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História

Marcos Antonio Gomes Calado

História de: Marcos Antonio Gomes Calado
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 21/06/2016

Sinopse

Marcos Antonio cresceu na cidade de Jaboatão dos Guararapes e costumava esperar a chegada de seu pai na volta do trabalho na Rede Ferroviária. Ele conta como era a cidade de Jaboatão na sua infância com seus carnavais de rua e com a festa de seu padroeiro, Santo Amaro. Marcos conta que seu pai foi um dos fundadores da Associação dos Ferroviários do Nordeste (AFN) e ele percebeu que existem duas “categorias” de ferroviários: uma daquele que ficou com uma função técnica e aquele que andou pelas linhas. Além disso, Marcos narra suas lembranças da viagem de trem de Jaboatão a Crato que apesar de ter sido na sua infância, guarda diversas recordações.

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História completa

P/1 – Boa tarde, Marcos.

 

R – Boa tarde.

 

P/1 – Queria agradecer a sua presença e eu vou fazer algumas perguntas que você já respondeu, mas é para deixar registrado. Qual o seu nome, local e data de nascimento?

 

R – Meu nome é Marcos Antonio Gomes Calado, eu nasci no ano de 1971, na cidade de Jaboatão dos Guararapes, Pernambuco, Grande Recife.

 

P/1 – E que dia e mês que você nasceu?

 

R – Eu nasci no dia três de maio de 1971.

 

P/1 – Marcos, qual o nome dos seus pais e qual era a atividade profissional deles?

 

R – Meu pai era José Barbosa Calado, torneiro mecânico e a minha mãe é Maria Gomes de Lima Calado, era pedagoga, da área de educação do Governo do Estado do Pernambuco, dedicou toda a sua vida à educação, à direção de escolas.

 

P/1 – Onde eles nasceram?

 

R – Meu pai é oriundo de uma cidade chamada Palmares, mata sul de Pernambuco, uma cidade ainda canavieira, e minha mãe era da cidade de Arcoverde, já é do agreste pernambucano, mais à frente.

 

P/1 – Você chegou a conhecer os seus avôs? Como era o nome dos seus avôs por parte de pai e por parte de mãe?

 

R – Sim, eu creio que até, em alguns momentos da minha vida, eu vivi mais com a minha avó que com a minha mãe. Durante a minha infância, por minha mãe estar cursando a Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), eu, ainda muito pequeno, era deixado na casa de minha avó e ali foi que na verdade eu vivi a minha infância de moleque, de menino. Ainda tive essa chance, ainda vivi essa época da molecada que espera o trem passar... Eu vivi um bom tempo com a minha avó que era casada com o meu avô que era ferroviário, diria que um dos desbravadores mesmo, das primeiras linhas que foram traçadas no Estado de Pernambuco.

 

P/1 – E o que o seu avô fazia na Rede Ferroviária?

 

R – Ele era aquele que, vamos dizer assim, saía no troller. Se não me engano ele entrou na Rede em 1910 ou 1912. Ele ia realmente abrindo, ratificando e abrindo, isso na cidade de Afogados da Ingazeira, no Alto Pajeú, naquelas estações tradicionais, onde está a estação e o vilarejo. Nós fizemos uma visita há mais ou menos cinco anos e, infelizmente, essa estação e esse vilarejo estão praticamente em ruínas, como é muita coisa hoje na memória de cada um deles.

 

P/1 – Como era o nome do seu avô?

 

R – Era Antonio Gomes de Lima.

 

P/1 – Ele era pai do seu pai ou pai da sua mãe?

 

R – Ele era pai de minha mãe.

 

P/1 – Ele nasceu em que região de Pernambuco?

 

R – Olhe, eu vou acertar em relação a minha avó, era da cidade de Belo Jardim, logo após de Caruaru. Agora, do meu avô, eu não vou poder afirmar com certeza, acredito que ele também seja dessa região de Arcoverde, Pesqueira. Se não, vou acertar em Bezerros, é uma cidade junto a Caruaru. Ele era de Bezerros e era um estado vivenciando, ainda, a época do cangaço. Ele viu e viveu essa época.

 

P/1 – Esses eram os pais da sua mãe e os pais do seu pai? Como era o nome deles e o que eles faziam?

 

R – Infelizmente eu não cheguei a conhecê-los. Minha avó era Otília Calado e o meu avô, por parte de pai, para ser bem honesto, nem o nome eu memorizo no momento. Meu pai teve a felicidade, ou a infelicidade, de nascer extremamente pobre. Eu me lembro de quando ele me contou que a primeira calça que ele teve, aos nove anos, foi um saco de açúcar cortado, ainda com o timbre da usina costurado. Era um menino no meio de quatro irmãs, o pai faleceu muito cedo e ficou ele tomando conta das quatro irmãs com a mãe. Aí começou aquele processo que existia muito na época, o de esconder a real idade para ter acesso a oportunidades melhores. O meu pai serviu ao Exército, no Tiro de Guerra, na cidade de Catende, na verdade com dezesseis anos, atestando dezoito, para ter a possibilidade de três refeições e também porque ser soldado do Exército já era um status muito grande para um vilarejo de pessoas desprovidas. E veio toda aquela história da Rede, que, na época, a Great Western of Brazil Railway pegava algumas pessoas simplesmente por estar na rua e ter uma aparência mais ou menos aceitável e foi assim que ele adentrou na Rede.

 

P/1 – Você me falou que enquanto menino você morou com a sua avó materna, que sua mãe trabalhava... Como era essa casa? Eu queria que você falasse um pouquinho da casa dos seus pais, você lembra dela? E como era a casa dessa sua avó, conta um pouquinho pra gente.

 

R – Inicialmente, em relação a casa de meus pais, no ano de 1971, a minha mãe já lecionava, o meu pai trabalhava como torneiro mecânico e, unidas essas rendas, eles podiam não só pagar o aluguel de uma casa de dois quartos, mesmo que muito pequena, mas já numa região privilegiada, em termos da origem deles. Eles estavam no Grande Recife, na cidade de Jaboatão dos Guararapes, fazendo parte, a partir do trabalho, do esforço deles, de um certo reconhecimento na sociedade em que viviam. Eu me lembro, na infância, de um pai muito atuante politicamente, eu diria que até demais, minha mãe também. Eu me lembro de uma casa de telhas, com piso que era colorido simplesmente com aquela pá de pedreiro, era uma coisa rústica, por necessidade, não por opção. Uma casa muito humilde, quintal de barro, calção de pano com elástico costurado... Uma infância de gato no quintal, da espera ansiosa pelo pai chegar fardado da Rede, ou, depois que ele se aposentou, da mãe chegar do trabalho: uma casa feliz. Pequena e feliz. A irmã, com doze, treze anos, cuidando do irmão que tem oito, nove anos.

 

P/1 – Quantas pessoas moravam na casa? Você, seu pai e quem mais?

 

R – Eu, meu pai, minha mãe e meus três irmãos. Meu pai teve um filho do primeiro casamento, José Vanderlan, que hoje mora na cidade de Maceió, mas nós convivemos diariamente eu, minha irmã única e mais dois irmãos.

 

P/1 – E esses irmãos eram mais novos que você?

 

R – A minha irmã é a mais velha, depois dela, eu sou o terceiro na sequência e tem o caçula.

 

P/1 – E como é o nome dos seus irmãos?

 

R – A minha irmã é Márcia Maria Gomes Calado, ela é também Pedagoga. O meu irmão, José Barbosa Calado Júnior, hoje é assessor de um escritório de advocacia em Brasília, está lá há quatro anos, e tem o caçula, que é Luís Augusto Gomes Calado, que trabalha no Metrô de Recife (METROREC) aqui do Estado de Pernambuco.

 

P/1 – Fala um pouquinho, como era o dia a dia na sua casa?

 

R – Na minha casa era sempre aquela impressão do acordar e correr para a escola. A educação aqui no Estado de Pernambuco, na década de 1978, 1979, 1980, ainda era a educação pública que você tinha convicção que o seu filho, sua filha, estava sendo realmente educado. Para se ter uma ideia, eu me lembro muito bem da Escola Bernardo Vieira de Melo, ainda existente, ela tinha uma diretora renomada, dona Odete Vieira. Ela examinava aluno por aluno, olhos, cabelos e, antes de adentrar, nós cantávamos o hino de Jaboatão, o hino de Pernambuco e, se estivéssemos com disposição, o hino Nacional. Entrávamos em fila, era uma época em que a professora - não chamava nem de tia - a professora entrava na sala e a recebíamos de pé, independente da religião, que isso não era muito debatido. O Catolicismo era muito forte, muito presente. Levantávamos, com aquela imagem daquela professora que nos acompanhava da primeira à quarta série. Mas essa configuração que existe no Jardim um, dois, três, e vai, vai, vai... O aluno parece que perde um pouco. Então eu fui agraciado por Deus por lembrar de minha professora Lucila. Aquela senhora, entrando na sala já com vinte e tantos anos de educação, e a gente levantava quase em posição de sentido. E falava: “Bom dia, professora”. Era uma relação idêntica a de casa, era verdadeiramente a extensão da nossa casa. Eu era feliz, era uma época feliz.

 

P/1 – Marcos, vocês levantavam e iam para a escola. E quando voltavam da escola, como era? Vocês almoçavam juntos? Conta para mim como era o cotidiano da sua casa?

 

R – Era chegar, tomar um banho e correr para o quintal, ver se os gatos estavam todos por lá, se a gata tinha tido novamente neném, se a gente ia jogar bola no beco da casa ou se dava para fugir para o campo de futebol próximo. Uma infância onde, no bairro que a gente morava, a minha rua se estendia por mais duzentos metros e, depois disso, era verde: verde, rio, manguezais, era tudo que tinha de maravilhoso. Nessa mesma casa hoje ainda reside a minha irmã, com três filhos. Nesses duzentos metros adiante, você tem quase vinte quilômetros de uma urbanização desorganizada, do rio que antes você aprendia a nadar e bebia água, em condições de fossa, de um depósito de resíduos. É lamentável. Eu tenho a infância na memória diferente dos meus filhos hoje que são criados realmente em uma redoma: são criados em shopping center, em Playstation. Eu vivi isso, quando pessoas de mais idade dizem: “Você devia ter visto a infância que eu tive.” Eu digo: “Talvez eu não tenha visto a infância que o senhor teve, mas eu vivi algo bem próximo”.

 

P/1 – Marcos, como eram as brincadeiras? Você falou que você ia para a casa da sua avó, por que você ia para lá? Como era o cotidiano na casa da sua avó, o que tinha de especial? Conta para a gente um pouquinho como era essa relação com a sua avó.

 

R – Legislando em causa própria, primeiro eu era o mais danado. Sempre soube disso quando pequeno. Minha mãe era extremamente clara como a família de minha avó, de origem clara, branca, a Gomes. A Calado, do meu pai, eu diria que é da minha cor, moreninho. E eu fui, entre os quatro, o moreninho, o agraciado com o moreno. Então, naquela época, quando se dizia: “Uma flor, moreninho”. “Pega isso, moreninho”. Então eu era o moreninho da família, o que puxou ao pai. E era muito danado, com seis, sete anos, minha avó gritava, eu estava no topo do pé de manga, no do mais alto que existisse. Eu era realmente difícil, sofri alguns acidentes... Eu era muito danado. Então minha mãe, depois de lecionar, de cuidar de escolas e de estar na Universidade Católica até às dez e meia da noite, numa época em que transporte público era demais, tinha que dividir um pouco as coisas e eu acabava muito na casa de minha avó, que suportava até o limite e me exilava com dois ou três dias. Mas era maravilhoso em todos os aspectos, como criança, acordando, comendo algo que aqui tem pouco, mas que quem é do nordeste antigo conhece, fruta-pão. Fruta-pão é uma fruta que eu creio que hoje está quase em extinção. Passei brincando de pião, futebol, tudo que hoje dificilmente uma criança tem acesso, não é mais cultura.

 

P/1 – Tinha alguma diferença alimentar? Que tipo de alimento você comia na sua casa, na casa da sua avó?

 

R – Nós que nascemos aqui, naquela época, tradicionalmente, era aquilo que eles estavam habituados a comer, o feijão misturado com a farinha amassado na mão, não era de garfo ou colher. A fruta-pão. A comida tradicional, o inhame, a macaxeira, ovos, essa coisa extremamente regional. É uma alimentação muito gostosa, muito boa, da qual eu tenho muita saudade, muita saudade.

 

P/1 – Marcos, nessa época quais eram as suas brincadeiras favoritas?

 

R – Ah, futebol. Futebol, sempre futebol.

 

P/1 – Quando criança, você e seus irmãos brincavam na estação de trem, como eram essas brincadeiras?

 

R – Não tinha como brincar na estação de trem, porque ela era a instituição de transporte mais útil e preservada. Era uma coisa extremamente séria. Então a estação de trem era o aeroporto de hoje. A gente não pode dizer que uma criança diga: “Hoje, vou me divertir lá no saguão do aeroporto”. Era a mesma coisa: “Posso brincar hoje na plataforma de trem?” Se você tinha necessidade, naquela época, de ir a Recife, você dizia que ia de trem, era uma coisa tradicional, as pessoas se arrumavam para isso. As pessoas tinham necessidade de estar bonitas para passarem pelas catracas da estação, aquelas coisas de ferro que giravam, esperar as ordens, subir no trem e andar naquela janela. A estação não era, de forma alguma, algum lugar que uma criança pudesse brincar.

 

P/1 – E como era a vila da estação, dos trabalhadores? Vocês não moravam na vila?

 

R – Não. Minha mãe morou toda a sua infância em estações, o meu tio também. Por a minha mãe ter vivido dessa forma, eu acabei indo visitar muito esses lugares durante a infância e a juventude e perceber como eles funcionavam. Hoje ainda tenho parentes morando em algumas casas, a maioria foi destruída pelo tempo e pelo descaso, e algumas preservadas pela descendência de família que ficou e persistiu ali. Tradicionalmente, era a pequena estação, não muito grande, e as casas realmente em paralelo e idênticas, isso era uma coisa da arquitetura creio, trazida pelo inglês. Apesar da ausência da energia elétrica, minha mãe estudou toda infância no candeeiro, ela viveu numa cidade onde dez horas da noite as luzes eram apagadas, o padre era “A” autoridade da cidade, o juiz era talvez a terceira ou quarta pessoa, onde a religião tinha um poder enorme, os colégios de freiras, aquela coisa bem regional, coisa de 20 mil pessoas habitando uma praça e um pequeno centro, mas onde a tradição, cuidar da família, era muito presente.

 

P/1 – Marcos, você disse que o seu avô trabalhou na Rede Ferroviária. Explica um pouquinho o que ele fazia, para uma pessoa que é leiga.

 

R – O que eu tenho de conhecimento do meu avô, mesmo porque quando eu era criança, ele já era um homem de 85 anos, andava com muita dificuldade, ele infelizmente devia ter o mal de Alzheimer. Então as histórias que ele fazia questão de repassar pra gente eram as de que ele era um homem de linha, deslocava, ele não tinha uma posição fixa. Essa é a ideia que eu tenho de meu avô na ferrovia, uma ferrovia extremamente primária, bem inicial mesmo. As coisas começando a pegar um embalo maior, essa é a impressão que eu tenho. Não tenho como definir a função dele administrativamente. Sei que ele era um homem de trabalho braçal.

 

P/1 – Ele fazia manutenção das linhas, era isso?

 

R – Eu acredito que sim, usava muito esse transporte denominado troller antigamente, eram dois elementos com aquele movimento e gerava força física para que aquele troller se deslocasse e se tivesse que dormir, onde estivesse, dormia, alojava como soldados em campo de instrução.

 

P/1 – Você se lembra de alguma história que ele contava para você que ficou na sua memória, sobre esse trabalho dele?

 

R – Dele propriamente não, porque realmente quando eu fui deixando a fase de infância, fui parando um pouco para achar interessante o que o meu avô me contava, ele já estava numa idade bem avançada. Eu acho que o meu avô era um profissional muito sério, muito centrado. E me parece que os que têm mais histórias para contar das ferrovias são os que eram mais extrovertidos, mais comunicativos, menos ingleses, eu diria.

 

P/1 – Você falou que seu pai trabalhava na ferrovia, ele era torneiro mecânico. Você sabe como é que ele entrou para a ferrovia?

 

R – Essa história eu lembro bem porque ele dizia na época. Ele foi convidado, como quase todos os que eu conheço. Foi um convite: “O senhor quer vir para a Rede? Quer tentar?” Ele foi como aprendiz para dentro da oficina e ali foi apresentado a ele o trabalho de torneraria, ele foi aprender como autodidata. Ele não tinha sequer a sexta série, não terminou o primeiro grau e foi aprender a arte no dia a dia, como aprendiz e, antes de falecer, chegou a ser chefe de uma equipe grande, foi um torneiro mecânico de sucesso.

 

P/1 – Você sabe quando ele entrou para a Rede Ferroviária?

 

R – Talvez não precisamente. Eu acredito que meu pai seja da época de 1951, 1955, sei que no Golpe de 1964 ele era bem atuante, tanto na Rede como na política.

 

P/1 – E quando você era pequeno, você acostumou alguma vez a ir ao trabalho do seu pai?

 

R – Sim, eu tive a oportunidade de entrar onde hoje é só sucata. As oficinas da Rede Ferroviária Federal S/A (RFFSA) no município de Jaboatão dos Guararapes eram extremamente desenvolvidas e os grandes centros eram Recife e Jaboatão, esse elo, antes de se distribuir para o Estado. Eu vi e me orgulhava muito quando ia ver o meu pai dentro daquela estrutura, de um ambiente ríspido, de aço, de ferro, de muita batida, de chefes sempre muito exigentes. Eu tive essa oportunidade de vê-lo na RFFSA.

 

P/1 – E como era? Qual a imagem que te vem dessa visita que você fez. Descreva para a gente como era essa oficina.

 

R – Eu não sei se a expressão é essa, mas se fosse dizer uma coisa, é muito, muito, ferro. Para mim, a vida desses homens foi ferro. Ferro que se funde, ferro que se refaz, ferro que se retifica, ferro resultando com deslocamento. A própria locomotiva e seus vagões, acho que ela expressa o que era aquele tempo. Muita solda, muito ferro, muita mão machucada, acho que essa é a lembrança que eu tenho, de um lugar ríspido. Era um lugar onde o homem tinha que ser forte.

 

P/1 – O que o torneiro mecânico fazia para a ferrovia?

 

R – Até onde eu tenho conhecimento, o torno mecânico é o instrumento onde se produz todas essas peças que são de encaixe, engate, parafusos... Vamos dizer que é o lapidador: vem o diamante bruto, ele vai lapidar a partir de um projeto. Nós precisamos dessa peça, desse parafuso, desse engate e ele vai, sem poder correr o risco de estrangular, perder a peça. Era um desastre para um torneiro mecânico, como meu pai dizia: “Perder a peça é o fim de mundo”. É como o médico que perde uma criança no parto por falha dele, é a mesma coisa.

 

P/1 – Como era a convivência dessa família enquanto você era pequeno com o resto dos outros trabalhadores, das outras pessoas que trabalhavam na Rede Ferroviária? O que essas famílias de pessoas que trabalhavam na Rede faziam junto? Tinha alguma festa que se comemorava junto, tinha alguma coisa?

 

R – Da infância, o que eu lembro, eu não digo que eu reconheça que meu pai por ser ferroviário tinha um ciclo de convívio fora do trabalho com outros ferroviários, ele tinha o convívio diário, talvez até fora, de encontrar na praça e comentar algo que não se comentou com a oficina. Mas, na minha infância, eu não o vejo com essa coisa do convívio alegre em família com os ferroviários, não. Eu me lembro de uma época em que o Clube Ferroviário patrocinava algumas festas voltadas para os ferroviários, ali sim, eu via a classe ferroviária se divertindo. No Carnaval, eu me lembro de confete, serpentina, aquela dança onde as pessoas dançam em um movimento só, onde o ritmo é aquele que a gente não ouve mais, só se for buscar instrumentos do passado. Marchinhas de carnaval. Eu me lembro muito bem disso. E um dos momentos mais lindos da minha vida é nessa infância, de ver um carnaval realmente popular, feito pelo povo.

 

P/1 – Se eu pedisse que você elegesse um fato marcante na sua infância, que fato seria esse?

 

R – Um fato na minha infância... Eu acho que dos mais alegres foi quando eu imaginei que o meu pai e a minha mãe se separariam. Chegaram a ficar 24 horas distantes e no dia eu acordei, fui para a sala e vi que ele estava lá. Não foi um presente que ele me deu, não foi nada, mas vê-lo ali, de novo, foi o melhor momento da minha infância, em dizer: “Que bom, meu pai está aqui!”

 

P/1 – Marcos, você falou da sua primeira escola, como era o nome dela mesmo?

 

R – Escola Bernardo Vieira de Melo.

 

P/1 – Como era essa escola? Quantos alunos tinham na sala?

 

R – A Escola Bernardo Vieira de Melo ainda hoje funciona. Na década em que eu fui criança, ela era tida como uma das melhores do nosso município. Era uma escola tradicional, creio que de quinze a vinte salas, em uma arquitetura muito agradável, circundada por manguezais, árvores, muito espaço para se brincar, para correr, que era o que nos restava no recreio. Brincar de “pega” era a brincadeira permitida e aceitada. Uma professora extremamente comprometida com cada aluno, era uma professora que conhecia cada aluno como que seu filho. Uma escola muito, muito boa. Às vezes, eu fico me perguntando: “Que motivo pode ter feito a escola que eu estudei ter se transformado e ficado tão diferente? O quê nessa geração é tão diferente?”

 

P/1 – Você estudou da primeira à quarta série e era uma mesma professora. E depois da quarta série você continuou na mesma escola ou não?

 

R – Não, da Bernardo Vieira de Melo eu fui viver essa experiência maravilhosa: fui ser filho da diretora. Como filho da diretora, eu achava que aquilo seria uma coisa fantástica. Muito pelo contrário, no jogo de futebol todo mundo queria quebrar a perna do filho da diretora (risos). Foi uma experiência muito boa porque eu era uma criança ainda e ser o filho da diretora numa escola do município era uma coisa engraçada. O Colégio Municipal Humberto Barradas, fica no bairro de Engenho Velho e, nas mesmas proporções, arquitetura aberta, um espaço pra correr. Não existia, nem de perto, o risco e o perigo que existe hoje, essa coisa do tráfico. A preocupação era saber: “Esse menino quando largar vai chegar em casa logo ou daqui a pouco?” Só. Ele ia fazer uma traquinagem, pegar uma manga. Mas era uma época maravilhosa.

 

P/1 – E nesse período você já tinha vários professores?

 

R – Sim, sim. Já na quinta série era a divisão que eu creio que deve ter existido pra muita gente, a coisa do professor de matemática, de português. Então, quando eu cheguei no colégio Humberto Barradas e me deparei como o filho da diretora e o comportamento alterou-se. Foi o momento que eu repeti de ano duas vezes, minha mãe quase tem um enfarte, uma pedagoga, diretora da escola, com o filho reprovado duas vezes.

 

P/1 – Mas você repetiu de que matéria e por quê?

 

R – Eu não posso ser exato em qual matéria, mas o motivo: jogar futebol, brincar, me divertir. Essa é, na verdade, a realidade. Depois disso, meu pai me disse uma coisa que mexeu muito comigo: “Olha, você vai ser exatamente essa opção que você está fazendo”. Aquilo, o tempo foi me fazendo refletir. Eu não me permito isso, nem permito a meus filhos, de a gente ser displicente com aquilo que nos municia para viver, que é o livro, é o estudo.

 

P/1 – Nessa fase, nessa escola da quinta até a oitava série, teve algum professor que te marcou e por quê?

 

R – Eu diria que da quinta à oitava série não. Para ser sincero, não.

 

P/1 – Quando você saiu dessa escola, você foi para onde?

 

R – Aí, a coisa fica um pouco diferente. Eu estava com quinze anos, foi na época do falecimento de minha mãe e a minha casa desabou. Minha mãe era o alicerce, era tudo. E a morte de minha mãe foi muito repentina. Ela estava trabalhando e, de uma hora para outra, ela descobriu um câncer invasivo e, em três meses, ela foi arrebatada. E a família se desesperou, ela foi à ruína por completo. Meu pai não conseguia conviver em casa, tudo em casa era a minha mãe, ele alugou uma casa e saiu, ficou praticamente enfermo. Minha irmã também. O meu irmão mais velho chegou a entrar numa funerária para fazer orçamento de um caixão para ele mesmo e o caçula, na época com quatorze para quinze anos, já estava inventando de ser pai. Então, o que é que me restou? Estudar. Eu falei: “Eu preciso fazer algo, preciso fazer algo”. E aí, lembrei que minha mãe tinha o desejo de ter um filho na antiga Escola Técnica Federal de Pernambuco, que correspondia na época a uma Universidade Federal, ela era até mesmo mais concorrida em alguns cursos do que a Universidade Federal. Mas ela era restrita, no ano de 1988, aos alunos extremamente destacados ou da classe média que tinha condições de pagar. E eu olhei aquilo e disse: “Eu vou entrar nessa escola”. Meu pai disse: “Você não entra não, filho, é difícil.” “Vou entrar só para agradar mamãe, quero ficar lá.” Aí, eu me tranquei mesmo para o mundo, passava dias e noites estudando, estudando, estudando, aí, passei. Do meu bairro, da minha cidade, fui o único aprovado. Era vinte mil alunos para duzentos vagas, alguma coisa desse tipo. Consegui a aprovação no ano de 1988, com dezesseis anos, era o mais jovem da turma de Eletrotécnica, à noite, na Escola Técnica Federal de Pernambuco, que hoje é o Centro Federal de Educação Tecnológica de Pernambuco (Cefet). A partir daí, foi que realmente eu fui começar a viver, fui conhecer professores com ideologias, com utopias. O presidente hoje, Luís Inácio Lula da Silva era o velho operário persistente, eu era um aluno que chegava a uma escola que era não só de muitos alunos de mentalidade esquerdista, mas de professores também, remanescentes da época da luta pela redemocratização, do José Sarney terminando o mandato, se não me engano, muito desgastado. A esperança de Collor aflorando. Então, na campanha de Collor com o Lula, eu me lembro como hoje, eu cheguei a me deslocar da Escola Técnica, com dezessete anos, para a Avenida Dantas Barreto, a principal avenida de Recife, para ouvir o metalúrgico Luís Inácio Lula da Silva e vivi aquele momento, daquela perda para Collor e vi aquela bipolaridade da esquerda quando ele entra.

 

P/1 – Marcos, como é que era, nessa fase de adolescência, o seu grupo de amigos e o que vocês faziam? Porque aí você já está em uma fase de adolescência, que tipo de brincadeiras ou de coisas vocês faziam pra se divertir?

 

R – Eu creio que, por não haver naquela época a coisa da globalização, do computador, a sua amizade se restringia mais a sua rua. Então, os meus amigos dessa infância eram os amigos da rua, você ser amigo de alguém de duas ruas à frente era uma coisa estranha dele conseguir vir para dentro do seu feudo. Era uma coisa diferente. O amigo era sempre o da casa ao lado. A rua era o marco que delimitava aquela amizade. Então, se você saísse da sua rua e fosse jogar num campo um pouco próximo, você já estava em um território meio estrangeiro, era uma infância, bem infantil, bem sem maldade.

 

P/1 – E o que vocês faziam para se divertir?

 

R – Na maioria das vezes, futebol, mas também era moda na época, era um brinquedo que quase não se vê, ou se consegue ver de uma forma produzida, industrializada, que é o carrinho de rolimã, era uma simples madeira cruzada, duas rolimãs, quando se conseguia comprar. E ladeira abaixo. Eu tenho cicatrizes até hoje na mão dessa diversão. Era esse tipo de coisa, era muito: “Vamos criar.” A gente criava muitas das brincadeiras.

 

P/1 – Como era a cidade de Jaboatão nessa sua fase de infância, adolescência. Descreva um pouco essa cidade, como é que ela era?

 

R – A Jaboatão que eu nasci talvez tivesse um sexto do tamanho que ela tem hoje. Eu estou me restringindo a parte em que eu nasci e me criei, denominada “Jaboatão Velho”. Jaboatão, na verdade, é uma cidade que dentro do Grande Recife, ela é a segunda em arrecadação, creio que também em tamanho, depois é que vem a cidade de Petrolina. Então, Jaboatão tem o antigo centro, chamado Centro Velho, tem a região das praias, fronteiriça ao bairro de Boa Viagem, Recife, e também se estende... Jaboatão é enorme. Mas a Jaboatão que eu vivi, ela era um sexto do tamanho que tem hoje. Ela era pequena, muito bem organizada. As pessoas se conheciam e se cumprimentavam. Uma morte era algo que comovia, um assalto chamava muito a atenção. Hoje, eu diria que ela é justamente o inverso.

 

P/1 – Voltando, Marcos, eu queria que você descrevesse um pouquinho a cidade de Jaboatão na sua fase de infância e adolescência.

 

R – Jaboatão, na época em que eu nasci, no ano de 1971 e a partir do momento que eu posso ter lembranças dessa cidade, era, eu creio que, um sexto do tamanho de hoje. Era uma cidade pequena, onde as pessoas se conheciam, muito semelhante a uma cidade do interior. Eu acho que nós nos sentíamos interioranos. Hoje, a Jaboatão que a gente conhece ela é, como o próprio nome diz, ela é do Grande Recife, uma extensão imensa do Recife. Mas o Jaboatão Velho, o Jaboatão que deu origem a cidade, não a região praiana, mas a que começou com os engenhos de açúcar, a que coincidiu com o surgimento dos primeiros habitantes que ali povoavam e a que eu conheci em 1976, 1977, como criança, era uma cidade maravilhosa, maravilhosa. Muito bonita.

 

P/1 – Que festas tinham nessa época que eram típicas da cidade ou religiosas? O que era que tinha de interessante nessa cidade que a gente pode falar, festa junina ou alguma festa típica da região.

 

R – A festa que eu me recordo, das que eu mais achava bonita em Jaboatão, é a que hoje é a festa de todos nós que fazemos essa nação, mas que, devido a vários fatores, se alterou, deixou muito da sua beleza, que é o Carnaval. O Carnaval que eu vi na minha cidade era o Carnaval de um molhar o outro como brincadeira, do melar o seu rosto e do ir ao baile fantasiado, ainda vi isso como criança. E a festa do padroeiro da cidade que é ainda hoje realizada mas que, eu creio que devido à grande ascensão do Protestantismo, ela não tem mais aquela mesma dimensão.

 

P/1 – Quem é o padroeiro da cidade?

 

R – É Santo Amaro.

 

P/1 – E como é essa festa de Santo Amaro? Descreve para a gente.

 

R – Ela tem uma tradição que durante quinze dias seguidos, o andor com o padroeiro sai de uma casa pré-estabelecida de um bairro, vai até a Matriz, é rezada uma missa. Logo após a missa, como na grande maioria desses eventos, tem a festa profana, que era a roda gigante, o tradicional bote, um brinquedo que uma criança, ao puxar e a outra também, fazia com que esse bote fosse um balanço em forma de barco para dois. Os brinquedos eram muito artesanais, os carrinhos que giravam eram literalmente de madeira, tudo de madeira. Eu me lembro desse parque infantil ainda. Hoje, eu não posso dizer que eu não veja mais isso, mas a festa de Jaboatão, onde eu nasci, se resumia mais fortemente no Carnaval popular de rua e na festa do padroeiro.

 

P/1 – Logo depois que sua mãe vem a falecer, você começa a estudar aqui no colégio técnico de Recife, e como era o seu dia a dia? O que você fazia durante o dia, como que era?

 

R – Bem, logo após eu entrar para a Escola Técnica, eu comecei a lidar com pessoas diferentes das que eu estava acostumado. Naquela época, você nascer em Jaboatão e, de repente, estudar dentro de uma escola técnica concorrida, você vai lidar com pessoas diferenciadas da sociedade. Para mim aquilo foi quase um ressurgimento de quem se encontrava muito triste. Ali eu conheci grandes professores, bons professore e visualizei uma outra forma de estudo, saía da banquinha da tia para um estudo muito mais voltado para o técnico, na parte em que era com uma política muito mais aprofundada. Ali, eu me fascinei com aquilo. E fascinei muito. Eu também já estava começando a viver a necessidade da questão financeira, a minha mãe era uma pessoa que tinha um comprometimento, uma parcela muito grande da nossa vida era ligada aos proventos de minha mãe. E meu pai ficou só nesse sentido, todos éramos menores de idade, e veio logo aquela coisa: “Preciso fazer alguma coisa, como meu pai um dia precisou”. E veio um conselho dele: “Olha meu filho, você está nessa escola, parabéns, eu estou orgulhoso de você. Mas acho que a escola da vida, para mim, é que vai fazer uma diferença pra você”. Eu imaginei mil e umas e ele falou: “Vai para o Exército Brasileiro”. E eu, com dezessete anos e seis meses, me apresentei no 14º Batalhão de Infantaria Motorizada, que é em Jaboatão, um batalhão extremamente renomado das Forças Armadas para quem conviveu e sabe o que é um regimento de infantaria. Ao me deparar com o sargento entrevistador na época, eu dizia que sim, que queria ficar, ele foi o primeiro a não querer permitir porque, com as palavras dele: “Como é que você que está na escola técnica quer ficar aqui?” “Sei lá, meu pai disse que é bom para mim”. E ele estava certo, foi um dos lugares em que eu fui mais feliz, onde me saí bem, eu pedi baixa imediata para retornar para a escola técnica, mas em nove meses e dois dias, eu que entrei como conscrito, saí como sargento na reserva.

 

P/1 – Então você chegou a servir o Exército?

 

R – Servi. Eu saí da escola do Exército Brasileiro com o Comandante Hélio Seabra Monteiro de Barros, hoje, certamente, já general de pijama. Era um regimento extremamente duro, não só no adestramento militar, na vida, nas regras e nas comissões. Mas o nacionalismo ali era uma coisa levada muito a sério e eu me recordo da visita do Ministro Tinoco (Carlos Tinoco Ribeiro Gomes) ao nosso batalhão, na época o Fernando Collor o tinha nomeado. E eu saía de um ambiente saudoso do regime militar e me deparava, à noite, com o ambiente esquerdista, alunos de mentalidade esquerdista. Eu vivi uma polaridade meio engraçada nesse sentido.

 

P/1 – E o que você fazia no Exército, como era o seu dia a dia lá?

 

R – Os três primeiros meses de quem ingressa no Exército, e acredito que ainda seja assim, é o período básico que é extremamente severo. É difícil, é muito difícil entrar naquela linha. Depois desse período básico, acredito que o oficial, o Sargento, identifica aquele que ele quer para si com alguma atividade. E por estar dentro da escola técnica e antes da minha mãe morrer eu fui um dos primeiros alunos do curso de Informática do Recife, quando não existia nem Windows, nem mouse, eu comecei a programar computadores naquela época, minha mãe falou: “Eu acho que ele tem jeito pra isso.” Quando eu cheguei no Exército, em 1990, a informática, a internet, se não me engano, ainda era uma coisa bem americana. Então, eu cheguei com essa mentalidade, esse pequeno currículo e fui logo deslocado para trabalhar no comando, assumi a função de rádio-operador do Batalhão. Eu fazia parte de comunicação do Batalhão, mensagens sigilosas. Passei a conviver com o Comandante, o meu convívio com os soldados que entraram comigo foi quase simbólico, em três meses. Com seis meses, como eu tinha feito a opção para sair na primeira baixa, especial, para voltar para a escola técnica, eu fui promovido urgente a cabo pra poder ser premiado a ficar na reserva como Sargento, o que não é uma coisa muito comum, modéstia a parte não era uma coisa muito comum. De todos os que incorporaram, 1200, eu acho que fui o único.

 

P/1 – E como foi, nessa fase, a convivência com a sua família, com o seu pai? Ele continuava trabalhando nessa época?

 

R – Sim, sim. O meu pai dizia que homem não morre quando é sepultado, ele morre quando fica em casa e eu levo isso muito a sério, porque após aposentar-se pela Rede, ele trabalhou em umas dez empresas privadas, chegou a chefe em muitas delas. Ele nunca aceitou a casa. Ele dizia que a casa era o lugar do homem deitar a cabeça e descansar e de, no fim de semana, almoçar com a família, mas o homem morre não quando ele é sepultado, morre quando ele diz: “Eu me aposentei, eu parei, vou ficar aqui nessa cadeira de balanço, esperando a morte chegar”. Então ele morreu em plena atividade. Eu tirei o meu pai de dentro da entidade que ele trabalhava para levá-lo ao hospital para uma cirurgia e, infelizmente, ele não voltou. Mas, em momento algum na vida dele, ele aceitou a palavra aposentado.

 

P/1 – Marcos, o seu pai falava das dificuldades do trabalho que ele encontrava na Rede?

 

R – Quando ele conversava comigo, eu creio que a maior dificuldade dele era da época de aprendiz. Naquela época, a gente não tinha a legislação judicial que a gente tem hoje, a gente não tinha os ramos de direito que a gente tem hoje. A ideia, principalmente do racismo, era uma coisa muito aberta... Então, acredito que ele não era um negro na essência, mas ele, por ser mulato, ele se sentia em alguns momentos. O inglês daquela época que ele teve acesso, não só em Catende, mas como em outras cidades, era um inglês preconceituoso. Eu me lembro de um caso que ele me contou, da primeira oportunidade dele ser chefe. E a pessoa indicou o meu pai para ser chefe, o inglês perguntou: “Quem você indica?” E esse cidadão que tinha essa autonomia, de longe chamou um colega do meu pai e o inglês bem baixinho, ao lado do meu pai: “Não, negro não”. Quer dizer, a competência não justificava, não sobressaia. Ele ainda pegou essa época. Eu acredito que depois do governo Juscelino isso foi ficando mais subentendido. Eu creio que quem fez parte dessa época, quem foi ferroviário vai ter uma definição melhor. Como filho, a gente fica até temeroso de estar dizendo algo... Mas eu recordo do meu pai dizer isso, recordo, assim como eu convivo ainda hoje com ferroviários que citam também isso. O preconceito foi muito forte, talvez não muito no Nordeste, mas eu creio que no Sul foi muito mais forte.

 

P/1 – Ele contava para você como era o trabalho dentro das oficinas, como eram as oficinas? Porque ele trabalhava na oficina de Jaboatão. Como era feito os socorros, ele contava essas coisas pra você?

 

R – Eu creio que por ser torneiro mecânico ele tinha uma função fixa. Parecia muito que a Rede para ele era o torno dele, não conseguia ver toda a engrenagem como um todo. Porque acho que existem duas coisas a perceber sobre o ferroviário: é aquele que ficou estático com uma função técnica e aquele que andou, ou no trem pagador ou como um maquinista, ele tem uma visão extremamente diferente do torneiro, são ferroviários com visões extremamente diferentes. Eu tive a oportunidade de ver isso durante muito tempo, de ver o ferroviário que foi maquinista, o ferroviário que foi fixo, são cabeças bem diferentes, mas a Rede, que eu tenho a visão e que eu ouvia meu pai falar, era sempre isso: “Meu filho, muito ferro ao redor, eu não aguento mais ver ferro. Muito metal”.

 

P/1 – Marcos, você falou que o seu pai teve uma atuação política também dentro da Rede Ferroviária. Eu queria que você falasse um pouquinho como surgiu a Associação dos Ferroviários do Nordeste (AFN), que ele foi um dos fundadores, do próprio Clube dos Ferroviários de Jaboatão.

 

R – Meu pai, eu creio que pela origem humilde que ele teve, por ter nascido de uma origem tão humilde, tentando entender o que ele me dizia do meu ponto de vista, a ideia do Comunismo, do Marxismo, a ideia do operário no poder, ela fascinou muita gente. Jaboatão foi conhecida, em alguns momentos de sua história, como “Moscouzinho”, uma cidade impregnada de comunistas. Eu creio que, nessa vivência, meu pai, por ser uma pessoa muito comunicativa, apesar do nome Calado, para ele a política era a arma pela qual o pobre tinha alguma chance. A sua espada era o livro, ele dizia muito isso: “O livro é a espada”. E a comunicação, o falar, é a única coisa que pode mudar o homem. Ele se envolveu muito com isso dentro do município que ele viveu, Jaboatão dos Guararapes. Na juventude, ele conheceu o recém-falecido deputado federal José Geraldo de Almeida Melo, que foi prefeito de Jaboatão dos Guararapes por dois mandatos, foi deputado federal constituinte ao lado de Lula, foi deputado estadual mais de três vezes, e faleceu há mais ou menos trinta ou noventa dias. Eles se conheceram jovens e o meu pai, envolvido com ele, participou da primeira campanha dele a prefeito e ele conseguiu êxito, foi prefeito de Jaboatão e meu pai, em um determinado momento, junto a outros ferroviários, já aposentados, no ano de 1980, perceberam que teriam direito não apenas a um tipo de provento de aposentadoria, teriam direito a dois. Então foi montada uma comitiva onde o deputado Geraldo Melo, levando cinco a seis pessoas, Edgar Viana de Oliveira, entre outros, foram à Brasília, e junto ao Ministro dos Transportes, na época, visualizou-se esse direito desde que fosse constituída uma entidade de classe. Constituir uma entidade de classe ainda em regime militar, 1980, era para os ferroviários algo difícil. Mas se conseguiu. Foi montada a Associação dos Ferroviários do Nordeste, o seu pleito inicial foi conseguir a dupla aposentadoria. De lá para cá, ela vem agindo com várias atribuições. Eu diria que meu pai chegou a Jaboatão com uma formação esquerdista, o sonho marxista tinha tocado a sua alma. Eu me lembro como criança que o meu pai era um homem de palavras de esquerda, mas por ser casado com uma mulher extremamente católica e por haver a tradição, um passado que o comunismo estava muito ligado à ideia do ateísmo, do Estado sobre a religião, pelo padre ainda dizer que comunismo era coisa de ateu, havia muito esse combate. Mas por estar ao lado desse José Geraldo de Almeida Melo, que era uma homem do Movimento Democrático Brasileiro (MDB), que conseguia, um dos nossos fundadores e sócio benemérito foi o ex-presidente e senador, Marco Maciel. Eu me lembro dele, eu criança, ele assinando um livro de ouro nosso, o Marco Maciel foi um dos fundadores e conseguiu o que ele dizia na política, conviver com todos os lados. Mas ele era um homem de esquerda, onde o deputado José Geraldo de Almeida Melo conseguiu ser aceito ainda pelo Regime Militar que se findava, sem esconder a sua admiração e ligação com as Ligas Camponesas de Francisco Julião. O Geraldo Melo chegou muitas vezes - existe literatura sobre isso - a pegar uma ex-perseguida que estava desempregada e trazer para dentro da Prefeitura para aquela pessoa não ser vista como uma pessoa desordeira ou comunista. Houve todo um processo político muito forte, uma época que eu queria ter vivido. Eu sempre perguntava para o meu pai: “Pai, onde é que o senhor estava na noite de 1964?” Ele dizia: “Bem, na noite anterior, eu estava falando uma coisa na praça e dois dias depois eu achei melhor dar uma volta” (risos). Então, essa ligação política do meu pai com a vivência foi a grande escola da minha vida. Você tem o direito de nascer pobre, bem, a gente não faz essa escolha, mas tem o direito de reagir e a pobreza que ele dizia era a pobreza da ausência do meio em que se vive. Você precisa saber onde você vive, precisa conviver com isso. Você precisa transformar as coisas ao seu redor, mover-se, ser reconhecido pela comunicação, pelo trabalho, formar algo em comunidade. Acho que o meu pai se resumia em fazer parte da comunidade como um todo. A ideia comunista do “comuns entre si” talvez não era a ideia dele, talvez a ideia dele fosse: “Vamos formar uma coisa grande.” Ele foi assim como cidadão, como pai, como tudo.

 

P/1 – Como foi a relação dele com o Clube dos Ferroviários?

 

R – Ele foi um dos diretores do Clube Ferroviário, não o Clube Ferroviário fisicamente posto como hoje, aquela coisa que está sobre a terra. Antes da Companhia Ferroviária do Nordeste (CFN) chegar, o Governo Fernando Henrique, da privatização, o Clube Ferroviário era subterrâneo na cidade, a estação era o ápice, o ponto encantador da cidade. Ele, como pessoa muito atuante, foi ser um dos diretores desse clube, que era única e exclusivamente voltado para a atividade ferroviária. Hoje esse clube existe? Existe, mas digamos que tem 99% das ações voltadas pra diversas atividades, não direcionado única e exclusivamente para o ferroviário.

 

P/1 – Quais eram essas atividades voltadas ao ferroviário?

 

R – Administrar, cuidar do patrimônio, dirigir a instituição, a classe. Ele respondia pela administração do clube e era assim que funcionava. Era um clube que tinha que estar apto a eventos, a tudo que fosse ligado ao ferroviário, à família do ferroviário. Ser ferroviário naquela época, na década de 1970, principalmente, ainda era uma coisa chamada “ser elitizado”, ser uma classe bonita. O ferroviário foi extremamente isso em Jaboatão dos Guararapes, ele movimentava o comércio. O comércio esperava o dia do pagamento do ferroviário. Pesquisa política era feita em cima dele, aquilo que o ferroviário dizia: “Olha, acho que vai ganhar fulano.” Era isso que se seguia. A classe tinha um poder muito grande porque a cidade não era essa coisa macro, era micro. Ali, eles, por fazer a coisa funcionar, como o trem, o meio principal, eram os servidores da cidade. Hoje, vamos dizer que seja o desembargador, o funcionário do Banco do Brasil, da Caixa Econômica. Bem, eu me lembro de uma época maravilhosa, onde era o ferroviário.

 

P/1 – Marcos, como era a estação do Jaboatão? Conta para a gente como ela era. Você está falando de uma classe de ferroviários que vivia na cidade de Jaboatão. Como é que as coisas se davam em volta da estação?

 

R – Todas as cidades de Pernambuco que eu conheço, e são muitas, onde o trem foi forte, a estação de trem está sempre bem localizada. Ela foi projetada para ser o centro das atenções. Na nossa cidade, ela também foi dessa forma, ela está projetada frontalmente à Prefeitura da cidade que hoje, infelizmente, é subprefeitura. Então, um lugar tradicionalmente com o coreto, a praça, a estação. À noite, as pessoas passeavam, viam o trem chegar, o apito, as famílias aguardando as outras. Arquitetura bem semelhante a todas as outras que nós encontramos. A plataforma de desembarque, a sala do chefe, os sinos pendurados, horário, os quepes, o apito, a bandeirinha, as boas imagens. Hoje, na cidade, essa que eu me refiro, ela é, na essência da palavra, ruínas no centro da cidade. Cidades como Gravatá, a sessenta quilômetros da Grande Recife, conseguiu implementar ali o Centro Cultural. Eu creio que quando se uniu a coisa da privatização, quando a CFN disse: “Eu vou ficar com aquilo que me interessa”. O restante, não houve o cuidado com o grupo político de cada cidade em preservar, se transformou no que hoje a gente lamentavelmente tem na nossa cidade. O que foi orgulho hoje é extremamente lamentável.

 

P/1 – Você trouxe essa coisa da imagem dos passageiros chegando, do apito. Em Jaboatão tinha transporte de carga também?

 

R – Sim, aos meus doze anos, eu cheguei a fazer a maior das viagens que eu fiz, saindo de Jaboatão de Guararapes, aqui em Pernambuco, indo ao Crato, no Ceará. Nós saímos aqui, como hoje, às duas horas da tarde, chegamos ao Crato, no Ceará, às dez horas da manhã do dia seguinte. Eu me recordo que todas as horas eu ficava de olhos abertos, contemplando uma paisagem maravilhosa daqui para o Ceará. Mas aquele trem aberto, onde era o restaurante que tinham as mesas de madeira onde o feijão era aquele feijão preto, farinha e o bode. E a pessoa que te servia era alguém que estava com uma farda de trabalho. E você dizer que estava na primeira classe já era uma coisa chique.

 

P/1 – Como era o vagão?

 

R – O vagão era extremamente rústico, estilo RFFSA, como você pode imaginar. Onde você estava viajando, se fosse primeira classe, a poltrona seria acolchoada. Mas sempre não ultrapassando a altura do pescoço, você não tinha nem sequer o encosto. Na classe que não fosse primeira, a segunda, essa cadeira que você estava não descia nem sequer um segundo, era uma só para duas ou três pessoas, quer dizer, não se podia um escolher fazer isso, ou aquilo, sem que todos concordassem e você faria as refeições ali mesmo, não iria para o vagão restaurante. Quer dizer, a ideia de diferença de classes no trem nos ajudava na vida, porque se eu dissesse que estava na primeira classe, e eu estivesse na terceira, eu podia pensar: “Sim, mas não está tão distante de mim, não, lá não é tão primeira classe assim”. É diferente de algumas coisas hoje em dia, onde estar na terceira classe é uma diferença extremamente gritante para a primeira. Eu achava fascinante isso, tudo era muito simples, mas eu não via as pessoas reclamarem como reclamam hoje quando estão dentro de um metrô climatizado. Eu não consigo conceber essa ideia, eu vivi um tempo que as pessoas tinham seus problemas, tinham seus estresses, todos tinham, a época não isenta ninguém de problemas. Mas me parece que a coisa do balanço, aquele som: “Tec-tec tec-tec-tec...” Que o ferroviário conhece tanto, aquela coisa parece que nos levava para uma espécie de mundo das ideias onde a gente contemplava mais a natureza que era uma natureza a cada segundo. A gente estava muito próximo da pedra do trilho, daqui a pouco vinha um túnel, as crianças: “Ehhh... Ehh!” Tudo era muito, muito bom.

 

P/1 – Nessa viagem que você fez para Crato, como era a paisagem? Você falou da paisagem, que você foi olhando. O que mudava? Da percepção que você teve na época e que você consegue trazer para hoje, quais eram as diferenças?

 

R – Para gente daquela época, uma viagem como essas era como a do americano ir a primeira vez à lua. A minha primeira viagem de trem e a mais longa de minha vida até então foi para o Crato. Olhando para o mapa, eu não acreditava que eu iria atravessar aquela fronteira, o que teria aquela fronteira? Será que é um muro imenso? O que será que acontece naquele momento que eu deixo de estar em Pernambuco e passo a estar no Ceará? Como será o homem do Ceará, será igual? Tudo era novidade. O deslocar-se era uma coisa diferente de hoje, hoje eu estou aqui, amanhã eu estou aí, é uma coisa que fascina, mas tira muito do romantismo, porque essa ida ao Ceará foi um verdadeiro conto de fadas, uma coisa fantástica. O trem era magia. As paisagens eram magia. O avião não me mostra isso, o avião me mostra uma imensidão, uma contemplação de céu maravilhosa, sim, mas nada é mais detalhista como você andar em um trem que balança... Em árvores que chegam a tocar o seu rosto, se você não se proteger. É uma integração à natureza onde você está andando sobre ela e está tocando nela ao mesmo tempo.

 

P/1 – Como é que era essa paisagem? O que diferenciava? Onde você conseguia perceber? Que tipo de plantações tinha nesse caminho?

 

R – Saindo de Jaboatão, você tem uma visão do agreste. Eu me recordo, esse trem seguia no sentido da cidade Sousa e Patos na Paraíba. Então, você sai no trajeto central do agreste e depois você sobe, no mapa de Pernambuco, para atingir a cidade de Sousa, que é mais ou menos no centro da Paraíba, e mais a frente, a cidade de Patos. Então, a imagem, até um determinado momento em que você está dentro de Pernambuco, era uma coisa muito montanhosa, visões maravilhosas mesmo, coisas fascinantes.

 

P/1 – O que era fascinante?

 

R – Muito verde, muito céu, muitos pássaros, muito lago, muito menino correndo nos pequenos vilarejos esperando o trem passar, alguns até para jogar uma pequena pedra, mas... Então, nós nos sentíamos, eu poderia dizer, como se fossemos pop-star, aquele menino que nasceu muito mais distante naquela época, dentro de um vilarejo, espera o grande momento da nave espacial passar: o trem, com seus alienígenas dentro. Eu vi muito isso quando criança, olhava e dizia: “Meu Deus, eu vejo um menino muito mais humilde do que eu me acho.” Eu pensava essas coisas quando eu era criança. Quando eu conversava com crianças de cidades pequenas eu percebia isso, o trem era a nave... O trem era a nave, eu achava isso muito bonito.

 

P/1 – Marcos, você estava nos falando da sua viagem à Crato. Que estações que você passou e te marcaram? Como era essa estação? Tinha uma vila em volta, tinha comércio? Como era?

 

R – Não havia nessa época, até por ter restaurante a bordo, essa coisa da parada do trem, para alguma forma de desembarque, que eu me recordo. É evidente que era um tipo de transporte que a gente se deparava muito com poeira, então, a gente se sentia sempre um pouco empoeirado, mas aquela dimensão de liberdade e de novidade a cada minuto, acho que supria essa dificuldade de estar em um trem. As cidades que eu me recordo dessa viagem por terem me chamado a atenção são as duas cidades pelo próprio tamanho que tinham, que era Sousa, onde se não me engano nós passamos de madrugada, e Patos, por ser uma cidade muito grande e muito organizada. Eu tenho uma recordação disso. No trajeto, a gente visualizava um Brasil que a gente desconhecia, aqueles pequenos vilarejos onde o trem passava. Para mim, na minha infância, eu não conhecia aquilo, aquela dimensão. Eu nunca tinha me deslocado tantos quilômetros do lugar que eu tinha nascido, foi tudo muito novo. Quando eu desembarquei no Crato, quando fui à imagem do Padre Cícero no Juazeiro do Norte eu me sentia, guardada as proporções, como um astronauta em outro planeta, para mim aquilo era um fascínio.

 

P/1 – Vocês foram a Crato por quê?

 

R – Na verdade, meu pai foi visitar um amigo que há muito tempo ele não o via e de Crato, ele nos levou a Juazeiro do Norte, que é uma cidade próxima, conhecemos o Padre Cícero, toda aquela coisa e retornamos. Um passeio em família maravilhoso.

 

P/1 – Você lembra de alguma outra viagem sua de trem?

 

R – De trem, muito entre Jaboatão e Recife. O trem era o meio de transporte do Estado, eu diria. Que eu me recorde, a aviação era uma coisa muito restrita à elite. O ônibus, para o assalariado, era algo bastante caro em relação ao preço do trem, então, o trem era o lugar onde as pessoas se batiam.

 

P/1 – Como era a estação de Recife? Descreva-a para a gente.

 

R – Era bonita para a época. Lembrava muito a figura do próprio ferroviário, acho que a estação ferroviária é a cara do ferroviário. Ela é rústica por natureza, mas por dentro não perde a essência, um certo ser carinhoso, uma pessoa de bom coração. Não sei se estou conseguindo expressar. Era uma estação super movimentada, mas que não perdia a essência da beleza da coisa que era uma estação ferroviária, porque, a meu ver, todas elas eram muito bonitas.

 

P/1 – A rotunda, onde ficavam as locomotivas, tinha na estação de Recife ou não?

 

R – Tinha. Tinha o setor administrativo, eu me recordo, o movimento do trem era algo assim: o trem que chega, o operador que livra essa máquina para alçar e retornar. Então, a imagem da gente que fica, que desembarca, é sempre daquele homem de chapéu que apitava sinalizando: “Sai logo porque vão embarcar...” Era já aquela coisa do apressado: “Vamos logo”. Mas era sempre uma forma humana de lidar e eu tinha aquilo como um dos grandes momentos que eu precisava ir com o meu pai ou minha mãe à Recife, e eu sabia que ia pegar o trem, era uma coisa que qualquer um adorava, era muito bom.

 

P/1 – Marcos, voltando um pouquinho, como é que os seus pais se conheceram?

 

R – Num trem (risos).

 

P/1 – Ah, é? Conta para gente como foi essa história.

 

R – A história que eu tenho ciência é a de que o meu pai viu a minha mãe pela primeira vez num trem. Ela, na época, morava na cidade de Gravatá, ele estava chegando a Jaboatão e o destino os colocou no trem. Ele fingia que lia o jornal, mentira, estava olhando para ela. Minha mãe era loura, uma mulher branca, de cabelo castanho, muito bonita, minha mãe era linda. E ele enlouqueceu. Mas meu avô e minha avó, uma família de brancos, interiorana, a imagem de um moreno paquerando a minha mãe não foi logo admitida. Mas é nesses momentos que a gente entende o que era o ferroviário, quando se tomou ciência que aquele homem que paquerava a minha mãe à distância era ferroviário, as coisas mudaram um pouco. Depois que ele conseguiu se aproximar, conheceu o meu avô e minha avó, eles o tratavam como um de seus melhores filhos. Meu avô fez questão de viver seus últimos dias dentro da casa de meu pai, assim como minha avó. Era uma coisa bonita.

 

P/2 – Tinha uma identificação dos dois por serem ferroviários?

 

R – Muita, nesse sentido sim. Meu avô mesmo estando em fim de carreira e meu pai vivendo, tinha. Eu acho que ferroviário, que eu conheço, ele é por natureza, como o pernambucano, meio arengador, ele gosta de brigar por algum motivo, que discute. Mas na hora crucial ele se une, ele se relaciona. E quando eles convivem, por menor tempo que seja, eles se tratam como irmãos, isso eu percebo em todos eles. Eles podem, por algum motivo, ter grandes diversidades, até se aliarem por algum tema, mas na hora da essência da coisa, eles se tratam como irmãos, é muito forte essa irmandade dentro da Rede. Eu acho isso, penso isso, com os que eu convivo.

 

P/1 – Marcos, voltando um pouquinho. Depois que você saiu do Exército, terminou o colégio técnico e aí, o que você foi fazer? Você começou a trabalhar, qual foi a sua primeira atividade profissional?

 

R – Quando eu entrei na escola técnica, me maravilhei com ela, mas logo me dei de cara, no terceiro ou quarto período, num curso de oito, que eu odiava eletricidade. A ideia de estudar eletricidade não me fascinava. Eu já estudava informática, os primeiros computadores que chegaram a Recife e o sucesso, top de linha, que a classe elitizada poderia ter era o chamado Gradiente, na época, 1989. Então, era impossível esse acesso, era uma coisa da elite pernambucana ter um filho que dissesse que tinha isso. Onde eu poderia tentar treinar a programação criada pelo tão conhecido Bill Gates? Era ter acesso a cursos. Quando surgiu o primeiro Windows, “3.11”, eu procurei um mestre na escola técnica e disse: “Não gosto disso”. Ele falou: “Então, o que você está esperando aqui? Diga isso a seu pai”. Quando eu procurei o meu pai para dizer que não iria seguir na escola técnica, ele teve um grande choque e disse: “Fique livre, fique à vontade.” Quando eu também disse que sairia do exército ele ficou meio sem entender. Na verdade, eu estava em busca de novos horizontes, né? Nessa época, eu fui estudar informática que ainda ia chegar, vamos dizer assim. Eu vivi estudando programação de computadores, eu queria entender o fascínio do computador, ele me fascinava. Eu dormia muito pouco estudando computadores. Então, quando eu consegui ter acesso a um, eu vi que tinha jeito para aquilo. Em 1992, eu fui convidado para trabalhar numa secretaria política, já na prefeitura da cidade de Paulista. É uma cidade litorânea aqui, ao lado de Olinda. Lá eu trabalhei em uma secretaria de Relações Públicas, foi uma experiência interessante e vim seguindo minha vida, trabalhando com Informática, busquei especialização em escolas como Instituto Brasileiro de Tecnologia (Ibratec), o Instituto de Tecnologia de Pernambuco (Itep) e também uma passagem pelo Departamento de Trânsito do Estado de Pernambuco (Detran), uma passagem de sete a oito anos. E isso foi uma sequência que eu não sei enumerar com certeza porque eu sempre procurei sobreviver. Então, onde estava uma oportunidade, eu ia. Passei muito tempo da minha vida ligado à Informática, estudando ela a fundo. E, depois, eu me apaixonei pelo que eu sempre gostei na verdade, que era o Direito, estou tentando concluir o meu curso. Porque no meio disso existe o risco de se apaixonar, o risco de casar, o risco de ser pai e, por vários fatores, eu tive que parar sonhos profissionais por questão de sobrevivência.

 

P/1 – Quando você se casou?

 

R – Eu me casei em 1994, com a minha primeira namorada. Nós nos conhecemos com doze anos, morando no mesmo bairro, crianças, aos treze anos perdemos o medo de dar as mãos, nós vivemos essa época, e nos casamos aos 22 anos.

 

P/1 – Como é o nome dela?

 

R – É Vanessa.

 

P/1 – E você tem quantos filhos?

 

R – Eu tenho dois, Domingos Sávio de treze anos e o João Pedro, de nove.

 

P/1 – E você resolveu fazer a faculdade logo depois que você casou?

 

R – A faculdade de Direito foi um sonho que eu pude começar a realizá-lo a partir do momento que eu me desliguei do Departamento de Transportes do Estado de Pernambuco. No Detran, eu fui vinculado à Circunscrição Regional de Trânsito (Ciretran) do município, nós encontramos na época uma Ciretran muito fragilizada, era uma época difícil do governo que saía e fomos convidados a responder por aquela Ciretran na área de Informática e na área de Recursos Humanos, na área de atendimento. Eu não só cuidava da parte de Informática da Ciretran, como também representava a cidade em diversas cidades, onde isso me deu a oportunidade de rever algumas estações: Triunfo, Serra Talhada, Garanhuns, Palmares, onde eu podia ia sempre olhar, rever as estações dessas cidades. Depois de sete, oito anos no Detran, o grupo político ao qual a gente estaria teoricamente vinculado deixou o Governo do Estado e eu retomo o desejo de iniciar o meu curso de Direito.

 

P/1 – Como você começa a trabalhar na Associação?

 

R – Eu acho que quando o meu pai começou com os amigos. Eu fui criança posta na primeira mesa que existiu na sala. Na minha infância, eu pensava que a Associação era o lugar que meu pai ia brincar. Quando ele dizia: “Carminha, eu vou lá na Associação”. Para mim eu pensava: “Lá vai papai brincar”. Bobagem, vou brincar também, deixa ele brincar. Não tinha ideia de que aquele lugar era a trincheira deles, naquela época, pelo direito, pela isonomia com os que estavam na ativa. Na Associação, algumas pessoas já chegaram pra mim e disseram: “Fizeste muita coisa na vida, mas nunca desvinculaste da Associação. Tu estás lá das oito às dez, às onze, tu não tem vínculo, tu tem um incentivo pra chegar lá só, não recebe nada”. Aquilo é a extensão do corpo do meu pai e dos meus amigos que já se foram. Lá, nós tinhamos o seu Florivaldo Oto, ele chegou a desembarcar na Itália na Segunda Guerra Mundial, era um integrante de Maçonaria, um filósofo, professor do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), eu aprendia muito com aquele homem. Eu vi muitos fundadores irem embora junto com o meu pai e quando eu olho a entidade, a Associação, por mais museu que ela lembre, eu me sinto dentro de uma locomotiva. Quando eu me encontro com aqueles homens, quando os escuto, nós acabamos nos transformando em psicólogos, psiquiatras, confidentes, filhos, netos, nós somos tudo. Porque eles trazem aquilo que a gente ainda teve oportunidade de ver, que era um Brasil que funcionava nos trilhos... É isso.

 

P/1 – Marcos, tem alguma história da Rede que alguma dessas pessoas com quem você conviveu na Associação contava e que foi muito marcante?

 

R – Se eu não estou enganado em relação à história, e a pessoa, a mais incrível que eu achei foi a história do primeiro suicídio que esse maquinista viu, do lançamento do corpo sobre a máquina. Se não me engano era José Celestino, que foi maquinista durante toda a vida dele. Quando ele disse: “O primeiro...” Eu entendi que não tenha sido a única vez. Em um trajeto, ele não teve como evitar aquele suicídio e quando ele retrata aquele momento eu achei aquilo surpreendente. Você estar na sua atividade, procedendo de forma técnica, cumprindo aquele trajeto que está ali no chão, é só seguir, esperar a hora passar e, de uma hora para a outra, você visualiza que, 100% involuntariamente, você participou para que uma pessoa tirasse sua vida. Eu acho que não é todo mundo que vai trabalhar, volta e diz: “Alguém se suicidou com minha ferramenta de trabalho”. Eu fiquei chocado com aquilo. Histórias têm muitas, é que são tantas que a gente nem memoriza. Na minha visão, eles são história pura... É muito difícil achar um extremamente tímido, calado. Se ele for, basta que a gente dê os instrumentos para que ele comece a se soltar. Mas eu acho que o ferroviário, por si só, é um contador de histórias, viveu um Brasil superinteressante e hoje a maioria se decepciona um pouco com os caminhos que foram levados.

 

P/1 – Qual a importância de se pegar um trabalho como esse para registrar a Memória da Rede Ferroviária de Pernambuco? Por que você acha que é importante?

 

R – Eu acho que em algum momento desse país, historicamente, nós fomos descobertos, não sei se por Vicente Yáñez Pinzón ou por Pedro Álvares Cabral. Em algum momento, iniciou-se aqui uma colonização e, teve essa classe que não foi importada, que era 100% brasileira, mesmo que comandada pelo capital e pela mente de outros países, mas a mão que fez não só o trilho, não só o trem, não só as estações, toda a estrutura. Ela é brasileira, foi o povo brasileiro na sua miscigenação, nas diferenças sociais, políticas, que unido fez um nome, mesmo que um nome estrangeiro, que fez uma ferrovia 100% brasileira. Hoje, eu acho que qualquer coisa nesse sentido de dizer a esse homem de cabelo branco, que não foi em vão, que o que ele fez não foi pequeno, de que o que ele fez foi alicerçar o futuro desse país, eu diria que é uma obrigação, que alguém precisa fazer isso. Porque cada vez que eu sigo o sepultamento de um, eu tenho literalmente a impressão que nós não dissemos isso a ele, podemos dizer apenas de ouvido a ouvido, uma carta escrita, ou um artigo no jornal. Tem que se dizer algo, de alguma forma, em que ele sinta-se abraçado e reconhecido pelo seu país. E ainda não houve isso, eu não vejo isso. Às vezes, eu penso que o ferroviário iria se sentir realizado quando visse um homem de classe econômica idêntica a dele, excluído como ele, atingir o alto grau da sua nação, isso não realizou. O que vai talvez realizar isso é dizer pra ele o quanto foi importante o seu trabalho dentro da estrutura que esse país precisou para crescer.

 

P/1 – Para finalizar, eu queria que você falasse o que achou de ter participado dessa entrevista, Marcos?

 

R – Eu não tenho como expressar a minha alegria de falar da Rede Ferroviária, falar do meu pai. É muito... Eu queria agradecer, muito obrigado.

 

P/1 – Eu que queria agradecer, em nome do Museu da Pessoa e do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) por você ter participado e ter-nos dado a sua entrevista.

 

R – Foi uma honra, uma honra mesmo.

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