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História

Memórias de um memorialista na Penha

História de: Francisco Folco
Autor: Mauricio Dias Duarte
Publicado em: 14/03/2019

Sinopse

Na entrevista, José Francisco Folco inicia contando um pouco sobre suas heranças familiares, primeiramente como a influência de família italiana e austríaca em suas vivências nos primeiros anos de vida, posteriormente em relação ao mundo de trabalho de sua família nuclear: avô artista, pai engenheiro, mãe professora, as relações com sua avó materna que gostava de lhe contar histórias. Durante a adolescência tem como marcos sua formação universitária no Mackenzie, também no campo de engenharia, e sua aproximação com o campo de arte, ora por conta do ambiente cultural do bairro do seu avô, no Largo do Arouche, ora pelas suas convivências no próprio bairro da Penha, onde viveu toda a sua vida, se aproximando dos teatros, as festas e os cinemas locais. Na vida adulta destaca-se sua entrega a prática da fotografia e a história da arte, criando uma escola de arte junto de sua antiga companheira, depois investindo no registro documental de histórias, fotografias e narrativas sobre o bairro, que muitas vezes se confundem as suas melhores lembranças pessoais e familiares.

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História completa

Eu nasci na cidade de São Paulo, no bairro da Penha, no dia 20 de março de 1951, um dia depois do dia de São Jose, por isso que minha mãe me colocou o nome de Jose, porque ela me esperava nascer no dia 19, mas eu nasci no dia 20. Sou José Francisco Folco. Meu pai também chama Francisco, mas eu tenho esse José porque quase nasci no dia de São Jose, já minha mãe é Maria de Lourdes Cespe Folco.

 

O meu pai também é penhense, nasceu na Penha; minha mãe nasceu em Campinas. O pai da minha mãe, meu avô materno, Alfredo Cespe, ele era artista sacro, ele pintou a igreja da Penha, as paredes, o teto, todos aqueles motivos religiosos, bíblicos, da igreja. Ele veio para São Paulo para fazer a pintura dessa igreja, foi quando minha mãe veio para cá, ainda criança, menina. E o meu pai já nasceu aqui na Penha, meu avô quem veio para Penha, meu avô veio da Áustria, Guilherme Folco. A minha avó era Romana, Bolzaquini, bem italiano, que é a avó paterna, e a Regina de Oliveira Cespe, que era minha avó materna. A minha avó, ela falava com aquele sotaque italiano bem carregado, uma senhora contadora de história. Ela era paralitica, eu nunca vi minha avó andar, e ela não queria a cadeira de rodas, ela ficava sentada numa cama, na rua Caquito aqui na Penha. Mas eu tinha uma relação afetiva muito gostosa com ela, ela era uma senhora contadora de histórias, eu me deliciava de sentar ao lado dela e ela ficar contando as histórias.

 

Meu pai era engenheiro eletricista, trabalhou na Light. Ele se formou engenheiro graças a um tio que ele tinha, o tio brasileiro que ele tinha, irmão do meu avô, porque meu avô achava que ele não precisava estudar, como todo europeu. Como meu avô era alfaiate, então meu pai tinha que ser alfaiate também, e meu pai chegou até a fazer um terno. Aí, por influência desse tio brasileiro, o João Folco, por influência dele meu pai estudou, teve também um pessoal da Light que ajudou muito ele, ele conseguiu cursar então, fez o curso de engenharia.

 

O meu pai, ele foi como engenheiro, meu pai era um cientista. Então, ele me ajudava muito. Os presentes que meu pai me dava era câmera fotográfica, luneta, microscópio, aquela coisa de cientista, mesmo. Meu pai me incentivou muito nisso. A minha mãe, com leitura. Então eu, graças a Deus, tive uma formação, na infância, boa por ter uma professora e um cientista. Meu pai, ele chegava do trabalho, ele tinha uma oficina, ele ia para essa oficina, ficava enfurnado lá. Ele era um hacker do tempo dele, ele tinha um domínio da eletrônica incrível. A gente chegou a ter, numa época que a televisão era uma coisa cara, poucas pessoas tinham TV, nós chegamos a ter cinco aparelhos de TV em casa, porque ele ia na Santa Efigênia comprar as peças e montava a TV. E a TV não tinha caixa, você via as válvulas, era só tubo, a caixa era cara. Então ele montava a TV em casa, o que a molecada faz hoje com computador, meu pai fazia no tempo dele. Eu lembro que eu era criança, eu lembro que meu pai pegou um rádio portátil, naquela época o rádio portátil era um negócio grande porque a bateria era grande, a gente foi lá na Avenida Miruna, porque eles queriam ver a nova antena da rádio Record, estavam testando a antena, aquelas coisas loucas. Ele consertava a TV dos amigos, esse tipo de coisa aí.

 

Eu comecei a estudar muito jovem, comecei no São Vicente na época, que era a única escola que tinha a pré-escola, eu entrei com cinco anos. E fiz todo, na época chamava curso primário, lá. Depois eu fui para o ginásio, no Ateneu Ruy Barbosa, cujo o diretor era meu padrinho de batismo por coincidência, precisavam arrumar alguém para me batizar, na hora (cataram) [00:27:26] ele lá. Mas, eu lembro muito das festas da Penha, das festas de oito de setembro, a Penha era um bairro que tinha muita atividade para gente da nossa idade. Jogava bola aqui também, no campinho do seminário, uma vez nós jogamos contra os padres, e os padres jogando de batina, não tirava a batina para nada, nem para jogar bola. Era muito engraçado ver os padres jogando bola com aquele saião. A gente ia aos cinemas, ao Rio Tietê, passeio de barco.

 

Então a Penha era um bairro assim, muito festeiro. Muitas das coisas eram montadas no Largo do Rosário, o Largo do Rosário era uma festa. Eu frequentava a Legião de Maria, um negócio assim, mas só por causa do rock, porque a gente tinha uma banda de rock lá, com os instrumentos a gente ensaiava de sábado, eu ia na Legião de Maria só por causa do rock. Depois que acabou a banda de rock, não quis mais saber daquele negócio lá. Mas eu compensava, porque a gente rezava lá uns 15 minutos e depois ia tocar rock.

 

Eram uns colegas de escola, era Os Caveiras. Eu fui beatlemaníaco, eu peguei a geração dos Beatles, então a gente basicamente tocava Beatles, a gente não gostava muito de jovem-guarda, Roberto Carlos, não era chegado muito nisso, não. Eu gostava dos Beatles, de Rolling Stones.

 

Desse lado cultural, uma coisa que eu gostava e que eu acompanhava com meu avô, meu avô morava no Largo do Arouche, isso é uma coisa muito importante também, meu avô morava no Largo do Arouche, e o Largo do Arouche naquela época era um lugar cult da cidade, perto do cinema, do teatro, esse meu avô que pintou a igreja da Penha. E eu adorava passar o fim de semana lá com ele, para ir para cinema, teatro, comer em restaurante. E naquela época, você passava assim, na Praça da República, uma hora da manhã, tranquilo. De manhã cedo, na Praça da República, era um reduto de artistas mesmo, colecionadores de selo, de moeda, ia com meu avô lá, aprendi muita coisa de arte com meu avô, visitando galeria, pinacoteca, aprendia. O meu avô foi meu grande professor de arte. E meu avô, por ser um artista sacro, ele pesquisava muito a simbologia das religiões e etc. O meu avô, ele ia em tudo quanto é igreja, para ver o culto deles, para ver os símbolos, tudo quanto é igreja, seja espirita, não importa. E eu gostava de estar com ele nisso. Ele frequentava também, a Sociedade Teosófica de São Paulo, as vezes eu participava de reuniões com ele também. Meu pai não gostava muito, meu pai achava que tudo isso aí, que meu avô era meio doido. Meu pai não gostava muito dessa, meu pai era aquela coisa de engenheiro. O meu avô, como era mais artista, um cara mais doidão assim, meu pai via assim com um olho meio atravessado esse negócio de eu estar com meu avô para lá e para cá, e quando eu começava a fazer uma besteira, ele falava “está vendo? Fica andando com o avô dele”. Mas eu adorava sair com meu avô nos fins de semana também, foi uma coisa muito importante na minha formação. Então, eu lembro, e foi uma coisa que mais tarde, depois, eu fui estudar a filosofia do oriente, inspirado nesses momentos, porque eu lembro que eu tinha uns 14, 15 anos, eu estava lá com meu avô e o cara começou a mostrar na lousa a simbologia da trindade; pai, filho e espirito santo; em várias religiões. Todas as religiões tinham uma trindade, todas. Com os nomes, (Brahma, Shiva) [00:48:09] e na Índia, então assim. Nossa, eu fiquei fascinado com aquele negócio lá. Depois de ter estudado em escola de freira, você descobre que eles não são os donos da verdade. Aí, eu fiquei fascinado, mais tarde eu fui estudar filosofia do oriente também, gostei muito disso. Depois disso acabei me envolvendo mais com a arte, com a criação da Viveka com minha ex-esposa.

 

O Viveka avançou e se consolidou na época do PT, o PT tem um, sem fazer nenhuma propaganda política, o PT é educação e cultura, e o PT nesse ano, teve um ano, acho que foi na Marta, não lembro, eu sei que foi no PT que tinha um dinheiro muito grande para cultura, para educação e cultura, e o NAI teve verba e contratou a gente para fazer uma reciclagem nos professores de artes, fizemos muitos trabalhos de reciclagem. Apesar assim, eu sentia um pouco de má vontade dos professores, estavam indo porque ganhavam ponto, não sentia assim, uma vontade deles de crescerem na profissão. Eu lembro até de uma situação de uma mãe que falou assim “olha, me desculpe, mas eu vou entrar com o celular porque eu sou mãe”, a minha mãe me criou e não existia celular, vocês dois aqui também, vocês não são da época de mãe com celular, e ela “eu vou entrar com o celular porque eu sou mãe”. Então, aí tive essa escola de arte, eu invejava a profissão dela, porque eu queria ser também, eu gostava muito de arte e eu era engenheiro. Então, deixa eu voltar um pouquinho para trás, lembra quando eu comentei que meu avô queria que meu pai fosse alfaiate e não precisaria estudar? Então, e o meu pai fez a mesma coisa comigo, eu queria fazer jornalismo, “não, você vai ser engenheiro”. Como ele era engenheiro, ele falava assim “você quer ganhar dinheiro, você vai ser engenheiro. Você vai ser jornalista, você não vai ganhar nada”, aí ele falava para mim. E como eu era um filhinho de papai, ou seja, na minha época não tinha faculdade a noite, só de dia. Ia me pagar um Mackenzie, para entrar num Mackenzie, então, uma vez que o meu pai pagava o curso, eu tinha que estudar o que ele queria. E meu pai foi assim, eu fui filhinho de papai, mas ele nunca me deu carro, nada, nada. Mas o que eu quisesse estudar, ele estava lá. Fiz curso de inglês, paga, curso de alemão, faz qualquer coisa, meu pai estava lá me ajudando. Agora, eu tinha que fazer engenharia. Aí eu fiz engenharia, e quando eu comecei a trabalhar, aí você fica entusiasmado, como eu falei para você, o salário era muito bom, não tinha engenheiro no mercado. Foi uma época que até fizeram a FEI, Faculdade de Engenharia Industrial de São Bernardo, estava cheio de indústria automobilística e não tinha engenheiro mecânico no Brasil. Na Light, estava cheio de italianos, estavam trazendo italianos para cá, não tinha engenheiro no mercado. Quando eu me formei, eu escolhi o lugar para trabalhar, eu resolvi trabalhar na então Light porque era aqui na Penha, perto de casa.

 

Assim, na verdade eu não sou um professor de fotografia, eu sou um arte-educador que usa a fotografia como suporte, essa é uma grande diferença. Eu não sou professor de ficar dando aula de abertura, velocidade, ISO, lente, distancia focal, não. Claro que eu dou aula disso também, que eu tenho que ensinar o sujeito a mexer numa câmera, mas não é nisso que eu foco. Tanto que, nas minhas oficinas, eu começo com três modos de fotografar sem câmera, que é aprender a olhar, aprender a observar. E aí, eu entro na questão da arte, a arte ajuda. Quando você estuda a história da arte, a história da composição, como que o artista vai compor, então você começa a desenvolver o olhar, você começa a perceber um olhar diferente. Como, por exemplo, agora, nesse mesmo instante, tem uma fotografia muito legal que vai daqui até aqui. Está muito legal, um equilíbrio legal dessa coisa escura, e você um pouco mais clara aqui, então um equilíbrio muito legal. Então, você começa a olhar de um jeito diferente, começa a ver mais a estética das coisas. Isso, a arte ajudou bastante. E quando a gente fez essa oficina, foi na época da Marta, eles queriam fazer uma oficina de fotografia que tivesse essa conotação mais artística, não ficasse só na parte técnica. E eu e mais duas pessoas então, criamos essa oficina. E um deles foi para Coimbra, e hoje, essa mesma oficina que eu dou, é dada em Coimbra também. Que foi uma coisa, também, que eu trouxe de Utrecht, lá da oficina de fotografia em Utrecht. La na Europa, eles usam muito a questão compositiva, é muito mais importante. O Cartier-Bresson, o grande fotografo do século 20, ele dizia que a composição deve ser a nossa primeira preocupação com a fotografia, depois vem o resto. Eu tenho um amigo falecido, foi uma perda muito grande, um grande fotografo, Eduardo Garofalo, ele me visitava, a gente ficava umas três horas conversando sobre fotografia, em nenhum momento a gente falava de câmera ou lente. Isso que é legal.

 

Partindo para o Memorial Penha de França, como eu comentei com vocês, eu fui um pioneiro de câmera fotográfica digital, e eu queria fazer uma foto da pintura da igreja do meu avô. Então eu usei o equipamento digital e comecei a fotografar as pinturas do meu avô na igreja, antes que acabasse. E naquela época, a câmera tirava só sete fotos, eu tinha que voltar, descarregar a câmera e voltar de novo. Indo e vindo, indo e vindo, então a memória, naquela época, era pequena. E acabei descobrindo lá no fundo da igreja, um monte de foto antiga da Penha, tudo mofada, estragando, e elas estavam com um adesivo e não tinha como escanear. Então, o jeito foi fotografar, eu fui fotografando essas fotos. Aí levava, editava, tirava os rasgos, deixava bonitinho, fui criando esse acervo de fotos. Então, na verdade, uma coisa puxou a outra. Foi o interesse de um portfólio para o meu avô, mais ter um equipamento na época que pouca gente tinha, de fotografar, que ajudava a fazer isso. E aí então comecei a fazer, isso foi na época da escola de arte, nem tinha o Memorial, nem tinha pensado em Memorial ainda, comecei então, a fazer esse acervo de fotos antigas da Penha, fui criando isso, então, a partir daquele fórum, nós tínhamos então aquele fórum. Aí, a Marta, na gestão da Marta, perdeu a eleição. Perdendo a eleição, a gente achava que as coisas aqui no Centro Cultural iam parar, então era bom a gente sair daqui, para não perder o fórum, a gente continuaria isso em outro lugar. Aí foi a ideia de criar o Memorial Penha de França, que eu tinha lá o imóvel disponível, herança de família, “vamos para lá?”, “vamos”, “vamos criar um Memorial?”, “vamos”, “vamos fazer um acervo de fotos?”. Então, o nosso trabalho de fórum continuou lá. Então, o pessoal que frequentava o fórum aqui foi para lá. Então, só que a gente não queria abrir empresa, aí que se enganchou com o Movimento Cultural Penha, que começou a ressurgir nessa época, no mesmo ano, foi o ano do ressurgimento do Movimento Cultural Penha, que depois eles vão contar a história.

 

O Movimento Cultural Penha, ultimamente, tem sido o suporte do Memorial. Começamos com várias pessoas tocando o trabalho, mas nesses últimos momentos estava sozinho, estava meio perdidão lá. O Centro Cultural, a Patrícia, o Júlio veio para dar criar um alicerce, mexer no alicerce mais forte. E para mim é mais uma parceria, para mim o Movimento Cultural Penha e o Memorial, para mim, agora é uma coisa só, eu vou poder até, assim, viajar, sabe, eu sei que o Movimento Cultural penha vai estar lá no Memorial para atender um estudante, atender uma pesquisa, eu não vou estar mais sozinho, eu fiquei muito preso. Eu não tenho carro, eu não tenho cachorro, eu não tenho nada para não me prender, e de repente o Memorial estava me prendendo, eu não estava conseguindo mais sair, por estar sozinho. Tanto que foi difícil eu fechar, fechar para reforma. E vão fechar, está até para eu colocar no Facebook lá, “fechado para reforma”. Ia colocar, tinha um agendamento importante de um trabalho escolar; ia colocar, outro agendamento, estava difícil fechar o Memorial. E agora, até a semana passada eu passei a semana inteira lá no Guarujá, fugindo dos pedreiros, meus pais tinham apartamento lá, fugindo dos pedreiros. Agora eu consigo ir até o Guarujá, mas antes eu estava muito preso.

 

Heranças Periféricas, esse projeto de Heranças Periféricas, são coisas que estão mexendo, estão fazendo acontecer. Eu sou um pouco, assim, alienado com relação a Facebook, esse tipo de coisa. E aí um dia a minha filha falou, comentou não sei o que, eu falei “eu não estou sabendo”, “ai pai, você não sabe dessas coisas, você não vê”. Aí eu citei para ela o que eu tinha lido num livro, como se referisse assim “um homem inteligente sabe de tudo o que acontece. O homem criativo, faz as coisas acontecerem”, e eu faço mais o tipo de fazer as coisas acontecerem do que ficar sabendo o que está acontecendo, e esse é o papel do Movimento Cultural Penha, é fazer as coisas acontecer.

 

Achei muito legal essa oportunidade. Não, eu não conto história assim, como eu contei hoje aqui, não. É mais a história da Penha mesmo, eu sou contador de história da Penha. Acho que é a primeira vez que eu falo sobre a minha vida, coisas assim, nunca falei mesmo. Sempre história da Penha, história dos tropeiros, passagem dos imperadores por aqui, história que eu já contei um monte de vezes, mas sempre da Penha.

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