retinho. Chapada! Louca, louca! Chegava lá, tomava um banho, deitava, dormia e sei lá ou se eu saía de novo. E assim continua indo. Aí nessa fase ainda curtia o André, André, André, André, não vivia sem André. E André era tudo. Então era mais fácil viver também com esse André, qualquer coisa eu dava desculpa de André, então para mim estava fácil. Aí foi que terminou esse ano, não queria fazer nada mesmo, meu pai viu. Meu pai falou assim: “Olha, escolhe o colégio que você quiser, que você estudar. Não vou falar nada...”, eu falei: “Ô pai, não sei. Deixa que eu escolho.” E terminou o ano, e nesse ano eu fui expulsa, para variar, eu fui convidada a me retirar de todos os colégios que eu estudei. Não porque eu brigava lá dentro, porque eu, né, qualquer coisa. É porque eu nunca batia com a filosofia do colégio, eu sempre ia lá questionar o porquê que os alunos tinham que fazer isso. Então, qualquer problema que tinha, se faltava água no colégio, era correndo: “Cadê a Dani? Cadê a Dani? Chama a Dani que a gente fica sem aula. Porque ela por A mais B ela comprova que não pode ter aula sem água” Então era sempre assim. E foi nessa época que eu comecei a me distanciar mais do meu irmão, né? Que depois a gente tinha voltado, tal. Aí depois ele começou a ter a galera dele e eu a ter a minha, e ele viu que não dava mesmo, que não dava para bater comigo. Que ele tinha ficado fora nesse tempo, o ano anterior ele estava em Rondônia. Então, quando ele voltou, ele viu a Dani daquele jeito, ele falou: “Não dá. A Dani não vai dar mesmo.” E aí comecei a sair, muito desencanada, andava com o pessoal no meu bairro, tinha o pessoal da escola, tinha, né? E aí decidi onde eu ia estudar no domingo antes de voltarem as aulas. Meu pai: “Você é louca! Como é que você vai fazer?”, eu falei: “Olha pai, é o seguinte: eu vou ligar para um colégio que é aqui perto, eu nem sei onde que é. E se aceitarem que eu faça matrícula amanhã, perfeito, né?” Liguei, era um colégio super pequeno e não tinha oitava série no colégio. (riso) Eu estava na oitava, né? Tinha reprovado por falta. Aí, não tinha sala de oitava série, só que eles não me falaram por telefone. E tinha uma menina que queria fazer oitava série e tinham cortado ela da escola porque só ia ter ela na sala. Então o que falaram, ligaram para ela e falaram: “Olha, você pode vir estudar a partir de amanhã.” E para mim, meu pai foi no domingo lá, fez a matrícula e eu comecei a estudar com a Elisângela, uma gordinha assim, que samba muito bem, né? Hoje não mais, ela sofreu acidente. Então não faz... Não tem mais todo aquele molejo devido também à gordura, né, o peso. Mas a gente se dava muito bem porque era eu e ela na sala, e ela aquela pessoa que não fala, que é super tímida. E eu já era aquela pessoa que falava com todo o mundo, né? Imagine, no colégio não podia fumar. Primeiro dia de aula eu cheguei lá, fiz um pacto com a diretora que eu podia fumar lá embaixo, no parquinho. Acabou e... faltava professora eu que dava aula para as outras salas, né? Ai, tem coisas assim, que aconteceram nessa época que é de chorar de rir também para contar. Por exemplo: se o meu professor Dimas, dessa época, vier aqui nesse museu, eu acho que é o único meio de descobrir quem roubava os diários do colégio, de inglês. Porque eu era a aluna exemplar, eu podia tudo, tal, fazer tudo, e dava aula para as outras crianças... e na sexta série tinha o Ivan, Ivan Camaleonte Parrilha, acho que é esse o sobrenome dele. Que, nossa, eu conversava com ele, né, tipo super desencanada, assim, descolada também, mais velho do que eu. Eu tinha catorze anos na época, ele tinha dezesseis. E eu dava aula assim, para marmanjão, né? E ele ia reprovar em inglês. E eu, poxa, achava aquilo foda porque não adiantava forçar e reprovar aquele menino, ele e o Tiago da quinta, porque ia desestimulá-los e eles já não se importavam mesmo com estudo. Então ia ser uma punição muito grande. E nunca ninguém ia desconfiar de mim de roubar os diários de inglês. E ninguém mais tinha acesso à sala dos professores como eu. Ai, que terrível, isso me dói até hoje! Porque eu, um dia, na maior cara-de-pau peguei minha mochila, levei mochila esse dia para a escola. (riso) Entrei na sala dos professores, peguei todos os diários de inglês. Do pré, do jardim, que tinha inglês, até a oitava série, até o ano da minha sala. Coloquei na mochila, fui para a casa da Elisângela, a gente fez uma fogueira dos diários na porta. Só que, gente, foi horrível o que eu fiz. Porque o problema não é, sabe, queimar os diários, o trabalho que se tem de passar as notas. É o trabalho, a responsabilidade, o professor, e logo depois eu fiz magistério. Quer dizer, eu sei o quanto é difícil. Eu fiz a pior maldade do mundo para um professor. E esse professor, o Dimas, ele me adorava, sabe? Me tratava super bem e nunca desconfiou de mim. Tanto é que até hoje foi o Eduardo, que era um grandão que estudava lá, que era um caso sério aquele menino. Então falaram, como não podia provar que era ele, eles falaram que era ele, acabou. Chamaram a mãe dele, tudo, para conversar. E aí ficou, né, essa coisa assim, no meu coração, que nunca mais resolveu. O professor Dimas só vai saber disso, né, se ele ver essa entrevista também. Mas, e ele era ótimo, esse professor. Ele entrou para substituir outros professores de inglês que não aguentavam, que saíram do colégio porque não aguentavam os alunos, tal. E é um professor que realmente ele dava o curso de inglês dentro da escola. Era muito legal, cara muito gente boa. Nessa escola só tinha professores bons. A partir daí eu comecei a ter contato muito próximo com meus professores, né? Como duas alunas por classe, né, na minha classe... e um professor de matemática que me ensinou muito, muita coisa assim, no sentido que o casamento dele era um casamento onde se dividia tudo que se pagava, né? “Ah, hoje eu pago o aluguel, você paga o telefone, você paga a escola das crianças...” Cada um recebia o seu, tinha sua conta, tinha o seu carro. E daí começou a crescer muito em mim, né, coisas que eu levo hoje como, que eu tenho, puta... que eu acho que é o casamento, como daria certo, né? Sei lá, para mim, dois quartos são fundamentais e dois banheiros, né? E eu sei que veio dele também. Que ele me passou muita coisa. Aí, o que mais que foi... nessa época eu tinha um outro professor, que era o Antônio. Ah, esse professor é de chorar de rir! Ele pegava, era meio gordinho assim, tal, usava óculos, moreno, e ele falava com um biquinho assim. Eu e a Elisângela, a gente ria com ele porque, eu chegava... Eu não contei a parte de quanto eu como, né? Que eu queria contar. Mas aí, eu ia para a escola, isso foi a minha vida inteira, eu sempre tomei café da manhã em casa, mas forçado, porque eu não gosto de comer assim que eu acordo. Eu fumo e não como. Agora que eu estou voltando a ter esse hábito porque eu estou cuidando um pouquinho mais de mim. Mas aí, o quê que acontecia? Na época do Jabaquara e do Objetivo eu saía e tomava... Nossa! Café da manhã que tinha pizza, tinha sanduíche, tinha frutas, tinha salada de frutas, tinha refrigerante, tinha frios, tinha tudo, tudo! Meu pai, ele nunca soube, coitado, me educar direito. (riso) Ele virava e falava assim... duas horas da manhã eu falava: “Pai, quero comer melancia.” Meu pai saía e ia comprar melancia. Quer dizer, tadinho, ele tentava me mimar para tentar suprir, né, alguma coisa que ele não tivesse passando. E para mim, tanto fazia aquilo, se ele fosse buscar ou não. Melhor ainda se ele fosse, né? Mas por mim, não precisava ir. Aí o quê que o meu pai fazia? Ele sempre me deu muito dinheiro para ir para escola. Para pegar ônibus e tomar lanche. Então o quê que eu fazia? Comia em casa, passava na padaria, tomava um conhaque de manhã, né, para esquentar, alguma coisa assim. Aí, passava na padaria onde ele tinha conta, comprava tudo que eu via na frente: todos os Elma Chips da vida, croissants, amendoim japonês, refrigerante, tudo. Metia na bolsa e ia no ônibus comendo, comendo, tal. Chegava no Objetivo, eu já ia direto para a cantina, comia alguma coisa, tal, que não sei o quê. Comprava lá as coisas e levava tudo para sala. Então, de aula em aula, e no Objetivo é intervalo de aula em aula. Aí eu saía para a cantina para repor o meu estoque para já comer alguma coisa e no intervalo eu comia, descia lá na cantina de baixo para comer. Nunca fui obesa, não sei como. Mas eu descia lá na cantina de baixo, perto da quadra, comia um X-tudo, voltava com coisa para comer na classe. Eu sei que dava o horário do almoço, eu passava no McDonalds, eu comia, se dava tempo tomava uma cerveja, descia para almoçar com o meu pai ali na Avenida Brigadeiro, voltava e passava a tarde inteira tomando cerveja e comendo, beliscando coisa. Quer dizer, eu sempre comi muito na minha vida e nessa época a mesma coisa. Pegava, comia assim, né, em casa e depois saía, comia na rua e no Panamericano, onde eu estudava, eu conversava com a faxineira. Eles saíam, comiam, tal, e, assim que eu chegava no colégio, eles iam comprar 200 gramas de pão-de-queijo, 100 gramas de croissantzinho e refrigerante, um monte de coisa na padaria para mim. E aí eram dois alunos na classe e a gente montava uma ceia, todo dia isso. E ficava comendo, tendo aula com o pé para cima, o professor falando também comendo, quando a diretora entrava era de chorar de rir, porque ela vigiava a nossa classe porque ela sabia que a gente fazia isso. E falava, não pode deixar aluno fazer isso e realmente não pode, mas os professores falavam: “Tenta explicar para a Dani. Ela consegue te explicar que dá para comer na sala estudando.” Porque olha, a Elisângela, ela estudou a vida inteira lá e nunca aprendeu. Ela estava na oitava série, ela era um pouco que... Imagina não sabia escrever direito, ler. Todo mundo falou: “É o único jeito que a Elisângela está conseguindo estudar. Vocês passaram a Elisângela até hoje, sem ela ter condições, e ela está aqui, é a única maneira que ela está estudando, que ela está gostando, que ela está tendo estímulo.” Então nunca ninguém questionava, ficava lá com o pezão para cima fumando na classe, era um barato e tinha esse professor Antônio que ele também ajudou muito assim, explicou muita coisa na vida, mas mais no sentido de história, de gostar, sacar o seu ambiente, né, por que que a gente está aqui no mundo, da onde a gente veio, para onde a gente vai, e conversar, né, aí tinha o que mais? Outros professores que eram legais...

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