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História

Meu Brasil Japonês

História de: Pedro Yoshio Handa
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 11/09/2003

Sinopse

Ideogramas japoneses estampavam as paredes do comércio local; uma arquitetura interiorana típica japonesa, e um bairro rodeado de imigrantes: este é o retrato da Liberdade lembrado por Pedro, na juventude. Em casa, o ateliê de pinturas do pai se (con)fundia com a sala, bem como as duas diferentes culturas – japonesa e brasileira – mesclavam-se em sua rotina. Conta das viagens, do trabalho no jornal criado para imigrantes e de suas percepções acerca das mudanças da cidade, das imigrações. Advogado por formação, almeja uma velhice tão tranquila como seu hobby, a pescaria aos finais de semana.

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História completa

P/1- Seu Pedro, por favor, diga de novo o seu nome, local e data do nascimento.

 

R- Meu nome: Pedro Yoshio Handa. Local do nascimento: São Paulo, bairro do Cambuci. Data: dez de janeiro de 1946.

 

P/1- Agora o nome dos seus pais.

 

R- Nome do meu pai: Tomoo Handa. Nome da minha mãe: Satsuy Handa.

 

P/1- E eles nasceram onde?

 

R- O meu pai nasceu no Japão, numa província chamada Tochigi, e minha mãe nasceu em Tóquio.

 

P/1- E a atividade do seu pai?

 

R- Meu pai foi artista plástico, pintor.

 

P/1- E da sua mãe?

 

R- Minha mãe foi do lar.

 

P/1- Eles vieram para o Brasil quando?

 

R- Meu pai veio ao Brasil em 1917. Minha mãe também, por volta da mesma data. Se conheceram aqui, no Brasil, e se casaram aqui, no Brasil.

 

P/1- Como é que o seu pai veio de lá? Veio com a imigração?

 

R- É, veio com a imigração, junto com o pai.

 

P/1- Com o seu avô?

 

R- É.

 

P/1- E como era o nome do navio?

 

R- O nome do navio, eu...

 

P/1- Não lembra?

 

R- Não me lembro não, mas...

 

P/1- Mas ele chegou em 1917?

 

R- Chegou em 1917. Fazia parte de um pessoal de imigrantes japoneses subsidiado pelo governo japonês.

 

P/1- E ele chegando, ele e seu avô foram para onde?

 

R- Eles foram trabalhar no interior, na lavoura pesada, inclusive.

 

P/1- Lembra que cidade?

 

R- Parece que foi para o lado de Lins, Araçatuba, aqueles lados lá.

 

P/2- E era lavoura do que, o senhor sabe?

 

R- Na verdade não havia muito especificação de lavoura, mas parece que era um... O problema era o início da lavoura, então tinha que desmatar, fazer aquela plantação, talvez de café ou alguma coisa assim, desse tipo de lavoura.

 

P/1- E vieram pai e filho juntos?

 

R- Pai e filho.

 

P/1- As mulheres não vieram?

 

R- Não.

 

P/1- Como é que era o nome do seu avô?

 

R- Mineji Handa.

 

P/1- “Mineji” com jota?

 

R- É.

 

P/1- E ele, lá no Japão, fazia o quê?

 

R- Ele era professor.

 

P/1- De quê?

 

R- Era professor de Ensino Secundário.

 

P/1- Por que será que eles vieram? Ele veio...

 

R- Veio como todo o imigrante da época veio ao Brasil. Havia aquele sonho de uma terra nova, uma espécie de Eldorado. Então partiu do Japão em busca de uma nova terra. O governo subsidiava uma parte da viagem e eles chegariam aqui talvez com certa certeza de que fossem encontrar um país cheio de abundância, cheio de dinheiro. Trabalhar bastante, ganhar bastante dinheiro e depois retornar ao país de origem, coisa que nunca mais aconteceu.

 

P/1- Mas a minha pergunta se refere ao seguinte... Porque ele não era lavrador lá, né?

 

R- Não, não era.

 

P/1- Isso não era meio inusitado? Porque outros lavradores vieram para cá, deve ser a mesma função, não é isso?

 

R- Certo.

 

P/1- Mesmo sendo professor ele achou que aqui ia ser promissor, é isso?

 

R- Exato, foi o que ele achou na época.

 

P/1- E o senhor sabe por que não veio sua avó junto?

 

R- Não, veio também.

 

P/1- Ela veio?

 

R- Veio junto.

 

P/1- Veio avô, avó e o seu pai?

 

R- E pai.

 

P/1- E outros tios seus?

 

R- Não.

 

P/1- Só um filho?

 

R- Só. É porque na época o meu avô era separado da minha avó. Essa esposa dele que veio era a madrasta do meu pai.

 

P/1- Ah, era a outra?

 

R- É. O primogênito, que era meu pai, esse era obrigado a acompanhar o pai, o resto não. Então os outros irmãos dele ficaram no Japão com a mãe. Mas a mãe não veio mesmo. Ele acompanhou o pai e a madrasta para o Brasil.

 

P/2- Nossa! Então ele se separou dos irmãos?

 

R- É, separou dos irmãos.

 

P/1- É um costume japonês de que o mais velho acompanha o pai?

 

R- É, o pai.

 

P/1- Vocês tinham terras no Japão?

 

R- Não, que eu saiba, não.

 

P/1- Não tinha terras?

 

R- Não.

 

P/2- Seu Pedro, o pai do senhor contava histórias do Japão, o fim da infância dele, lembranças dele?

 

R- Não, não contava. A minha mãe contava, mas o meu pai não. Quer dizer, a minha mãe contava, mas não era uma história muito alegre, são épocas da guerra.

 

P/2- O que é que ela contava?

 

R- Ela contava que... Porque eles vieram, evidentemente, acho que logo após a guerra, então havia aquela época da guerra, tal, e realmente...

 

P/1- Espera um pouquinho. Seu pai veio com o mais velho em 1917?

 

R- 1917.

 

P/1- O mais velho é seu pai. E a sua mãe veio bem depois, é isso?

 

R- Minha mãe acho que deve ter vindo bem depois.

 

P/1- Por que, se ela veio depois da guerra?

 

R- Não veio depois da guerra. Acho que foi... Eu não me lembro a época que ela veio, mas ela conta que... Não sei, a guerra que havia no Japão. Não devia ser essa...

 

P/1- A Segunda Guerra?

 

R- É. Ela conta que o Japão passou muitas dificuldades em guerras que houve sucessivamente, na época dos imperadores, e que havia muita miséria no Japão. Ela perdeu o pai lá no Japão, então resolveu tentar a sorte sozinha aqui, no Brasil.

 

P/1- Ela veio sozinha?

 

R- Veio. Deixou a mãe e a irmã lá e veio sozinha para cá.

 

P/1- E ela veio em que ano?

 

R- Olha, eu não me lembro a data, realmente.

 

P/1- Mas ela veio como? Ela pagou passagem?

 

R- Veio como imigrante também.

 

P/1- Também?

 

R- Junto com outra família, porque não podia vir sozinha. Ela veio com outra família de imigrantes.

 

P/2- E onde ela conheceu o pai do senhor, o senhor sabe?

 

R- Aqui em São Paulo, mas eu não me lembro bem.

 

P/2- É na cidade já?

 

R- É.

 

P/1- Não é no interior?

 

R- Ela ajudava uma família aqui e conheceu o meu pai aqui, em São Paulo. Meu pai já estudava a Belas Artes aqui.

 

P/2- Ele fez Escola de Belas Artes?

 

R- Fez Escola de Belas Artes.

 

P/2- Me conta essa história.

 

P/1- Aonde é que ele fez?

 

R- Aqui em São Paulo.

 

P/1- Em que escola?

 

R- Escola Paulista de Belas Artes.

 

P/1- Certo.

 

R- Aqui, inclusive... Não sei onde que eu estava lendo agora, há pouco tempo, está contando uma história dele, aí.

 

P/1- Conta a história da Belas Artes, que ela pediu.

 

R- O que eu sei é que... O meu pai não chegou a contar detalhes sobre essa escola. A única coisa que eu sei é relatos dos amigos dele, porque... Eu estava lendo há pouco tempo aqui e está dizendo...

 

P/2- “A seguir... Inaugurado a Escola de Belas Artes de São Paulo, em 1933, fazendo parte da primeira turma de formandos, fato que pouca gente deve conhecer. Em 36, arregimentando pintores, amadores intelectuais, Handa fundou o Grupo Seibi, hoje tão conceituado no meio artístico brasileiro.” O senhor sabe por que ele se tornou um artista?

 

R- Bom, acho que é vocação dele. Ele sempre gostou de pintar e achou que seria... Praticamente a vocação dele. Então ele partiu para a pintura. Foi uma vida muito sacrificada, porque, na época, não é como eles dizem agora, que a pessoa pinta, já pode fazer uma exposição e não pode ganhar nada. Antigamente era muito difícil a vida de pintor. Para se vender um quadro, naquela época, era uma coisa difícil mesmo. Mas ele conseguiu superar tudo isso aos poucos, conseguiu sobreviver da pintura e, posteriormente, conseguiu ter certo nome no meio artístico.

 

P/2- Aonde ele fez exposições, as mais importantes?

 

R- Ele era mais restrito ao grupo da colônia japonesa. As exposições dele, a maioria delas, eram todas feitas na Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa, no salão nobre, periodicamente. Também ele não gostava de fazer seguidamente, então de cinco em cinco anos é que ele fazia uma exposição individual.

 

P/1- Mas ele vendia as obras? Vocês viviam da arte dele?

 

R- Só da arte.

 

P/1- E ele também mexia com as letras, né? Porque ele fez uma história...

 

R- Ah, sim.

 

P/1- Ele fazia Haicai, também?

 

R- Não, só...

 

P/1- História?

 

R- Solicitaram para ele, fizeram um pedido para que ele escrevesse alguma coisa sobre a colônia, porque ele era uma pessoa que viajava muito. Como pintor ele viajava não só o Brasil, mas o mundo, praticamente a América Latina inteirinha. Sempre vivia viajando para tudo quanto é lado para pintar. O Centro de Estudos Japoneses, aqui, solicitou para ele para ver se ele podia escrever algo sobre a imigração japonesa. Então, a pedido do Centro de Estudos, ele começou a escrever esse livro da história do...

 

P/1- Que é esse aqui?

 

R- É.

 

P/2- O senhor se lembra da época que ele escreveu esse livro?

 

R- Eu me lembro, mas faz muito tempo. Esse livro, inclusive, saiu em 1960, se não me falha a memória, em 1960 e pouco.

 

P/1- “O imigrante japonês. História de sua vida no Brasil.”

 

R- A primeira edição em japonês saiu em 1960 e pouco.

 

P/2- E como é que era a pesquisa dele, onde ele fazia? Como é que era em casa?

 

R- Ele pesquisava vários livros, a maioria escrito em português. Ele mesmo fazia... Como que se diz? Essas ilustrações. Como ele era pintor, ele fazia ilustrações e ia escrevendo, escrevendo, escrevendo. Ele demorou cerca de uns dois anos para escrever esse livro.

 

P/2- Ele viajou, também, para fazer pesquisa?

 

R- Viajar, viajou algumas vezes. Mas ia mais para bibliotecas e outros lugares que ele precisava consultar. Todo dia ele escreveu algum trecho desse livro, durante dois anos.

 

P/1- E você se lembra de ver ele escrevendo?

 

R- Lembro.

 

P/1- E pintando, também?

 

R- Pintando também.

 

P/2- Seu Pedro, como era na casa do senhor quando o senhor era pequeno? O ambiente familiar e também o convívio com outros artistas que, eventualmente, iam lá. Tinha isso?

 

R- O convívio da nossa família era um convívio... Como que se pode dizer? Não sei se normal, mas não havia muita coisa de extraordinário. O que eu posso dizer é que a vida de um artista é uma vida completamente diferente de outra pessoa. O que acontece? O artista tem que viver única e exclusivamente para a arte. Então, enquanto a minha mãe cuidava dos negócios dele, o meu pai só pintava. Ele não conseguia... Se perguntasse para ele quanto custava um quilo de arroz, quanto custava um pãozinho, quanto custava um quilo de feijão, ele não saberia dizer nunca. Ele sempre falava que o artista tem que se concentrar única e exclusivamente na arte. Ele não poderia direcionar para outras coisas, porque, se ele for pensar em negócio... Até o preço dos quadros que ele fosse vender, quem, na época dava, era a minha mãe. Quem recebia o dinheiro era a minha mãe, quem fazia tudo era a minha mãe. Se meu pai precisava de alguma moldura, alguma tela, alguma tinta, era só falar para a minha mãe: “Compra para mim.” Minha mãe ia lá e comprava, então era uma vida que um fazia uma parte, outro fazia a outra. E assim ia indo. Se ele fosse fazer duas coisas ao mesmo tempo, ele não conseguiria fazer, porque ele disse que a coisa tinha que se concentrar, única e exclusivamente, na arte. Por outro lado... Um fato curioso que eu gosto de contar sempre, que eu escutava o meu pai falar sempre. Durante certo período, que ele já tinha certa idade, ele tinha certos discípulos, uns alunos que vinham pedir para ele ensinar. Mas ele só ensinava aqueles que ele realmente gostava, que ele tinha certa simpatia. Não cobrava nada. Porque dinheiro é bom, se ele não gostasse da pessoa, ele não pegava ninguém mesmo. Então ele ensinava determinadas pessoas e, quando ele não simpatizava com ninguém, não ensinava a pintar. Um dia eu perguntei para ele assim, olhando para a pintura de um discípulo e falei: “Poxa, essa pessoa realmente tem um dom. Eu acho que tem futuro.” Meu pai falou: “Não, para mim não vai ter futuro.” Eu falei: “Mas está sempre contigo, por que não vai ter futuro nenhum?” Ele falou: “A pessoa, para ser um artista completo, ela tem que viver da pintura.” Porque ele já era uma pessoa estabelecida, já era uma pessoa que tinha determinado ramo de atividade, nas horas vagas ele aprendia a pintar com meu pai, levava ele para pintar em determinados locais e os dois se entendiam bem. Mas ele falou que a pessoa que quisesse se sobrepor na pintura tinha que sobreviver única e exclusivamente da pintura. Ele tinha que pintar o quadro, tentar vender aquele quadro e ir se superando aos pouco. A pessoa que tivesse outro ramo de atividade paralela, diz que não servia para aquele tipo de atividade. É uma coisa muito interessante. Até eu tenho isso gravado na cabeça (risos).

 

P/2- E esse grupo de pintura que chamava Seibi ainda existe?

 

R- Não, esse foi fundado na época. São pintores antigos, vários já faleceram. É esse pessoal que é Grupo Seibin.

 

P/1- O Manabu Mabe fazia parte, né?

 

R- Fazia. Mabe.

 

P/1- Ele era amigo do seu pai?

 

R- Era muito amigo.

 

P/1- O senhor se lembra dele?

 

R- Lembro. O Mabe frequentava bastante minha casa. Por exemplo, o Mabe faleceu, o Aki faleceu, do Grupo Seibi. O Suzuki faleceu, Tamaki faleceu, Sakae faleceu. Quer dizer, são poucos...

 

P/2- O que é que significa, seu Handa, Seibi?

 

R- Eu não sei bem o significado, mas eu sei que, na época, como a vida era muito dura para os pintores, eles tentaram se agrupar entre eles para poder sobreviver da arte, daí surgiu o Grupo Seibi. O meu pai deve ter idealizado esse grupo para que... Individualmente talvez ele não conseguisse sobreviver. Vivendo em grupo talvez tivesse um pouquinho mais força.

 

P/2- E tinha uma sede?

 

R- Eu não me lembro, também, se existia sede. Acho que tinha uma sede na época, sim. Posteriormente esse grupo... Na verdade existiu por muito tempo lá na Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa, que até eles chamam de Bunka [Bunkyo – Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social].

P/2- Bunka?

 

R- É. Na Rua São Joaquim.

 

P/1- O que é Bunka?

 

R- Era a sede do Grupo Seibi, antigamente. Bunka é uma palavra japonesa que significa uma espécie de sociedade, mesmo. Bunka Kyokai, eles falam. É uma espécie de sociedade que agrupa os japoneses e seus descendentes.

 

P/2- E o Seibi funcionava lá?

 

R- O Seibi funcionava lá.

 

P/2- O seu pai pintava aonde? Ele tinha um ateliê em casa?

 

R- Tinha o ateliê em casa.

 

P/2- E como era esse ateliê?

 

R- No começo tudo foi bem modesto. Ele pintava, praticamente... Eu me lembro que quando eu era pequeno, bem pequeno mesmo, não se sabia distinguir entre a sala e o ateliê, onde era a sala, onde era o ateliê. Se misturava, praticamente. Posteriormente, não, foi feito um ateliê só para ele. Então ele se trancava lá no ateliê e era o dia inteiro pintando, escrevendo, lendo. Ele tinha uma vida praticamente independente, dele no ateliê. Quer dizer, era o segmento da casa, só que...

 

P/2- E as crianças estavam fora?

 

R- Fora. Ele não gostava que ninguém mexesse em alguma coisa. Ele conhecia tudo lá, sabia até a posição dos quadros. Se você mexesse em alguma coisa ele já sabia que aquilo lá tinha sido mexido.

 

P/1- E vocês três não tinham vontade de mexer nas tintas, nos pincéis?

 

R- Não, porque a minha mãe sempre nos desmotivou a, qualquer um de nós, seguir a carreira de pintor. Ela falou que pintor “um só já chega, em casa”, porque ela passou muitas dificuldades. A coisa realmente foi terrível na época quando ela casou, nos primeiros tempos. Então até aquilo chegar a engrenar foi um período muito difícil. Ela falou: “Não, vamos restringir a uma só pessoa que está muito bom. Vocês estudam, façam outras coisas, mas pintor, chega.” (risos) Ela nunca quis que nenhum de nós seguisse, realmente, a pintura.

 

P/2- E a sua mãe e o seu pai esperavam que vocês seguissem algum tipo de carreira?

 

R- Eles, na verdade, queriam que a gente estudasse, mas não queriam que a gente seguisse...

 

P/1- Qualquer coisa?

 

R- Qualquer atividade para eles, desde que a gente estudasse, estava bom.

 

P/1- Você fez Direito. E os seus irmãos?

 

R- São duas irmãs, que eu tenho.

 

P/1- Duas irmãs, pois é.

 

R- Elas chegaram a fazer o Segundo Grau. Uma até chegou a fazer faculdade, mas no fim casaram.

 

P/1- Não exerceram?

 

R- É.

 

P/1- Mas mesmo a sua mãe não incentivando, essa coisa de brincadeira de criança... Vocês nunca iam lá mexer para brincar, não para seguir uma...

 

R- Meu pai tinha um grande ciúme das coisas dele. Impressionante, a gente não podia mexer em nada. Nem meus sobrinhos, posteriormente, quando eram pequenos. Não podia entrar no ateliê dele, mexer nas coisas do ateliê.

 

P/2- E aí tinha que respeitar?

 

R- É. Tinha uma área grande assim. A gente podia ir mexendo, mexendo, mexendo, até um determinado ponto. Chegava naquele ponto era o ateliê, o fim da linha. (risos) Dali para a frente não se poderia mexer em mais nada.

 

P/1- Devia ser uma tentação para todo mundo.

 

R- É, todo mundo queria ver o que é que tinha no ateliê, queria mexer, mas já havia certa restrição por parte de todo mundo. Minhas irmãs também já sabia que não poderiam deixar meus sobrinhos mexer a partir daquele...

 

P/1- Mas mesmo assim, vendo as obras dele e tudo, montaram alguma formação estética em vocês, que se desenvolveram em outras áreas?

 

R- Formação estética em que sentido?

 

P/1- Por causa da estética do pintor, dos quadros. Vocês viam uma harmonia de cores, de formas?

 

R- Não. Eu, por exemplo, que convivi a vida inteira com pintura, eu noto os períodos dele na pintura, com relação à arte dele. Apesar de eu não ter sido pintor, convivi a vida inteira com a pintura ou com a arte, em si. Então até hoje qualquer tipo de pintura eu sei se a obra é bonita ou é feia, ou qualquer coisa. Do meu pai, a mesma coisa. Eu sei aqueles períodos dele, uma fase. Geralmente ele variava uma fase de dez em dez anos, as cores, praticamente. De dez em dez anos, as cores... Às vezes iam ficando mais vivas, às vezes mais foscas. Mas isso, no fim do período... Quer dizer, um pouquinho antes dele ficar... Não de falecimento, mas ele teve um problema de idade que ele não poderia mais ficar viajando muito, não podia ficar muito tempo em pé ou exposto ao sol, então ele ficava mais dentro do ateliê dele, pintando. Ele nunca parou de pintar, mas acontece que ficou mais restrito a pintar flores. Não assim, flores... Flores naturais. Ele gostava de pôr um monte de flores num vaso, pintar aquilo lá. Ele teve muito de...

 

P/1- Natureza morta?

 

R- É. Praticamente teve um período que ele só pintou flores em vaso. Teve outro período que ele pintou só natureza morta. Agora, a coloração, as cores que ele utilizava, muitas vezes a tonalidade mudava por causa da visão, também. Quando a visão enfraquecia um pouquinho, as cores também parece que...

 

P/2- Que abaixavam?

 

R- É, abaixavam.

 

P/1- Ele viveu até quantos anos?

 

R- Noventa.

 

P/1- E pintou até o final?

 

R- Pintou até o final. Quer dizer, só... Até o final, praticamente, pode-se dizer.

 

P/2- Seu Pedro, eu queria que o senhor contasse essa história das pinturas dele dos colonos, que o senhor disse que ele não gostava de vender essas obras.

 

R- São pinturas que, vamos supor... Ele costumava pintar... Ele nunca pintou por fotografia. Todos os quadros dele que ele pintou, todos que se encontram por aí... Pode ser em qualquer lugar do mundo que ele viajou. Sempre ele vai ao local e pinta. Se é na Itália, ou se é não sei onde, qualquer lugar que está a assinatura dele é porque ele esteve no local e pintou, nunca pintou nada por fotografia. Mas nesse entremeio de uma viagem e outra, ele permanecia em casa para não ficar parado, todo dia ele gostava de pintar. Então, para não ficar parado, ele começava a pintar. Essa fase é uma fase que...

 

P/2- Qual fase?

 

R- Essa fase dos imigrantes. Esse período foi de 1945 a 55, mais ou menos numa fase de uns dez anos, que ele pintou muito. Porque posteriormente, com a evolução ou, vamos supor, com a modernização e tudo, já não tinha tanto colonos, a lavoura já começou a ficar um tanto quanto modificada. Então ele ia nos campos de lavoura e via como é que era realizado aquele tipo de desmatamento, o plantio, essas coisas toda. Voltava em casa, imaginava aquilo lá e ia pintando quadro por quadro.

 

P/1- Ele ia olhar e depois pintava, não no local?

 

R- Não no local. Mas esses quadros são diferentes, como eu disse. Nas paisagens dele não existe nenhum personagem, todos os quadros que ele pinta de natureza morta, não existe personagem. Então os quadros de personagem dele são todos idealizados e imaginados.

 

P/1- De memória, digamos assim, né?

 

R- É, de memória.

 

P/1- Ele vai lá, vê, volta e faz?

 

R- É; vê, volta e faz.

 

P/1- Que incrível! Porque são muitos personagens, as posições, tudo.

 

R- Aqui, por exemplo. Nessa parte aqui, isso é tudo imaginado. Agora, aqui já não. Como não existe personagem, são todos...

 

P/2- Essas fotos das cidades ele desenhava no lugar, vinha e retocava em casa. E as outras, não?

 

R- Certo.

 

P/1- E a paisagem, ele também ia para o lugar só quando tinha personagem?

 

R- É.

 

P/1- Isso é que é incrível, porque os personagens têm todo o movimento do corpo.

 

P/2- E era a maioria japoneses nas lavouras, que ele retratava?

 

R- É, a maioria japoneses. A maioria, talvez... A totalidade. Mas às vezes não. Às vezes, por exemplo, caboclo. Esse tipo assim, eles estão lavando roupa na beira do rio.

 

P/1- Quer dizer, isso aqui, provavelmente, ele estava lá?

 

R- Aqui estava. Aqui também. Todos, são todos coloridos aqui. Aqui foi feito preto e branco. Por exemplo, aqui, ele estava no local. Aqui também. Aqui já não.

 

P/2- Sempre quando tem gente ele não está no local?

 

R- Sempre.

 

P/2- E por que o senhor falou que ele não gostava de vender esses quadros que tinha gente?

 

R- Talvez porque seria fruto da imaginação dele e não seja uma obra, assim. Seria mais para ele retratar uma história de uma imigração. E quando chegou uma determinada época, ele falou assim: "Não, esses quadros aqui..." Vamos supor, se ele falecesse, então isso aí seria disperso pelos herdeiros. Talvez não fosse, mas vamos supor que ele imaginava isso. Então ele resolveu doar para o Centro de Estudos Japoneses, para o Museu de Imigração Japonesa, para que focalizasse a história do jeito que ele realmente viu. E isso permanece até hoje, os quadros do jeito que ele...

 

P/1- Ele doou, então o Museu de Imigração...

 

P/2- Lá na Liberdade, São Joaquim.

 

R- É, 380. Na São Joaquim com a Galvão Bueno, na esquina.

 

P/2- E o senhor sabe se ele chegou a trabalhar na lavoura, ele mesmo?

 

R- Ele chegou, sim. Ele conta que chegou a trabalhar, mas não aguentou e fugiu. (risos)

 

P/1- Fugiu, é?

 

R- Fugiu.

 

P/2- Por quê? O que ele contava?

 

R- Ele não chegou a contar muita coisa, falou que chegou a trabalhar mas não aguentou e fugiu.

 

P/1- E o pai dele ficou?

 

R- Ficou.

 

P/2- Ele fugiu sozinho?

 

R- É, fugiu e veio para São Paulo.

 

P/2- Com quantos anos, mais ou menos?

 

R- Eu não me lembro com quantos anos, mas ele falou que 20.

 

P/2- Puxa vida!

 

R- Não aguentou, aí que ele começou a estudar, a fazer Belas Artes e outras coisas mais.

 

P/2- O senhor tinha contado antes, quando a gente não estava gravando, daquela história do quadro dele que está no Palácio Imperial. Eu gostaria que o senhor...

 

P/1- É, exatamente.

 

R- É o seguinte. É uma história que... Foi na época que o presidente Fernando Collor de Melo tomou posse. O imperador do Japão... Na verdade eu não me lembro mais que... Não é que faleceu, ele deu lugar ao filho, deu lugar ao filho, chamado Akihito. Então surgiu uma nova era no Japão, que começou a partir do imperador Akihito, atual imperador do Japão. E o Collor foi convidado para a cerimônia de posse desse imperador. Quer dizer, não só o Collor, como vários presidentes, dos Estados Unidos... O pessoal da colônia japonesa aqui, no Brasil, pediu para que o Fernando Collor de Mello levasse um presente ao imperador. O que seria esse presente? Seria o quadro que retratasse os imigrantes japoneses do Brasil, aqui. Esse quadro era um quadro que estava no Museu de Imigração Japonesa, um quadro muito grande, por sinal. E ele foi comprado. Houve uma doação pelos lojistas da Liberdade e umas outras empresas. Fizeram uma arrecadação e compraram. Eu não me lembro o valor, também.

 

P/1- Compraram do Museu?

 

R- Compraram do Museu, esse quadro. Solicitaram, tal. O Museu não iria vender, na verdade, que seria um patrimônio histórico. Hoje sobrou só um painel lá. (risos) Existe um painel colorido, mas o original está no Japão. Pediram para que o Fernando Collor levasse lá. O Collor, então, levou esse quadro para a cerimônia de posse do imperador, e esse quadro está, ainda hoje, no Palácio Imperial. É um quadro que simboliza a colheita do café.

 

P/1- E em que ano foi?

 

R- 1990, 1991.

 

P/1- Que o Collor foi para lá?

 

R- É.

 

P/2- E o pai do senhor já tinha falecido, nessa época?

 

R- Não, meu pai faleceu em 1996.

 

P/1- O seu pai, sabendo disso, como é que ele se sentia?

 

R- Ele se sentiu muito orgulhoso, por sinal.

 

P/1- Ele não foi junto para o Japão para assistir a posse?

 

R- Não, só foi o nosso presidente.

 

P/2- Seu Pedro, o senhor lembra alguma vez que o pai do senhor tenha feito alguma exposição na Liberdade, no bairro?

 

R- Essa exposição aí.

 

P/2- Mas essa é depois da morte dele, né?

 

R- Não, essa é antes.

 

P/1- Foi outra vez na São Joaquim?

 

R- Quer ver, 76.

 

P/2- Onde foi essa?

 

R- Lá na Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa, mesmo.

 

P/2- E o senhor foi na inauguração dessa exposição?

 

R- Fui. Eu sempre tenho que estar presente.

 

P/2- Como é que foi?

 

R- Muito concorrida, porque meu pai era muito conhecido entre a colônia japonesa. Realmente, dentre aqueles antigos da colônia japonesa, não há quem não o conheça. Então toda vez que há uma exposição todos comparecem para cumprimentar, para um encontro de vários anos. Todos prestigiam.

 

P/1- Quando ele era vivo todo mundo ia?

 

R- Todo mundo ia, todo mundo prestigiava a inauguração. A inauguração, praticamente, seria o auge. Todo mundo fazia um coquetel, cortava a fita de inauguração e aquele monte de gente.

 

P/2- E geralmente era na Liberdade que acontecia?

 

R- Geralmente na Liberdade.

 

P/2- Em que lugares?

 

R- Sempre, praticamente...

 

P/2- Nesse lugar?

 

R- É. Nós fizemos... Quer dizer, ele fez um no Nikkey Palace Hotel.

 

P/1- Onde é?

 

R- Ali na Galvão Bueno, também.

 

P/1- Sei. Fez lá também?

 

R- Fez lá também.

 

P/2- O senhor lembra o ano dessa exposição?

 

R- Deve estar aqui... "Nikkei Palace..."

 

P/2- Tudo bem, depois a gente olha.

 

R- 1985.

 

P/2- No Nikkei Palace, né?

 

R- É que 76 foi esse aqui.

 

P/1- E qual foi a última que ele fez?

 

R- Olha, em 90 também.

 

P/2- "90 foi no salão nobre da Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa."

 

P/1- E quem comprava esses quadros, dinheiro do qual vocês viviam? Quem comprava, quem eram os clientes?

 

R- Todos os apreciadores de arte, na verdade.

 

P/1- Não necessariamente japoneses?

 

R- A grande maioria. Ficava na faixa dos 80% os compradores da obra do meu pai entre japoneses e descendentes de japoneses. Muitos levavam para o Japão, também. Muitos funcionários de empresas multinacionais que vinham para o Brasil compravam obras do meu pai.

 

P/1- É verdade.

 

R- Posteriormente, quando eles retornavam para o Japão, eles levavam os quadros.

 

P/2- Seu Pedro, saindo um pouquinho da vida do seu pai e entrando na do senhor...

 

R- Pode falar.

 

P/2- O senhor nasceu no Cambuci e viveu lá até quantos anos?

 

R- No Cambuci?

 

P/2- É.

 

R- Que eu me lembre, com três anos eu já estava morando na Vila Sônia.

 

P/2- E o senhor se lembra dessa casa no Cambuci?

 

R- Não me lembro direito, não. Eu me lembro que era perto de um campo de futebol, uma casa modesta, também. De resto, a única coisa que eu me lembro é... Não me lembro, deixa eu ver se... Era esse aqui, porque foi lá no Cambuci que o meu pai pintou esse quadro.

 

P/1- Qual é esse quadro? É você menino no colo de sua mãe?

 

R- É.

 

P/2- O senhor se lembra disso? Vocês posaram para ele?

 

R- Não, eu não me lembro. (risos) Não havia condições, né? (risos)

 

P/2- Não, é que eu não tinha dito que você lembrava.

 

R- Não, não me lembro. Eu me lembro que a minha mãe falava que isso aqui era um...

 

P/2- Ah, que foi feito lá?

 

R- É, no Cambuci.

 

P/1- E esse quadro ficou onde? Na sua casa mesmo, exposto?

 

R- Esse quadro ficou comigo.

 

P/1- Até hoje?

 

R- É, está comigo. Só não está aqui porque... Eu tenho alguns quadros dele, tenho uns 50 quadros dele.

 

P/2- Nossa!

R- Da minha propriedade. Ele não está aqui porque eu não tenho espaço no apartamento. Ele encontra-se na casa da minha irmã, lá em Atibaia.

 

P/1- Mas ela tem pendurado na parede?

 

R- Não. Nos últimos tempos dele ele tinha um ateliê em Atibaia, morava lá com a minha irmã, antes de falecer. E está lá no ateliê, ainda.

 

P/1- Morava numa chácara ou numa casa?

 

R- Numa casa.

 

P/1- E ainda existe o ateliê dele lá, igual vocês contam?

 

R- Existe os quadros, mas o ateliê foi desativado já.

 

P/1- E os quadros estão expostos onde?

 

R- Não estão expostos, estão guardados. Não tem jeito.

 

P/1- Não tem, né?

 

P/2- Não tem lugar, né?

 

R- É. Quer dizer, isso seria a minha parte, que eu estou falando 50. Mas a outra... Minha irmã também tem mais uns 50. (risos)

 

P/1- Mas espera aí. Por que vocês têm tantos? Não vendeu ou ele não quis vender?

 

R- Ele era uma pessoa que não ficava atrás de venda de quadro. Porque depois que a minha mãe faleceu... A minha faleceu já faz uns... 15 anos antes de falecer, meu pai havia falecido.

 

P/1- A sua mãe?

 

R- A minha mãe, é. Ele praticamente também não sabia...

 

P/1- Não sabia negociar?

 

R- Nem o valor do dinheiro ele conhecia. Ele ia pintando e ia deixando. De vez em quando ia uma ou outra pessoa lá se interessando em comprar, e comprava um quadro ou outro dele. De vez em quando − a cada cinco anos −, a gente fazia uma individual, vendia aquele quadro e depois ia deixando lá. Para viver não tinha dificuldade alguma, porque tinha certo dinheiro já guardado para qualquer problema. Ele não fazia muita questão de vender, então foi ficando.

 

P/1- No total deve ter uns 100 quadros, entre os filhos?

 

R- Mais. (risos)

 

P/2- E vocês são solicitados para empréstimo para exposições?

 

R- De vez em quando somos solicitados para participar de coletivas de pintores japoneses. Às vezes a gente empresta dois, três quadros para participar de um conjunto de pintura.

 

P/1- E quanto vale um quadro dele?

 

R- É difícil dizer, porque ele varia muito do tamanho. Tem quadro pequeno, quadro grande, então não dá para...

 

P/1- Vocês não pretendem vender, vocês pretendem ir guardando?

 

R- Não, a gente tem vendido. Uma vez que a gente é solicitado, a gente vende os quadros. Não adianta ficar...

 

P/1- Você tem algum desse, da imigração? Daí é difícil para ir fotografar, né?

 

R- Em Atibaia, está tudo lá.

 

P/2- E o senhor disse que os da imigração estão no Museu, também, né?

 

R- É.

 

P/2- Seu Pedro, voltando um pouquinho, o senhor estava contando que com três anos vocês saíram do Cambuci e foram para onde?

 

R- Vila Sônia.

 

P/2- E essa casa em Vila Sônia? O senhor tem lembranças de lá?

 

R- Tenho. Uma casa, no começo, muito modesta. Quando nós mudamos para lá, praticamente na rua não havia muito vizinho. Com o tempo foram aparecendo várias casas. Comércio, também, não havia muito. Aquela Francisco Morato era uma ruazinha assim. A única rua asfaltada, praticamente, que havia... A estrada que havia na época era a Francisco Morato. O resto não havia asfalto, não havia nada. Hoje já é tudo asfaltado, tudo modernizado. Mas é como se fosse o modelo de hoje. Hoje também fazem esse tipo de coisa, minha mãe era desse tipo. Como não havia muito dinheiro para construir uma casa grande, primeiro constrói uma casa com um cômodo. Dali a pouco aumenta um cômodo, dali a pouco mais um. No fim, a última parte que foi feita foi o ateliê do meu pai. (risos) Como anteriormente eu havia dito, a sala, no começo, se confundia com o ateliê. Não se sabia até onde ia a sala, até onde... Era tudo junto. Mas depois, com o tempo, foi feito o ateliê. Então era aquele tipo de casa em que o sujeito a cada ano vai aumentando um cômodo. (risos)

 

P/2- E vocês tinham o costume de ir à Liberdade, nessa época?

 

R- Sim. A Liberdade sempre foi frequentado pela gente por causa do meu pai. Meu pai sempre participou da Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa, que era o Bunka, então a gente sempre...

 

P/2- E como é que vocês iam até lá da Vila Sônia?

 

R- De ônibus.

 

P/2- Era de ônibus?

 

R- Era de ônibus.

 

P/2- Toda a família?

 

R- É, porque o meu pai nunca dirigiu, nunca teve carro, nunca teve nada.

 

P/1- Mas vocês iam lá e faziam compras no comércio? Como é que era?

 

R- É, fazia as compras.

 

P/1- O que vocês compravam?

 

R- Comida japonesa. Tinha que comprar as coisas que no bairro seria muito difícil da gente encontrar, na época. Então seriam coisas... Comidas para fazer...

 

P/1- Típicas?

 

R- Comidas típicas japonesas para comer no dia a dia, ou por ocasião de alguma festa, fim de ano, qualquer coisa.

 

P/1- E tinha festas na Liberdade, nessa época?

 

R- Não havia tanto que nem agora. Havia uma coisa ou outra, alguma realização. Hoje toda semana existe uma festa, Festival do “Tanabi” [Tanabata Matsuri], Festival não sei do quê. Mas antigamente, não. Era duas, três vezes por ano que havia uma festa de confraternização da colônia.

 

P/1- Mas era lá na Associação?

 

R- É, na Associação.

 

P/1- Não era na rua?

 

R- Não.

 

P/2- Por que o senhor acha que surgiram essas festas na rua?

 

R- Eu acho que isso seria uma tradição do Japão. É cópia típica dos japoneses, porque se os japoneses fazem na rua, então aqui também teria que ser feito na rua. Seria, vamos supor, transportado aquilo que é feito no Japão para cá. Todos esses festivais existem no interior do Japão. Todo esse tipo de festival, Bon Odori, que eles falam, esse tipo de dança típica.

 

P/2- O que é o Bon Odori? Conta para quem não conhece, seu Pedro.

 

R- É uma espécie de dança. Eu também posso estar falando alguma coisa errada. Mas o que eu entendo é que é uma espécie de dança que deve trazer sorte para o pessoal. Então eles sempre fazem esse tipo de dança aqui.

 

P/1- No interior do Japão? Não em Tóquio, em grandes cidades?

 

R- Nas grandes cidades do interior. Mas normalmente no centro de Tóquio não existe tantas coisas assim, só coisas típicas do interior de cada região.

 

P/2- Que festas mais, além do Bon Odori, o senhor citaria, da Liberdade?

 

R- Esse Festival do “Tanabi”, que eles falam.

 

P/2- Como é que é?

 

R- Eles falam que... Como é que se diz? Eles escrevem um bilhete para pedir, acho que é uma espécie de pedido. Eles compram uma espécie de... Eu não sei dizer. É um cartão que eles escrevem, com um barbantinho. A gente escreve um pedido e coloca naquele bambu pendurado, grande, que ele fica muito enfeitado. Então milhares de pessoas frequenta aquele lá, compram aquele cartão, fazem um pedido e vão deixando lá para que aquilo se realize naquele ano. É um tipo de pedido.

 

P/2- É um pedido secreto?

 

R- É, o pedido é secreto.

 

P/2- Mas ninguém vai lá olhar? (risos)

 

R- Mas é que são milhares de pedidos, não ia dar para... De vez em quando um ou outro lê, mas às vezes não conhece a pessoa. (risos)

 

P/2- Não é assinado?

 

R- É assinado.

 

P/1- Chama como? “Tanabi”?

 

R- É.

 

P/1- Tanabi com "i" no fim?

 

R- É.

 

P/1- E o Tanabata não é a mesma coisa?

 

R- Acho que é Tanabata, né?

 

P/2- É a mesma coisa.

 

R- É Tanabata. Eu não me lembro direito o nome. Acho que é Tanabata, sim.

 

P/1- Eu perguntei porque eu pensei que era outra.

 

R- Não, Tanabata.

 

P/2- O senhor estava contando que vocês estavam na Vila Sônia e vinham para a Liberdade. E estudava onde? Lá na Vila Sônia, mesmo?

 

R- Não. Lá na Vila Sônia, na época, não havia escola, então eu comecei estudando num local chamado... É outro bairro. Quer dizer, na época era bairro, mas depois tornou-se outro município chamado Taboão da Serra. Da Vila Sônia eu tinha que ir até o Taboão, depois eu passei a estudar no bairro de Pinheiros, um grupo escolar chamado Alfredo Bresser. Eu comecei a estudar, fiz o primário lá, depois fui fazer o Ginásio − acho que até hoje existe − na Fernão Dias. É Pedroso de Moraes, ali em Pinheiros, na Pedroso de Moraes, Colégio Fernão Dias. Depois eu fiz o Científico na Vila Madalena. Aí fui fazer a Faculdade aqui na PUC [Pontifícia Universidade Católica].

 

P/1- Mas você fez o Científico ou o Clássico?

 

R- Clássico. Acho que, na época, era Clássico.

 

P/1- Clássico, claro. Para Direito?

 

R- É. Clássico na Vila Madalena, e depois fui...

 

P/1- Direito na PUC?

 

R- Direito na PUC. Aí eu me formei, depois fui trabalhar. É uma parte interessante também, porque eu fui trabalhar... Praticamente quase dez anos numa empresa japonesa chamada Yakult.

 

P/2- Yakult?

 

R- É.

 

P/2- Onde ficava?

 

R- Na Alameda Santos.

 

P/1- Você foi no departamento jurídico?

 

R- Não, eu era assessor do presidente lá. Eu trabalhava na parte administrativa, no começo, depois resolvi sair: "Vou trabalhar como advogado." Resolvi advogar. Aí eu vim parar no Jornal Paulista, na Liberdade. Isso foi em 1980, mais ou menos. De 80 até 1995 eu fiquei no Bairro da Liberdade, no Jornal Paulista.

 

P/1- O que você fazia no Jornal?

 

R- Eu era advogado do Jornal Paulista.

 

P/2- Conta um pouco desse jornal, seu Pedro.

 

R- Esse jornal é muito interessante. (risos).

 

P/2- É?

 

R- É o jornal, praticamente, mais antigo da colônia japonesa. Havia três jornais na Liberdade. Um chamava Jornal Paulista, outro chamava São Paulo Shimbun e outro chamava Diário Nippak. Esses três disputavam espaço entre a colônia japonesa. Sempre foi assim, três jornais.

 

P/1- Mas o primeiro mesmo qual foi?

 

R- O Jornal Paulista, depois o São Paulo Shimbun.

 

P/1- Antes do São Paulo?

 

R- É.

 

P/2- O senhor sabe o ano da fundação do Jornal Paulista?

 

R- Foi em 47. Eu ia te mostrar umas que eu tinha separado aqui, que em 97 foi feito um aniversário de 50 anos. Não sei onde foi parar.

 

P/2- Tudo bem, depois a gente vê.

 

R- Em 97 foi feito um aniversário de 50 anos do Jornal. Em 98 ele se fundiu com outro concorrente.

 

P/1- Com qual?

 

R- O Diário Nippak.

 

P/1- Nippak é com "k" no fim?

 

R- É.

 

P/1- E um "p"? Bom, não importa.

 

P/2- São dois pês.

 

R- Em princípio... O interessante disso tudo, até gostaria de comentar isso com vocês, não só do Jornal Paulista em si, porque eu, como advogado durante 15 anos do Jornal... E não só advogado do Jornal, como morei três anos no Japão, eu sei mais ou menos o que acontece aqui e o que está acontecendo no Japão agora. É uma coisa muito interessante. O que acontece? Antigamente, quando os imigrantes japoneses vieram para o Brasil, muitos nem aprenderam a ler nem escrever português. Só sabiam ler e escrever japonês. Teria que haver um informativo para a colônia japonesa, então foi fundado o Jornal Paulista. Mas acontece que um só jornal, talvez fosse pouco, então fundaram outro, São Paulo Shimbun. Depois veio o Diário Nippak. Esses três praticamente...

 

P/1- Em português?

 

R- Não, em japonês. Eles sempre foram escritos em japonês. Havia só uma página escrita em português, mas às vezes essa página nem saía, saía só a parte em japonês.

 

P/1- Mas qual era o critério do português para aquela página?

 

R- Não havia critério. De acordo com as notícias interessantes do momento, saía ou não saía aquela página. Ou de acordo com os anúncios. Se houvesse necessidade, saía aquela página portuguesa, ou não saía. Mas o que acontece? Os japoneses sentiam necessidade de certa informação do que acontecia no Brasil e no Japão, então foi fundado aquele jornal japonês. Aquele jornal japonês era muito lindo.

 

P/1- Você se refere a qual?

 

R- Estou falando dos três.

 

P/1- Outros jornais...

 

R- Outros jornais japoneses, muitos...

 

P/1- As notícias que davam nos três jornais eram notícias do Brasil, algumas, e outras do Japão, é isso?

 

R- Exatamente.

 

P/1- Poucas do Brasil?

 

R- Não. Era praticamente equivalente, notícias do Brasil. Porque aqueles que escreviam as notícias do Brasil, os editores, eles traduziam nos jornais, traduziam para o português. Traduziam, não, faziam a versão dos jornais em português, no Brasil, para o japonês, e publicavam a matéria. Se bem que chegavam com um dia de atraso, as notícias. Eles pegavam todos esses jornais, Estadão, Folha de São Paulo, todos os outros jornais lidos, e as melhores notícias eles faziam a versão em japonês. Isso aí, então eram lidos para a colônia japonesa aqui, no Brasil.

 

P/1- Vocês não tinham um sistema de informação de pegar notícias do Japão?

 

R- As do Japão vinham.

 

P/1- Direto?

 

R- Vinham direto. No começo, porque no fim − agora ou atualmente −, a notícia já é direta. Não existe mais tradução, é tudo simultânea. Mas antigamente não. Antigamente, quando começou, a introdução, era feito... Não havia esse mecanismo. Era muito difícil, na época, haver um mecanismo de interligação entre um jornal brasileiro e um jornal japonês. E outra coisa, também sairia muito caro se você fosse contratar um repórter para fazer uma notícia do Brasil para ser publicada em japonês. O que eu quero explicar é o seguinte, que esse jornal era muito lido. No começo todos os jornais japoneses eram muito lidos. Mas acontece que, com o tempo, os filhos de japoneses começaram a esquecer o japonês. Esquecer, não. Não aprender, praticamente.

 

P/1- A língua, o idioma?

 

R- É, não aprender a língua. E aqueles que sabiam foram morrendo com aquela idade. O que aconteceu? Houve uma queda sensível de leitores. Antigamente um jornal que tinha uma tiragem de 40 mil, praticamente caiu para 15 mil.

 

P/2- Seu Pedro, foi isso que determinou o fechamento do Jornal Paulista?

 

R- Foi. Não só o fechamento, é que não havia mais espaço para dois jornais.

 

P/1- Aí fundiu com qual?

 

R- Com o Diário Nippak. Por questão de sobrevivência, porque não adiantava mais ficar disputando espaço entre poucos leitores, uma vez que praticamente eram os mesmos leitores que liam os dois jornais.

 

P/2- E como é que era o dia a dia na redação do Jornal Paulista, lá na Liberdade?

 

R- Era muito interessante, porque havia os redatores, que atualmente... É como eu disse, antigamente havia esse tipo de versão das notícias, mas posteriormente a gente contratou repórteres do Japão mesmo, para vir trabalhar. A gente fazia com que eles aprendessem o português e depois saíssem para...

 

P/1- Fazer as matérias?

 

R- É, fazer as matérias.

 

P/1- Vocês contrataram japoneses mesmo, que vinham de lá?

 

R- Japoneses mesmo, que vieram de lá. Eles eram os repórteres para sair para fazer as matérias aqui, já direto em japonês. Então a redação já não via mais esse problema de... As notícias eram simultâneas. Acontecia um negócio: "Vai lá." Fulano ia lá, era tudo simultâneo.

 

P/2- Nessa época que o senhor (começa?) a ter um contato mais diário com o bairro da Liberdade?

 

R- Eu sempre frequentei o bairro da Liberdade, porque é um bairro muito interessante. Praticamente a colônia japonesa sempre se concentrou lá, e eu sempre gostei muito do... Quer dizer, sempre me entrosei bem com a colônia japonesa. Como eu falava... Ler eu não lia muito, mas como eu falava fluentemente o japonês, havia muitos clientes meus que eram japoneses e descendentes de japoneses, então houve esse entrosamento. Eles preferiam procurar advogados que sabiam falar a língua japonesa, porque eles sabiam se expressar mais. Às vezes, no Direito, é muito difícil. Às vezes, se você não expressar exatamente o que você quer ou exatamente o que você pensa, você acaba perdendo um processo. Então eles iam me procurar exatamente por causa disso, porque eles sabiam se expressar. Eles conseguiam se expressar e eu conseguia explicar para eles determinadas coisas. Muitos talvez fossem bons advogados, mas não conseguiam...

 

P/1- Passar para eles?

 

R- É, explicar para eles certas coisas peculiares de um processo que seria, vamos supor, o ponto-chave para ganhar um processo. Foi por aí que eu...

 

P/1- Só para eu entender, nesse ponto você já está com a sua banca de Direito, de advogados?

 

R- Certo.

 

P/1- Mas antes você estava no Jornal?

 

R- Certo.

 

P/1- Antes de passar para outra fase, o que é que você fazia no Jornal, como advogado?

 

R- Eu sempre fui advogado do Jornal, mas acontece que... Eu tinha um escritório dentro do Jornal.

 

P/1- Era paralelo?

 

R- Era paralelo, eu não era exclusivo do Jornal. Eu trabalhava para o Jornal e tinha meus clientes, também.

 

P/1- Particulares?

 

R- É, particulares.

 

P/1- O escritório era dentro do Jornal?

 

R- Era dentro do Jornal.

 

P/1- E para o Jornal, o que é que você fazia como advogado?

 

R- Olha... (risos)

 

P/2- Fazia tudo?

 

R- Fazia tudo. É que o Jornal passou por uns períodos muito difíceis, porque... Sempre havia altos e baixos, então os períodos sempre intercalavam. Período de vacas magras e vacas gordas. Quando havia os períodos de vacas gordas eles esqueciam de mim, e só lembravam de mim... (risos)

 

P/2- No período das vacas magras?

 

R- Vacas magras. O que acontece? Quando chegava essa época, sobrava tudo para o advogado. Questões trabalhistas, questões de execução, questões de falências, essas coisas mais... A parte mais difícil do Jornal foi a parte trabalhista, porque quando o Jornal começa a entrar em declínio, é necessário fazer corte de funcionário, e evidentemente desses cortes de funcionários, por mais que a gente faça um acerto mais ou menos, sempre sobra alguma coisa para...

 

P/1- Que os jornalistas acionam o Jornal?

 

R- É, acionam o jornal. Todos eles sempre acionaram no Jornal, então havia essa briga constante.

 

P/1- E você defendia o Jornal?

 

R- Defendia o Jornal. Havia, também, vários processos... Não vou dizer assim, execução, falência. Execução fiscal também havia, porque tinha um período em que a gente realmente não conseguia pagar os impostos em dia. Como eu disse, sempre havia aqueles...

 

P/1- Nunca houve problema de censura, né?

 

R- Não.

 

P/1- Liberdade de expressão, nada disso?

 

R- Não, isso aí, não.

 

P/1- Você começou a advogar dentro do Jornal com os seus clientes particulares?

 

R- Sim.

 

P/1- Chegou um dia que você se destaca, sai de um Jornal... Não, ele se junta com outro.

 

R- Ah, sim.

 

P/1- Aí o senhor vai para o seu escritório particular?

 

R- Sim.

 

P/1- É aí que você tem o seu escritório particular?

 

R- É o seguinte: nesse ínterim eu tive que ir para o Japão.

 

P/1- Conta do Japão.

 

R- Eu queria que vocês entendessem só uma parte da história do Japão. É a seguinte: é o contrário. Hoje, o que está acontecendo, por exemplo... Antigamente os japoneses vieram para o Brasil com a intenção deles ficarem ricos e voltarem para o Japão com o dinheiro. Não conseguiram, evidentemente, porque foi uma ilusão que foi transmitida para que o governo japonês conseguisse, pelo menos, despachar um monte de contingente que estava sobrando (risos). Mas o oposto está ocorrendo hoje: os japoneses e os filhos de japoneses estão indo para o Japão para ganhar dinheiro e retornar ao Brasil. Então, como eu fui para lá, eu não fui para trabalhar, na verdade, fui para ver as coisas. O que é que eu vi? Eu vi muito pessoal que foi daqui para trabalhar no Japão, nas fábricas, tal. Eles não sabem nem ler nem escrever japonês, mas foram lá trabalhar. Então o que acontece? Eles precisariam de um informativo escrito em português. O que está fazendo sucesso agora? É um jornal escrito em português que está começando a fazer sucesso lá, no Japão. Existem dois ou três jornais. Inclusive eu tenho um aqui. Esse é um dos jornais deles, chama Jornal Tudo Bem. Depois tem um jornal chamado Internacional Pré. Tem uns quatro jornais lá que disputam o espaço da mesma forma que, antigamente, os japoneses disputava o espaço aqui. Os brasileiros estão com jornais disputando espaço entre os brasileiros lá.

 

P/1- Mas sempre descendentes de japoneses?

 

R- É, dentro de descendentes.

 

P/2- Chamam decasséguis?

 

R- É, decasséguis. Agora, o que eu quero dizer é o seguinte, esse jornal eles vão esperar por mais uns cinco anos, sei lá, mais uns dez anos, que seja. Todo esse mercado que há... Mas aos poucos os filhos desses decasséguis que moram lá vão esquecer o português, porque eles vão começar a frequentar a escola japonesa, vão não sei o quê. Eles não vão mais ler português, então o que vai acontecer? Vai começar a entrar em declínio de novo. Vai acontecer exatamente o inverso do que aconteceu aqui. Quer dizer, a mesma coisa que aconteceu aqui com os japoneses. Os japoneses que estão aqui, que estavam lendo os jornais japoneses aqui, estão todos morrendo. O número de leitores começou a, cada vez mais, diminuir sensivelmente aqui. Cada ano que passa, vai diminuindo sensivelmente aqui. E lá no Japão agora praticamente está mais ou menos no auge. Mas eu estou sentindo que, aos poucos, vai começar a ir diminuindo, diminuindo.

 

P/1- Ou seja, a tendência dos jornais japoneses da Liberdade é acabarem?

 

R- É, aos poucos. Por isso que foi feita essa revista, Nosso Corredor, escrito tudo em português. Não adianta mais fazer nada escrito em japonês, tem que fazer as coisas escritas em português para o público japonês, porque eles, lá, não sabem mais ler japonês.

 

P/2- E aí tem jornais em japonês para aqueles que ainda...

 

R- Ainda falam japonês. Mas já está diminuindo.

 

P/1- Atualmente, sobrou o São Paulo Shimbun...

 

R- E o Jornal do Nikkei, que chama.

 

P/1- Só?

 

R- Só.

 

P/1- Só esses dois?

 

R- Deve ter mais algum outro aí, mas sem muita expressão. Os dois maiores que dominam o mercado só o São Paulo Shimbun e o Jornal do Nikkei, que é a fusão do Diário Nippak com o Jornal Paulista.

 

P/2- E onde era a sede do Paulista?

 

R- Na Rua Oscar Cintra Gordinho.

 

P/2- Oscar Cintra Gordinho?

 

R- É, 46. Era lá.

 

P/2- E hoje a junção foi para onde?

 

R- Foi para a sede do Diário Nippak, que é na Rua da Glória, 320.

 

P/1- Você, então, está com o seu escritório de advocacia. Os seus clientes imagino que a maioria sejam japoneses.

 

R- A grande maioria.

 

P/1- Onde é o seu escritório de advocacia?

 

R- O meu escritório de advocacia está aqui na José Bento, e também estou em Ibiúna, de novo.

 

P/1- José Bento é aonde? Vila Mariana?

 

R- Não, no Cambuci.

 

P/1- E você tem outro escritório...

 

R- Em Ibiúna.

 

P/1- E nesses dois você tem clientes japoneses?

 

R- Praticamente.

 

P/1- Ibiúna tem muito japonês, também?

 

R- Nossa senhora! É só o que tem.

 

P/1- É mesmo?

 

R- Eu fui dez anos advogado do sindicato lá, e às vezes as reuniões de diretoria de sindicato eram faladas só em japonês, praticamente.

 

P/1- Sindicato do quê?

 

R- Sindicato Rural dos Agricultores Patronal.

 

P/1- Patronal?

 

R- É.

 

P/1- E os japoneses estão no Patronal? Já estão, né?

 

R- Já.

 

P/1- Já são donos de terra?

 

R- É.

 

P/1- E quem eles empregam?

 

R- Eles empregam o pessoal, tudo.

 

P/1- Daqui? Ou é mais japonês?

 

R- Não, o pessoal, a grande maioria deles não sabe muito português. Eles preferem falar japonês.

 

P/1- Ainda? Então já têm certa idade?

 

R- Já têm. Os agricultores têm certa idade.

 

P/1- Só para fechar aquela coisa do seu estudo, eu queria perguntar: na PUC tinha outros japoneses estudando Direito?

 

R- Tinha.

 

P/1- Muitos, poucos, como é que é?

 

R- Tinha mais umas quatro pessoas. Não tinha muito, mas tinha mais uns quatro, na minha classe.

 

P/1- Porque na área de Engenharia tem mais japonês, né?

 

R- Sim. Como os japoneses são mais retraídos e talvez sejam mais tímidos, eles preferem áreas de Ciências Exatas, porque não precisam lidar com o público.

 

P/1- Não quer saber de gente.

 

R- A parte de lidar com o público é mais difícil para pessoas que não são muito extrovertidas. Esse lado já é mais complicado, então eles preferem, vamos supor, Economia...

 

P/1- Engenharias?

 

R- Engenharia, Odontologia, sei lá. Medicina, né?

 

P/1- É verdade.

 

P/2- Seu Pedro, eu queria recuperar um pouquinho aquela história que o senhor falou, das excursões que eram promovidas pela Sociedade da Liberdade − senhor mostrou uma foto para a gente − para Campos do Jordão. O senhor foi em várias dessas excursões?

 

R- Fui a várias. É o seguinte: era um programa que havia na Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa. Normalmente era uma vez por ano que eles promoviam esse tipo de excursão, na Semana Santa. Então todo mundo esperava a Semana Santa para fazer essa excursão. Todo ano eles escolhiam um local para ir. Vamos supor: “um ano vamos visitar Campos do Jordão, outro ano vamos visitar a Caverna do Diabo, outro vamos para o Rio de Janeiro.” E assim por diante. Cada Semana Santa eles escolhiam determinado local, e era uma excursão instrutiva. Instrutiva porque existiam pessoas ligadas a determinado tipo de atividade que instruíam as pessoas, ligada à flora, à fauna e outras coisas mais, que faziam determinados tipos de explicações. Vamos supor que gente fosse no meio do mato: a pessoa colhia um tipo de planta e explicava: “Essa planta é isso, tal.”

 

P/2- Tipo um estudo do meio?

 

P/1- Ambiental?

 

R- É. Ou se fosse lá e visse um animal: “Esse tipo de animal é assim...”, explicavam e a gente passava a Semana Santa acampado. Acampava mesmo. Era um acampamento que a gente fazia e todo mundo ajudava a fazer a comida, todo mundo ajudava a arrumar o acampamento. Era uma excursão.

 

P/1- E as barracas eram da Associação?

 

R- Eram.

 

P/2- Como é que reunia as pessoas?

 

R- Existia um grupo pré-determinado que um convidava o outro. Chegava naquele determinado período, fazia-se a inscrição. Se sobrasse vagas, poderia... Se cada um tivesse outra indicação, indicava outra pessoa.

 

P/1- Eram grupos de quantas pessoas?

 

R- Normalmente ia um ônibus. Era um ônibus que tinha umas 40 pessoas, mais ou menos.

 

P/2- Ia casado, solteiro, tudo misturado? Idosos...

 

R- É. Casado, solteiro, tudo misturado. Existia uma taxa que a gente tinha que pagar, mas essa taxa não era para finalidade lucrativa, mas sim para comprar mantimentos, algum medicamento, alguma outra coisa. Então fazia-se certa previsão do que se ia gastar, levava tudo dentro daquele ônibus lá e partia para a excursão.

 

P/1- E sendo Campos do Jordão, onde é que ônibus podia estacionar para o pessoal acampar? Quer dizer, onde era o acampamento?

 

R- Eles escolhiam um local pré-determinado no meio do mato...

 

P/1- Iam longe da cidade?

 

R- É, longe da cidade é que deveria haver água para a gente...

 

P/1- Mas não tinha lugar para camping, na época?

 

R- É, não existia esses locais de camping, era mato, mesmo. A gente tinha que chegar no mato, montar aquele tipo de barraca...

 

P/1- Na raça?

 

R- É, e o local é muito típico.

P/1- Isso era por volta de que ano, mesmo? Que década?

 

R- Que eu me lembre, há uns 35 anos, já. Era bom, porque era uma coisa de japonês, mesmo. Porque eles só se falavam em japonês, e as explicações, muitas eram feitas em japonês. Um ou outro a gente se comunicava... Entre os jovens a gente falava o português, mas entre os adultos, ou com os adultos, a gente tinha que falar em japonês, porque eles não entendiam muito bem o português. Adultos, que eu digo, já pessoas de uma determinada idade.

 

P/2- Certo. Seu Pedro, desde que o senhor começou a frequentar o bairro da Liberdade com o seu pai, que o senhor contou que ia de pequeno lá, até a época da sua atuação no Jornal Paulista e até hoje, o que o senhor acha que mudou? O senhor acha que teve mudanças, no bairro?

 

R- Teve muita mudança.

 

P/1- O que é que mudou?

 

R- Eu não sei se eu devo falar isso aí, mas em princípio, nós estamos sendo muito pressionado pela colônia chinesa.

 

P/1- Pressionados como?

 

R- Quer dizer, nós estamos sendo... (risos)

 

P/1- Vocês estão sendo afastados do bairro?

 

R- É, o bairro está sendo tomado, praticamente, pela colônia.

 

P/1- Mas o que eles fazem para conseguir?

 

R- O japonês está sendo... Antigamente aquele bairro era exclusivamente de japonês. O japonês dominava o comércio. Atualmente o comércio está começando a ser dominado pelos chineses e pelos coreanos, porque esse pessoal é o pessoal do dinheiro.

 

P/1- Como assim? Como “do dinheiro”?

 

R- Eles têm mais poder aquisitivo. Aquisitivo, não. Talvez mais capital do que o japonês, em si.

 

P/1- E como será que eles têm esse capital?

 

R- Bom, isso aí eu já não posso... (risos) Eu não posso informar muito.

 

P/1- Mas essa pergunta tem um sentido, porque eu senti, nas ruas lá, uma espécie de temor desse capital deles.

 

R- Mas o que eu posso dizer é o seguinte, que nós estamos praticamente sendo...

 

P/2- Despejados?

 

R- Despejados. E a colônia japonesa está sendo cada vez mais afastada do bairro da Liberdade. Aquilo está sendo praticamente tomado. Não deixa de ser um bairro oriental, mas o bairro oriental em si passou a ser oriental, mas não bem no sentido típico. Antigamente a gente falava bairro japonês, agora passou a se chamar um bairro oriental.

 

P/1- E os chineses também vêm com um poder econômico maior? Como é que é isso?

 

R- Vêm.

 

P/1- Também?

 

R- Também vêm com maior... Não está dando para os japoneses e os descendentes de japoneses competir com esse pessoal, não sei por que, mas...

 

P/1- Não dá.

 

R- Então o que eu estou sentindo é isso, dos anos que eu tenho vivido, para cá, eu tenho plena certeza de que realmente eles estão...

 

P/1- Então não existe uma confraternização oriental lá dentro, né? Existe uma competitividade.

 

R- Não existe. Antigamente, quando eu comecei a frequentar o bairro da Liberdade, a inimizade entre japonês e coreano praticamente era mortal. Hoje em dia não, hoje em dia já existe um entrelaçamento. Não que eles andem de braço dado, nada, mas existe certa...

 

P/1- Respeito?

 

R- Não respeito, mas certa tolerância entre um e outro. Antigamente a coisa era feia mesmo.

 

P/1- E a que vocês, japoneses, atribuem isso?

 

R- Eu não sei a que possa atribuir isso, mas eu acho que eu estou sentindo isso. É que os atuais coreanos e chineses jovens procuram se entrosar mais com a colônia japonesa. Antigamente não, antigamente não havia essa procura entre aqueles que chegavam da Coréia e nem aqueles que chegavam da China. O oposto também não existia. Então existia uma rivalidade em que aquilo era realmente mortal mesmo. Com razão, era uma briga que... Era um do lado, um do outro.

 

P/1- Mortal entre os japoneses e os...

 

R- Os coreanos.

 

P/1- Não era entre eles?

 

R- Não. Entre os japoneses e os coreanos, um não suportava o outro. Hoje eles se suportam, toleram. (risos)

 

P/2- Seu Pedro, e em termos de infraestrutura, no que o senhor acha que o bairro mudou?

 

R- Em termos de infraestrutura o que eu acho que mudou é o seguinte: hoje, a evolução... O que eu acho que mais evoluiu − não sei se é para pior ou para melhor − foi a criação desses mini-shopping. Esses mini-shoppings não existiam. Há uns cinco, seis anos para cá é que começaram a existir esses pequenos mini shoppings, isso não existia na Liberdade.

 

P/2- Tipo galeria?

 

R- É, tipo galeria. Isso não existia antigamente, na Liberdade. Hoje em dia todo mundo quer saber de galeria pequena.

 

P/2- E como era o comércio, antigamente?

 

R- O comércio, antigamente, era mais simples, eram lojas grandes. Inclusive hoje você vê que essas lojas grandes fizeram certa reforma para dividir em dez, 15 lojinhas.

 

P/2- O senhor se lembra de alguma loja específica que o senhor ia com o seu pai, de pequeno, comprar na Liberdade?

 

P/1- E que ainda existe.

 

R- Que ainda existe?

 

P/2- Ou que não existe.

 

R- A gente sempre ia na Loja Mizumoto, que era muito tradicional na Liberdade.

 

P/1- Iam comprar o quê lá?

 

R- Tudo quanto é tipo de coisa. Era uma lojinha tradicional, mesmo.

 

P/1- Essa ainda existe?

 

R- Essa, a Mizumoto? Isso aí existe há não sei quantos anos.

 

P/1- E outra que não existe, o senhor se lembra? Que não existe mais?

 

R- Acho que a Okamoto não existe mais.

 

P/1- Como chama?

 

R- Okamoto.

 

P/1- Okamoto? Era de quê?

 

R- Era loja de artigo de presentes.

 

P/2- E o calçamento da rua e a iluminação, essas coisas, o senhor acha que mudou muito?

 

R- Mudou, porque na época não tinha tanto enfeite japonês. A partir do momento que a Liberdade passou a ser um ponto turístico, eles passaram a mudar mais a iluminação para que fosse mais parecido com o Japão, outras coisas mais. Puseram essas iluminações típicas parecendo com o japonês, aqueles postes. Aquilo não existia, também. Aos poucos foram...

 

P/2- E o senhor acha que ficou parecido com o Japão?

 

R- Em termos. Para quem não conhece, aquilo parece, realmente, quase o Japão. (risos)

 

P/1- Lá não tem esses portais, essas iluminações?

 

R- Em cidade do interior ainda tem alguma coisa, mas só em cidades históricas que tem esse tipo de coisa, em Tóquio não. Quem não conhece o Japão acha que o Japão é como se fosse uma cidade histórica, cheia de castelos e aquelas iluminações típicas. Chega lá em Tóquio, não existe nada disso. Existe no interior, para se visitar determinadas coisas. Então, como eu disse, para quem não conhece o Japão aquilo parece que reflete uma imagem do Japão, aqueles lagos, aqueles tanques que eles põem na... Principalmente na Galvão Bueno, que tem um lugarzinho que tem um tanque com umas carpas. Aquilo reflete... Mas não é a imagem de Tóquio, como eu disse.

 

P/2- É a imagem do interior do Japão?

 

R- É do interior, nos pontos turísticos do Japão.

 

P/2- E o metrô? O senhor se lembra da época da construção?

 

R- Me lembro. A época da construção do metrô foi muito sacrificada. Não só o bairro da Liberdade como o da Vila Mariana, como tudo. Foi muito sacrificado porque ali parou tudo. O comércio na Praça da Liberdade ficou praticamente interditado. Eu não me lembro bem quanto tempo, mas um bom período de tempo ficou tudo interditado, vários comerciantes falindo por falta de clientes. Foi uma coisa meio trágica naquela parte. Na outra parte de baixo não afetou muito, mas na parte de cima, onde corre o metrô, foi a parte mais afetada. Na parte de baixo, da Rua dos Estudantes, da Galvão Bueno para baixo, não foi muito atingida.

 

P/1- A partir da hora que eles arrumaram tudo, ficou tudo já pronto, limpinho e vocês viram como ficou, qual foi a alteração?

 

R- A alteração foi ótima, porque todos passaram a utilizar o metrô para se concentrar no bairro. Então o que acontece? Ainda mais agora, com a criação do Metrô República, o pessoal que está na Praça da República... Eles saem de domingo da Praça da República para vir na Feira da Liberdade. Tornou-se mais um ponto de interligação. Aquilo lá ajudou o fluxo de gente. Muita gente vem tudo de metrô porque é muito mais fácil atualmente vir de metrô na Feira da Liberdade de domingo, ou em qualquer festejo, do que vir de carro.

 

P/1- Bom, esse é um aspecto. O outro aspecto que eu queria saber é em termos de layout da rua, das lojas. Continua como era antes ou mudou?

 

R- Antigamente eu tenho a impressão de que a coisa era mais tradicional. Eu não sei dizer a razão disso, mas antigamente a maioria dos letreiros era tudo escrito em japonês, mesmo, parecia o Japão. Com a entrada desses coreanos, esses chineses, não se escreve mais tanto em japonês, escreve grande em português e depois tem uma letrinha embaixo em japonês, ou qualquer coisa explicativa. Mas antigamente, não, a coisa era tudo em japonês, então você tinha que se virar para saber o que era.

 

P/1- Mas o marco dessa mudança foi a chegada dos coreanos e chineses ou o metrô?

 

R- Eu não sei dizer se foi a chegada dos coreanos, se foi a chegada dos chineses, se foi o metrô ou se foi a evolução dos tempos, também. Realmente, essa parte eu não posso dizer. Alguma coisa aconteceu para que aquilo mudasse.

 

P/2- Ou talvez aquilo que o senhor falou dos filhos dos japoneses já não estarem mais falando tanto japonês.

 

R- Exatamente. Porque antigamente, para andar na Liberdade, não precisava saber falar português. Era só chegar lá sabendo falar o japonês, já era o suficiente. (risos) Porque tudo escrito em japonês, qualquer um falava japonês, então não precisava.

 

P/2- Seu Pedro, o senhor foi à inauguração do metrô, no dia?

 

R- Não, não fui. Eu me lembro que fui um pouquinho depois, mas no dia eu não fui.

 

P/2- E quando o senhor foi, o que é que viu lá? O que o senhor achou, qual foi o impacto?

 

R- Achei uma coisa muito bacana, muito bonita, realmente. Depois que a gente conhece o metrô de outros países é diferente, mas quem não conhece... Eu nunca tinha conhecido o metrô ainda, era uma coisa fantástica naquela época da inauguração.

 

P/2- Foi a primeira vez?

 

R- Não, eu já tinha andado no metrô de Tóquio, mas eu não tinha visto aquele metrô do jeito que era. O metrô aqui é...

 

P/2- Comparando com Tóquio, como é que é?

 

R- (risos) Agora é que a gente está tomando alguma forma, porque o metrô de Tóquio é todo interligado, parece uma rede. É que nem aqui. Por exemplo, você pega aqui, desce na Consolação, ou desce na Paulista, da Paulista vai até a Consolação, depois vai até a Vila Madalena, e assim por diante. Ali também. Você pode ir a qualquer lugar de Tóquio que o carro...

 

P/1- Uma rede enorme, né?

 

R- É, o carro só atrapalha lá. Qualquer lugar que você vá, em Tóquio, você olha o mapa... Qualquer lugar a menos de 500 metros tem um buraco de metrô. Então o máximo que você vai andar é 500 metros, o máximo. Às vezes você sai colado, mas o máximo que você anda é 500 metros, qualquer lugar.

 

P/2- Bom, a gente está já caminhando para o fim da entrevista. Eu queria perguntar se o senhor tem algum sonho que gostaria de realizar na sua vida.

 

R- Isso é uma pergunta muito difícil de ser respondida, porque sonho todo mundo tem. Acho que o maior sonho da gente, mesmo, é ter uma velhice tranquila, sossegada e sem maiores problemas. Eu acho que isso é o mais importante de tudo. Do resto acho que não tem que ter muitos... Sei lá. Talvez com respeito ao bairro da Liberdade, do jeito que está indo, que haja uma confraternização entre os orientais, chineses, japoneses e coreanos, e que aquilo dure muitos e muitos anos. Eu acho que, no momento, já estamos partindo para esse ponto. Eu estou sentindo isso, que já há um entrosamento. Não só tolerância, mas realmente já está começando a haver certo entrosamento. Acho que é muito importante isso, sem briga, sem nada, uma união tranqüila. Porque, afinal de conta, orientais são sempre orientais. Tem gente que até hoje não sabe distinguir. Como japonês, às vezes eu consigo distinguir entre um coreano e um chinês, mas outra pessoa jamais vai conseguir distinguir. Tudo é japonês. (risos) Mas não é verdade? Então seria mais ou menos assim.

 

P/2- Está joia. E como é que é o seu dia a dia hoje, sua rotina?

 

R- Minha rotina é um tanto sossegada. Daqui de casa para o escritório, do escritório para casa. Fim de semana uma pescaria tranquila. (risos) E fora disso, sem maiores problemas.

 

P/2- Fala o nome das suas filhas para a gente deixar registrado aqui.

 

R- Minha filha é Vanessa, já há mais de cinco anos trabalhando como modelo no Japão, muito bem. Inclusive está lá agora, acabou de ligar para nós. (risos) E a outra filha, Simone, hoje com 17 anos, está estudando e trabalha, também, um pouquinho. Mas só quando saiu do Japão. Morou três anos lá, não queria voltar. Foi para o Japão sem saber falar uma palavra em japonês, entrou numa escola japonesa, aprendeu ler e escrever, não queria voltar. Quando voltou para cá, agora não quer mais voltar para lá, agora o negócio dela é só samba, pagode, surfe e não sei o que lá. (risos)

 

P/2- A mais nova?

 

R- É.

 

P/2- E ela aprendeu japonês?

 

R- Aprendeu japonês, ler, escrever, praticamente se formou lá. Lê perfeitamente e escreve perfeitamente, mas quando chegou aqui no Brasil... Não queria voltar para cá. Agora, quando chega aqui, não quer mais voltar para lá, só quer saber de samba, de pagode, de não sei o quê, de surfe, e todo fim de semana viajando para cá e para lá. É mais ou menos por aí. 

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