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História

Minha carne não me define

História de: Guilherme Rodrigues de Moraes
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 30/10/2017

Sinopse

Criado pelas avós paterna e materna, Guilherme se recorda das surras que levava do avô, quando criança, da fuga para a casa da avó e da pobreza que o impeliu a cometer delitos, quando jovem. Dos ambientes violentos dos quais fez parte, extraiu uma postura “de igual para igual”, ao mesmo tempo em que não perdia o interesse pelos estudos, pelo conhecimento, em si. Drogas, tráfico, racismo, classe social e situação de rua; mas o que fica são as vontades de aprender coisas novas e continuar vivendo a vida que tem vontade.

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História completa

P/1 – Guilherme, fala pra mim seu nome completo.

 

R – Guilherme Rodrigues de Morais.

 

P/1 – Você nasceu onde?

 

R – São Paulo, bairro da Saúde.

 

P/1 – Saúde?

 

R – É, Zona Sul de São Paulo.

 

P/1 – Que dia você nasceu?

 

R – 19 de novembro de 1993.

 

P/1 – Você nasceu em que hospital, Guilherme?                                           

 

R – Nossa, acho que foi Amparo Maternal, próximo àquele hospital Raimundo de Vasconcelos. Acho que é isso, próximo ao Ibirapuera.

 

P/1 – Sei. E seu pai, como é o nome dele?

 

R – Maciel Júnior de Morais. Mas não tenho muito contato com ele não.

 

P/1 – Você sabe onde seu pai nasceu?

 

R – Acredito que foi aqui também.

 

P/1 – São Paulo.

 

R – Acho que foi São Paulo também. É que meu pai... Eu não tenho muito contato com ele.

 

P/1 – Entendi. Então se eu perguntar data de nascimento também não vai ter.

 

R – Nossa, não. Não tenho essas informações dele (risos). É que o conheci aos dez anos, mais ou menos. Tem uma história complicada por aí.

 

P/1 – Sei. Mas a família dele você conhece de onde veio?

 

R – Sim, eu fui criado pelas minhas duas avós, materna e paterna. Aquele pula-pula, sabe? Ia pra cá, aprontava aqui, ia pra lá (risos).

 

P/1 – E a família do seu pai veio de onde?

 

R – Minha avó é baiana, cara. Ela veio de lá, teve alguns filhos lá e vieram pra cá, não sei muito bem. Minha avó não era muito de conversar sobre a história dela.

 

P/1 – De falar pra você?

 

R – Mas falava as histórias que ela passou. Que a minha avó, quando era bem pequenininha, viu um pouco da Segunda Guerra, tá ligado?

 

P/1 – Sério?

 

R – Minha avó. Falava mais sobre essas coisas, sofrimentos dela, entendeu?

 

P/1 – Ah, é?

 

R – Mas sobre a origem dela, os pais dela, ela nunca foi de falar com os netos.

 

P/1 – Nem o que eles faziam na Bahia?

 

R – Pouco, difícil. Minha avó faleceu eu tinha uns 15 anos, então, aquela fase que a gente acha que a avó é imortal, tá ligado? Você adolescente e a avó ali, tal, faleceu de repente.

 

P/1 – E você sabe por que a família do seu pai veio pra São Paulo?

 

R – Não sei, acho que em busca de oportunidades. Antigamente São Paulo era conhecida como uma cidade das oportunidades, como se fosse a Nova York brasileira. Então as pessoas vinham – geralmente os nordestinos –, vinham pra cá, tinham oportunidade de emprego, bom salário, aquela coisa de sonho mesmo, acho que vieram mais pra isso.

 

P/1 – Você falou que a relação com o seu pai é meio difícil, mas o que você sabe sobre ele?

 

R – Porque assim, o meu pai... A minha concepção já foi muito complicada. Meu pai tinha uns 26, 27 anos quando conheceu minha mãe. Minha mãe era muito nova, então não foi muito bem visto pela minha família, da parte materna. Acho que quando meu pai conheceu minha mãe, minha mãe tinha uns 11 anos. Acho que meu pai engravidou minha mãe com uns 12 anos, minha mãe me teve com uns 12 pra 13 anos, então bem estranho. Ambos não cuidaram de mim, não me educaram, entendeu?

 

P/1 – Então a sua mãe, qual o nome dela?

 

R – Lucileide.

 

P/1 – Lucileide...

 

R – Rodrigues Leal, eu acho.

 

P/1 – Ela nasceu aqui em São Paulo, também?

 

R – Também.

 

P/1 – E a família dela, de onde é, você sabe?

 

R – Alguns ficam no ABC [Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano do Sul], Diadema, Piraporinha, São Bernardo. E tem alguns que ficam no Jabaquara também. Uma parte também ali na Vila Missonária, perto de Interlagos, tem uns parentes meus lá.

 

P/1 – Então você tem mais contato com seus avós, seus avôs?

 

R – A minha avó paterna faleceu. A minha avó materna, hoje eu não tenho muito contato com ela, porque, na verdade, digamos que... Consequências das minhas atitudes inconsequentes quando era criança, adolescente, aquela fase da rebeldia que começa aos 12, termina onde a gente quer (risos). Então não tenho muito mais contato com eles.

 

P/1 – Entendi. Então você é o único filho da sua mãe e do seu pai?

 

R – Não. A minha mãe... Tenho mais uns oito irmãos. Do meu pai tem mais dois. Então tem mais uns dez irmãos por aí. Mas não tive muito contato com eles, fui criado como filho único, na verdade.

 

P/1 – Então conta pra mim: quando você nasceu, o que aconteceu?

 

R – Segundo o que me contam, tiveram esses problemas; minha mãe não sabia cuidar de mim, não tinha capacidade pra isso, ela era uma criança, psicologicamente, então me mandaram pra Minas. Morei em Januário até meus cinco, seis anos. Lá eu descobri que meu tio, que era irmão do meu avô, não era meu pai. Então, como criança, eu queria conhecer meu pai. Sei lá, eu chorei. Vim pra São Paulo... Não sei dizer muito bem. Vim pra São Paulo e morei em Diadema com meu avô materno, pai da minha mãe. O meu avô era um homem muito rígido, aqueles mineiros à moda antiga, que é crente, tipo, muito, sabe? Aquela linha bem militar, é muito ruim. Aprontava muito, apanhava muito, então fugi. Com oito anos eu fugi de casa, fui pra minha avó. Sozinho, peguei o ônibus e fui pra minha avó. Aí que eu tive contato com minhas avós materna e paterna. Então dos meus oito anos até meus 15, 16 anos eu fui cuidado por elas.

 

P/1 – E o seu pai, o que ele faz, o que ele fazia, você sabe?

 

R – Hoje em dia meu pai é morador de rua. Há dez anos ele se encontra nessa situação de vulnerabilidade social. Perdeu tudo com os vícios dele.

 

P/1 – Você já se encontrou com ele?

 

R – Já. A gente se encontra, a gente cumprimenta um ao outro, mas não temos um afeto, aquele respeito, aquela coisa de pai e filho.

 

P/1 – Isso eu vou perguntar mais tarde então, tá? Vamos guardar isso. Agora, a sua mãe era mais dona de casa ou trabalhava, também? Você não sabe...

 

R – A parte profissional da minha mãe eu desconheço a história dela, não tenho muito contato.

 

P/1 – Você se lembra de Minas, como era Januário?

 

R – Nossa, eu era pequeno, até meus cinco, seis anos eu fiquei lá. Eu tenho poucas imagens, acho que a lembrança mais forte que eu tenho de Januário é uma que eu acho que não pode falar aqui (risos).

 

P/1 – Pode falar, a gente edita (risos).

 

R – Uma eu não posso falar aqui não, é meio promíscua, entre eu e uma prima minha, mas prima bem mais velha. E uma... É de um... Cara, é a coisa mais engraçada que eu já vi na minha vida, é uma sopa.

 

P/1 – Ah, é? Por quê?

 

R – Uma sopa que o sabor foi tão bom que eu lembro até hoje, e nunca mais comi. Não sei se eles viviam na roça lá, mas eu lembro de uma sopa, uns pedacinhos, que eu comia com quatro, cinco anos. “Velho”, o sabor ficou na minha cabeça. Então passou anos e anos e eu nunca mais encontrei essa iguaria, só quando encontrar com meu tio Atanásio novamente eu posso perguntar para ele, mas eu nem sei se ele está vivo ainda, está bem velho.

 

P/1 – Pra saber o que é o negócio.

 

R – Tipo, é algo assim, nunca passaram por isso, algo que se vocês comerem... “Pô, que merda! Esqueci o nome”? Ou aquele filme que você assistiu, foi notável e você: “Ai cara, não lembro o nome do filme”? Até você ver de novo, mais ou menos isso.

 

P/1 – Você se lembra mais vindo pra Diadema, então?

 

R – Lembro também de alguns causos, sei lá, decapitação de galinha, essas coisas.

 

P/1 – Era bem roça lá?

 

R – Não sei te dizer, era criança, então o ambiente eu não tenho como te dizer nitidamente o que era, mas eu acho que eles eram mais roceiros mesmo. Eu lembro que era uma casa bem grande, tinha estrutura pra tudo. Era bem pequeno, então não dá pra lembrar muita coisa.

 

P/1 – Entendi. Agora, Diadema você se lembra mais.

 

R – Diadema eu me lembro mais, eu tive uma infância sólida lá.

 

P/1 – E como era lá na época da sua infância?

 

R – Aquela coisa, meu avô era bem rígido, então, pra ele, estudar, tal, aquelas regras mesmo. Está adultos conversando, criança tem que ficar quietinha, não tinha direito de brincar. Não tinha muito contato com as outras crianças, era mais ficar em casa, “tá ligado”? Aquela coisa bem fechada mesmo. Meu avô me fechou muito. Eu acho que isso me fez sair, mais ou menos isso. Ia pra igreja obrigatoriamente.

 

P/1 – Ah, é?

 

R – Sim.

 

P/1 – Você não gostava?

 

R – Orava o Pai Nosso e tudo. Ah, se alguém te obriga a alguma coisa, cara, pode ser até buscando a Deus, você não vai gostar. Pode ser obrigado a comer um lanche do Mc e você não vai gostar, tem que comer porque você quer comer, entendeu? Não é sua mãe te dar um tapa na cabeça e dizer: “Come esse lanche, moleque!” (risos). Perde o gosto do Big Mac, você não acha? Tem que ser ali, você aproveitar com prazer aquela atividade, é mais ou menos isso.

 

P/2 – Era igreja católica?

 

R – Não, cristã. Assembleia, eu acho.

 

P/1 – Assembleia. Pentecostal, né?

 

R – São pentecostais.

 

P/1 – Mas o que você gostava de fazer nessa época? Você gostava de brincar? Brincava do quê?

 

R – Eu não tinha muito contato com as outras crianças, como eu te disse, era muito fechado. Lembro de uma vez... Aquela criação bem apartamento, sabe? Não jogava bola. Ele comprou uma bicicleta pra mim, eu lembro dele comprando uma bicicleta feminina ainda, roxa, eu fiquei puto pra caramba. Tinha seis anos, “uma pá” de menininha rindo da minha cara, que legal. Lembro que eu ia tomar banho, o banheiro era no quintal, e tinha que tomar banho com a porta aberta, era obrigatório, porque se fechasse a porta demorava muito, então meu avô: “Se você fechar a porta eu te bato. Tem que tomar banho com a porta aberta”. E as menininhas ficavam me vendo pelado, tomando banho. Ainda que nessa época não dava pra ver muita coisa, dane-se (risos). Mas lembro de algumas coisas assim. Lembro também das agressões do meu avô, pra corrigir ele era muito... Era complicado.

 

P/1 – Ele batia muito em você?

 

R – É, porque não tinha muito diálogo. Sabe aquele tipo de pai que a criança fez algo errado e já vai no tapa? Não tem muito diálogo com a criança? Precisa primeiro instruir pra depois tomar uma medida mais repressiva. Não tinha muito isso, não tinha muito diálogo. Aqueles velhos antigos bem chucros mesmo, bem ignorantes mesmo, então era o meu avô.

 

P/1 – Qual era o nome dele?

 

R – Raimundo. Tanto que ele faleceu sozinho, também.

 

P/1 – A sua avó não estava lá nessa época, também?

 

R – Minha avó é separada dele há muito tempo. Não sei te dizer quando, não tenho muitas informações sobre o casamento dos dois.

 

P/1 – Entendi. Então era você e ele na casa.

 

R – É, morava eu e ele. Até meus oito, mais ou menos.

 

P/1 – E como era o bairro nessa época?

 

R – Jardim Inamar, conhece? Já foi pra Diadema? União, ali.

 

P/1 – Nunca fui. Mas lá onde você morava como era?

 

R – Era um morro, cara, tipo uma favela no morro mesmo, grande.

 

P/1 – Você morava num apartamento?

 

R – Não. A casa dele era boa, era uma casa boa no meio de uma favela (risos). Eu falei, vida tipo apartamento, sabe, aquela criança que é bem fechada, bem confinada, aquela coisa de pai: “Eu não quero que você se envolva com amizades erradas”, aquelas coisas.

 

P/1 – E você começou a ir pra escola com ele?

 

R – Certinho.

 

P/1 – Ele te botou lá?

 

R – Sim, colocou numa escola legal, eu estudava, tudo.

 

P/1 – Você se lembra como era?

 

R – Lembro. Eu era um menininho prodígio, cara. Lembro quando eu tinha seis, sete anos, eu sabia a maioria dos países, das capitais e das moedas, fui decorando tudo, eu gostava. Lembro que eles tinham uma expectativa muito grande em cima de mim, “tá ligado”? Mas o ambiente não ajudou, depois, mais tarde, o ambiente não ajudou muito (risos).

 

P/1 – Teve algum evento específico que fez você querer sair de casa?

 

R – Na casa do meu avô?

 

P/1 – É.

 

R – Foi uma agressão que ele exagerou. Ele me deixou pelado, me colocou no banho e pegou aquelas borrachas de tanquinho antigo... Vocês lembram aqueles tanquinhos antigos, pequenos? Não dessas máquinas modernas, agora. Tinha aquelas correias, aquela borracha que era traçada, dura pra caramba, aquilo dói demais, “velho”. Ele me deu uma surra, não me recordo especificamente o porquê, o que eu fiz não lembro, mas eu apanhei pra caramba, e tipo, fico bravo. Ele pediu para eu comprar chá, então fugi com o dinheiro do chá mesmo, nunca mais voltei com o chá. Era uma brincadeira que antigamente eu fazia com o dinheiro: “Oi vô, ainda não trouxe o chá” (risos).

 

P/1 – Você fala isso pra ele? Falava.

 

R – Não, não, ele faleceu. Falava.

 

P/2 – Você lembra do dia, como é que foi?

 

R – Cara, eu lembro de eu pegando o ônibus, não lembro que ônibus era, eu com sete anos, oito anos. Lembro do caminho, eu fui até a minha avó. Cheguei lá, não cheguei nem pedindo, não, cheguei entrando, dormi. Minha avó olhou pra mim... Fiquei. Minha avó materna.

 

P/1 – Eles moravam muito longe um do outro?

 

R – Minha avó morava em Jabaquara, próximo à estação de metrô. Já meu avô em Inamar, Diadema, um pouquinho longe, razoavelmente longe.

 

P/1 – Bastante longe (risos).

 

R – Um pouquinho.

 

P/1 – E como é que foi isso aí? Você entrou meio sem explicação?

 

R – Ela me acolheu, não me lembro muito bem como foi o processo, mas ela me acolheu. Eu fiquei lá. Ela viu escola pra mim, eu voltei a ir pra escola. Só que aí eu virei um garoto problema, fui ficando rebelde pra caramba.

 

P/1 – Ah, é?

 

R – É.

 

P/1 – Você entrou em que escola, na época?

 

R – Em Diadema era José Martins, não lembro o nome completo da escola. Já quando fui pra Jabaquara, entrei numa escola bem conhecida chamada Pedro Calil Padis, próximo à Avenida Cupecê, já ouviram falar? Avenida Rodrigues Montemor. E depois de lá só. Não, estudei também na Liberdade, no Centro, porque eu morei com meu pai um tempo. Escola não sei o quê Roosevelt, próxima ao metrô São Joaquim.

 

P/1 – Mas como era essa escola da Cupecê? Me descreve ela.

 

R – Não lembro. Era favela lá, tinha os moleques, aquela coisa mais bagunçada, na realidade. Educação não era de boa qualidade, tal. Mas era bom... Não, tive um incidente notável, só um, é o caso do meu dente, é verdade (risos).

 

P/1 – O que aconteceu?

 

R – Ah, eu tive um dilema, né? Eu segurava minhas calças ou então caía de cara no chão, e eu escolhi a cara no chão. Sabe quando a criança faz... De ponta-cabeça, quer brincar? Só que enroscou minha calça, aí a calça foi levantando, e falei: “Cara, que merda”. Fui arrumar, aí eu tinha que desdobrar as pernas e caí. Só algumas brigas também, normal, coisa de criança, coisas pequenas.

 

P/1 – E você gostava de ir pra escola? Como é que era isso?

 

R – Dane-se a escola, eu gostava de estudar, “tá ligado”? Eu tinha uma paixão em estudar, saber, aprender. Eu sempre questionei, eu questiono tudo, tenho essa mania. Naquela época eu tinha uma fome de aprender, de estudar. Depois que eu me desviei completamente dos estudos. Gostava do mundo acadêmico, achava legal.

 

P/1 – “Nessa época” você diz mais ou menos que ano? Quantos anos você tinha?

 

R – Hoje estou com 22, nós estamos em 2016? 2004, 2005.

 

P/1 – Entendi.

 

R – Meus nove, dez anos.

 

P/1 – E ficou melhor na casa da sua avó, o clima? Você era mais bem tratado?

 

R – Na casa do meu avô tinha muito mais estrutura e recursos, tá ligado? Se meu avô não fosse um homem tão duro e ríspido, eu ficaria lá, e hoje em dia, segundo a forma dele, que meu avô falava assim pra mim... Eu era criança, mas lembro o ditado dele. Ele acreditava muito em meritocracia. Ele era ex-caminhoneiro e falava: “Ah meu, tudo o que você quer você vai atrás que você vai ter seu mérito e será recompensado pelo esforço”, então meu avô gostava. Segundo o ensinamento dele, a meritocracia, que ele falava, hoje eu estaria bem melhor. Mas lá tinha recursos, tinha estrutura, mas não tinha carinho, não tinha amor, não tinha afeto. Então, para uma criança de sete, oito anos, isso... A gente não para pra raciocinar sobre isso. E já na minha avó materna não tanto, na minha avó paterna eu tive carinho, afeto, atenção.

 

P/1 – Qual é o nome das suas duas avós?

 

R – A minha avó materna é Joselia Rodrigues, acho que ela não tem mais o Leal porque ela separou do meu avô, Joselia Rodrigues. E a minha outra avó era... Nossa, o nome da minha avó, cara! Cabuloso. Carmem? Eu sempre chamei ela de vó.

 

P/1 – Não tem problema.

 

R – Não lembro o nome dela completo.

 

P/1 – Se você se lembrar depois você fala.

 

R – Marlene Carmem de Moraes, eu acho.

 

P/1 – Marlene Carmem de Moraes.

 

R – Acho que sim, minha avó paterna, creio que sim. Está na minha certidão, é que estou sem ela.

 

P/1 – E quando você mudou para o Jabaquara, você começou a sair mais, a dar mais rolê?

 

R – Sim, comecei a sair mais. Coisas certas, coisas erradas, dane-se, comecei a ficar mais revoltado (risos).

 

P/1 – Por que você acha que ficou assim?

 

R – Não sei, cara, não tinha liberdade de fazer nada, entendeu? Então era criança. Na minha avó materna foi ruim. Essa foi uma diferença muito grande, o meu avô tinha recursos, tinha uma boa estrutura, tinha roupas boas, boa alimentação, etc. Na minha avó materna não tinha porra nenhuma, minha avó morava numa favelinha e minha avó não tinha nada. Minha avó era muito explorada, ela trabalhava de diarista, só que, pô, os outros exploravam ela muito. Eu lembro que meu primeiro tênis fui eu que comprei, com 12 anos, os outros eram tudo ganhados. Eu não vou justificar esses atos, não é justificável, “tá ligado”, mas uma coisa que me motivou a fazer pequenos furtos, pequenos assaltos, brigas, rixas, ganguismo, tal, foi essa revolta. Tipo, pô, eu queria ter alguma coisa e minha avó não podia me dar, eu não tinha como trabalhar e tinha uma molecada que a gente zoava. Então a gente brincava, ia pra Santo Amaro, pra Santa Cruz. Eu lembro que a gente ia pra Santa Cruz, via um boyzinho, roubava ele todo mesmo, e vinha pra casa com tênis novo, de bicicleta nova. Vendia uma bicicleta por semana, eu acho. Boné da hora, videogame. Fizemos “uma pá” de coisa lá, compramos um Play[station] 1. Pô, pra nós Play 1 era top naquela época, tipo, aos dez anos, 11 anos.

 

P/1 – Quando você tinha 11 anos?

 

R – É, jogava Jackie Chan, jogava Gran Turismo, Dino Crisis, Resident Evil 2 Biohazard, eu lembro. Então a gente ficava, mas era uma brincadeira. O bom de criança, eu acho que a infância, quando o menor é infrator, eu acho que é a pior fase possível, porque ele não tem o discernimento, ele não tem uma consciência da gravidade que ele faz. Assim, não que ele não saiba que o que ele está fazendo é errado, mas ele não tem uma consciência das consequências. Tipo, no nosso país, assim, não é legal punir, mas também há uma impunidade muito grande. Você vê um moleque de 14 anos esfaquear, cara, foda-se, ele não vai ser punido, não. Não vai. Você pode morrer, pode se ferrar, mas ele não. Eu também não concordo com isso, mas também não concordo você pegar um moleque de 14 anos e ir para uma prisão perpétua, uma pena de morte, também é errado. Mas essa impunidade é um agravante para as menores infrações. Eu digo por experiência própria. Então era mais por diversão, a adrenalina era estranha. Imagina você com dez anos burlando todas as regras e leis possíveis, “tá ligado”? A criança bate no peito: “Ah, sou o cara”. As menininhas gostavam. Quanto pior eu era, mais menininha eu tinha, então era engraçado. As menininhas gostam do cara mau. Toda mulher tem uma fase na vida que gosta de um bad boy, é fato (risos). É fato. Toda mulher, numa fase da vida, gosta de um bad boy, então eu era isso aí (risos).

 

P/1 – Na escola era assim também?

 

R – Também. Briguento também, etc. Aquela coisa de ser o mais forte e o mais inteligente da sala ao mesmo tempo, era um dos mais inteligentes e um dos mais bravos também, tudo junto (risos).

 

P/1 – E você começou a fazer essas coisas com quem? Com o pessoal do Jabaquara também?

 

R – Os primos.

 

P/1 – Seus primos.

 

R – Lá eu conheci uma parte da família, os primos por parte da minha avó. Então meus primos também, tudo bagunçado.

 

P/1 – Não estava mais solitário, também.

 

R – É, comecei a me envolver com os molequinhos lá, tal. Primeiro começou uma coisa de bolinha de gude, brincadeira, pipa. Pipa na verdade é uma brincadeira, certo? É uma das brincadeiras mais violentas que tem!

 

P/1 – Por quê?

 

R – Pipa, “velho”, tem porrada, tem madeirada, tem queda, tem quebra braço aqui. Eu já vi moleque caindo de seis metros! Porra, destroçar a perna toda no portão, “tá ligado”?

 

P/1 – Por causa de pipa?

 

R – É, brincadeira infantil. Eu lembro de guerra de pedra. Nós brincando, um monte de moleque com 12, 13 anos pegando umas pedras desse tamanho e tacando um na cabeça do outro. É brincadeira, a gente achava engraçado. Ó como a infância é cruel. A infância é cruel, cara.

 

P/1 – O que você assistia na TV nessa época?

 

R – Nossa, teve... Ikki, Hyoga, Shun (risos), Cavaleiros do Zodíaco. Bob Esponja, sei lá, vários desenhos eu curto.

 

P/1 – Você gostava dessa época, né?

 

R – Sim, é uma época muito importante da minha vida, não tinha responsabilidade com nada, fazia o que eu queria. Fui criado meio que sem regras. Imagine você com dez anos criado sem regras? Sem regras. Com dez anos eu chegava em casa uma hora da manhã, foda-se. Chegava, comia, minha avó olhava: “Tudo bem?” “Tudo bem”. Minha avó materna não era muito atenciosa comigo, não que ela... Ela negligenciava um pouco de carinho também, mas não que nem meu avô, ela não era ríspida, bruta, não. A minha avó materna, Joselia, como eu disse antes, ela é aquela mulher que não tem voz muito ativa. Sabe aquela mulher que sempre foi muito submissa ao marido, sempre foi muito submissa aos filhos, sempre foi muito submissa à família? Então, minha avó materna não tinha voz ativa pra nada, entendeu? Sei lá, a educação que ela teve.

 

P/1 – Então quando era pra te dar um conselho, alguma coisa...

 

R – Ela nunca me corrigiu. Eu lembro que uma vez ela foi me bater com uma camiseta (risos). Eu amo ela. Ela me amou do jeito dela, mas está bom.

 

P/2 – Quem morava com vocês lá?

 

R – Assim, uma época, quando eu era bem pequeno, dez, 11, 12 anos, era só eu e ela. Só que teve uma tia minha que o barraco dela caiu, ela morava numa favela, teve uma enchente, sei lá, teve um desabamento lá de barraco e a casa dela “pá”. Só que não estava ninguém lá dentro, nem ela e nem os filhos dela, então graças a Deus ela saiu ilesa disto. Ela foi morar com a minha avó, aí que, sei lá, mudou muito. Eu e minhas tias nunca nos demos muito bem.

 

P/1 – Por quê?

 

R – Ah, cara, pode falar do jeito sincero? Do jeito simples?

 

P/1 – Do jeito que você quiser.

 

R – Você tem 12 anos, 13 anos. Maloqueiro, zoeira, roubava pra caramba, fazia “uma pá” de merda, chegava em casa folgadão pra cacete, não estava nem aí. Aí tipo, sei lá, ela chegava lá, tal, tal, trazia aqueles namoradinhos dela, comia do meu bife, cara! Os caras folgados. Tipo, namora com a mina, chega na casa da mãe da mina e já chega comendo, chega todo folgado, sem camisa, deitando na cama dos outros. Aí rolavam as tretas. Eu falei: “Irmão, sai fora, papapa”, aí começaram as brigas. Teve um dia que aconteceu merda. Eu conversei com um amigo meu e tipo, sei lá, mano, peguei um revólver, botei na cara de um lá, deu a maior briga, tal. Eu falei: “Vou te matar, mano. Não vai me dar nada, eu tenho 13 anos, parceiro. Você tem 25, 30, pra mim não dá nada eu te matar aqui mesmo, foda-se”. Isso aí piorou muito a minha relação com as minhas tias. Elas pararam de trazer, de vez em quando vinha alguns também. Então é isso aí.

 

P/1 – Mas resolveu o problema?

 

R – Não muito, foi piorando conforme o tempo. Elas não aceitavam as ordens de um garoto de 13 anos e eu também não aceitava ordens delas. Eu e a minha tia, a gente já teve muitas histórias de agressões, já fui muito assim, já.

 

P/2 – E a sua avó no meio desse conflito?

 

R – A minha avó não falava muito. Lembra que eu falei que a minha avó não tinha muita voz ativa? Então, quem mandava lá eram as filhas dela ou eu. Minha avó não mandava em nada na casa dela. Tanto que eu saí de casa com 18 anos por causa disso, meu tio chegou lá querendo me dar ordem, eu falei que não, saímos no murro nós dois e a minha avó falou: “Tem que sair um ou outro”. Saiu eu, porque ele tinha a filha dele com quatro anos, então saiu eu. Era mais ou menos isso.

 

P/1 – Agora diz como é que foi a primeira infração que você cometeu.

 

R – A primeira infração? (risos) Nossa, eu nem lembro disso. A primeira de verdade? Tudo começa com uma simples bolacha em um mercado. Fato. Começa com uma coisinha tão besta... Aí você pega uma bolachinha, pega um M&M’s, você pega, sei lá, qualquer merda no mercado e põe próximo à genital ou no bolso, nas axilas, foda-se. E você sente um gostinho de uma coisinha muito legal, a impunidade. Sente o gostinho de uma operação bem sucedida, tipo, você faz algo errado, foi bem sucedido e não foi punido por isso. Isso acarreta num vício, compreende? Até que você faz coisas bem grandes, como roubar banco, etc., porque começa com uma coisa bem pequena, uma coisinha pequena, bem simples, sei lá, pular a catraca do metrô, alguma coisa. Começa com coisas pequenas. E você vê ali que você conseguiu fazer, conseguiu burlar, “tá ligado”? São muitas regras para uma pessoa só, se você burlar tudo e for bem sucedido, você se sente bem, você se sente o cara, entendeu? Então sei lá mano, já que eu fiz aquilo e não me pegaram, vou fazer aquilo ali agora, e aí vai.

 

P/1 – Entendi. E isso começou com quantos anos, mais ou menos?

 

R – Cara, uns nove, dez anos.

 

P/1 – Então antes até do Jabaquara.

 

R – Não, não. No meu avô não, meu avô tinha uma educação exemplar ali, meu avô não aceitava. Eu saí da casa do meu avô com oito anos, fui pra minha avó materna com oito anos, uma faixa de oito anos. Eu comecei com as coisinhas erradas com meus nove, dez anos.

 

P/1 – E agora, pra você, existe uma diferenciação dessas coisas, de certo e errado, infração?

 

R – Existe pô, eu sei diferenciar o certo do errado, entendeu? Só que como eu falei...

 

P/1 – Não, estou dizendo infrações grandes ou pequenas. Como é que é?

 

R – A diferença?

 

P/1 – É, como é que a gente divididiria?

 

R – Se eu roubar um pote de manteiga no mercado é grave? Só me responda, é grave eu pegar um pote de margarina no mercado? Uma Aviação, uma Delícia?

 

P/1 – Eu acho que não, mas eu queria saber o que você acha.

 

R – E tipo, e um político desviar verba de dois milhões, é grave? Ah, desculpa, é peculato, não é furto, roubo ou assalto. Essa é a diferença que eu acho, o agravante importante. Tipo, não estamos falando de religião aqui, que não existe pecadinho e pecadão, pecado é pecado. Isso é na religião, estou falando da vida real, cara, não estou falando de mito, religião, teologia, estudo. Estudo não é sempre um fato, falar de mitos, história, não tem como saber se ele andou no mar vermelho, dane-se. Mas a gente está falando de fatos, entendeu? Então acho que tem que haver uma punição para todos os atos sim, infelizmente. Ah cara, aí vem um debate muito complexo, coisas de privilégios, de ambientes, etc. Alguns são desfavoráveis socialmente, outros não, aí é uma coisa que vai muito longe. Mas sim, é grave sim. Algumas vezes eu fui punido por isso também, já.

 

P/1 – É?

 

R – Normal. Uma vez eu fui pra Santo Amaro, furtei um tênis e três policiais me espancaram. Tipo, uma pá de “bota” mesmo: um me colocou a cara no chão, começou a me esmurrar... E rolou normal. Só que pra nós é aceitável, tipo, pro moleque estar lá na favelinha ali e falar: “Ah mano, eu faço coisa errada então tenho que esperar o pior”, então vai. Há punições, se é certo ou errado não sou eu quem vai julgar isso, não tenho poder para isso, não tenho poder pra fazer uma emenda ali, não tenho.

 

P/1 – Você não consegue aprovar uma lei, mas pelo menos pensar sobre isso você já está fazendo.

 

R – Sim, pensar é um direito meu e é algo que ninguém pode tirar. Minha capacidade de pensar, raciocinar, é o que eu tenho, acho que é o maior poder que eu tenho.

 

P/1 – E como é que é essa coisa de esperar o pior?

 

R – Ah, mano, tipo assim, se você faz algo certo, algo frutífero, tipo... Vamos supor, você hoje tem seu emprego, você batalhou pra isto, danem-se os privilégios. Não estou perguntando de que classe social você veio, se você estudou numa escola estadual ou se você estudou no Vértice, ou em um Arquidiocesano, ou num Etapa, dane-se onde você estudou. Não importa se foi seu pai que te bancou seus estudos. O que importa é que você conquistou seus objetivos, então você tem seu trabalho. Cara, você colheu isso, você estudou pra colher um bom emprego, estabilidade financeira. Se você faz o mal, você também vai esperar colher alguma coisa desse mal. Se você vai roubar, vai esperar colher alguma coisa também, falar: “Ah velho, estou aqui, minha vida está boa, está legal”. Eu conheço muitos que acham legal, ele faz uma pá de coisa errada e pô, tá “da hora”, estou com dinheiro fácil. Que nem, eu lembro que estava vendo uma vez concurso público, por exemplo. Era um cargo na Secretaria da Fazenda, auditor fiscal, algo assim, não sei o quê tributário. Estava lá: piso 16 mil. Tem ali... Velho, uma pessoa que não estudou, não fez porra nenhuma, ela: “16 mil. Porra, caralho, qual a forma de ganhar aquilo rapidamente?”, alguns vão fazer a coisa errada, outros não. Só que, tipo, tudo o que a gente faz a gente vai colher o equivalente, entendeu? Você plantou algo bom, vai colher algo bom; você plantou algo ruim, vai colher algo ruim, né?

 

P/1 – E como era na escola nesse período que você já estava um pouquinho mais velho?

 

R – Ah, cara, eu nem estudava direito mais, eu não me importava mais, era mais ganguismo, zoeira, briga, treta. A gente procurava treta. Teve uma época aí que a gente saía procurando treta, sabe, que anda na rua, tipo Laranja Mecânica, tá ligado? Assistiu? Ah mano, aquele ali, foda-se. Já chega dando bicuda e fala: “Irmão, gostei desse tênis. Serve no meu pé?” Calçava e já era, dá uns tapão e vaza (risos). Teve essa época de crueldade infantil. A gente fala criança, mas velho, eu acho que o período mais cruel do ser humano é a infância. É o período de preconceitos. A menina que é gordinha, que é vesga, que é magra, que é feia, dane-se. A que tem cabelo ruim... É uma fase que as nossas opiniões são bem mais fortes, já reparou? Você não se preocupa em discriminar o próximo quando você tem 13, 12, 11 anos, dane-se. É uma fase bem cruel, se você parar pra pensar. Muitos não pensam, claro.

 

P/1 – Mas tinha alguma matéria que você gostava mais na escola ou alguma professora?

 

R – Quando eu era criança eu me interessava muito por Exatas, Matemática eu gostava muito. Porque meu tio estudava, eu tenho um tio, o único tio que me incentivou, verdadeiramente. Meu tio estudava, hoje em dia ele é dono de uma eletrônica ali na Praça da Árvore, conhece a Rua Luiz Góes? Já ouviu falar?

 

P/1 – Sim.

 

R – Ele tem uma eletrônica ali, que o ex-patrão dele quis sair, ele fez um acordo com o ex-patrão dele, continuou lá pagando aluguel, tendo várias clientes. Ele me incentivava muito, tanto que já trabalhei com ele numa central de monitoramento. Eu tive umas oportunidades já, eu que joguei fora. E sei lá, Matemática eu gostava muito. Ele mostrava pra mim aqueles livros do Anglo, tal, eu pequeno, criança, eu falei pra ele: “Tio, me explica o que é isso aqui? O que é abscissa? O que é plano cartesiano?” Eu, criança, queria saber. “Tio, o que é equação de primeiro grau? Tio, o que é inequação?”. Eu achava interessante. O desconhecido interessa, sabe? É legal.

 

P/1 – E você saiu da escola em algum momento?

 

R – Sim, saí.

 

P/1 – Até que ano você foi?

 

R – Que eu me lembre, acho que eu cursei até o quinto, sexto ano, eu estudei pouco, não estudei tanto.

 

P/1 – Sei. Aí você falou que não queria mais também.

 

R – Ah, foram problemas familiares, cara. Muita briga, treta, rixa. Não tinha... Pulava de escola pra escola, tinha uma hora que eu mandei se ferrar tudo e parei. Não tinha uma boa estrutura familiar.

 

P/1 – E quantos anos você tinha quando você saiu da escola?

 

R – Cara, 2006, por aí.

 

P/1 – Você tinha 12, então?

 

R – Por aí, 2006, 2005, por aí. Essa faixa.

 

P/1 – Como era esse negócio de gangue, que você falou?

 

R – Ah, cara...

 

P/1 – Vocês se juntavam, quem era?

 

R – É mais por zoeira, tipo... Esse recurso de gangue é uma versão infantil da faculdade, é a mesma coisa, vem não. Aquela fase da vida que quer aproveitar a vida, quer zoar, quer bagunçar, quer experimentar coisa nova e foda-se, entendeu? Só é diferente da faculdade porque tem menos sexo (risos). Lá tem menos sexo, é mais treta, briga, rixa mesmo e foda-se. Mas coisa errada... Sei lá, a gente andava, sabe, por exemplo, está andando de boa, “pá”, via uma loja: “Pô, que vontade de comer um Doritos”. Chegava na loja, pegava e nem olhava pros lados, quem está vendo foda-se. Inclusive comendo. Uma vez entrei, abri e entrei na loja com o bagulho aberto. Olhei pro cara: “É meu”. Ele nem perguntou se eu peguei da loja ou não, sabe aquela convicção? É meu e dane-se. E comprava um bagulho, saía. Depois a gente começou a beber também, ir pros funks, pros bailes também. Aquela época era melhor, ia até de manhã, tal. Então começou essa fase de zoeira, de bagunça.

 

P/1 – Você gostava de ouvir o que nessa época?

 

R – Gostar de ouvir eu sempre gostei de rap, reggae, tá ligado? Mas os bailes que eu frequentava eram mais funk mesmo, mas eu ia mais pra beber, não pela música, em si. Antigamente o funk era mais tranquilo, não era tão escrachado como hoje.

 

P/1 – Ah, é?

 

R – É. Tipo MC Leozinho, era bem mais tranquilo, não era tão malicioso que nem hoje.

 

P/1 – Mais tranquilo o que, a batida, a letra?

 

R – A letra, a letra era mais tranquila. Antigamente o funk de favela a letra era bem mais tranquila. Depois que vieram as letras de apologia a crimes, drogas, tal. Depois veio também a apologia a etc. (risos), só etc.

 

P/1 – E de rap, qual foi a primeira vez que você se lembra que ouviu ou que te tocou?

 

R – Muitos falam de Racionais, Racionais eu gosto, mas também é muito clichê. O primeiro que eu ouvi foi Ao Cubo, era meio gospel, mas era legal. Então eu ouvi aquela letra e falei: “Caraca, da hora, esses caras sabem como é que eu vivo, mano”. Da hora, me identifiquei com o grupo.

 

P/1 – Você se lembra qual letra que foi, que sentido que foi que te deu?

 

R – Eu não me lembro muito das letras, sou difícil de decorar música.

 

P/1 – Mas foi legal?

 

R – Foi legal. Tal, pá, legal. Aí veio aquela fase... Já estou pulando um pouco. É que tem uma transição aí, a transição que eu conheci o meu pai, que eu morei com meu pai, tem uma transição. Mas aí é aos meus dez anos. Então eu conheci uma galera ali na Conceição. Você conhece Conceição, Saúde? Que é mais boy, tal. Conheci uma galera ali, andava de skate – eles andavam, eu não andava. Ia mais lá pra vender drogas. Chegava lá, vendia o que eles queriam. Eu nem usava, nunca curti usar droga, nunca curti direito. Ia lá, trocava ideia, conheci alguns. Eu lembro que eu conheci um... Velho, um japonês, mano, mestiço. O moleque tinha de tudo cara, era privilégio total. Uma vez ele levou a gente perto da casa dele, ele morava na Granja Viana, cara! Olha onde ele morava! Porra. O moleque roubou o carro do próprio pai, começou a andar com os caras, foi preso, jogou a vida dele fora por causa de nada, entendeu? Eu falei: “Velho, você tem de tudo, velho”, ele estudava em um colégio particular fodão lá e tudo, e tipo: “O que você está fazendo aqui, cara? Com essa galera fazendo essas coisas aí, você não tem o porquê”, não tem justificativa plausível pra isso, sabe? Pros atos dele. Aí pronto, misturou, tal, começou as coisas erradas, as bagunças.

 

P/1 – Você começou a vender droga com quantos anos?

 

R – Treze.

 

P/1 – Foi um pouquinho depois.

 

R – Porque eu quis também. Não era o que eles chamam de vapor. Vapor é aquele que fica na função, numa ponta específica, que realmente o trampo dele é vender ali as drogas. Eu não, eu fazia isso pra mim mesmo, fazia porque eu queria, “Ah mano, vou ganhar um dinheirinho, uma merreca”. Eu mesmo comprava as drogas e vendia pelo meu preço, era uma brincadeira minha.

 

P/1 – Mas você morava com a sua avó ainda?

 

R – Sim, com a minha avó. Eu morei com minhas duas avós, pulando pra lá e pra cá. E eu conseguia bike, bicicletas, sei lá, uns negócios pra conseguir dinheiro. Naquela época era bem melhor, bicicleta era muito mais legal. Hoje em dia não.

 

P/1 – Por quê?

 

R – Hoje em dia é mais moto, antigamente moleque era muita bicicleta, bicicleta era muito visada, você andar de bike era muito visado. Eu lembro de um fato que eu fiquei bravo: eu roubava muita bicicleta, muita bicicleta. É muito fácil pegar bicicleta, ainda mais quando é de menor. E tipo, roubava, andava uma semana e vendia. Aí um dia eu eu falei: “Mano, eu quero ter minha bike”, aí eu consegui um dinheiro, montei minha bike, uma gala, aro 24, banco gel, shimano, freio a disco, os caralhos. Monstro, as meninas piravam: “Gui, deixa eu andar?” “Não, primeiro um beijo” (risos), coisa de homem. E tipo, normal. Um dia eu fui pra padaria comprar um pão, tal, quando eu olho pra baixo cadê a minha bike? Eu falei: “Que filho da puta rouba a bike dos outros?”. Eu falei: “Caralho, é mesmo” (risos). Experimentei meu próprio gosto, tá vendo como voltou contra o feiticeiro, o feitiço? Era a bike que eu tinha gastado dinheiro, investido, fiquei bravo (risos). Cacete!

 

P/1 – E como é que é? Depende da tranca, como é que você faz?

 

R – O quê?

 

P/1 – Pra levar a bike.

 

R – Ah não, não era aquelas bikes trancadas, era as que os outros deixam mesmo. Muita gente fazia isso, ia pro açougue e deixava no cantinho de fora pra comprar carne. É rápido (risos).

 

P/3 – Foi o que você fez na padaria?

 

R – Não, foi o que fizeram comigo na padaria.

 

P/3 – Não, mas você encostou...

 

R – Encostei ela, tudo, pá, “é minha quebrada, conheço todo mundo, ninguém vem pegar minha bike, não”. Algum filho da puta levou, nunca mais achei. Se achasse também “era poucas”, fácil. Quero ver. Não, a gente matava mesmo, liga não, não tenho dó não, não tenho. Teve uma vez que teve uma treta, eu joguei o moleque do barranco, não estava nem aí. E era um barranco de pedra, o moleque morreu lá embaixo. Liguei não, foda-se.

 

P/1 – Quando foi isso?

 

R – Sei lá, com uns 14 anos. Era treta. Veio falar merda, joguei ele lá embaixo. Se está vivo eu não sei, eu saí andando. Se ficou vivo, não me interessava isso.

 

P/1 – E quando foi que você teve certeza que tinha morrido?

 

R – Eu não sei, eu não fiquei sabendo se ele morreu ou não.

 

P/1 – Estou falando de outros casos, se já aconteceu.

 

R – Já aconteceu de treta, a gente deixava o moleque ensanguentado, tal, mas a gente não sabe se morreu ou não, não era pra matar, era mais zoeira. Ah cara, é mente de... Não tem como explicar, mano, era uma mente doentia, é estranho. Tipo hooligan mesmo. Por exemplo, assim, tem um bagulho que é assim... Por isso que eu já falei, tem uma vez, tinha três meninas – isso aí é recente, faz uns dois anos –, e era meia-noite e meia, uma da manhã. Eu estava querendo pegar um ônibus pra vir embora e tinha umas três meninas bem arrumadas olhando pra mim, tal, normal, nem ligo. Aí vi um grupinho de moleques e as meninas “entraram em choque”, tá ligado? As meninas entraram em choque, elas mudaram de banco agressivamente. Aí os moleques passaram direto, não fizeram nada, mano. Eu falei pra elas: “Olha, vocês nunca façam isso”. Acho que é a pior coisa, você aumenta muito a chance de ser assaltado se você demonstrar medo. Porque é assim, assaltante é mais ou menos que nem cachorro, se você demonstrar medo ele vem. Então você tem que falar assim: “Tá vendo um grupinho ali, cara”, você está assim, sei lá, não importa onde está, está com Deus, se eles me levaram, se não levar, está ótimo, não faz cara de medo não, fica na sua. Não importa o que você está vestindo, mas se você demonstrar medo, olhar assim, aquele olhar piora, tá ligado? Os moleques já levam mal. Teve caso que a gente estava na Santa Cruz andando, a gente quer ir pro shopping, porra mano, a gente é de favela mas não tem como a gente dar um rolê, curtir um Interlagos. A gente queria ir pro Santa Cruz, só que o Santa Cruz só tem boy, mano, era mó estranho ir pra lá. Aí uma vez a gente foi pra Santa Cruz, isso foi uma covardia nossa. A gente foi pra Santa Cruz dar um role e aí tinha dois moleques, nós estávamos em oito, dez, bastante. Teve dois moleques que saíram ali de um colégio, só que eles olharam pra nós assim, tipo, com um olhar assim e atravessaram a rua. Nós já achamos isso uma ofensa, velho. “Que porra é essa? A gente nem está na intenção de roubar ninguém. Ah mano, vamos lá mano” “Vamos”. A gente só foi pra quebrar os caras e já era, e só levamos deles de sacanagem, tá ligado? Mano, rola muito isso, rola muito. Mas também não tinha como o moleque não correr, a gente... Mó cara de... Mano, não tem como explicar, não tem como os moleques não ficarem em choque, a gente tinha cara de ruim, não tem como. Eu lembro de um de nós que andava com um facão desse tamanho na cintura, o moleque andava com um puta de um facão nervoso. Em muitos casos era mais por isso mesmo, aquela coisa de bagunça mesmo.

 

P/1 – Quem que andava com você? Quem eram seus melhores amigos, quem são eles?

 

R – O que você se lembrar, o perfil ou o nome deles.

 

P/1 – Daniel. Daniel eu acho que hoje está preso. Era bem mais escuro que eu e bem mais alto. A gente era briguento, gostava de brigar, a gente sentia prazer em brigar, aí saía disputando, tá ligado? Homem é trouxa, né? (risos) Eu falei pra ela, (risos) homem é assim, a gente disputa tudo, tá ligado? É foda. É, pô, a gente quer disputar tudo, quem tem o pé maior, quem tem o... Deixa quieto, quem é mais inteligente, quem é mais alto. Homem disputa tudo, não importa. Eu lembro quando eu era criança, meus primos... Eu: “Olha, olha, olha! Primeiro pêlo! Olha”. A gente disputava quem ia ter pêlo primeiro, é idiota, muita idiotice. Era Daniel, hoje eu acho que está preso, assim. Uns dois morreram por aí, na jornada. Júnior, Eduardo, eu lembro o nome de alguns que colavam com a gente. Daca, também.

 

P/1 – Você tinha algum apelido?

 

R – Não, nunca fui de ter apelido, não.

 

P/1 – Fala mais Guilherme ou Gui, mesmo?

 

R – Guilherme ou Gui mesmo. Hoje em dia eu me chamo de Cabelo porque eu resolvi deixar assim, mas eu nunca deixei meu cabelo assim não, primeira vez deixando crescer.

 

P/3 – Você usava como?

 

R – Alisava, fazia luzes, tal. É, as minas gostavam, era isso aí mesmo.

 

P/1 – E quando foi que você começou a namorar ou ter esse interesse? Foi cedo, tarde?

 

R – Ih, cara, que parte doentia! Quando eu comecei? Com seis anos. É. Seis anos minha avó pegou a gente no flagra, eu roçando na minha prima, os dois pelados. Apanhamos pra caralho. Começou com as primas, é doente isso, mas foi engraçado. Aí foi pra adolescência, começou com os bailes funk, zoeira, começou com essa fase aí. A gente bebia, zoava e rolava as merdas também.

 

P/1 – E você começou a beber muito cedo? Como é que foi isso também?

 

R – Ah, bebia por diversão, com 13 anos, 14, mais...

 

P/1 – Nunca pra ficar hiper bêbado, mais pra... Ou tinha ressaca mesmo?

 

R – Ah, eu bebia pra caralho, mano! Tinha vezes que eu chegava em casa bêbado, chapado. Uma vez eu dormi em frente de casa: “Vai tomar no cu”, deitei e dormi. Uma vez eu deitei e dormi, não sabia de merda nenhuma. Bebia bastante.

 

P/1 – E a fumar, você começou a fumar também nessa época?

 

R – Cigarro eu nunca gostei de fumar. Eu comprava um maço mas por causa das meninas, mesmo, mulher, vocês levam a gente pra destruição, não é cara? Caralho, mano! É sério mesmo! Tinha que pagar de gostosinho pras meninas, então tinha que ir com uma moto, tinha que ir com uma bike da hora, tinha que ir com umas roupas muito loucas, tinha que ir com cigarrinho. É foda. Estou brincando, não estou colocando a culpa em vocês não, mas homem quer impressionar, mano, quer impressionar. Então a gente... Era mais pra isso mesmo, acho que quando a gente é moleque a gente faz mais por causa de menina mesmo.

 

P/1 – Não é mais por uma coisa sua?

 

R – Sexo, zoeira. É mais aquela coisa do homem querer conquistar as meninas mesmo. Nessa fase aí o que rolava era mais o que era errado mesmo. Se você for um cara tímido: “Nossa, que cara sem atitude! Muito mole ele!”, então não tem negócio de ser tímido, não. Chegava lógico e dane-se.

 

P/1 – E depois do cigarro você foi fumar outra coisa?

 

R – Não, cigarro eu nunca gostei de fumar, eu comprava mais pra zoar mesmo, é da hora. A gente era favelado, um bando de perdido, desgraçado, sem instrução nenhuma, academicamente falando, claro, porque mesmo não estudando eu sempre gostei de pensar e conversar, conversar diversos assuntos, não importa. E tipo, da hora, a gente está lá. Por isso que o pobre quer ostentar, porque é foda, ele quer mostrar que tem alguma coisa, velho. Então, imagina só os moleques chegando todo pá, tal, aí tira um Gudang do bolso. Nossa! Os caras olhavam pro Gudang: “são bravos os caras, é um black”. É assim que funciona. Aí outro rola um baseado e pronto, as meninas já olham assim, tal, quer “dar uns pegas”. Ela vem dar uns pegas, você dá uma olhada, dá uns beijinhos. Tem um parça na casa de um amigo meu que desde pequeno a mãe dele faleceu, então ele tinha... A casa era dele, esse amigo nosso aí. Tipo, o moleque com 13, 14 anos já tinha uma casa própria, o desgraçado. Então, porra velho, já é uma conquista dos infernos. Tem cara que trabalha a vida inteira pra ter uma casa própria, já tinha uma casa dele porque a mãe dele faleceu, uma história triste, mas era dele. “Vou colar aí, Lucas” “Beleza”. Então a casa dele era o point. Era engraçado. Imagine um monte de amigo bebendo, fumando e um trepando lá, um trepando aqui, um trepando aqui, um trepando lá, bagunçado (risos). O bagulho bem bagunçado. Isso com 14 anos, velho! Isso que a gente fazia.

 

P/1 – E outras drogas, você experimentou, nessa época, também?

 

R – Eu experimentei, mas meu organismo sempre rejeitou drogas.

 

P/1 – Sério?

 

R – Sim.

 

P/3 – Todas?

 

R – Graças a Deus as que eu experimentei sim, menos as mais fodas, tipo crack, eu não experimentei; heroína nem sei se existe no Brasil isso (risos), nunca experimentei também. Mas LSD, maconha, cocaína, lança perfume, thinner, cola, já experimentei. Mas nunca gostei, nunca fez minha cabeça.

 

P/3 – Nenhuma dessas.

 

R – A única droga que eu acho que eu tenho uma tendência é bebida alcoólica. Tanto que meu pai perdeu tudo graças ao alcoolismo, entendeu? Bebida alcoólica eu gosto, quando eu bebo me sinto bem, é legal, é bom. E hoje em dia começou com a maconha, droga, marcha da maconha, fumei muito. Velho, isso que eu falo, isso que me dá raiva na rua. Você quer uma meia, um tênis, uma camiseta, é difícil você conseguir, mas droga e bebida é fácil. Eu fumei quatro dias direto sem gastar um centavo. Tipo, encontrava um aqui, um ali, fumava um beck... Então droga é muito fácil. Cocaína, maconha, qualquer merda é muito fácil. Bebida também é muito fácil. Isso que é engraçado, muito engraçado.

 

P/1 – Você começou a gostar agora de maconha?

 

R – É, eu fumo um beck agora. Antes já fumava também, mas não gostava tanto, não precisava fumar um beck pra ter atitude. Os caras precisavam, tinha cara que era todo tímido, retraído, ele fumava um beck, bebia e acabava com a timidez. Eu não, mano. Que porra é essa, para de timidez, mano! Já olha, já chega: “Quer ficar comigo?” “Vamos”, foda-se (risos). Claro, chega com aquela certeza, bem arrumado, tal. Sabe o que eu acho que eu conquistava, de verdade? Meu cabelo era bom, era encaracolado bem lisinho. Acho que eu conquistava mesmo era essa boca de branco, é rosa, sou negão com a boca rosa, tio, é pra poucos. Não tem aquele beição feio. Ô, não tem como! Estou brincando (risos).

 

P/3 – Mas deixa eu te perguntar desse lance do cabelo que você falou que alisava antes.

 

R – Sim, bastante.

 

P/3 – Que faz pouco tempo você resolveu ficar com o cabelo black.

 

R – Quatro, cinco meses.

 

P/3 – Por que você decidiu isso, como é que foi?

 

R – Olha, a gente vai entrar naquela coisa de Malhação, filha.

 

P/3 – Malhação?

 

R – É. Vou brincar. Em favela, favela mesmo, comunidade sim, poucos negros são adeptos ao black ou cabelo afro, poucos.

 

P/1 – Ah, é?

 

R – Poucos. Você pode entrar aí numa Paraisópolis, você pode entrar na Alba, Vietnã, Alfaia, Luz, Chatuba, são favelas conhecidas, algumas são da  Zona Leste, mas da onde eu morava, tem várias favelas lá. Uma bem conhecida é a Alba, por exemplo, já ouviu falar da Alba? Teve aquele maníaco do caralho que matou sete pessoas? Então, frequentava muito lá. Não vão pra lá, vocês estão fudidos, lá é ruim pra caralho, só tem nóia. E Vietnã tinha bastante show de rap, então não tem... Cara, na favela é muito diferente, tá ligado. Até meus 18 anos eu vivi muito lá no meu canto, na minha comunidade, tal. Quando eu vim pro Centro foi estranho, tipo, um monte de mina com cabelo black, um monte de estrangeiro, um monte de coisa diferente, é muito esquisito, o Centro é bem diferente do bairro.

 

P/1 – Mas é um esquisito bom ou esquisito ruim?

 

R – É um esquisito diferente (risos).

 

P/1 – Esquisito, esquisito.

 

R – É, diferente. Eu olho assim: “Caralho”. Tipo, por exemplo, você vai para uma favela... Que nem ela falou, ela falando dessa temática aí de cabelo. Eu acho que na favela o negro em si não se aceita muito, não, cara, não se aceita muito, não. Por exemplo, na favela de onde eu venho, de dez negras que tem lá, as nove gostam de branco, as negras não gostam de preto, não (risos). Só se o cara for da função, tipo, se o negão for traficante ou bandido, aí elas gostam. Agora, se for nego fudido mesmo, quer dar uma de trabalhador, não. É um dos motivos também que o crime é muito disseminado na favela, um cara que segue o crime, organizado ou não, ele tem respeito, ele tem status, tem reputação, ele tem mérito. Na favela é assim que funciona. Se você é um cara meio trabalhador, pá, de boa, você é respeitado um pouquinho, mas você fica mais na sua, tal. Mas o cara que faz coisa errada tem bastante amizade, o cara bebe com todo mundo, zoa, o cara pode até pôr regras e leis na favela em si, etc.

 

P/1 – Você acha que isso muda a estética da pessoa, da mulher e do homem? Se o cara não quer vai alisar o cabelo, não vai deixar o black crescer, você acha que isso muda?

 

R – É aceitação, mano. É muito difícil, muito complicado, porque na favela em si muitos não têm consciência, não têm informações. Se você chega pra qualquer um, entra numa comunidade e pergunta pra dez meninas de 15 anos, negras, pergunta pra elas assim: “Quem foi Dandara?”, quantas vão te responder? “Vocês sabem quem foi Dandara?” Nenhuma vai te responder. Fala: “Quem foi Zumbi?”, poucas vão te responder. O que é um quilombo? Ela: “Ahn?”. “Quem foi Malcolm-X? O que foi o Garveyismo? Quem foi Martin Luther King. O que foram as leis Jim Crow”, que foi aquela lei separatista norte-americana que os negros iam para o fundo do ônibus e os brancos na frente, ou então na padaria. Eles não têm informação. Tem escola lá, mas que nem... Escola, eu lembro do meu colégio, tipo assim, no ensino fundamental. Tipo, eu ouvia falar sobre Pedro Álvares Cabral, ouvia falar da Inconfidência Mineira, ouvia falar do Ipiranga, ouvia falar de tudo, Independência do Brasil, o caralho a quatro, mas eu nunca ouvi falar muito sobre a escravidão, nunca ouvi falar da Lei de Bill Aberdeen, nunca ouvi falar de alforrias, nunca ouvi falar de escravos, da história do meu povo, nunca ouvi falar disso, tá ligado? Nunca estudei isso, na escola não, quando criança. Então se a classe negra que vive nas favelas não têm nem um básico de informações sobre si mesma, complica, cara. Então não adianta, a aceitação como negro em si é difícil. Tem muitas meninas que têm vergonha do nariz largo, têm vergonha dos beiços carnudos, têm vergonha do cabelo ruim. Tipo, as meninas imploram aceitação, elas imploram amor, imploram o sexo dos moleques lá, os mais claros, branquinhos, tal, é bem humilhante, bem doido. Já vi mina, tipo, por exemplo, ela gostar do moleque, o moleque branquinho, loirinho, mas da favela também. É zoeira, a gente zoava, e ele gostava de outra mina, outra branquinha bonitinha também. E essa mina gostava dele, mas ela queria chamar a atenção dele, queria conquistar ele, e como ela é uma mina que não tem educação, não tem formação, nem nada, ela usava os argumentos mais fáceis de conquistar o homem, que era o sexo. Eu lembro que uma vez ela fez sexo oral na sala pro moleque. Velho, isso é forma de você chamar a atenção do cara pra ele olhar você? É bizarro. É assim que você vai deixar um homem te amando? Não é assim que funciona. Então é bem distorcido. Tipo, eu e o Marcelo outro dia estávamos conversando sobre essas meninas que engravidam cedo nas favelas, com 11, 12, 13, 14 anos. Eu não tenho dó não, cara, eu admito pra você, eu não tenho dó, não tenho. Mas também tem essa parte, né? É muito complicado.

 

P/1 – E pro cara, como é que fica isso?

 

R – Como assim?

 

P/1 – Essa questão de aceitação, de se aceitar ou não como negro, como é que é? Como foi pra você também? Porque você falou que mudou há pouco tempo, né?

 

R – É.

 

P/1 – Como é que você começou?

 

R – Sei lá, cara. O meu caso é assim, eu gostava... Era mais por causa das músicas e por causa do ambiente também. Aquela coisa que, ah, você vai com Nike Air Max pra escola. Da hora. Tipo, depois de uma semana todo mundo tem o Air Max, tá ligado? Já viu essa modinha? Lança um novo tênis, um compra, é da hora. Diferente de mulher, porque se mulher vai para uma balada aí você está com um vestido vermelho, se ver outra de vestido vermelho assim: “Invejosa”. Mulher é diferente, homem não. Homem: “E aí, mano? Essa camisa é da hora”. Os dois homens com camisas iguais, tênis iguais, falam: “E aí, mano, da hora!”, homem é diferente, é outro raciocínio. Estou brincando (risos). É outro raciocínio. Então a gente, quando estava todo mundo junto, tal, essa aceitação mais do meu cabelo, eu não sei, eu não gostava do meu cabelo, muito encaracolado, não gostava. Eu pagava 40 reais de três em três semanas pra alisar, tal, dava uma penteada. Era mais pra conquistar mesmo o público feminino, é mais pro flerte. Ter umas roupas de marca que as meninas gostam, acham os caras charmosos, a gente coloca. A gente roubava, a gente fazia as fitas lá pra comprar tênis caro, tal. Na época eu lembro que, por exemplo, lembra aquela grife Ed Hardy, Christian Audigier, já ouviu falar?

 

P/1 – Não.

 

R – Ed Hardy é cara pra caralho. Tem umas camisetas que era 300 contos uma blusa. Uma camiseta 250, caro pra caralho, Brooksfield, também. Umas grifes bem doidas já foram pras favelas, sério mesmo. Lacoste também era bem moda, os moleques queriam comprar original, é caro.

 

P/3 – Hoje em dia está a maior moda também, né?

 

R – É. Você tá ligado essas jaquetas da BMW agora? É caro, velho. Teve um parça meu que foi lá comprar no shopping, pagar 900 contos numa blusa, tá ligado? E o salário do moleque é 1200. Você fala: “Porra!” (risos). É porque na favela é engraçado, tipo, quer ver um bagulho que eu acho muito estranho? Não todos, mas, por exemplo, tem muitos: vou falar “boy”, cara, é o termo que eu aprendi na minha vida inteira. Tem um moleque ali que ele nasceu, a família dele é legal, estudou legal, fez Psicologia, fez a porra toda, Publicidade, dane-se, estudou. Aí comprou um tênis baratinho de skatista, uma calça, uma camiseta e tal, pá pá. Só que na favela é muito superficial. Tipo, na favela você tem que andar bem arrumado, é estranho. Você tem que andar arrumado. Tem muita favela que pra entrar você vê lá, o pobre é pobre, certo, mas tem uma TV de 50 polegadas, tem uma geladeira monstra, tem os móveis. É inadimplente? É, mas tem (risos). É muito isso, é muito consumismo, entendeu? É muito, o capitalismo mostra muito isso, você vê. A TV aberta, que o pobre tem acesso, Rede Globo, SBT, Bandeirantes, Gazeta, Cultura, foda-se. Quantos comerciais de carro mostra lá? HB20 lançamento Hyundai, compre o seu, tipo, 80 mil à vista, IPI reduzido. Os caras veem isso o tempo todo, carrão, moto, roupas de marca, Dudalina lá mostrando os comerciais e tal. TNG, C&A, Hering, então velho, o pobre vê aquilo o tempo todo. Ele fala: “Caralho”, ele também quer consumir, é um mercado que quer consumir também. Só que é muito mais superficial, ainda mais entre a galera jovem, a juventude dos 14 aos 24 anos.

 

P/1 – Tem muito essa coisa da aparência.

 

R – Tem muita coisa da aparência. A mina olha pro cara, o cara é bem arrumadinho, bem penteado, tal, o cara é vaidoso. Nem precisa ser bonito, se o cara for vaidoso, um bom perfume, um Ferrari, um 212, Carrolina Herrera, um Kaiak, sei lá, qualquer coisa, mano, cheirinho, “pá”, já conquistava as meninas. Então era mais isso, é muito superficial.

 

P/3 – E aí você estava falando, você cola na favela e pergunta pra alguém: não sabe quem foi Dandara, Zumbi, Martin Luther King. Mas aí e como foi, quando você descobriu?

 

R – Foi depois de adulto, depois dos 18, sei lá, eu comecei a colar em uns lugares culturais, tá ligado? Comecei a me aproximar dessa galera aí. Até das meninas em si, que se olhar bem, acho que antes dos meus 17 anos, cara, eu não gostava de negra não, mano (risos). Não me atraía. Hoje em dia me interessa, antigamente não.

 

P/1 – E onde é que você começou a ir? Que lugares foram esses?

 

R – Galeria Olido, fui a alguns eventos no Parque da Juventude, fui a alguns eventos lá no Centro Cultural da Juventude no Cachoeirinha também, nuns bagulhos de rap, batalha de rap. Conheci umas minas, namorei uma mina lá de Campinas também que me levou numa casa de ex-escravos lá em Campinas, grande, um baile black muito louco. Eu falei: “Caraca, muito doido”.

 

P/1 – Um baile lá no lugar onde era a senzala?

 

R – É uma fazenda que é... Como é que fala? É tombado que fala?

 

P/1 – Tombado.

 

R – Patrimônio histórico. E tinha uma baile black lá da hora, eu namorava essa mulher que eu acho que eu já falei, eu tinha 19 anos e ela tinha 37.

 

P/1 – Caramba.

 

R – A gente namorou um tempo, ela me mostrou esses negócios. Só que a família dela é toda diferente, era uns negros de classe alta, velho. Os tios dela, os primos dela, acho, eles eram capoeiristas que foram ensinar capoeira na Alemanha, tipo, eram uns pretos ricos, eu nunca tinha visto, achei mó engraçado. Falei: “Caralho, existe negro rico, mano”. Pra mim foi estranho, sério mesmo, foi estranho. Caralho, sério. Porque aí eu conheci ela, veio me buscar num Astra, eu falei: “Nossa”.

 

P/1 – E você é de Campinas?

 

R – Não, não sou, sou de São Paulo.

 

P/1 – Não, eles.

 

R – É, eles eram de Campinas. Sei lá, mano. Pra mim foi estranho aquela época. Que nem se você for entrar numa avenida aqui: fica ali 15 minutos parado, olhando, tipo, todo carro que passar, quantos negros você vai ver nos carros? Vamos fazer assim: você vê 20 Hyundai; nesses 20 Hyundais, quantos negros vão estar no volante? Me dá um número? Poucos, né? Então, pra mim, adolescente crescido em favela é muito estranho ter essa noção. Esse mundo meu virou, quando eu saí de casa virou, conheci muita coisa, conheci muita coisa ruim também, porque quando eu saí de casa, com 18 anos, fui para uma casa de apoio na Mooca. Aí foi outro mundo também, foi bem difícil pra mim. Mesmo em favela eu tinha meu conforto. Meu conforto o quê? Minhas coisas erradas que eu fazia, eu tinha meu dinheiro, velho. Tinha época que eu fazia uns baratos e sei lá, coloca o moleque lá no meio daquele bando de barraco, ele faz umas paradas e numa semana o moleque conseguiu cinco mil. Fala pra mim o que era cinco mil reais em 2005, 2008? Era dinheiro, cinco mil contos em 2008. O salário mínimo era bem menor.

 

P/1 – É.

 

R – Então pra nós, nós éramos poderosos. Eu lembro que uma vez nós fomos pra Moema, fomos de Chivas, Dalmore, foi de Sky, foi todo mundo nervoso, “tô nem aí”. Ah, a gente falava: “Vamos lá ‘tio’, quero comer patricinha. Vamos”. A gente foi, conseguiu, zoamos... Vixi, maloqueiro é foda. Mas uma vida muito boa, muito legal.

 

P/1 – Antes de falar desse negócio da Mooca, foi aí que você encontrou seu pai?

 

R – Não, eu encontrei meu pai aos nove, dez anos. Só que eu fui morar com ele uma época, aos meus dez anos.

 

P/1 – Como é que foi isso aí?

 

R – Não foi legal. Meu pai estava em decadência. Meu pai foi um homem que foi mais ou menos como eu. Foi um homem muito orgulhoso, soberbo pra caralho. Só que ele perdeu tudo em apostas, prostitutas, brigas, intrigas, esses baratos. Ele perdeu tudo. Ele tinha casa de aluguel, ele tinha os negócios dele. O meu pai tinha carro naquela época, tinha um Ômega 4.1, era top. Perdeu tudo, foi para as ruas e tal. Eu conheci, estava morando de aluguel. Só que meu pai era alcoólatra, e é o tipo de homem que quando bebia mudava muito. Então ele me agredia pra caramba. Aí eu falei: “Ah mano”, saí fora. E era meu sonho morar com meu pai, falei: “Pô mano, quero morar com meu pai”. Aquela coisa bem moleque, quero morar com meu pai. E me decepcionei. Hoje em dia ele tenta recuperar minha atenção, mas não dá. Tenho 22 anos agora, e recuperar meu carinho e afeto é difícil, não vira. Depois de homem formado é difícil.

 

P/1 – E você o encontrou de novo na rua, você falou.

 

R – Sim.

 

P/1 – Quando foi a primeira vez?

 

R – No Arsenal. Foi nessa casa de apoio, com meus 18 anos. Eu saí de casa.

 

P/1 – Lá na Mooca. Você saiu... Mas como você foi parar lá?

 

R – Meu tio. Ele foi morar com a minha avó e depois tinha minha regras. Eu bancava em casa, comprava gás, fazia e comprava comida, eu era o patriarca da casa (risos), coloca assim. Aí chega um maluco do nada e pá. Eu não fiz porque era meu tio, eu falei pra ele: “Mano, se você não fosse meu tio eu ia te encher de tiro”. Ia. Ele sabia que eu tinha capacidade pra isso, só que era família e não rolou isso. Houve um perdãozinho aí. Nós brigamos, saímos na mão, treta mesmo, soco pra lá, soco pra cá, o bagulho foi doido. Daí minha avó falou: “Um dos dois tem que sair”. E eu saí, peguei umas duas mochilas de roupa com meus baratos. Tive que desfazer de tudo, desfazer do meu quarto, um X-Box, tudo. Fui pra rua e não sabia que tinha albergue, sabia não, foi um morador de rua que me falou. Ele falou: “Você está na rua aí, tal, vai pro Brás, cara, lá você consegue um ótimo lugar”. Eu fui, cheguei lá, mó choque, um choque cultural mesmo, que é outro mundo. Ali é outro mundo, é muito bizarro. Tipo, é uma casa de apoio social aqui, um albergue aqui e uma faculdade do lado! Aquele choque de classe social, aquele bagulho muito feio, bicho, muito feio, não se faz isso. Não tem como fazer aquilo. E pra mim foi muito estranho. Cheguei lá, banho comunitário. Tomar banho... Tipo, eu aqui e mais uns 20 caras tomando banho também, um bagulho feio, ridículo. E pra acostumar esse sistema... Lá é como se fosse uma prisão, é um semi-aberto, na verdade. Foi muito estranho, foi um choque pra mim. Cheguei lá, tudo, já olhavam meu tênis. Eu já cheguei malandro também, “poucas”, cheguei malandrão também, e já era, ninguém me levou nada não. Entrei lá e foi indo. Fui à procura de trabalho, esses negócios, encontrei meu pai lá, mas não conversava muito com ele, não. Era ele pra lá e eu pra cá. Aí fui conhecendo umas amizades certas, umas erradas, tal, isso e aquilo. Lá tem de tudo, tem nóia, tem assassino, tem pedófilo, tem gay, tem travesti, tem tudo lá dentro, tudo de ruim tem lá dentro. De bom também, eu acho. Tem estrangeiros, conheci um paquistanês lá, conheci inglês, africanos, era bem bizarro. Violência era normal, sei lá. Uma vez ou outra você via neguinho esfaqueado, morto, neguinho espancado, rolava muito isso. É um mundo muito complicado, que nem, mudando um assunto, me lembra de um episódio que houve, não vou especificar, mas houve uma agressão entre eu e um colega meu. Não estou justificando, mas tipo, o que eles não conseguem entender é que no mundo que a gente vive, o mundo que eu vivo é muito violento. No mundo que eu vivo, Marcelo, você esfaquear alguém é normal, já pensaram nisso? Um bagulho desses. Imagine só você falar: “Pô, mano, você esfaqueou o cara”. Normal. Já tem uma noção? O bagulho é bem doido, bem sádico. Depois que eu saí de casa e mesmo antes de ir pras ruas eu já vivia essa crueldade, porque em favela é a mesma coisa. Favela já vi cara ser linchado, o cara era suspeito, era suspeito de ter abusado de uma menina e você vê a revolta popular quebrando o cara todo, pedra, pau, bicuda, pegaram um cabo de vassoura, empalaram o cara pela bunda com o cabo de vassoura. Eu já cresci num ambiente violento desde criança, cara. Por exemplo, como seu pai te corrigia, sua mãe corrigia? Eu, quando era corrigido, era com paulada, com fiozada nas costas. Eu lembro uma vez que eu aprontei lá, minha tia viu e me deu uma paulada na orelha. Imagina uma paulada aqui, paulada mesmo, na orelha e nas pernas, e sangrando? Esse bagulho de vir com o chinelo: “Para, fica quieto”, com o chinelo. Pouco diálogo.

 

P/1 – É paulada.

 

R – Tinha um tio meu que ele dava era murro na cara dos filhos. Um homem de dois metros de altura dando murro na cara dos filhos de dez anos. Você acha isso certo? Não é legal. O ambiente que eu cresci sempre foi violento. Depois fui para as ruas e ficou mais violento ainda.

 

P/1 – Você tem consciência disso, mas você busca parar com isso ou sair desse meio?

 

R – Busco. O momento agora é mais de desânimo, tal, mas a gente quer né cara, a gente busca. Busca se levantar, se erguer, mas é complicado. O horizonte não é tão amplo pra nós, né? Poucos objetivos. É aquela coisa mais de trabalhar e só.

 

P/1 – E você falou que tinha facilidade em pegar arma, tal. Como é que era isso?

 

R – Ah, contato com pessoas erradas, né? Lembra que a gente fazia aqueles pequenos furtos, assaltos, zoeiras? Então, a molecada tendo acesso a algumas coisinhas erradas aí, droga, armamentos e tal. Por exemplo, eu lembro que uma coisa bem comum, eu tinha uma facilidade muito grande em pular muros, essas fitas. Eles pesquisavam umas vítimas em potencial em alguns bairros de classe média alta e me chamavam para executar tal função, porque pra mim era fácil. A gente, tipo, roubava, furtava eletrodomésticos, jóias, essas coisas.

 

P/1 – De dentro da casa?

 

R – É. Então nisso aí a gente foi começando a ter acesso a essas coisas, tipo, você vai subindo de nível. É um nível hierárquico do crime organizado, você vai subindo de nível e tem mais acesso às coisas. Tem acesso a pessoas piores, pessoas com mais influência, então rola essas coisas, entendeu?

 

P/3 – E você já rodou, já foi preso?

 

R – Não, jamais, não tenho passagem.

 

P/1 – Mas foi quase, já?

 

R – Não, cara.

 

P/3 – Tem uma história de aventura?

 

R – Nunca pegaram.

 

P/3 – Nenhuma história de aventura que conseguiu escapar?

 

R – Uh, aventura? Sem ser sexuais não (risos).

 

P/1 – Mas qual é a sua relação com a polícia, o que você acha dela, como ela já te tratou?

 

R – Das duas formas. Umas foram truculentas, outras foram educadas.

 

P/1 – Ah, é?

 

R – Sim. Já teve cara da Rota parar: “Bom dia, tudo bem? Você poderia só levantar a sua camisa, por favor?”, sem me apontar arma, nem nada. Foi educado. E tem casos que vem GCM dando bicuda. Ou então Polícia Militar. É muito relativo, tá ligado? A opressão militar, cara, eu não perco o meu tempo, é algo que já é clichê, todo mundo já sabe disso, sabe como eles abordam. Preto, pobre, favelado ainda é pior, aí fode tudo. Eles não perguntam se eu tenho passagem, eles perguntam quantas passagens eu tenho. “Quantas passagens você tem?”, eu falo: “Nenhuma”. Como quantas passagens eu tenho? Tem que perguntar se eu tenho passagem.

 

P/3 – Eu perguntei se você tem passagem.

 

R – Mas eles não perguntam se eu tenho passagem, eles perguntam quantas passagens eu tenho. Mas todos esses atos de crime que eu cometi foram na minha adolescência. Depois dos meus 16 anos eu parei com tudo, então o menor infrator tem uma hora da vida dele que ele define o que é, se ele vai trabalhar ou se ele vai continuar aquela merda. Eu decidi trabalhar, cara. Trabalhei numa pizzaria, trabalhei numa mecânica, trabalhei com meu tio na central de monitoramento lá, que era do lado da eletrônica dele, que eu falei pra vocês que é na Rua Luís Góes, na Santa Cruz. Aí eu me acalmei bem mais, fiquei bem mais zen, aquela rebeldia toda dissipou completamente. Foi uma fase, parei de ir pra baile, bagunça, parei com tudo, me distanciei, sei lá, larguei tudo. Essa coisa mais marginal, aos meus 16, 17 anos eu parei, isso não é pra mim.

 

P/1 – Por quê?

 

R – Porque fica pior. Esse mundinho é assim, você vai andando, chega uma hora que os caras falam assim: “Você vai entrar ou não?”, e se você entrar você não sai. Tipo, você entrou, cara, já era, você vai roubar, vai traficar até você se fuder, ou ir preso, ou morrer. Ah mano, eu não quero isso pra mim não, eu quero trampar, quero ficar de boa. Comecei a trampar, comprei minhas coisas, uma vida saudável, vida normal, tranquilo.

 

P/1 – E depois desse abrigo na Mooca você foi pra onde?

 

R – Ah, fiquei um ano lá, saí com dinheiro, empregado, aí eu morei numa pensão no Centro, morei na Zona Leste um pouquinho só, dois meses. Depois namorei com essa mulher de Campinas, primeira negra da minha vida. Prefiro branca, prefiro branquinhas, cara, é muito bom (risos). E aí eu conheci minha ex-mulher, moramos por um ano e meio mais ou menos e separamos.

 

P/1 – Você separou agora a pouco, então?

 

R – Faz uns seis meses.

 

P/1 – Tá, vamos voltar um pouco (risos). Você saiu do abrigo e já foi trabalhar na pizzaria?

 

R – Não, quando eu saí do abrigo eu trabalhava na distribuidora. Trabalhei em pizzaria antes. Eu trabalhei na Rua Florêncio de Abreu.

 

P/1 – Sei, lá no Centro.

 

R – Ali tem bastante casas de bombas e também tem bastante prédios que são distribuidoras, de chineses, aquela coisa meio errada. Chinês é tudo errado, tudo é doido, nada é regularizado ali.

 

P/1 – Tudo ilegal ali.

 

R – É. Aí eu vi a polícia diferente, a polícia civil, eu via bastante. Porque Civil só calça empresário (risos). Trabalhei três anos com chineses. Aí os outros me perguntam: “Caraca, três anos com chineses?”. Eu falo: “Ah mano, não reclamo não, foi o melhor emprego que eu já tive, era de boa”.

 

P/1 – Nessa distribuidora?

 

R – Era de boa, tranquilo.

 

P/1 – Você fazia o quê lá?

 

R – Trabalhava com logística. A gente fazia entrega de mercadorias, armazenava mercadorias e tal, trabalhei três anos assim. Era bom, era pago em dinheiro. Tanto que o dia que eu saí da outra empresa saí feliz, falei: “Caralho, estou fodão agora!”. Foi, imagine, meu patrão era doido, era doido, ele. Quando eu saí da empresa eu era registrado lá, certinho. E tipo, ele pagou minha rescisão de contrato. Agora, imagine eu com seis mil no bolso com nota de 20 e de dez? Irmã, foi da hora a sensação. Blocão! Ele deu reto, assim. Eu falei: “Ah não! Não”. Liguei: “Patrícia, vamos nos ver, dar um rolê? Vamos, loirinha?”, já era, gastei pra caralho (risos).

 

P/1 – E como é que você conheceu essa mulher negra que você namorou? Qual o nome dela?

 

R – Via internet.

 

P/1 – É?

 

R – Sim, pelo Facebook.

 

P/1 – E aí vocês se encontraram?

 

R – Nos encontramos. Eu fui até lá, peguei o [Viação] Cometa lá no Tietê e fui até lá.

 

P/2 – Caramba, via Facebook?

 

R – É. Cara, já comi muita mina via Facebook e WhatsApp, não é tão difícil. Calma, eu não estou sendo machista (risos).

 

P/1 – Mas por que você foi lá? O que te chamou a atenção, foi a conversa? Foi a foto?

 

R – (risos) Caralho, mano. Curiosidade, é curiosidade.

 

P/1 – Qual é o nome dela?

 

R – Luciana.

 

P/1 – Você ficou quanto tempo com ela?

 

R – Namorando? Uns três meses.

 

P/1 – Foi em 2013?

 

R – Eu entrei no Arsenal em 2012, 2013, por aí.

 

P/1 – E a sua ex-mulher, você conheceu como?

 

R – Na casa do meu tio. Era uma festinha, uma baladinha, tal.

 

P/1 – Seu tio que você trabalhou pra ele?

 

R – Essa tinha uns 31. Sim, com ele, não era bem pra ele, era do lado, não era bem na empresa dele, eu não manjo de eletrônica. E trabalhei com ele. Ali eu tive oportunidade, conheci um engenheiro que falou: “Ô garoto, eu gostei do seu trabalho, vou te ensinar a colocar tipo CFTV”. Ele ia me ensinar uma pá de coisas, mas eu tive uma treta lá e saí. E também o tiozão era muito estranho, não gostei. Não, ele fez um bagulho que me desrespeitou e eu não gostei. Ele queria me aliciar, uma vez ele me chamou pra ir na casa dele, veio com uns papos, eu não gostei. Ele era homossexual e queria que eu mantivesse relações com ele e ele me ajudaria com dinheiro e tal, mesmo assim não gostei. Não foi legal. Não adianta, sem chance.

 

P/1 – Mas a sua ex-mulher, você conheceu ela lá na casa do seu tio?

 

R – É, uma festinha, tal.

 

P/1 – Vocês começaram a namorar depois?

 

R – Cara! Aí sim eu falo que sou gostoso, mano. Porque a gente se conheceu, transamos a noite inteira, depois de quatro dias fomos morar juntos. Tem mel na minha pica, mano. Zoeira (risos). Brincadeira.

 

P/1 – Vocês já se juntaram?

 

R – Sim, a gente já foi morar junto bem rápido.

 

P/1 – Qual o nome dela?

 

R – Ela é... Nossa, mano! A filha dela é Roberta. Te juro que eu esqueci o nome da minha ex-mulher. Acho que é o ódio, cara. Janaína. Janaína Silva, desgraçada, ela sim.

 

P/1 – Você ficou dois anos com ela?

 

R – Um ano e meio, mais ou menos.

 

P/1 – O que aconteceu no fim?

 

R – Ah, velho, aí vem minhas opiniões doidas sobre relacionamento. Garoto novo, relacionamento com mulher mais velha não dá certo. Foda. Quase rolou agressão. Nunca agredi ela, mas quase rolou. Houve treta, houve muitas brigas, insegurança de um, ciúme do outro e blá, blá. Algumas divergências.

 

P/1 – Como é o Centro de São Paulo, o que você acha? Qual é a sua relação com o Centro?

 

R – É uma droga.

 

P/1 – É uma droga?

 

R – É uma droga, uma droga.

 

P/1 – Por quê?

 

R – Porque cara (risos), é loucura, o Centro é loucura, tem de tudo. É completamente inseguro, o contraste social é incrível. Tem aqueles que são da alta, Alphaville, Tamboré, e aqueles que são os fudidos mesmo, que estão lá melados de merda na ponte; você vê de tudo. Ainda bem que o militarismo não é tão opressivo, em favela, em quebrada é bem mais opressivo, bem mais opressivo. No Centro você até pode retrucar com policial, é de boa, mas favela não rola, ele te espanca ou te mata, dane-se, não tem ideia. É muito complicado explicar. Tem de tudo, toda classe social envolvida ali, tem teatro aqui, aí tem uma biqueira do lado, é tudo muito bagunçado, o Centro. É muito estranho, muito diferente de bairro. Bairro é mais amistoso, as pessoas são mais amistosas, dá pra você chegar num vizinho e pedir açúcar. Em Centro não, eu morei no Centro. Você vai bater na porta de alguém, já olha com medo, assustado, pra você. Aquele individualismo é bem mais forte no Centro, bem mais pesado. O medo mútuo também é bem pior, então é bem difícil, bem diferente. E também tudo... Bairro você não vê nóia, você não vê usuário de crack em bairro, você não vê isso em bairro, é bem diferente também essas questões.

 

P/1 – Por que você acha que está todo mundo no Centro? Esse pessoal?

 

R – Porque no Centro tem muito assistencialismo social, principalmente. São tendas que eles disponibilizam banho, comida, itens de higiene, roupas. E também pessoas altruístas, que pensam no próximo, vêm com seus carros e distribuem comida, roupa, tudo. Então no Centro você tem tudo. Em bairro não é tão assim, é menor. Eu não conheço muito, na minha quebrada eu não conheço essa parte de ruas, porque na minha quebrada hoje eu vivo em casa, então tinha minha vida social normal.

 

P/1 – São Paulo você conhece mais que partes? Onde você nasceu, cresceu?

 

R – No pedaço da Zona Sul ali, que é muito grande também, um pedacinho ali eu conheço um pouco.

 

P/1 – Conceição, Jabaquara, Santa Cruz...

 

R – Sim. Conceição, Jabaquara, Jardim Miriam, Jardim Luz, Vila Santa Catarina, Washington Luís, Congonhas, Diadema, esses lugares (risos).

 

P/1 – E o Centro?

 

R – O Centro eu conheço bastante também.

 

P/1 – Mais recentemente?

 

R – Ah, quando eu saí de casa, com 18 anos... Faz uns quatro anos que eu conheço o Centro assim, na real, então não é tão recente assim não.

 

P/1 – Você tem alguma história que você passou no Centro que te marcou?

 

R – Marcar?

 

P/1 – É, com qualquer aspecto, bom ou ruim.

 

R – Não cara, é só isso, ou então... No Arsenal foi bem difícil, porque lá são mil e 300 homens, então a minha convivência lá foi bem marcante, bem diferente, bem esquisita.

 

P/1 – Você acha que isso fez você pensar em alguma coisa, esse choque?

 

R – Não, quando eu estive lá eu me adaptei bem, nunca sofri nenhum tipo de represália ou agressão lá, nunca. Mas eu fui trabalhar tranquilo, paguei pensão, comprei meus móveis e vivi uma vida normal. Saía pras baladas também, zoava, tinha uma vida bem comum. Depois fui morar com minha ex-mulher e acabou isso aí.

 

P/1 – Vocês moravam onde?

 

R – Jabaquara também. Ela morava na mesma favela que eu cresci, na mesma comunidade que eu cresci, só que quando eu voltei pra lá já era CDHU, já era prédio, não era mais horizontal, era vertical (risos), que não muda porra nenhuma (risos).

 

P/2 – E sua família continuava lá?

 

R – Alguns sim.

 

P/2 – Como é que foi voltar pro seu bairro?

 

R – Eu não falo muito com a minha família, eu não tenho contato com eles. Minha família... Eles são muito egoístas, são muito individualistas, é cada um por si. É... Foda-se. Minha família não é aquela família carinhosa que acolhe, ajuda, abraça, dá beijo, não. Você virou homem, se vira. Minha família é mais ou menos assim. Então é diferente.

 

P/1 – E como é que você conheceu o É de Lei?

 

R – Ah, um pessoal me apresentou, um amigo meu, um colega em comum me apresentou. Fui lá, gostei do espaço.

 

P/1 – Que tem um problema que tem um pessoal do É de Lei aqui, né?

 

R – Tranquilo.

 

P/3 – É, não pode falar mal (risos).

 

R – Não, posso, não tem problema nenhum. Críticas e elogios tem em todo lugar. Ninguém faz um trabalho 100 por cento perfeito, impossível. Nem Jesus agradou a todos, mano (risos).

 

P/1 – Você falou que tem muitas dessas coisas que ajudam no Centro. Agora, como é a ação? Tem uma diferença entre elas, imagino.

 

R – O quê?

 

P/1 – Tem uns que só dão comida, tem abrigos...

 

R – Sim, sim.

 

P/1 – Você acha que, por exemplo, eu ia chegar assim... O É de Lei é um pouco diferente ou é igual esses espaços?

 

R – A política do É de Lei não é filantrópica, é diferente. Eu creio que não é filantrópica.

 

P/1 – Por quê?

 

R – Acho que filantropia é no sentido de prover as necessidades básicas, eu acho que o É de Lei não provê necessidades básicas, ele provê uma ajuda da pessoa, ela... Sei lá, reduzir o consumo excessivo de drogas, é reduzir o contato com ambientes violentos, tentar conviver com aqueles que são semelhantes, na mesma situação, é mais um barato assim, no meu pensamento. Não é aquela coisa, eu ir lá no É de Lei e: “Ei, me dá uma blusa” “Me dá uma coberta”, não é bem assim. O trabalho deles já é um trabalho diferente. Eu acho que lá é mais para quem é usuário de drogas em si. Alguns não são usuários mas a maioria é. E alguns que estão em vulnerabilidade social também, se encontram nas ruas, em ocupação, em invasão, sei lá.

 

P/1 – E você acha o quê, você acha legal esse objetivo?

 

R – Eu acho legal, é interessante. Mas mesmo assim, a única crítica que eu tenho é que não abrange tantas pessoas, isso que é o complicado. Você faz um trabalho legal para 30, 40, 50, cem pessoas, não interessa, é legal, mas tipo, o campo de afetados que a sua luta promove é muito grande. Que nem, eles lutam muito contra o interesse antimanicomial, por exemplo, mas é uma questão muito grande, é muito amplo. Um porque a população comum em si não tem muita informação sobre isso, ninguém para pra pensar em louco, velho! Desculpa, ninguém para pra pensar. Não estou falando de uma forma pejorativa, mas ninguém para pra pensar nisso. Um dia alguém está lá no ônibus: “Porra, caraca, e os loucos?”, ninguém pensa nisso, é muito difícil, é uma questão muito escondida, uma questão que precisa ser mais divulgada, porque nem todo mundo fala. Os caras falam de trabalho escravo, só lembra de preto, negro, pardo. Não, trabalho escravo abrange muitas outras etnias e muitas outras classes também. Bolivianos, chineses, em Bangladesh, em Taiwan. Olha o tênis, tem muitos tênis que estão lá. Taiwan. Porra, você acha que quem fabricou isso aqui não se fudeu? Era um monte de pessoas lá num balcão enorme, ou então esses bolivianos que vivem nessas fábricas de costura que trabalham num cárcere, que eu acho aquilo desumano. Então abrange muito, e isso é o complicado, as pessoas terem uma visão, um conhecimento sobre essas questões, pela luta dos direitos de alguns e de outros também, então é bem difícil.

 

P/1 – Como são as pessoas que frequentam a É de Lei? Você fez amigos lá ou parceiragem?

 

R – Não muitos. No começo é difícil, é difícil a convivência. Mas alguns são legais, alguns a gente tem uma influência legal; não todos, mas alguns são legais sim. Tem uma dificuldade grande, é uma luta diária, conviver com essa... Certa classe é difícil, muito difícil.

 

P/1 – Explica um pouquinho pra mim como é que é.

 

R – Primeiro tem o preconceito de classes sociais. Eu acho que o pior mal do ser humano é a merda do preconceito, e o preconceito é em todas as áreas. O mesmo preconceito que uma mulher ou um homem, que nem eu falei pro Marcelo quando a gente estava vindo aqui na rua aqui atrás, tipo, eu fui atravessar a rua, a mulher me olhou com uma cara... Ela me olhou de forma agressiva. Eu pensei assim – brincando já, tentando já traduzir o que ela pensou –, ela pensou: “Caralho, o que esse crioulo faz aqui?”. É um pensamento normal, me olhou com uma cara muito agressiva, como se eu estivesse no bairro errado, no lugar errado, num lugar onde eu não pertenço. E é por isso também que eu nunca frequentei alguns lugares que eu já falei pra vocês. Por exemplo, nunca comi dentro de um McDonald’s, não me sinto à vontade, não gosto do jeito que as pessoas me olham. Uma vez eu fui comer, me olharam com uma cara feia, não gostam. E de onde eu venho, da educação que eu tive, por exemplo, isso é o ruim. Por exemplo, você já foi no Starbucks, já foram num Mc, num Burger King. Você vê muitos negros de favela lá dentro? É difícil. Porque é assim, isso que é uma educação muito foda nossa. Por exemplo, é você estar dentro de um Burger King e te olhar mal, ou você me agride verbalmente com uma palavra racista, tal. Se é um negro de classe média alta ou de classe alta, faculdade, até que ele pode ali debater com você, tal, chamar a polícia, racismo, ou então ele vai ficar calado. Nós de favela não, eu pego você pelos cabelos, se você é mulher ou não, te espanco lá mesmo, vou preso e não estou nem aí. Então a gente faz merda. O negro não tolera isso, é intolerável para nós, entendeu? Teve casos de um moleque... Da gente estar passeando, chamou um dos nossos moleques de macaco. A gente foi, encheu de porrada. O moleque pegou uma faca lá, rasgou a mão dele aqui assim. A gente responde com violência, velho. Tipo: “Macaco o quê, mano? Quem é? Quem você está chamando o quê? Fala de novo”. Começa a pancadaria, a gente não tem diálogo. E também aquela coisa, a gente não se sente do ambiente... Sei lá, nunca pensei, pra mim é inviável, tá ligado, ir ali pra Paulista jantar num restaurante ali, pra mim é inconcebível, vou fazer o quê ali? Não pertenço àquele lugar, tá ligado? Então não dá, é bem difícil. Bem difícil se a gente for olhar pra esse lado.

 

P/1 – Mas entre você e o pessoal do É de Lei a relação é difícil por isso, você acha?

 

R – Não, não, a relação é difícil porque é conflito de opiniões, é foda. Mas estamos bem sim, alguns sim, alguns não, isso é normal, é coisa pessoal mesmo, não tem nada a ver com o espaço, mas a gente se dá bem, sim.

 

P/1 – Relativamente está rolando.

 

R – Uns aqui, uns ali, normal. Nós sobrevivemos.

 

P/1 – Você acha que dá pra rolar uma camaradagem, uma coletividade assim ou é difícil?

 

R – Coletividade em que sentido você está dizendo?

 

P/1 – De construir essa coisa junto.

 

R – União, tal, é difícil.

 

P/1 – É difícil?

 

R – Entre nós é difícil, é bem difícil entre nós, bem complicado. É aquela coisa bem tribal, vocês concordam? É uma idiotice, uma coisa bem tribal. Portugueses chegaram ao Brasil tal, colonizaram, sei lá o que eles fizeram com os índios. Em vez dos índios se unirem contra os portugueses, não, os portugueses matavam os índios, os índios se matavam entre si mesmos, uma tribo matava a outra, aquela disputa tribal e aquela merda. Que nem o Rio lá, a mesma coisa. Tem facções que matam entre si e a polícia mata as duas facções. É um bagulho muito burro, o ser humano é complicado. Então entre nós é mais ou menos isso, cara, bem tribal mesmo.

 

P/1 – Ou até mais individualista, você acha?

 

R – Bem individualista, bem individualista. É aquele contraste que nós brincamos, tipo, se a pessoa for pobre demais ela não te dá nada. Se ela for pobre, ela te dá. Se ela for rica demais também não te dá nada. Entendeu qual é o sentido do bagulho? Sério, sério mesmo. Quando eu era criança e ia com a minha avó paterna pedir nas ruas – a minha avó paterna pedia dinheiro na rua –, tem pessoas que nem vocês, que tudo mal informado fala: “Ó, que senhora, que dó”, minha avó bem velhinha, 70 anos. “Que dó dela, vou dar uma dinheiro pra ela”. Negona mesmo, baiana, pedia dinheiro no farol, tal. Aí todo mundo dava dinheiro, minha avó conseguia uns 500 reais por dia, mano, absurdo, dinheiro pra caralho! Trabalhador não conseguia um dinheiro desses, 50 contos por dia! Sabe o que é 500 contos por dia? Pô! O salário mínimo naquela época era quanto? De 2001 a 2006?

 

P/1 – Seiscentos reais.

 

R – Pô, ela conseguia 500 contos num dia, pedindo nos carros em Moema, no Trianon, nuns bairros legais. E tipo, uma lógica que a gente fazia assim: um carro muito fudido, não. Aqueles carrões também não. Porque a gente sabe que o cara ricão não dá porra nenhuma. Então a gente ia num carro mediano, um Corsa, um Astra, tal. Agora, um Aston Martin não (risos). Era bem assim, era engraçado. Essa coisa rola muito no nosso meio também, rola essa mesma coisa.

 

P/1 – E como é que está hoje? Você falou um pouquinho que está meio desanimado.

 

R – Cara, depois que eu separei da minha ex-mulher desanimei total. Perdi meu emprego, gastei todo meu dinheiro, uma transição da vida, uma fase complicada. É.

 

P/3 – Você está morando onde?

 

R – São Paulo é grande? É minha casa (risos). Eu durmo em calçadas, durmo em bancos, durmo em qualquer lugar, não importo, não.

 

P/3 – Mas em que região, mais no Centro?

 

R – Mais no Centro, mais no Centro.

 

P/2 – Você dorme com uma banca ou sozinho?

 

R – Ah cara, eu durmo sozinho. Está uma banca do lado, mas durmo sozinho, tá ligado? Tem uma união em si, tem algumas malocas, mas eu não gosto de maloca porque não rola, rola muita merda, rola muita coisa errada, muita coisa errada.

 

P/2 – Falsidade.

 

R – Falsidade é o menor dos males, cara. Rola treta, briga, morte mesmo, rola de tudo um pouco. Rola muita coisa errada, sério mesmo.

 

P/1 – Mesmo assim, quais são seus sonhos pro futuro? Você tem algum plano hoje?

 

R – Não, infelizmente não. Não sei, cara, tipo, dá um desânimo mesmo. Assim, plano em si, não, mas eu tinha um objetivo que eu consegui, mas eu perdi a vaga. Eu queria muito aprender a tricotar, fazer crochê, fazer boné, artesanato, fazer malabares, queria muito aprender essas artes de rua mesmo, porque eu queria viver essa vida ainda, eu queria viver doidão. Eu conheci uma galera, tipo, as minas e os caras saem por aí fazendo os bagulhos na rua mesmo, ganhando dinheiro e zoa, curte. Só bebida, drogas e sexo, não tem vida melhor. Zoeira (risos). Eu queria viver assim, mano. Eu consegui uma galera que ia me ensinar isso, só que eu perdi a vaga, fui atrasado no dia. Eu fiz umas pesquisas, mas é difícil encontrar, ter acesso.

 

P/1 – Então o plano é mais aprender alguma coisa agora?

 

R – É. Aí é complicado. De vez em quando surge uns trabalhos informais, eu vou, consigo um dinheiro, tal, coisa pequena, só pra manter mesmo. O ruim é que o assistencialismo acomoda, tipo, eu tenho tudo de graça já, eu não me importo; roupa, tudo de graça, eu não ligo não. Eu sei onde conseguir roupas, sei onde conseguir tênis, sei onde conseguir tudo, dou um jeito pra tudo. Mochila, foda-se, eu consigo tudo, então vou à procura.

 

P/1 – E tem alguma coisa que você queria que eu perguntasse e não perguntei?

 

R – Não, tranquilo.

 

P/1 – Como é que foi falar um pouco com a gente?

 

R – Foi legal. Eu gostei da pergunta dela. Ela falou do meu cabelo, foi da hora (risos). Essa questão da aceitação negra é importante.

 

P/1 – Isso eu estava quase esquecendo de perguntar. Como é que foi, você tem contato com esse movimento negro?

 

R – Não. O movimento negro é muito segregado e restrito, cara. O movimento negro também, o que acontece muito é que eles falam assim, se eles veem essas minas militantes, feministas, os caras também, tal, você vê eles falando: “Ah, a luta pelo progresso negro” e a porra toda. Velho, não é bem assim que funciona, é uma luta pelo movimento negro de elite, porque entre os negros entre si, velho, o preconceito social é muito grande. Tanto que o maior episódio de preconceito que eu já sofri em minha vida foi por outra negra de classe social acima da minha, não foi por brancos. Eu não me lembro de ter incitação de racismo por branco contra mim, a não ser a polícia, claro. Então é muito doido também, não vem com esse papinho lá de que estão lá as minas lutando pelo negro lá e você vê algum favelado de merda lá no meio, você não vê, é uma coisa muito elitizada. Então para eu ter acesso a esse movimento, primeiro, ou vou ter que persuadí-los ou vou ter que me fingir de uma coisa que não sou. Que nem uma vez, eu troquei ideia com uma mina, ela veio trocar ideia comigo, pá, ela perguntou já: “E você, tal, tal, tal”, só porque falei que não tinha ensino superior ela já desanimou, tá ligado?

 

P/1 – Sério?

 

R – Uma negra, tal, estava fazendo mestrado de Direito, o caralho. Tipo, você vê ali um preconceito bem forte de forma social. Então...

 

P/3 – E como você acha que poderia acontecer pro movimento negro ter a ver com os pretos da favela?

 

R – É difícil, é difícil, eles não lutam pela mesma coisa. Primeiro que os negros da favela não têm informações sobre seus direitos, mas sabem sobre seus deveres. Não sabem de sua história, suas raízes, e outra, eles não reivindicam, é um povo que sofre calado e já era, foda-se. Não lutam. Você não vê eles fazendo protesto contra passagem de ônibus, ou contra isso ou contra imposto. É um povo que é manipulado de uma forma que eles aceitam o que der e vier, entendeu? O povo mais fácil de um político ludibriar, persuadir e manipular são os pobres. Tem povo melhor pra manipular do que os pobres? Aqueles que não têm formação de porra nenhuma? Chega lá pra eles e fala: “Pô, você sabe o que é Lava Jato?” “Ahn?” “Sabe o que é Pasadena?” “Ah?” “Sabe o que é SwissLeaks?” “Ah?”. Nada, eles não sabem. Pergunta pra eles: “Quem é Sérgio Moro?” “Não sei” “Quem é Cunha?” “Não sei”. Porra, não sabe quem é nada. “Quem é Teori Zavascki?” “Não sei”. Eles não sabem de política. Primeira coisa, acho que tem pessoas que são, por exemplo... Acho que para uma pessoa ter um conhecimento de que ela está sendo violada ela tem que conhecer um pouco sobre política, tem que ter informação sobre a manipulação da mídia, principalmente de alguns meios de comunicação.

 

P/1 – História, né?

 

R – É. Então eles não têm formação, um povo muito fácil. Então o negro da periferia em si e o negro tipo de classe alta, universitário – pra ser polêmico –, não são da mesma etnia, não são. Não se veem da mesma etnia. Um negro rico e um negro que é de favela, eles não se enxergam como sendo da mesma etnia. Tipo, se entrar um neguinho boy na favela, é zoado do mesmo jeito, do mesmo jeito. E não se engane, essa visão de que é negro favelado é mentira. Por exemplo, eu já morei em mais ou menos umas cinco favelas, e eu te pergunto: “Porra, quais são os maiores criminosos das favelas?”. Vocês vão dar risada com a minha resposta, porque a maioria dos bandidos em favelas, na verdade são brancos, não são negros. São brancos, cara. Eu consigo apresentar pra vocês um amigo meu que rouba pra caralho, e o moleque tem mais cara de boy do que você, mano. É loirinho, olho azul mesmo. Ele põe uma roupinha da hora, você cumprimenta ele fácil em qualquer lugar, e você nem se toca que ele é ladrão, que ele trafica, etc. Já eu você pode até supor, eu não sei. Ele não, ele já entrou em alguns lugares, faz merda. Então a impunidade é muito grande.

 

P/1 – Por que ninguém para ele, né?

 

R – Aí os outros falam: “Mas os caras gostam muito de esteriotipar, aquele ladrão é negro em favela”. Mentira. Isso que é engraçado, isso que é mais engraçado ainda.

 

P/1 – Mas engraçado, porque o movimento negro diz que quer dar essa informação pro povo dele, em geral.

 

R – É muito elitizado, eles têm que parar de elitizar isso. Primeira coisa –  que nem eu estava debatendo assim – , eles falam muito de empoderamento. Empoderamento... Não, é legal, você ter poder é legal. Aí parece uma disputa entre o negro e o branco. Não pode ter disputa. “Ah, empoderar, empoderar”. Como assim, empoderar? Empoderar é capitalismo. Só isso é empoderar? Não tem outras questões? O que afasta muito é esse empoderamento, já afasta muito da favela, porque se eles forem falar de empoderamento em favela só piora, porque o que faz o moleque roubar muito é, geralmente, empoderamento. Você acha que traficante não é empoderamento? Você ter armas e fazer um assalto em banco não é empoderamento? É uma forma de poder, cara. É um poder ilícito, mas é uma forma de poder. Então o que o movimento negro de uma classe elitizada pensa reflete totalmente diferente na favela. Por exemplo, eu não sou contra o feminismo, eu não sou contra, mas por exemplo, que nem uma menina falou assim: “Ah, mas a mulher tem que ter liberdade de sair com quem quiser, transar com quem quiser, fazer o que ela quiser”. Eu falei: “Sim, mulher pode ter liberdade pra isso mas tem certos lugares que as consequências disso são graves”. Porque você chega numa favela e a menina ouve isso, ela não tem discernimento. Você fala assim: “Eu sou mulher, mano, meu corpo, minhas regras. Eu posso sair com quem eu quiser, posso curtir como eu quiser, com a pessoa que eu quiser”. Sim, mas você vai pra favela, uma menina de 12 anos vai querer fazer a mesma coisa. E como é uma menina de 12 anos pensando assim? Fazer o que quiser, beber o que quiser, usar a droga que quiser. Você entendeu como a forma é bem diferente, de impacto das ideias? É bem complicado. Vocês já viram noticiário, as meninas dançando nuas no meio do baile e os outros dando tiro de rajada pro alto, o bagulho todo bagunçado. Porque é uma liberdade de expressão, não é? Uma democracia, não é? Que você tem direito de ir e vir, fazer o que quiser, basicamente. Em alguns lugares isso funciona bem, em outros lugares nem tanto. Tem uma diferença muito grande. Então o movimento negro pra mim, eles não me representam. O movimento negro aqui não me representa, eles não me representam, eles não falam sobre mim. E eu leio bastante blog sobre isso, acho legal. Mas não me representam, cara. Você quer um bagulho que por exemplo assim, um dos erros que eu acho muito engraçado. “Vamos lutar contra o preconceito, contra isso, contra o capitalismo”, a porra toda. Mas olha só, por exemplo assim, uma pessoa pede pra você se apresentar. Aí você se apresenta, né, por exemplo: “Eu sou Marcele Moraes Colutti. Formada em não sei o quê, mestrado de não sei o quê, doutorado de não sei o quê, trabalho em não sei o quê”. Você viu como é a sua definição de pessoa? Você entendeu como é? Você não define a sua pessoa, tá ligado? Você define o que você é e o que você tem. Que nem, você vai dar uma entrevista, por exemplo, está lá: “Meu nome é Ricardo não sei o que”, mas está sua profissão. Então, cara, isso determina você ou a sua forma de contribuir com a sociedade, a sua forma de contribuir com o capitalismo é o que você é.

 

P/1 – A posição.

 

R – É, a posição social é muito importante, é muito importante. Isso é uma coisa muito complicada, essa disputa.

 

P/1 – E eles se apresentam assim.

 

R – Não, não, é normal isso, nunca reparou? Vê numa revista, está lá o nome da mina, editora, presidente de não sei o quê. Isso é bem comum, as pessoas não se tocam que é meio absurdo esse bagulho, é uma forma de você impor que existem pessoas melhores que as outras. Está lá: “Marcelo Gomes não sei o quê. Ele é formado em Psicologia na PUC e trabalha atualmente na É de Lei, uma ONG de Redução de Danos”. Da hora, o cara tem um currículo, né? Aí vem um cara tipo: “Ah, eu sou Luís Gomes tal, eu sou pedreiro”, tá ligado? Você viu que ali é uma forma de submeter alguns, subjulgar outros, enaltecer outros. Isso já é um erro que eu acho muito foda na sociedade. Então querendo ou não, esse bagulho de igualdade racial, igualdade social, dane-se, nós contribuímos para nunca acontecer isto, nós contribuímos diariamente. E muitas vezes a gente não se toca, a gente não consegue enxergar isso. Acho que todas as pessoas têm preconceito, é fato, muitas não conseguem enxergar quais, mas todos nós temos.

 

P/1 – Isso tem uma desconstrução grande, né?

 

R – Não, porque assim. Coloca o seu meio social, qual o seu meio social? Quantos negros têm no seu meio social? Quantos asiáticos têm no seu meio social? Quantos umbandistas têm no seu meio social? Quantos cristãos têm no seu meio social? Então percebe-se que o preconceito é fundamentado, é muito enraizado, mais do que pensamos. Não existe uma democracia completa. Você falar: “Eu não tenho preconceito, mano”. É impossível. Até o nosso meio social é bem seletivo. Você, você, você, você... Até eu, nós somos extremamente seletivos. E nós não percebemos isso, mas é um fato. Então a desconstrução do preconceito, na minha opinião, é quase utópica, é uma utopia isso, porque crescemos assim. E quando não é um preconceito racial, social, ou é pela roupa, ou é pelo tênis, ou é pelo cabelo, é pelo olho. O ser humano tem preconceito com qualquer merda. Porque tem bigode... É qualquer merda a gente tem essa construção de grupos. Um é skatista, um é gótico, um é roqueiro, um é pagodeiro. Você viu? A gente necessita disso, é engraçado.

 

P/1 – Colocar em caixinhas, você acha?

 

R – É, cara! Em pequenos grupos. É uma forma de preconceito também, é uma forma de você selecionar. Quantos negros tem na sua família? Quantos primos negros você tem? Quantos primos asiáticos você tem? Meu, é... Quantos primos indígenas você tem? Porra, você entendeu como é o bagulho, como o nosso sistema é tão... Mano, é tão foda que nem percebemos. Se você parar pra pensar no início de tudo, é muito pior.

 

P/1 – Mas você vê alguém ou alguma corrente, ou algum livro, alguma coisa que inspira, que você acha certo, que seria pelo menos um caminhozinho pra mudar isso que você acabou de falar? Você acha que tem alguma coisa?

 

R – Não. Todos os livros, na verdade, perpetuam isso. Até mesmo o autor se autodefine ali, já. “Ah, meu nome é Stephen King, sou formado em não sei o quê, sou de não sei o quê. Tenho tantos prêmios”, Pulitzer, etc. Isso é uma coisa globalizada, cara. É aquela coisa assim, você tem que ser bem sucedido. Felicidade? Foda-se felicidade, você tem que ser bem sucedido. Então como é que você vai ser bem sucedido? O que é ser bem sucedido? Cara, hoje em dia ser bem sucedido é você ter dinheiro, foda-se a sua formação, é você ter dinheiro.

 

P/3 – Como seria uma apresentação sem ser por meio do que você tem? O que seria uma apresentação falando o que você é? Tipo assim: “Meu nome é Gabriela, eu gosto de macarrão”.

 

R – Poderia ser! Meu nome é Gabriela, tenho tal idade, tenho 28 anos, nasci em São Paulo, sou paulistana. Já era, essa é a minha apresentação. Não me importa a sua profissão, não me importa o que você tem, me importa o que você é. O seu caráter é importante. O ser é uma coisa, o ter é outra. Só que hoje em dia o ter é muito mais importante. O ser, dane-se o que você é, dane-se o que você é.

 

P/3 – É que é tão misturado, né, o ser e o ter, que como é que você se apresenta sendo só o ser? Até você falar: “Nasci em São Paulo, nasci em tal bairro”, pronto, já entra uma questão de classe.

 

R – Sim, já entra uma questão de classe também.

 

P/3 – Aí você fala que bairro você nasceu...

 

R – Não, eu falei na verdade em cidade onde eu nasci, só. “Eu sou Guilherme, tenho tal idade, nasci em tal cidade, sou paulistano”, e só. Eu coloquei paulistano. Então é muito grande a capital paulista pra você tentar dizer: “Ah, ele nasceu no Morumbi ou nasceu no Jardim Romano? Ou Guaianazes? Ou Itaquera, Cidade Tiradentes?”. Cidade Tiradentes é pesado, eu acho que é um dos bairros mais perigosos de São Paulo. Tem uma brincadeira em Cidade Tiradentes que é assim: de cada dez pretos que você vê lá, oito comete crimes (risos). É uma brincadeira muito pesada, mas é verdade lá. Lá o crime domina muito. Já fui pra lá sim, mas nunca morei lá, é muito feio. É brincadeira.

 

P/1 – Vocês têm outra pergunta pra fazer? Tranquilo?

 

P/3 – Acho que não.

 

R – Já era.

 

P/1 – Está certo.

 

R – A questão sempre vai ter, isso aí... Eles falam brincando: “Ah, vamos fazer isso”. Eu falo: “Cara, lutar por algo que vai demorar muito, eu não tenho paciência pra isso”. Não tenho paciência pra isso.

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