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História

"Minha vida é uma luta diária"

História de: Lúcia
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

A narrativa de Lúcia traz a luta de uma mãe que, ao ver suas filhas fora de casa e envolvidas com crimes e exploração sexual, buscou forças para mudar essa realidade. Lúcia pediu ajuda e foi ouvida, tanto pelos familiares quanto pelas instituições sociais como o Projeto ViraVida. 

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História completa

A minha mãe me colocou no mundo para se vingar. O meu pai era casado, tinha outra família e a mulher dele falava a todos que a minha mãe era uma qualquer e que não valia nada. A minha mãe falou: “Tá bom, já que não sou nada e não valho nada, vou arrumar um filho com o seu marido e quando nascer eu mando avisar”. E foi o que ela fez. Eu nasci quando os meus irmãos já eram adultos. Quando me conheceram, eles quiseram levar-me embora mas minha mãe não quis. O meu pai quis deixar algo para o meu futuro mas minha mãe não aceitou. Disse que não precisava e assim cresci, carente de pai.

A minha mãe criou seus filhos sozinha. Passei a infância no sítio, trabalhei muito na roça, desde os oito anos até uma certa fase da minha vida. Depois a minha mãe saiu da roça e nós viajamos bastante. Eu já morei em vários lugares e ela conseguiu nos criar na medida do possível. Sou de uma família de quatro irmãs. Eu sou a penúltima, tem duas irmãs mais velhas – inclusive a mais velha de todas eu só conheci depois de adulta, porque ela não era filha do mesmo pai que eu. Esse pai a roubou da minha mãe quando ainda era bebê. A minha mãe só foi encontrar ela depois de adulta. A minha mãe na verdade criou três das quatro.

Até hoje falo que, se pudesse, iria viver na roça. Trabalhava-se muito mas no final de semana, por exemplo, eu lembro dos meus domingos nadando na represa, andando a cavalo, subindo na mexeriqueira e chupando os frutos. Então, eu gostei da minha infância, de certa forma. Também foi sofrida, pois teve fases em que fomos viver na cidade. Eu lembro quando moramos num albergue porque a minha mãe não tinha condição. Isso foi bem difícil e complicado. 

Uma das vezes que nos mudamos foi porque morávamos com um tio meu e ele judiava demais das filhas da minha mãe. Eu acho que ele não gostava de mim. Ele me prendia e, se a minha mãe ia sair, as minhas outras irmãs podiam sair, mas eu não; se eu chorava ele vinha encher a minha boca de pano.

Depois disso, mudamos de casa mais vezes. Com catorze anos mais ou menos morei na casa de uma família para aprender a trabalhar, fazer serviço de casa. A minha mãe sempre foi muito caprichosa, de gostar das coisas sempre bem limpinhas, e era muito exigente. A louça para minha mãe – se ela chegasse em casa e pegasse com um pinguinho de cloro branco no alumínio, nos fazia lavar de novo. Eu falo para as minhas filhas hoje: “Eu não cobro de vocês o que a minha mãe me cobrava”.

Depois minha mãe me tirou dessa família e me levou para outra cidade. Lá ela me jogou na casa de outra família. Fiquei doente porque fui para um lugar desconhecido, no meio de pessoas desconhecidas, tudo para eu aprender. Nesse tempo já não estava estudando mais porque as minhas irmãs não gostavam de estudar. Por isso ela achava que eu também não tinha interesse nenhum e me tirou da escola. Nessa época eu consegui pegar a minha transferência e a minha patroa foi e sumiu com a minha transferência, porque ela não queria que eu estudasse também. E daí a minha vida se complicou... 

Aos dezessete anos minha mãe me colocou para fora de casa. Uma família me pegou, o marido da mulher trabalhava de motorista de ônibus e me perguntou para onde eu queria ir. Eu disse que queria para o mais longe possível e fui parar em outro Estado. Fui morar na casa de estranhos.

Lembro-me que tinha uma patroa que me tratava como uma filha. Eu morava na casa dessa família, mas não gostava do marido dela porque ele mexia comigo, tentou até me beijar. Eu tinha nojo dele, mas nunca contei para ninguém da casa porque pensava: “Caso contar, serei eu a sem-vergonha”, porque geralmente é assim. Cai sempre para o lado mais fraco. 

Só que lá eu aprendi, voltei a estudar e tive oportunidades. Foi aí que conheci o pai dos meus filhos, na escola. Saí da casa dessa patroa e fui morar com ele.

Vivemos juntos só por quatro anos. Não vou dizer para você que foi uma fase maravilhosa, pois não foi. Passei por poucas e boas com ele. Quando engravidei parei de trabalhar uns meses e ele esfregava na minha cara que eu não estava trabalhando. Com seis meses de gravidez voltei a trabalhar. Grávida, trabalhava e estudava. Só descansava de domingo. Vivíamos em turbulência porque ele tinha um irmão que morava conosco e que fazia um inferno da minha vida. Nossa relação não deu certo e nos separamos, ele foi viver em outro lugar. Faz dez anos que faleceu.

Quando tive a minha primeira filha, nesse meio tempo, o marido daquela patroa enfartou. Só ficava dentro de casa, em repouso. Voltei a trabalhar na casa dela alguns dias da semana e, daí, tinha dia que eles pegavam a minha menina mais velha e levavam para o quarto dele e a deixavam lá. Ele ficava vendo televisão, deixavam-na com ele e eu ficava naquela apreensão: “Meu Deus, será que ele não vai mexer com a minha filha? Então, dava uma subidinha para olhar, com medo, porque se eu chegasse e tirasse, pegava mal. Mas não gostava, de jeito nenhum, de largá-la. Dava a sensação de que ele ia mexer com ela também. 

Sofri muito com as crianças, porque fiquei dependendo dos outros para me ajudar. Colocaram-me num lugar e depois acabei indo morar com um primo do pai dos meus filhos. E um dia ele [o primo] me agrediu... Tinha uma época em que eu levava as crianças para a creche para elas terem o que comer. Ficava o dia inteiro na casa dos outros e comia uma vez por dia. Só jantava, pois me davam janta. Foi difícil, mas tiveram pessoas que abriram as portas pra mim e que me ajudaram.

Depois, comecei a trabalhar, uma mulher me deu uma casinha para morar; daí ela vendou essa casinha, tive que sair; a minha irmã foi me buscar. Vim, fiquei e não saí mais. Encontrei uma antiga patroa, ela me chamou para trabalhar. Trabalhei como zeladora e porteira, depois de anos de trabalho consegui comprar uma casinha, ter as minhas coisinhas. Foi uma luta, mas a minha vida é uma luta diária, como costumo falar. Vou vencendo aos pouquinhos.

Costumo dizer que vendo o almoço para comprar a janta e isso não é fácil. O dinheiro entra na minha mão, lá no serviço e quando chega em casa já não tem mais nada. Queria ter uma vida melhor, estável. Queria não ter que viver lutando e, sim, ter um emprego registrado, bonitinho. Não digo que esse serviço, de diarista, é bom. Não tenho segurança, que é estar registrada, ter um salário. Assim eu me sentiria uma pessoa. Isso que eu levo não é vida; muitos não valorizam. 

Hoje moro com duas filhas. Tenho quatro filhos, três meninas e um menino. A minha filha mais velha vive com a minha irmã. Ela tem dezoito anos. O meu menininho, que vai fazer quinze anos também mora com a minha irmã. Ele foi porque estava se envolvendo com amizades que, em vez de ajudar, talvez iriam levá-lo para o buraco. Chegou a experimentar droga. Ele me disse: “Mãe, deixa eu ir embora porque se eu ficar aqui vou acabar fazendo coisa errada”. Lá ele está bem, estudando, tranquilo porque lá tem uma figura do lado dele que o protege, que cuida e que ele obedece. Ele tem o meu cunhado como pai.

Todos os meus filhos moraram com a minha irmã, um em cada tempo. A minha irmã diz que os outros costumam criticá-la: “Você não tem que cuidar dos filhos dos outros” e ela diz: “Mas não são filhos dos outros, são meus também”. Ela ajudou a criar e se sente mãe. Meus filhos têm muito amor neles, só se queixam por ela os vigiarem demais. Digo que ela é superprotetora.

A minha filha mais velha sempre fala: “Mãe, vem embora. Mude-se daí”, mas não quero sair de um lugar em que já me fixei. Digo: “A mãe não vai sair, não vai mudar a vida por causa de você”. Falo isso porque, na verdade, foi consequência dela, que não pode viver comigo porque se envolveu em coisas que não devia. Já pagou, mas agora a coitada é obrigada a viver lá. Sei que não é fácil.

Uma das coisas que me arrependo na vida é de ter imposto responsabilidade na minha filha mais velha desde cedo. Talvez tudo o que ela já passou na vida foi porque não teve o que deveria ter tido: carinho e infância. Foi uma criança gordinha, se desfaziam dela. Ela tinha uma doença que a fazia urinar na cama e apanhava demais por isso. A minha irmã batia, o meu cunhado também. Até quando adulta, com dezesseis, dezessete anos, quando foi presa, ela fazia xixi na cama de vez em quando. Ela sempre era largada de lado, tanto é que hoje a minha irmã também se recrimina por isso, e fala: “Faltou à ela...” Ela foi crescendo, arrumou amizades, ficou popular e achou na rua o que ela não tinha em casa.

Minha filha mais velha se prostituía, bebia e usava drogas. Começou frequentando um posto perto de casa e se envolveu num assassinato. Certa vez, não a encontrei em casa. A irmã disse que ela tinha saído para dar um “susto” em uma menina que dava em cima dos namorados das amigas. Eu disse: “Pelo amor de Deus, se eu souber que aconteceu qualquer coisa, eu não vou esconder”. Não sabia o que estava acontecendo direito, mas fiquei desesperada. Então fiquei de olho. Vi no jornal que mataram uma menina e fui descobrir o nome dela, e era o mesmo. Perguntava se foi ela e ela negava. Até que soube que ela andava se vangloriando pela rua. Eu só sabia chorar. Liguei no CRESS [Conselho Regional de Serviço Social] e informei a situação para a assistente social. Ela disse: “Você está ciente que se a sua filha estiver envolvida ela vai junto?”. E eu falei:  “Eu não vou passar a mão na cabeça. Se ela deve, vai pagar. Não a ensinei matar uma formiga, então ela não vai ficar impune por causa disso. Quando fui chamada à delegacia, falei: “Não vou pagar advogado. Primeiro porque não tenho condição, sou pobre. Segundo que mesmo que tivesse não iria, pois são réu confessos”.

Quando foi presa eu nem ia vê-la porque sempre falei: “O dia que você for presa pode esquecer que sou sua mãe”. Mas mãe é mãe. Jamais iria largar ela abandonada. Todo esse tempo que ela ficou presa, mais de um ano, eu a via todos os meses. O Governo mandava as passagens para nos vermos. Eu ia na sexta-feira e ficava no sábado. Voltava do sábado para o domingo de volta e ficava lá o sábado até às quatro e meia da tarde com ela. Hoje ela fala: “Vou fazer valer o que todos fizeram por mim”.

Depois que a mais velha foi presa, a outra filha, que está no Projeto ViraVida, me deu trabalho. Saía junto com a turma da irmã, foi atrás daquela vida, mas pelo o que eu sei ela era mais comportada, sempre foi mais cabeça. Fomos ao CREAS [Centro de Referência Especializada em Assistência Social]; fui pedir socorro no fórum porque ela saía com as amizades e sumia; brigava comigo, ficava dois, três dias fora de casa. Uma vez a polícia a encontrou numa casa com outras pessoas e pertences roubados. Tive que chamar o CREAS e ficar rodando aquele bairro atrás dela. Eu entrava em desespero porque tinha medo de alguém fazer mal para ela, por conta do que aconteceu com a mais velha, que se vingassem.

Eu queria proteger os meus filhos. Não quero ser mais uma mãe a pegar um filho morto. Me dói muito. Sei que não vai trazer a vida daquela menina de volta e a dor que a mãe dela sente não vai passar. Então, eu não quero passar por isso. Como no caso da mais velha, não esperava que elas fossem tirar a vida de alguém ou contribuir para isso. Achava que um dia iam me ligar e dizer: “Sua filha está aqui, morta”. Eu sofri por um bebê que perdi há três anos. Ele nasceu e faleceu. Sofro até hoje por isso. Imagina um filho que você criou, que conviveu uma vida e de repente você o vê morto. Por isso eu corri atrás, lutei. 

Nos órgãos onde eu procurei sempre obtive ajuda. O único lugar que fui e que eles falaram: “Ah, mãe, não adianta. Nós pegamos, levamos na sua casa, mas não podemos amarrá-los. Se saírem não podemos fazer nada, só pegá-los e levar para dentro da sua casa”. Isso foi no Conselho Tutelar. Mas nos outros não. O CREAS mesmo, lá tem psicóloga, tem ajuda a quem procura. Lá no fórum tem uma senhora que atende. Ela procura encaminhar e ajudar. E toda vez que eu precisei no CREAS eles ajudaram. 

Um dia eu estava queimando de febre em cima da cama de tanto andar atrás e pedir socorro: “Pelo amor de Deus, filha, fica aqui em casa, não vai para a rua”. Fui ao fórum e ao CRESS pedir ajuda. Graças a Deus ela está aí, porque depois que ela começou a fazer o curso é outra pessoa: estuda, faz o curso durante o dia, vai para a escola à noite. Não me dá trabalho e é uma benção. Mas não foi fácil.

Ela mudou bastante. O jeito de proceder dela mudou. Brigávamos muito antes e hoje é muito raro, dá para contar nos dedos. Eu também aprendi a lidar com a minha filha. Tem muita coisa que não tem que gritar e falar alto e, sim, chegar com jeitinho, conversando e ela me ajuda muito. Ela é uma pessoa muito boa. Ajuda também no sentido financeiro. A bolsa que ganha no projeto não fica só para ela, me ajuda também.

Esses dias ela chegou toda feliz em casa porque falaram que estão tentando colocá-las num (programa), acho que é o Jovem Aprendiz. Chegou em casa toda alegre: “Mãe!”. E falei: “Está vendo? Se te oferecerem e você conseguir entrar, abrace com as duas mão e aproveite a chance que a vida está lhe dando. Você que tem que mostrar o seu potencial”. Acho que no mundo em que vivemos não temos oportunidade de mostrar o que somos capazes o tempo todo.

Não me arrependo de ter tido os meus filhos, porque eles são uma benção e não posso me arrepender. Estão grandes, crescendo, se encaminhando. Espero que a mais nova, não me dê trabalho como os outros deram. Tudo que eu quero é que sejam alguém na vida e lutem para ser isso. Não vou dizer que eu, como mãe, tenho condições. Mas acredito que existem meios e caminhos que eles podem trilhar e conseguir. Existem bolsas e outras formas de correr atrás, ganhar uma ajuda de custo e fazer. Digo: Tem que dar um passo adiante e aproveitar as oportunidades que a vida lhe dá. Eu não tive a chance que você tem, então vá em frente.

 

Nesta entrevista foram utilizados nomes fantasia para preservar a integridade da imagem dos entrevistados. A entrevista na íntegra bem como a identidade dos entrevistados tem veiculação restrita e qualquer uso deve respeitar a confidencialidade destas informações.

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