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História

Meu amado Isidoro, pedaço de minha vida

História de: Maria Cleta de Almeida
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/04/2019

Sinopse

Embora boa parte da trajetória da cearense Maria Cleta tenha transcorrido na cidade de São Paulo, a maioria de suas lembranças tem a terra natal como cenário. Foi no pequeno povoado de Isidoro – colado ao distrito de Monte Alegre, onde nasceu, em 1938 – que ela pôde ouvir os fantásticos causos do bisavô, Papai Velho, que sobrevivera à grande seca de 1877. Foi também lá que, apesar de toda a pobreza, ela se interessou pelos estudos. Incentivada pela mãe, que aprendera a ler e a escrever escondida dos pais, numa época em que a educação feminina não tinha a menor importância, Cleta só foi para a escola, improvisada num sítio, aos dez anos. Dessa época, guarda muitas recordações, como a da palmatória, que as próprias crianças tinham de desferir nas mãos dos colegas, a qualquer erro.

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História completa

O meu nome é Maria Cleta de Almeida – meu Almeida é do marido, era Lima antigamente. Eu nasci no dia 26 de abril de 1938, numa quarta-feira, às quatro horas da tarde, segundo relato da minha mãe. E eu não fui registrada quando nasci. Por isso que, nos meus documentos oficiais, meu registro é do dia 24 de novembro de 1938, porque erraram quando foram fazer lá. Eu nasci no Monte Alegre, junto com Isidoro. Isidoro é onde todo mundo é meu irmão lá. Meu amado Isidoro, um pedaço da minha vida.

 

Nasci foi de parteira, e eu acho que a minha parteira foi Belisária. Meu Deus, se eu for contar a história de quando ganhava nenê, vocês vão se assombrar. Fazia, deitava lá numa rede, punha a criancinha na outra rede. Tinha uma redinha pra criança também. E ali ia começar a matar frango, fazer caldo e beber as coisas. E a mulher só se levantava e saía daquele quarto depois de oito dias. E não tomava banho, não lavava os pés. Se lavasse os pés, era numa cuia. Uma pessoa ia cuidar do resguardo – ficar de dieta chamava resguardo. Ia sempre uma amiga, uma parente, uma sobrinha pra ficar 29 dias lá. Nos 30 dias é que tomava banho.

 

Era uma casa de taipa, uma casa muito grande. A área da frente chamava alpendre, tinha uns dois quartos, cozinha, o quintal, o que a gente chama terreiro. E, no fundo, era onde eu brincava com minhas primas e meus irmãos. Tinha um pé de tatajuba. Como dá umas folhas bonitas, fazia sombra, nós, crianças, brincávamos, e o Papai Velho contava a história de Papai Velho.

 

O meu bisavô, foram dez irmãos, e nove morreram de fome na seca de 1877. A última que morreu foi a mãe dele, quando não tinha mais recurso nenhum. Aqueles tempos eram de muita dificuldade, foi no outro século. Ouvi muito contar história, por ele mesmo. Chupava... Sabe o que é torrão? Pedaço de terra onde tinha um rio. Podia estar úmida, e ele chupava pra sugar alguma coisa. Sabe madeira que tira a casca pra ver se tem alguma umidade? Por exemplo, mufumbo é uma madeira que fica muitos anos porque ela é úmida e ela resiste a dois ou três anos de seca. Você corta ela e sai aquela aguinha. E ele cortava, chupava. Foi assim que ele foi sobrevivendo. E ele não morreu. Quando ele morreu, eu já tinha mais de dez anos, eu já sabia até ler. E ouvi muito Papai Velho contar essa história.

 

Eram três irmãos: meu pai, tia Jesus – o nome era Jesus mesmo, não sei por que puseram o nome de Jesus – e a outra era Odete. Tia Jesus ficou mocinha, começou a namorar, acho que ainda menor. Só que a bendita engravidou, aquilo foi a maior vergonha da família. Naquele tempo, ou casava ou matava ou ia preso. Meu pai fez eles casarem na marra. Casou já grávida, teve o filho, o Zé, mas logo em seguida engravidou, porque a regra era essa. E Ciço Paulino bebia muito, o marido da minha tia. E começou a judiar com ela e xingar e brigar e batia nela. E desconcordaram e tiveram que separar. Naqueles tempos, mulher separada era uma vergonha pra família e tinha que ficar escondida. E a menina ficou com dez anos, e o menino com 12. Tia Jesus ficou trabalhando na roça mais aquelas duas crianças, pra plantar milho e arroz. E meu pai ajudava pra poder comer e não passar fome. E, então, ela foi morar lá em Afonso Pena. Quando o juiz soube que tinha uma mulher separada de marido, criando uma filha na cidade com dez anos, é regra da casa, é lei da cidade: tomou a menina da mulher. Aquilo foi muito doído pra tia Jesus. Tomou mesmo.

 

Aquele pé de juazeiro é a história da minha vida. Esse pé de juazeiro ainda tem lá. Sabe o que é pilão? Pilão é um tronco que cava um buraco lá. E lá tinha um pilão, onde a gente pilava. Tudo era pra vir da roça e cozinhar na lenha. O primeiro fogão, como eu comi minha primeira alimentação, não era fogão. Chamava trempe, três pedras triangulares, com a panela de barro em cima, feito na “loiceira”. Tem até uma piada assim: “Prato de barro não se quebra”, porque o que quebrava era o prato de louça dos ricos. De barro, durava muito tempo, porque era bem feito. Olha que conversa bonita, o começo da minha história. Minha primeira papinha não era como hoje da Nestlé, não. Fazia papa de goma, goma é o polvilho, que também as mulheres raspavam, e era feito perto de casa.

 

E minha mãe aprendeu a ler escondida num quarto com um pedaço de carvão, um papel de embrulho. Pegava lá da panela, quando queima o carvão. E minha mãe, muito curiosa, aprendeu a montar as palavras. Minha avó não podia nem imaginar que ela queria aprender a ler, porque era Deus o livre. Meus pais não foram como os avós, queriam que a gente aprendesse a ler e escrever. Levavam uma Carta de ABC; depois que aprendesse, compravam tabuada. A escola era lá na frente. E, pra gente, ia “de pés”. Meus irmãos estudaram, iam “de pés”. E as meninas não podiam ir só, porque ninguém podia sair só de casa.

 

Eu fui pra escola primeira vez com dez anos. Parece que estou vendo aquele primeiro dia de aula da minha vida! Você ia aprendendo a ler. E, aí, já sabe escrever. A prefeitura pagava a professora e aqueles mais ricos, que tinham casa grande, davam uma sala disponível. Aí, tinha um sítio chamado Joá e uma professora. Tinha um alpendre bem grande, uma área e ali pôs uma escola. A prefeitura não oferecia nada, os pais tinham que levar. Se tivesse cinco na escola, cada um tinha que levar uma cadeira. Nós éramos oito alunos, mas só o pai do Luís mais Alaíde que tinha condições, se fosse pra levar cadeira. Então, minha mãe teve uma ideia: tem banco! Banco, vai na mata, pega um pau com gancho de dois pés e faz bem bonitinho lá, corta de faca, do jeito dele, que todo mundo era artesanal, era artista. E fez o banco. E era um banco estreito pra nós sentar. E pra levar esse banco? Esse banco foi levado, acho que meu pai, não sei quem levou esse banco com muito sacrifício, do Monte Alegre pra Tataíra, que talvez fossem uns cinco quilômetros ou seis quilômetros. Só que, da Tataíra para o Joá era mais longe, era uns seis quilômetros também. Foi um sofrimento pra chegar lá. Chegamos e pusemos nosso banquinho lá. E eles levavam cadeira, até uma cadeira com forro de assento de couro, eram ricos. E os deles eram cadeira, e o nosso era banco.

 

Mas, aí, Dona Alaíde ia parar de dar aula porque o casamento dela estava marcado, acho que pra maio. Mas aquilo foi um chora-chora, foi o dia que eu chorei mais na minha vida. Eu não sou de chorar, não. Meu marido morreu, não chorei, não. Meu pai morreu, não chorei. Meu irmão morreu, não chorei. Mas naquele dia eu chorei muito. Eu chorei muito quando Dona Alaíde foi embora e também eu não fui mais estudar.

 

Aí, esse homem apareceu por lá, professor Cazuza. E aquele que errasse, palmatória redonda nas mãos. Era assim que a gente estudava. O que acertasse passava para o outro, o que errasse apanhava. Eu e Luís Alves, ficou um do lado do outro, eram os dois mais inteligentes. Quando chegou em Luís, ele errou. Quando ele me deu a mão – e tinha gente que era ruim mesmo, dava forte –, eu peguei e dei seis bolos nele bem devagarinho. Era amigo! Quando chegou na minha vez, que passou a outra rodada, que ele tinha que bater em mim, ele deu aqueles seis bolos que eu nunca vou esquecer. Minha mão quase racha, ficou vermelha! Essa é uma das coisas que eu não esqueço da escola, da minha segunda escola.

 

Essa primeira faculdade que eu fiz, já faz quase 30 anos, 25 anos, mais de 25 anos até. Mas essa daqui da Uniesp [União das Instituições Educacionais de São Paulo] foi em 2012, porque eu não paro. Quando eu comecei a fazer aquela quinta série, aquela sexta, foi junto com meu caçula que estava na sexta série, igual comigo. E eu fiz.

 

Agora o que eu sou? Oitenta anos completos, faço teatro e me saio muito bem nos ensaios, me saio muito bem. Escrevo o que vem na minha cabeça, mostro para o diretor, e ele me dá apoio. Estudar eu parei, pensava que ia fazer faculdade até o fim da vida, eu gostava muito de estudar.


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