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Mãe sempre mãe

História de: Maria da Glória Botelho Schmidt
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 06/11/2013

Sinopse

Maria da Glória Botelho Schmidt nasceu em Barra do Piraí, no Rio de Janeiro. Em sua história de vida relembra uma infância vivida entre fazendas, brincava muito, adorava tomar sol e andar a cavalo. Desde de sua juventude as cartas marcam sua trajetória, quando seu primeiro namorado foi para o exército muitas correspondências foram trocadas, mas o namoro não sobreviveu a distância. Mudou-se para São Paulo com seu esposo, Ivan, no ano em que a Via Dutra foi inaugurada, 1950, mas logo foi morar em Santos. Aos 21 anos seu filho caçula decidiu ir à Alemanha para estudar e lá estruturou sua vida, com isso começa a história de troca de correspondências entre mãe e filho que dura até hoje. Com a morte de seu marido Maria da Glória decidiu mudar-se para o Lar Recanto Feliz da Sociedade Beneficente Alemã (SBA).

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História completa

Meu nome é Maria da Glória Botelho Schimidt, nasci em primeiro de fevereiro de 1924, em Barra do Piraí, Estado do Rio. Meu pai e chamava Francisco Xavier Botelho e minha mãe. Irene Pimenta Botelho. O meu avô Pimenta veio da Holanda e se estabeleceu em Juiz de Fora, conheceu a vovó Anita, mineira, se deram muito bem, tiveram oito filhos, foi uma família muito grande, eu tinha 15 primas quando eu era mocinha e era muito interessante na minha cidade. Papai estudou em Lavrinhas, num colégio de padres, fez o Ginásio lá, antigamente o Ginásio era o curso mais importante, o Superior era só para os ricos, muito ricos, que podiam ficar no Rio ou São Paulo, não havia escolas no interior. E depois ele, quando mudamos pra cidade por doença da mamãe, se atrapalhou bastante porque não havia emprego, não havia fábricas, nada, ele procurava um trabalho, foi difícil pra ele encontrar, até que veio trabalhar em Volta Redonda, em 1940 mais ou menos, mudamos pra lá em 1944. Eu ia visitar com as amiguinhas, os namorados, visitávamos o alto forno, subíamos naquelas coisas lá, em 1944. Mamãe ficou doente logo, foi para o hospital, ficou algum tempo hospitalizada, veio a falecer em 41, 1941. Eu fui uma criança muito feliz até os dez anos, na fazenda eu brincava muito, tomava muito sol, corria, andava a cavalo, eram duas famílias na fazenda, então eram muitas moças, muitas primas, tinha aquela vida de família, muitas coisas interessantes. Na inauguração da luz elétrica foi um banquete, uma festa muito bonita na fazenda, a fazenda era alugada, o meu tio alugou a fazenda e nós morávamos lá. Tive o meu primeiro namorado aos 15 anos, aquele amor de jovem. Depois não deu certo porque estávamos fazendo aqueles planos e alguém da família resolveu que ele tinha que entrar para o exército e ele então foi para o Norte, Fortaleza, e aí foi o começo do fim, pr causa da distância. Mas foram muitas cartas, muita coisa, ele foi muito correto, ele sentiu muito essa separação, eu não entendi bem o que aconteceu. Nas cartas ele procurava me alegrar, ele sabia que eu tinha ficado triste, e depois ele veio pra Porto Alegre, foi transferido pra Porto Alegre, passou os dias de férias na terra dele, o nosso namoro continuou, mas depois terminou. Até que conheci Ivan, o meu namorado, próximo namorado, essa noite também mudou tudo (risos). Foi passeando em uma praça, se chamava footing, as moças e os rapazes me apresentaram, começamos a nos olhar e a mocinha disse: “Ah, eu conheço esse moço, é o Professor Ivan”, ele tinha 20 ou 21 anos, mocinho: “É o Professor Ivan, ah, eu conheço”. Quando ele passou elas agarraram o Ivan e me apresentaram: “Ah, essa moça aqui está chegando” e começou aí (risos). Passamos a trocar correspondência, foi um ano, de vez em quando nos víamos, no mais era por correspondência e no fim do ano ficamos noivos, em dois anos nos casamos, em 48. Viemos para São Paulo em 1950, a Dutra não tinha nada, só a estrada, não tinha um posto de gasolina, não tinha nada. Moramos em apartamento alugado primeiro, não tínhamos muita coisa, fizemos uma pequena mudança e fomos comprando, tudo era uma festa, quando chegou a primeira geladeira era como se chegasse um helicóptero hoje (risos), geladeira, depois a máquina de lavar roupa, cada vez, quando terminava de pagar uma comprávamos a outra e assim foi indo. Até que eu não me conformava de pagar, a metade do ordenado era pra pagar o aluguel do apartamento, eu achava um absurdo, eu sempre fui muito econômica por natureza, então eu dizia para o Ivan: “Vamos comprar uma coisa, pagar aluguel é horrível” e ele também concordou. Começamos a procurar no jornal, olhamos e encontramos logo em Vila Mariana, no Lar Brasileiro, que tem até hoje lá, uma construção grande, antiga, não sei se vocês conhecem, então compramos ali o primeiro apartamento, Augusto, meu filho mais velho, começou no jardim da infância ali. Logo nós fomos para Santos, foi uma mudança muito boa porque só o mar valia tudo (risos), até com chuva nós íamos no mar, era uma coisa, um domingo com chuva, a gente saía, aos sábados, no domingo, então se estava serenando não tinha problema, todo mundo ia pro mar assim mesmo, era uma coisa, impressionante, cinco crianças, eram três do meu cunhado e os dois meus, e lá eles fizeram o primário, depois passaram ao ginásio. Em 1962, nasceu o meu caçula santista, aí a vida mudou também, foi mudando. Nossa última residência em Santos foi junto do aquário, lá então os filhos começaram a crescer, a casar, já os mais velhos, e o mais novo aos 21 anos estava aqui em São Paulo na faculdade. Os dois outros estudaram em Minas, foram quatro anos frequentando essa Fernão Dias aí, que era um horror, foi muito difícil, mas graças a Deus deu tudo certo, começaram a trabalhar, nunca ficaram desempregados, porque a eletrônica já estava no começo. E o meu filho veio pra São Paulo e descobriu essa facilidade de estudar na Alemanha, aí a vida mudou de novo, porque o caçula era nosso companheiro, ele trabalhava na Varig e estudava na Faculdade Metodista, ele estudou na Metodista, depois eu não me lembro bem se ele foi pra outra faculdade aqui em São Paulo. Então quando ele ficou de férias na Varig ele ganhou a passagem de prêmio, um bônus, e ele então resolveu que ia estudar alemão, e lá foi ele, eu não queria, ele era nosso xodozinho, mas foi a sorte dele. Já sabia o inglês, tinha um carrinho aqui, era sócio do Clube Internacional, era um clube melhor, tudo ele vendeu, fez o dinheiro, o pai também ajudou, precisava de muito dinheiro pra ficar lá fora, e fomos levar no aeroporto e por aí, depois de oito anos ele se casou, a vida foi mudando. No primeiro ano tirou o diploma de alemão, começou a trabalhar, estudava, trabalhava, ganhava muito bem, ficou animado, com uma bicicleta ele resolvia todos os problemas dele na cidade, havia muita facilidade, ele dizia: “Mamãe, é muito bom, eu vou voltar”, eu não queria que ele voltasse. Ele dizia: “Não, mamãe, é muito bom, lá eu tenho muita facilidade, em São Paulo é tudo muito complicado”, e oito anos depois ele se casou e disse: “Agora vocês tem que vir”, então fomos conhecer, fomos visitar, foi tudo muito bom, fomos quatro vezes, os netinhos foram chegando. No começo nós nos correspondíamos primeiro por carta, muita carta, era uma alegria, nós morávamos ainda no apartamento e o zelador enfiava a carta por debaixo da porta, ele sabia que eu estava esperando a carta, quando eu olhava a carta, que alegria. O carteiro sempre gritava: “Correio”, ele andava com uma bolsa com as cartas e ele chegava e gritava: “Correio”, quando eu olhava aquela carta vindo da Alemanha, querendo notícias dele... Foi também muito agradável, foi muito importante na minha vida. Até que começou a aparecer o Skype, aí ele deixou de escrever, porque isso é mais prático, então à noite, domingo falamos no Skype, eu ligo, ele liga, e tenho um bisneto agora aqui também, que gosta, sabe mais do que eu com seis anos (risos). Depois que o Ivan faleceu eu fiquei sozinha e foi ficando difícil pra mim, eu sozinha, eu não gosto de empregada, eu sempre procurei resolver meus problemas com faxineira, sempre tive faxineira e resolvia tudo. E os meninos preocupados comigo, o Augusto aqui mais perto, sempre me dando atenção, o de lá veio, ele sempre veio uma vez por ano ou então nós íamos, até que eu comecei a pensar em me mudar, eu não estava aguentando muito, era um apartamento grande, eu fui ficando mais velha, tudo vai ficando complicado. Eu comecei a pensar: “Eu não quero morar com filho porque não dá certo”, a gente, velho é velho (risos) e comecei a pensar, me mudar pra um apartamento menor não sei se vai resolver, tava achando dificuldade, estava com esse pensamento. Então a minha amiga veio morar aqui [Lar Recanto Feliz], uma amiga de Santos, por motivo de doença ela veio pra cá e nos falávamos de vez em quando pelo telefone e eu um dia falei pro meu filho: “Ah, eu gostaria de conhecer, parece um lugar muito bom, né”. Ele foi lá, chamamos o táxi, viemos de táxi, chegamos aqui, viemos conhecer, almoçamos e vimos tudo, tudo muito bonito, um dia de sol. Eu tenho um neto que está com 17 anos, Maximilian, tem a Ana Eliza está com 14, uma moça, e tem o Martim Alexandre, é filho do nosso filho que faleceu. E agora os bisnetos, um com seis anos e um com um ano que são umas gracinhas (risos), a gente se fala, se vê, ele passa e-mail pra mim no Facebook (risos), então a vida é cheia de surpresas, e a gente vai vivendo. Hoje o que me deixa mais feliz é a saúde da família, das crianças. Durante a minha vida toda eu tive que lutar, vamos dizer assim, a gente tem que lutar pra conseguir as coisas, não é fácil, lidamos com todo tipo de pessoas, de sentimentos, de educação, então a vida é difícil pra todos nós, cada um no seu métier, mas não é fácil, não é, temos que lutar.

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