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História

Linhas cruzadas

História de: Maria Silva Garcia
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 02/02/2005

Sinopse

Em seu depoimento, Maria relembra da sua infância na roça, como conheceu o seu futuro marido, Seu Alexandrino, sua relação com os sogros, a morte de uma filha com 6 meses, os trabalhos de seu marido, algumas viagens que fizeram para fora do país, como seu marido fundou a CTBC e como era sua rotina.

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História completa

P/1 – A senhora poderia dizer o seu nome completo e a data do seu nascimento?

 

R – Meu nome é Maria Silva Garcia. Garcia é do marido. Maria Silva Garcia, nascida em 1912, eu sou de 1912. 

 

P/1 – O local de seu nascimento?

 

R – Nasci aqui em Uberlândia mesmo. Na avenida Afonso Pena, lá em baixo. 

 

P/1 – Como chamavam seus pais?

 

R – Meu pai chamava Jesuíno Francisco da Silva, “Zuza”. Tinha o apelido de Zuza. Então todo mundo conhece meus irmãos por Zuza. Todos são Zuza. Mas Zuza era apelido, porque era Jesuíno Francisco da Silva, meu pai. E minha mãe era Delfina Maria de Jesus. 

 

P/1 – A senhora conheceu seus avós? 

 

R – Ah, eu era muito criança. Eu tenho lembrança da minha avó paterna, mas eu era muito criança. Não sei contar nada dos meus avós. 

 

P/1 – Os seus avós eram da região mesmo?

 

R – Era tudo daqui. Tudo morava por aqui mesmo.

 

P/1 – A senhora já era nascida, nessa época?

 

R – Já. Quando ele saiu de casa eu tinha oito aninhos. 

 

P/1 – E a atividade da sua mãe?

 

R – Minha mãe era doméstica, coitada, vivia pelejando. Meus irmãos todos trabalhavam desde pequenos. Foram muito trabalhadores. Minha mãe era muito enérgica, muito brava, muito direita, também. Uma mulher muito direita. Então, nós todos... São três mulheres e o resto homem, mas todos casaram bem casados. Minha irmã mais velha... Ainda agora mesmo estava falando nela, contando para a babá das meninas da Eliane. Minha irmã mais velha casou com dezessete anos. Saiu da escola, saiu do grupo no quarto ano, já foi direto para aprender costura, aprendeu costura até os dezessete anos. Quando completou dezessete anos, casou com um senhor bem mais velho do que ela. Mas era uma figura importante de Uberlândia. Casou muito bem, também. Ele era uma pessoa de alto valor em Uberlândia, mas só que ele era ciumento demais, coitado. Só faltava matar ela, de tanto ciúme. Ela casou com dezessete anos. E assim foi. E eu casei bem, porque eu casei com o Alexandrino, que tinha vindo há pouco tempo de Portugal. Pouco tempo, não. Porque ele chegou com doze anos de idade e casou com 22, quer dizer, fazia muito tempo que ele estava em Uberlândia. Mas considero que casei muito bem. Eu era pobre, mas ele era pobre também. Ele era pobre, pobre. Meu sogro e minha sogra eram chacareiro, aqui em Uberlândia. Minha sogra tocava uma chácara de verdura, muito grande e ele vendia na rua, na carroça. 

 

P/1 – Como era a casa de sua infância, a casa da sua mãe? Eram quantos irmãos mesmo?

 

R – Oito.

 

P/1 – Oito com a senhora?

 

R – Nós éramos em oito. 

 

P/1 – Como era a casa da senhora?

 

R – Olha, a minha casa... Eu até tenho um retrato dela, lá embaixo, do jeitinho que era. Um português, acho que ele era fotógrafo, ele tirou até o retrato da minha casa. Era uma casa de telhado baixo, simples, não era uma casa de luxo nem nada, mas tinha uma venda. Tinha as três portas na frente. Meu pai tocava uma venda, antes dele ser jogador, ele mexia com venda. Tinha uma venda muito sortida. Depois, quando acabou a venda, acabou, virou jogador, saiu de casa, e a minha mãe mandou tirar aquelas três portas e fez janelas. Deixou só uma porta, que dava para a Avenida Afonso Pena, e tinha uma outra que dava para a travessa, mas fez janela também. Aí o pintor que fez a casa para mim, pintou eu na janela e o Alexandrino na calçada, nós dois conversando. Eu de dentro e ele de fora. Mas não era nós, não. Ele pintou. Então ele falou assim que era eu e o Alexandrino namorando. Ah, meu Deus do céu! Tempo bom!

 

P/1 – E a escola. Dona Maria? Lembra da primeira escola, da primeira professora?

 

R – O grupo. Mas eu não gostava de escola. Eu dava um trabalho para minha mãe, coitada! Mas não gostava de escola. Não é como hoje, que as crianças gostam de escola. Eu não gostava de escola. Na hora de ir para a escola eu estava doente de mentira. Adoecia de mentira. Ai, meu Deus, hoje é que eu morro de remorso. Por que eu não estudei? Por que eu fiz uma coisa dessa? Por que minha mãe não me sentou o chicote pra eu aprender? Menino que não quer estudar, ó gente, vou falar com vocês: se tem filho e não quer estudar, ó! Dá o couro! Porque depois a gente arrepende demais, mas já é tarde.

 

P/1 – Se não ia para escola, o que a senhora fazia?

 

R – Ia ajudar minha mãe. Minha mãe... Ficou num ponto, depois que o meu pai saiu de... Porque o meu pai esteve bem na vida. Primeiro de tudo, quando ele casou, ele tinha lavoura de fumo. Eles moravam num lugar, acho que aqui perto de Uberaba, chamado Rifaina. Já ouviu falar na Rifaina? A minha mãe é de Rifaina. Então o meu pai tinha lavoura de fumo. Depois que veio para a cidade, que comprou essa casa que eu falei, na Avenida Afonso Pena, ainda trabalhou... Onde é que ele trabalhou depois da venda? Ele ajudou na Mogiana a fazer essa linha de Uberlândia-Araguari, de Araguari para Goiás. Ele trabalhava assim. Como é que se fala? Era mestre de obras, de olhar a coisa da estrada. Depois é que foi virando a cabeça, virando até que acabou tudo. Minha mãe ficou num estado de pobreza muito grande, mas ela era muito trabalhadora, lavava roupa para fora. Mas só para homem, ela lavava roupa só para homem. Mas era a semana inteira ela lavava roupa. Então eu preferia lavar as meias dos homens. Agora você imagine que ideia a minha: ela punha um pano assim, no chão, eu sentava, ela punha a bacia com sabão e as meias, para poder esfregar as meias para ela só no pano de enxaguar. Pois eu preferia lavar as meias, mas não queria estudar. Foi desse jeito. 

Mas eu gostava mesmo era de brincar com as minhas amigas, com as minhas coleguinhas, fazia casinha no quintal, essas coisas assim. Estudar que é bom, eu não quis estudar de jeito nenhum. Mas graças a Deus dei boa dona de casa, meu marido foi muito feliz em casar comigo, porque se ele está bem, eu ajudei também. Não foi só dele não, ajudei demais, em tudo. Porque a pessoa, a mulher pode ajudar o marido, não precisa ser também trabalhando e ganhando o dinheiro dela. Eu tinha os meus filhos, cuidava, nunca tive pajem, nunca tive babá, nunca tive lavadeira, passadeira, cozinheira... Não tinha esse negócio, não, era tudo eu. Então eu não ajudava ele lá no trabalho, mas ajudava em casa. Toda a vida ajudei ele em casa, mas ele também não deixava eu ir trabalhar. Uma vez eu pedi para ele porque eu queria trabalhar, fazer alguma coisa, para eu ter meu dinheiro. Ele falou: “Mas está faltando alguma coisa para você?” “Não, não está. Mas eu queria ter o meu dinheiro na mão.” Aí tinha uma casa alugada, ele falou assim: “Então eu vou te dar o aluguel daquela casa da praça, você pode ficar com aquele dinheiro”. Eu queria um dinheiro na minha mão... Bobagem de mulher.

 

P/1 – Nessa situação difícil pela qual passou a sua mãe, os outros irmãos também ajudavam no trabalho de lavar?

 

R – Todos trabalharam. Agora já morreu tudo, tem só duas, eu e uma irmã minha, os outros já morreram. Meu irmão mais velho trabalhava de servente de pedreiro – ele era muito trabalhador. Todo pedreiro gostava dele. O outro trabalhava de mecânico, aprendeu ofício de mecânico. Ele era chofer, trabalhava numa oficina grande que tinha aqui, era bom mecânico. O outro aprendeu o ofício de tintureiro, mas antes dele aprender o ofício de tintureiro – ele era magrinho, magrinho – ele era mais velho do que eu dois anos, então foi trabalhar num açougue. Naquele tempo os açougueiros mandavam entregar. Você comprava, por exemplo, uma arroba, meia arroba de toucinho, mandava levar na casa. Um pernil, um lombo, tudo mandava levar. Mas ele era tão fraquinho que meia arroba de toucinho ele não dava conta de andar nem daqui até na esquina. Aí tinha que estar aqui aquela arroba de toucinho no meio, em dois pedaços. Ele levava um, depois voltava, levava o outro. Quer saber a vida dele? Aí ele foi trabalhando, trabalhando, falou: “Ih, mãe, está muito custoso, é muito pesado. Eu queria aprender um ofício”. Mainha mãe falou: “Então que ofício você quer aprender?” Como ele via a mãe lavar muita roupa, ele queria aprender o ofício de tintureiro. Aí ele foi, arrumou, graças a Deus, um serviço de tintureiro, foi trabalhar e aprendeu o ofício de tintureiro. Mas quando ele já estava bem desembaraçado nessa tinturaria, o patrão dele ficou tuberculoso. Aí, como que faz? Não podia, ele era um menino, franzino, magrinho demais. Mas não podia sair daquele emprego sem arranjar outro, porque se ele saísse ele perdia um dia de serviço, fazia falta. Ele não falou nada para minha mãe. Mas minha mãe falava para ele assim: “Você não bebe água no copo que ele beber, não bebe café na mesma xícara, não converse muito de cara a cara. Quando você for beber água você bebe na mão, não põe a boca na torneira...” Minha mãe explicava tudo para gente, para ele principalmente. E ele querendo sair porque ele tinha medo da doença. Mas tinha um outro tintureiro em Uberlândia, até era de um italiano, aí ele foi lá e arranjou serviço com esse italiano, mas não falou nada com a minha mãe. Ele arranjou num sábado, quando foi na segunda feira, que ele saiu e falou: “Bença, mãe”. “Deus te abençoe, meu filho.” “Ô mãe, eu não vou lá para o seu Raul, eu vou lá para o seu Roberto.” Ela falou: “Que Roberto?” “Mãe, eu arranjei outro emprego, outra tinturaria.” Aí que ela ficou sabendo que ele tinha saído do seu Raul e foi trabalhar na outra tinturaria. Esse aprendeu o ofício de tintureiro, de chapeleiro, reforma de chapéu... Ele reformava um chapéu, ficava novinho, igual da vitrine das lojas. Tudo, tudo muito arrumadinho. Pregava aquele couro que tem. Minha mãe que pregava para ele – chama carneira, não é? Aquele couro que tem dentro do chapéu chama carneira. Minha mãe que pregava para ele. Aquela fita que tem, à volta do chapéu, minha mãe que pregava para ele também. Eles ajudavam a casa, mas a mamãe ajudava eles também.

 

P/1 – E todos os irmãos...

 

R – Unidos. Muito unidos. Não tinha briga, não tinha disse-que-disse, não tinha nada. E o que a minha mãe falava era respeitado. Era analfabeta de tudo, de tudo, de tudo. Aquela então é que não conhecia nem o “a”. Mas era uma mulher dinâmica, só você vendo. Chamava Delfina, a minha mãe.

 

P/1 – Ela fazia questão que todos estivesse à mesa na hora das refeições?

 

R – Tudo. A mesma coisa. Esse meu irmão que trabalhava de pedreiro que fazia a despesa da semana. Então quando era dia de sábado – ele recebia de sábado em sábado – aquela despesa que fez aquela semana, no final da semana, que era no sábado, já tinha acabado de tudo. Tudo. Aí minha mãe fazia um bolo de fubá, a gente comia no meio do dia para esperar o meu irmão, que recebia às cinco horas da tarde, os pedreiros recebiam às cinco horas da tarde. Ficava todo mundo na porta do patrão. Ele recebia, chegava em casa com aquele dinheiro contadinho, punha tudo na mão da minha mãe, já estava a sacola, as coisas de buscar as coisas na venda. Eu ia pulando. Eu e essa minha irmã que ainda tenho até hoje, esse meu irmão que era mais velho dois anos do que eu, e com esse meu irmão mais velho. A gente ia na venda, era do Salomão Turco. Ele era turco e era o Salomão. Aí a gente ia lá, chamava Calixto, ia lá na venda do Calixto, fazia aquele sortimento para a semana inteira. 

 

P/1 – O que vocês pegavam lá?

 

R – Tudo, de tudo. Era arroz, era feijão, era o café, era o açúcar, era queijo, era algum doce, de tudo que desse para uma semana. Aí a gente vivia até chegar sábado outra vez. Mas quando chegava sábado já tinha que esperar... Aí ele pagava aquela semana e fazia sortimento para outra semana. E dava bem, a gente comia de tudo. A minha mãe fazia aqueles bolos assados, punha brasa por cima e assava no fogão de lenha. Amanhecia cada bolo dessa altura assim. Era bom.

 

P/1 – A senhora aprendeu a cozinhar com ela?

 

R – Aprendi. O que sei fazer aprendi com ela. Mas hoje eu estou burra, eu não faço quase nada, não. Não dou conta mais. Mas eu fazia de tudo, de tudo, hoje eu não faço nada. Graças a Deus eu posso pagar. Eu trabalhei para ganhar, agora deixa eu gastar um pouquinho... Mas não sei mesmo. Esqueci tudo, tudo. Fazia de tudo, hoje não faço mais, não.

 

P/1 – Como a menina Maria e as suas irmãs se divertiam?

 

R – Eu brincava de casinha com as minhas coleguinhas de escola. Eu não queria mesmo ir para escola, não queria estudar, fazia cozinhadinho, fazia casinha... Hoje as crianças não brincam mais. No meu tempo brincavam. Eu casei muito nova, eu casei com dezoito anos.

 

P/1 – Descreva uma brincadeira dessas, por favor.

 

R – Brincava de casinha.

 

P/1 – Como era isso?

 

R – Fincava quatro paus, punha aquelas madeiras, depois punha folha de zinco em cima, por dentro repartia, punha tijolo, aqui é um quarto, aqui é uma sala... Punha assim, no chão, os tijolinhos assim... Ali era a cozinha... Eu tinha as minhas coleguinhas também, que até no meio das minhas coleguinhas eu era a mais pobre. As outras eram tudo meninas que já podiam... Meninas direitas, meninas de família boa...

 

P/1 – E como era a brincadeira da cozinha?

 

R – A gente fazia melado, melado de rapadura. Fazia melado, minha mãe tinha sempre mandioca no quintal. Arrancava mandioca, cozinhava para comer com melado, era bom. Ouviu falar no Tubal Vilela?

 

P/1 – Sim.

 

R – Pois é. Minhas amigas eram as irmãs do Tubal Vilela. Tubal Vilela foi até prefeito aqui de Uberlândia. Era uma família grande também, mas muito minha amiga.

 

P/1 – Eram vizinhos?

 

R – Eram. A gente morava na esquina de cá e eles moravam na esquina de lá, na Avenida Afonso Pena, a principal. Lá, eu esqueço o nome daquela travessa. É na Avenida Afonso Pena com a travessa... Não sei se é Tenente Virmondes eu acho que não é a Tenente Virmondes, não. É para baixo da Tenente Virmondes

 

P/1 – Como a senhora conheceu o seu Alexandrino?

 

R – Como é que eu conheci? Olha, eu conheci o Alexandrino... Só que eu esqueci a data, não sei que mês que era, não. Eu sei que tinha festa da Nossa Senhora do Rosário. Sabe onde é a igreja de Nossa Senhora do Rosário? Eu, com as irmãs do Tubal Vilela, a gente tinha ido na novena. Aí eu já estava mocinha, não estava brincando mais de casinha, não. Queria é namorar. Aí fui na novena. Fui eu, a Jaci, a Badia, que era filha de um sírio, lá perto de casa, nós fomos à missa às sete horas. Quando a gente vinha vindo, da igrejinha para casa, na época a gente morava tudo perto, passou aquele moleque de bicicleta. Ô, mas que moleque bonito, simpático, ninguém sabia quem que era. Ele foi passando de bicicleta e nós vínhamos de três– era eu, a Jaci e a Badia. E ele olhou. Ficou todo mundo de cabeça inchada, sabe como é mocinha, né? Para quem será que ele está olhando? Para quem será? Aí ele foi até mais ou menos no finzinho da avenida, voltou – e as três estavam na calçada, conversando. Ele passou olhando outra vez. Mas tinha três, para quem será que ele estava olhando? Aí ele foi embora, nós entramos para dentro, acabou, acabou. Passados uns dias, eu estava na janela, já não tinha mais venda lá em casa, já tinha porta, janela. Eu estava na janela e ele passou outra vez de bicicleta. Ele passou e olhou. E foi olhando. Foi até mais em cima e voltou, olhando. Eu falei: “Ah, danado! Eu acho que ele estava olhando era para mim mesmo”. E aí eu fiquei animada. Fiquei animada e começou o namoro desse jeito. Aí as meninas, depois, quando a gente estava junto outra vez: “Maria, você viu aquele menino? Ele passou por aqui outra vez?” “Passou.” “Ele olhou pra você?” “Olhou.” Daí começou o namoro.

 

P/1 – E como ele chegou perto da senhora?

 

R – Ah, mas aí demorou. Naquele tempo a gente não ia chegando assim, conversando, não. E meus irmãos eram muito ciumentos, muito bravos comigo. Era eu e essa minha irmã que ainda é viva até hoje. Eles me traziam vigiada, mesmo. Porque dizem que eu era muito bonita quando eu era mocinha. Porque eu tinha o cabelo muito preto, então usava aqueles cachos aqui assim. Prendia atrás com um pente grande ou um grampo, com passador, e jogava os cachos assim, de cá e de cá, então todo mundo falava que eu era bonita por causa do cabelo daquele jeito. Eu falei: “Gente, que beleza que tem isso?” Meu irmão tinha muito ciúme. Nós namoramos só de olhar, um ano ou mais. Aí depois, passado esse tempão todo, usava naquele tempo a gente, as amigas, passear de braço dado. Dava o braço de duas, de três e andava na avenida, na calçada para lá e para cá. E um dia, andando assim, para lá e para cá, para lá e para cá, uma esquina para baixo da minha casa, aí ele foi chegando. Aí ele não estava de bicicleta mais, já estava a pé, todo granfininho, parecendo mesmo um mocinho. Aí nós começamos mesmo a conversar, as meninas viram que ele era meu namorado, já estava me namorando, aí elas saíram assim, com desculpinha, e deixaram nós dois. Mas meu irmão vinha lá de baixo, me pôs para a frente. Me pôs para a frente mesmo. Eu vim chorando, chorando, encontrei com as meninas e elas me abraçaram e viemos andando até chegar em casa. Mas não adiantou nada, porque ficamos namorando mesmo. Casei com dezoito anos e ele com 22. 

 

P/1 – A senhora procurou saber quem era esse rapaz, o que ele fazia da vida? 

 

R – Não, demorei para saber. Não perguntei logo, logo, não. Porque demorei para conversar com ele. Não foi namorando e conversando, não. Foi depois de um ano que nós conversamos.

 

P/1 – Mas a senhora não procurou saber ou perguntar para os outros?

 

R – Não. Saber quem era a família? Não. Perguntei nada não, não quis saber de nada. Mas depois de um ano aí já era namoro mesmo. Aí a gente já conversava escondido, porque se meu irmão visse, ai meu Deus do céu! Ele tinha ciúme demais de mim, só vendo! E a mamãe também não achava muito bom, não. Ela sempre falou: “Minha filha, o dia que você tiver um namorado, vem namorar em casa. Não namora na rua, não! Não precisa namorar na rua, vem namorar em casa”. Então foi assim. Nunca tive namorado na rua, de namorar, ir para aqui, ir para ali... Não, de jeito nenhum.

 

P/1 – Foi o seu primeiro namorado, Dona Maria?

 

R – Foi o primeiro. Depois nós namoramos muito tempo e brigamos. Aí eu já entendia de namorado, né? Aí eu namorei um padeiro. Namorei um padeiro e ele ficou sabendo. Esse, meu marido, ficou sabendo que eu estava namorando um padeiro e o padeiro não era desconhecido para ele. Não era amigo, mas não era desconhecido. Aí ele tinha um ciúme com esse padeiro que só vendo. Logo, logo, ele quis fazer as pazes comigo para poder acabar com o padeiro. Era assim: brigava, acabava, acabava, quando ele via que eu estava namorando outro, procurava outra vez, que era para eu não namorar o outro.

 

P/1 – Quais eram os motivos dessas brigas?

 

R – Ciúme. Só ciúme. Ele era ciumento demais, coitado. E eu tinha ciúme dele também, mas não brigava muito com ele, não. Mas ele brigava...

 

P/1 – Quando os seus irmãos e a sua mãe passaram a aceitar esse namoro?

 

R – Já fazia um ano e tanto. Porque aí, depois, ele começou a viajar de caminhão. Ele viajava de caminhão para Itumbiara, Ituiutaba, para Rio Verde, para Jataí... Aí demorava mais à vir. Mas quando eu estava namorando ele, era firme. Por nada desse mundo, podia ter o moço que quisesse me namorar, eu não namorava. Não dava confiança, não. Mas era brigar com ele, ele ficava de mal comigo, quando era de noite eu namorava outro. Não perdia tempo, eu era danada também. Mas eu era honesta: se eu estava namorando com ele, era só ele. Mas a gente brigava. Fazia quinze dias para o meu casamento eu desmanchei o casamento! Joguei a aliança na cara dele. 

 

P/1 – Por quê?

 

R – Joguei a aliança na cara dele porque não aguentava desaforo, não levava desaforo para casa, de jeito nenhum.

 

P/1 – E ele brigou com a senhora?

 

R – Brigou. Mas coitado, ele não foi culpado. Infelizmente... Deus tenha ela em um bom lugar, mas foi por culpa da minha sogra. A minha sogra queria que ele casasse com a prima dele, que era rica. Já ouviu falar no João Fernandes? Que tinha uma loja de móveis, lá em baixo. Esse João Fernandes era tio, não sei se era da minha sogra ou se era do meu sogro. Eu sei que a menina era prima segunda do Alexandrino e a minha sogra queria que ele casasse com ela, porque era rica e era parente. O Alexandrino não gostava dela e ela era doida por causa dele também e me pirraçava. Quando ele namorava com ela, que ia passar na avenida, de automóvel, quando ia passar perto da minha casa, ela abraçava o pescoço dele e ficava me fazendo ciúme. Eu ficava com mais raiva ainda. Mas aí passou. Marcamos o casamento, faltava só fazer o meu vestido de noiva – era minha irmã quem ia fazer, e por isso podia deixar para última hora. Nessa ocasião ele trabalhava em Jataí, para o sogro do Doutor Homero, aquele político, o Homero Sanchez. Ele trabalhava para o sogro do Homero, lá em Jataí. Ele trabalhou um ano. Ele era tão trabalhador que ele tomava conta de uma máquina de café, uma semana, uma máquina de arroz, a outra semana, e trabalhava na oficina mecânica consertando todos os carros, porque a família era grande. Eu sei que são quatro semanas, não são, um mês? Era um mês, mas cada semana era uma coisa. Aí ele veio em Uberlândia para acabar de completar, marcar o negócio do casamento, aquela coisa toda. A minha sogra encheu a cabeça dele, que ele estava ficando doido, que eu era pobre, que era para casar com a Olívia, porque a Olívia era rica. Não sei o que, não sei o que, e ele veio com desaforinho para cima de mim, quinze dias para o casamento. Ele veio procurando briga, sem motivo, sem nada, não dei motivo, não dei nada... Eu falei: “Mas o que é isso? Por que você está falando isso? O que tá acontecendo?” E aquilo foi me enfezando. Ele, em vez de me falar de uma vez o que era, ficou me jogando indireta, sabe? Moço novo, coitado, não sabia direito nem o que estava fazendo. Ele começou com aquelas bobagens dele... Quando eu vi que ele estava com bobagem, eu falei: “Escuta aqui, você não está querendo o casamento, não?” Eu não sei o que ele me respondeu, não lembro porque eu não vi quando eu tirei a aliança do dedo e joguei nele, assim. Bateu no peito dele e rolou na calçada, ele teve que parar com o pé. Bateu o pé para não cair no esgoto, se não, caía no esgoto. Eu era brava também, só você vendo. Ele não brincava comigo, não. Aí caiu, ele pegou: “Não, Maria. Põe essa aliança no dedo” Eu falei: “Não, vai casar com a Olívia. Pode casar com a Olívia”. Faltava só o meu vestido de casamento, todos os convites já estavam prontos. Aí ele ficou meio doido quando ele viu que não era brincadeira. Ficou meio doido, começava a andar de automóvel, passando na avenida feito louco e peleja daqui, mandava recado, mandava os primos dele falarem comigo. Eu não apareci para ele. Não apareci de jeito nenhum. Aí ele voltou para Jataí outra vez, que era lá que ele estava trabalhando. Aí ele ficou um ano trabalhando. Tudo quanto era caminhão que vinha de Jataí para Uberlândia e que era conhecido, ele mandava carta para mim. Eu nada, nada. Deixei ele sofrer até dizer chega. Não escrevia nem nada. Até que um dia minha mãe ficou com dó. Minha mãe ficou brava comigo, falou: “Tem dó desse menino. Responde a carta dele, nem que seja uns rabiscos. Manda uns rabiscos para ele”. Aí eu fui, escutava muito minha mãe, escrevi lá uma carta e até era um pretinho que trabalhava junto com meu irmão, esse que era mecânico, ele era chofer de caminhão e ia para lá também. Eu fui, dei uma cartinha para ele levar. Aí então voltou o noivado outra vez. Mas ele ficou lá e o meu cunhado, que era casado com essa minha irmã, a mais velha, ele era juiz de paz aqui em Uberlândia. Aí como que faz, como que não faz, ele não podia largar o serviço lá para vir... Aí teve que marcar casamento tudo outra vez, porque tinha desmanchado, ficou um ano! Aí meu cunhado, como ele fazia os casamentos, ele falou: “Não, Dona Delfina, pode deixar que eu ajeito para o Alexandrino”. Aí ele fez, tirou a papelada, tudo, mandou para Jataí, ele assinou o que tinha de assinar. Aí quando ele veio, só faltando uma semana para o casamento, era pra casar no dia 28 de novembro... Pois casamos dia 26. E meu irmão, que vinha de viagem, que ele trabalhava com caminhão e vinha depressa, para trazer um dinheiro para a gente poder fazer ao menos um almoço no dia do meu casamento. Ele era bravo, também. Esse meu irmão é que tomou conta da gente, de mim e dessa minha irmã que ainda é viva. Aí o meu cunhado falou assim: “Eu vou escrever uma carta e você vai levar, Maria. Entrega para o José na estrada, porque senão ele pensa que você está fugindo. Ia casar no dia 28 e de repente casa no dia 26, por quê?” Aí ele escreveu uma carta muito bem escrita, explicando tudo direitinho, como é que era. Aí nós nos encontramos com ele já para cá de Itumbiara um pouco. Ah, coitado! Que desilusão para ele, porque ele queria assistir o casamento. Mas não teve festa, não teve nada. Casamos ao meio-dia.

 

P/1 – Como foi o dia do seu casamento?

 

R – Foi muito bonito, muito bom, aquela esperança... Esperando por tudo. Minha mãe fez um almocinho, mas aí só convidou mesmo parentes mais perto e as minhas vizinhas ali de perto. Fez um almoço simples, mas um almocinho gostoso, todo mundo gostou.

 

P/1 – A senhora se lembra o que tinha no almoço?

 

R – Não. Isso agora eu não lembro mais não.

 

P/1 – Os pais do seu Alexandrino estavam presentes?

 

R – Não. Só uma irmã, uma que no fim, depois, ficou freira. Ela era freira. Quando ela morreu ela era freira, irmã Palmira, só ela que foi almoçar lá em casa. E nós almoçamos meio-dia, que era para sair mais ou menos duas horas. Mas quando terminou o almoço deu um toró d’água que só você vendo! Os pais dele moravam lá na Rua Princesa Isabel, onde eles tinham chácara... Não tinha aquela avenida que passa lá pra lá, assim... Como é que chama aquela avenida? Getúlio Vargas! Não existia aquela avenida, não. A chácara da minha sogra atravessava... Aquela rua passou dentro da chácara dela e ainda os pedaços de terreno para fora da rua. A chácara dela era muito grande. Mas deu um toró tão grande que arrastou o automóvel que estava parado aqui na porta. A enxurrada arrastou, foi até no portão, onde saía com a carroça com as verduras. Nós já entramos para viajar pelo quintal, foi lá no portãozão grande para entrar no automóvel. Minha vida foi uma tragédia, só você vendo. Mas tem o que contar. Tem gente que não tem nada o que contar. Tem umas vidas boas, né? 

 

P/1 – Os pais do seu Alexandrino ainda mantinham aquela posição de que ele devia ter casado com a prima, e por isso não foram no seu casamento?

 

R – Não. A minha sogra... Nunca vi um sogro tão bom igual aquele! Ô abençoado! Que Deus tenha ele em um bom lugar. Me queria bem demais, mas me queria bem mesmo. Só vendo que gracinha.

 

P/1 – Como ele era?

 

R – Baixinho. Ele era um português baixinho, claro, português você sabe como é. Só que ele era baixinho, tinha bigode, me tratava muito bem. Muito. Eu agradava ele também, muito. Agradava os dois. Mas ela sempre com aquela ideia, com aquele nariz empinado, arrebitado... Já meu sogro, não. Eu morava aqui nessa casa aqui de baixo. Meu marido que construiu essa casa aqui embaixo, hoje é um sobrinho meu que mora lá. E a gente já tinha chácara... Eu moro na roça, tem vaca aqui perto, tira leite, você sabe. Não vendia leite, naquele tempo. Eu tinha que fazer queijo, fazer requeijão, essas coisas. E meu sogro gostava de queijo sem sal, porque ele não podia comer queijo salgado, temperado. Toda semana eu levava um queijo para ele. Aquilo para minha sogra era uma morte. Eu não levava para ele, eu levava para eles. Mas como ele não podia comer queijo salgado, então ficava sendo para ele. Aí tinha um parreiral muito bonito lá na casa deles, lá no quintal, sempre tinha uma travessa de uva, =aqueles cachões de uva... Eu entregava o queijo para ele, quando era de tarde, na hora que eu vinha embora – também não ficava muito tempo, não –, já vinha com aquela travessa de uva. Eu falava: “Não, compadre, não precisa levar na travessa, não. Vamos pôr num saquinho”. Punha num saquinho e eu trazia. Aquilo para ela era uma morte. Mas nunca brigamos. Eu nunca fui de mal com ela. Mas eu sabia que ela não gostava de mim, porque ela gostava era da outra. 

 

P/1 – Mas a senhora convivia com ela sem problemas? 

 

R – Sem problemas, não brigava com ela, nunca briguei. Nunca falei alto para minha sogra. Nem nunca falei desaforo para ela, não. A minha educação era outra. Minha mãe era uma mulher muito enérgica. Muito simples, mas ela era civilizada nesse ponto. Não deixava a gente falar alto com os mais velhos, não. Hoje os meninos não respeitam os mais velhos. Mas antigamente respeitava demais mesmo.

 

P/1 – Como é que foram esses primeiros anos de casamento?

 

R – Quando nós casamos ele trabalhava numa máquina de arroz. 

 

P/1 – Aqui em Uberlândia?

 

R – É. Sabe onde é a igrejinha do Rosário? Não tem aquela Frangolândia? Em frente, assim? Hoje eu não sei, ainda é Frangolândia lá? E tem o terreno da esquina, não tem? Na travessa, assim, tem uma casa, feito um chalé parece uma casa. Era do dono da máquina de arroz onde ele trabalhava, que era lá nessa Frangolândia, em frente à igrejinha do Rosário. E trabalhou ali muito tempo.

 

P/1 – E a senhora só em casa?

 

R – Só em casa.

 

P/1 – O primeiro filho, quando nasceu? 

 

R – Tive o Walter, foi o meu primeiro filho. Eu casei em 1929, o Walter é de 1930. A Eleusa era de 1931, quando faltavam dois dias para o ano, eu tive a Eleusa. Quer dizer que um é do dia oito e outro do dia dez de outubro. Logo em seguida tive a terceira, essa eu não lembro, eu não lembro quando que eu tive a terceira. Morreu com seis meses.

 

P/1 – De quê?

 

R – O estrondo de uma fogueteria. Na rua que eu morava tinha uma fogueteria e o quintal era divisa de cerca de arame. Eu morava de cá e de lá era fábrica de foguete. A gente estava reformando a casinha onde eu morava, que ali em frente... Sabe onde é aquele hospital Santa Terezinha? Naquela casa em frente, ainda tem lá a grade na frente... Hoje é uma sobrinha minha que mora lá. Tem a grade na frente, está reformadinha, eu dei para a minha sobrinha morar. Eu morava ali e a fogueteria era outra casa abaixo, que hoje é um casão muito grande. Mas era tudo casinha pequena. A gente estava reformando a nossa casa, dando um retoque na casa, então os trem estava tudo de fora, louça da cozinha... Arrumava a cozinha no terreiro que estava tudo atrapalhado, tudo limpando lá dentro. E a menina, com seis meses – eu nunca tive empregada – sentada na cadeirinha, escorada com travesseiro à volta da cadeirinha: ela ficava assim porque na cadeira não equilibrava. Eu forrei tudo de almofada e eu estava arrumando a cozinha do almoço no terreiro e ela assim, em frente. Quando rebentou a fogueteria, parecia que estava acabando o mundo. Não ficou nada vivo naquela casa. Morreu o homem, morreu a mulher, morreu empregado, morreu papagaio, morreu cachorro, morreu passarinho. A casa desabou, o pedaço maior era desse tamanho assim. Ele chamava Tonico Morcego. O braço dele sumiu pelos ares e foi parar lá na João Pinheiro, bem em cima. Até o braço dele foi achado na casa da mãe da minha nora, a Ofélia, que é a mulher do Doutor Luiz. No braço do fogueteiro, achou tudo queimadinho, lá na calçada. Voou para os lado assim, ó! E ele ficou assadinho, assadinho, assadinho. Foi uma tragédia. Tum! Parecia que estava acabando o mundo.

 

P/1 – E a sua criança? 

 

R – E a minha menina levou susto demais. E eu também levei susto demais. Diz o médico que se ela estivesse no meu colo, ela não assustava tanto. Mas ela de lá e eu de cá, quando houve aquilo ela assustou demais, coitadinha. Aturou só quinze dias. O coraçãozinho dela foi inchando, inchando, inchando... Era a coisa mais linda do mundo aquela criança. Não tinha que viver mesmo. A beleza dela era diferente. Morreu.

 

P/1 – Qual era o nome dela?

 

R – Vilma. Ela chamava Vilma. Mas era tanta gente que... Aí a rua, a travessa ficou interrompida. Então ia gente, esse povo curioso ia tudo lá, por dentro da minha casa, para ver como é que estava lá, porque era divisa de cerca de arame. Ainda viram na hora que levaram o caixão, a funerária levou o caixão, que pegou... Quando pegou na cabeça e o outro pegou no pé, para por ele dentro do caixão, o Tonico Morcego. Estava tão assado que as nádegas dele caíram aos pedaços, de tão assado que ele ficou. Cozinhou, né?

 

P/1 – O seu Alexandrino, como que reagiu a tudo isso?

 

R – Nossa Senhora! Ele também levou susto demais. Desde aquele tempo que existe muita gente boa. Tinha um chofer de praça, que o ponto de automóvel era lá em frente do Surrel Athiê. Era ponto de automóvel ali. E tinha um chofer que era muito conhecido da gente e chamava Argemiro, ou Ramiro... Não sei. Quando ele viu o céu coberto, porque o céu cobriu. Os foguetes arrebentaram tudo para cima, assim dizem, que ele bebia e fumava e tinha caixa, daqueles tonel grande assim, de pólvora. Decerto ele deixou cair pólvora lá dentro, fogo, qualquer coisa, porque arrebentou tudo. Então quando o céu cobriu, que parecia que o mundo estava acabando, esse Argemiro, lá do ponto, veio correndo. Nessa ocasião, Alexandrino trabalhava na máquina de arroz, não era viajante de caminhão, não. Ele trabalhava na máquina de arroz. Aí já levou ele lá em casa, porque sabia que ele estava daquele jeito. Nossa, mas foi uma tragédia, Deus me livre! Foi triste demais. Morreu todo mundo, até o papagaio da mulher morreu. Mas foi triste mesmo. Parecia que o mundo ia acabar. O céu ficou tudo cheio de pedacinho, que ele tinha muito foguete pronto. Foi queimando tudo, pólvora arrebentando... 

 

P/1 – Como seu Alexandrino reagiu a esse drama?

 

R – O que ia fazer? Ela ainda aturou quinze dias, depois de quinze dias ela morreu. Menina bonita, sadia, forte, já tinha fitinha no cabelinho... O cabelo pretinho...

 

P/1 – E aí a vida continuou...

 

R – A vida continuou, está continuando até hoje. Meu marido foi, mas eu fiquei. Moro sozinha e Deus, aqui nessa casa. Não moro sozinha de tudo, porque os dois enfermeiros que tomaram conta do meu marido aqui... Que ele ficou cinco anos doente, então os dois enfermeiros, uma enfermeira e um enfermeiro, que é a Dora e o Júlio, não sei se o senhor já ouviu falar. Uma noite um, uma noite outra. Porque ficou cinco anos doente, um só não dava conta. Teve temporada de três para revezar. Quando Deus levou a companhia combinou com eles, pagou tudo o que tinha direito de pagar e falou para eles, para o Júlio e para a Dora, se eles queriam me olhar. Não como doente, porque eu não sou doente, graças a Deus. Mas eu também não dou conta de dormir nessa casa sozinha. Porque de dia eu não tenho medo, não, mas de noite eu morro de medo. Deus me livre! Aí uma noite um dorme, outra noite o outro dorme. Esses dois, agora, me puseram manhosa demais. Porque eles me dão remédio no pires para eu tomar. Eu tomo cinco remédios toda manhã. Eles me dão prontinho no pires para eu tomar. O Júlio é mesmo que um filho pra mim. Dá até briga, porque às vezes dá ciúme, dá ciúme na minha nora. A minha neta fica enciumada, porque ele me olha como se eu fosse um filho. Mas ele é... Quando uma pessoa toma conta, como é que fala? Segurança. Ele é meu segurança, mas ele é segurança de lei mesmo, formado. Já fez curso no Rio de Janeiro, já fez curso em Brasília, já fez curso em Goiânia; a última vez fez aqui, em Araguari. Ele é polícia, mesmo. Mas ele não gosta que fale para ninguém, não. 

 

P/1 – Dona Maria, vamos voltar um pouquinho lá atrás, porque nesse momento da sua vida com o seu Alexandrino começa um processo que vai levá-lo a um grande empreendimento. E a senhora estava ali ao lado dele o tempo todo...

 

R – Sempre junto. Ele ficou muitos anos empregado. Trabalhou de empregado muitos anos.

 

P/1 – Ele fazia planos com a senhora?

 

R – Fazia, coitado.

 

P/1 – O que ele dizia?

 

R – Ele tinha uma vidinha sempre alta, porque ele era muito trabalhador e ele enxergava longe, ele enxergava alto. Então ele sempre falava: “Se Deus quiser eu não vou trabalhar de empregado a vida inteira. Eu hei de melhorar a minha vida”. Ele foi indo, foi indo... Porque de tudo ele aprendeu um pouco. Ele também aprendeu ofício de mecânico. O pai da Ofélia, a minha nora, é que foi o patrão dele de mecânica – o seu Neném que ensinou serviço de mecânico para o meu marido. Ele trabalhou de mecânico muito tempo, mas quando era moço, sem casar ainda. Ele trabalhou em máquina de arroz, também, antes de casar e depois de casado. Ele viajou de caminhão, viajou também para Goiás afora, antes de trabalhar lá em Jataí. Pelejava de todo jeito.

 

P/1 – Quando é que ele chegou a ter o seu primeiro negócio próprio?

 

R – Ele trabalhava numa máquina de arroz onde foi o Correio de Uberlândia, lá na praça, lá embaixo. Nem sei o que é lá hoje... Eu morava naquela casa de frente, ele ia morar naquela casa de frente onde era o Correio de Uberlândia. Aí a máquina de arroz era de uma outra pessoa, Fernando Teixeira. Ele trabalhou com essa máquina do Fernando Teixeira como empregado. Aí o pai dele pediu a esse tio dele, com quem ele ficou quando quebrou a perna – que ficou minha sogra lá e ele aqui –, pediu a esse tio dele um dinheiro emprestado e comprou a máquina de arroz, para o Alexandrino poder trabalhar não como empregado, mas como dono. E ele foi trabalhar nessa máquina de arroz com o pai dele. Mas ele era muito danadinho e ele foi aumentando a máquina. Quando eles compraram a máquina, ela beneficiava quarenta sacos de arroz por dia. Mas quando o pai dele comprou a máquina, ele foi reformando, aumentando, a máquina já beneficiava cento e tantos sacos por dia. Mas até saco nas costas ele carregou para pôr na pilha, lá em cima. Hoje tem até aquela carretilha que leva o saco lá, mas naquele tempo não. As escadas, a tábua era larga, porque era perigoso. Então era aquela escadona larga. Ele subia quando faltava empregado para poder pôr o arroz nas pilhas, lá em cima. Até isso ele fez também, coitado. Aí começou com máquina de arroz. Depois da máquina de arroz o que ele fez? Depois da máquina de arroz...

 

P/1 – Teve um posto de gasolina? 

 

R – É. O terreno onde ele teve posto de gasolina era dos meus pais. Foi onde eu nasci, morei, tudo. Aí meu pai ia vender para o pai do Zezinho dos Santos, que se chamava José dos Santos. Mas aí o Alexandrino era vivo e falou: “Dona Delfina, está muito barato. Se for para vender nesse preço, eu compro”. Meu pai ia pôr fora, porque ele queria o dinheiro. Já estava com a cabecinha doida, virada de tudo por causa do jogo. Aí Alexandrino falou: “Dona Delfina, não deixa vender que está muito barato. Se for para vender, então eu compro”. Aí a mamãe preferiu vender e tirou meu pai da cabeça. Porque ele largou ela, mas ele nunca ficou de mal com a minha mãe, não. Quando tinha que conversar qualquer coisa, ele ia lá e conversava. Aí a minha mãe falou para ele: “Zuza, o Alexandrino quer comprar a casa que você vai vender para o Zezinho dos Santos. Ele diz que é muito barato, por esse preço ele compra”. Aí papai concordou. Concordou e Alexandrino foi e comprou o terreno da minha mãe. E deu uma casa na Vila Martins, estava no começo da Vila Martins. Deu uma casa para mamãe morar, poder desocupar a casa que ele queria fazer o posto logo, aumentar tudo ali. Aí ele pôs o posto, depois do posto pôs oficina, depois tinha agência também, foi aumentando, aumentando... Depois, então, já fazia muitos anos com oficina, com agência, que ele foi aumentando... Ele não gostava de nada pequeno, tudo ele queria grande, muito grande. Aí a Teixeirinha estava para vender. A Teixeirinha era desse tamanhozinho, uma coisica. Ele comprou a Teixeirinha, mas arranjou quatro sócios. Era o Francisco Caparelli, lembra? Francisco Caparelli era irmão daquele médico Caparelli que tem lá em Uberlândia. Francisco Caparelli, o Aristides de Freitas, que era pai do Renato de Freitas... Eu sei que eram quatro, agora eu já esqueci o nome. Então saíram na rua vendendo telefone. Veja a ideia deles. Vendendo telefone, vendendo, vendendo, porque a Teixeirinha não falava nem daqui até Araguari. Levava três, quatro dias, uma ligação daqui para Araguari. Aí foi vendendo e ele logo já querendo aumentar, querendo reformar, foi comprando, comprando... Uberlândia já estava cheia de telefone, tudo vendido, mas ainda não tinha nada instalado, não tinha nada pronto ainda. Aí foi aumentando, fez aquela casa grande da esquina e foi aumentando serviço também. Aí o Caparelli tinha a loja dele e ele estava tomando prejuízo na loja dele, que era aqui em cima. Aí ele falou: “Olha Alexandrino, se você quiser comprar minhas ações, eu não vou continuar, não”. Aí o Caparelli vendeu primeiro, depois o Aristides de Freitas, que mexia com fazenda, vendeu também e os outros dois também venderam. Mas ficou um dos quatro ficou com o Alexandrino. Aí já fazia mais de ano que eles estavam naquele movimento de vender ação, de vender isso, vender aquilo. Mas estavam brigando muito. Era o Alexandrino... como chamava o outro? A minha cabeça não dá mais... Eu sei como é que faz, como é que não faz, fizeram uma eleição para poder ver quem ficava com a Companhia. Porque um tinha que sair, porque estavam brigando demais da conta. Aí fez uma eleição, igual eleição política, só você vendo. A rua ficou assim de gente, a noite inteirinha cheia de gente. Policiamento na rua para todo lado e fez eleição mesmo. Quando foi duas horas da manhã, Alexandrino ganhou. Ele ganhou. Aí o outro só teve que concordar, porque aí foi feita a eleição e meu marido ganhou a eleição. O outro ficou só mais uns tempos, saiu, ele ficou sozinho, aí ele fez do jeito que ele queria. Foi pelejando, pelejando... Até dar o que deu até hoje.

 

P/1 – Como tudo isso se refletia na vida doméstica, do lar?

 

R – Não. Não tinha nada a ver uma coisa com a outra. 

 

P/1 – Sim, mas ele comentava, falava, pedia opinião?

 

R – Pouca coisa. Porque logo foi entrando no negócio de máquinas e não sei o quê. Ele me levava lá para eu ver como que eram as máquinas de uma telefônica. Uma beleza. Você nunca viu, não? Já viu também? É tudo trabalhado, mas ele não entendia nada de telefonia, coitado. Ele não entendia nada. Aí nesse tempo trabalhava com a Ericsson, de São Paulo. Então a Ericsson, como comprava as coisas deles, ele mandou um casal vir morar aqui em Uberlândia para dar umas instruções para ele, porque ele não entendia nada. Acabou até ficando compadre nosso... Esse casal teve essa criança e nós fomos padrinhos dele. Trabalhou também acho que durante uns dois anos, ou três, foi no que ele aprendeu. O seu Nelson foi ensinando para ele. Ele pegava tudo com muita facilidade, porque ele gostava de mecânica, gostava de máquinas. Quando eu vejo o Luiz, hoje, querendo comprar coisa que não é máquina, eu falo: “Meu filho, você está jogando dinheiro fora. Trabalha com máquinas, com coisa não”. Negócio de fazendas, negócio de não sei o que, é contra a minha vontade porque eu sei que não era o princípio do meu marido. O princípio dele eram máquinas. Tudo quanto era máquinas ele gostava.

 

P/1 – Ele tinha tempo de ficar em casa, de conviver com as crianças e com a senhora?

 

R – Pouco. Não, pouco tempo. Ele levantava cedo. Sete horas ele entrava com os empregados. Quando a campainha tocava ele entrava. Quando dava onze horas, a campainha tocava... Isso eu vi, não foi ninguém que me contou, não. Ele saía no meio daquele pelotão de gente. Saía cinco horas. Aí chegava aqui em casa, cinco horas, por isso que eu aprendi a beber, eu bebo de tudo, pode me dar até pinga que eu bebo. Aí, chegava aqui em casa: “Como é que passou o dia, como é que está aí?” Ia para o quarto, ia para o banheiro, tomava um banho, vestia o pijama dele, passava no corredor, já pegava uma garrafa de vinho, lá na geladeira, chegava aqui na sala de jantar, na cristaleira, pegava um copo para ele, um copo para mim, aí a gente ia tomar o aperitivo. Todo dia tinha que estar pronto o aperitivo. Ele não gostava de jantar: a janta dele era só uma sopa, depois do aperitivo. Mas aí tudo que ele bebia eu tinha que beber. “Eu não quero, Alexandrino. Eu não gosto disso.” “Aprende! Tem que aprender beber.” Aprendi beber de tudo, tudo. Eu bebo um golinho de pinga, não muito, que eu também não sou doida, né? Uísque, tem sempre ali um golinho de uísque. O Luiz não deixa faltar uísque para mim. Tem sempre os meus vinhos guardados. Tem tudo, porque ele me ensinou beber de tudo.

 

 P/1 – E qual era o lazer dele? 

 

R – Ele deitava cedo porque ele levantava muito cedo. Escutava o rádio, só. As notícias do jornal, mas negócio de olhar figura, lá de coisa, de televisão, não gostava dessas coisas, não.

 

P/1 – Comentava de negócios com a senhora?

 

R – Não, muito pouco. Não adiantava, ele sabia que eu não entendia de nada. No começo só falava: “Ih, nossa, estou cansado, trabalhei demais, fulano fez isso, fulano fez aquilo, foi preciso mandar fulano embora, foi preciso fazer isso, fazer aquilo...” Isso ele comentava, falava. Mas não adiantava nada ele falar de máquinas, porque eu não entendia nada. 

 

P/1 – Seu Alexandrino era um homem dedicado ao trabalho, inclusive nos finais de semana. Isso não atrapalhava, não incomodava a senhora?

 

R – Ah, não incomodava, não. 

 

P/1 – Ele ficava muito tempo fora de casa?

 

R – Ficava nas horas que era preciso, não é? Porque às cinco horas ele vinha do serviço, já não saía mais. Quer dizer que ficava o resto da tarde. A gente ficava tomando o aperitivo, comendo qualquer coisa. Depois, mais tarde, tomava a sopinha, depois ia deitar. No outro dia levantava cedo, tomava o café.

 

P/1 – Que horas que ele acordava, Dona Maria? 

 

R – Ele levantava sempre cinco e meia, às vezes seis e pouquinho. Quando era domingo ele ficava até mais tarde na cama, não ia trabalhar, ele ficava até mais tarde na cama. Ele olhava muito a planta no quintal, ele gostava muito de pomar. Meu pomar hoje é que não tem nada, morreu quase tudo, mas no tempo dele tinha de tudo aqui em casa, só você vendo que beleza! Era de tudo, laranja da melhor qualidade, doce, tudo. Ele gostava dessas coisas.

 

P/1 – De plantar, de mexer na terra?

 

R – É, ele gostava, sim.

 

P/1 – Um pouco da tradição da família dele, não é?

 

R – É, sempre puxa um pouquinho.

 

P/1 – A senhora ajudava?

 

R – Ajudava. Eu podei as laranjeiras muitas vezes, eu tenho meu serrote. Eu tenho um serrotinho desse tamanho. Eu tenho o meu, ele tem o dele. Não sei se o senhor conhece um serrotinho que é viradinho assim, conhece? Próprio mesmo para podar. A gente ia para podação. Eu achava bom aquilo, não achava ruim, não, podia fazer outra coisa. Quando era na lua nova, podava sempre na nova. Eu aprendi muito a trabalhar com a nova, porque ele trabalhava pela lua. “Maria, vê aí. Vigia a lua.” Quando ia chegando a nova…” A lua é tal dia...” Eu tenho ainda o meu serrotinho. Ele tem ainda o dele guardado. De vez em quando eu empresto para eles aí, mas falo: “Ó, é emprestado. Acaba o que tiver que fazer e me dá”. Para eu guardar, né? Eu tenho todas as minhas ferramentas. Tenho martelo, tenho alicate, tenho chave de fenda, tenho tudo. Tenho uma caixa assim, ó. Ferramenta que ele deixou para mim.

 

P/1 – A senhora usava essas ferramentas?

 

R – Ah, se precisava! Ele usava e se eu precisasse, usava também. Ele morreu, ficou pra mim, não ficou? 

 

P/1 – Dona Maria, depois que o seu Alexandrino assumiu a CTBC a carga de trabalho aumentou muito? 

 

R – Muito. 

 

P/1 – Ele não chegava mais em casa às cinco da tarde?

 

R – Não, era bem mais tarde que ele chegava.

 

P/1 – E então como ficou a dinâmica da casa? 

 

R – Era a mesma coisa, só que o lanche era mais tarde. Eu dava comida para as crianças mais cedo, porque as crianças não podiam ficar, às vezes, até oito, nove horas, sem jantar. Tinha dia que ele ficava lá até nove horas. Quando ele vinha eu estava esperando.

 

P/1 – Aí já eram Walter, Eleusa e Doutor Luiz?

 

R – O Luiz, é. 

 

P/2 – Eles não eram tão crianças...

 

R – Não, já não eram muito crianças mais não. O Walter já trabalhava por conta própria, ele começou a trabalhar na Intermáquinas. Ele foi dono da Intermáquinas muito tempo. Ele trabalhava na Intermáquinas, com o Glênio, quando era aqui na beirada da linha. Você lembra do trem de ferro que passava ali? Em frente àquela churrascaria, e que ia por aquele mundo afora? Era na esquina, quando a gente desce, aquela casa na esquina, o começo da loja. Walter começou a trabalhar tão novo... O Walter era tão novo, quando ele começou a trabalhar com o Glênio Spini, que ele não podia assinar cheque. O pai dele é que tinha que assinar por ele, de tão novinho que ele era. Mas era um menino tão trabalhador, coitadinho. Mas viveu pouco, não viveu muito tempo, não. Perdeu a vista, ficou cego de um olho, não pôde continuar os estudos. Ele estudou aqui um tempo e depois foi para Campinas, para fazer um curso melhor, mas não deu conta: teve que vir embora e acabou morrendo cedo. Mas aí ele já não trabalhava com o pai dele, trabalhava na Intermáquinas. Lembra da Intermáquinas? Ele era sócio com o Glênio Spini, mas depois, quando mudou lá para baixo, aí ele foi trabalhar por conta própria. Aí o Glênio vendeu a parte dele para o Walter. Foi assim.

 

P/1 – Com o crescimento da Companhia Telefônica, o seu Alexandrino se jogou de corpo e alma no empreendimento. E, por isso, devia ficar pouco tempo em casa. Como isso se refletia na relação com os filhos e com a senhora?

 

R – Não refletia nada, não. Eu achava ruim ele viajar. Porque viajava, eu ia dormir só com as crianças... É ruim assim para qualquer um. Mas ele tinha que viajar, o que eu ia fazer? Ia viajar.

 

P/1 – A senhora chegava a acompanhá-lo?

 

R – Não. Olha, eu já fazia quatro anos de casada, não conhecia Araguari. Nunca tinha viajado. Quando eu casei, já com dezoito anos, eu fui conhecer Itumbiara, Monte Alegre... Porque eu fui morar em Jataí, aí conheci para cá. Mas aqui, Araguari, não conhecia, nunca tinha ido. Nem de automóvel, nem de trem. Nem Araguari, nem Uberaba, nem lugar nenhum. Porque nunca viajei. Nunca viajei, não.

 

P/1 – Nunca teve vontade de acompanhá-lo nessas andanças? 

 

R – Tinha, mas meus meninos eram pequenos. Casei logo e fiquei grávida, tinha os meninos pequenos, tive um atrás do outro. Não podia sair. Aí ele viajava, ele ia muito para São Paulo. Mesmo no tempo que ele ainda tinha agência de automóvel, ele ia para São Paulo fazer compra, coitado. Ele ia de automóvel. Aí ele ia nas fábricas, comprava tudo mais barato. Ia à São Caetano, ele ia para esses lados de automóvel, quando ele mexia com automóvel, comprava peça, comprava tudo o que tinha de comprar, vinha com o automóvel carregadinho, carregadinho. Tanto atrás quanto dentro. O que ele podia comprar, pegava mais barato, ele trazia. 

 

P/1 – Quando se dedica só à telefônica, os negócios começam a crescer muito?

 

R – Foi crescendo, crescendo, crescendo...

 

P/1 – Os filhos começavam também a... 

 

R – Não, até aí o Luiz ainda estudava, não tava formado.

 

P/1 – Já estava em Itajubá?

 

R – Estava em Itajubá. Quando ele veio trabalhar, a Telefônica já estava formada.

 

P/1 – O seu Alexandrino tinha na Telefônica uma espécie de menina dos olhos?

 

R – Tudo para ele era a Telefônica. Adorava aquilo lá. Ele ajudava até os pedreiros. Um dia ele brigou acho que foi com um engenheiro que estava fazendo uma obra lá em cima e estava fazendo errada. Gente, ele foi falando com esse engenheiro, não lembro o nome dele mais, não sei se era Aloísio, não sei quem era, e o engenheiro teimando, fazendo do jeito que estava errado. Ele ficou com tanta raiva que ele entrou dentro da masseira de brita, com cimento, aquela coisa toda... Aí entrou brita no sapato dele, na meia, para todo lado, ele ficou com aquela raiva, mandou pedreiro embora na hora, com engenheiro e com tudo. E ele veio embora também que o sapato estava machucando o pé dele, tudo cheio de brita. Nossa! Eu falei: “Alexandrino, mas o que é isso?” Ele falou: “Mas também, uns burros! Estavam fazendo a coisa errada, a gente está mostrando, está falando e não atendem!” E ele não era nada de engenheiro e chamando o engenheiro de burro... Ah, mas ele sabia de tudo. Tudo. E não adiantava, não precisava brigar com ele, não, porque quem fosse brigar com ele apanhava. Apanhava, mas na discussão. Porque ele conhecia tudo. Matemática, então... O povo do escritório cortava fino com ele, só você vendo. Ninguém passava a perna nele, porque era só de passar os olhos e ele entendia tudo. 

 

P/1 – Ele trazia serviço para casa?

 

R – Não. O lugar de trabalhar era lá. Nunca trouxe serviço para casa. Chegava cansado, tomava um banho, comia o que tinha de comer, queria dormir. Ia dormir cedo. Ele dormia cedo porque levantava cedo. Depois que eu tive meus filhos todos, aí eu comecei. De vez em quando ele me levava em São Paulo, porque ele ia buscar material e me levava. Eu ia de automóvel e voltava de automóvel. Depois a gente entrou no Lions, aí a gente fazia aquelas convenções fora e eu ia com ele, porque ele não ia em convenção nenhuma sem mim. Não ia em lugar nenhum. Ele só ia sem mim quando era negócio. Mas se era pra passear... Ele nunca foi nem daqui até Araguari sozinho. Nem daqui até Uberaba... Não, não ia. Eu ia com ele para todo lado. Aí eu fui conhecer São Paulo... Em 1951 é que ele foi conhecer Portugal. Ele era português da aldeia, mas não conhecia Portugal. Em 1951 nós fomos conhecer Portugal. Aí nós ficamos seis meses em Portugal. 

 

P/1 – Como foi essa volta dele às origens?

 

R – Ele foi conhecer Portugal, a Lapa do Lobo. Ele saiu da aldeia, da aldeia veio para Coimbra, de Coimbra para Lisboa, e era só o que ele conhecia. Mas de Lisboa ele já foi direto para o Porto, para embarcar para cá. Quer dizer que meu marido não conhecia Portugal. Ele era um português que não conhecia Portugal, lugar nenhum, a não ser Coimbra, Lisboa, e lá a Lapa do Lobo, que é a aldeia deles. Quando foi em 51 ele tinha agência de automóvel, lá na esquina, que hoje é um banco. O Agenor trabalhava com ele, o Agenor meu cunhado, mas os dois estavam brigando demais, porque o Agenor era meio burrinho, coitadinho, morreu em pouco tempo. Era meio burrinho e o Alexandrino não se conformava com o que o Agenor fazia. Aí eles brigaram e a minha sogra ficava sempre a favor do Agenor, porque era um dos caçulas dela. Mas aí ele começou a brigar demais com o Agenor na agência. Tanto eu ficava contrariada... Eu morava aqui, nessa casa de baixo... Eu ficava contrariada de ver ele contrariado, triste, às vezes até chorava. Às vezes ele ficava deitado num banco, que tem esse banco até hoje nessa casa. Ele deitava de bruços, no banco, eu ia lá: “Alexandrino, o que foi?” Levantava a cabeça dele assim, os olhinhos estavam cheios d’água. Mas a mãe dele era a favor do outro, do filho mais novo, aí foram vendo que não dava certo ele trabalhar com o irmão. Aí inventaram dele ir para Portugal. Ficou a família toda: “Não, vai, vai, vai... Vai conhecer Portugal, vai andar, mas leva a Maria, porque aí você fica sossegado”. Porque sozinho ele não ia mesmo. Aí ele falou: “Olha Maria, então arruma suas coisas, manda fazer o que for preciso fazer...” Ele mandou fazer umas camisas, umas roupas, também. Mas naquele tempo não comprava nada pronto, tudo tinha que mandar fazer. Hoje não, você vai na loja, você compra tudo. E nós fomos pra Portugal.

 

P/1 – Como é que foi essa viagem?

 

R – Nós fomos de trem daqui até São Paulo, depois de São Paulo nós fomos para o Rio, que eu não me lembro mais do que foi... Eu sei que nós embarcamos para Portugal no Rio à meia-noite e meia que nós embarcamos. Viajamos a noite inteirinha por cima do mar. Só via céu e mar, aquela beleza. A gente não dormia de noite, tudo iluminado. Então olhava... A gente via o reflexo do mar lá em baixo. Eu nunca tinha viajado, também. Para mim era uma coisa do outro mundo. Quando nós chegamos, no outro dia, mais ou menos dez e meia, saímos à meia noite do Rio, viajamos a noite inteirinha de avião e fomos chegar em Portugal dez e meia. Ficamos seis meses em Portugal. Mas não aguentava mais de saudade de casa. Mas aí ele foi conhecer Portugal. Viajou para todo lado... Aí depois nós pegamos o trem, fomos para a Espanha, para a França. Até para a Alemanha eu fui, sem saber nada. Ai meu Deus do céu. Fui até na Alemanha, você acredita menino? A gente ia conhecer os museus, aquelas igrejas maravilhosas, aquelas coisas mais lindas do mundo, mas aquilo para mim não tinha muito motivo de grandeza, que isso é bom para quem estudou, porque vê uma coisa, sabe a história daquilo. Aquelas igrejas que você punha a cabeça assim, só ouvia anjo voando para todo lado, assim. Para mim, não achava graça naquilo, não. Mas era muito bonito. Aquelas pessoas de escola que iam fazer excursão, ficava tudo doido. Eu já não ligava para aquilo mais não. Eu estava com vontade de vir embora.

 

P/1 – Como foi a visita às aldeia natal, lá no lugar onde ele nasceu?

 

R – Foi uma chegada boa. Uma tia dele, que era irmã da minha sogra, morava nessa aldeia e no fundo da casa dela passava uma estrada de trem – lá é comboio, não é trem que fala, é o comboio. Passava um vagão só, de passageiro. Todo santo dia, duas horas, o comboio passava. Então se a gente quisesse embarcar para ir pra qualquer um outro lado, ia lá no fundo, passava pela porta da rua, ia no fundo do quintal dela e o comboio parava: era ponto de parada. Às vezes tinha muita gente ali, tudo esperando o comboio. E nós pegamos esse comboio, saímos, fomos embora. Aí fomos conhecer Portugal, a Itália, França, Suíça, aqueles lados todos.

 

P/1 – E a saudade apertou.

 

R – Aí foi ficando com saudade, foi ficando com saudade, foi dando vontade de vir embora, porque seis meses é muita coisa.

 

P/1 – Em que época do ano vocês viajaram?

 

R – Sabe que eu não lembro mais, faz tanto tempo... Não sei que época que era, não. Sei que tinha muita fruta. Não era inverno porque tinha muita fruta, e para todo lado... Eu lembro quando a gente foi da Espanha para lá, nós fomos de trem, menino, que beleza de comboio. Aquela coisa maravilhosa, só você vendo. Então, aquelas lavouras... Aqui a gente vê lavoura de milho, de café, de arroz, de algodão. Lá era girassol, lavoura de girassol, tanto que sumia de vista. Tudo florido. Cada um desse tamanho assim, ó. Tudo florido. Só girassol. Falei: “por que será tanto girassol?” Não sabia que fazia o óleo de girassol, por isso que usa o óleo de girassol, não é? Mas eram lavouras e lavouras, também. Eu sei que quando a gente voltava para cá, nós fomos na Suíça – eu me esqueço por causa do organdi suíço. Nós passamos na Suíça e o Alexandrino me levou numa loja, numa casa lá que era só coisas de casa. Era guardanapo, era roupa de cama, tudo de linho, tudo de organdi suíço. Eu até pouco tempo ainda tinha uns guardanapinhos de bandeja, tinha uma porção de coisas que eu comprei lá, nessa casa, na Suíça. Depois peguei... Chega.

 

P/1 – Durante esse tempo na Europa ele tinha vontade de telefonar para o Brasil para saber das coisas aqui?

 

R – Não, ele foi para esquecer das brigas dele com o irmão dele. Nunca telefonou para perguntar. Nunca telefonou para saber de nada, não quis saber de nada. Mas quando venceu o prazo de vir embora, nada segurou também. Nem que quisesse ficar mais um pouquinho, não ficava, não. Era hora de vir embora, era hora de vir embora.

 

P/1 – Fez bem para ele essa visita à Portugal?

 

R – Fez, porque quando ele chegou ele já estava mais sossegado. Eu sei que foi muito boa, nossa vida foi muito boa. 

 

P/1 – Ele voltou retemperado?

 

R – Aí já estava descansado, seis meses dá para descansar muito. Ele já estava com vontade era de trabalhar. Aí o Agenor, lá na agência, já pegou o lugar dele... Aí ele já foi fazer outras coisas. Porque nele ficar seis meses, o Agenor tomou conta do lugar dele. E o Agenor não era bom para negócio. Mas foi muito bom. Nossa Senhora... Foi pena que ele morreu cedo. Podia estar aí até hoje.

 

P/1 – Mas o seu Alexandrino a partir dessa volta aí que começou todo o processo que desembocou na Telefônica?

 

R – Mas o Agenor não teve nada com a Telefônica. Foi ele mesmo. O Luiz estava formando ainda, em Itajubá. Acabou de formar e foi aprender a trabalhar nos Estados Unidos, trabalhou nos Estados Unidos, acho que um ano ou dois, depois é que ele veio trabalhar com o pai. Brigou demais da conta, o Luiz com o pai...

 

P/1 – Brigavam muito? 

 

R – Nossa Senhora, mas como brigavam.

 

P/1 – Por que?

 

R – Porque o Alexandrino sabia na prática e o Luiz sabia nos livros. O que ele estudou ele queria aplicar, porque ele formou... E o pai dele não tinha formatura de nada. Mas ninguém passava ele, não. Ah, meu Deus do céu, foi uma tragédia. Minha Nossa Senhora. A briga dos dois...

 

P/1 – Trabalhavam juntos e brigavam?

 

R – Brigavam demais da conta e o Luiz já tinha feito estágio, lá nos Estados Unidos, morou acho que um ano ou dois lá. E ainda chegou e o pai dele custou a acostumar com ele.

 

P/1 – E que partido a mãe tomava?

 

R – A mãe aguentava tudo. Tinha que acudir o marido, daí tinha que acudir o filho também. Mas logo, logo eles compreenderam. O Alexandrino cedeu um pouco, o Luiz também cedeu.

 

P/1 – A família se reunia com frequência?

 

R – Enquanto o Alexandrino foi vivo, o almoço, dia de domingo, foi na minha casa. Todo domingo vinha todo mundo para minha casa. Meus cunhados... Doutor Ivan, conhece o Doutor Ivan? 

 

P/1 – Não.

 

R – É genro do meu cunhado. Mas toda a vida eu morei aqui nessa chácara, ali do lado de lá, lá tem uma piscina muito grande, porque aqui tem uma pequena, mas lá, não. É piscina... Como é que se fala? Olímpica, né? Era grande mesmo, então toda essa meninada da família, todos aprenderam a nadar na piscina aqui de casa. Todos, todos. Hoje tem muitos que nem me conhecem. O almoço era aqui. Depois eu mudei dessa casa lá para baixo, lá para o edifício Guiomar de Freitas, ali na Praça da Bicota, em frente a igreja. Não tem aquele prédio que tem aquela cerca tudo à volta do prédio? Em frente aquele clube dos pretos. Ali foi meu. Eu passei para minha filha, eu que dei para a minha filha. Morei vinte anos ali naquela casa. De lá voltei para cá outra vez. Morei uns trinta ali, depois mudei para lá, agora mudei para cá. Faz pouco tempo que eu moro aqui. Só deixei de dar comida para família toda depois que eu mudei para essa casa aqui. Eu ainda morava aqui, ainda vinha todo mundo. Dia de domingo vinham para casa da vovó, vinham almoçar aqui. Ah mas depois eu cansei, falei: “chega”.

 

P/1 – O que a senhora mais gostava de fazer nesses almoços?

 

R – Tudo, porque tinha gente de todo jeito, tinha menino de todo jeito. Era carne de porco, era carne de vaca, era frango, era angu com quiabo, era mandioca com carne de porco, era macarronada, era arroz de forno... Comida de roça.

 

P/1 – Mas qual era a receita especial da vovó? 

 

R – Era frango. Todo mundo queria frango. “Vovó, hoje não tem frango, não? Cadê o frango?” Então tem sempre frango no quintal aí. Frango e ovo não me faltam. Não compro.

 

P/1 – Como a senhora fazia o seu frango especial?

 

R – Tinha uns que queriam assado, com farofa. Outros queriam com molho, frango de molho. Outros queriam franguinho frito, os pedaços separados. Então tinha que satisfazer a vontade de todo mundo, meu Deus do céu, porque cada um queria de um jeito. Mas eu achava tão bom, não tinha cozinheira, não tinha arrumadeira, era eu mesma quem fazia.

 

P/1 – Seu Alexandrino tinha boa retaguarda, então?

 

R – Mas eu era brava, menino... Alexandrino não brincava comigo, não. Está pensando que ele brincava assim, brinquedo mau brincado? Não! Porque eu não deixava mesmo. Brincava, mas brinquedo de amor, não brinquedo de me rebater e falar palavrão para mim. Ah, não, isso não. Eu falava: “Que direito que eu dou?” Não dava direito de falar palavrão para mim, nem falar um nome pesado comigo. Toda a vida ele me respeitou muito. Ele sabia que eu não era de brincadeira. Respeitava muito mesmo. Foi uma pena o senhor não conhecer. Era um homem de ouro, era um homem bom demais...

 

P/1 – Mas com um geniozinho também forte...

 

R – Muito. Geniozinho, não, muito forte o gênio dele.

 

P/1 – E a senhora também tem o gênio forte. Como que dava essa liga?

 

R – Porque eu não abusava dele e ele não abusava de mim. Tratava com respeito um ao outro, sabe? Quando ele ia falar as coisas para mim, ele falava sério. Se era uma coisa de brincadeira, então era uma coisa de brincadeira. Mas uma coisa para me machucar, falar uma palavra assim... Ah, não falava, não.

 

P/1 – Como ele tratava a senhora?

 

R – Olha, eu chamo Maria. Ele me tratava de Dona Maria. Quando ele estava com raiva ele falava Maria, sai de perto porque estava bravo. Maria, era bravo, porque ele me tratava de Dona Maria. “Ô, Dona Maria, vamos tomar o nosso vinhozinho? Ô, Dona Maria cadê isso, cadê a sardinha, cadê...” Ele gostava muito de sardinha acebolada. Ele comprava aquela sardinha portuguesa, grande, e de tarde a gente fazia aquele prato de salada de cebola, despejava uma, duas latas de sardinha. Aquela cebola temperada. Punha o azeite da lata e às vezes ainda punha mais. Punha um pouquinho de vinagre, mexia. Eu já trazia o pão. Nunca deixou faltar pão na minha casa, sabe por quê? Por causa do padeiro que eu namorei. Ele nunca deixou faltar pão, porque dizia que eu queria casar com o padeiro, porque eu gostava demais de pão. Ô, meu Deus do céu! Toda tarde lá vem o Alexandrino com um saquinho de pão. Quando ele vinha, lá da Companhia, ele vinha naquela rua que até passa perto da delegacia... Não tem uma padaria por ali? Eu sei que ele vinha de lá, passava naquela rua e naquela rua que ele passava tinha uma padaria. Uai, estava fácil. Ele já entrava lá, pegava. Todo mundo já sabia que ele pegava o pão, já estava a sacolinha dele arrumadinha, chegava e era só entregar. Mas trazia pão todo dia. Eu falava: “Alexandrino, chega de pão”. Tinha que fazer rabanada ou então doce de pão em calda... Aí dava, era só mais serviço pra gente.

 

P/2 – A senhora sabe de quem era essa padaria?

 

R – Não.

 

P/2 – Eu acho que eu sei.

 

R – Nunca fiquei sabendo. De quem que era?

 

P/2 – Porque eu ouvi uma história esses dias, da Valéria, que é secretária do Zé Carlos, na CTBC, ele pegava pão todos os dias na padaria do avô da Valéria. Depois eu vou perguntar essa história pra Valéria.

 

R – Ah, é? Eu nunca fiquei sabendo quem era. Eu sei só que era naquela rua. Ele vinha de lá, passava na rua, o saquinho já estava lá arrumado. Ele era muito farturento. Ele gostava de coisa boa. Até que vestir ele não tinha muito gosto para vestir, não. Eu tinha que brigar com ele: “Alexandrino, você já foi ontem com essa camisa, vai hoje com a outra.” Ele queria ir com a camisa dois dias. Uai, trabalhava o dia inteirinho e ir com a camisa suja? Eu tinha prazer em lavar aquelas camisas bem lavadas, passava... Era tudo camisa de linho, tudo camisa branca. Bonito, ele ia bem arrumadinho.

 

P/1 – Para os ternos ele gostava de que tecido?

 

R – Qualquer tecido. Mas ele não ia de terno para lá.

 

P/1 – Mas quando precisava usar...

 

R – Quando, por exemplo, tinha reunião, ele tinha terno de linho. Se era calor ele ia de terno de linho, se era mais frio ele ia com terno de casimira. Ele gostava muito da cor cinza claro. Ele gostava muito de cinza. Dei roupa dele para esses funcionários da granja. É a roupa que eles têm até hoje. O que eu ia fazer com aquela roupaiada, né? Dei tudo.

 

P/1 – Qual o prato que ele mais gostava de comer?

 

R – Batata. Batata com sardinha, batata ensopada também, batatinha frita como aperitivo, purê de batata... Era o prato que ele mais gostava. E bacalhau. Porque todo português, a comida principal deles é o bacalhau. Bacalhau na minha casa não faltava. Sempre tinha bacalhau e do bom. Ele gostava muito daquele bacalhau grosso... Deixa dormir de véspera, na água, vai trocando, trocando, no outro dia está bem adoçado já. Aí fazia aquilo de qualquer maneira que quisesse: ou desfiado, ou em postas, ou com batata... Ele gostava muito. O prato melhor dele era o bacalhau. Era a comida principal dele. 

 

P/1 – Ele e a senhora gostavam de receber pessoas em casa, dar festas?

 

R – Não, festa não. Mas recebia. Todo mundo que vinha aqui em casa era bem recebido. Mas não foi muito de dar festa, não. Eu não fui criada com festa. Ele também não foi, coitado. Não tinha esse negócio de festa.

 

P/1 – Ele almoçava em casa ou na rua?

 

R – Nós casamos e vivemos sessenta... Não sei se sessenta e quatro ou sessenta e seis anos casados. Nunca fiquei sabendo que o meu marido sentou num bar com colega para beber cerveja. Nunca. Nunca mesmo. Porque se algum dia ele fosse, eu ficava sabendo. Algum curioso ia me contar. “Ah, eu vi o seu marido lá...” Não, nunca. Ele vinha tomar em casa. Em casa tinha sempre as bebidas que ele queria, mas eu tinha que estar... Porque ninguém bebe sozinho, né? Você senta na mesa, vai beber uma cerveja sozinho? Não vai. Você vai beber um vinho sozinha? Não vai. Então ele vinha, como eu estou falando, se era de tarde ele tomava o banho, vestia o pijama e já vinha. Aí tinha que ter ou bacalhau, ou sardinha... Eram essas coisas assim. Era até fácil de tratar, porque sardinha era só abrir a lata e fazer o molho. O bacalhau a gente deixava de véspera na água. No outro dia era só trabalhar no bacalhau. Mas era a comida principal dele. Não era muito de comer carne, não era muito de frango, só se fosse frito, fritinho. Mas era fácil de tratar. 

 

P/1 – Nessa ocasião o Doutor Luiz já estava trabalhando com o pai? 

 

R – Já. Só no primeiro ano que brigaram muito, depois já foram acalmando.

 

P/1 – Aí a senhora ficou com um marido e um filho já completamente absorvidos por um trabalho que estava começando a crescer muito?

 

R – Muito! E Deus ajudou que o Luiz gosta de trabalhar, gostava de trabalhar com o pai. O pai morreu e ele assumiu. Se ele não gostasse ele não assumia. Para você ver que o Luiz até está acabado, o Luiz está envelhecido demais. Fico boba quando ele vem aqui. Falo: “Meu filho, mas o que é isso? Empina o corpo, levanta!” Ele fala: “Mãe, mas as pernas estão ficando duras o que eu faço?” Já sente... Ele está muito abatido, o Luiz. Ele não é dinâmico igual o pai dele era, não. Porque o pai dele tinha uma força, de um dinamismo, só você vendo que beleza.

 

P/1 – De que forma isso se manifestava?

 

R – Em tudo. Ele não tinha preguiça de nada, não tinha desânimo de nada, ele não vai dizer que não gostava disso e gostava daquilo... Ele gostava de tudo ou não gostava de nada. Se era uma comida, se ele não gostava, não gostava mesmo. Se era de uma planta que ele achava bonita, aquilo era bonito mesmo. Era assim, ele resolvia tudo. Ou sim ou não. Para não ficar naquele meio caminho. 

 

P/1 – E aos poucos ele foi passando a gestão do negócio para o Luiz, né?

 

R – Porque o Walter nunca trabalhou com ele. O Walter trabalhava na Intermáquinas. Não era com o pai. Mas já o Luiz toda a vida trabalhou com o pai. Estudou, formou em Itajubá. Ele é formado. Trabalhou nos Estados Unidos primeiro, para aprender a trabalhar com os outros, depois é que ele veio trabalhar com o pai dele.

 

P/1 – A senhora nunca pensou, nessa época, em dizer ao seu Alexandrino algo como: “Alexandrino, sossega um pouco, vamos ficar um pouco mais em casa, você está trabalhando muito...”

 

R – Não, ele não podia ficar quieto em casa. Se ele ficava em casa, sem serviço, ele brigava. Não podia ficar parado, quieto em casa. Podia era trabalhar mesmo, porque senão brigava. 

Ele tinha ciúme... Tinha ciúme demais, coitado. Nossa Senhora! Eu tinha ciúme dele também. Quando a gente quer bem, tem ciúme. Mas não era esse ciúme adoidado assim, não. Se fosse assim ele não podia trabalhar na Companhia, que trabalhava no meio só de mulher.

 

P/1 – Havia muitas telefonistas?

 

R – Tem telefonista, tem moça de escritório, tem tudo. Eu deixei de ir lá na Companhia.

 

P/1 – Quando ele abandonou o trabalho quando começou a ficar mais debilitado? 

 

R – Não, nunca. Da Companhia? Não, nunca. Desde que ele começou a trabalhar na Companhia, dedicou-se à Companhia e nunca mais largou.

 

P/1 – Mesmo quando doente? 

 

R – Enquanto ele pôde andar ele foi. Mas foi indo, a doença foi tomando conta, foi jogando ele na cama, médico de cima... Foram cinco anos de luta. Tinha dia de ter três médicos, porque um médico já chamava o outro. Por exemplo: o Doutor Daiton vinha aqui, olhava coração, se já tinha qualquer outra coisa, de pulmão, disso e daquilo, Doutor Dainton mesmo já chamava o outro, que entendia. Às vezes juntava três médicos no quarto. Enfermeira era de dia e de noite. Eu nunca, mesmo, dei um comprimido para ele. Não dava. Ele passou com sonda, alimentando por sonda no nariz. Ficou acho que três anos alimentando pela sonda. Nossa, sofreu demais.

 

P/1 – Qual foi o problema dele?

 

R – Acho que o pulmão. A doença principal hoje é câncer, graças a Deus não teve nada disso. Foi pulmão mesmo. Pulmão, coração, essas coisas.

 

P/1 – Mas ele não fumava…?

 

R – Não. Não fumava, não. Perdeu a fala. Ficou três anos sem falar. Quando ele adoeceu, precisava fazer... Assinar qualquer coisa, que eles fizeram... Como é que fala? Inventário... Quando a gente morre, como é que a gente fala? 

 

P/1 – Inventário, testamento.

 

R – Testamento? Acho que é inventário mesmo.

 

P/1 – Mas ele era vivo ainda, quando foi...

 

R – Era. Mas ele já não dava conta.

 

P/2 – Fez a partilha, já?

 

R – É. Não dava conta de assinar. Enquanto ele pôde rabiscar ele rabiscou. Mas foi indo e ele já não dava conta nem de rabiscar. Mas enquanto ele pôde reagir, ele reagiu. Mas também, graças a Deus, não ficou nada para trás, nada sem organizar, ficou tudo organizado. E uma senhora e esse rapaz, até ele já chegou aí, é uma noite um, uma noite o outro. Uma noite um, uma noite outro... Senão eu ficava sozinha de tudo. Triste demais. Um casão desses, essa casa é grande. Eu não saindo, eu não tenho medo. Mas se de tarde eu saio, que eu chego de noite... Ah, eu morro de medo. Eu já entro desconfiada pelos nos cantos, assim...

 

P/1 – Mas a senhora tem sempre companhia, não é? 

 

R – Sempre. Ou é a Dora ou é o Júlio, que são os meus companheiros. O Júlio é que me leva para todo lado. Eu não vou nem daqui até no aeroporto sem ele.

 

P/1 – Hoje a senhora sai de casa, viaja?

 

R – Não, não gosto. Não tenho idade para sair de casa, andar, já tenho muita dor nas pernas, já tenho muita dor nas cadeiras, já tenho problema de coluna, sofro demais de coluna. Muito mesmo. Não saio, não faço nada mais. Eu tive uma empregada aqui em casa que ficou mais de vinte e um anos comigo. Saiu faz pouco tempo. Eu sempre tenho quem toma conta da cozinha e lava e passa. Mas como é só a roupa da casa e a minha roupa... A roupa da cozinha ele lava toda semana e a roupa geral é de quinze em quinze dias. Não suja, não é? A não ser quando tem hóspede. A minha arrumadeira é irmã da que dorme aqui uma noite sim, uma noite não comigo. Irmã da Dora.

 

P/1 – E os seus netos?

 

R – Meus netos? Já estão todos homem, quase todos casados.

 

P/1 – Quantos são?

 

R – Já nem ligam para mim mais. São oito netos, acho que uns dez bisnetos. Eu já tenho tataraneto.

 

P/1 – Já tem tataraneto?

 

R – Já. Eu já falo para o meu neto: “meu neto”.... De cá tenho neto. Tenho tataraneto, já. São muitos anos, não é, gente?

 

P/1 – Mas é bonito.

 

R – Não acho bonito, não. 

 

P/1 – A senhora poder ver seu tataraneto é uma coisa bonita.

 

R – Não acho bonito. Ninguém gosta de velho.

 

P/1 – O que importa é o que está na alma...

 

R – Será? 

 

P/1 – Certamente. A senhora está tão vivaz, tão...

 

R – Nem que seja para falar bobagem...

 

P/1 – Não, absolutamente.

 

R – Porque para falar bonito eu não falo, não. 

 

P/1 – A memória está boa, lembrando das coisas todas...

 

R – É engraçado, a gente fica de idade, é mais fácil lembrar do passado do que lembrar do presente. Hoje, se você quiser guardar um segredo me contando, você pode me contar. Não precisa falar assim: “Não conta para ninguém, não”. Você me contou eu guardo, porque eu não sei passar para frente, não guardo o nome de ninguém e não posso contar um caso presente também, não. Não dá.

 

P/2 – Isso é natural.

 

R – É, com a idade, não é?

 

P/1 – Achei muito bonito uma coisa que a senhora falou, que a senhora não saiu para trabalhar com seu Alexandrino na empresa, nem entendia de máquina. Mas a senhora foi a parceira, a companheira, e participou em tudo o que ele conseguiu.

 

R – Era com a minha ajuda. A não ser viagem de negócio... Viagem de negócio eu nunca ia com ele, mas quando era uma viagem, por exemplo, quando tinha as convenções do Lions, ele não foi em nenhuma em convenção sem mim. Não. Se eu pudesse ir, ele ia; se eu falasse: “Não, não quero ir, não posso ir, não tenho quem fique com os meninos”, aí também ele não ia.

 

P/2 – As pessoas com quem a gente já conversou falaram da admiração que têm por ele, o tanto que eles gostam dele. Ele era uma pessoa admirada, uma pessoa tida como um homem de visão, um homem dinâmico. Mas por trás de todo homem dinâmico e de visão...

 

R – Vem a esposa, não é? 

 

P/1 – Que não aparece, mas que dá a base, a retaguarda...

 

R – É, não aparece.

 

P/1 – A senhora tem consciência disso?

 

R – Tenho, tenho.

 

P/1 – Tem consciência de que foi também o motor de tudo isso? 

 

R – É. Tudo, tudo. Tenho um filho maravilhoso, o Luiz é bom demais para mim. Minha filha foi embora ontem, a Eleuza, a mãe da Helena. Estava a mãe, a filha, tudo aqui. A menina vai embora agora de noite. A Eleuza foi embora ontem.

 

P/1 – A Eleuza mora fora de Uberlândia? 

 

R – Ele mora há muitos anos... Essas meninas dela tudo nasceram em Belo Horizonte. Ela casou, morou nove anos aqui em Uberlândia, não teve filho, aí mudou pra Belo Horizonte e lá ela teve três: um menino e duas meninas, e cria uma sobrinha também, irmã da que eu crio.

 

P/1 – Então a casa deve esvaziar de hoje para amanhã?

 

R – De hoje para amanhã eu vou ficar sozinha e Deus. E alguma pessoa que venha, não é? 

 

P/1 – Há alguma coisa que a senhora gostaria de dizer e que não disse? 

 

R – O que será? Não estou lembrando. Eu falei tanta coisa e não deu tempo de vocês conversarem nada, nem perguntar nada. Toma mais um cafezinho, bem, toma?

 

P/1 – Quando liga a televisão, a senhora vê propaganda da CTBC; quando vai à Uberlândia, vê a Companhia presente em toda parte. E a senhora acompanhou tudo isso nascer, crescer. O que passa pela sua cabeça ao ver, anos depois, um empreendimento desse porte? 

 

R – Mas mudou tudo, porque eu não moro aqui já há muito tempo. Enquanto eu morei na cidade, e morava no centro da cidade, mudou tudo. Por exemplo, se for preciso eu comprar um sapato, não sei qual é a loja onde eu vou comprar o sapato. Então eu não compro sapato aqui, eu compro lá em Belo Horizonte. Porque lá a minha filha vai comigo. Agora nós descobrimos uma fábrica de sapato em Belo Horizonte, que faz qualquer tipo de sapato. A coisa mais linda, só você vendo que coisa boa. Aqui eu não sei. Eu vou comprar um pano bom para fazer um vestido... Onde é que eu vou comprar um pano? Não tem mais aquelas lojas do tempo que eu morava lá na cidade. Tinha a Goiana, tinha aquelas lojas boas, grandes. Não sei mais nada. Porque agora que a cidade está vindo para cá… Porque eu morava na roça. Aquele primeiro portão, quando vocês vêm da cidade para cá, o primeiro portão, terminava ali. De lá para cá já era tudo roça. Agora com esse trabalho aqui com o Call Center, é roça. De noite é a coisa mais linda, tudo iluminado, aquele mundo de carro de um lado, do outro, lá dentro. Tudo é cidade agora, não moro na roça mais, não. Agora eu moro no quintal da roça. Sabe por quê? Duas vezes já entrou ladrão aqui dentro de casa. Tem esse muro. Você viu esse muro aí, não é? O muro vai até lá adiante, na divisa do pasto... O Luiz pegou o murou tudo. Até achar o curral, é aqui perto, aqui em frente assim. Daqui avista o curral. Mandou murar tudo, tudo, tudo... Mas muro alto! Pôs dois fios de arame assim, em cima, e eu mandei um senhor que trabalha para mim há muito tempo plantar primavera. Então plantou e, agora eu estou com o muro todinho assim, ó, cheio de primavera. Já está começando a amarrar as pontas, assim, lá no arame. Vai virar primavera todinha assim, à volta toda. Quer dizer que agora eu moro no quintal da fazenda, não é? Não moro na fazenda, mais. Eu olhava tudo, no tempo do meu marido, ele gostava que eu fosse de vez em quando – quando tivesse tempo – no curral para ver como que estava lá, o que estava faltando, porque ele não tinha tempo de olhar essas coisas.

 

P/1 – Reparei que a senhora ainda fala, agora, assim: “Quando eu vou lá em Uberlândia...” 

 

R – É que eu não tenho nem vontade de ir lá mais. Não tenho vontade, não. Engraçado, né? Aquelas minhas amigas umas já morreram, outras estão velhas igual a mim mesmo, não sai de casa também. Melhor é ficar quieta em casa mesmo. Minha casa é muito gostosa, muito boa, grande, tem quintal bom... Estou pelejando com as minhas plantinhas aí.

 

P/1 – O que a senhora gosta de plantar? 

 

R – De tudo. Gosto de plantar de tudo, de tudo... Eu tenho dois Zé que trabalham para mim. Zé Pepeu e Zé Maria. Zé Maria é preto, Zé Pepeu é branco. Ah, meu Deus do céu, mas já faz mais de vinte anos que eles trabalham aqui em casa. O preto trabalhou para o Alexandrino muitos anos, ele só batia pasto e fazia cerca de arame. Depois de vinte anos ele veio vindo, veio vindo, já está mais cansado, então trabalhava só aqui na porta. E é o que trabalha para mim, é ele e um outro velhinho também. Então um toma conta da frente da casa, que por sinal está num mato muito grande, que chove o mato vem, né? E o outro da piscina para lá. Não dão conta, dois velhos trabalhando para tomar conta do quintal. Engraçado, né?

 

P/1 – E a senhora ainda mexe na terra? 

 

R – Não, não faço mais nada que eu não posso abaixar, por causa do problema na coluna. Faço nada mais. Eles falam: “A senhora não precisa fazer nada, não, chega. A senhora já ajudou a ganhar o que tem”. Agora outro dia eu estava perguntando para o Luiz: “Luiz, eu tenho tanto medo, meu filho, se eu ficar aí, aturar cem anos, noventa anos como é que eu faço? Eu não vou depender de você, não”. Ele riu de mim, falou assim: “Mãe, larga de pensar bobagem...” Que eu tenho muito medo, porque a gente vê quanta mãe que fica velhinha, mas depende dos filhos e as noras põem tudo no asilo...

 

P/1 – Duvido que vão fazer isso com a senhora.

 

R – Põem. As noras põem tudo no asilo, ninguém quer velha em casa, não. 

 

P/1 – Mas a senhora já pensou que eles dependeram e dependem ainda da senhora? 

 

R – Mas eu não sou gastadeira, não. Não fui acostumada. A gente que não é acostumada a gastar, eu falo mesmo, eu não desperdiço nada, eu não compro nada para fazer bonito, eu compro só o necessário. Não tem nada sobrando e nada faltando. Faço minhas comprinhas para casa toda quarta-feira. Esta semana eu não fiz, porque a menina está aí. Minha filha foi embora ontem e a neta vai embora hoje à noite. Mas toda quarta-feira eu falo para menina da cozinha: “Me dá a lista de tudo o que precisa na cozinha”. Porque eu só compro às quartas-feiras. Se esqueceu, não vai pedir pro vizinho emprestado nem vai nos botecos buscar. Espera quarta-feira outra vez. Mas eu tenho que falar no duro mesmo, porque ainda tenta... “Ai, esqueci de...” “Ah, esqueceu?” “Não tem isso, não tem aquilo...” “Faz o que tem!” Eu sou dureza, está pensando o quê? Sou dureza mesmo. A gente que aprendeu a fazer e aprendeu a ganhar, sabe segurar. Quem não aprendeu a ganhar não segura de jeito nenhum. Não segura mesmo.

 

P/1 – Isso era uma característica do seu Alexandrino?

 

R – É, ele também era assim.

 

P/1 – Muito controlado.

 

R – Muito controlado, demais mesmo. Ele não gostava de desperdício também, de jeito nenhum. Uma vez ele mandou... Conhece o (Adelívio Peixoto?), que faleceu há pouco tempo? Ele tem um filho que formou, acho que engenheiro, e ele formou e o primeiro serviço dele foi lá na Companhia. Seu Adelívio era muito amigo do Alexandrino. Lembra dele? Ele era português também. Já morreu. Aí o menino dele foi trabalhar como engenheiro lá na Companhia. E tinha um preto que morava aqui, ele ia buscar prego para fazer as cercas de arame. Então ele falou com esse filho do Adelívio, esse engenheiro. Mas ele encheu a bicicleta, aquele caixotinho que eles têm na bicicleta, atrás, encheu o caixotinho do preto, passou de prego. Calhou, minha filha, que o Alexandrino chegou na hora. Quando ele viu aquilo, o preto falou assim: “Uai, seu Alexandrino, eu não pedi, não, mas o Doutor Fulano mandou trazer, está carregando, enchendo minha bicicleta disso, eu não sei para quê...” Mas ele bem sabia, ele ia tirar bom proveito daquilo. Mas ele ficou com tanta raiva do rapaz. “Um moço formado, não saber fazer economia? Encher o traseiro da bicicleta do menino de maço de prego?” Ele ia vender os maços de prego, tudo. Mandou embora na hora. E o Adelívio era amigo dele assim, ó. Mas aí ele conversou com o Adelívio: “Olha, dá um jeito no seu filho. O seu filho não sabe trabalhar com os outros, não”. Explicou para ele o que ele tinha feito. Ele era desse jeito. Não gostava de ver desperdício de jeito nenhum. Desperdiçou, ele manda embora. Mas agora há tanto desperdício ainda, não é? Tem desperdício demais da conta. Eu, às vezes, fico sabendo, fico com dó do desperdício das coisas. Que o Luiz só não dá conta, ele não tem a atividade que o pai dele tinha, de ver longe. E ele tinha os olhinhos pequenininhos – o que quer dizer que não é olho grande que enxerga muito não. Olho pequeno enxerga também. Cabeça, não é? 

 

P/1 – Mas a Companhia também se profissionalizou. Doutor Luiz tem pessoas que hoje também auxiliam na gestão e no crescimento do negócio. Não é mais aquela empresa familiar.

 

R – Não, não. Até que não tem nada mais de família, não. Lembra o Doutor Mário? Você lembra o Doutor Mário? Luiz é meu amigo até hoje do Doutor Mário. Ficou com raiva...

 

P/1 – Mário Grossi?

 

R – É, Mário Grossi. No tempo do Doutor Mário, quando ele entrou na Companhia... Ô homem bom, meu Deus do céu! Mas ele fez um limpa. Então da família Garcia, que era a família do meu marido, não ficou um. Porque eles viviam à custa da Companhia. Depois que eles saíram, foram viver por conta própria, ninguém deu nada. Ninguém deu nada, nada, nada. O Doutor Mário era assim: você está tomando conta de uma agência, por exemplo, está dando lucro, ele ajudava. Vamos ver. Ali tinha outra coisa, uma oficina. “Está dando lucro?” Ele ajudava. Quando ele ia na outra, “está dando prejuízo?” Troca de empregado. Trocava a primeira, trocava a segunda. O trem está dando prejuízo? Fecha! Mandava tudo embora e fechava. Isso que é gente de capacidade, não é? Eu senti falta do Doutor Mário ter saído da Companhia. Mas ele também já estava querendo passar o Luiz, aí o Luiz mandou ele embora. Ele é meu amigo até hoje, o Doutor Mário. Ele veio, veio trazer uma folhinha para mim lá da França. Um embrulho todo bem arrumadinho, era uma folhinha. Eu gosto muito do Doutor Mário. A gente pode gostar das pessoas sem ter interesse nenhum. Ele foi bom funcionário, ainda acompanha, ainda... Como agora teve convenção lá na Pousada, ele foi ainda. O que que ele é da Companhia? Eu nem sei...

 

P/1 – Conselheiro?

 

P/2 – Conselheiro.

 

R – Conselheiro, não é? Só conselheiro. Quer dizer, então que ele não saiu de tudo, de tudo. Ele só saiu da presidência. Ele entende mesmo, aquele baixinho é danado. Ele entende também o que dá lucro e o que dá prejuízo. E as pessoas que ganham e as pessoas que perdem. Muito boa pessoa. Nossa Senhora, vocês estão até com o ouvido doendo de tanto eu falar. Mas eu acho bom recordar o tempo passado. Mas eu acho bom mesmo. Parece que eu estou vendo o meu marido aqui perto, sentado aí. Falando nele a gente lembra mais, não é? Lembra mais nele.

 

P/1 – Essa seria a hora que ele devia estar chegando em casa, né?

 

R – Cinco horas?

 

P/1 – Cinco e um pouquinho.

 

R – É, daqui a um pouquinho ele já estava chegando. Tinha dia que ele vinha mais cedo um pouquinho, mas ele gostava era de sair com todo mundo. Mas tinha dia que decerto ele estava mais indisposto. Ele vinha mais cedo um pouco. Às vezes ele queria ver qualquer coisa também no quintal, que ele gostava de ver as plantas, gostava de ver tudo quanto há. Ia no curral, também. Até hoje tem vaca, tem tudo. Moro na roça, mesmo. Agora estou no quintal da roça. Tudo murado.

 

P/1 – Que destino a senhora dá à produção de leite?

 

R – Não, sou eu que mando mais nada. Era eu, no tempo dele, que olhava tudo. Agora não. Agora a Ipê tomou conta. Mando em nada mais. Mando aqui dentro da minha casa e no meu quintal. Só. Mas fora... A Companhia tem gente para tudo, não é? 

 

P/2 – Mas até pouco tempo chegavam os queijinhos da Dona Maria lá na empresa...

 

R – Eu cheguei a ter uma fabriquetazinha. Cheguei.

 

P/1 – De queijo?

 

R – É, de queijo, doce, doce de leite, pé de moleque... Qual era o outro doce? Era doce de leite, pé de moleque, cocada e goiabada. É isso aí.

 

P/1 – Era a senhora quem ia para a beira do tacho? 

 

R – Não. Era retirado daqui. Até chama Retiro, mesmo, o lugar. Em frente àquele patronato que teve, aqui em cima. Quando a gente vai para Araguari, não passa no patronato? No Buriti, é. A minha fabriqueta é de cá do correguinho, o patronato é de lá. Mas eu tinha um casal muito bom que tomava conta para mim. Eu já tirei a conclusão que nada pequeno não dá lucro. Não dá lucro, nada pequeno. Não queira nunca começar com uma coisinha desse tamanho. Não dá. A fabriqueta, se fosse uma coisa grande mesmo, podia ser, mas era uma coisinha pequena. Estava dando prejuízo demais, e eu falei: “Para que isso? Vamos acabar com isso”. Depois, a minha funcionária lá estava brigando demais com o marido, Virou aquela brigalhada... Eu falei: “Olha, eu não quero fazer a infelicidade da vida de ninguém por minha culpa. Larga disso, larga dessa coisa aí. Não precisa disso, não!” Está lá abandonada a casa que era a fábrica. É pegada à casa onde mora a empregada. O tanque, todo de aço inoxidável, está lá tudo abandonado...

 

P/1 – Quer dizer que não pode ser pequeno, Dona Maria?

 

R – Não, não pode. 

 

(Interrupção)

 

R – Porque é uma pessoa de confiança, não é? Olhou meu marido cinco anos. Se não fosse de confiança não estava aí até hoje. Me leva para fazer compra toda quarta-feira, me leva para ir no shopping, para ir no Carrefour, para ir para todo lado. É onde eu vou. Cinema eu não vou, visita quase nenhuma, parente só tenho uma irmã e umas primas ali, mas não vou na casa delas e elas também quase não vêm na minha casa.

 

P/2 – O filho não tem tempo... Só trabalhando...

 

R – O filho, só trabalhando. A filha foi embora ontem, que é a mãe da Eliana, a Eleuza. Foi embora ontem, ontem mesmo já telefonou, hoje já telefonou, ele conversa comigo pelo telefone. Todo dia está telefonando, que ela sabe que tem dia que eu não passo bem. Tem dia que eu passo mal, menino, eles ficam tudo com medo de eu morrer aqui em casa. É... Não sei se é coração, não sei o que é, não. Dá falta de ar, aquela batedeira, aquela falta de ar... Se eu descer essas escadas aqui mais depressa um pouquinho, chego lá fora eu estou sem ar. Eu tenho até aquela bombinha de asmático, mas eu não tenho asma, é falta de ar mesmo. Aquela canseira... É ruim, não é? Então ninguém me deixa fazer nada e eu também não estou fazendo questão. Tem quem faz, estão ganhando bem.

 

P/2 – Trabalho para eles.

 

R – Trabalho para eles.

 

P/2 – A senhora já foi aqui no Call Center?

 

R – Eu fui antes de começar a trabalhar todo mundo. Eu fui quando estava a primeira sala funcionando. Primeira sala. Eu fui lá. Mas não tinha ninguém ainda trabalhando. Os aparelhinhos estavam lá, tudo mexendo, tudo assim, mas não tinha ninguém trabalhando. Estavam pondo carpete naquele salão grande. 

 

P/2 – E a senhora falou que mora no quintal da fazenda, mas aqui do lado do quintal tem o que há de mais moderno da empresa, hoje.

 

R – Pois é, agora vão aumentar, não é? Será que é esse ano que eles vão fazer o outro pavilhão? Diz que vai fazer o outro para mais mil pessoas. Diz que esse de cá já tem mil e tantas pessoas trabalhando... Você trabalha aqui também? 

 

P/1 – A senhora está bem informada sobre os planos da empresa, não é?

 

R – É porque o Luiz me conta, a Eleuza esteve aqui e ela me conta também, porque eu falo assim: “Gente, eu não entendo nada, mas eu quero escutar”. Porque quando uma pessoa conversa, uai, eu sei do que está falando. Eu não sei participar, mas eu estou compreendendo o que se está falando sobre aquilo. Mas não vou lá no Call Center, não vou lá na companhia, não vou em lugar nenhum, não. O que eu vou fazer lá? As meninas do escritório resolvem tudo para mim – o que precisa, o que não precisa... A Noêmia é muito boa para mim, a Maria Clara, a outra, como é que chama, a do escritório?

 

P/2 – A Ivone.

 

R – A Ivone. Nossa, a Ivone é boa demais. Tem a Ivone, como é que chama a outra?

 

P/2 – Tem a Ivone, a Noêmia, a Bete, Maria Clara... Lá do escritório? A Débora… Esqueci o nome... A Patrícia?

 

R – Mais é a Noêmia e a Ivone. Mas parece que tem uma outra que resolve a minha vida para mim.

 

P/1 – Mas as compras a senhora faz questão de fazer, às quartas-feiras, não é?

 

R – Para casa eu faço. Meu vinho, também, eu que compro. Porque o Luiz mandava a Noêmia comprar para mim, porque eles têm quem pesquisa, não é? Eu falei: “Mas que absurdo; Até o vinho que eu tomo tem que os outros comprar para mim?” Eu, com esse bruta homão que eu tenho aqui para me levar para todo lado? Falei: “Luiz, não precisa mandar a Noêmia nem ninguém comprar vinho pra mim, não. Eu vou com o Júlio, ele me leva para todo lado”. Eu compro o vinho que eu quero.

 

P/1 – Qual a senhora gosta? 

 

R – Qualquer um, sendo vinho estrangeiro. Vinho nacional eu não compro, não.

 

P/1 – A senhora gosta de tinto, branco... 

 

R – Tinto. Eu compro sempre o Bolla, o Corvo, ou então Casal Garcia, aquele outro também, o da garrafa meio chatinha, assim... Não é o Chateauneuf du Pape também, é o... Eu compro ele mas não gosto muito, não. É vinho para homem, é vinho muito pesado. Eu gosto de vinho para mulher, mais leve. Por exemplo, esse (Blostom?) é um vinho gostoso que só você vendo. E a gente não embriaga, nem nada. Casal Garcia também é bom.

 

P/1 – Este é um vinho verde.

 

R – Sabe que tem dele de cor também? Tem tinto também. Então eu vou lá, eu olho assim. Os que eu lembro que o meu marido tomava... Aquele lá ele tomava, vou levar uma garrafa, uma duas garrafas daquele só para eu experimentar. Eu falei: “Luiz, pode parar. Não precisa mandar ninguém comprar vinho para mim, não”. 

 

P/1 – A senhora mantém o hábito de tomar um vinhozinho antes do jantar?

 

R – Quando tem quem toma comigo eu sento aqui no bar, com as meninas... Tem a minha nora que mora aí, na casa de cá, aqui em frente. Ela fala assim: “Dona Maria, a hora que a senhora quiser tomar um golinho, me chama. Me chama que eu vou tomar um golinho com a senhora”. Tem dia que eu vou te contar: se eu não tomar um golinho eu não almoço. Não almoço mesmo. Se eu não tomar um golinho eu não almoço. Eu falo: “Mas gente, que coisa!” Aí eu sento aqui no bar, às vezes sozinha... Essa que trouxe... Ela é muito boa, essa menina. Essa até faz pouco tempo que ele trabalha comigo – pouco tempo, mas já vai fazer três anos. Ela é muito boazinha. Eu falo: “Lita, abre um vinho para gente tomar um aperitivo”. Ela não toma, mas a cozinheira gosta de um golinho. Aí eu falo: “Leva lá para a Zanira, às vezes ela quer um golinho”. Mas uma garrafa, às vezes, eu tomo em duas, três vezes, não tomo muito de uma vez. Só para poder comer, sabe? É assim.

 

P/1 – O hábito do vinho é um hábito saudável. A senhora sabe, né?

 

R – Bom, muito bom. Sim. Não é para embriagar, mas para abrir o apetite. Porque esse negócio de suco, essas coisas, depende do que a gente vai comer. Conforme o que você vai comer, o suco faz mal. Para mim faz. E, no entanto, o vinho não faz mal com nada. Pode comer com carne, pode comer com frango, pode comer com bacalhau. Um bolinho frito na gordura... Pode tomar que não faz mal.

 

P/1 – Faz até bem.

 

R – Faz bem que a gente come mais.

 

P/1 – E dá prazer, não é, Dona Maria? 

 

R – É. É muito bom mesmo.

 

P/1 – Os latinos diziam que “In vino veritas”, a verdade está no vinho.

 

R – A verdade está no vinho... É. Quando a gente foi lá em Portugal, o Alexandrino ia nas adegas, porque português logo apanha amizade com outro português. Mas aí, em Lisboa, por exemplo, Lisboa, no Porto... Nós fomos na adega de Lisboa, na adega do Porto... Menino, mas que coisa linda onde eles guardam o vinho. Anos! Aquela adega que vai como daqui até quase na janela, mas um trem enorme! Mas ali não é qualquer pessoa que entra, não. É tudo vigiado mesmo, sabe? Não é qualquer pessoa que entra. Tem vinho de três anos, de dez anos, doze anos, tem vinho de toda idade. Tanto em Lisboa como no Porto. Tudo vinho antigo...

 

P/1 – Ah, isso é bonito. O seu Alexandrino ia provar vinhos também?

 

R – Ele provava. Eles davam para provar, para ver qual que a gente queria trazer. Então provava da adega, que tinha aqueles tambores grandes. Depois comprava o que estava na amostra, na loja. Comprava aquelas garrafas, mas não podia trazer para cá. De Portugal, trazer para cá não podia, não. Às vezes ele trazia uma, duas garrafas na mala. Às vezes ele punha uma na mala dele, eu punha uma na minha mala. Só para dizer que trouxe de lá, mas não podia. 

 

P/1 – Seu Alexandrino chegou a voltar novamente à Portugal?

 

R – Voltamos, sim. Voltamos depois de muitos anos, depois da família toda criada. Os filhos tudo casado. Parece que ele estava até despedindo. A última viagem que nós fizemos. Ele deu... Pagou a viagem para família inteirinha nossa. Foi todo mundo, todo mundo foi para Portugal. Neto, neta, filho, filha, irmão... Foi todo mundo.

 

P/1 – Voltaram à Lapa do Lobo?

 

R – Fomos para todo lado. Fomos na Lapa do Lobo, fomos para... Não foi viagem grande. Mas quem quis ficar, ficou. Como o meu cunhado, que queria ir conhecer a Itália, queria ir conhecer outros lugares, então ele ficou para trás. Mas lá em Portugal andaram para todo lado. Portugal é pequeno. Porque, de avião, em um dia você corre Portugal inteirinho. A gente voa, lá no aeroporto, daí acho que em meia hora, uma hora, quando muito, você já está saindo de Portugal. Engraçado, não é?

 

P/1 – O país é pequeno.

 

R – É muito pequeno, mas pequeno mesmo. Quando saiu, que ele falou assim: “Nós já passamos para Espanha”. Acho que é a Espanha... Depois de Portugal é a Espanha, não é? “Nós já estamos nas terras da Espanha.” Uai, nós agora que saímos de Portugal, já estamos na Espanha? Ficava admirada, mas Portugal é muito pequeno.

 

P/1 – Acostumada com essa imensidão aqui...

 

R – Pois é. Mas grande igual ao Brasil eu vou te falar, é pouca coisa. Muito pouca coisa. Nem a Alemanha eu não achei que é grande igual o Brasil. Menor, não é? Alemanha, Espanha, nada chega igual ao Brasil, não. 

 

P/1 – Pequeno. 

 

R – É bem maior do que Lisboa, mas não é grande igual o Brasil, não.

 

P/2 – Foi nessa época que seu Alexandrino recebeu a homenagem, lá na Lapa do Lobo?

 

R – É, foi quando nós fomos com a família inteira, quando ele levou a família todinha.

 

P/1 – Que homenagem foi essa, Dona Maria?

 

R – Como é que a gente fala? É homenagem... Até tem o busto dele lá...

 

P/2 – Alguma coisa de filho emérito...

 

R – Não sei explicar.

 

P/2 – Parece que seu Alexandrino fez alguma coisa por eles, lá. 

 

R – É, porque ele olhava muito Portugal, principalmente lá, perto da aldeia dele. Onde ele morava não tinha rua, a rua principal era a estrada, que a gente vinha de Lisboa, ia pra Coimbra. Aí, nessa época que nós fomos, aí o Luiz deu dinheiro para abrir uma rua. Quer dizer que saía aqui da rua principal e entrava pela aldeia afora. E foi assim, dava uma volta, dentro da aldeia, e saía na mesma estrada. O Luiz é que deu essa rua. E Alexandrino deu um clube. Então a homenagem a ele decerto foi por isso, porque puseram até o busto dele, lá nesse clube, numa praça bonita. Ele ajudava muito o pessoal, lá em Portugal. Uma pobreza... Portugal é pobre demais. Muita gente pobre. 

 

P/1 – Mas agora está melhorando muito?

 

R – Mas já não é bom igual foi em 1951, não. Quando nós fomos em 51 era Portugal, mesmo. As mulheres trabalhavam até na estrada. Naquelas lavouras... Tudo, tudo, era aquela limpeza. Você não via um papel na rua. Os automóveis que tivessem escapamento saindo fumaça ia preso, ia tudo para oficina na hora. Não podia soltar uma fumaça. Quando nós fomos a última vez, agora, já tinha mais brasileiro do que português. Aí já era a calçada cheia de mesa, cheia de gente, igual aqui. Fui ver aquilo lá, lembrei daqui. Falei: “Uai, copiou a moda do Brasil?” Mas não tinha. Na Rua do Ouro, a gente entrava na Rua do Ouro, de um lado era ouro, do outro lado era prata. Uma rua, não era uma avenida. Uma rua de travessa. Mas de um lado a outro é só loja de ouro e prata. Então chama Rua do Ouro. Uma beleza, ali você compra o ouro e a prata que você quiser comprar, de todo preço, todo jeito. É bom, mas se for preciso voltar lá eu não quero mais, não. Não quero voltar lá mais não. Fazer o que lá? 

 

P/1 – Gostando do jeito que a senhora gosta da sua casa...

 

R – Gosto da minha casa. Mas depois a tia dele já morreu, ele já morreu... Eu vou lá ficar num hotel? Visitar quem? O que que eu vou fazer lá? Não gosto dessas coisas assim. É melhor ficar quieta em casa, mesmo. Não é melhor? 

 

P/1 – Chamando o tataraneto.

 

R – Vem um, vem outro, sai um, entra outro... e assim a gente... Gente, mas nós estamos só conversando. Vocês não comeram, não beberam, nem o café não tomou, gente? Você gosta de doce?

 

P/2 – Dona Maria, muito obrigada.

 

R – Não quer mesmo? Você também não quer, não?

 

P/1 – Muito obrigado. 

 

R – Casa de avó tem arroz doce... Doce de figo, não quer não? Pois é. Uma palestra comprida, não é? Nossa Senhora!

 

P/1 – O nosso objetivo é esse mesmo, deixar as pessoas falarem, lembrarem...

 

R – Depois vocês vão pegando o que interessa, né?

 

P/1 – Depois a gente vai transcrever tudo isso. 

O que eu queria que a senhora nos ajudasse, mais adiante, é em nos emprestar algumas fotografias para ilustrar este depoimento. 

 

R – Nós nunca fomos de estar tirando retrato, não. Estou vendo aí o retrato da minha família todinha. Aquele lado lá, aquela principal, é só a Eliana com a família dela, é a minha filha com... Eliana é essa que saiu. Aquele ali é o Alex, lembra do Alex? Esse lado de cá é o Alex com a irmã dele, que é a Catita e as filhinhas da Catita e o Alex.

 

P/1 – São netos e bisnetos ali?

 

R – Netos e bisnetos. Lá é só da Eliana. A Eliana, a mãe dela, eu com o Alexandrino... Esse é o Valdemar, é o meu sobrinho, é o que mora aqui na casa onde eu morei também muitos anos. 

 

P/1 – Qual o nome da tataraneta, Dona Maria? 

 

R – A que saiu agora?

 

P/1 – Não, a tataraneta?

 

R – Deixe eu ver... Esqueci o nome dela. Esqueci o nome da minha tataraneta. É o neto... Não, lembro o nome da minha bisneta, não. Não estou falando para você que a minha cabeça não guarda mais? 

 

P/1 – Puxa vida, guarda tanta coisa!

 

R – Não guarda mais, que coisa esquisita, gente.

 

P/2 – A tataraneta é a neta da Eleuza? Não, a neta da Catita? 

 

R – A Catita é minha neta, as duas filhas dela que são aquelas duas menininhas ali, já são minhas bisnetas. Agora o Alex é aquele que está com a irmã, ele de branco, ela de vermelho. Alex e a Catita. Então o filho do Alex não está aí, que é o meu neto. É o filho do Alex. Agora já é bisneto do Alex. 

 

(pausa na entrevista)

 

R – Já posso falar?

 

P/1 – Pode.

 

R – O Sebastião foi o seguinte: ele trouxe a mudança dele da roça. Colocou em casa a família, a mudança e tudo. Ele saiu para rua procurando emprego. Aí ele pegou a Avenida João Pinheiro, veio vindo, veio vindo, estava em construção aquele prédio grande lá da esquina. Aí o encarregado estava na calçada, amassando o reboque que era para levar para cima. Aí o Sebastião falou assim: “Ô, moço, será que aí não tem um serviço para mim, não? Eu cheguei da roça agora, não conheço nada, não conheço ninguém, mas eu quero um serviço”. E o Alexandrino vinha, ele vinha lá da oficina para avenida. Aí o que estava amassando o reboque falou assim: “Olha lá, o patrão. Espera ele chegar e você pergunta para ele”. Aí o Alexandrino chegou e o Sebastião falou assim: “Eu estou chegando da roça agora, deixei minha mudança lá em casa e estou procurando serviço. O senhor me dá um serviço?” Alexandrino falou: “Mas você quer trabalhar em quê?” Ele falou assim: “Qualquer coisa que tiver”. “Então pega essa enxada aí, deixa eu ver se você sabe fazer qualquer coisa”. O outro deu a enxada para ele e ele movimentou com aquela fúria mesmo. Movimentou a enxada e o Alexandrino gostou. “Você pode ficar, pode começar agora”. Começou a trabalhar duas horas da tarde. Aí foi trabalhando, trabalhando, de servente de pedreiro, foi indo, aí tinha uma oficina... Como que fala? Serralheiro, lá no fundo e tinha aquela bigorna, sabe, o que é a bigorna, não é? Então punha o outro empregado, às vezes o Alexandrino mesmo punha aquelas folhas de mola, sabe o que é folha de mola, não é? Punha lá para queimar, quando aquilo estava queimando punha na bigorna e batia o martelo. Aí o Bastião estava com o Alexandrino, andando para ver as coisas e o moço está lá batendo na bigorna, naquela folha. Ele falou assim: “Seu Alexandrino, eu acho que eu sou capaz de fazer isso aí”. “É, Bastião? Você sabe fazer isso?” “Eu acho que eu sei.” “Então vamos lá, pega a bigorna.” Aí ele pegou a bigorna e pôs a folha já vermelhinha, ensinou ele pôr lá onde tinha que pôr. Ele falou: “Bate aí, Bastião. Quero ver se você sabe”. O Bastião bateu o martelo, mas fez assim: tan-dan! Ele falou: “Não, não é assim. Você tem que dar uma martelada só”. Aí o Alexandrino pegou o martelo e deu uma martelada para ele ver. “Bastião, você tem que fazer assim. Você tem que pôr força, mas é uma vez só. É tão, tão, tão!” Nunca mais ele ensinou. Daí ele foi ficando mais apaixonado pelo menino. Porque tudo o que ensinava a ele, um pouquinho ele sabia fazer. Aí foi trabalhando, trabalhando, foi aumentando de serviço, foi aumentando ordenado, foi aumentando... Era um amigão do Alexandrino. Confiança dele para tudo. Até hoje eu não sei onde ele foi parar.

 

P/1 – Ah, ele está na ativa. Eu conversei com ele. 

 

R – Hoje?

 

P/1 – Não, faz duas semanas que eu conversei com ele.

 

R – Mas está morando em Uberlândia mesmo? 

 

P/1 – Está morando num sítio aqui perto, perto de uma represa. Ele gosta de pescar.

 

R – Perto da represa... Ah, ele não mora aqui em Uberlândia, não.

 

P/1 – Mas vem uma vez por mês para cá e tem as filhas dele morando aqui. A sensação que ele me passou é que o seu Alexandrino tinha nele um grande amigo.

 

R – Mas uma confiança absoluta, mesmo! Só você vendo que beleza. Ficou amigo dele. Veio da roça, estava procurando serviço... Por isso que eu falo: ele gostava de quem queria trabalhar. A pessoa trabalhadora, honesta. E o Bastião foi sempre muito honesto. Mas também o Alexandrino ajudava ele: no que podia ajudar, ele ajudava. Porque gostava dele, gostava do serviço dele. E foi assim a vida do Bastião. O que eu sei.

 

P/1 – Seu Alexandrino tinha alguma outra pessoa que privava da amizade dele?

 

R – Igual a do Bastião eu acho que não tinha nenhum igual a ele, não. Ele se dava com todo mundo. Mas amizade igual a que ele pegou com o Sebastião, que eu lembro era só ele. Porque ele gostava muito desse Branca, que eu falei, que deu a muda. Gostava muito do Chiquinho, também. Gostava de um outro grandão que eu acho que até já morreu, um alto, que tinha vindo da Teixeirinha. Ele gostava dele também. Mas parece que o Bastião era diferente. Era diferente e era um roceirão. Era não, é – porque ele é roceiro até hoje. Mas era assim mesmo, menino, era a coisa mais esquisita. Agora hoje tá tudo diferente lá, não é? Mudou tudo. Ele gostava das pessoas dele lá. Por exemplo, a Dona Ilce, trabalhou quantos anos, não é? A Dona Ilce veio da Teixeirinha. Passou a trabalhar lá, trabalhou lá até há pouco tempo. Depois saiu, que já tinha muitos anos de casa. Dos tempos da Teixeirinha era a Dona Ilce, acho que era o Branca, esses já saíram também, nem lembro mais o nome deles, não. Agora só tem gente nova lá, que a gente nem conhece. Tem empregado lá há mais de vinte anos que eu não conheço. Esse começo de semana teve um jantar grande aqui em casa, só dos mandão, dos lá de cima, não é? Eu não conhecia ninguém, ninguém. Quase todos de fora. Mas, paciência... Antes assim, não é? 

 

P/1 – É isso, Dona Maria.

 

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