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História

Mauricinho da Liquigás

História de: Valdir Luiz Dias
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Valdir Luiz Dias nasceu em Centenário do Sul (PR), na Fazenda Primavera, em 20 de agosto de 1960. Filho de oito irmãos que sempre conviveram muito bem, seu pai Valter José Dias, guarda-livros de uma fazenda de café no Paraná e sua mãe, Maria Aparecida de Paula Dias. Conheceu o nome Liquigás quando tinha 10 anos e pegava uma carona com o caminhão da empresa para ir jogar bola com os irmãos, mas para isso, precisavam ajudar a descarregar os botijões. Quando entrou na empresa como office-boy precisava deixar 40% do salário para ajudar em casa, o restante era pro seu lazer. Passou por vários cargos dentro da Liquigás, mas se encontrou na área de Recursos Humanos, começou o curso de Ciências Contábeis, mas acabou formado em Direito. Conhecidos como “os mauricinhos” da Liquigás, diferente dos “turistas” da Distribuição e do pessoal da Produção, Valdir atualmente é Profissional Júnior na área de RH, no Paraná, tem 37 anos de casa, um conhecimento profundo das fases em que a empresa passou, e também é dirigente sindical. Seu maior sonho é ver os filhos, ambos advogados, se encaminharem e viver até os 90 anos de idade.

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História completa

P/1 – Por favor, o senhor começa me dizendo o seu nome completo, local e a data do seu nascimento.
R – Meu nome é Valdir Luiz Dias, nasci em Centenário do Sul, Fazenda Primavera, em 20 de agosto de 1960. 
P/1 – Como que era? Era numa fazenda mesmo?
R – Era uma fazenda do Hermes Macedo, famoso Hermes Macedo de plantação de café. Meu pai trabalhava na lavoura, foi pro escritório e chegou a guarda-livros na fazenda. Lá eu nasci, tinha de tudo lá, galinha, porco, pato. A gente morava na fazenda, mas a fazenda pertence ao município de Centenário do Sul, quase divisa aqui com São Paulo, perto de Porecatu.
P/1 – E como os seus pais se chamam?
R –Meu pai é Valter José Dias, já falecido, faleceu com 48 anos. Minha mãe ainda é viva, com 79, Maria Aparecida de Paula Dias. Ela é mineira e meu pai é paulista.
P/1 – Então seu pai era lavrador.
R – Isso
P/1 – O que eles faziam?
R – Ele foi pra fazenda pra trabalhar na fazenda e estudava à noite, fazia o ginásio. E aí ele chegou a guarda-livros e de lá, inclusive lá nós ficamos de 60 a 66 nessa fazenda. Em 1966 teve a famosa geada no norte do Paraná que acabou com as plantações de café. Aí, ele e mais oito filhos, inclusive eu, três adotivos, ele largou a fazenda e veio pra São Paulo, moramos um ano e meio aqui em São Paulo, ali no Parque Santa Madalena. E de lá retornamos à Londrina e depois Curitiba.
P/1 – Tá, voltando um pouquinho pra sua infância ainda. Você sabe mais sobre a origem da sua família?
R – A minha família. A minha avó, eu tenho a origem da minha avó, ela era descendente de índio. Já a família da minha mãe tem uma ascendência portuguesa com espanhol, que é Dias. Tem a família Paula e Dias, Paula é da minha mãe e Dias é do meu pai. Mas eu sei que minha vó tem uma mistura de português com índio, e a minha mãe já português com espanhol mesmo, nascida em Minas, e a minha avó é daqui de São Paulo, Sorocaba.
P/1 – E na sua família tinha costumes específicos que você se lembra, festas?
R – A tradição da minha família sempre foi o almoço de Natal, era o que era mais comemorado sempre. Reunia todos os irmãos, pai. Hoje é uma festa, eu trouxe uma foto dos últimos três anos, e a grande tradição sempre foi essa que é o almoço de Natal. Não a noite de Natal propriamente, mas o almoço. Até porque nessa infância, até entrar na Liquigás, veja que coincidência, foi sempre uma infância muito dura. Aqui em São Paulo eu já trabalhava com sete anos, vendia coxinha, sorvete ali pelo Parque Santa Madalena ali. Na época a favela Santa Madalena (risos). E essa foi a infância de 60 até 66 com muita fartura na fazenda, né? Porque por ser guarda-livros ele tinha uma casa melhor, pomar, leite à vontade, carne. Mas aí em razão da queima do café a gente veio pra São Paulo e aqui passamos mal bocados.
P/1 – Mas o que é examente guarda-livros? O que o seu pai fazia?
R – Guarda-livros é o atual contador, né? Mesmo ele não sendo contador ele fazia a contabilidade da fazenda, que é checar a saída de caminhão, de sacas de café, pagamento dos peões. Isso é uma coisa que eu tenho guardado da minha infância. A saída dos caminhões até o porto de Santos, inclusive, que era o mais próximo, mais do que Paranaguá.
P/1 – E você falou dessa casa, você lembra dessa casa da sua infância?
R – Lembro, trouxe até foto ali dela, da Fazenda Primavera.
P/1 – Como era essa casa?
R – Era uma casa de madeira, muito humilde. Humilde pros padrões de hoje que a gente traça um paralelo assim, 50 anos depois, mas tinha todo o conforto. Não tinha pobreza, vamos dizer assim. Havia um conforto para o momento, para o momento era confortável. E era uma colônia, começava com a casa do proprietário da fazenda, depois vinha o... É o estilo colonial mesmo. Casa do dono da fazenda, depois a do capataz, depois do guarda-livros, aí tinha o chefe da plantação e os peões, é uma colônia, né? Existe até hoje, só que não existe o café mais, hoje é cana de açúcar, mas as casas estão lá ainda. Era uma casa boa, muita fartura. Muito bom mesmo.
P/1 – E os seus irmãos, como é que era a sua relação com eles?
R – A estrutura da nossa família sempre foi a ligação entre os irmãos, entre a mãe, o pai e os irmãos e continua até hoje. Dos oito irmãos, três eram adotivos, cinco consanguíneos mesmo, os cinco estão todos vivos hoje. São três, quatro ligações por dia um pro outro, tanto pra criticar como pra elogiar.
P/1 – E vocês brincavam juntos?
R – Muito, muito. Na fazenda principalmente. Teve um período ruim, dois anos, 66 e 67, aqui em São Paulo, mas mesmo com dificuldade a gente sempre brincou, soltar pipa, fazer carrinho com lata de óleo, antigamente era em lata, né? E foi uma infância ótima, boa. Não tinha os tablets de hoje, mas a gente se divertia, improvisava.
P/1 – E tinha alguma coisa que você queria ser quando crescer, Valdir? Você sonhava em ser?
R – Olha, eu queria ser jogador de futebol. Nessa época de 66, quando a gente começa a acordar, em 67 a gente tava em São Paulo aqui. E até fui ver um jogo aqui Palmeiras e Santos, Pelé jogou inclusive. E 66 foi a Copa do Mundo. Eu queria ser jogador de futebol, mas não consegui por causa da Liquigás (risos).
P/1 – Você vai me contar porque?
R – Em 75 a gente tava já em Curitiba e eu jogava no infantil do Coritiba. Aí o meu pai pegou o jornal de Curitiba, que é Gazeta do Povo e falou: “Ó, esse negócio de futebol aí não dá muito certo. Tem uma vaga de office-boy na Liquigás. Vai lá, vá bem arrumado, leva uma revista embaixo do braço e seja você, seja um menino educado, normal”. E aí eu parei com o futebol, até porque tem que treinar, na época tinha, ainda tem que treinar muito, se dedicar. 
P/1 – Antes de você entrar nessa história como você começou a trabalhar, eu queria voltar um pouquinho no seu período escolar. Como é que foi, quando você começou a ir na escola, como que era a escola?
R – Lá na fazenda, 1966 nós ainda estávamos na fazenda, foi quando eu tive o meu primeiro ano primário, a própria fazenda disponibilizava um grupo escolar. Lá eu fiz o primeiro ano, hoje inclusive a minha professora do primeiro ano primário, que é a Lúcia, é minha vizinha lá de um amigo que joga bola junto. E lá da fazenda nós viemos pra São Paulo, aqui tive um ano ruim, perdi um ano de escola. Em 67, quando retornamos à Londrina, eu estudei em colégio público sempre, que é o Colégio Sagrada Família, em Londrina. O ginásio estudei no Colégio Moraes de Barros, em Londrina. E depois, já em Curitiba fiz a oitava série no Colégio Estadual do Paraná. Fiz o segundo grau, já houve aquela reforma do ensino e eu fiz um curso profissionalizante, Auxiliar de Processamento de Dados, de 75 a 78. Aí já passei no vestibular pra Ciências Contábeis. Estudei um ano e meio, falei: “Não é comigo esse negócio de Ciências Contábeis” (risos). Cheguei pro meu pai, essa lembrei ontem também, disse que ia desistir da faculdade. Ele ficou muito bravo e me falou: “Mas o que você quer ser afinal?”. Aí foi com 18 anos já, eu falei: “Eu quero ser Bacharrel em Advocacia”. Ele olhou assim e falou: “Olha, você vai ter que estudar e muito porque não é Bacharrel e não é Advocacia (risos), é Bacharel em Direito”. E a minha formação mesmo, respondendo objetivamente a sua pergunta o que eu queria ser? A princípio jogador de futebol, mas depois, quando entrei na Liquigás, voltado pra área trabalhista, em Recursos Humanos, que foi o meu último cargo na empresa, Gerente de Recursos Humanos da Região Sul. Pelo fato de estar voltado à legislação trabalhista e previdenciária que me direcionou para o curso de Direito. Como era muito difícil passar em Direito eu fiz o vestibular pra Ciências Contábeis, mas nunca desisti do curso de Direito. E aí foi onde eu tive o norte de me formar em Direito, fazer concurso pra juiz, fiz concurso, mas ou você estuda pra concurso, ou você não estuda pra concurso, não tem meio termo. E aí, em termos de futuro, estamos em 78, aí em 78 o objetivo principal era ser advogado e ter uma carreira dentro da Liquigás, como de fato tive.
P/1 – E como essa experiência, quando você tinha 15 anos, você morava em São Paulo?
R – Não, em 75 eu já estava em Curitiba.
P/1 – Curitiba, Em 74, final de 74 nós nos mudamos pra Curitiba. Que meu pai, já trabalhando na Hermes Macedo de novo, foi transferido pra Curitiba pra assumir a auditoria da Hermes Macedo, e aí todo mundo, na Vemaguet, de Londrina à Curitiba. E chegando em Curitiba, foi onde eu terminei a oitava série, daí o segundo grau e a faculdade.
P/1 – Mas quando o seu pai disse pra você procurar o trabalho de office-boy quantos anos você tinha?
R – De office-boy?
P/1 – É.
R – 15 anos.
P/1 – E você se lembra dessa entrevista, como que foi?
R – Totalmente, como se fosse hoje. Porque tem que voltar quatro meses antes. Eu fui fazer um teste pra office-boy o HSBC, antigo Bamerindus. E quando eu fui fazer o teste tinha 50 candidatos pra office-boy, e o que nivelava o sim ou não era datilografia. Evidente que na hora da minha datilografia eu catei milho, né? E os caras do lado eram 300 toques por minuto (risos). Aí, o que eu fiz? Meu pai pegou e falou: “Vá no Senac e faça um curso de datilografia”. Fiz o curso, fiz doutorado em datilografia. Cheguei na Liquigás, como ele pediu, arrumado, na medida do possível da época, tinha 20 candidatos. E dois fatores foram decisivos, que eu tenho comigo pra ter sido aceito como office-boy da Liquigás, eu acho que, acho não, tenho certeza, a revista que eu levei pra ler, que meu pai falou: “Vá lá, fica lendo a revista, seja educado”. E o teste de datilografia. 

P/1 – Só um pouquinho, vamos voltar ainda nesse dia da entrevista. Qual era a revista, você se lembra?
R – Perguntavam o que eu fazia...
P/1 – Não, essa revista que você levou.
R – Revista Conhecer. Meu pai colecionava essa revista. E ali, não sei agora o tópico porque eu não me lembro, mas sei que era revista Conhecer.
P/1 – E você então foi aceito, foi escolhido.
R – Fiz o teste de datilografia, fomos 2 classificados, eu e Pedro. Pedro Fernandes Zanelato o nome dele, Buzanello se não me engano. Na realidade, os dois office-boys entraram. E isso é outro fato interessante. O chefe era o Altair Lázaro de Moura, chefe de Recursos Humanos, inclusive ele era daqui da matriz e foi pra Curitiba. E ele, inclusive, era do norte do Paraná também, era de Porecatu. E eu acho que o fator preponderante foi o teste de datilografia, e as perguntas que ele fez, se eu queria crescer na empresa, quem era meu pai, o que meu pai fazia. Aí na entrevista eu disse: “Meu pai tá na auditoria da Hermes Macedo”. Perguntou quantos irmãos eu tinha, família, da onde vinha, da onde não vinha, o que fazia, o que eu vim fazer em São Paulo, acho que isso foi um fator, mas acho que o principal foi a datilografia. Embora fiquei um ano sem usar máquina como office-boy.
P/1 – E como você se sentiu quando você foi escolhido?
R – Maravilhosamente. Sabe por quê? Porque eu comecei a trabalhar no dia 23 de dezembro de 1975, olha a data, véspera de Natal. Trabalhei das oito ao meio dia, já fomos dispensados porque trabalhava na matriz da Liquigás no Paraná, né? Já ganhei a cesta de Natal (risos) e foi maravilhoso sempre. Minha chefe era era uma alemã daquelas, da época das alemãs mesmo. O Gerente Geral era o senhor Agatino Emannuele, italiano da Sicília, daqueles bravos mesmo. E foi um ano maravilhoso ali como office-boy e eu tinha o apelido de ‘Ratinho’ porque ia fazer serviço e era tudo rápido. E ela era muito disciplinadora, tanto que eu ficava numa salinha como office-boy, a sala dela aqui era do tamanho dessa sua sala, mais ou menos, e a gente ficava de costas pra ela, a correspondência chegava, a gente tinha que carimbar um protocolo, um carimbo de protocolo. Aí vai pra área de Vendas, Estatística, Pessoal, na época não era RH, Pessoal, Contabilidade. Eu só colocava o carimbo, ela que lia, selecionava e encaminhava. E esse foi o primeiro ano de Liquigás. 
P/1 – E o que você fazia com o dinheiro que você ganhava nessa época?
R – 40% tinha que deixar em casa, a regra era essa com meu pai e minha mãe. E lazer, né? Roupa, mas 30, 40% o meu paidizia que tinha que ajudar na despesa de casa porque eram oito filhos, todos estudando, e roupa. E ajudar porque era difícil pra ele, oito filhos não é fácil, não.
P/1 – E quando você entrou na empresa quais foram suas primeiras impressões, você lembra?
R – Olha, eu vou voltar lá em 1969 a 73, que eu descobri bem depois onde que eu tinha visto aquele losango Liquigás, vermelho. Em Londrina, de 69 a 74 a gente ia jogar bola domingo de manhã e quem nos levava era um caminhão da Liquigás. Era todo domingo de manhã, era um revendedor na época, a gente tinha que descarregar o caminhão (risos), eu não jogava, claro, tinha dez anos, mas meus irmãos mais velhos já jogavam. A gente descarregava o caminhão, subia todo mundo no caminhão (risos) e ia pro sítio jogar bola. E na volta tinha que carregar tudo de novo o caminhão pro motorista ir trabalhar na segunda de manhã. 
P/1 – Carregar que você diz é com os botijões?
R – É, cheio, vazio, tinha de tudo ali. Esse foi o primeiro contato que eu tive com a Liquigás. Você perguntou da impressão que eu tive, né? Uma empresa extremamente organizada, séria, disciplinadora e exigente, super exigente. E o fator que me fez ficar lá esse um ano foi justamente a formação do meu pai, muito rígida, né? Você perguntou da infância, uma infância dura, mas uma infância disciplinada. Aliás, plena ditadura, quando a gente cai por si mesmo... Tanto que eu me lembrei que em 66, 67 eu vendia coxinha no Parque Santa Madalena, sorvete. Porque tem que sobreviver, não pode, por essa disciplina rígida que a gente seguia, sempre fui um cara respeitador das leis, da disciplina acima de tudo.
P/1 – E você ficou um ano, é isso? Nesse período?
R – Como office-boy da Gerência Geral. Aí surgiu uma vaga no RH, o mesmo que me entrevistou. Aí eu fui promovido para Auxiliar de Pessoal, que chamava na época, que era o funcionário que batia as fichas de registro de emprego dos empregados, Departamento de Pessoal. Como eu estava entrando no primeiro ano do segundo grau, já em 1976, e o meu curso profissionalizante era Auxiliar de Processamento de Dados. Quando entrava empregado a gente preenchia uma planilha, aquilo lá não era nem uma planilha, era uma Folha de São Paulo, que todo funcionário que entrava a gente preenchia o nome, endereço, igual a tua ficha aí, mas dava cinco da tua, mais ou menos. Nome do pai, da mãe, do filho, do empregado, todos os dados. E acho que esse foi um dos fatores que me fez ir pro RH porque eu tava fazendo Auxiliar de Processamento de Dados como formação de segundo grau, e também pelo histórico como office-boy, tanto que foi difícil de me arrancar de lá, mas eu tinha que crescer na empresa.  E me dei muito bem no Departamento de Pessoal lá, seu Altair sempre foi muito, também disciplinador, correto. E fiquei no RH, Auxiliar de Pessoal Júnior, depois Sênior, depois Assistente de RH, aí nós já estamos em 1984. Porque em 84, na Liquigás, houve uma união das três unidades em Curitiba, que nós fomos convidados a sair do centro de Curitiba por conta da periculosidade, né? Que era ali na Vila Fani, Vila Paroni, e fomos todos pra Araucária, em frente da refinaria, por conta de determinação do município, que ali era uma área residencial e que já estava se tornando comercial, é o que ocorreu no Brasil inteiro, né?  Em Araucária houve a unificação do pessoal Administrativo, Produção e Distribuição. E lá eu atuava como Assistente do Chefe de RH. E já em 84 também, aí houve a unificação da Liquigás da região Sul, Paraná, Santa Catarina e Mato Grosso do Sul. Rio Grande do Sul passou a ter uma administração separada. E ali trabalhamos bastante. Eu entrava às sete, saía oito, nove da noite porque tinha que contratar, demitir, todo o trabalho de RH. O RH naquela época, você fazia, a gente brinca, do piso ao teto, tinha que entrevistar, contratar, preencher todos aqueles formulários. Hoje é tudo fácil, né? Você aperta os enter e já libera a folha. A folha a gente fazia manual. É, era bem trabalhoso. 
P/1 – E os seus pais quando você efetivado? Como é que eles se sentiram?
R – Meu pai tem uma carreira profissional maravilhosa, aliás isso é peculiar na família. Ele ficou muito orgulhoso pela ascensão profissional. A ascensão profissional mesmo ele não chegou a ver por conta do falecimento prematuro dele, porque ele faleceu em 84. Em 84 que a minha vida dentro da empresa teve outra guinada, teve uma ascensão maior, mas ele ficou muito orgulhoso. Minha mãe então, minha mãe e as Marias, Maria que doutrina a família inteira. Embora o pai era quem mandava mas, quem dava a ordem era ela (risos).
P/1 – Aí você disse que você trabalhava muito nessa época, tudo preenchido a mão. Quais eram os desafios e as dificuldades que você enfrentou nesse começo de carreira, você se lembra?
R – Dificuldade nunca tive, nunca tive dificuldade de trabalhar. Mas o problema é que administrar pessoas é complicado. Quando na Liquigás era separada as administrações, pessoal de escritório, como temos aqui na matriz, né, o foco é um. Produção é um outro foco, são outras pessoas, são outros níveis de relacionamento. Pessoal de Distribuição é outro nível de relacionamento. Então quando estava na matriz, que nós éramos chamados ‘mauricinho da matriz’, o discurso não mudou, até hoje é o mesmo, inclusive em relação aos de São Paulo. Era tranquilo o trabalho, mas tinha folha pra fazer, folha de pagamento, apontar cartão ponto, isso tudo era manual. Vê quantas horas fez, calcularférias, rescisão, há toda uma rotina de RH, contratar, demitir, selecionar, preencher os documentos, e tinha que ser feito porque dia 15 o pessoal não quer saber, tem que ter o vale na conta, dia 30 tem que ter o pagamento, tem que ter o tíquete pra entregar, a cesta básica pra receber, isso já mais recente. Então se tinha que trabalhar. E na época, a folha de pagamento, ela era muito artesanal, vamos dizer assim. Você tinha que apurar 900 empregados, Paraná, Santa Catarina e Mato Grosso do Sul. Todas as admissões eram centralizadas em Araucária, então tinha que preencher ficha de registro, cumprir as obrigações legais de um Departamento de RH, isso gerava bastante serviço. 
P/1 – E por que os mauricinhos da Liquigás?
R – A expressão mauricinho, até hoje usada, é porque nós temos que separar a Liquigás, como eu falei, a área produtiva que é o serviço mais penoso no ramo de gás, é um serviço cansativo, penoso. O da Distribuição são os turistas que eles chamam, estão de caminhão passeando na cidade inteira, hoje nem tem quase caminhão, mas é outra história. Pessoal de escritório, eles julgam que a gente tá atrás da mesa se divertindo, não faz nada. Mauricinho porque não há um desprendimento físico, mas ele se esquece de que há o intelectual né? Cansativo.  Como eu, por exemplo, acontecia às vezes do sistema de transmissão de folha de pagamento que vinha de lá pra cá, naqueles Verbatim ainda travava, não sei se vocês lembram-se daqueles disquetes desse tamanho assim, travava a transmissão da folha, e a folha tinha que chegar aqui via online. E eles não querem saber se deu problema ou não, dia 15 tem que sair o vale e dia 30 ele sabe que ele fez 90 horas extras, ele tem que receber as 90 horas extra, e tinha que apurar o cartão. E o mauricinho é por isso porque eles achavam que nós não trabalhávamos, pessoal do escritório não trabalha. O que não é verdade, você sabe que não é.
P/1 – Você disse que naquele período o Brasil estava em plena ditadura. Pra você qual era a realidade da Liquigás naquela época, nesse período da sua entrada?
R – Olha, e acho que a Liquigás, a história da Liquigás, que eu conheço há 37 anos, tem que separar em três períodos, até por ser dirigente sindical do Paraná, fazer parte da Federação Nacional, a gente escuta histórias da Liquigás do Oiapoque ao Chuí. Os problemas são os mesmos, do Oiapoque ao Chuí, uns com mais problemas, outros com menos problemas. Tanto do lado comercial da empresa, como do lado de administração, como do lado do empregado. Então eu procuro enxergar os três focos, empresa, empregado e o ramo que nós atuamos, que é o comércio de gás. Quando eu falei pra você que separo em três momentos: De 53 até a década de 80, isso eu não li, isso é uma conclusão minha, é época do pioneirismo do gás, das companhias de gás como um todo, né? Depois de 80 até 90, foi a época do que a gente brinca até e fala que é a época dos ovos da galinha de ouro das companhias de gás. De 90 pra cá, a guerra de mercado, de preço. Mas particularmente na Liquigás eu vejo da seguinte forma, pioneirismo, depois estabilização de mercado e agora uma concorrência danada de mercado, e isso tem reflexo dentro da empresa. Porque antes tínhamos que correr pra ganhar mercado, o gás tinha que fazer cliente, né? Depois o gás deixou de ser vendido, ele passou a ser entregue. E hoje não, hoje voltou à época primeira, o mercado tem que ser conquistado no braço mesmo, volume de venda, venda, preço. Isso vem até 2005, de 90 a 2005. Em 2005, quando a Liquigás foi comprada pela BR, uma estatal, houve melhora significativa para os empregados, mas por outro lado, pro mercado como um todo não sei se foi bom porque a Liquigás, como uma estatal, ela veio pra regular o mercado, ela foi comprada por isso, pra fazer Política Pública de Gás porque o gás é o que faz o arroz e feijão do brasileiro, né? Então ao mesmo tempo que foi bom porque é uma Política de Estado, não tá errado, se ela é do estado ela tem que fazer Política Pública de Estado, é uma obrigação do Governo. Mas para o consumidor foi bom. Para o empregado foi bom, mas também não foi tão bom porque se o mercado está excessivamente concorrido, a rentabilidade que está aí nos balanços que a gente analisa também não dá condição pra fazer mais coisas. E o ser humano, não é só o trabalhador do gás ou da Liquigás, ele é cheio de desejo, de sonho. Nem todos os sonhos são possíveis de ser atingidos, mas de 2005 pra cá eu diria que a administração ficou mais séria, não que não tenha sido séria, acho que a palavra talvez não seja essa; ela ficou mais controlada, uma empresa mais controlada. E antes ela era controlada assim também, mas ela tinha que, como é que eu vou dizer, ela tinha que ganhar mercado, mas de outra maneira. Para nós empregados, sempre foi melhor até 2005, e a partir de 2005, por força desse excessivo regramento, de avaliação inclusive, tudo é controlado, tudo é medido, pesado, então ficou, acho que me perdi um pouco na minha análise. 
P/1 – Não, não, não.
R – O que eu quero dizer é o seguinte, de 2005 pra cá você não tem como, por exemplo, você escolher um funcionário e guindar ele pra um cargo maior, você tem que seguir a escadinha, vamos dizer assim. Tem o plano de cargos, tudo o que foi criado. Antes não, antes era uma administração muito mais flexível, hoje ela é amarrada demais.
P/1 – Você tinha autonomia?
R – Correto. Até eu, como Gerente de RH, podia demitir, podia admitir, podia aumentar salário. Hoje não, hoje tem toda uma formalidade que tem que ser seguida. Tudo bem, é do Estado, tem controle da União, do Tribunal de Contas, tudo bem. Mas antes havia mais flexibilidade pra isso. Foi exatamente nessa época que eu mais cresci na empresa porque a avaliação de mérito realmente havia, esse aqui trabalha e produz, tem que ganhar melhor, o retorno desse empregado, se não é excessivo, está além do que ele precisa fazer. Talvez por isso que eu tenha feito essa carreira na empresa. Fui Técnico de Segurança do Trabalho também, nessa carreira. Encarregado de Pessoal, Chefe de Pessoal pra depois ser Gerente de Pessoal. Então, antes a ascensão profissional era mais rápida, hoje ela é mais controlada.  Não sei se é essa a pergunta que você fez?
P/1 – Sim, exatamente isso. E dentro desse período, entre essa transição de uma empresa com mais autonomia, como você mesmo disse, depois que existe outra forma, um outro tipo de regimento interno, você tem histórias que tenham sido marcantes, ou antes, naquele período onde você tinha essa autonomia como Gerente ou depois, histórias e casos que tenham sido emblemáticos desses períodos?
R – Olha, até a década de 90, que havia a busca pelo mercado a qualquer preço, isso tem a ver com as relações humanas, com recursos humanos porque são os empregados que fazem a riqueza da empresa. Até 90, em busca do mercado voraz e tal, mas havia um respeito entre as companhias. Por exemplo, você me perguntou uma história interessante. Eu, como Gerente de RH, por determinação do sistema de vendas de gás, de RH, de Administração Comercial, Financeira, Administrativa, e de Vendas, claro, área Comercial, eu demiti, é difícil falar isso, mas eu não demiti, foi o sistema que demitiu, os fiscais demitiram, os chefes demitiram, funcionários, por exemplo, que foram punidos por vender demais. Ou seja, o que quer dizer vender demais? Como havia respeito entre as companhias, uma empresa não podia pegar botijão de outra empresa, então se fosse pego no caminhão da Liquigás botijão das concorrentes, o empregado era demitido porque não podia. Isso foi uma coisa que eu achava um absurdo aquilo, como Gerente de RH, mas era política da área Comercial. Era uma estratégia das companhias, de uma não invadir o mercado da outra.  Isso é uma coisa que me deixou chateado, foi muita gente pra rua por causa disso, me machucou bastante isso, houve demissões injustas ali, tudo por causa do deus mercado. Hoje o deus mercado é o contrário, né? É uma podendo ‘roubar’, roubar no sentido de tomar o cliente da concorrente o fazem em razão de preço, mas isso me marcou muito a minha presença, com o poder decisório de demitir ou deixar de demitir dentro da empresa. Porque se ela vende gás, vamos vender gás, o gás é o mesmo. O valor da Liquigás, dizem que é o melhor, e é mesmo. Mas, isso aconteceu realmente, isso marcou muito. Fora isso, uma coisa marcante nesse ajuntado dos três níveis dentro da empresa, o pessoal de Produção, Distribuição e Administração. Houve mais uma integração entre os trabalhadores, sabe? Uma integração bem maior, um respeito maior pelo que o outro fazia porque mesmo hoje é mais em tom de piada do que de crítica a palavra que eu falei, mauricinho. Porque realmente antes, como era descentralizado, então, se eu não to vendo o rapaz produzir ele é mauricinho, não faz nada, que é o linguajar que pros piás aí, pros filhinhos de papai que não precisam trabalhar e tudo. Mas esse é o grande diferencial, a unidade da companhia. E aí um vê, cada um faz o seu quadrado. 
P/1 – E Valdir, aí pessoalmente como essa experiência te levou a buscar uma especialização na área de Direito do Trabalho?
R – Então, no RH, pra você calcular uma... Eu digo sempre o seguinte, hoje em dia não por força do Sistema de Informação, há programas específicos que você coloca data de admissão e demissão, o sistema já calcula toda uma rescisão contratual, que é o ápice de Administração de RH termina onde? Na rescisão de contrato. Diria até mais, numa ação trabalhista. Mas pra chegar à rescisão de contrato, você precisa fazer o quê? Precisa saber apontar um cartão ponto, que ele é o fato gerador da folha de pagamento e da rescisão contratual. Então, pra você apontar um cartão ponto, calcular umas férias e uma rescisão, você precisa conhecer os direitos, precisa conhecer a Consolidação das Leis do Trabalho que rege o contrato de trabalho. Você precisa conhecer Lei Previdenciária. E eu, com 16 anos quando assumi o Auxiliar de Pessoal não era nem júnior, era trainee, eu recebi uma CLT do meu chefe, que era o Altair Lázaro de Moura e ele falou: “Ó” – porque eu sempre fui muito perguntador das coisas, por que isso, por que aquilo. Ele chegou pra mim, me deu a CLT (risos) do Adriano Campanholi, o autor. “Ó, tá aqui a CLT. Você quer saber? Leia. Não decore, interprete”. Então, com 16 anos eu peguei a CLT e comecei a ler porque isso porque aquilo, paralelo a isso estava nascendo o Direito Previdenciário também, o INPS [Instituto Nacional de Previdência Social], que virou INSS [Instituto Social do Seguro Social], que virou Inamps [Instituto Nacional de Assitência Médica da Previdência Social], e você tinha que acompanhar isso. E outra coisa também interessante, em 79, quando eu desisti do curso de Ciências Contábeis, eu entrei no folclore polonês e eu sentia a necessidade que eu tinha que produzir alguma coisa de noite. O que eu fiz? Comecei a estudar no cursinho pra Direito, que era Curso Preparatório para o Vestibular, mas sobrava tempo também pra outras coisas. O que eu fazia? Eu fiz, mais ou menos, uns 60 cursos no Senac, esses módulos de 30 dias, chamam de curso Walitta, é rapidinho, bota no liquidificador e pruuu. Então, eu fiz curso de FGTS [Fundo de Garantia do Tempo de Serviço], Auxílio-Doença, o que é Auxílio-Doença, o que é isso, o que é aquilo. Aí eu diria que quando eu entrei na faculdade eu já era um advogado, não, um Bacharel em Direito, só fui oficializar o diploma. Então eu fiquei uns dois, três anos fazendo esse cursos no Senac, o que sempre me deu a certeza de estar fazendo certo dentro da empresa. Modéstia à parte, em 1982 eu criei um formulário, porque a gente calculava na mão mesmo, pra você calcular uma férias você tem que saber quais são os direitos do trabalhador pra calcular aquelas férias. Tem as convenções coletivas de trabalho, a CLT, a Constituição, tem que ler, né? Eu criei um formulário, Formulário para Cálculo de Férias. Parecia um tratado assim, mais ou menos, um formulário pra calcular. E de rescisão também. Aí, cheguei pro chefe na época e falei: “Olha, com esse formulário aqui facilita a gente calcular a rescisão”. Porque nesse formulário o que eu inventei? Eu digo que inventei porque eu que fiz, criei. Tava todos os direitos possíveis do empregado: saldo de salário, abono família, férias, férias proporcionais, um terço, aviso prévio, décimo terceiro, sabe como? Aí os descontos, INSS, VT, blablablablablabla, saldo líquido, rescisão, pagar tanto. Era mais fácil de calcular. Aí com aquele rascunho você datilografafa a rescisão porque não tinha computador pra calcular, tinha que calcular na mão mesmo. Descontar INSS, aplicar Imposto de Renda, tinha que saber como desconta o imposto de renda, como que desconta o INSS, como era a tabela, quais os direitos da convenção.  Isso foi me aproximando com o estudo de Direito. E por isso que me debrucei e me formei no curso de Direito, fiz uma pós-graduação em Trabalho e Processo do Trabalho, Direito Previdenciário e aí, não concluí ainda por falta de verba, o mestrado em Direito na área Trabalhista e Sindical. E de Relações Humanas. A área previdenciária eu fiz porque a minha ex-esposa se formou também em Direito, eu ia falar em Advocacia de novo (risos) e aí eu fiz mais pra incentivá-la. E hoje ela atua no Direito Previdenciário em Curitiba.
P/1 – E esse formulário que você inventou...
R – Ah, eu esqueci do final da história! Foi adotado no Brasil inteiro, pelo que eu soube, foi adotado no Brasil inteiro na época em que as filiais regionais, que eram chamadas tinham que calcular e enviar aqui pra matriz pra fazer o processamento final da folha. Tanto que até eu vi aquela carta: “Favor adotar a partir de tal data”.  Eu falei: “Tá bom, muito bem”, mas isso é outra história.
P/1 – Como é que você se sentiu em ver o seu formulário?
R – Qual é o termo? É vilipendiado no direito autoral. E sequer nenhum: “Ô, excelente ideia”. Isso foi um erro da Liquigás, mas também ninguém morreu por isso, nem deixei de criar meus filhos, nem fiquei menos prejudicado e nem mais melhorado, mantive a linha e seguimos em frente.
P/1 – É isso aí. E aí, como é que se deu o fato de você entrar no sindicato? Eu queria que você contasse um pouquinho essa história, como é que surgiu o sindicalismo?
R – A história do sindicato é o seguinte. Em 1978, o sindicato era só de Curitiba, um novo presidente que assumiu estendeu essa base para todo o Paraná.
R – Em 78, o Sindicato teve uma, veja bem, temos que ver o lado histórico da coisa, 78, Brasil tava aí num momento de ebulição, né? Inclusive aqui no ABC, em São Paulo, Lula, o Brasil acordou, como tá acordando hoje de uma maneira diferente, mas acordou. No Brasil inteiro o sindicalismo se reformulou e o nosso sindicato, que tinha na sua diretoria apenas os dirigentes das companhias de petróleo e o presidente que assumia à época, que era funcionário da Esso Brasileira de Petróleo resolveu estender a base para o Paraná inteiro e também agregar realmente mais trabalhadores pra fazer parte, não da luta sindical, do movimento de esquerda, na disso, simplesmente procurar transmitir aos trabalhadores os direitos deles. E com isso eu entrei no Sindicato, não eu, eu e mais três, quatro da Liquigás. Eu fui convidado, na época até tinha 18 anos, era um juvenil ainda, nem sabia o que era movimento sindical, a verdade é essa. Fiz parte da primeira gestão, saí e depois retornei porque em 87 eu era presidente do grêmio da Liquigás, sou um dos fundadores do grêmio da Liquigás do Paraná. Então era presidente do grêmio, encarregado do RH, técnico de segurança, e tinha um bom relacionamento com essa mistura que eu te falei, escritório, produção e entrega. Porque eu sempre procurei ser uma pessoa correta, justa. Eu sempre falava pro pessoal: “Olha, você tá sendo demitido por causa disso, disso e disso. Você errou, procure consertar, procure melhorar. Você só vai melhorar se você se melhorar, se você não se melhorar, você nunca vai melhorar é nada”. Eu sempre procurei ser justo, é um lema que eu tenho, a justiça por princípio. A gente erra bastante, mas procura acertar mais do que errar. E nessa extensão no sindicato eu entrei, depois eu saí, depois voltei porque em 85 o sindicato precisava de dirigente sindical e como eu tava fazendo um bom trabalho me chamaram pra voltar pra diretoria e eu voltei. Porém, renunciei pra assumir o cargo de Gerente de RH, porque realmente era incompatível, uma gerência de RH como dirigente sindical, né?  E depois retornei por razões que eu prefiro não revelar que é outro foco da minha vida pessoal e profissional que eu acho que não tem intenção aqui de criar, não tem necessidade disso.
P/1 – Nesse momento dessa mudança da empresa, momento da compra pela Petrobrás, você teve alguma participação nesse processo?
R – De aquisição?
P/1 – De aquisição, como do sindicato, teve algum envolvimento?
R – Veja bem, a participação do sindicato nessa compra, ela faz de forma mais indireta porque a atuação, nós que estamos em Curitiba, no Paraná, até a gente sempre brinca que dependendo das regiões a gente ou é província de São Paulo ou é província de Brasília. Mas as decisões realmente são feitas em São Paulo, no Rio e Brasília, a gente atua de forma indireta. Foi uma surpresa pra todos do movimento sindical e dos próprios trabalhadores, uma grande surpresa. Depois, é claro, até pelo meio que eu convivo, que a gente procura saber o porquê das coisas, que a gente sabe porque a Liquigás foi comprada pela Petrobrás, aquilo que eu acho que já falei mais ou menos aqui, que é pra fazer Política Pública com o preço do gás. Era uma diretriz do presidente Lula, continua sendo ainda, se é bom ou ruim, também não sei se é o foco aqui pra gente debater isso, cada um tem uma visão, né? Eu entendo que como empresa estatal ela está correta. Se ela é do Estado ela tem que fazer Política Pública de Estado. Se ela não é do Estado, ela é do setor privado, o que o setor privado faz? Capital é capital, é geração de riqueza pro capital. Então nós temos que separar qual é o foco que nós vamos debater. Eu procuro ficar sempre no equilíbrio. Tem que ter a presença do Estado? Tem que ter. Na administração da empresa. Mas tem que também visar lucro porque o acionista não quer saber de fazer favores com o chapéu dele, tem que haver uma administração estatal, mas tem que gerar lucro, ela não é uma empresa do Estado, ela é mista. E, quanto à expectativa dos trabalhadores, não sei se foi essa a sua pergunta, ou se foi a nossa participação. Quem que não quer ser funcionário do Sistema Petrobrás? Não digo hoje com as ações meio complicadas, há todo um debate interessante sobre isso, sobre o hoje e o amanhã, mas também tem outra pergunta, tá certo ou tá errado? A questão da desvalorização das ações da Petrobrás, a quem interessa ou a quem desinteressa? Aí teria que filosofar muito sobre esse debate. Mas para os empregados foi maravilhoso, houve até um excesso de expectativa. E um excesso de expectativa difícil de explicar. E onde que desemboca a explicação? No RH. E onde mais? Na tenda dos milagres que é o sindicato. Porque eles acham que o sindicato tudo tem que resolver. O RH tudo tem que resolver, Recursos Humanos tudo tem que resolver. E não é assim, isso eu aprendi. Recursos Humanos tem a força da folha de pagamento, mas não tem o poder do Conselho de Administração pra dar 20% de aumento pra você ou pra mim, o conselho tem que autorizar. Até mesmo na empresa privada, concorda? Empresa privada nenhuma sai dando aumento aí de 20, 30, 40% pra empregado, a não ser que seja um gênio. E esse excesso de expectativa foi complicado, tá sendo complicado de administrar internamente na empresa. Por mais que o edital diga, por mais que haja, isso é uma visão pessoal, até como Gerente de RH, não como sindicalista, por mais que o RH diga, que o edital diga, o empregado mais de nível médio porque o de curso superior, ele lê o edital e sabe o que vai fazer na empresa, embora isso esteja sendo corrigido com o devido tempo. Mas o empregado de linha de produção, ele acha que ele tá na Petrobrás, ele quer a PLR  [Participação nos Lucros e Resultados] da Petrobrás, ele quer os benefícios da Petrobrás e isso é um dificultador e a gente tem que dar o passo conforme a perna, né? Mas a expectativa foi muito grande. E é natural, natural. Mas é uma coisa que está sendo administrada, assim esperamos. Eu até como funcionário da Liquigás, quando comprou, falei: “Ô meu Deus do céu”, já até calculei quanto seria minha PLR, mas aí não deu certo (risos). 
P/1 – E Valdir, nessa expectativa, nesse período, talvez você nem precisa citar nomes, enfim, mas teve algum pedido, alguma colocação que tenha sido marcante pra você?
R – Na transição?
P/1 – É, nessa transição.
R – De Liquigás italiana, multinacional do petróleo e Liquigás Petrobrás?
P/1 – Isso. Histórias marcantes ou situações que tenham sido emblemáticas pra você?
R – Eu acabei de citar eles, mas vou ser mais incisivo. O excesso de expectativa entre o que a Petróleo Brasileiro, que é a refinaria, e a BR Petrobrás Distribuidora gera de retorno pro seu empregado e o que a Liquigás Distribuidora gera de retorno para o seu empregado. Esse é o fator determinante, isso ainda continua causando essa expectativa. Por mais que haja o GDP, Gestão de Desempenho, isso não existia na Liquigás, a Liquigás antes era diferente, ela olhava pra você e falava: “Esse é o cara, x nele”. Agora não, é todo um procedimento. Isso eu to falando dentro de uma linha do código de ética da empresa. Antes você era escolhido, a tua ascensão era mais rápida, aquilo que eu já falei. Hoje não, hoje ela tem regras a serem seguidas. E esse excesso de expectativa é que foi o fato determinante, a expectativa que iríamos virar o príncipe da noite pro dia. E não é, né? E é uma conta óbvia, o próprio presidente Rubens fala nas reuniões que a gente tem por ano, nesse ano ainda não tivemos reunião, o excesso de expecativa. É uma questão de números, o lucro da refinaria é de 30 bilhões, o da Petrobrás é de três bilhões, o da Líquigas no ano passado foi de 44 milhões. Falando isso eu dou até a impressão de estar dando discurso de patrão, né? E se vocês estivessem lá na linha de produção da Liquigás, já escutei isso, mas são números, não são números? Contra número não há argumento, a gente tem que seguir conforme o resultado. Embora nós empregados não tenhamos culpa desses números, né? Uma hora eu falo como sindicalista, uma hora eu falo como Gerente de RH, é uma misturada danada.
P/1 – E pra você, pessoalmente, quais são os maiores desafios?
R – Profissional?
P/1 – Nesse sentido, dentro dessas expectativas que são colocadas a você, tanto como gerente quanto como sindicalista?
R – O de sempre, desde 1976 quando eu fui pro RH, equilíbrio. Tentar transmitir aos trabalhadores, falar: “O possível é esse, não tem como”. Isso dentro da informação. O que eu tenho, o que eu procuro conhecer, negociando com os representantes da empresa que são a Vera, o Cleber, o próprio presidente, meu grande desafio é esse, procurar atingir sempre o melhor possível. Esse ano é outra expectativa, já houve uma primeira negociação, estávamos aqui, gente do Brasil inteiro na Augusta, ali no Hotel Linson. E o debate é o mesmo, os problemas são do Oiapoque ao Chuí, mas há o problema de números para satisfazer o nosso desejo, o nosso ideal olímpico. Eu sempre falo nas negociações, a gente quer a medalha de ouro, as empresas começam com a de bronze e a gente tentar chegar na de prata (risos), essa é a grande expectativa, só que a gente nunca vai resolver isso. Sabe por quê? Porque o ser humano é dotado do quê? De sonhos, de desejos, quanto mais sonha mais quer, não é verdade? E a gente como RH e sindicalista, acho que qualquer empregado, desde o ajudante de produção até o presidente, a gente nunca tá satisfeito, é inerente ao ser humano. Não digo todos seres humanos, japonês já tem outra cultura, o chinês. Chinês, pensou demais já corta o pescoço. O japonês, acho que já é mais centrado. Nós somos muito imediatistas. Então a minha expectativa é essa, fazer o meu trabalho como dirigente sindical, não é só da Liquigás, de todas as outras empresas, de posto de gasolina, companhia de petróleo. A gente convive com salário de mil reais e salário de 60 mil reais, que eu já vi. E o meu desafio é esse, tentar sempre, não ser padre também porque eu não vou resolver o problema de todo mundo, né? Mas tentar achar o equilíbrio, e às vezes a gente paga um preço por isso. 
P/1 – E esse equilíbrio você tira da onde, Valdir?
R – Tira o quê?
P/1 – Força, motivação pra você ter esse equilíbrio?
R – Eu escuto Adele pra consolar meu coração, a Enya e a Sarah Brightman pra acalmar minha alma. Meus filhos, hoje já advogados, que eu tive a honra de entregar a OAB pra eles, como advogado eu tive esse privilégio. A força é essa, não pode parar. Dançar, cantar, ouvir Tina Tuner. A força eu tiro daí. A única coisa que eu construí hoje foram dois filhos maravilhosos, a minha filha já me deu duas netas. De onde eu tiro força? Não pode parar, temos que viver, né? Temos que sobreviver.
P/1 – E o seu cargo hoje qual é exatamente? Fala um pouquinho.
R – O meu cargo na empresa, tecnicamente falando, é Profissional Júnior, com 37 anos de Liquigás. Aí é uma outra discussão que também não quero falar. Mas eu saí da Liquigás quando eu fui para o sindicato, era Gerente de Recursos Humanos da Região Sul. Fui liberado pro sindicato para o mandato sindical com os benefícios da convenção coletiva pra exercer o mandato sindical, pela incompatibilidade do exercício do cargo e o mandato sindical, não há nenhuma incoerência nisso, é correto. Eu tenho um pensamento pessoal meu, tenho o pensamento legal e o pessoal. Enquanto empresa, mesmo que seja estatal, ou privada, entender que sindicalista é inimigo de empresa, ou dirigente sindical é inimigo de empresa, vai ficar essa cultura que sindicalista é comunista e de esquerda, né? Nós temos lá, a nossa diretoria é muito eclética lá no Paraná. Dos 20 tem seis advogados; dos seis efetivos, quatro são advogados, presidente, tesoureiro e eu. Então a gente tem uma linha de trabalho que se chama de Parceria. O capital não é inimigo do trabalho e o trabalho não pode ser inimigo do capital. Só vai sobreviver a empresa se tiver a nossa força produtiva, não é isso? E vice-versa. E esse equilíbrio é que é difícil de chegar. Então, a força de todo o meu trabalho é nesse sentido, tentar atingir esse equilíbrio, sempre. Isso eu faço em casa, faço na dança folclórica que eu faço, no futebol, mas é difícil, é um leão por dia. 
P/1 – E pra você hoje, quais são as coisas mais importantes? De alguma forma você já falou. Você é casado?
R – Eu sou divorciado. Fui casado durante 23 anos e aí não bateu mais as sintonias, né? A minha esposa se formou em Direito, foi advogar no Direito Previdenciário e resolveu seguir a liberdade financeira, vamos dizer assim. Eu falei: “Então tá bom, siga o teu caminho”. Eu fui casado 23 anos e tenho dois filhos, Guilherme, com 23 anos, já advogado, inclusive são meus dois orgulhos, meu filho e minha filha, minhas duas netas. Os dois filhos também advogados, a filha também advogada e o meu filho de 18 mil candidatos no Paraná pra delegado passou em 133, e agora na segunda fase está em vigésimo oitavo. E tem a terceira fase agora que é a parte física, já perdeu nove quilos, tá empenhado lá. Tive uma convivência maravilhosa com meus filhos. O Guilherme era meu parceiro do segundo ano até o ano passado, pra jogar bola. Jogou no Coritiba também. A minha filha é a minha paixão, já me deu duas netas lindas. Hoje eu sou divorciado, quero casar ainda, mas tá difícil de achar. Achar a gente acha, né? Mas precisa rolar a química, como diz o...
P/1 – E como é a sua rotina de trabalho? Só não ficou muito claro pra mim onde que você trabalha exatamente. Como é o seu dia a dia?
R – Até eu ir pro sindicato a minha rotina era ir pra Araucária, das sete às oito, nove da noite. Hoje a minha rotina de trabalho é de segunda à sexta, às vezes sábado, às vezes domingo. Domingo passado, eram quatro horas e eu estava aqui em São Paulo me preparando pra reunião da segunda às nove horas com as companhias de gás, com o sindicato. Mas a rigor, de manhã eu vou pro sindicato, se tiver atividade externa, porque a gente não é só funcionário, dirigente sindical, da Liquigás. Problemas têm em todas as companhias, a gente representa ainda parte de posto de gasolina, companhia de petróleo, antiga Shell, hoje Raízen, Cosan. A Exxon, que é a maior empresa de petróleo tem um dos cinco atendimentos do mundo é em Curitiba. Então a rotina de trabalho é ir pro sindicato, ficar ligado na internet, atender trabalhador do gás, posto de gasolina, companhia de petróleo, telefone, internet, negociação sindical, visitar empresa de gás onde tem problema, administrar conflito, essa é a nossa função. É a mesma do RH, só que 20 vezes mais, porque no RH dentro da empresa você administra problema focado na empresa, lá no sindicato aparece de tudo, problemas, é um que o pé tá doendo e a empresa não fez a guia de acidente e o sindicato que tem que resolver. O outro que ganha 80 mil e teve 30 de imposto de renda e quer saber se tá certo, essa é a função da gente lá. Administrar conflito. E o principal resulta no quê? Na Convenção Coletiva de Trabalho, que é o foco maior do meu trabalho hoje, são as negociações sindicais, onde você conversa com trabalhadores de todo Brasil, de todas as empresas, pra gerar naquela convenção lá de 70 cláusulas que não caiu do céu, né? Ela foi exaustivamente negociada, debatida, conversada, analisada item por item, então essa é a minha rotina, trabalhar assim.
P/1 – Bom, então pra gente encerrar, Valdir, o senhor tem sonhos, quais são seus sonhos?
R – Meus sonhos... Casar de novo, um deles. Um deles é casar de novo, o outro é... Os dois sonhos que eu achei, é aquilo que eu falei, a gente nunca se contenta com um sonho. Eu pensei, antes de eu morrer, em 2010 eu fiquei cinco dias na UTI por conta de ansiedade, estresse financeiro, emocional porque eu tava saindo de um divórcio. E lá na UTI o médico olhou pra mim, gente morrendo do lado, uns 20 na UTI, uma baia assim. Ele falou: “Você não gosta de você, né? Triglicerídio alto, tudo alto, dente tudo horrível”. Eu saí de lá e falei: “Preciso realizar meus sonhos quais sejam”. Voltar a dançar folclore, e coincidiu até com o reconvite pra fazer parte do grupo, num grupo Master, pra comemorar os 50 anos. “Então eu quero dançar, voltar a jogar bola, voltar a viver e trabalhar, sempre”. Mas viver mais, viver mais, conversar mais, falar mais, se relacionar mais. E o primeiro sonho é arrumar uma nova companheira realmente, que a gente procure falar a mesma língua e dividir o ônus e o bônus, porque quando você divide só o ônus fica ruim, né? Essa é o primeiro sonho, casar com uma pessoa que atenda essa expectativa. Segundo sonho, ver meu filho delegado federal, ele tá focado nisso, tá estudando 20 horas por dia. E a minha filha também, ela tá pra ser nomeada como analista do Tribunal do Trabalho. Que meus filhos se encaminhem, porque eles se encaminhando, aí eu vou poder viver mais ainda. Agora o sonho principal mesmo é viver até os 90 anos, que vai ser difícil porque eu tenho dois vícios, o maldito cigarro (risos) e sou um grande apreciador de cerveja (risos), mas vou chegar lá. Esses são meus sonhos, viver bastante tempo.
P/1 – Tomara que sim, né?
R – É, esperamos.
P/1 – Que bom! Obrigada Valdir! Como é que foi pra você contar a sua história?
R – Foi ótimo, foi ótimo. Tem uma brincadeira que eu lembrei aqui, em 1975, quando eu entrei na Liquigás, até hoje acho que fazem isso ainda. Tipo assim, você é a chefe da Contabilidade e o colega ali é o chefe da Administração, um exemplo só, e você da área de Vendas. Eu sou o mais novo na empresa, se bem que hoje não existe mais a figura de office-boy, o pessoal entra todo ligado, a mil por hora. O chefe fazia um bilhete pra você, eu com 15 anos: “Senhora Maria, favor entregar ao Valdir, o office-boy, a máquina de achar diferença”. Aí você, office-boy né, andei a empresa inteira, guria! Um falava pro outro chefe: “A máquina encontra-se no setor tal”, aí você ia lá. Chegava lá. Ninguém ria! “A máquina de achar diferença não está mais na Estatística, está na área Operacional”. E aí, você ficava andando na empresa o dia inteiro e não achava a máquina de achar diferença. Isso é uma brincadeira interessante, muito bacana (risos).
P/1 – E você achou a diferença?
R – Não existe a máquina de achar diferença! Depois que você fica pê da cara, aí mandam de volta pra onde você saiu, né, aí falam: “Piá, acorda aí porque não existe máquina de achar diferença”. Um ótimo sonho, pra fechar. Eu assisto a um programa lá em Curitiba, pena que não passa, chama-se Quarta Dimensão. Ele diz assim: “Só haverá um mundo melhor com melhores homens”. Em busca do verdeiro eu, da paz interior e cada um que procure da forma que ache melhor, com o seu deus, que acredite, seja ele Buda, Jesus Cristo, Maomé, não importa. O fato é que existe um Deus aí pra cima nos olhando, que senão já tinha acabado com tudo isso aqui. Era isso.
P/1 – Tá bom, muito obrigada! Foi um prazer conversar com você, tá bom, Valdir? É isso.
FINAL DA ENTREVISTA

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