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História

Mão que embrulha o coração alviverde

História de: Oberdan Cattani
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 21/07/2014

Sinopse

As mãos do goleiro Oberdan Cattani foram durante muitos anos a guarda do coração do torcedor palmeirense. Sua história no clube é recheada de grandes defesas e lembranças. Oberdan acompanhou a transição do nome do clube de Palestra Italia para Palmeiras. Foi um nome símbolo dentro da equipe, e alvo de apostas quando se tratava de defesas, sendo oferecido um prêmio para aquele que marcasse um gol sob a sua defesa. Nessa entrevista, o goleiro conta toda a sua trajetória no clube alviverde, fala dos jogos mais marcantes e também critica algumas questões do futebol moderno dos dias de hoje.

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História completa

P/1 – Bom, a gente começa sempre pelo começo das histórias... Então essa primeira pergunta é onde o senhor nasceu, quando e nome completo?  

 

R – Eu nasci na cidade de Sorocaba, no dia 12 de junho de 1919. Hoje, graças a Deus, já cheguei aos 84 anos. Eu estou feliz porque o que vale é a mente da gente sempre estar em contato com o público, os esportistas. Eu me sinto muito feliz, tudo aquilo que eu fiz pelo futebol desde quando saí da minha terra lá... Eu tive a felicidade agora, quinze dias atrás, fui homenageado lá por um clube que completou cem anos, eu fui um dos goleiros do Fortaleza Futebol Clube.

 

P/1 – Seu Oberdan, como que eram os nomes do pai e da mãe do senhor?

 

R – Meu pai se chamava Ernesto Cattani e minha mãe Cândida Cattani.

 

P/1 – E eles eram de Sorocaba também?

 

R – Mamãe era sorocabana e meu pai era italiano.

 

P/1 – De onde? De que região?

 

R – De Lucca, meu pai era de Lucca.

 

P/1 – Como que era a vida de vocês lá em Sorocaba quando o senhor era garoto?

 

R – Olha, eu tive uma infância... Vamos dizer, que os garotos de hoje não... Porque meu pai tinha uma grande fábrica de bebida em Sorocaba e a gente quando ia pra... Naquele tempo a gente ia ao grupo escolar e quando a gente vinha do grupo escolar a gente não ia brincar na rua não. A gente ia trabalhar na fábrica, eles punham a gente lá pra fazer... Ele fazia bebidas, licores, tudo eles faziam naquele tempo. Era guaraná, em vez de chamar de guaraná era gasosa, a gente tinha que chegar lá sentar, selar, a gente selava as garrafas, compreende? E não dava chance da gente brincar, assim, como hoje a gente... Os pais levam os... Eu fico maravilhado quando estou lá no Palmeiras e os pais chegam com meninos de quatro, cinco anos andando lá, eu não tive essa chance não. Pra mim foi, vamos dizer, difícil. Quando era moleque, mas felizmente depois que meu pai faleceu, em 1929 perdi meu pai, eu tinha dez anos de idade, aí foi... Comecei a sair para brincar para lá e para cá e aí comecei com o futebol, que ele detestava o futebol e não queria que a gente brincasse com bola, nada disso, e depois fiquei... Tive essa chance de brincar com os amigos, participar no grupo escolar. Naquele tempo tinha... Verde e amarelo, eu sempre estava participando, jogando no futebol, corrida, essas coisas todas. Minha infância foi difícil enquanto meu pai estava vivo, mas depois infelizmente faleceu e eu aproveitei minha infância.

 

P/1 – Quantos irmãos o senhor têm, ou teve?

 

R – Nós éramos em dez irmãos, oito homens e duas mulheres. Uns irmãos maravilhosos... Infelizmente já perdi seis irmãos e uma moça também, que era a minha irmã. Que são duas irmãs, e somos em três hoje. Mas Deus sabe o que faz.

 

P/1 – Como que era a casa de infância do senhor com tanta criança e a mãe lá em Sorocaba?

 

R – Nossa casa! Nossa, era enorme, tinha quatro dormitórios, tinha cem metros de quintal, da rua até o fundo do quintal tinha uns cem metros, a fábrica também tinha na frente também, mais ou menos, uns oitenta metros a fábrica também. E era do lado da casa onde a gente morava, a prova está que onde a gente... Meu pai comprava naquele tempo a cerveja encaixotada em madeira, era empilhado tudo embaixo da casa, o porão lá tinha dois metros e pouco de altura, fizeram uma casa embaixo, mas a casa era enorme, a do meu pai. A prova que hoje eu passo lá e olho assim e digo: “Puxa vida!” Fizeram um estacionamento, fizeram... Fizeram um grande estacionamento na rua, eu morava na Rua Sete de Setembro, número 57.

 

P/1 – E o senhor passou muito tempo da sua infância sempre em casa ou o senhor depois mudou?

 

R – Não, depois que meu pai faleceu meus irmãos não souberam tocar a fábrica e foram obrigados a passar para frente, a casa onde a gente morava também passamos para frente e eu fui morar ali num bairro chamado Lago da Independência. Morei muito tempo numa rua ali chamada Rua Amazonas, mas depois, quando eu tinha quatorze anos mais ou menos, saí, fui embora da casa e fui morar com um mano meu lá em Tatuí. Ele tinha um posto de gasolina lá, morei lá com ele mais ou menos durante um ano e pouco, depois vim para São Paulo. Ele também tinha outro posto de gasolina lá perto da Santa Casa, em Sorocaba. Eu trabalhei com ele depois eu fui... Olha, vou dizer com toda sinceridade: eu me orgulho de dizer que fui caminhoneiro também na estrada, compreende? Eu com dezoito anos tirei carta de motorista e comecei a viajar para São Paulo, para Curitiba, e até adiante de Curitiba numa cidade chamada Campo Largo. A gente levava abacate, porque em Curitiba não tinha nessa época, a gente levava abacate lá para vender e trazia madeira para cama patente aqui na Avenida Tiradentes. Eu trabalhei quase três anos de caminhoneiro, depois tive essa chance de vir treinar no Palestra. Aí eu jogava futebol, eu vinha para São Paulo trazer fruta no mercado municipal no domingo e ia assistir o jogo do Palestra. E o Jurandir naquela época era o goleiro do Palestra, eu até brincava com uma pessoa que eu trabalhava, eu dizia: “qualquer dia eu vou fazer um teste aqui e o Jurandir vai ser meu reserva!” Brincando assim, entre eu e a pessoa que eu trabalhava, com ele. Por coincidência ele foi meu reserva (risos) e aí fiz um teste, fui para seleção paulista, fui para seleção brasileira... Você está sabendo que eu disputei a seleção brasileira? Foi na copa, no Sul Americano em Santiago do Chile e ele foi meu reserva na seleção brasileira, coincidência, né?

 

P/1 – Antes de entrar nessa história do Palestra, toda essa história do Palestra com Palmeiras, eu queria fazer mais uma pergunta. Quando que o senhor ouviu pela primeira vez falar de Palestra, lá em Sorocaba?

 

R – Não, meus irmãos todos eram palestrinos, compreende?

 

P/1 – A família já era...

 

R – Família. Eu tive chance de vir treinar no Corinthians também, mas meu irmão não aceitava: “Se tiver que jogar tem que jogar no Palestra!” Porque eu jogava na várzea e, por coincidência, nós jogávamos num time chamado “Corinthinhas” lá, nós fundamos o time Corinthinhas lá, a metade... Uma parte era de palestrinos, uma parte era de corinthianos, mas a família era toda descendente de italianos então tinha que torcer pelo Palestra, compreende? Eu vinha assistir o jogo do Palestra, em 38 vinha assistir o jogo do Palestra, compreende? Então eu me apaixonei pelo clube e tive chance para treinar no Ipiranga. Recebi convite para treinar no Ipiranga, para treinar no Corinthians, mas tive a sorte de vir treinar no Palestra, fiz três treinos aí e fui contratado em 1940. Fui contratado e disputei o campeonato em 1940, no segundo quadro, no primeiro quadro jogavam o Gigio e o Clodô, mas eu tive chance na primeira partida que eu joguei no segundo quadro com o meu treinador, seu Caetano Domenico. E ele falou: “Você vai jogar domingo lá em Santos contra o Espanha”. Antigamente, hoje é Jabaquara, mudou o nome por causa da guerra. Eu falei: “Não, não. Eu quero me adaptar melhor aqui no segundo quadro, depois se me der chance no primeiro viro titular” E depois entrei e só saí quando me mandaram embora.

 

P/1 – Mas conta então para gente como que foi a chegada no Palestra, como que o senhor chegou lá? Fez um teste, leu no jornal, como é que foi?

 

R – Não, não. Eu tive o convite do meu mano que me mandou vir aqui e devo muito também ao Miguel Pascarelli, que foi um grande beque do Palestra em 32, 33. Ele foi tricampeão pelo Palestra Itália e ele se interessou também: “Vamos lá, vamos lá” E eu vim, olha, e foi difícil. Porque naquele tempo o transporte não era como hoje, esses ônibus maravilhosos, eu peguei um “segundão” da Sorocabana para chegar aqui. Olha, foi duro... Três horas e meia para chegar aqui e olha, se não fecha a janela chega tudo furado aqui. Todo queimado por causa do carvão que saía do trem. Mas eu cheguei aí e tinha uma fila assim dentro do campo, tudo goleiro fazendo experiência. Eu fui o último, 15 e tal... Eu fui o último, dos quinze, eu fui o mais feliz porque o senhor Caetano Domenico que para mim foi um dos maiores treinadores de goleiros porque ele ficava na meia lua e jogava a bola com a mão. Então entrava um aí, ele jogava e falava sai. Aí eu entrei, a primeira bola que ele jogou o pessoal dizia: “o Oberdan tem a mão grande”. De fato, meu. Ele jogou a bola, eu puxei com uma mão só, peguei assim... Ele jogou a outra lá no ângulo e eu pulei, botei de escanteio... Eu fiquei treinando contra o primeiro time do Palestra e eu falei: “Estou roubado”, brincando entre mim, estou roubado, Luizinho, Canhoto, Silva Barreto, Lima e Pepê, falei: “Nossa!”. Mas eu fui feliz, tomei três gols, mas eu fiz uma defesa maravilhosa, eles se interessaram, mas como no domingo o Palestra ia jogar contra a Portuguesa, e a Portuguesa sempre foi um time que desde a minha época sempre dava sorte contra o Palmeiras... A Portuguesa ganhou de três a um do Palestra, então na segunda-feira eu recebi um telefonema para fazer novo teste na terça. Treinei terça, treinei quinta e fui contratado.

 

P/1 – E como foi saber que o senhor tinha sido contratado?

 

R – Não, me chamaram lá, se interessaram por mim. “Vamos ficar com ele, o garoto aí tem futuro”. Eu estou até graças a Deus... Olha, eu olhei vi e venci.

 

P/2 – O senhor sempre jogou de goleiro, Senhor Oberdan, no começo da infância?

 

R – Não. Lá no interior a gente brincava, mania dos goleiros sempre jogar de centroavante, sabe? Eu também gostava de centroavante, mas brincar... Eu tinha mais paixão pelo gol.

 

P/1 – E quando o senhor chegou, fez o teste e falaram: “Oberdan, você vai jogar no Palmeiras”. Como que foi na sua família? Como que foi essa história, como repercutiu?

 

R – Não, quando eu cheguei não era Palmeiras, era Palestra Itália.

 

P/1 – No Palestra.

 

R – Quando eu cheguei, eu falei... Eu assinei contrato, eu trabalhava na cidade com uma caminhonete numa fábrica de bebidas também né, entregava bebida lá em Sorocaba. Eu cheguei e falei com o senhor, ele me deu o maior apoio, o senhor Cortês. Eu falei: “Senhor Cortês, o senhor vai me desculpar, mas eu não vou trabalhar mais, eu assinei contrato com o Palestra lá e eu vou para São Paulo.” Ele me desejou sorte maravilhosa para mim. Eu vim para São Paulo e graças a Deus! Olha, eu duvido um jogador de futebol chegar na época como eu cheguei, e chegar no ponto que cheguei. Eu agradeço a Deus e agradeço a todos aqueles companheiros que me deram apoio quando eu cheguei aqui em São Paulo.

 

P/1 – Como que era o Palestra? E isso nós estamos em que ano? Quando o senhor começou a jogar lá?

 

R – Em 1940.

 

P/1 – Em 1940?

 

R – Cheguei em 40.

 

P/1 – E como era o clube nessa época? Como que funcionava? Já tinha o clube?

 

R – Ah, o clube sempre foi maravilhoso, o Palestra.

 

P/1 - Já existia?

 

 R - Não é como hoje... Hoje aumentou... O Palmeiras aumentou toda aquela parte na arquibancada, aumentou tudo, atrás do gol, o campo era em baixo, hoje é o jardim suspenso e a gradinha era de madeira, né? O alambrado era tudo de madeira, baixinho, o jogador podia pular para fora, o torcedor pular para dentro e tudo mais. E atrás do gol tinha uma arquibancada de madeira, onde é a piscina também tinha uma arquibancada de madeira, compreende? E tinha, onde é a cadeira cativa hoje, as numeradas. Mas hoje aumentou, está enorme, porque uma parte da arquibancada lá, uma parte daqui para cá não tinha nada, era tudo descoberto não tinha nada, nada. Hoje, Nossa Senhora! É um estádio maravilhoso.

 

P/1 – E como que era a vida de jogador nessa época?

 

R – Eu acho que era tranquila a vida de jogador, porque a gente não podia trabalhar, porque tinha que treinar terça. Apesar que nós treinávamos só duas ou três vezes por semana, não é como treina hoje de manhã, treina de tarde e chega no dia de domingo para jogar estão cansados. Eu não sei o que acontece no futebol de hoje, mas quem viu o futebol na nossa época tem que tirar o chapéu, futebol que dava gosto ver o time jogar, hoje a gente assiste futebol na televisão, a gente cansa de ver o futebol, porque não há aquela tabela entre um com outro como existia antigamente, não é verdade? Eu peguei o Palestra, quando cheguei aqui era Carmelo Junqueira,­­­­­­­­­ Garro Oliveira de Neves. Esse Oliveira, que Deus que tenha em um bom lugar, que infelizmente essa semana perdemos um grande companheiro, compreende? E jogava o Luiz Mesquita, o doutor Luiz Mesquita, eu, Canhoto, Silva Barreto, Lima e Pipi. Era um timaço como o Corinthians também tinha, o São Paulo também tinha um time. O time mais ou menos assim... Era o Santos naquela época compreende? A Portuguesa era um senhor time de futebol também, mas o futebol hoje mudou tudo, meu Deus do Céu! A gente assiste futebol e a gente cansa de ver futebol, porque o jogador pega a bola e quer levar a bola para casa, o companheiro está do lado para receber e ele não faz tabela ele quer passar no meio de dois, três jogadores. Está difícil o futebol e olha, para você ver, eles procuram uma ponta e ali não tem ponta estão todos no meio do campo e isso atrapalha. Entre eles isso atrapalha para fazer uma tabela, que hoje isso é coisa que não existe. Antigamente a gente ia pegar um São Paulo, naquela época um Corinthians, eu joguei contra Lopes, Servílio, Teleco, Carlinhos, Jango Brandão e Dino, Nossa Senhora! Era um jogo maravilhoso no Pacaembu. Iam 60 mil pessoas no Pacaembu, e hoje o Pacaembu até diminuiu com o tobogã, cabe 13 mil pessoas. Hoje o Pacaembu cabe 45 mil pessoas. Diminuiu muito o Pacaembu.

 

P/1 – Qual foi a estreia do senhor em campeonato? Que campeonato o senhor estreou como goleiro?

 

R – Eu estreei contra o SPR [São Paulo Railway Athletic Club] no segundo quadro e nós ganhamos essa partida de cinco a um, depois jogamos contra a Espanha lá em Santos e ganhamos de quatro a dois. Agora a partida que me deixou emocionado foi contra o Corinthians no Parque Antártica. Nós ganhamos de um a zero no segundo quadro, eu fiz uma partida maravilhosa, os próprios torcedores do Corinthians, o Paulo, o Caio aqueles jogadores que jogaram no Corinthians, eles vieram me abraçar, me cumprimentar e desejando boa sorte. E depois entrei no primeiro time contra o Corinthians, também no Pacaembu no primeiro time e nós perdemos esse jogo de dois a um pro Corinthians, compreende? Depois dali fui embora, disputei o campeonato de 41 de 42, e estava escrito já no Palestra Itália em 40, fui campeão em 40, 41... Em 41 fui campeão pela seleção paulista e 42 fui campeão paulista entre o Palestra e o Palmeiras, quer dizer, aí fui para seleção paulista dez anos. Foi um recorde que ficou... Vai ficar marcado porque dificilmente um jogador fazer dez anos numa seleção como eu tive na seleção paulista.

 

P/2 – Já existia uma rivalidade com o Corinthians, senhor Oberdan?

 

R – Sempre existiu.

 

P/2 – Sim, mas...

 

R – Mas, mais era o São Paulo na época por causa da guerra. Essa revista que eu trouxe para você, vê a entrada da equipe do Palmeiras entrando em campo com Geraldo Alberto, era capitão na época hoje, mas depois Geraldo Alberto Mendes entrando com a bandeira brasileira no São Paulo, dia 20 de setembro de 42. Aliás, nós comemoramos essa data até hoje. E depois nós tivemos a felicidade, morreu o Palestra invicto e nasceu o Palmeiras campeão nessa... No dia 20 de setembro, justamente quando o São Paulo... Nós estávamos ganhando de três a um no primeiro tempo, e no segundo tempo, com vinte minutos de jogo o Virgílio fez um pênalti e o Luizinho não deixou bater, pegou a bola e disse: “Não vai bater” e não deixou continuar o jogo. O São Paulo parou e nós ganhamos o jogo de três a um deles.

 

P/2 – E como que era jogar futebol no Palestra na época da guerra?

 

R – Era duro para gente, viu? A gente, que é descendente de italiano, a gente foi muito humilhado aí, compreende? E eu sei lá, o São Paulo era o maior rival da nossa época, porque eu não acredito que o São Paulo queria... Falaram que o São Paulo queria tomar o Parque Antártica, eu não sei por que, eu acredito que naquele tempo o Paulo Machado, Décio Pedroso, Porfírio da Paz, Geraldo Almeida todos aqueles diretores iam invadir o Parque Antártica. O pessoal dizia “eles vão invadir aqui para tomar o Parque Antártica”, eu não acreditava e não acredito até hoje, compreende? Mas a rivalidade acontecia porque nós éramos descendentes de italianos. Você vê o próprio Cruzeiro também, o Palestra Itália foi obrigado a mudar, o Curitiba também teve um time lá e foi obrigado a mudar. A guerra... Eu acho até que foi benéfica a mudança sabe? De Palestra para Palmeiras, nós sentimos na hora e teve jogador que até chorou né, mesmo aquele que não era descendente de italiano sentiu, mas eu acho que foi benéfico à mudança, porque hoje você vai no Palmeiras, hoje você vê torcedor de cor torcendo pelo Palmeiras e na minha época não tinha torcedor de cor. Hoje tem fanático, gente, fanático torcedor do Palmeiras.

 

P/1 – Como era a relação com os dirigentes? Como eram os dirigentes do Palestra e Palmeiras?

 

R – Não, mas os dirigentes... Olha, eu peguei o Ítalo Adami, o Gino Peregrini, o Delio Chiquine, muitos dirigentes... Gente, todos aqueles italianos que vinham só de gravata, nós também vínhamos de gravata para treinar, e de terno... Não ia de chinelo e nem de shorts. Na época nós vínhamos treinar e eu estava acostumado... Eu vou contar, eu estava acostumado, no interior andava de camisa esporte, paletó, camisa esporte... Eu vinha da... Quando vim fui morar em Santo André com o meu mano lá, né, eu vinha assim e o pessoal dizia: “Não fica bem, você tem que por gravata. Os diretores não gostam que venham sem gravata”. Obrigavam a usar a gravata. Ia de terno para treinar... (Riso) De terno. Tudo como se fosse numa festa, então depois mudou tudo. Hoje, o jogador, cada um tem seu carro bonito. Não é verdade? Eu era obrigado a pegar um ônibus até a Dom Pedro II... A Dom Pedro e pegar um bonde lá no largo São Bento. Vinha de bonde até o Parque Antártica. Foi duro para chegar onde cheguei, foi duro. Hoje a vida está uma maravilha.

 

P/1 – Como que era o dia a dia? O senhor acordava cedíssimo e ia só treinar? Não dava para ter outro trabalho?

 

R – Não, não dava não. Eu morava em Santo André, saía de lá meio-dia e meia para chegar às duas horas aqui, tinha que assinar o ponto, tinha que assinar o ponto porque se chegasse atrasado eles multavam os jogadores, compreende? Nesse ponto era muito rigorosa aquela minha época, né? Eu chegava sempre atormentado, como hoje também estava adiantado ali, esperando o táxi, e ela estava lá na porta esperando o táxi.

 

P/1 – E o salário como é que era?

 

R – O salário era fome naquele tempo, viu? Quando eu cheguei no Palestra eu ganhava 350 mil reis no segundo quadro. Depois, quando fui ver, me subiram para 600 mil reis. Aí joguei 40, 41, 42, só pelo ordenado e já era bicampeão brasileiro, e bem dizer bicampeão paulista. Aí, em 43 acabou o contrato. Eu esfreguei a mão, “bah”, eu digo que vou pedir uma nota hoje. Eu pedi 35 conto para reformar o contrato. 35 conto. Quase me mandaram embora para Sorocaba a pé. Teve gente que disse que eu estava louco. Eu disse: “Puxa, 35 conto. Eu tinha oferta aí de um clube de 80 conto e não fui”, não vou citar o nome dele aqui porque não convém, mas eu tinha 80 conto. Tive a proposta do Vasco tudo... O Fluminense veio um dia me buscar. O Lino Vieira que era o treinador do Fluminense veio me buscar para jogar no Fluminense e depois levou o Giggio para lá. Depois o Giggio veio para São Paulo. E eu falei, fiquei dois meses para reformar contrato e me deram 30 conto. Seis conto eu levei um ano e meio para receber e dividiu 24 meses, um conto por mês. Ah! Era duro... E teve jogador lá que... A luva, naquele tempo, era a base de convênio. Era quatro conto a luva, compreende? Não podia dar mais, mas tinha jogador que levava mais, levava bem mais no papel que era quatro conto. Foi uma época difícil, “vamos guardar dinheiro”, eu aproveitei graças a Deus, mas aproveitei nos campeonatos que ganhei. Jogava todas as 20 partidas então recebia o bicho integral. Mas dizer que eu ganhei dinheiro no futebol eu não ganhei, graças a Deus sempre tive a cabeça no lugar e aproveitei o pouco que ganhei. 

 

P/2 – O campeonato lá, senhor Oberdan. Nessa época, como que era jogo, uma vez por semana?

 

R – Às vezes levava até quinze dias. A gente descansava. Não é como hoje: terça, quinta, sábado e domingo. Hoje jogador faz mil partidas. Eu fiz 485 partidas em quase quinze anos de Palmeiras, 400 e tanto. Mas jogava no domingo, descansava, e chegava a vez que tinha que ir jogar no interior também, era muito requisitado o Palmeiras para jogar no interior. Mas campeonato dia de semana dificilmente jogava, só se tivesse amistoso, né? Mas campeonato só sábado e domingo.

 

P/1 – Como que era a preparação física do jogador?

 

R – Olha, a preparação física, o próprio treinador que dava a preparação física, compreende? Não tinha preparador físico como tem hoje. Têm dois ou três médicos, nada disso. Completamente diferente... O Dedé foi treinador da seleção paulista em 41, e 42 ele foi bicampeão. Em 42 ele foi treinador entre Palestra e Palmeiras também, mas ele que dava o preparo físico. Seu Caetano Domenico também dava o preparo físico, e depois 42 que veio o Cláudio Cardoso, depois foi treinador meu, como foi treinador do Turcão também. Nós excursionamos para Bahia, também foi treinador, mas às vezes ele ia para o quartel, que ele era capitão. Ele ia para o quartel e quem dava o preparo físico era eu. Eu que dava o preparo físico pros jogadores e eu treinava goleiros. Eu que dava, aprendi muito com isso aí. Com o Cláudio Cardoso dava a preparação física para os jogadores, e eu também dava. Eu treinava o goleiro. Aquilo que aprendi com o senhor Caetano Domenico.

 

P/2 – A partir de que época, senhor Oberdan?

 

R – Ah, isso foi de 47 a 48, por aí. Foi o Cláudio Cardoso... Foi em 42. Ele já era preparador físico também do Palmeiras.

 

P/1 – O senhor chegou a jogar em outro time além do Palmeiras?

 

R – Fui obrigado a jogar num outro time por causa de um presidente que infelizmente, nem quero nem citar o nome dele, que Deus o tenha em bom lugar, ele faleceu há pouco tempo. Agora faz uns três meses que faleceu. Eu fui disputar o sul americano em Santiago do Chile, que tive a felicidade de jogar na seleção brasileira... Eu fui disputar o sul americano no Santiago do Chile com a seleção brasileira e eu tive proposta de ir para o Colo Colo, eu disputei o campeonato lá com os maiores goleiros Sulamericanos Máspoli, Livingstone do Chile e Vaca da Argentina. Foram os maiores goleiros, entre a crônica escrita e a falada eu fui o mais regular de todos eles... Então o Colo Colo me ofereceu uma oferta para ir para lá e eu estava em véspera de casar, sabe? Eu o procurei e falei: “O Colo Colo me ofereceu uma oferta aí, será que o Palmeiras vende o meu passe para ele?” “Não, não. Você é filho da casa e vai morrer no Palmeiras. Não vai sair nunca do Palmeiras, está muito bem”, aí chegou em 52 e nós excursionamos com o México também, ele foi como chefe da embaixada. Eu recebi uma proposta do León do México para ficar lá, e eu estava casado. Quando eu fui para o Chile eu estava solteiro, vou dizer que eu casei lá no Palmeiras, fiz bodas de prata no Palmeiras, completei oitenta anos lá no Palmeiras. Eu não pude fazer a coisa mais que eu queria, que era fazer bodas de ouro, infelizmente. Faz 26 que eu perdi a minha esposa, né? Mas aí fomos para o México. O León ofereceu um bom dinheiro, mandei procurá-lo lá... “Você vai ficar no Palmeiras, não vai sair de lá”. Mas ele era só conselheiro, não era diretor nem nada, né? Aí foi candidato a presidente e infelizmente na gestão dele acabou meu contrato, e quando acabava o meu contrato, quando terminava o campeonato e não no meio do campeonato... O Waldemar Fiúme não jogou no campeonato paulista, jogou só em 1940. Em 50, quando fomos ao Maracanã ele jogou. Ele sempre foi reserva e ganhou muito mais dinheiro que eu porque terminava o contrato dele no meio do campeonato. E o Palmeiras precisava dele. O meu terminava o campeonato e ficava discutindo quando vai reformar, quando não vai reformar... Aí chegou lá e acabou meu contrato, eu ganhava “dez contos por mês, aí dois meses reduziram a cinco por mês. Me chamaram lá e o senhor Marrano falou que era o administrador, e falou: “Tem uma carta para você”, “E o que é?” Eu olhei: “Passe livre para ir embora”. Aquilo me doeu muito porque eu almejava encerrar a carreira lá dentro e ficar como preparador de goleiro e outras coisas como hoje tem, na minha época não tinha. Hoje o jogador encera a carreira e é treinador de goleiro, essas coisas, isso doeu muito para mim, eu fiquei: “Puxa vida, deixei de ir embora por causa do Palmeiras, porque gosto do Palmeiras e ele pegou, deu passe livre para ir embora”. Aí veio o presidente do Juventus, Modesto Masson Rosa, veio na minha casa... “O senhor não quer ir para o Juventus, jogar no Juventus?” Eu falei: “Eu vou!” e joguei um ano no Juventus. Depois fui jogar contra o Palmeiras no Pacaembu e no Parque Antártica. Eu os deixei loucos por, sabe lá... Fizemos um a zero no Parque Antártica com 43 minutos de jogo, vou te dizer: jogaram, além de mim, Nininho, Humberto, Nei, Jair e Rodrigues na linha do Palestra, do Palmeiras. Eu dei um show pra eles lá. A torcida toda era a meu favor, xingavam o Juliano... infelizmente era a minha casa, eu podia detestar aquilo, era minha casa...  Depois eu entrei de sócio, pagava meu recibo, pagava meu recibo. Depois fui fazer uma entrevista com o Bolinha que já faleceu também, fui fazer uma entrevista com ele lá na rádio. Ele falou: “Você frequenta o Parque Antártica?”, “Eu tenho que ir lá fazer jus ao recibo que eu pago.” “Você paga recibo? Isso é uma vergonha.” Aí me deram recibo de graça. (Risos) Me deram recibo de graça, aí eu não precisei pagar mais. Hoje não, hoje eu faço parte do conselho lá né, tenho minha carteirinha como... Tenho permanência da Federação Paulista, eu entro em qualquer jogo e não pago, mas hoje faço parte do conselho ,sou conselheiro vitalício tudo lá.

 

P/1 – Como sobrou tempo nessa vida de futebol para achar uma namorada, casar?

 

R – Olha...

 

P/1 – Como o senhor a conheceu?

 

R – Nessa época era difícil. Na nossa época jogador era tudo bandido, sabe disso, né? Não é como hoje que as moças vão atrás para casar com jogador de futebol. Nessa época eles iam tirar satisfação... O que você fazia. Não só com jogador de futebol, era como cantor na época, eu que tive a felicidade de conhecer Francisco Alves, Orlando Silva, Carlos Galhardo, Moreira da Silva, todos esses eu conheci. O cantor também, não ia, como hoje na televisão, como hoje é uma vergonha todo mundo pelado, bem dizer, na televisão, eu não aceito essas coisas, às vezes sou anti... Nada disso. Na nossa época era difícil. Quando comecei namorar a minha senhora, depois vim morar aqui na Barra Funda, na Vitorino Camilo... Eu morava no 1008 e a minha senhora morava no 811. Então, eu comecei quando estava em Santo André e tinha uma prima que morava na Barra Funda também. E ia sempre lá visitar a gente em Santo André, ela ia... E começamos a namorar. Meu sogro não foi tirar informação de mim. Quem foi tirar informação de mim foi o tio dela, saber o que eu fazia, eu sou jogador de futebol e ele não queria. Eu não vou namorar sua filha, é filha do seu irmão. Aí depois, graças a Deus, hoje é diferente. Hoje está diferente.

 

P/1 – Como é o nome dela senhor Oberdan?

 

R – Marcília Vila Cattani.

 

P/1 – E vocês casaram e a mulherada... O senhor é um galã de cinema, um jogador?

 

R – Ah! Você sabe que eu casei no Santa Cecília aqui. E o Lima também casou lá no Palmeiras, o falecido Lima... O casamento dele foi feito lá no Coração de Jesus. Olha, invadiram tanto lá, o pessoal do Bom Retiro que ele tinha um prestígio, porque ele foi... Ele deu um bicampeonato para São Paulo. Foi ele que fez os gols contra os cariocas lá no rio, foi ele... E veio aquele pessoal do Bom Retiro subindo em banco, não sei o que é lá, quebraram banco, quebraram tudo, né? Aí, como eu morava na Barra Funda, falei: “Vou ver se dá para casar onde o Lima casou”. Aí eu fui lá, falei com o padre não sei o que, é lá. “Qual a profissão do senhor?” “Jogador de futebol.” “Não, não, jogador de futebol não casa mais aqui”. (Risos) Aí foi na Santa Cecília o que tinha... Veio até polícia. Até a polícia veio na porta para controlar. Eu fui muito feliz graças a Deus, viu?

 

P/1 – E ela não tinha ciúmes das moças?

 

R – Não, não, minha senhora foi uma criatura maravilhosa. Ele pode dizer, o Turcão conheceu bem ela, uma criatura maravilhosa viu, mas infelizmente... Eu viajei com ela para os Estados Unidos, fomos passear lá para Miami, Holanda, interiores... Chegou aqui, teve um problema, aí e foi embora, mas parece que estava esperando eu levar.

 

P/2 – O senhor casou quando? Que ano que foi?

 

R - Eu casei no dia 11 de outubro de 1945.

 

P/1 – O senhor teve filhos?

 

R – Tenho, tenho... Tenho a Valquíria, que hoje é Delegada Regional de Ensino, trabalha aqui na Heitor Penteado, na delegacia aí. Tem o Oberdan Cattani Júnior e a Mônica Cattani. Tenho três filhos.

 

P/1 – E netos?

 

R – Neto... Tenho três também.

 

P/1 – E eles são Palestras também? Torcem todos pelo Palmeiras?

 

R – Se não torcer eu bato neles, ah! Tem que torcer. Meu neto entende mais de futebol do que eu, viu? Nossa senhora! Ele lê jornal, tem onze anos e discute futebol comigo, isso e aquilo, mas graças a Deus eu tenho uma família muito feliz viu.

 

P/1 – Na opinião do senhor qual foi a melhor seleção que o Palestra teve? Qual que era o time dos sonhos?

 

R – Olha, nós tivemos em 47... Ele (Turcão) pode provar um timaço do Palmeiras. Nós estávamos invictos, nove jogos sem tomar gol, foi infelicidade quem fez o gol contra... Ele que fez o gol, (risos) você sabe disso né?

 

P/1 – Eu não sei...

 

R – Eu não vou falar que ele ganhou a geladeira, porque não sei. Porque tinha um prêmio: quem fizesse gol em mim ia ganhar uma geladeira. Ele disse que não ganhou, não posso falar nada.

 

P/1 – Ele fez um gol no senhor contra?

 

R – Contra.

 

P/1 – Como foi isso?

 

Turcão – Foi fácil fazer nele, qualquer um sabia.

 

R – Não, não... Em 47 começou o campeonato e comecei um, dois, três, quatro jogos. Tem um restaurante na Brigadeiro Luiz Antônio que ofereceu um jantar para quem fizesse o gol, mas não fazia, então ia eu e a minha falecida senhora jantar lá no restaurante. Aí chegou este jogo do Corinthians, ele falou: “Quem fizer o gol no Oberdan tem uma geladeira”, não sei como surgiu essa conversa. Aí nós estávamos ganhando o jogo de dois a zero do Corinthians, o Eric cruzou uma bola, bateu no joelho dele e entrou. Eu dei graças a Deus, porque não dormia a minha casa, era todo jornal naquele tempo, não tinha televisão né, ia tirar fotografia. Até deitado ia tirar fotografia, sonhando com os atacantes, compreende? Então dei graças a Deus, ele ficou chateado, mas eu falei: “Graças a Deus está tudo bem”. Aí virou segundo tempo e nós fizemos três a um no Corinthians. Surgiu o boato que ele ganhou a geladeira, mas ele não ganhou nada disso. Ele disse que comprou a dele, ele disse que comprou... Não sei. (Risos) Bom, então foi assim. Mas foi uma época maravilhosa... Esse ano de 47 foi bom, mas o time de 42 foi espetacular também, jogava eu, Junqueira e Peroni, Zezé, Moreira, Cláudio, Cristóvão Pinto que depois foi para Corinthians, Cláudio, Waldemar Fiúme, Limite e Lima Barreto. Esse foi um timaço também.

 

P/2 – O de 47 também, qual era a formação, senhor Oberdan?

 

R – Jogava eu, Jair e Turcão. Jogava o Zezé, Torre e Fiúme, Lula, Arturzinho, Zoadinho, Canhotinho e Lima, tinha o Bob que era o reserva, mas jogava só. O Lima não jogou uma partida, o resto jogou todas as vinte. Que eram vinte jogos que tinham na época, mas foi um timaço. O de 44 também foi. Fomos campeões também desses dois times. Com o de 50 também, nós fomos campeões. Era um time muito bom também, e tudo pequenininho na linha, não pense que... O Lima pequenininho, o Aquiles pequenininho, o canhotinho pequenininho, tudo baixinho e fazia gol.

 

P/1 – Muitos inclusive jogavam na seleção?

 

R – Jogaram também, quase todos eles.

 

P/1 – O senhor jogou na seleção?

 

R – Brasileira? Joguei, joguei quatro anos. Eu joguei em homenagem a Força Expedicionária Brasileira lá no Rio de Janeiro contra os uruguaios, nós ganhamos de seis a um dos uruguaios, aí viemos jogar no Pacaembu. Ganhamos de quatro a zero, aí fomos para o Chile e ganhamos de três a zero deles, da seleção Uruguaia. Fizemos treze gols para sofrer um só, você imagina?

 

P/2 – Quando foi isso?

 

R – Em 45, lá no Rio. Foi em 44.

 

P/1 – O senhor chegou a ser cogitado para jogar a Copa do Mundo?

 

R – Olha, depois de 45 eu... O treinador... Você sabe que a maioria dos treinadores cariocas não gosta de paulista não, paulista era muito... Não era bem recebido por ele no Rio, compreende? E o Flávio Costa era o treinador naquela época. Já em 44 eu fui disputar no Rio, disputei com o Jurandir, Batata e Osvaldo Baliza para pegar posição... Até o Ari Barroso estava lá. Acabou o treino ele estava todo... Como se diz, molhado, sujo... Entrei e o Ari Barroso falou: “Oh! Que você veio fazer aqui?” “Olha, a única coisa no momento que eu sei é jogar futebol.” “Ah é!” “Se eu fosse cantor não ia cantar no seu programa.” falei para ele: “Dá um martelo assim em cima de mim!” brincando com ele, né? Mas aí depois joguei no Sul Americano no Chile, aqui também joguei com o Parroca, mas em 50, lá no Chile com toda seriedade, eu, o Zezé Procópio e o Verome chegamos a ser cozinheiros dos jogadores. A gente estava concentrado, o nosso cozinheiro pegou um avião e foi parar lá na Colômbia, ficamos três dias sem cozinheiro. Nós fazíamos a comida. Eu um dia saí no portão assim, nós estávamos concentrados, retirados da cidade num bairro chamado Macu, era um casarão enorme, cada um levantava, arrumava sua cama, tudo bem organizado. Os jogadores maravilhosos daquela época da seleção, eu estava no portão assim e o Flávio Costa chegou e falou: “O que você está fazendo aí?” eu falei “estou aqui apreciando”, “tem que ficar lá para dentro” falei: “Espera aí, eu não estou na rua. Eu estou no portão. Olha, senhor Flávio, porque o senhor não vai... Eu não gosto de caguetar ninguém. Por que não vai? Lá está o Jurandir, o Zezé, o Zizinho, estão no bar...” Não vai falar, porque são do Flamengo, só porque eu sou paulista, sou do Palmeiras, fiz um gesto meio indelicado para ele e ele marcou isso comigo. Depois, em 50 eu fui convocado... Eu estava inscrito entre os 25 jogadores. Eu e o Cláudio, mas ele não levou. Ele levou o Castilho e o Barbosa. Hoje ele leva os três goleiros, antigamente ele levava os dois só, não levou. Fui assistir o jogo do Brasil contra o Uruguai no Rio. Fui assistir o jogo, mas infelizmente lá no Rio era aquela rivalidade, a gente jogava paulista e carioca, isso foi em 43. Ele falava para Afonsinho, que dava pontapé a três por dois, “Olha, eles são estrangeiro, nós somos nacionais” quer dizer... Nós éramos estrangeiros porque era São Paulo e eles porque eram cariocas eram nacionais. Era duro viu, era duro jogar lá.

 

P/2 – O senhor assistiu a final da copa de 50? Como foi?

 

R – Assisti, assisti... Foi dois a um do Uruguai. Estava dois a um, gol de Friassa, agora no meu ponto de vista a seleção jogou errada, porque se tivesse jogado o Barbosa, o Mauro e Augusto, Bauer, Rui, Noronha, a linha média como fazia a seleção paulista, quem jogava na defesa era eu, Junqueira e Berame do Palmeiras, que já estava entrosado, Jânio, Brandão e Lino que estava entrosado, que era do Corinthians. Então ele quis botar Bigode, ele botou o Danilo, não botou o Rui nem o Noronha e fez o que quis do Bigode. A linha estava certa e mesmo a ponta esquerda, quem devia jogar era o Rodrigues, ele botou o Chico, que era do Flamengo, porque ele já estava treinando o Vasco da Gama, mas foi por uma infelicidade do Brasil aquela partida lá que não podia perder não.

 

P/2 – E o Barbosa era um grande goleiro?

 

R – Sem dúvidas, um senhor goleiro. O menos culpado foi ele, o mais culpado para mim foi o treinador, ele ficou sacrificando... Ele estava morando lá em Santos e eu ia sempre na Vila Mirim, que eu tenho uma casinha lá. Eu ia pegar ele e ia almoçar comigo e falava: “Oberdan, estou carregando uma cruz há cinquenta anos, cinquenta anos carregando essa cruz. Ninguém esquece disso aí” Deixa para lá, disse para ele. Lá devia culpar mais o treinador e não você. Infelizmente ele morreu lá em Santos numa situação difícil, viu?

 

P/1 – Senhor Oberdan, como o senhor vê o Palmeiras hoje? Toda essa crise que ele está passando ou... Que na verdade não é bem crise porque está tocando a vida, como que o senhor...

 

R – Não, o Palmeiras para mim não tem crise. Crise se tivesse... Os jogadores não estarem recebendo, essas coisas. E o clube que está melhor de situação é o Palmeiras, em dinheiro. Eu faço parte do conselho e o presidente é obrigado a dar uma satisfação para todos os conselheiros. O time que tem dinheiro em caixa, o time que está em dia com todos jogadores, funcionários, aqueles que vêm trabalhar em dia de jogo lá, pegar um bico lá recebe tudo direitinho. Tem clube aí que está devendo três meses de ordenado, outro está devendo quatro, tem clube que não pagou nem os bichos dos jogadores que prometeram para os jogadores desde o ano passado não pagaram ainda. Em crise não está o Palmeiras. A situação de disputar a segunda divisão é duro para um clube como o Palmeiras, porque não merecia estar na segunda divisão, compreende? Porque podia fazer uma marmelada no último jogo lá contra o Vitória na Bahia, né? “Ah, vamos oferecer tanto em dinheiro para vocês e vocês entregam o jogo”, aquele jogo livrava o Palmeiras da Segunda divisão. Não houve nada disso. Como eu lembro do campeonato que o Internacional de Limeira tirou o campeonato, o Palmeiras não quis dar dinheiro para juiz e o Internacional deu e foi campeão paulista. O dinheiro fala mais alto, às vezes, no futebol, compreende? Mas eu vou dizer que o Palmeiras está em crise não, o Palmeiras está controlando o jogador, mas parece que a camisa pesa e eu não sei o Piscerni. Aí o Jair Piscerni, eu não gosto dele como treinador, porque treinador que fica dentro do campo com a mão dentro do bolso parece que está com frio. O treinador tem que gesticular para o jogador, vai ali como o Luxemburgo faz, outro faz. Ele fica parado, parece uma estátua dentro do Pacaembu... Então fica lá de pé na arquibancada, fica duro lá, tem que falar com o jogador, porque a maioria dos jogadores estão viciados em pegar a bola e ir embora, abaixa a cabeça e vai embora, não faz tabela com os companheiros. O time do Palmeiras não é ruim, mas chega no Parque Antártica parece que treme dentro do Parque Antártica. E na história do Palmeiras, entre Palestra e Palmeiras eu perdi dois jogos no Parque Antártica. Um time bom na verdade perdeu dois jogos, o time vinha aí, só tomava de goleada, hoje pode ganhar de um a zero, dois a zero, vem aí empata o Botafogo. Eles pensavam que o Botafogo era moleza. Porque o Ceará veio lá no Rio e ganhou deles, chegou aqui “ah, vamos... Ganhou deles o Ceará, ganhou deles lá no Rio” e o Botafogo jogou melhor que o Palmeiras, marcou bem e teve chance no finzinho do jogo, quase fazendo gol. Mas o Palmeiras em crise não está, porque funcionário nenhum se queixa, tudo em dia lá dentro, se tivesse em crise ia dizer “não paga isso, não paga aquele”, o Palmeiras está com um dinheiro em caixa.

 

P/1 – Mas o que o senhor acha que acontece é medo da camisa? É peso das glórias?

 

R – Eu não sei, a responsabilidade é muito grande, querem voltar, querem jogar, às vezes a escalação que o treinador entra com ela em campo, às vezes entra com a escalação errada. Não é, o Munhoz, não é essas coisas como jogador, é um jogador veloz, mas eu não sei o que se sente como eles, qualquer jogadorzinho está ficando revoltado. Essa semana aí Pedrinho disse que queria jogar, não quis jogar. Tirou a camisa, assim que o repórter falou. Tirou a camisa e jogou no chão, ficou bravo. O Munhoz: “eu quero é jogar”, tem que jogar onze jogadores, não pode jogar mais do que onze, então ele deve fazer aquela base de jogadores para formar o conjunto, pode... Para mais a frente o time ter conjunto para jogar, hoje joga um, outro dia joga outro, no fim o time não está acertando. Vamos esperar se vai melhorar isso aí.

 

P/1 – Já tinha acontecido do Palmeiras ir para segunda divisão?

 

R – Nunca, uma vez era para ir ele e teve um jogo com o Guarani. Não sei não, o Guarani parece que salvou a pele do Palmeiras, compreende? Mas na minha época não acontecia nada disso, né? Não existia nada disso.

 

P/2 – Como é que foi para o senhor saber dessa história de cair para segunda divisão? O que senhor sentiu?

 

R – Nossa Senhora! Eu fiquei... Olha, foi uma tristeza pra gente. A gozação depois, não comigo porque o pessoal respeita, mas estava em frente ao Palmeiras e passa um de moto: tira um sarro, passa outro de carro: tira sarro. “Aí segunda divisão!”, essas coisas todas é duro para uma sociedade como o Palmeiras, puxa vida! Nós estamos num local, bem dizer, estamos na cidade, um time de tradição. É o clube mais vitorioso do Brasil, é o Palmeiras. Entre Palestra e Palmeiras o mais vitorioso do Brasil somos nós. E esse vexame que deu aí, teve um treinador aí que jogou dezoito jogos e não saiu lá de baixo, não acredito no treinador. Treinador não ganha jogo não, mas está lá para orientar, eu... O Dedé fazia uma lousa lá, marca aqui, marca ali... Bom, já ganhamos jogo lá no campo que vai ver é outra escrita na verdade, eu não sei o que acontece com o jogador de hoje. O jogador muitas vezes... O próprio jornal também, às vezes, estraga o jogador. Desculpa lhe falar esses comentários... O caso do Kaká. Surgiu Kaká, o maior jogador de futebol brasileiro, sumiu o Kaká. O outro também, o do Corinthians lá, aquele... Ponta esquerda, joga bem hoje, todo mundo coloca ele lá em cima. Agora o do Santos, aqueles dois moleques também, você viu? Chegou contra o Boca deu tremedeira em todos eles aí. Nós tivemos de Barueri na quarta-feira, paramos num restaurante lá e chegava aqueles ônibus do Santos, torcedores do Santos, todos gritando... Aí chegou um rapaz que me conheceu há um mês atrás, que eu vim lá de Araraquara. Paramos ali, ele me reconheceu e falou: “Oh, seu Oberdan. Está tudo bem?” “Tudo bem!” “E hoje, hein?” eu digo: “Olha, o jogo é duro. O Boca joga melhor aqui do que lá, aqui nós chegamos a empatar com eles, com um timaço do Boca empatamos aqui dois a dois e ganhamos lá no Uruguai em 47 na Copa. Tranque jogou também a partida comigo.” Eu falei com ele: “O jogo é difícil, não é moleza para vocês” “Não, nós vamos ganhar de seis. O Santos já é campeão.” Bom, você vai ver o resultado e acabou perdendo. O Santos jogou? Não jogou nada, não jogou nada. Ele jogou melhor no Uruguai do que aqui.

 

P/1 – O senhor acha que é o peso da torcida?

 

R – Não, sabe como é? O jornal põe lá em cima, é que nem esse Vagner do Palmeiras, fez quatro gols outro dia, três gols e já saiu foto dele com carro bonito na porta. Então eu tinha que tirar foto com ônibus da CMTC, que naquele tempo não podia comprar carro, não é verdade? (Risos) Carro bonito na porta e jogou quando? Contra o Botafogo não jogou nada, quer dizer, está ai... Eu me sinto feliz porque começava um campeonato e eu era regular desde o começo até o fim. Eu fui 14 anos o menos vazado no campeonato, 14 anos o menos vazado e sempre regular. Hoje os jogadores jogam uma partida bem e explodem, esperam no outro jogo e não jogam nada. Mudou muito o futebol, mudou muito.

 

P/1 – Qual foi o momento mais marcante nessa trajetória no futebol? O que mexeu assim?

 

R – Olha, o mais marcante foi essa de 1942 que nós... Quer dizer, morreu o Palestra invicto e nasceu Palmeiras campeão. Isso marcou muito na minha carreira porque o São Paulo era favorito nessa partida, o São Paulo sempre teve um time de primeira linha e nós fomos felizes, essa e a de 44 também marcou muito, Dacunto foi expulso no jogo, ele tinha que cumprir suspensão no próximo jogo. Cumpriu suspensão e depois... A Federação tinha um regulamento, justamente deixaram para jogar depois de quinze ou vinte dias, para jogá-lo na véspera do jogo do São Paulo, o suspenderam, eles deram azar porque entrou Waldemar Fiíme como quarto zagueiro, acabou o jogo e não saiu mais do time o Waldemar Fiúme. Ganhamos também de três a um deles e essas duas partidas ficaram na minha mente, porque o que mais me emocionou foram essas duas partidas.

 

P/2 – Senhor Oberdan, quem era o grande atacante que perturbava o senhor?

 

R – Olha, eles falam em Pelé, Pelé... Mas o Leônidas foi fora de série, viu? Ele de costas era mais perigoso que de frente. (Risos) Ele dava aqueles voleios em cima da gente e não tinha medo. Que você quanto mais pulava... Eu sacava muito bem, bolas altas na área eram minhas. Hoje eu vejo os goleiros, um metro e oitenta e não sabe sair do gol. Eu saía na área, ele sabia que se não saía levava um murro na cabeça. Eu sacava muito bem e aquela bola de capotão, bola pesada, compreende? Que eu mandava lá no meio do campo. Então o Leônidas foi fora de série. Eu peguei o Tim, peguei o Heleno de Freitas, peguei Lelé, o próprio Jair Rosa Pinto também... como chutava, Valdemar de Brito, Nossa Senhora! Mas o Leônidas foi um atacante que vai ficar na história para sempre. Não tinha televisão naquela época compreende? A televisão pegou... A época da televisão foi outra coisa.

 

P/2 – Gol de Bicicleta, ele chegou a fazer no senhor?

 

R – Não, ele fez um gol de bicicleta em 42 no Palestra, era Palestra ainda. Ganhamos de dois a um esse jogo, mas o Clodô que estava jogando, porque no primeiro turno eu estava machucado aí eu voltei a jogar no segundo turno.

 

P/1 – Se o senhor fosse montar um time misturando as gerações, como seria esse time?

 

R – Da minha época?

 

P/1 – Misturando as várias gerações de jogadores.

 

R – De todos os clubes você diz né?

 

P/1 – Não, do Palestra e do Palmeiras.

 

R – Só do Palmeiras?

 

P/1 – É só do Palmeiras. Quais são os seus jogadores preferidos?

 

R – Eu não vou botar eu no gol porque fica chato, né? Eu fazia o Jurandir, eu gostava muito do Jurandir. Aprendi muito com ele, me incentivou muito na minha carreira. Eu vim aqui assistir jogo do Palestra por causa do Jurandir. Eu fazia a seleção Jurandir, Junqueira, Lívio Herome, Zezé Procópio, Og Moreira, Waldemar Fiúme, Luiz Mesquita Oliveira, fazia o Canhoto, Vila Done, Lima e Pepe. Vou dizer, eu não vou pôr Rodrigues, o Jair não. Meu time era esse aí.

 

P/1 – E quem era o técnico?

 

R – Olha! Eu peguei tantos no Palmeiras, porque escolher o técnico...

 

P/1 – Quem o senhor colocaria de técnico?

 

R – Vou escolher o Gambão, porque o Gambão foi um jogador do Palestra Itália de 1925 e está erradicado. Então quando ele ia treinar o time eu pedia para o diretor: “põe o Gambão”. Ele foi campeão em 44 comigo, e depois das cinco coroas, e 49 também foi campeão das cinco coroas. Tiramos cinco campeonatos.

 

P/1 – E da...

 

R – “É cinco coroa”.

 

P/1 – E dos jovens, aí dessas últimas gerações, quem o senhor acha que representou bem o Palmeiras e que de repente poderia estar num banco de um time desses que o senhor acabou de montar?

 

R – Esses que estão jogando ai?

 

P/1 – É, vamos pensar nos últimos quatro ou cinco anos?

 

R – Se eu disser para você que eu não conheço esses jogadores do Palmeiras, esses novos aí, não conheço nenhum deles. Só conheço o Marco e o Sérgio, de resto não conheço nenhum. Você passa aqui, passa um ou outro, para mim é tudo igual, compreende? Eu só vou dizer que... Teve jogador que veio, aí foi embora, isso e aquilo. Eu vou dizer que muda tudo toda hora, muda tudo. Entra um time hoje e amanhã já muda você não sabe quem... “Oh, já mudou, está jogando fulano”. Eu não vou... Eu gosto muito do Sérgio, que é um rapaz maravilhoso, e o Marcos também que está jogando mais. Eu no momento, com toda sinceridade, vou dizer... No momento deixava o Sérgio no gol, que ele está muito bem.

 

P/2 – Esse time do Palmeiras que ganhou a Libertadores era um bom time. Como é que foi?

 

R – Ah, foi um bom time sem dúvida. E perdemos aqui também para o Boca, empatamos lá, o Alex jogou... Eu fui assistir o Palmeiras e o Boca lá em Buenos Aires, empatou dois a dois. Nós podíamos ter ganhado o jogo. Foi um pênalti e o juiz não deu. E aqui empatou zero a zero. Ele levou vantagem, não é verdade?  Mas o Palmeiras jogou muito bem lá a partida em Buenos Aires. O Alex que hoje está jogando no Cruzeiro e está jogando um futebol de primeira, compreende? Nunca disputou bola, sempre chegava atrasado na bola. Coisa que em um ano ele fez, mas não o jogador que foi ele, nem lembra o jogador que foi para Buenos Aires disputar. Não lembro não, eu sou mais saudosista, viu? Saudosista eu sou.

 

P/2 – O senhor chegou a receber convite para a CBF [Confederação Brasileira de Futebol] depois que parou de jogar futebol?

 

R – Eu... Não, eu treinei o Bragantino três meses. Esse Pradinho que foi para o São Paulo, você lembra do Pradinho? Eu que levei ele lá. Eu levei pro Bragantino, levei o Mairiporã, levei um monte de jogador. O Servílio também. Eu levei o Servílio, o velho Servílio, joguei com o time lá, cheguei lá três meses... Pegar ônibus lá, tinha o posto de gasolina, na época tinha que largar o posto de gasolina para treinar o Bragantino. Ah... Mas não recebia, então falei: “Melhor cuidar do meu estabelecimento do que futebol”. Depois... Fiquei três meses, só depois não quis mais não.

 

P/1 – O senhor continua com os passarinhos, senhor Oberdan?

 

R – Tenho lá ainda os passarinhos.

 

P/1 – Como é o dia a dia do senhor? Caminhada? O senhor vai para o clube?

 

R – Ah, eu vou a pé.

 

P/1 – Treina, faz esportes?

 

R – Não, nada disso. Já não dá mais não. Se eu fizer uma ginástica aí eu caio, aí eu fico devagarzinho, não... Eu ando bastante, eu ando. Eu vou ao Palmeiras a pé, volto a pé, eu gosto de andar, viu? Eu gosto de andar.

 

P/1 – Como que o senhor se sente quando o senhor tem que contar suas memórias, suas histórias do futebol?

 

R – Olha, a gente se sente feliz viu, depois... Pode ser jogador que siga uma carreira... Eu vou ao supermercado, falo com um, falo com outro, eles me conhecem. Eu marquei muito, não vou dizer que mudei muito de feições, tem muito jogador que muda, compreende? Mas olha, eu me sinto feliz agora, cada lugar que eu vou... Outro dia... Eu vou contar um caso, eu fui renovar minha carta lá na Rua Cachoeira e eu precisava ir na Rua Santa Clara falar com o Adilson Amadeu, que é despachante... Eu fui lá, parei assim, estava com um amigo... Parei o carro e estava um senhor correndo na caçada, eu falei: “Oh, senhor! A Rua Santa Clara?”, ele falou “é essa travessa aqui”, falando atravessa e ficou olhando e perguntou: “O senhor não é o Oberdan?” E eu estava de óculos escuro, falei: “se roubo aqui, vou preso ali, viu?” (Risos) Mas tem muito. Ele, Turcão, foi comigo no interior. Ele sabe como é o carinho que têm por mim, cada lugar que eu vou... Eu vou no senhor Pascoal, lá em Araraquara, ele faz a festa e todo ano tinha 400 e... Dez pessoas, 410, 420 pessoas no jantar lá, viu? Vai o Basani, tudo pessoal da Ferroviária, convida jogador de fora e no fim o mais aplaudido que vai lá sou eu, quando vou receber o... Recebi dois troféus bonitos, né? O mais aplaudido lá sou eu, o pessoal da Ferroviária está lá e eu sou o mais aplaudido. Paro, um vem, tira foto com eles, aí eu me sinto feliz com isso... Graças a Deus, também nunca neguei... No Palmeiras veio um garoto falar comigo e eu dou a maior atenção para todo mundo.

 

P/2 – O senhor acha que existe esse reconhecimento?

 

R – Ah, sem dúvida.

 

P/2 – E com os outros companheiros existe? O senhor acha?

 

R – Tem também. Dos companheiros da velha guarda só estamos eu, o Turcão e o Canhotinho, que infelizmente não está bem de saúde. Mas lá tem eu, Dudu, o César Maruque está lá... Mas eu estou sentado e o pessoal vem direto comigo, passa um lá e fala: “filho, aquele é o goleiro do Palmeiras. Tem uma mão enorme, não sei que...” eu sou obrigado a mostrar a mão para o garoto. É isso aí.

 

P/1 – Então mostra para gente aí, senhor Oberdan?

 

R – Mão enorme, pega a bola com uma mão só aí... Isso fica na história viu, e a gente sente feliz com isso, eu também não... Nunca neguei um adeus para ninguém. Para mim, olha, eu me sinto feliz por tudo aquilo que fiz pelo futebol, esses esportistas maravilhosos que me adoram muito.

 

P/1 – O senhor gostaria de falar mais alguma coisa? Contar mais alguma coisa?

 

R – Ah, fica à vontade, é só fazer as perguntas que eu vou responder, porque eu não gosto de comer. Eu como muito pouco, viu? (Risos) Como muito pouco. Beber também, eu não bebo nada. Não é dizer que não bebo, eu bebo um vinho de vez em quando, mas pinga, essas coisas... Não fumo nada, nada, nada. Minha vida é tranquila.

 

P/1 – É isso ai, senhor Oberdan. Eu queria agradecer em nome do Museu da Pessoa essa conversa que a gente teve...

 

R – Eu que agradeço e desculpe alguma rata aqui, um desabafo aqui... Pois é, nós estamos aqui em família, compreende? Contando um pouquinho da minha vida aí, porque a gente se sente feliz... Depois de chegar aos 84 anos muita gente a cabeça não ajuda. Eu nesse ponto eu ainda estou com a memória muito boa, viu? Porque isso tudo faz o... Quando a gente foi atleta, tinha que saber se comportar, não perder noite fora como eu nunca perdi noite fora, compreende? E sempre vivi pela minha família e meu clube lá, que eu adoro o meu Palmeiras. O Palestra Itália. E não desprezo clube de ninguém, não discuto futebol com ninguém, não discuto, quando é são-paulino ou corinthiano eu fico feliz de conversar com ele, mas eu não sou daqueles fanáticos, que meu time é melhor do que o seu... Não tem time melhor que o outro. Futebol sempre é futebol.

 

P/1 – Que ótimo.

 

P/2 – Obrigado. 

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