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Movido pelas paixões

História de: Jonas Worcman de Matos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 22/06/2015

Sinopse

Em seu depoimento para o Museu da Pessoa Jonas Worcman de Matos fala sobre sua infância e a relação de paixão pela poesia e pelo futebol, ainda na Infância. Conta como foi escrever um livro com seu pai e publicá-lo, fala sobre sua relação com a poesia e com o grafite pelas ruas de diversas cidades pelo Brasil. Jonas comenta sobre sua aproximação com o Thetahealing, e sobre como surgiu a ideia de fazer a Kombiblioteca, explicando o sentido do projeto para a memória dos saraus da cidade de São Paulo

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História completa

Meu nome é Jonas Worcman de Matos, no meu RG agora, está Jonas Worcman dos Matos e com o numerólogo, virou Jonas Worcman de Sete Matos. Nascido em São Paulo, no dia 30 de janeiro de 1995. Meus pais são Karen Worcman e o José Santos Matos. Os dois se conheceram fazendo o Museu da Pessoa. Minha mãe, ela teve a ideia, fez um trabalho sobre a história dos judeus imigrantes no Rio de Janeiro e minha mãe ficou responsável por fazer a história das pessoas, ela ficou completamente deslumbrada de como aquelas histórias eram preciosas. Então, ela falou: “Nossa, a história da sociedade você faz pela história das pessoas”, e veio a ideia do Museu da Pessoa. Ela teve essa ideia e estava dando uma palestra meio sobre história oral, uma coisa e o meu pai olhou para ela, assim, e se apaixonou assim, falou: “Nossa, que moça bonita”, ele foi lá levar umas flores para ela e tal e a minha mãe era casada. Depois, ela separou, eles começaram a namorar, que foram os primeiros projetos do Museu, mesmo! Eu digo que eu sou irmão do Museu, porque eles começaram a namorar, nos primeiros projetos, quatro meses de namoro, ela engravidou de mim. Eu cresci em São Paulo, na Vila Madalena.

Até que com dez anos, eu lembro que a gente estava na Bahia, ele estava escrevendo o livro dele e um livro de terror, assim, e eu falei: “Vou fazer um poema também”, eu fiz um poema que era sobre a casa mal assombrada que precisava ser limpada e eu ia brincando, eu mostrei para o meu pai, meu pai: “Meu Deus, menino, é muito bom, mano, nossa, está muito bom, faz outro aí”, no dia seguinte: “Vou fazer outra aqui”, eu fiz da múmia, que a múmia empinava pipa com o ventilador, nossa, velho, ele: “Faz outra, faz outra”, e eu: “Legal, vou fazer”, e eu fui fazendo. Eu fiz vários mesmo. Ele falou: “Jonas, vamos fazer esse livro comigo?” “Livro de verdade? Vamos, vamos!”, eu lembro a gente ia em várias editoras para reuniões, mesmo, com dez, 11 anos.” Então foi um processo muito intrigante, publicar um livro com 13 anos, porque vamos dizer, primeiro, porque eu cheguei lá com a galera da escola, tinha meio que uma turma que eu dediquei o livro, chegou lá na Bienal, eu lembro que eu vi um livro muito bem editado, não é esse aqui, mas eu: “Rapaz!”, foi o maior orgulho de dar no coração.

Foi o meu primeiro trabalho na locadora de vídeo.  Eu trabalhava quatro horas por dia. Eram quatro ou cinco vezes por semana, recebia um pouquinho, era quase como ajuda de custos, 15 reais, assim por dia. E eu era atendente, então a pessoa chegava, eu tinha que recomendar filme para a pessoa, se ela pedisse, eu ia recomendando os filmes e passava, alugava, fazia todo o processo burocrático, limpava a loja e alguns dias, eu fechava a loja.

Aí meus pais se separaram, “Vou morar com o meu pai”. Meu pai foi morar em uma outra casa e a gente se divertia muito com ele e a minha mãe começou a namorar quem antes era o meu professor de piano. O meu irmão, eu senti que marcou muito ele, meu irmão Miguel.

Minha mãe mudou de casa, foi para frente de uma quadra de futebol, o meu pai ficou lá. Enfim, eu fui morar lá e eu tinha muitas poesias, até que eu entrei no Catraca Livre, eu escrevia para o Catraca Livre, isso foi um marco também, quando o Gilbert fez uma matéria para mim, ele me convidou para escrever para o Catraca Livre, então escrevi umas matérias, só que depois eu parei um pouco e eu descobri saraus na periferia. Vi lá o primeiro: Poesia Maloqueirista, Sarau do Binho, nem sabia o que era, na biblioteca que era aqui, Alceu Amoroso Lima. Eu cheguei lá com uma amiga minha que eu estava apaixonado há dois anos por ela, muito doido e eu tinha acabado de escrever o meu primeiro poema de amor. Eu fui lá na frente e li o poema que eu tinha feito para ela no sarau, só que não diretamente e eu fui descobrindo um sarau atrás do outro.

Eu lembro que eu grafitei no centro, eu fui grafitar num dos lugares mais importantes públicos, chegaram os caras: “Mano, vaza aí, vaza aí”, eu fui num canto de um viaduto e vi a polícia chegando assim. Mas eu grafitei na frente de casa um negócio enorme. E um dia eu declamei isso num sarau. O cara falou: “É você? Eu vejo a sua poesia todo dia indo para o trabalho, amo”, encontrava várias pessoas que conheciam a minha poesia pelo grafite e outras pelos saraus e eu saí nessa pegada de poesia de rua, de todas as formas, já tinha o livro: “A Livra é Bélica". Fomos para Santos, sem nada, um apezinho, a gente tinha combinado de sair para vender. Enquanto eles capitalizam a realidade eu socializo os meus sonhos, o poema do Emerson Alcalde, a gente ia levando essa poesia de agora para a galera, vendendo livro na rua. Pra gente era a coisa mais da hora do mundo, só que isso durou um dia e meio, porque o meu amigo teve uma crise tão grande que ele não conseguia emocionalmente continuar a viagem. Então, eu me mandei para Minas Gerais sozinho, sem lugar para ficar porque eu soube que estava rolando um festival de cinema lá. Na hora que eu cheguei lá em Minas Gerais, eu fiquei na casa de um rasta acampando no quintal e eu vendia livro todo dia, no começo estava muito tímido, mas depois, eu estava vendendo muito livro! Meus pais não estavam me apoiando muito nesse movimento, falaram: “Vamos mudar para um projeto que parece”. Eu fui lá para o Ceará para morar num projeto de jovens, no sertão que se reuniam para estudar, um ajudando o outro para entrar na universidade. Só que rolou duas coisas: uma que eu me encantei, eles trabalhavam muito com histórias de vida, até todo mundo conhecia o Museu, tudo, amavam mesmo história de vida e as historias de vida eram magnificas, então eu estava muito chocado com a humildade das pessoas de lá, do agricultor que ficava cinco, seis anos, começava analfabeto, entrava na universidade, histórias chocantes de superação, uma galera entrava na universidade, entrava na universidade, voltava no fim de semana para ajudar o outro a estudar. Só que o que acontece? Tinha saído porque eu não queria entrar na universidade, me mandaram para um cursinho diferente, mas um cursinho. Só que o universo me mandou para outro lugar. E falavam, falavam, e falavam, eu acabei parando no Ciclovida. Eram agricultores que tinham viajado de bicicleta do Ceará até a Argentina.

Voltei para São Paulo, foi errado, eu não estava pronto para voltar, eu tinha acabado de despertar e voltei e quando eu voltei, eu cheguei em junho de 2013, só pensando em espiritualidade e Thetahealing. E cheguei com todo mundo indo à rua loucamente, e eu não sabia o que fazer, mesmo. Eu acabei indo para a rua, só que eu estava muito desarmonizado. Depois de junho, foi em setembro. Meu primo criou o canal no Youtube, e ele falou assim: “Você tem alguma ideia para o canal?” “Poesia falada”, na hora assim, poesia falada, ele: “Poesia falada?” “É, poesia falada, está muito massa”. Ele experimentou umas coisas, deu super certo, a galera super gostou. Isso foi em 2014. E eu encontrei o sarau dessa galera que tinha muitas coisas alternativas, eu fiquei meio por lá e eu levei a poesia para eles. Então foi o meu despertar da poesia. O que acontece? Eu tive uma oportunidade de ir ao Acre, eu falei: “Nossa, eu tenho que ir”, senti que tinha que ir e rolou um conflito e acabei não indo. Isso foi um processo que eu mergulhei numa depressão muito profunda, mesmo, pensei: “Nossa, eu queria tanto viajar!”.

O Berimba de Jesus é da poesia Maloqueirista, estava na coisa maloqueirista, a gente estava muito amigo, ele falou: “Jonas, rolou um negócio com o Renato Limão, está numa crise muito profunda”, o Renato Limão foi quem fundou a poesia Maloqueirista antes, que inspirou o Berimba, “Tá no Paraná, vamos fazer um documentário da vida dele?”. E foi a primeira vez que eu fiz uma entrevista sozinho do Museu da Pessoa, perguntei para minha mãe: “Como faz uma entrevista?”, aprendi, peguei como era a manha de fazer uma entrevista, eu lembro que até eu estava fazendo curso do Museu, na época, faltei em duas aulas para ir para o Paraná, fui para o Paraná com uma câmera e tal, a gente chegou na casa do Renato Limão, gravou a história de vida dele, gravou as histórias dele. Foi muito bom para ele, até era dia de finados, curiosamente, eu encontrei um cara muito doido nos chamando para ir no centro espírita. A gente foi para o centro espírita, nossa, eu lá no centro espirita querendo falar um poema e o Berimba disse que teve altas visões de coisas, foi uma coisa que eu senti que fez muito bem para o Renato. A gente ainda ficou de editar esse documentário e voltamos. E eu encontrei o meu primeiro festival, fui com essa dupla caipira de reggae, que era a galera que fazia uma coisa na Casa de Jaya umas músicas de paz e amor, das medicinas alternativas, indígenas e eles me levaram para um festival lá. Eu encontrei o primeiro festival e fiquei encantado, fui com o Guarda-Chuva lá, ficava 24 horas fazendo poesia. E foi muito louca a história, até cheguei declamando um poema para um cara assim: “Vou te declamar um poema: Se os meus versos de amor não chegam até você… ele falou: “Porque estão presos na Marginal Tietê”, conhecia a minha poesia e, ele frequentava uns saraus, mas a gente não se conhecia, a gente armou um negócio enorme, pendurou mandala, poesia, juntou a maior galera, a gente ficava fazendo poesia e eu estava muito nessa pilha, não estava conseguindo conciliar com a universidade, eu escrevi um negócio assim: “Vou para Chapada”, aprovei três projetos na Chapada Diamantina e nessa volta do Paraná, que eu comecei a falar do Paraná por uma coisa, que eu fui fazer esse documentário, na volta, a gente teve a ideia: “Jonas, a gente tem que fazer isso com todos os poetas”, eu falei: “É, lembra que eu dei essa ideia há três anos trás?”, eu tinha tido essa ideia, falei: “Vamos fazer o museu do poeta”, ele falou: “Vamos fazer”, a gente foi conversando, eu disse: “Então, vamos viajar o Brasil de bike”, a gente começou a  discutir, voltou o ônibus inteiro, do Paraná, dez horas trocando ideias, com o projeto formado e nasceu a Kombiblioteca. E eu lembro que nasceu, no dia seguinte, eu fui no Museu, vi que estava um edital aberto, dois dias de edital do Proac, eu falei: “Vou inscrever aqui pelo Museu”, eu tive todas as ideias criativas, falei com o Minchoni, tive a ideia do nome Kombiblioteca, que eu até descobri depois, que o Binho já tinha criado esse nome e vieram várias ideias, eu escrevi o edital, era dia 5, fechava dia 7, a gente imprimiu, escreveu tudo dia seis e dia sete, fechava na Luz o negócio, era quatro e vinte, eu estava aqui, falaram: “Jonas, acho que não vai dar para entregar” “Vai dar”, eu entrei em Thetahealing, rezei par dar certo, parei um táxi na hora, ele parou no metrô, saí do metrô, saí na Luz, tudo muito intenso assim, cheguei na Luz e fiquei andando de boa, eu estava andando de boa, passou um cara, ele olhou assim bem no olho, bem no fundo do meu olho e falou assim: “Corre, corre”, eu corri, nossa senhora, eu cheguei no lugar, estava fechando a porta de entrada do projeto, eu fui o último a entrar. Na hora que o cara olhou pra mim, falou: “Boa sorte”, todo mundo começou a me desejar boa sorte, entreguei o projeto da Kombiblioteca. Eu pensei: ‘nossa, era para ser mesmo’. Tinha uma amiga que fazia naturologia, ela morava na Índia e ela falou: “Jonas, eu vou para Índia, você quer alguma coisa?”, eu: “Quero! Pede para ela abençoar o meu projeto”, escrevi o poema da Kombiblioteca para ela ver e abençoar, que é assim: Quem disse que a vida é uma linha reta?/ Dou a volta no universo com a Kom/ Com a Kom, com a Kombiblioteca Poética da gente/ Eu vivo onde o coração sente/ Onde a vida pulsa/ Pulsa, pulsa feito folha avulsa/ Que vai e volta, se solta em todo lugar que cola/ Na cachoeira ou na escola/ Onde o mundo pede cor/ Ouvindo do mendigo ao doutor/ Pois ruim ou boa/ Para ter historia, basta ser pessoa”. Escrevi isso e a guru da Índia abençoou de lá, eu ia encontrando várias pessoas místicas, pedindo para a pessoa passar benção. Eu estava lá na Bahia, na Chapada Diamantina, fui para esses projetos que aprovei e descobri que tinha sido aprovado.

A gente queria registrar um pouco a história da poesia através da história de vida dos poetas. Então, a gente queria pegar pessoas do movimento, que eram desse movimento, principalmente, de saraus, principalmente não, do movimento de sarau, que é uma coisa nova, que rola essa literatura periférica e pegar os mais representativos deles e também, conseguir contar com uma diversidade, onde cada um tivesse um diferencial para poder estar aqui. E aí, por exemplo, a gente pegou: Sarau do Binho, Binho do Sarau do Binho, porquê? Porque foi um dos primeiros saraus, mesmo, fez o Postesia. Aí, a gente pegou Daniel Minchoni, Daniel Minchoni é uma figura muito diferente, ele criou a figura do poeta palhaço. Pegou o Giovani Bispo, é o que faz um sarau dentro da favela, um dos únicos que faz o sarau dentro da favela. Ia pegar Pezão e Sergio Vaz da Cooperifa, porque foi o primeiro, com o Binho, o primeiro sarau que abriu. A gente queria pegar os mais antigos, a Raquel Almeida do Sarau Elo da Corrente. Existe uma coisa que é o slam, que é competição de poesias que existe. Então, a gente quer pegar a Roberta Estrela D’Alva que trouxe o slam para o Brasil, o Emerson Alcalde.

A gente quer pegar toda diversidade através dessa semente que são os saraus e pegar a diversidade que isso sempre foi. Então, vai pegar o Alison da Paz, que por exemplo, ele criou poesia entregue, tipo em papel reciclado, eles próprios reciclam o papel, fazem oficinas com crianças, as crianças escrevem poesias da literatura e entregam nas casas. Cada um tem um diferencial. Mais ou menos essa galera, a galera do Portas Ambulantes e a gente vai com a Kombi no sarau mesmo, também. 

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