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Música na minha casa é 24 horas

História de: José Gerson de Moura
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/07/2017

Sinopse

José Gerson descreve a sua infância à beira do Rio São Francisco, em Sergipe, e a vinda para São Paulo aos 16 anos. Conta como tornou-se salva-vidas e descreve em detalhes alguns de seus salvamentos mais dramáticos. Nas horas vagas, Gerson era empresário da banda de pagode dos filhos, Poesia do Samba. Ele fala sobre uma turnê atribulada da banda pelo Nordeste e como ajudou os filhos a construir uma carreira bem-sucedida, que resultou na fundação do projeto social Favela da Paz -atuante no Jardim Nakamura (região sul de São Paulo), onde Gerson mora até hoje com a família.  

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História completa

Eu nasci numa cidadezinha do interior do Sergipe, com nome Carrapicho. Eu vivia no Rio São Francisco, jogando bola onde eu queria, eu vivia pescando, eu tinha uma vida bacana. Eu nunca comi nada gelado, congelado, como eles comem aqui hoje. Tinha muita comida porque os meus avós viviam na roça e eles plantavam as coisas. A gente vivia uma vida igual um passarinho.

Nos anos 70, eu vim pra São Paulo, achando que São Paulo, na minha cabeça, seria os Estados Unidos, uma coisa impossível. Chegando ali, no 9 de julho, tem um túnel, quando o ônibus entrou ali, eu entrei em pânico, achei que ia morrer embaixo da terra, porque é escuro.

Eu era magrinho, cabelo comprido, porque eu vim para cá, mas não saí da onda do Roberto Carlos. Aos 19 anos, um amigo me levou pra trabalhar num clube. Eu passei no curso de salva-vidas porque eu nadava no meu Rio São Francisco desde pequeno. Com essa profissão, eu consegui manter a minha família até hoje. Nesses 20 e poucos anos de salva-vidas, eu falo sempre uma palavra lá quando acontece alguma coisa. Dizem para mim: “Você salvou”, e eu: não salvei, eu tirei da água. Quem salva é Deus.

Eu criei os meus filhos no Jardim Nakamura, onde tinha muito crime, matavam os caras e jogavam lá na rua, você chegava de manhã tinha 1 ou 2 mortos. Minha mulher não deixava os filhos sair, eles nunca soltaram pipa quando pequenos. Eu sempre gostei de tocar um pouquinho de violão. Eu tinha comprado um bandolim, que parece um cavaquinho, e um dia chegando em casa, vi o meu filho Claudio tocando as primeiras notas do Brasileirinho.  Aí o  Claudio quis fazer um grupo de pagode com os amiguinhos. Ele tinha quase 10 anos, e eles tocavam com lata de goiabada que eles mesmos faziam. Eu falei: “Essa turma está boa, viu? Acho que vou dar uma força para essa molecada aí”. Eles aprenderam sozinhos, nunca tiveram aula. Eles cresceram dentro da favela como grupo Poesia do Samba. Começaram a ser convidados para entrar nos festivais de música livre, samba e tal. Eles ganharam vários festivais e daí nós tocamos a vida, correndo atrás do sonho deles.

Quando eu cheguei aqui eu não tinha nem um chinelo de dedo e agora eu construí sete casas, que hoje é onde fica o nosso estúdio de gravação, todos os projetos sociais dos meus filhos, é tudo lá. Moramos todos juntos. Os meus filhos ajudam demais as pessoas, dão emprego, colaboram com muita gente. Porque foi com a banda que a gente tem tudo isso que está aqui, foi a banda que puxou. É um sonho que não vai terminar nunca. A banda para mim é uma coisa muito boa. Por isso que eu aceitei na minha casa, porque eu adoro música. Música na minha casa é 24 horas.

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