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Maria Enedina: progredir infinito com garra e perdão

História de: Maria Enedina Bandeira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/02/2019

Sinopse

Foi automático. Assim que morreu-lhe a mãe, Maria Enedina foi doada. A única entre nove irmãos. Nunca se sentiu acolhida, o que recebia eram ordens: “limpa isso aqui”, “esfrega aquilo ali”. Depois resolveram dá-la, não conseguiram. Transformaram-na em professora aos 14 anos. Casou-se. Enfrentou maus-tratos, truculência, agressões, humilhações, fome, medo. Saiu do casamento, criou as suas meninas. Com trabalho, carinho, atenção. Passou outros apertos, mas a sua obstinação em fazer das filhas pessoas felizes era maior. Sempre venceu. Até com o apoio espiritual do perdão como filosofia de vida. Teve um segundo casamento. Durou pouco, mas o suficiente para se sentir feliz e amparada. Considera-se hoje feliz, alegre, brincalhona. Realizada como mãe, vó e bisa. E ainda namora!

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História completa

Sou gaúcha de Cachoeira do Sul, sou de 01 de novembro do ano de 1941. Aos três anos fui entregue a uma família alemã para ser criada. Minha mãe acabara de falecer, com trinta e três anos e nove filhos. Meu pai, alcóolatra. Fui criada em ambiente de muita rigidez e pouco carinho. Nunca consegui dizer “mamãe” sem pensar na outra, na biológica. Estudei em colégio alemão, tive vida dura: criança ainda, lavava urinol da família, apanhava até sem saber por quê. Era obrigada a limpar chiqueiro, galinheiro, a varrer o pátio ainda de madrugada. A plantar mandioca e alimentar os animais que se criava em casa.

 

(...) ficava feio ir passear em uma praça porque eu não era filha legítima.

 

Nunca me senti em definitivo na família, e razões para tanto havia: uma vez, sem mais nem menos, tentaram me entregar para uma irmã mais velha, que descobriram; não deu certo e sugeriram que eu fosse para o convento; ou que arranjasse um casamento. E eu com doze, treze anos. Aí, com quatorze anos, fizeram-me “dona professora”. Às custas de me tornar maior de idade; adulteraram meu documento. Só deixei de ser professora quando casei: para o meu marido, a mulher que trabalhava fora era vagabunda.


Voltando ao cotidiano de um certo desprezo e um tanto de desamor junto aos que me criaram, preciso fazer justiça a uma exceção: o meu irmão, não de sangue, mas de afeto, filho dos pais adotivos. Coisa mesmo de outras vidas, como aprendi na seicho-no-ie mais tarde. Veja que para eu não ter direito a festa nem presente, meus pais de criação inventaram que eu havia nascido no dia 2, finados. A gente ia ao cemitério naquele dia e esse meu irmão me trazia um buquê de flores colhidas nos túmulos, de aniversário. E eles - hoje eu entendo - tudo faziam para nos afastar; com certeza temerosos de algum envolvimento futuro. Mas ele me valeu em diversos momentos difíceis da vida e recentemente eu sonhei com ele - ele já é falecido - e ele me disse que estará permanentemente cuidando de mim.


Agora, coisas horríveis mesmo eu passei durante o casamento com o pai das minhas filhas. Que, por sinal, também foram maltratadas por ele e desenvolveram um pavor dele. Eu sempre tive apoio da família dele - em especial da minha sogra, mais mãe que sogra - mas ele foi perverso: chegava de madrugada, embriagado, fazendo arruaça, quebrando tudo, empurrando, os bolsos revirados, sem um tostão. E em casa só tínhamos medo e fome: chegava ao cúmulo de catar um cruzeiro - moeda da época - que ele deixava na mesa, para comprar osso no açougue, pedir um pouco de arroz ou massa aos vizinhos e fazer um ensopado para mim e para as meninas. Entre uma filha e outra eu tive uma outra gravidez - seria um menino - que terminou em espancamento e aborto. Até que eu dei um basta: fiz a malinha dele e mandei passear. Custou-me um soco no rosto, cuja marca ainda trago, mas foi como conseguimos refazer nossas vidas. Sobrevivemos à vida entre ratos, aranhas e escorpiões; a passar fome e apanhar. Fui trabalhar, minhas filhas foram estudar - a mais velha ficou um tempo com a avó paterna - e assim a gente foi indo, foi lutando, foi vivendo, foi vencendo. Ensinei minhas filhas a perdoar e elas foram ajudar no enterro do pai, que havia morrido com câncer.

 

Ah, coisa boa, não é? A gente ali com as duas filhas, eu bem feliz, trabalhando, e nós fomos vivendo assim, levando a vida.


E assim, de dia eu trabalhava no laboratório, à noite, de vez em quando, eu dava plantão numa clínica. Aí, aceitei um convite para trabalhar como vendedora e não deu muito certo, de início. Foi a necessidade de ganhar mais que me obrigou. Mas com esforço e incentivo do patrão - acreditou em mim - tornei-me a melhor vendedora de vestidos de noiva da loja mais chique de Porto Alegre. O convite surgiu no salão de beleza da minha irmã. É que, aos poucos, fui descobrindo os irmãos. A primeira foi uma já casada e com cinco filhos para quem minha mãe de criação queria me devolver, como já disse. Aliás, nessa época, ela estava tão determinada que até freira sugeriu que eu fosse. Logo eu que tinha pavor de freira. O mais recente foi um irmão do interior - Alegrete - que fez uma festa quando me reencontrou, mas eu não tive aquele sentimento fraterno. Circunstâncias de vida.


Bom, mas aí eu conheci um diretor de banco, esperto para não dizer espertalhão, que me propôs sociedade em empresa de cosmético. Aceitei, me achando. Só acordei quando os cobradores começaram a bater na minha porta. E foi aí, nesse desespero, que eu conheci a seicho-no ie e a prática do perdão - “Eu te perdôo, tu me perdoas, eu e tu somos um só com Deus. Eu te amo e tu me amas”. E a força dessa oração fez com que, milagrosamente, eu me livrasse das dívidas, as contas como que evaporaram. Por isso, eu estou há quarenta e dois anos na seicho-no-ie. Trabalhando com a melhor idade, com crianças, “tratando-as com amor, com delicadeza, olhando-as com olhos de bondade”.


Bom, mas aí a vida seguiu em frente… Eu estou agora voltando um pouco para a época em que tinha ainda as filhas por criar. Naquele tempo, eu, com trinta e dois anos, não me permitia, por exemplo, ir a um baile. Porque custava e eu não admitia que aquele dinheiro pudesse vir a fazer falta na mesa delas. Mas um dia, foi tal a insistência de uma amiga, que eu disse: “Eu vou, mas você paga!” Quando me diziam que eu não conseguiria criar duas filhas sem marido, eu dizia: “Só me caso com alguém mais velho, que respeite minhas filhas e a mim”. E não é que surgiu, nesse baile, o Bandeira? Com sessenta e cinco anos. Apaixonou-se, quis casar, casamos. Durou um ano. Deus o levou. Foi uma pessoa maravilhosa, que me amparou e prometeu cuidar de mim até na eternidade. Deixou-me sua filha única - com síndrome de Dow - que ainda seguiu comigo por três anos, depois faleceu. Chamava-me de mãe, dei a ela alegria, atenção, amor.


Hoje, eu realizo o meu sonho de viver a vida. Sendo mãe, avó, bisavó. Fui avó aos trinta e nove anos. A mesma paixão que tenho por um, tenho por todos. Continuo namorando - o namorado diz que apaixonou-se porque eu o tirei da depressão. E sempre rindo, brincando, dançando, cantando, como pretendo que seja até os cem anos. Digo às minhas filhas que somente nos cem seguintes é que vou incomodá-las.

 

Então, eu estou sempre rindo, brincando e coloco aquelas músicas de gaúcho, danço e faço pose. Danço a dança cigana, faço parte do grupo de ciganos. (...) E assim é a vida.


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