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Maireny: Histórias de viver, ensinar e brincar

História de: Maireny Jundurian Corá
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 03/07/2019

Sinopse

Maireny - “ser mãe” no idioma armênio, de seu pai - Jundurian Corá nasceu em 28 de maio de 1951. Direta, alegre, brincalhona. Aliás, as lembranças da infância são de uma mãe séria e um pai brincalhão. E a vida dentro de casa, sempre num ambiente de brincar - inclusive entre os oito irmãos, sendo sete mulheres. E uma avó dentista que ia atender nas fazendas, de motocicleta possante. Maireny tornou-se professora - de Matemática - casou-se ao meio-dia, na catedral de Guaxupé, e foi dar aula em São Paulo. Dali foram para a Bahia, já com filhas, um lugar de paz, uma vilinha que era a cara deles. Lá abriram um bar, compraram fazenda e de lá o marido não se afastou: suas cinzas estão lá. Com os carneiros que ele deixou, ela aprendeu a fazer linguiça: a linguiça do Corá! Traz a lembrança de estarem sempre juntos, os quatro - ela, Corá e as meninas.

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História completa

Maireny Jundurian Corá, mineira de Guaxupé - esta sou eu, nascida num sábado, 28 de maio de 1951. Por isso, a minha mãe dizia que o sábado é o ‘dia do pedinte’: por toda a vida eu sempre pedi, tudo o que via, tudo o que me mostravam. Agora, bonito mesmo é o significado do meu nome no idioma natal do meu pai - o armênio: “ser mãe”. Mas quem levou a sério esse significado foi minha mãe: oito filhos, sete mulheres e um homem. E, coisa curiosa: por qualquer confusão lá em torno do idioma de papai, quando ele chegou ao Brasil, com quatro anos, ficou com o nome de… Simone. “Seu” Simone começou a vida como mascate; depois, como armênio que se preza, montou uma fábrica de calçados.

A minha avó (materna) era dentista prática e ia para as fazendas tratar de dente na Harley, linda, maravilhosa… Por isso que a gente é tudo doido.

Éramos sete mulheres e um homem - oito irmãos em casa. Meu irmão já é falecido. Como eu procuro brincar até na morte, falo, brincando, que ele não resistiu a sete mulheres, sete irmãs. E morreu. Mas, de verdade, quem ajudou a dar conta desse bando de crianças foi Amélia. Que foi para nós, mãe; também pai; avó; avô; tia… Foi tudo. Nos deixou quando eu tinha dezessete anos, criou a gente como se fôssemos dela; uma pessoa muito querida. Lembro de que eu comecei a fumar com oito anos! E Amélia me dava dinheiro para comprar cigarro. Não sabia dizer não para nós.

Ainda da infância, são muitas as recordações que hoje me fazem voltar a coisas boas vividas, experimentadas. Como o convívio com a avó materna, que nos ensinava a bordar, a tricotar, a tecer. E nos colocava a rezar junto com ela. Mas tinha, também, a parte da comida. Aí era com a minha mãe, principalmente depois que Amélia se foi. A comida mineira, a comida árabe.

Quando mamãe fazia charuto, por exemplo, a gente disputava quem ganhava. Eu ganhei o prêmio, cheguei a comer sessenta e cinco.

E doces? Lembro da minha mãe fazer doces - goiabada, doce de leite, pé de moleque - para o ano inteiro; guardava em caixas de madeira. A lembrança de todos juntos, fosse almoço, fosse jantar, e a exigência de meus pais de que ninguém saísse de casa sem estar alimentado. Então, estávamos sempre juntos, conversando, rindo, brincando, tomando bronca. E é dessa época, também, de criança que brincava e estudava, a ideia de ser professora. Como mamãe. Fiz Faculdade de Matemática. Cada uma de nós, irmãs, com exceção de uma e do meu irmão, seguiu a sua formação, dentro do que queria fazer. Papai nesse ponto… Ele só não queria que a gente saísse de Guaxupé. Mas depois, ele viu que Guaxupé era pequena para nossas ambições. Mas lá ainda, eu fiz Normal à noite e o científico de manhã. Aprendendo e brincando. Em todo lugar, não apenas na escola. Lembro da minha irmã mais nova, desesperada porque estava sangrando - quando ficou “mocinha” - e eu dizendo para ela: “Se preocupa não, é só câncer”. Na sala de aula, a colega, a pedido da professora, se apresentou: “Sou fulana de tal, e não faço nada”. Eu, mais do que depressa: “Sou cicrana de tal, ajudo ela”. 

Eu fui, um dia, para a frente, conversando com ela e fui arrancando os afinetinhos tudo dela aqui. Na hora em que ela levantou, caiu. Porque eu queria saber se ela era careca; falavam que ela era careca, a Sor. Sor Encarnação.

Aí, depois, eu me formei. Vim para São Paulo dar aula. E depois, Bahia. Lá, foi muito importante saber que as crianças, de repente, passaram a gostar de Matemática. Eu dava aula na praia, um bar, as crianças todas sentadas, e todo mundo gostando, todo mundo aprendendo. Foi uma das melhores coisas que a Bahia me trouxe. Porque houve um período em que eu fiquei muito mal de saúde. Fiz uma cirurgia, precisou de transfusão de sangue e eu contraí hepatite C. Então, eu estava me sentindo meio com os dias contados e resolvemos mudar de vida: fomos para a Bahia. Natureza, praia, sol, etc. Lá, nos encontramos em uma vila - Cumuruxatiba - que era a nossa cara, como disse uma pessoa lá. E lá eu tratei, lá eu me curei. Lá, era um lugar de paz. Até hoje eu tenho casa lá e tenho negócios. E lá estão as cinzas de meu marido. Então, é meio lá, meio cá. Só não sei até quando, por causa de idade, doença, essas coisas. Lá - a gente chama de Cumuru - a gente tem fazenda, tem bar; quando Corá, meu marido por quase quarenta anos, morreu, ele deixou cinquenta e cinco carneiros. Eu matei dois, mandei moer e aprendi a fazer linguiça - a linguiça do Corá! Foi um sucesso, mas eu não mato mais não - tenho pena - já compro morto, de outro fornecedor.

Conheci Corá, que trabalhava com artes gráficas, em Fortaleza. Eu, por amigos comuns, conhecia histórias de Corá, assim como ele conhecia histórias minhas. Aí nos encontramos, nos apaixonamos e nos casamos - em oito meses e quatro dias. Casamos em Guaxupé, ao meio-dia, na Catedral. Nossos pais - os meus e os dele - foram se conhecer no dia do casamento. Fomos morar em São Paulo, eu era professora. Foi quando tomamos a decisão de mudar para a Bahia. Talvez porque Corá fosse de Bauru, tenha vivido um tempo fora, tenhamos nos encontrado em Fortaleza, tenha se casado em Guaxupé e tenha ido viver em São Paulo. Ou seja, Corá vivia para o mundo. Lá na Bahia, então, Corá decidiu abrir um bar, que era o sonho dele. Mas desanimou porque viu que tinha que se submeter a determinadas regras - por exemplo, não dava certo fazer cada dia um prato, como ele pretendia. Daí, me deu o bar para tocar. E eu toquei. Aliás, toco até hoje. Setenta mesas, vinte e cinco funcionários, mas só funciona no verão. De lá é que sai - quando eu faço - a linguiça do Corá! Mas o carro-chefe é a casquinha de siri. E depois vem o quibe armênio. 

Tivemos duas filhas, uma delas se chama Maria Amélia, homenagem à Amélia. Quando elas eram pequenas e a gente morava na Bahia, a gente almoçava sempre juntos, os quatro. Aliás, almoçava, jantava, tomava café da manhã, tudo. Porque nós éramos sempre assim, juntos. Não tinha nenhuma data especial. “Vamos ali?” “Vamos”. Aí iam os quatro.

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