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Maria do Nordeste

História de: Maria Soledade Ferreira Couto
Autor: Aparecida Ferreira Couto
Publicado em: 08/05/2015

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Está historia é de Maria. Marias existem muitas, Maria das Dores, Maria do Socorro, Maria de Fátima, Maria Bonita, Maria flor, Maria Amélia, Maria Bela, Maria Rita, Maria...Mas essa é de Maria Soledade, seu nome já diz tanta coisa.

Convivi tão pouco contigo Maria, eu poderia ter vivido quase uma vida toda contigo para andarmos de braços dados, bater longos papos, filosofar sobre à vida, discutir, chorar e rir juntas, viajar. Um dia Maria quem sabe, a vida é cheia de mistérios, a vida é cheia de vida, e eu ainda sinto você. Te sinto em todos os lugares, sua linda gargalhada, suas mãos macias e quentes, seu olhar doce e acolhedor que me davam segurança. Eu me sentia num ninho quentinho e protegido quando perto de você andava.

Mas Maria, tua vida não foi fácil, sua infância difícil, mas você nasceu guerreira Maria. Nasceu em Juazeiro no Ceará, criada por sua avó não permitiu que estudasse, pois conforme sua concepção mulheres deveriam ficar em casa e quanto menos aprendesse, melhor. E você me disse um dia que isso doeu muito, pois havia em ti um desejo enorme de aprender a ler, escrever seu próprio nome sentir o que era ter um professor a ensinar. Mas não deu, o tempo passou, algumas mágoas lhe acompanhou pela vida dura de sertanejo. E já moça casada com um viúvo e madrasta de sete crianças teve mais dois seus.

Apanhou uma vez, fugiu levando seus dois filhos, correu matas, foi perseguida e açoitada, bulinada, escondeu-se em matas fechadas, dormiu ouvindo o miado de onças, rezava e chorava. Um dia, um filho morto no colo ainda bebê, não aguentou tanto sofrimento, doença de criança sem vacinas. Maria pensou não aguentar, mas tinha a outra criança para criar. A vida tinha que continuar.

Enterrou seu menininho, consigo guardou um mijãozinho para cheirar quando sentisse saudades do seu calor do seu cheirinho. Invernos não duram para sempre. Pau de arara e vida que segue rumo a São Paulo, tentar coisa nova. Uma parada em Feira de Santana, fome, cansaço e dor, cidade bonita, muita baiana de saias branquíssimas e rodadas, turbantes enrolados na cabeça e história para contar. Maria toca na banana como quem examina para comprar, mas no bolso não havia nada, nem mesmo uma moeda nada, era só fome, só vontade. "Não vai levar, tira a mão".

No rosto de Maria as marcas de sofrimento ainda tão jovem, a criança escanchada nas cadeiras andando a esmo perdida e desenganada. A baiana comovida lhe pergunta: "tá sofrendo né? e isso é homem, eu sei. Me dê agora mesmo o nome dele, mato esse desgraçado daqui mesmo...só o nome". Maria duvidou. E a baiana prosseguiu..."duvida? olha então aqueles pássaros voando, preste atenção agora". Maria então contempla um deles cair morto ao chão, do nada foi abatido. Assustou Maria, mas não disse o nome dele, ficou com medo. A baiana então disse "sofra então, e deixe vender meus produtos".

Maria seguiu na vida, procurando chão, procurando rumo. Maria guerreira, chegou em São Paulo e de muitas histórias que me contou, um preto velho a ajudou a encontrar com sua sabedoria de orixás seus parentes que aqui moravam. Empregou-se como doméstica, casou-se novamente com o homem que junto a ela me colocaram no mundo. Construiu uma nova vida, trabalhou muito pesado. Gerou mais três filhos e viveu como todo nordestino nessa imensa cidade de pequenos sonhos para um retirante. Comida não lhe faltou mais, amor muito menos, pois Maria era amada por seu companheiro, viveram um grande amor por vinte e dois anos que pude testemunhar.

E um dia Maria sofrida, Maria amada, Maria guerreira, Maria Soledade, um dia Maria adoeceu, assustou-se pois tinha boa saúde, povo sertanejo é resistente. Mas Maria tinha mais um obstáculo a vencer e esse era alto de mais, assim mesmo lutou, lutou com todas as suas forças, reuniu toda sua coragem. Vi nos olhos de Maria verterem lágrimas de medo, de cansaço e dor e isso me corroía por dentro, quem dera eu pudesse trocar com Maria, só para lhe ver feliz.

Seu companheiro, tocava violão e cantava baixinho para ver Maria  feliz  quando triste ficava, abandonou tudo para cuidar de Maria, era tanta atenção, tantos cuidados...tanto amor...envelheceu dez anos vendo Maria chorar de dor. Foram noites e noites acordados e Maria sofrendo de dor. Médicos, remédios e muitos tratamentos...e Maria lutando, não reclamava de nada. Já impedida de andar com apenas cinquenta anos Maria fez um resumo de sua vida, encontrou seu grande amor, lutou para criar seus filhos, nunca esqueceu seu bebezinho que falecera em seus braços, a roupinha a acompanhava dentro de seus pertences mais valiosos.

E num sábado acinzentado após um ano, mês de março de mil novecentos e oitenta e três as quatro horas da tarde, Maria se despedia lúcida e impedida de falar, derramou uma única lágrima olhando cada um de seus filhos nos olhos,  terminou seu  olhar em  seu companheiro seu último brilho nos olhos e partiu para sempre. Foi o dia mais longo de toda minha vida.

Perdi Maria minha amada, minha flor mais linda, meu porto seguro, minha mãe, cinquenta anos, e encerrava ali uma vida de muito trabalho, muitas andanças, muitas histórias, experiências e sabedoria. Maria foi forte e guerreira. Construiu uma nova vida, refez sua história deixou um legado de exemplos e boas condutas, deixou filhos e marido partiu Maria rumo a uma nova vida, uma nova história. Um dia hei de ver Maria novamente e poderei abraçá-la apertado, beijá-la muito e dizer que meu amor por ela é eterno e dura para muitas vidas.

Dedico essa história a todas as Marias do mundo, a todas Marias mães, em especial à minha Maria, Maria Soledade, o qual tive o imenso prazer de ter vivido e desfrutado com ela vinte e um anos de minha vida. Obrigada Maria, pela linda família que você me proporcionou nascer, obrigada pela sua existência, breve eu sei, mas intensa e linda como você. Onde quer que você esteja agora dedico esse Dia das Mães a você minha rainha. Já se passaram trinta e dois anos, o pai foi forte, ficou ao nosso lado completando as lacunas, partiu há oito anos com oitenta e quatro anos juntou-se a ti querida Maria, seu grande amor, deve estar tocando violão para você e cantando baixinho como fazia. E é como se fosse ontem que eu a tinha aqui pertinho de mim, que eu os tinha pertinho de mim, meu tudo, meus amores. Amo vocês, até um dia.

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