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História

Minha vida com o mar

História de: Alexandre Guimarães Só de Castro
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 27/08/2007

Sinopse

Alexandre Castro nasceu em 1968, na cidade de Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Biólogo, participou de espaços de discussão em defesa do meio ambiente como a ECO92 e Greenpeace. É um dos fundadores da base comunitária Ilhas do Brasil, realizando um trabalho como empreendedor socioambiental. Alexandre conta que seu interesse por trabalhos de planejamento e organização iniciou-se já nas infância, organizando as brincadeiras da turma. Em sua vida acadêmica realizou inúmeras pesquisas sobre a vida marinha, chegando a viajar a Antártica. Como biólogo, Alexandre nos relata seu interesse em trabalhar a relação do homem com a natureza, possibilitando a conservação do meio ambiente através da relação do espaço com as comunidades. 

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História completa

P1 – Então, vamos lá Alexandre, só para a gente registrar, você fala seu nome completo, local e a data de nascimento.

R – Meu nome é Alexandre Guimarães Só de Castro. Eu nasci em 14 de outubro de 68, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul.

P1 – E você cresceu em Porto Alegre?

R – Sim, eu tenho isso do lugar, né? Eu nasci, morei minha vida toda em Porto Alegre, apesar de viajar muito durante a infância, a adolescência e tal. Mas sempre tive em Porto Alegre uma referência muito grande. Porto Alegre é uma cidade muito diversa, então eu nunca tive dificuldade em circular em diferentes ambientes. Mas na minha vida toda, Porto Alegre é uma referência importante.

P1 – E o nome dos seus pais? O que eles faziam?

R – O meu pai se chama Sérgio Castro. Ele foi, durante muitos anos, um executivo de uma grande companhia. E no meio da vida profissional dele houve uma virada grande e ele acabou tendo que ir para outros caminhos. E muito cedo, ele começou a trabalhar com, trabalhou na Caixa Econômica Federal, no setor financeiro, né? Na área financeira. Ele é economista. Agora ele ajuda a cuidar dos netos. E a minha mãe era uma pessoa muito agregadora. Ela é uma referência importante na família e, sem dúvida, tem uma influência na maneira minha e dos meus irmãos de enxergarem o mundo. Ela era modelo na década de 60, uma coisa que não era comum... Era desfile que se chamava, manequim era o nome disso. E depois ela era dona-de-casa, mas inventava coisas para não ficar só nas lidas domésticas. Ela teve quatro filhos, então era difícil fazer outra coisa, mas ela inventava outras coisas. O fato é que com 43 anos, ela faleceu. Eu tinha 18 anos, meu irmão mais novo 15, e os dois mais velhos, vinte e poucos anos. E esse foi um fato marcante para o nosso relacionamento e ao longo das nossas vidas, até hoje.

P1 – Como que era a convivência desses quatro irmãos?

R – A família tinha essa história de se reunir de fim de semana em casa de avó. Essas coisas eram bem legais. E quatro irmãos, quatro irmãos homens. Era divertido porque a gente aprendia rápido as coisas. As trocas, enfim, era divertido, mas também era confuso. Porque, imagina, nunca se sabia exatamente para quem as pessoas estavam se referindo. Estava todo mundo junto, mas era legal. Era legal. Era quase meio time de futebol, então a gente sempre tinha o que fazer.

P1 – E vocês cresceram em um mesmo bairro, ou passaram em vários bairros?

R – Não. A gente tinha uma referência local bem importante. O lugar que eu morava tinha uma vista para o rio Guaíba, então essas imagens do pôr do sol no Guaíba sempre ficaram na minha cabeça e no Guaíba tinham muitas ilhas, e eu sempre fui muito curioso, né? Eu sempre tinha muita curiosidade em saber o que acontecia naquelas ilhas, desde muito pequeno, seis, sete anos. E a gente sempre teve essa, eu tive o privilégio de morar em casa. Então eu sou um pouco claustrofóbico nesse sentido, eu preciso enxergar o horizonte de onde eu esteja. Eu resisto por algumas horas, talvez dias, mas planejar a vida de uma outra forma é difícil.

P1 – Mas você chegava a pensar a ir para essas ilhas já nessa época? 

R – Sim, essa empresa que meu pai foi presidente durante muitos anos, era à margem do rio Guaíba. Eles construíam navios e era uma empresa muito grande. Tinham 2000 funcionários. E eu me lembro, muito pequeno, de ir para lá, ver construírem aqueles navios, e a gente então andava nessas embarcações, fazia meio que parte da nossa infância, da minha infância. E esse ambiente, assim, onde a navegação, a água, o acesso aos lugares, isso ficou um pouco incorporado, eu acho. E sim, a gente ia para esses lugares, a gente ia para essas ilhas, a gente passeava bastante. Era bacana.

P1 – Fala um pouco da Associação dos Detetives.

R – Pois é. Isso aí foi uma surpresa para mim, porque isso aí ficou esquecido na minha cabeça. Não estava, assim, presente. Foi em um momento de resgate da infância mesmo, fazendo um exercício mesmo. Tentando lembrar como eram as coisas, que eu comecei a ver que eu tinha atitudes muito mais presentes e que marcaram a minha forma de ser. E que eu havia deixado para trás. Por exemplo, o fato de ser a pessoa que mobilizava os meus amigos para ter o que fazer. A gente sempre se encontrava e eu tinha um papel de estimular esse processo. Quando eles acordavam, sempre tinham coisas planejadas para a gente fazer. Algumas davam certo, outras não. E isso já era uma rotina, as famílias, os vizinhos já sabiam que isso acontecia, que eu era assim, e tal, enfim.

P1 – Você comentou que você passava logo cedo na casa deles.

R – Eu acordava às 6 horas da manhã e eu não tinha noção de que no final de semana as pessoas queriam descansar, porque eu não tinha essa sensação. Então, eu passava todos os dias. Se era fim de semana ou não era, para mim era todos os dias. Meus pais morriam de vergonha, mas o que eles iam fazer? E, até que, com seis anos, eu resolvi montar uma organização. Pedi ajuda, me lembro, para fazerem as carteirinhas e o nome da associação era Associação dos Detetives Secretos Metropolitanos. Mas na época eu não sabia, não tinha a menor idéia do que era metropolitano, mas eu achava bonito, devia ser algo importante, então vamos colocar. E tinha, eu acho que tinham uns sete ou oito garotos que faziam parte dessa associação. Eu me lembro, tinha carteirinha e tudo. E o que era o trabalho dessa organização do terceiro setor? Era andar pelo lugar e conhecer o lugar. A gente ia a lugares que, ali mesmo perto, que as pessoas que moravam ali não sabiam. E sempre tinha coisas ligadas à natureza, sempre era em algum bosque, algumas coisas assim. A gente subia nos muros das casas para ver o que as pessoas tinham no quintal. Se tinham bichos, se tinham frutas. Porque também a gente pegava as frutas, é óbvio. E era divertido.

P1 – Teve algum caso de mistério que vocês investigaram?

R – Tinha muitas coisas ligadas a mistério porque algumas casas eram muito fechadas, entendeu? Então, eu me lembro, tinha a Dona Dadá, em uma casa, e que ela furava as bolas que caiam lá dentro. Era uma coisa incrível. Então tinham essas coisas, então a gente dizia: “A Dadá está vindo aí”. Então a gente tinha que correr, porque se ela furava as bolas de futebol, ela devia ser muito má. Então tem essas coisas de mistério, sim. E tinha aquelas coisas de criança, tinham testes para ficar na Associação dos Detetives Secretos Metropolitanos - ADSM. Tinham critérios. Os critérios eram, claro, atividades esportivas, físicas, e coisas, mas também tinham essas provas de resistência, assim no campo de futebol a noite tinha uma luzinha, uma luz, para a gente poder ficar jogando até mais tarde. Só podia entrar na ADSM quem tinha coragem para ficar por último para apagar a luz, porque todo mundo saía correndo quando era noite. E a luz ficava acesa, não podia. Então alguém tinha que ir lá de noite apagar a luz e encarar voltar no escuro, né? Tinham essas coisas de criança, que às vezes é até um pouco cruel.

P1 – Quem que era essa turma? Você se lembra do nome das pessoas?

R – Sim, sim. Era o Martin Roras, o Quico, que agora são empresário, advogado. Tinha o Carlos, que o apelido dele era sabiá. O Felipe, o Fabrício, que são advogados também. Enfim, seguiram caminhos, né? A gente se encontra de vez em quando, dá risada, mas enfim.

P1 – Teria uma garota que participava dessa turma?

R – Tinham garotas. Tinham garotas, mas eram menos. Eram menos garotas. Ainda tinha aquela história de, tinha uma garota que jogava futebol conosco, a Fátima, até encontro de vez em quando com ela, já encontrei duas vezes aqui no sul da ilha. Mas tinham menos meninas. As meninas ainda estavam, enfim, circulavam menos, ficavam mais em casa mesmo. Ainda tinha um pouco isso por lá, sabe? Ainda tinha um pouco dessas coisas.

P1 – E escola, Alex?

R – Escola? Escola, eu gostava da escola, né? Eu sempre gostei de ir à escola, mas eu gostava da escola por essa função toda, sabe? Dessa história toda. Eu me lembro, na escola, Colégio Maria Imaculada, também tudo perto, assim, tal, colégio de freiras. Também tinha um mato. Na verdade, se eu descesse a minha casa por esse mato, eu chegava na escola, porque tinha um caminho por dentro do mato. E o que a gente fazia? Tinha um cipó gigante em uma árvore, no morro, assim. Então o que a gente mais gostava de fazer nos intervalos era se balançar nesse cipó. Isso fica direto na minha cabeça. Eu só parava de fazer isso quando o sinal tocava, para voltar para a aula. Porque como tinha um penhasco, o cipó era aqui, a gente se agarrava no cipó e ia e lá embaixo era muito alto. Era muito perigoso, não devia estar fazendo aquilo. Devia ter alguma cerca ali, para não permitir. Mas era o que a gente gostava de fazer.

P1 – E lá no colégio, era uma educação religiosa, no Maria Imaculada?

R – Era uma educação religiosa, mas como tinha muita gente que se conhecia, a gente rompia algumas regras, fácil. Porque a gente parecia que sempre teve ali, então era tranqüilo. Mas era uma educação religiosa.

P1 – Você lembra, assim, alguma matéria que te apaixonava?

R – Matéria que me apaixonava? Eu sempre estudei muito, mas eu me considerava, assim, um aluno... Eu fazia as coisas, eu gostava mais de estar fora da sala de aula. Então eu fazia as coisas para poder estar fora da sala de aula. De matéria eu gostava de artes. Tinham coisas de teatro na escola que eu gostava e eles estimulavam isso. Sabe aquelas apresentações, assim, desde pequenos, assim, montam as peças, aí as crianças falam pela metade, mas é super legal. E até a adolescência tinha um monte de peças de teatro, na escola. Eles estimulavam isso. Isso era bacana. Tinham atividades artísticas, enfim, tinha muitas coisas. Ciências, sempre gostei de ciências. Uma coisa eu me lembro: em um dia de aula da escola de artes, e era uma escola, enfim, das irmãs, nas escola de artes eu desenhei uma Ave Maria nua, pelada. E isso eu me lembro, foi uma coisa um pouco estranha, as freiras acharam um pouco estranho, né? E tinha que grudar na parede, porque o que as crianças desenham tinha que grudar, aí houve uma reunião para ver se podiam ou não. Acabaram grudando lá uma Ave Maria pelada. Legal. Eu achei bom. 

P1 – Diferente. E você tinha o sonho de ser algum profissional? Qual era seu sonho de criança, adolescência?

R – Eu dizia que ia ser bombeiro, mas eu não sabia o que ia acontecer. O fato é que desde essa história, de muito cedo, eu comecei a entender que eu gostava muito de investigar. Até depois, mais tarde, depois que fiz faculdade e tudo, de biologia, a pesquisa científica sempre faz parte dessa área profissional, eu curto a parte de investigação, de descoberta. Aquela parte burocrática, de descrição do que se achou, e publicação, isso não me motiva muito. Mas o investigar, o descobrir, o saber como aquelas coisas estão acontecendo, isso eu sempre gostei muito. Sempre gostei muito. E se refletiu, sim, na minha atividade profissional, e nas coisas que faço até hoje. Eu gosto muito dessa parte de planejamento, de entender os processos, sabe? Pra mim, me ajuda muito. Pra mim é mais fácil planejar como agir.

P1 – E como você desenvolveu sua carreira?

R – O primeiro vestibular que eu fiz foi para medicina, mas eu não tinha a menor idéia do que eu ia fazer, então eu tinha que fazer alguma coisa. Daí eu tomei a decisão, bom, vou fazer alguma coisa bem difícil, porque se eu não passar eu tenho mais tempo para resolver o que eu vou fazer. Aí ninguém vai poder dizer “pô, tu não está estudando, não fez vestibular”. “Não, eu fiz, mas não passei”. Então, quem não sabe o que fazer, vai fazer medicina, porque aí tem mais tempo para pensar. E eu, não foi assim, vou fazer biologia porque eu quero ser biólogo, não foi muito assim não. Eu sabia que eu gostava dessas coisas. Eu acordava domingo cedo, de manhã, bem cedo, para assistir os vídeos do Jacques Cousteau. Isso era uma coisa muito, sabe? Não podia perder, eu tinha que assistir. Então, eu cresci com essas imagens, só que eu nunca poderia imaginar que eu pudesse fazer algo parecido com aquilo, ou que eu pudesse circular no meio daquelas pessoas. Era muito, muito distante, aquelas expedições, e tal, a lugares remotos, eu achava que aquilo era para uma outra realidade.

P1 – Mas o que te apaixonava nesses programas, assim? Imagens belíssimas, tem alguma coisa de aventura?

R – Me apaixonava a aventura, mas me apaixonava saber que alguém tinha feito aquilo e estado lá, e documentado aquelas coisas e relatado daquela forma. Eu achava que aquilo era importante. Não sabia no momento porque que era importante, mas eu tinha aquela sensação, que aquilo servia para muitas pessoas. E ao longo do caminho, então, eu conheci muitas pessoas no meu processo de formação. Eu costumo dizer assim que, eu tive o privilégio de conhecer pessoas muito, muito, muito fantásticas. E eu estava do lado dessas pessoas e as oportunidades foram surgindo e muitas coisas foram acontecendo. E quando eu vi eu estava fazendo coisas muito parecidas àquelas que eu via na televisão. E as pessoas começaram a perguntar a mim, coisas que eu perguntava quando era pequeno para os outros. Então, é um processo muito rico de auto-identificação. E, é claro, ao longo desse caminho o cenário ambiental se incorporou de uma forma, desde muito cedo, né? Mas só aí que eu comecei a compreender que isso faria parte da minha vida de forma indissociável, ou seja, eu não conseguiria mais viver de outra maneira e trabalhar de outra forma. Porque eu ouço muitos dos meus amigos: “Tu não tem férias.” Eu falo: “Mas se eu for tirar férias, eu vou fazer o que eu faço hoje, que é olhar as pessoas, conhecer as comunidades, visitar lugares. Isso eu faço hoje, trabalhando”. Não tem nada que eu, enfim, ao contrário, as pessoas trabalham o ano todo para tirar dez dias de férias para fazer o que eu faço. Ficar na praia, conversando com as pessoas, esse trabalho de base comunitária, que é uma parte do trabalho. Se não, vão pensar que eu vivo de férias.

P1 – Mas você estava falando, você tem uma relação muito forte com o mar, né? Porto Alegre não tem mar? É uma lagoa, um lago, né?

R – Não. Porto Alegre tem uma brincadeira que os gaúchos falam que Porto Alegre seria a cidade mais bonita do mundo se tivesse mar. Mas sim, é. Porto Alegre não tem mar, mas desde muito cedo eu sempre fui ao mar, tanto é que o primeiro projeto com crianças que a gente desenvolveu foi um projeto chamado ‘Eu também quero ver o mar’. Porque era para oportunizar crianças que nunca viram o mar tivessem essa sensação. Porque eu sempre estive junto ao mar e eu sabia que isso era algo muito forte, que poderia ser importante para as outras pessoas. Desde muito cedo, sim, sempre estive junto ao mar. A gente tinha uma casa de praia e a gente ia para lá quando pequeno. Não era só mar de verão, era mar de inverno, era um mar diferente, um mar mais cinzento. Todas essas paisagens, essas imagens, o gosto do mar, porque é difícil você estar junto ao mar e não sentir o gosto do mar, o cheiro do mar. Tudo isso, assim, desde pequeno me influenciou muito. E depois, eu comecei a compreender a importância do mar para o planeta, e a importância do mar para as pessoas, uma importância de um mar para as comunidades tradicionais. E aí foi, então, foi muito difícil eu me desvincular disso. E hoje, eu tenho certeza que existe uma relação espiritual, sabe, muito maior, que é na verdade o que faz fazer tudo que eu faço. Não é uma missão profissional, um compromisso, é uma missão espiritual mesmo. Não tem saída.

P1 – Mas tradicionalmente, você começou a fazer pesquisa?

R – Sim, é. Porque na academia, na verdade, o profissional biólogo ele é identificado como pesquisador, o professor pesquisador, aquele que está ensinando e tal. Então, sim, no início eu fui por esse caminho. Fiz bastante pesquisa científica, tudo na área de ecologia, meio ambiente e tal. E fiz meu mestrado, enfim, segui uma formação profissional, assim, uma acadêmica bem tradicional. E agora, estou fazendo meu doutorado. Mas se vocês me perguntarem qual é o grau de identificação que eu tenho com a área acadêmica, ele é restrito, eu sou meio crítico em relação a isso. Porque eu conheci muitos doutores fora da universidade. E eu não consigo compreender como que isso não é aceito dentro de uma estrutura formal, pelo contrário, a centralização do poder é um negócio que me incomoda. Então, se eu sou o doutor, detenho conhecimento e isso a universidade ainda não conseguiu relaxar. Então, eu me sentia muito angustiado dentro das pesquisas e tal, quando propostas um pouco diferentes eram apresentadas. E sempre tentava agregar coisas que não se encaixavam muito no perfil acadêmico. Mesmo assim eu dei aula durante muitos anos, até que eu achei que com essa sensação era difícil, para mim, estar ali, e devia ser difícil para meus alunos porque, enfim. Aí então eu decidi que a vida acadêmica não seria o caminho. Eu já estava fazendo outras coisas. Eu fiz bastante pesquisa científica, sim. Em um tempo eu trabalhei com aves marinhas, com animais marinhos. E aí, aconteceu de uma antropóloga, a professora, a doutora Cornélia, eu tive algumas aulas com ela e comecei a compreender um pouco mais a relação desse cenário homem, natureza. E comecei, cada vez mais, a incorporar isso nas minhas iniciativas e até que culminou no fato de que, hoje, é muito difícil que qualquer iniciativa minha esteja dissociada desse cenário. Da conservação dos recursos naturais e daquelas pessoas, daquelas comunidades que participam desse processo.

P1 – Agora, que momento que dá aquela viagem para a Antártica?

R – Eu tinha 21 anos. 

P1 – Você estava na faculdade?

R – Já. Eu era estudante e eu nunca tinha me envolvido com projetos de organizações não governamentais, até então. E apresentei um projeto para trabalhar com aves, com impacto de poluentes na Antártica. E a pessoa que coordenava esse projeto, depois de quinze dias que recebeu a proposta disse sim, aprovou. E duas semanas depois eu estava embarcando para lá. Então foi um negócio rápido. Foi o professor Martin Sander, da Unisinos, da Universidade Vale do Rio dos Sinos, onde eu vim a ser professor depois de algum tempo. E eu acabei indo para um refúgio, numa ilha chamada Ilha Rei George, onde tem várias bases de pesquisa. E lá tinham dois pesquisadores do Rio Grande do Sul também, o Jair e a Ane. E era uma base muito afastada, sabe? Duas horas caminhando pelo gelo. E na época eu não tinha nenhuma experiência nesse tipo de ambiente, e tive que fazer o treinamento lá mesmo. Mas a sensação foi algo incrível, eu estar ali. Primeiro porque o tempo estava muito fechado, muito vento e um frio que não é o frio que eu estava acostumado no Rio Grande do Sul, apesar de fazer muito frio em Santa Catarina, Florianópolis faz frio. Era um frio diferente, era um frio que quase não permitia que eu pensasse, sabe? Eu só conseguia pensar naquilo que eu precisava fazer, que era chegar na base. Mas logo que a gente começou a caminhada o tempo mudou, virou. E isso acontece na Antártica, o tempo muda para melhor ou para pior muito rápido. Normalmente é para pior. E abriu um céu lindo, um céu azul. Eu lembro que era muito azul, muito forte e, enfim, assim foi minha chegada lá. E a sensação de clausura, no sentido de isolamento, isso foi um exercício pessoal gigante. Primeiro porque está em um lugar que, enfim, existe uma assistência, existe comunicação via rádio, mas é isolamento mesmo. E outra pelo isolamento espacial, a gente ficava dentro de um container, em um container mesmo, três pessoas. E a gente sabe, cada pessoa tem um espaço em que ela precisa se sentir a vontade e nesses ambientes a gente tem que fazer um exercício, não de partilhar a relação, por isso não, mas por estar tão próximo o tempo todo, né? Em um lugar desse, esse exercício é necessário.

P1 – Mas onde você estava era base brasileira?

R – A base brasileira, Comandante Ferraz, ela fica do outro lado da baía. É na mesma ilha, mas é do outro lado. E eles colocam base de pesquisas afastadas, e eu estava em uma dessas bases de pesquisa afastada. Eu fiquei lá, a primeira vez eu fiquei 25 dias, a segunda vez eu fiquei quarenta e poucos dias, e dois anos depois fiquei também 45 dias, 60 dias. Mas nas outras vezes que eu fui, eu fui para outra estação, em outra ilha, na Ilha Rei George, desculpa, na Ilha Elefante. A Ilha Elefante é uma ilha aonde muitas expedições já chegaram, e muitas chegaram e não saíram, ou seja, existe muita história na Ilha Elefante. Estações baleeiras abandonadas, porque a Antártica foi um lugar de caça baleia durante muitos anos. Isso é um cenário da minha presença na Antártica que me influenciou definitivamente no meu retorno, porque quando tu visita uma estação baleeira abandonada, a gente tem a sensação de que o homem é capaz de muitas coisas. Por exemplo, chegar em um lugares assim, mas ele é capaz de fazer muitas coisas que talvez não deveriam ter sido feitas nesses lugares, por exemplo, caçar baleias. E eles abandonaram porque não tinha mais tantas baleias, esse que foi o fato. Não é porque as leis e os tratados internacionais estão aí, não, não é por isso. Não tinha tanta baleia então não valia pena ir tão longe. Então quando a gente vê aquelas ossadas de baleias, aquelas estações baleeiras abandonadas, com pratos, garfos, parece uma imagem, assim, fantasma.

P1 – De cidade fantasma?

R – De cidade fantasma. E isso com certeza me marcou muito, no meu retorno. Tanto é que eu intensifiquei esses trabalhos depois com esses animais e depois vinha representar uma organização internacional que trabalhava praticamente para impedir a matança das baleias no mundo.

P1 – Que associação que é?

R – Que é a Sea Shepherd Conservation Society, que é uma organização super ativista. Isso é uma coisa muito importante na minha formação, para trabalhar no terceiro setor. Na verdade, eu nunca havia me identificado com uma organização do terceiro setor. Eu sabia que todo esse trabalho era importante e tal, mas eu não conseguia me identificar e isso é uma coisa que tu não consegue te vê se tu não te identifica pessoalmente, mesmo sabendo que os trabalhos são importantes. Então demorou, eu digo que demorou muito tempo, porque foi só em 1997 que surgiu esse ‘pan’. Em 92, eu já tinha ido na Eco, já tinha conhecido todo esse universo, já tinha me despertado para tudo isso, mas não havia me identificado com nada. Então, quando eu conheci o trabalho da Sea Shepherd, que é uma organização ativista, ou seja, eles dizem assim: “Bom, a nossa história é proteger baleis, onde estão as baleias? Estão no mar. Aonde estão as pessoas que estão matando essas baleis? Estão no mar, então é para lá que a gente tem que ir”. Ou seja, se tu quer fazer as coisas, tu tem que ir para a linha de frente, é assim que eu aprendi. Tu tem que levantar e fazer o que tem que fazer. Tu não vai salvar a baleia sentado em um escritório. O potencial de impacto dessa ação é muito pequeno. Tu vai salvar baleias onde elas estão sendo mortas. É uma forma muito simples, mas eu acho muito eficiente, pelo menos é assim que eu vejo. Isso eu gostei. “Ah Então é mais simples do que eu pensava. Vamos lá Contem comigo” Então, eu acho que isso também esse formato de pensar e fazer as coisas de uma forma mais simples, de não incorporar sempre nas ações o cenário quantitativo, e sim a importância da ação em si, isso eu carrego. Foi uma lição ao longo dos seis anos à frente dessa iniciativa.

P1 – Você ficou seis anos?

R – Fiquei. Fiquei seis anos. Na verdade, foi a única iniciativa independente da iniciativa internacional, ou seja, a gente não precisava se reportar a Sea Shepherd Internacional das coisas que a gente fazia no Brasil. Porque durante o processo todo, eu expliquei para eles que a realidade brasileira era diferente. Então não podia agir da mesma forma, e eles entenderam, e acharam: “Ok, então faça como você acha que tem que ser feito”. E foram assim durante seis anos e foi muito legal, um monte de conquistas. Foi aí que eu aprendi a trabalhar com voluntariado, montar equipes de voluntários, gestão de voluntariado que é uma coisa super legal, é um desafio trabalhar com voluntariado, mas é muito legal trabalhar com voluntariado. Grupo de voluntários, assim, grande. Tudo eu aprendi na Sea Shepherd, foi uma super escola. Diferentes pessoas, de tudo que é lugar do mundo, ali por uma causa.

P1 – Já tinha essa unidade aqui no Brasil, ou foi implantação?

R – Não. Foi implantação em 1998. eu fui convidado para conhecer algumas campanhas da Sea Shepherd, e aí depois de algum tempo eu recebi uma autorização da organização para poder fazer as ações no Brasil, mas assim com esse perfil autônomo. Eu fiquei muito contente por isso, porque as pessoas que estavam envolvidas na organização são pessoas que estão no movimento ambientalista mundial há muitos anos, sabe? E foi algo muito forte para mim, poder ter o crédito dessas pessoas. Hoje, existem dezenas de organizações pelo mundo que foram criadas por essas pessoas. Pequenas organizações, outras nem tão pequenas, mas que eles nem fazem parte mais. Por exemplo, Bob Cummings que foi um jornalistas e que ajudou o capitão Paul Watson a iniciar os movimentos ambientalistas no Canadá e nos Estados Unidos também. Anos depois ele foi o fundador do Greenpeace, mas abandonou o Greenpeace em cinco anos de fundação, porque sabia já o que iria se transformar. Mas ajudou a colaborar com outras várias organizações que estão trabalhando em Galápagos agora, enfim. Essas pessoas foram motivadoras de muitos processos, então fiquei muito contente de poder conhecê-las e aprender com essas pessoas, né? Foi incrível.

P1 – E quais eram essas características da luta aqui, no Brasil?

R – Durante esse tempo?

P1 – É.

R – Nesses seis anos?

P1 – É. O que tinha de diferente aqui, no Brasil?

R – O nosso trabalho era uma mobilização comunitária e fazer cumprir as leis. O nosso discurso era no intuito de fazer com que as pessoas compreendessem que existem ferramentas de empoderamento. E as leis ambientais são uma ferramenta muito importante. Ou seja, se existe uma legislação no Brasil, que diz que animais marinhos não podem ser mortos, a sociedade construiu isso, a sociedade construiu essas leis ao longo do tempo, então elas precisam ser cumpridas. Então esse era o nosso, a nossa grande luta. E a gente sabe que quando tem pouco recurso, falta recurso para aqueles que dependem diretamente dos recursos. Então nossa luta também era em relação a pesca ilegal, a pesca predatória, que acontece junto das áreas de comunidades tradicionais. Então as embarcações industriais vão ali, pegam tudo e fica muito pouco para a comunidade local. Isso começou a gerar um movimento grande, a gente fez várias campanhas e tal. Campanhas de mobilização mesmo, né? Algumas de intervenção direta. Por exemplo, em 2001, em 2000, nós mapeamos embarcações que estavam pescando ilegalmente no litoral do Rio Grande do Sul. Aí nós ligamos para o órgão governamental e dissemos “Olha, tem nove embarcações em tal local.” Aí eles falaram: “Olha, nós não temos barcos para ir autuá-las.” Aí a gente falou: “Bom, mas a gente pode conseguir esse barco, vocês podem ir conosco.” “Não, mas a gente não pode ir no barco de outras pessoas”. Aí então a gente ligou para a marinha: “Olha, tem nove embarcações, eles estão em tal, tal lugar, a gente fez um sobrevôo e marcamos com GPS, a gente tem imagens disso”. “Ah Mas a gente não pode autuar, porque a gente não tem como deslocar a nossa embarcação para lá”. Então o que a gente fez? A gente entrou em uma embarcação de um pescador, compramos uma lata de tinta laranja e fomos onde esses barcos estavam e marcamos esses barcos com tinta laranja, aí os voluntários me ligaram e falaram: “Olha, Alexandre, eles estão marcados”. Aí eu liguei de novo para a marinha e falei: “Vocês não precisam fazer nada, só esperem no porto os barcos que chegarem com tinta laranja marcada, são esses.” Não é fácil? Bom, isso aí gerou um super constrangimento entre o Ibama e a Marinha e duas semanas depois eles fizeram um acordo de monitoramento, com o apoio de uma companhia que iria pagar as despesas da operação. Claro que isso foi para a mídia e tudo mais, ou seja, não é tão difícil fazer as coisas. Às vezes, uma lata de tinta laranja resolve. Enfim, aquela foi a saída, mas tinham 35 voluntários envolvidos, tinham, enfim, foi uma mobilização, foi uma atividade planejada.

P1 – E os caras do barco, essa hora que vocês chegaram para pintar? Como é que foi essa coisa da galera ir lá, pintar os barcos?

R – Foi, isso na verdade foi planejado, né? Foi bastante tempo de planejamento, duas semanas planejando, mobilizando equipe, montando o que a gente ia fazer. E a gente mobilizou recurso para poder sobrevoar a área, mas tudo com parceria, a gente só pagava as despesas com combustível. Tudo assim. E gerou um impacto muito interessante. Os voluntários, o retorno da ação para eles, isso é muito motivador, todos que estavam ali nessa campanha, muitos deles estão envolvidos com estas questões. Um está na Austrália, outro está no Canadá trabalhando com isso, ou seja, aquilo gera uma motivação.

P1 – Mas como é que foi esse dia, assim, desse assalto, para pintar os barcos?

R – Isso, porque essas ações, elas tem que ser, a surpresa faz parte da estratégia. Então quando eles foram para o alto mar, eu estava em uma embarcação que ficou de apoio, a gente pintou duas e voltou e outros foram, né? Os pescadores não entendiam nada, porque imagina um bando de maluco chegar em um barco com tinta. Nunca na vida deles, há 40 anos pescando, eles já viram de tudo, sereia e tudo mais, mas um bando de maluco, e depois comemorando. Imagina comemorar, o que vocês estão comemorando? Deve ter sido engraçado para eles. Mas, o fato é que foi uma ação que deu muita mídia, gerou um resultado muito positivo e o que incorpora é esse cenário de criatividade. Ou seja, as ações, esse perfil ativista me acompanha até hoje. Eu me considero um ativista. Um ativista no sentido de pró-ação, ou seja, o que eu faço é algo propositivo, algo ativista, mas as pessoas confundem um pouco esse tipo de ativismo com aquele ativismo radical. Na verdade, a ativismo radical foi uma forma que a própria indústria adotou para, assim, minimizar ou, vamos dizer assim, menosprezar algumas ações na área sócio-ambiental, o que eu acho que funcionou durante muito tempo. Porque até hoje existe uma certa resistência por esses tipos de ação, mas elas são muito importantes. Até hoje, até hoje são muito importantes. E uma coisa interessante que existe nesse perfil ativista é a necessidade de planejamento. Tu precisa planejar muito o que tu vai fazer. Parece uma coisa, vamos dizer assim, feita na hora, mas não é bem assim. Para dar certo uma ação ativista tem que planejar muito.

P1 – Como que a mídia chega para potencializar também? Você falou que saiu na MTV.

R – A mídia gosta de, a gente sabe do que a mídia gosta, né? Então, eu acho que a gente não precisa se sentir constrangido de incorporar essas coisas nas ações que a gente realiza. Não adianta a gente fazer “n” coisas boas que ninguém sabe. A gente tem que saber manejar isso bem. Se a gente faz as coisas só pra mídia, o que a gente faz perde sentido. Mas se o que a gente faz também pode interessar a mídia, aí a brincadeira começa a ficar boa. Porque eu conheço muitas iniciativas, centenas de iniciativas fantásticas e desconhecidas. Algumas vão ter a chance ainda, mas outras não. Não que aquilo não vá, não seja positivo, mas poderia causar um impacto muito maior se tivesse a visibilidade da mídia. Eu acho que o trabalho na área sócio-ambiental tem que se preocupar com isso, sim. Tem que se preocupar em ter uma estratégia ativista. 

P1 – Como que essas ações todas começaram a formar o Instituto Ilhas do Brasil?

R – Porque, enfim, por dois caminhos: muitas coisas poderiam ser construídas através da iniciativa da Sea Shepherd, mas muitas coisas não poderiam ser construídas, em função de perfil, de forma de trabalhar. Dentro das nossas avaliações e tal, em 2002 a gente fez uma iniciativa piloto, chamada Estação nas Ilhas, que era justamente montar uma base de eco-voluntários, pra começar a receber eco-voluntários, porque a gente tinha essa demanda. E aí, tudo se transformou. Transformou-se no sentido de que a gente percebeu que existia uma necessidade de se trabalhar com essa temática “ilha” e que essa temática ia nos permitir falar de muitas coisas. E aí, o que era uma base experimental para os eco-voluntários, onde eles monitoravam embarcações, trabalhavam com a comunidade e tal, em 2004, foi tomada a decisão de que essa estação ia se consolidar numa organização independente. Foi o braço, a semente da construção do Instituto Ilhas do Brasil. E que tem um perfil completamente diferente das ações da Sea Shepherd, mas é uma organização ativista e é uma organização também assim, apesar de ter muitas redes de relacionamento e tal, mantém aquele perfil de organização pequena e que eu acho estratégico, considero estratégico.

P1 – Eu queria que você falasse por que é estratégico? A idéia é sempre multiplicar, replicar...

R – Porque ser pequeno não é conflitante em relação a replicar. Sempre que eu tenho dúvida, eu – e por isso me ajudou muito estar sempre perto da natureza – sempre que eu tenho dúvidas em relação a como faço as coisas, penso em como essas coisas acontecem na natureza. Sempre tive muita dificuldade em compreender, todo mundo falava muito de rede, rede, rede e eu achava que isso não era pra mim: “Deve ser muito difícil, muito complexo”. E aí eu fui estudar um pouco o que o terceiro setor chamava de rede e comecei a entender que o conceito que formou isso, foi um conceito que eu sempre compreendi minha vida toda, que é o conceito das inter-relações e interdependências. E do aumento de produtividade em função desse cenário. E isso é uma verdade, o que acontece na natureza. Essas são as leis que regem os processos naturais. As conexões, enfim, todo conceito que Capra fala - Fritjof Capra, um físico - estão ligados aos conceitos da natureza. Então, as redes que foram incorporadas pelo terceiro setor, partiram daí. Ficou mais fácil pra mim compreender. Muito mais fácil pra mim compreender como é importante se manter no processo de gestão da instituição, se manter simples. Porque aí tu consegue ter agilidade. Como as redes que funcionam são processos dinâmicos que se transformam, quase que um mosaico fluido, se tu é rígido, tu não participa dessa dinâmica, tua instituição leva muito tempo pra se mover. Então, ser pequeno não é ter impacto de atuação pequeno, não é verdade. Isso não é diretamente proporcional. Isso é importante pras pessoas saberem. O tamanho da organização não é diretamente proporcional ao impacto da atuação. Você pode ser gestor de uma organização gigante e eventualmente o impacto da atuação da ação dessa instituição ser pequeno. E isso fica muito claro quando a gente imagina o impacto da ação de centenas de pequenas organizações trabalhando juntas. Certamente é muito maior o impacto do que de uma grande organização trabalhando sozinha. Esse é o cenário. Isso que a gente pretende que as pessoas façam, que criem suas pequenas organizações, pra aprendam juntos, trabalhem juntos. 

P1 – Deixa falar uma coisa. A gente já falou muito das ilhas, mas pra registrar: Por que se preocupar com as ilhas nesse ambiente?

R – Nesse cenário, lá de 2002, a gente já começou a identificar essa problemática. A gente viu que o Brasil estava completamente fora, não tinha essa preocupação. Quando a gente começou a estudar a importância das ilhas pro Brasil, a gente viu que não era possível isso. Porque existiam muitas comunidades ali. E o valor ecológico gigante, uma importância econômica, histórica, política. Nesse cenário de mudança climática, existem dois ambientes muito sensíveis: as cadeias de montanhas, que têm as geleiras permanentes; e as ilhas. No Brasil, a gente não tem cadeias de montanhas com geleiras permanentes, não é essa nossa... Nós temos muitas montanhas e todas elas são muito importantes. Mas, na verdade, as ilhas são os ambientes mais sensíveis do mundo todo. Os primeiros ambientes do mundo que vão sentir são os países ilhas, aqueles países do Indico e do Pacífico. Mas é óbvio que esse cenário é um cenário global e que vai afetar todas as ilhas, inclusive as brasileiras. E a gente achava que tinha que fazer algo rápido e muito intenso pra tentar se adaptar a esse cenário, prever essas coisas. E prever o quanto custaria não fazer nada Isso nos preocupa muito. Qual vai ser o custo pra sociedade brasileira se ninguém fizer nada em relação a essas questões?

P1 – Mas por que? As ilhas são sistemas frágeis?

R – São frágeis, são. As ilhas são testemunhas da evolução desse planeta. Ali ficam sistemas isolados que se remetem há muito tempo. Por exemplo, Darwin, o cara que teve a sacada da evolução, ele se deu conta de todas essas coisas viajando pelas ilhas. Caiu a ficha mesmo quando ele esteve em Galápagos, ali tudo apareceu. Como são ambientes isolados, pequenos, o espaço é um limitante muito significativo. E as espécies que estão ali, geralmente são espécies que só existem ali, são espécies endêmicas. E isso torna esses ambientes muito frágeis. Qualquer perturbação ali pode gerar um impacto muito significativo. Para as comunidades que vivem nesses ambientes, a limitação dos recursos é uma realidade. Se a gente for fazer uma avaliação histórica dos povos insulares, muitos deles tiveram insucesso em função da escassez dos recursos naturais, os povos polinésios e antes disso. Eu acho que talvez com o planeta, infelizmente, essa lição não foi aprendida ainda. A gente tem que aprender com os povos que vivem nas ilhas para aprender como viver no planeta.

P1 – Essa tua preocupação com essa questão toda, tem a ver com o fato você ter vindo morar em Florianópolis?

R – Claro, essa foi uma decisão de vida.

P1 – Quando você veio pra cá e quando isso se torna um projeto de vida – essa preocupação com as ilhas?

R – Sim, claro Foi uma decisão pessoal e familiar. Uma coisa que aconteceu foi isso, comecei a compreender que minhas atitudes pessoais às vezes tinham um impacto muito maior com as pessoas que estavam a minha volta, do que um grande projeto de sucesso. Isso começou cada vez a me incomodar mais, comecei a rever um monte de coisas. Até que chegou um ponto que eu falei: “morar num centro urbano é importante, porque me dá muitas oportunidades. Mas eu preciso estar onde é o foco do meu trabalho e do meu viver”. E aí, então, há cinco anos eu decidi vir pra Florianópolis com minha família. E há dois anos e meio, nasceu meu primeiro filho. Eu vou ter que confessar que isso é uma sensação, algo que muda um pouco a forma de a gente compreender as coisas. Seria hipócrita dizer que... Tudo se potencializou a partir daí. Eu sempre ouvi dizer que tudo isso seria pras futuras gerações, pras futuras gerações. Na verdade, isso chegou muito cedo e não tem mais futuras gerações. São pras gerações que estão aí. E sempre nos meus discursos, quando eu tinha 20 anos, quando já fazia palestras, dizia: “pros nossos filhos e pros nossos netos”. Mas isso parecia tão distante, não tinha filhos, nem netos. Só que agora as coisas não são bem assim, tudo passa. E essa geração, que era o meu discurso, é a geração que está aqui hoje. Então, essa sensação de brevidade, de fazer se potencializou. Além do mais, pra mim começou a ficar muito constrangedor falar de conservação de recursos naturais e viver de uma maneira onde isso não era possível. Por exemplo: se tu vive num grande centro urbano, tu não sabe quando de água tu consome por dia. Sabe quanto tu paga, mas não sabe se tu consome 15 litros, 20 litros. Uma coisa é falar o que tem que ser feito. Outra coisa é tentar mudar hábitos de vida pra viver daquela forma que tu acha que pode ajudar o planeta. A vinda pra cá me permitiu fazer isso. Muitos hábitos tiveram que ser transformados, desde rotina de trabalho, mas o mais importante é que foi possível fazer. Não é possível fazer tantas reuniões, mas é possível resolver tudo isso, todas essas coisas é possível resolver. Mas o mais importante é que a gente se sente muito mais forte pra agir se essas mudanças pessoais se incorporem. E isso sem dúvida tem um reflexo muito grande no trabalho. Não tenha dúvida. Foi isso. Poder viver num ambiente mais junto da natureza. Saber o que a gente está fazendo no dia a dia pra conservar os recursos naturais. Oportunizar um modo de vida pra família, pro filho, diferente, mais junto da natureza. Hoje por exemplo, consigo acordar com meu filho. E é quase um ritual, abrir a janela, com qualquer tempo que esteja, e ver que animais estão ali. Sempre tem borboletas, aves, uma coisa. Às vezes não tem nada e ele já sabe: “hoje está muito frio, eles estão no mato”.

P1 – Qual o nome dele?

R – Joseph. É o Pepe. Meus irmãos que vivem na cidade me dizem sempre: “Pô, tu vai criar teu filho assim? Ele vai ter muito poucos estímulos e criança tem que ser estimulada”. Eu falo: “ele tem muitos estímulos. Quando ele acorda, já sabe, olha esse som é daquele passarinho”. Ele tem dois anos e meio e já consegue distinguir diferentes sons de diversos animais. Acho que isso é um estímulo que na cidade é um pouco difícil. Ou quando está um pouco frio, ele já sabe que é o vento sul. Não acho que seja falta de estímulo. 

P1 – Uma coisa que a criança vai aprender na sétima série na escola, né?

R – Vento sul. Nem sabe para o que é que serve. São outras percepções. Isso é muito rico. É claro que a gente viaja muito, mas oportunizar isso foi uma decisão muito importante, porque me fortaleceu. E isso se refletiu no meu trabalho de uma forma muito positiva.

P1 – É nesse ambiente que nasce o Instituto Ilhas do Brasil?

R – É nesse ambiente, de 2002 pra cá, no meio desse cenário todo. E o Instituto Ilhas do Brasil é uma organização de base comunitária. A gente tem pescadores que fazem parte da diretoria. Porque eu não poderia dizer que nós temos que valorizar as comunidades tradicionais, mas não incorporar esse saber. Se eu acredito nesse saber, por que não coloco essas pessoas dentro da minha organização? É muito dizer: “os pescadores sabem muito. Aquela senhora tem um saber incrível”. Mas são só acadêmicos que tomam conta da instituição, da diretoria, dos conselhos das instituições. Foi um desafio também. Como se incorporam esses pescadores no dia a dia da instituição e tal? Como esse cara vai visitar outra unidade de pesca lá não sei onde? Mas isso também fortalece, porque o Instituto Ilhas do Brasil é uma organização de base comunitária. E é de fato. Não é porque trabalha na comunidade. Ele foi concebido dentro da comunidade. A gente já estava ali há dois anos. Então, foram discutidos todos esses cenários, os projetos prioritários e tudo. Tanto é que o primeiro que foi focado foi o Projeto Estrelas do Mar. Não foi uma vontade de nenhum diretor do Instituto pra fazer. Foi uma necessidade identificada por essas lideranças e pela comunidade. Era necessário fazer alguma coisa com jovens, vamos fazer. Ou seja, fazer o que é necessário. Não é “eu tenho um sonho de fazer tal coisa, gostaria de fazer tal coisa, eu quero fazer”. As vezes a gente se perde um pouco nisso, de fazer o que a gente quer fazer. Precisa fazer o que tem que ser feito.

P1 – Por que a preocupação com os jovens?

R – Nessas comunidades, nessas pequenas comunidades, como existe um histórico de relação com os recursos naturais muito intensa, como esses recursos escasseiam, os jovens sofrem mais. Por quê? Porque eles não querem se identificar com algo que não tem sucesso. Ou seja, nessas comunidades pequenas, pesca significa insucesso, fracasso. E eles não querem crescer com essa identidade de pessoas fracassadas. Então não querem pescar mais. Isso é muito triste, porque a profissão de pescador artesanal é muito bonita. Eles não querem pescar porque não querem. É porque não tem mais peixe. Então, a maioria dos projetos com jovens, estimula o jovem a pescar, achando que ele não pesca porque não foi ensinado a pescar. Não é verdade. A qualquer hora ele pode entrar num barco e pescar. Ele sempre fez isso, sempre acompanhou. Ele não faz porque não tem tanto peixe. Não adiante fazer projeto de pesca. Tem que fazer projetos que permitam que ele fique ali mais tempo, até os projetos que trabalham com restauração nos estoques pesqueiros comecem a dar resultados. Então, a gente começou a trabalhar com projetos de formação continuada, ou seja, não termina nunca, estão sempre se capacitando em diferentes áreas, nas áreas de interesses deles. Tem turismo, meio ambiente, práticas esportivas, eles gostam muito de mergulhar e de surfar. A gente mescla essas coisas, e oportuniza que as meninas cheguem, porque na pesca, a pesca é muito patriarcal. Apesar das mulheres participarem muito da pesca, de em um monte de coisas da pesca. Porque são elas que ajudam a arrumar as redes, são elas que muitas vezes negociam o preço do pescado com o atravessador, porque o marido chegou cansado do mar e ela está ali fazendo isso. O pescador não gosta de falar de dinheiro. Ele vende por qualquer coisa, quer ir pra casa. Já cansou. Então as mulheres têm papel importante. Mas as meninas não têm muito espaço dentro desse cenário. Quando a gente formou o projeto, a gente planejou com que fosse um espaço em que as meninas se interessassem. Começou com duas meninas, depois três, depois quatro. E no final tinham mais meninas que meninos. Isso foi um exercício pros meninos. Gerou um impacto no início, porque eles achavam que estavam perdendo espaço e tal. 

P1 – Reagiram?

R – Sim, claro. Eles nasceram ali, com aquela identidade. Eles manifestavam isso, às vezes. Mas foi um exercício lindo, porque no final as meninas começaram a ocupar esse espaço bem importante no projeto e eles começaram a entender que elas estavam a ali porque eram capazes.

P1 – Legal, né? Alexandre, como é que você ingressa na Ashoka? Quando começa essa parceria?

R – Foi uma surpresa no sentido de que eu já havia estudado um pouco sobre a Ashoka, mas era algo que estava distante não da minha vontade, mas da minha realidade acadêmica. Então, quando pintou essa oportunidade do que eu fazia ser identificado pela Ashoka, foi o momento de eu poder agregar tudo que estava engavetado, vamos dizer assim, dentro do cenário acadêmico e incorporá-lo numa iniciativa ambiental. Por isso eu acho que gerou um impacto e que vem gerando um impacto que vem gerando ações. Porque me permitiu agregar coisas que nem só no cenário acadêmico é permitido, e muitas vezes, nem organizações de terceiro setor é permitido que é inovar, criar metodologias novas, identificar necessidades. Eu adoro fazer isso. É minha praia, né?

P1 – Como foi esse processo? Quem te chamou?

R – O pessoal falou: “Olha Alexandre, tu é um dos motivos do porquê a gente tem a nossa home page no ar. Você foi um dos únicos caras que mandaram um e-mail antes”. Eu mandei e-mail perguntando como era aquele negócio. E depois de um tempo me deram um retorno, a Clarinha me deu um retorno: “Olha, eu estou indo pra Florianópolis. Será que não dá pra conhecer um pouco mais o que vocês estão fazendo?”. Eu disse: “claro”. Então, ela conheceu essa base experimental onde estavam os eco-voluntários monitorando as embarcações e tal, ela veio ver essa semente, né? Foi nessa fase que ela veio. E a gente começou a conversar e ver o que poderia sair disso. Até que a proposta já foi encaminhada como sendo o Instituo Ilhas do Brasil, com as áreas prioritárias. Naquele momento, há quatro anos atrás, estava lá sinalizado a Conferência Ilhas Marinhas do Brasil. Já estava a rede Ilhas do Brasil sinalizada lá. Ou seja, essas coisas estavam latentes e se concretizam. A Ashoka foi um elo condutor que me levou a conhecer uma outra dimensão, um universo que caminhava paralelo, assim. E foi, enfim, foi muito importante pessoalmente e muito importante em relação à geração de impacto das ações. Começou a criar um range fantástico. Tudo que se desenvolve gera um potencial de reaplicabilidade incrível, sabe. A Ashoka tem essa possibilidade de construção coletiva. Isso é muito bonito. E me permitiu conhecer o trabalho de outros. Foi algo... Conhecer as habilidades, admirar o que as pessoas que fazem parte dessa rede constroem é algo incrível. Uma experiência... Sabe?

P1 – A Ashoka tem milhares de pessoas, milhares de projetos em áreas bem específicas. A gente está vendo aqui um projeto do Edgar Gouveia, outro membro da Ashoka. Como que essas atuações tão diferenciadas estão conversando com as questões ambientais, culturais? Como é juntar pessoas tão diferentes?

R – É um desafio. Mas uma coisa que é legal é que existe algo em comum nas pessoas que fazem parte dessa rede. Existe um pacto de valores, que é uma coisa muito importante quando se constrói algo coletivamente. Durante algum tempo a área ambiental ficou um pouco dissociada da área social e isso atrasou um pouco o processo. Acho que dentro do nosso grupo, principalmente quando aconteceu o encontro em Buenos Aires, isso foi por água a baixo total e estimulou uma vertente de muita solidariedade e cooperação. Essas ações que parecem distantes - o Edgar que trabalha em Santos, um grande centro urbano. Santos é uma ilha, ele trabalha com jovens, com o imaginário. As ilhas sempre estão no imaginário das pessoas. “eu quero ficar numa ilha deserta...” Sempre existe um ponto de conexão. É só a gente entender que o que o outro faz é tão importante quanto o que a gente faz. E aí vai se aproximar. Por exemplo, o Kaká Werá trabalha com muitas comunidades indígenas. Existem muitas comunidades indígenas em ilhas. Tudo que é possível a gente estar junto, vou fazer. Porque é preciso estar junto pra construir as coisas de forma concreta, de forma sólida. As energias alternativas nas ilhas... Meu Deus Se o recurso natural é escasso, tem que se fazer, se usar de forma sustentável. Quem trabalha com tecnologias sociais é que tem que fazer isso. O Júlio Pessoa, o Fábio Rosa. É muito rico poder identificar no trabalho que eu desenvolvo a possibilidade de agregar todas essas coisas. Na verdade isso é muito legal. 

P1 – E pra finalizar. Você se sente um empreendedor social, empreendedor socio-ambiental?

R – Durante uma das entrevistas, eu fiquei três ou quatro horas conversando com o depoente – uma pessoa fantástica – eu falei que fazia todas essas coisas, mas que não sabia exatamente o que era isso que eu fazia. Ele olhou pra mim e disse: “Você é um empreendedor social”. Foi a primeira vez que ouvi isso de alguém. Falei: “Ok. Então tá. Muito obrigado por me informar” Achei legal. Foi a primeira vez que ouvi isso de alguém. Mas por outro lado eu tento também no meu dia a dia despersonificar essa personalidade, essa personagem. Pra que as pessoas compreendam que todos são empreendedores sociais se quiserem ser. Mesmo que não façam parte da rede Ashoka ou que não tenham uma formação acadêmica forte, ou que não tenham recursos pra executar muitas coisas, ou uma rede de relacionamentos muito forte. Mas que existem muitos empreendedores sociais que estão fazendo muitas coisas e que estão fazendo da forma de podem e que sabem. Eu acho que também tenho esse perfil. Acho legal pra caramba. Assino todos os documentos como empreendedor social pra que muita gente saiba o que é isso, mas também tento desmistificar um pouco essa identidade, porque acho que isso não deva ser muito idolatrado. Isso tem que ser também democratizado. Todos somos empreendedores sociais em diferentes condições, mas capazes de gerar impactos incríveis.

P1 – A gente está num processo violento de rememoração de rever histórias pessoais. Mas agora que a gente formalizou sua trajetória. O que você achou de ter feito esse processo de rememoração, de registro?

R – Eu falei coisas que nunca havia falado na minha vida. Foram coisas que foram testemunhadas por vocês, nesse momento. Algumas coisas que eu relatei, nunca tinha falado. Isso é muito importante. Pra mim foi um exercício lindo. Ver outras pessoas fazendo isso foi fantástico. É um exercício muito forte, muito importante. Vocês deram oportunidade disso pra mim. De alguma forma acho que esses depoimentos podem estimular processos. Mas que é um momento intenso, esse momento de exercício, de reflexão. Esses exercícios não passam impunes. Se a gente faz de verdade, eles são reais. Fazem pensar. Achei muito rico. Poder lembrar de coisas que estavam esquecidas. No dia a dia a gente não faz isso, faz até um limite. Mas quando se está num grupo, e esse grupo pactua que “vamos lá”, a gente se estimula a fazer. Foi muito interessante. E na verdade esse exercício norteou coisas, norteou um processo de construção de uma iniciativa. Ou seja, não é só algo lúdico, ele se concretiza. Isso é uma sacada muito, muito legal. Eu acho que esse é o processo que faz com que as iniciativas de muitos fóruns tenham sucesso. Elas partem de um cenário muito verdadeiro, muito pessoal, muito espiritual. São valores, coisas que devem nortear as ações. E no exercício, tudo isso se manifestou. Muito bacana.

P1 – Tem alguma coisa que você queria falar, que acha que ainda não falou?

R – A gente sempre acha que fica. Aquela parte da família, coisas ligadas ao pai, a mãe. Coisas muito mais fortes do que o que foi relatado. Toda essa coisa de valores, de se relacionar com pessoas, de respeitar diferenças. Tudo isso veio da minha mãe. Essas coisas vieram todas da minha mãe. De relacionamento, de todo mundo estar nessa, todo mundo ser igual. 

P1 – Com quatro meninos devia ser uma coisa bem diferente, né?

R – Sim. As estratégias eram bem dinâmicas. O que servia pra um, vai. Ou seja, o espírito de coletividade vem desde... “Ah, mas não fui eu”. “Mas, vai. Responsabilidade coletiva”. Mas a história dos valores, da relação com as pessoas, eu lembro do respeito com que ela tratava com todo mundo, absolutamente todo mundo, em qualquer ambiente. Isso é uma coisa que a gente não esquece, aprende e incorpora. Não consegue entender o contrário. Esse é o doido da coisa.

P1 – Então, obrigada.

R – Valeu.

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