Busca avançada



Criar

História

Lutar é resistir

História de: Sônia Barbosa (Ara Mirim)
Autor: Raquel Barbosa
Publicado em: 22/10/2019

Sinopse

Sonia Barbosa (Ara Mirim), uma das lideranças indígenas da tribo Guarani Jaraguá, conta sobre suas origens Xucuru-Cariri, sobre seus pais e a infância em São Paulo onde se sentia deslocada e percebia o preconceito à sua volta. Um dia, uma amiga lhe levou para sua casa e, em uma conversa informal, ficou sabendo sobre Parelheiros e a comunidade indígena que ali habitava. "Quem sabe é seu povo?” Sônia não hesitou e foi assim que conheceu a comunidade Guarani e José Fernandes, pajé que lhe acolheu na época. Ela não esconde o respeito e o agradecimento que tem pelo povo que lhe abrigou, mesmo sendo de outra etnia, e que lhe abriu a oportunidade de conhecer a si mesma e a cultura indígena. Sua história segue pela luta, principalmente pela posse de terra, mas não só, Sônia expõe suas impressões em relação à escola indígena, a política, ao cotidiano da tribo, sua relação com dinheiro, com a cidade, além de expor as dificuldades enfrentadas, como ser ouvida no início de sua militância, em um ambiente onde as mulheres ainda buscavam seu espaço entre os homens, ou ainda sobre a constante ação para manter a cultura indígena viva, com seu modo de vida (“ñande reko”) presente, sem estereótipos do século XVI. Que a casa de reza, lugar sagrado, continue com seus rituais e com seu fogo vivo. E também ame mais. Tudo. Ame sua família. Ame o que há ao seu redor, ame. São as palavras de Sônia, Ara Mirim, que finalizam sua história.

Tags

História completa

Meu nome guarani é Ara Mirim, mas não sou do povo Guarani, eu sou Xukuru-Kariri. Eu nasci em São Paulo, mas minha mãe é lá do nordeste, do povo XuKuru-Kariri. Ela nasceu em 1939, e veio para cá muito pequena, chegou com cinco anos de idade. Minha mãe foi expulsa das terras de onde vivia, do povo Xukuru, havia muita briga com os grileiros, os famosos “donos de terra”, não é? Que não são donos de nada... O meu avô, pai dela, foi assassinado por um desses grileiros, então eles tiveram que partir, vir embora para cá, praticamente expulsos da terra. E desde então, ela viveu aqui em São Paulo, e eu nasci aqui, e conforme foi passando os anos, ouvindo as histórias de minha avó, ouvindo ela contar para as amigas o que ela tinha passado por lá, de que povo ela era, eu fui me descobrindo, quem eu era e que eu pertencia a um povo. Convivi com a minha avó até os 11 anos de idade. Ela fazia farinha de mandioca, fazia fubá... Eu cresci com muita mandioca, batata-doce, frutas, muito peixe - que ela gostava muito. Eu me recordo bastante dela fazendo uma bebida com a mandioca, com milho também; eu comia muito mingau... Como ela tinha plantação de milho, ela usava bastante esse recurso. Eu cresci assim, com esse tipo de alimentação, que não é diferente do povo Guarani e nem de outras populações indígenas... Hoje, os alimentos variam muito de um povo para o outro, mas a maioria se alimenta dessas mesmas coisas, o milho, a batata doce, mandioca, as frutas que crescem na mata, banana, muita laranja. Quando eu ficava doente, ela usava um remédio tradicional, do mato mesmo, e eu vivi sempre assim. Ela usava panela de barro que ela mesma fabricava. Eu mesma, conheci carne só depois, quase adulta. Eu nunca deixei de saber quem eu era, meu modo de vida nunca se perdeu. Mas foi com o povo Guarani que eu me reencontrei. Hoje, eu tenho um nome de batismo, Ara, e sou muito considerada pelo povo Guarani, para onde eu for, o povo Guarani sempre vai estar me apoiando, sempre vai estar me ajudando, e eles sabem da minha origem, eu nunca menti para eles, nunca falei "eu sou Guarani", não, nunca falei isso, eles me conhecem, me respeitam como uma liderança mesmo sabendo que eu sou de outro povo. O povo Guarani é muito sossegado, é um povo que vive mais da terra, que gosta de brincar, de conversar, de sorrir, de ficar na beira do fogo conversando ou fazendo alguma comida tradicional. Essa é a cultura. E desde que me reencontrei com os Guarani, eu me habituei a esse modo de vida, hoje eu vivo assim, não sei mais viver na cidade, perto de carro, de ônibus, trem... Eu nem sei mais andar de metrô. Quando eu caminho pela cidade, eu tenho que ir com alguém porque eu me perco, sabe? Já me perdi em São Paulo. A vivência dentro da aldeia, dentro da comunidade, é muito diferente da vivência lá fora. O modo de vida, viver dessa maneira, com essa cultura, nós chamamos de ñande reko. Esse é o nosso modo de vida, viver na casa de reza. A casa de reza é a parte mais fundamental da comunidade, sem a casa de reza a cultura morreria, então, ñande reko é viver dentro da casa de reza, usufruir o que há dentro dela, rezar, fazer os nossos rituais tradicionais, esse é o modo de vida, esse é o modo de vida que nos mantém vivos. A cidade pode trazer um prédio aqui na frente, a gente vai continuar vivendo no nosso modo de vida, não tem como mudar essa situação. É o que nos mantém fortes, a fala, o modo de vida. A fala também tem um papel muito importante, para não se deixar esquecer. As crianças nascem praticamente falando a língua guarani, a primeira língua é a língua guarani, não é a língua portuguesa. Os mais velhos têm a sabedoria e o entendimento de tudo, tudo, tudo do povo indígena, tudo o que vai acontecer no mundo, tudo o que já aconteceu, catástrofes, curas de doenças, a vivência do povo, como nós devemos agir, o que nós não devemos fazer, o que a gente deve saber, tudo, são os mais velhos que indicam para gente. Nós temos três rituais durante o ano, tem o do batismo da água, para nós, o nhemongarai, onde é dado o nome para as crianças; têm o batismo da erva-mate e tem o batismo do milho, que é uma tradição milenar, aliás, são todos rituais milenares Nossa vida é dentro da comunidade, nossa vida é vivendo como indígena, nossa vida é no sossego, no silêncio do mato, nossa vida é dentro da casa de reza fazendo nossos cantos, vivendo da cultura, das tradições que nunca foram perdidas. Muitas pessoas acham que isso não existe mais, mas estamos aqui, sobrevivendo, tentando se manter, essa é a nossa vida, não tem como mudar isso. Mesmo com a cidade encostando na comunidade, a gente se mantém aqui dentro, ainda forte, sabe? A cultura é muito forte, a cultura é muito viva, então é essa cultura que não nos deixa abater pelas coisas de fora. É necessário respeito. Mais proteção para os povos indígenas, não só aqui de São Paulo, mas do Brasil inteiro, é preciso respeitar o modo de vida dessas pessoas, respeitar os espaços onde elas estão, não entrar de qualquer jeito e achar que aquilo ali não é uma aldeia, que aquilo... Não, tem que respeitar. Olha, estou entrando numa aldeia indígena, vamos respeitar, vamos fazer silêncio, vamos procurar saber o que tem, olhar ao seu redor. Respeite a mata, respeite aquele espaço, respeite a casa de reza, o respeito é tudo. O respeito é tudo.i

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | portal@museudapessoa.net
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+