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História

Música pra tocar a alma

História de: Zytho (Anderson Luis Romão de Oliveira)
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Publicado em: 09/10/2012

Sinopse

Anderson Luis Romao de Oliveira mais conhecido como “Zytho”, em seu depoimento relata sua história com o reggae e o rastafarianismo, apreciador do “amor e respeito ao próximo”, Zytho fala também sobre sua conexão com a espiritualidade e como isso é transmitido na música.

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História completa

P/1 – Agora vamos começar. Eu queria que você dissesse o nome completo e depois o apelido.

 

R – Anderson Luis Romão de Oliveira, vulgo “Zyto”.

 

P/1 – Tá. Nasceu aonde?

 

R – Aqui em São Paulo mesmo...

 

P/1 – Que dia?

 

R – No Hospital da Freguesia do Ó, no dia 25 de janeiro de 1984.

 

P/1 – Por que esse apelido?

 

R – Porque quando eu nasci, meus parentes alegavam que eu era muito peludo. Tinha um personagem do Tony Ramos, que ele fazia, então por essa comparação, o nome dele era Dr. Joãozito, na verdade o meu apelido é Joãozito, mas com o tempo a gente tirou o João e deixou só o Zyto, esse é o motivo do apelido. Tanto que desde então, adotaram esse apelido como nome que minha mãe mesmo, nunca ouvi ela dizer meu nome: Anderson.

 

P/1 – Mesmo?

 

R – Mesmo, na real. Minha mãe eu nunca ouvi. Meu pai sim, porque a gente não mora junto, então tem aquela coisa mais social. Mas minha mãe e meus parentes mais próximos é tudo “Zyto”, e os mais antigos “Joãozito”.

 

P/1 – E na escola?

 

R – Na escola, “Zyto”. Até na chamada as professoras... Mania. Na diretoria... Onde eu estudava todo mundo “Zyto”. Já conhecia como Zyto, não tinha Anderson. Então o “Anderson” é meio desconhecido. Se perguntar de Anderson onde eu moro ninguém conhece, agora, se falar “Zyto” a maioria já vai conhecer.

 

P/1 – E a grafia, com Y, com T, quem inventou isso?

 

R – Com Y, com T, veio de uns tempos atrás, porque foi quando eu tava pesquisando no dicionário e zyto ele provém do grego, que era o nome dado à cerveja na Antiguidade, na Grécia, e significa sabedoria também em grego, aí eu adotei porque como eu aderi à filosofia rastafári, eu tinha uns dread, sou cantor de reggae, sou músico, não somente de reggae, mas de outros estilos também, compositor... Então devido a essa influência, por significar sabedoria, e por eu estar envolvido com o rastafarianismo, ficou Zyto Rasta Romão, pra dar mais um sentido à palavra, também.

 

P/1 – Queria que você dissesse o nome dos seus pais.

 

R – O meu pai é Luis Carlos Romão de Oliveira e a minha mãe Cecília Aparecida César de Melo.

 

P/1 – E o que eles fazem?

 

R – Meu pai no momento é tapeceiro, mas também por eu nunca ter morado com ele, muitas das influências que eu tenho hoje foi dele, porque ele é músico, ritimista de escola de samba há trinta anos, toca violão de sete cordas e pinta quadros, ele é artista plástico também. E minha mãe é dona de casa, né? Dona de casa, mas no momento ela também trabalha com o tear de fazer cachecol, então meio que todo mundo faz um trabalho manual em casa.

 

P/1 – E os avós? Quais eram os nomes deles?

 

R – Edinéia. Da minha mãe Edinéia de Moraes, que já faleceu também há dez anos, e do meu avô Eduardo Campos do Amaral, também, são os pais da minha mãe. Já os pais do meu pai, minha avó é Edwirges Romão de Oliveira, e já o do meu avô eu não sei dizer, por que quando eu nasci, ele já havia morrido e nunca comentei com a família sobre ele, então nem o nome eu cheguei a saber.

 

P/1 – Seus pais eles são de São Paulo?

 

R – É, são todos naturais de São Paulo.

 

P/1 – Avós também?

 

R – Avós também. Avós têm um pouquinho o pé em Minas, né, Minas Gerais.

 

P/2 – Irmãos?

 

R – Tenho três irmãos, três irmãs da parte da minha mãe, e dois irmãos e duas irmãs da parte do meu pai. Ao todo são sete irmãos, tenho sete irmãos, eu sou o oitavo e sou o mais velho de todos.

 

P/1 – E você conviveu mais com qual lado da família?

 

R – Ah, mais do lado da minha mãe, né? Por a gente sempre estar morando em alguma localidade de São Paulo, apesar de eu ser natural da Brasilândia, ter nascido lá, nós sempre... A gente às vezes morava um ano na Zona Leste, um ano em outras regiões, mas eu sempre soube quem era meu pai, mas nunca aquela aproximação. Mas não pela gente, mas por ele mesmo, de ele não se interessar em vir ver o filho dele, né?

 

P/1 – E como que era na sua casa, com seus irmãos, que você conviveu mais, como é que era o cotidiano, infância?

 

R – Tudo ótimo, porque elas também têm uma fase de idade um pouco abaixo da minha. Eu estou com 23 anos, a minha irmã mais velha vai fazer 15 agora, e as outras, uma tem 12 a outra tem 13, então a convivência sempre foi ótima, porque eu cuidei delas, eu ajudei a cuidar também, tive um pouco dessa parte aí. Eu fiz aquela coisa de irmão mais velho, então sempre a convivência foi boa. Atritos todo mundo tem, mas sempre do meu lado porque às vezes eu exijo um pouco mais delas também.

 

P/1 – Conta mais da infância, do quê vocês brincavam...

 

R – Eu quando estava com elas assim; eu normalmente, quando eu era pequeno eu brincava com algumas primas, porque eu fui criado numa família de 14 primas e eu como único neto homem – até a minha avó falecer, eu era o único neto homem –, então eu brincava muito com as minhas primas. Mas minhas atividades eram normais: gostava muito de bonequinho do He-Man, Jaspion, gostava de assistir Changeman, gostava de brincar de muitas coisas, jogar bolinha... Nunca fui viciado em pipa e vídeo-game. Foi uma coisa que nunca conseguiu me captar. Já tive, mas nunca fiz questão. Era mais coisa da rua mesmo, rodar pião, mais umas coisas loucas, brincava com as minhas primas de casinha também. A gente tinha um galinheiro no quintal; a gente entrava lá dentro e fazia uma casinha, tinha um pé de manga, pé de goiaba. A minha infância foi muito boa, porque ainda se valorizava aquela coisa de manter um quintal em casa pras crianças brincarem. Hoje em dia já não tem isso e minhas irmãs já cresceram um pouco fora dessa época diferente, tanto que hoje elas têm essa faixa de idade e já não brincam de boneca, e eu na minha idade brinquei de esconde-esconde até os quinze anos com os meus camaradas, subindo na árvore na rua. E elas já não fazem isso. Mas a relação foi ótima.

 

P/1 – E você morou em vários lugares, de pequeno?

 

R – Morei.

 

P/1 – Conta um pouco de alguns desses. Um que você quiser mais contar. Como é que era sua casa, como é que era o seu bairro, a rua.

 

R – Era assim, o primeiro lugar que eu... Depois que eu me mudei, que eu me lembro, que eu comecei a me lembrar depois que eu mudei da Brasilândia, foi Laranjeiras. Eu morei um tempo de Laranjeiras e a lembrança vaga que eu tinha, porque eu era muito pequeno, é que tinha um lixão do lado da minha casa, onde as pessoas armazenavam lixo. Uma coisa que me marcou muito foi que um dia, eu desde moleque gostava de moto né, ficava imitando uns carrinhos, andando pelo quintal, vi um capacete dentro desse lixão e eu pulei lá dentro pra pegar. Eu lembro que minha mãe me deu uma bronca, não sei se ela me deu uma surra, mas o que eu lembro é isso. Essa parte de Laranjeiras.

Já quando a gente foi morar, moramos um ano em Itaquera, eu lembro que lá eu fiz o meu primeiro, fiz o EMEI lá, fui pra creche, lá também eu fiz o primeiro ano da escola. A lembrança que eu tenho é que uma vez no prézinho, a gente pintando pedrinha na escola assim, o rapaz veio, um coleguinha meu, eu pintando pedrinha, ele chutou a pedra, a pedra bateu na minha testa, eu fiquei com um galo desse tamanho, moleque. Foi uma coisa que me marcou muito. (risos) Aí, quando eu já mudei, voltei pra Brasilândia, da Brasilândia eu fui pra Pirituba porque eu repeti o ano na Brasilândia, então esse meio tempo eu morei com a minha avó, depois fui transportado a morar com a minha mãe de novo. Aí em Pirituba eu morei na Vila Zati. Lá na Vila Zati as lembranças são que eu ia muito pro lado do Campo, Satélite, jogava bola e os cara da RZO, quando eu era pequeno praticamente os cara ali antes de fazer sucesso tudo, sabe, rimando ali, fazendo várias atividades, jogando basquete, andando de skate, então tudo, foi onde eu comecei a ter minhas influências, onde eu comecei a me influenciar em muitas coisas, que aí eu já estava perambulando por vários lugares já, também. Depois eu retornei à Brasilândia e lá estou até hoje.

 

P/1 – Só voltando um pouco, você falou que morou com a sua avó um tempo...

 

R – Isso.

 

P/1 – Como é que é seu contato com ela, como é que é sua relação com ela?

 

R – Tipo segunda mãe, né? Toda avó é maravilhosa, principalmente quando o neto é neto único, único homem. Porque 14 netas mulheres, então eram muitas, sabe, aquela coisa de apegação. Então pra mim, o tempo que eu morei com a minha avó, tipo, eu não senti tanto a falta da minha mãe porque eu toda aquela carência que de repente eu necessitasse, a minha avó tava suprindo ali, se preocupava da mesma forma que a minha mãe. Então a minha avó pra mim foi uma das melhores coisas que aconteceram na minha vida, ter morado esse tempo com ela, que também foi um tempo que eu aprendi. Apesar de eu ter repetido na escola, mas foi um tempo que eu pude viver com ela antes dela falecer e conhecer realmente quem era a minha avó.

 

P/1 – O que te marcou, o que tanto você aprendeu ali de mais valioso?

 

R – Mais valioso? A minha avó exigia muito da gente, ela sempre questionava essa questão: a gente é pobre, mas a gente não tem que ser ignorante. Então sempre influenciava nos estudos. Por ela ser analfabeta ela me ajudava nas atividades, mesmo sem saber. Então ela chegava e auxiliava, às vezes acertava. Então não era nem uma coisa de saber, era um carinho que ela transmitia, ela me ensinava através daquilo. Através daquilo que ela passava, eu aprendia, tanto que a professora uma vez na escola me deu uma semana pra eu aprender a ler. Eu não sabia ler. A minha avó ali todo dia me incentivando, em uma semana eu tava lendo... Aí pra mim foi muitas coisas, né?

 

P/1 – E você disse que o seu pai era músico, é músico, também né.

 

R – É, ele é ritimista de escola de samba agora. Mas ele era músico na adolescência, na juventude dele né, na adolescência e na juventude.

 

P/1 – Que escola?

 

R – Oi?

 

P/1 – Que Escola que ele é?

 

R – É, ele é da Rosas de Ouro, infelizmente.

 

P/1 – E qual é a sua?

 

R – Eu sou gaviões.

 

P/1 – Ah, tá...

 

R – Mas ele era músico, bandoleiro. Tanto que minha mãe se separou dele por causa disso: era muito violão, muita mulher, entendeu? Músico aí, tocava, fazia banda com o Benito de Paula, diversos artistas. Mas só que andava muito na noite. Não parava em casa, foi um dos motivos da minha mãe se separar dele também.

 

P/1 – E qual a influência que ele tem pra você fazer música hoje?

 

R – Pra eu fazer música? O estilo de música que ele curte, né? Ele gosta de música raiz, e é o que eu me influencio pra fazer música. Quando eu me propus a ser músico eu procurei muitas coisas, tanto quando eu fui fazer reggae, procurei saber o que eu ia dizer, o que os caras estavam dizendo pra mim quando as letras não eram daqui, tanto que quando eu comecei a curtir, não existia nem reggae aqui em São Paulo. Que muitas coisas aqui o pessoal considera reggae, mas não é reggae, então as influências foram essas: aprender a cultivar a verdadeira música, música a qual tem uma origem e dessa origem passe o tempo que passar, vai sempre manter aquela linhagem, não vai mudar. Seja música de protesto ou não, ela nunca vai afrouxar pro sistema, você está falando contra o sistema.

 

P/1 – Mas ele te ensinou a tocar também?

 

R – Não, que nem eu disse: nunca tive um contato assim com o meu pai, isso é engraçado. Ele tem meus irmão e meus irmãos não faz nada disso do que eu faço. Todos eles cresceram na doutrina cristã ali e são assim. E eu já não. Eu por não morar junto, parece que é coisa genética. Já tive mais esse contato, ele pinta quadros, meu pai, eu fui um bom pintor também, gostava de ficar ali pintando e eu também hoje faço a mesma coisa: gosto de pintar quadro, gosto de desenhar, gosto de fazer artesanato. Então é meu hobbie, meu passatempo, e isso foi o que ele me passou, mas pelo sangue e não de sentar e falar “filho, é assim”... Que aprender, o despertar do desenho eu aprendi mesmo foi com o meu pai que me criou.

 

P/1 – Mas e essa vida que ele leva, você falou, de bandoleiro, isso te chamava atenção, você queria ser isso?

 

R – (risos) É muita influência, muita loucura. Depois você passa a curtir o mundo e você começa a entender o que é ser um bandoleiro, o que é você acreditar em alguma coisa, sabe, e levar isso com seriedade, mas não deixar, por vacilar, que nem ele deixou, deixou uma família de lado de repente pra viver uma coisa, então, desde que você faça e viva com responsabilidade, ser um bandoleiro é uma ótima coisa na vida. Que é você expressar seus pensamentos, ser do mundo, querer conhecer tudo, querer aprender um pouco de tudo, mas sempre com humildade de parar pra ouvir, nunca querer abrir a boca pra ensinar, que o ensinamento às vezes calado a gente tá ensinando alguma coisa. Ou senão, pensando e raciocinando e com uma única frase a gente já resume várias coisas.

 

P/1 – E como então, conta quais foram realmente as influências, quando que você começou a rimar, tocar, compor?

 

R – Ah, minhas influências... Em 1993 eu escutei pela primeira vez Racionais, aí eu guardei aquilo. E eu fui criado numa família que escutava muito samba: Juvelina Pérola Negra, D. Ivone Lara, entendeu? Beth Carvalho era antiga, escutava muito samba: Adoniran Barbosa, Cartola, então eu cresci nessas influências, e isso sempre me chamou atenção, porque era um samba rimado, Bezerra da Silva... Era uma coisa que falava da realidade de uma forma descontraída, mas que era raiz, você via que era uma coisa que vinha de dentro, não era de repente falar de uma música com uma falsa ilusão, ou uma fantasia. Não. Era algo real, que as pessoas vivem ou tão vivendo, falando de alguém, algum vizinho, então isso sempre me chamou atenção, porque eu ria às vezes com isso, que eu às vezes comparava certas situações com a música, porque aconteciam realmente. Então minhas influências começaram por aí, por músicas boas. Aí em 1995 eu conheci o Planet Hemp, já fiquei mais doido, e depois conheci Chico Science e Nação Zumbi, aí já gostei de Elis Regina, Tom Jobim... Foi um monte de músico. Muita coisa... Jorge Bem Jor, Caetano. Muita coisa boa. Eu comecei a aprender música por aí.

 

P/2 – E foi com os amigos, assim, também?

 

R – Muitos amigos dividiram música comigo. Sinceramente, muitas músicas aí a gente não corre atrás, não vai. Mas quando a gente escuta pela primeira vez, eu como era um interessado pela música, até então não era um músico, era um interessado pela música, toda vez que eu escutava uma música nova eu queria saber quem era, queria saber sobre o que aquela pessoa falava, que pra mim, curtir música é mais do que isso: é você saber denominar a informação que ele está passando e se ele está sendo verdadeiro naquilo, ou se ele continua, se aquela é a linhagem dele, ou se cada CD ele muda de personalidade pra comover as pessoas. Eu sempre me preocupava com isso: saber a história do músico, ir pesquisar, pegar material com alguém que tivesse um CD... Aí todo mundo que me transportava eu ia absorvendo aquilo e escutando, os que eu gostava, eu gostava, os que eu não gostava, já não escutava mais.

 

P/1 – E você aprendeu a tocar instrumento...

 

R – É, eu toco guitarra, faço guitarra base na minha banda, toco bateria e sei algumas escalas de baixo, né? Não toco bem porque meu dom mesmo é vocal, sou vocal, eu canto.

 

P/1 – Mas como aprendeu? Vendo? Imitando? Como foi?

 

R – Porque eu comecei cantando rap. O rap é muito aquela coisa batida. Batida, você fica naquele negócio então, rimar, o rap me ajudou a desenvolver as rimas, porque eu comecei a rimar com o rap, então eu fazia muito freestyle, já estava envolvido com skate, já andava com uma galera que andava com uns cinco grupos, o meu era o VDF, tinha o Ideal, o XDR. Tinha vários grupos que ficavam junto com a gente. Tinha uma rapaziada do rock também, que tinha umas bandas de punk, pá, então a gente... Eu comecei rimando, mas só que com o rap, por aquele tempo, não sei agora, porque eu não estou muito envolvido e meus parceiros, apesar disso, eles tão, os que continuaram tão fazendo um som diferente, gravaram até CD. Isso acontece.

Naquele tempo, pra eu continuar no rap eu tava com a mente muito fechada, pra abrir minha mente pra música, mas só que eu quando comecei a abrir minha mente pra música foi quando eu me... Não tipo eu me propus, né, me convidaram a trabalhar numa banda. Banda é diferente, meu, você aprende tudo: tom semi-tom, o que é uma nota, uma nota acima, abaixo, você aprende o som que você canta. Então, quer dizer, expande o mundo, você vê que o mundo não é só “tum, tá, tum, tá” e você rimar em cima. Quero ver você rimar em cima, várias notas rolando, uma harmonia a contratempo e você fazendo... Foi onde eu comecei, eu aprendi música aí, com banda, aí eu comecei a trabalhar música de verdade, comecei a compor, pelo som que eu escutava, pelo ritmo da banda, aí eu já compunha.

 

P/2 – E o VDF, assim, foi o seu primeiro grupo?

 

R – Foi o meu primeiro grupo.

 

P/2 – E o que significa VDF?

 

R – Significa Voz da Favela.

 

P/2 – E eram quantas pessoas?

 

R – Era eu, meu parceiro primórdio, o Teto e o Mestre. Aí o Teto chegou uma época, no ano 2000 a gente terminou essa banda, porque ele começou a ir pra igreja. Só que até então, eu já tinha comentado com ele sobre o grupo, que a gente já não fazia umas letras muito agressivas, sempre uma coisa de auto-conscientização, né, mostrando o nosso valor. Eu perguntei pra ele se ele ia permanecer, ele falou que ia continuar, que não pegava nada. Mas só que uma semana depois ele disse que a igreja não permitia.

Foi um parceirão meu que, meu, a gente cantava junto desde os doze anos, porque na verdade mesmo a minha primeira rima, eu comecei a rimar na escola, porque quando tinha prova eu não gostava de estudar, então eu tinha uma facilidade de ler a matéria e rimar a matéria. Eu rimava a matéria, o texto, começava a rimar o texto, e na hora da prova eu via a pergunta, ia cantando e lembrava daquela parte.

Comecei a rimar assim. Uma professora de português me viu fazendo isso, a Clemilda, gostou e fez o primeiro evento na escola pra me ver cantar. Foi onde eu comecei com esse meu parceiro que já rimava, o Teto. Aí quando ele saiu pra mim o grupo já perdeu o sentido, porque o rap também estava com uma imagem muito decaída e as pessoas já num estavam lutando pela mesma coisa, então é difícil você às vezes sozinho querer mudar o mundo.  Apesar de que a gente muda o mundo através da gente mesmo começar a mudar, das nossas atitudes. Mas só que me desanimou muito pelo cenário que estava, e pela necessidade que eu tinha também. Meu espírito já pedia isso, evolução. Meu espírito já pedia música e eu estava bitolado numa coisa só. Não que o rap não seja bom, mas é que eu queria trabalhar amplo, fazer várias coisas, não ser rotulado “Não, eu canto rap”, “Não, eu canto reggae”. Não: eu sou músico, eu gosto da música. Tudo o que for bom eu me proponho a fazer.

 

P/2 – E na escola também tinha, vários grupos de rap ou estava começando também?

 

R – Na escola estava começando, pelo menos onde eu estudava só tinha o meu grupo, no Raul Fernandes, então a gente começava a fazer shows, os amigos convidavam pra tocar nas festinhas de casa, aí chamava, sempre tinha umas quermesses, nós éramos os... Nós gostávamos de showmício, né? Showmício sempre os caras nos chamavam e nós íamos lá e falávamos um monte, uns trailler, entendeu?, Nós gravávamos umas fitinhas com a galera que andava de skate, começou assim, a gente fazendo showzinho só paralelo. Até que a gente chegou a  tocar com o 509E no Esquema Clube no ano de 1999. Aí deixa eu ver mais quando... A gente cantou com o Apocalipse 16 na Igreja Assembléia de Deus. Também no Clube da Cidade... Aí começamos a expandir um pouco, foi onde parou um pouquinho, quando o Teto saiu.

 

P/1 – E o quê que você queria com o rap, qual era a sua intenção?

 

R – Protesto. Você causar um impacto, mas você passa as coisas de uma maneira diferente. Não só mostrar que o mundo é uma bosta. O mundo às vezes pode ser ruim, mas são as pessoas que fazem o mundo. Não é por um, por dois que você vai julgar todo mundo, então você sempre tem que pensar de passar a realidade, mas de uma forma construtiva, porque, não uma realidade que de repente só você passa, mas uma realidade expressiva que todo mundo passa no dia-a-dia, entendeu? Uma realidade que de repente se depare com a minha, com a sua, não eu só contando minha história, mas eu tentando relatar no geral, porque é o geral o que importa. Porque enquanto a gente trabalhar ali ó, só eu, “eu, eu sofro, eu sofro, eu sofro, eu sofro”, todo mundo sofre. É a história, é de todo mundo, não é de um só.

 

P/2 – Essa relação que você tá falando, às vezes você falou sobre o rap e religião, assim, você pode descrever um pouco melhor? Você falou “a, o meu amigo ele entrou pra igreja” e tal, assim...

 

R – Não, porque tem certa denominação, cada denominação é uma doutrina. Existem várias igrejas. Hoje igreja é que nem boteco, tem tanto nome, são várias igrejas todo lugar que você vai, então cada religião tem uma doutrina. Tem umas que permitem; na Assembléia tem o Apocalipse 16, Arsenal de Cristo, entendeu? Então tem vários grupos que são gospels, a Assembléia de Deus ela admite esse tipo de... De expressar a música rap através da religião, pra quê? Pra você também ter um alto impacto sobre os jovens. De repente com uma mensagem positiva você absorver. Ou se Deus te deu o dom de você fazer a letra, com aquela letra você fazer a alma de diversas pessoas, porque Deus conhece a alma de cada um. Agora já tem certas religiões que não acreditam nessa doutrina, já querem seguir uma forma mais rígida, já segue a antiga doutrina, Jesus. Mas no certo, meu, o importante é sempre a mensagem que você tem a passar, entendeu, sempre a mensagem. Porque você tem que tomar cuidado com o que você vai falar. Então independente de religião ou não, o impacto é o mesmo, se você falar porcaria. Tanto seja de Deus você pode afastar várias pessoas, tanto seja você falando coisas do mundo, você pode revoltar um cara.

 

P/1 – Você lembra da primeira música que você fez?

 

R – Primeira música que eu fiz?

 

P/1 – É.

 

R – Lembro. Xô vê (pausa). A primeira música rap (pausa) era mais ou menos assim ó “confio na vida, vou seguindo o meu caminho, quem tem amigos nunca caminhou sozinho, por isso eu trago no meu peito o que conquistei, me ajudaram nas barreiras que eu atravessei. Nossa escolha nos afasta ou aproxima do Criador que observa lá de cima. Quem planta a guerra certamente colherá a dor. Quem planta a paz da mesma forma colherá amor. Não plante vento pra não colher tempestade. Quem é sincero é refletido pela verdade. Mas é preciso muita luta pra saber viver, por isso tenha fé na vida você vai vencer”. É isso, foi a primeira música que eu fiz. Primeira música.

 

P/1 – E aí, quando que foi a primeira apresentação em público?

 

R – Em público? Primeira apresentação em público foi no ano de 1998, numa escola chamada Carombé, lá no Carombé, a escola. Então teve uma apresentação, foram vários grupos... Se eu não me engano, quer ver (pausa). Não, não foi o Rappin Wood (pausa) Era o Vírus. Foi um grupo chamado Vírus, inclusive o Vírus tocou lá, aí a gente tocou, era um eventinho de escola. Colocaram os obstáculos de skate, tinha os... Uma rapaziada pintando o muro, entendeu? Vários artistas pintando, e foi o primeiro show em público. Aí o segundo eu já cantei com Nina Brown e Os Trovadores, Max B.O. e Nelson Triunfo no palco, que foi lá no Milton Campos, um evento de rap também grande, que foi no meio da favela do Centrão. Aí foi onde, daí eu fui pra frente.

 

P/1 – E qual é a sensação de tocar em público?

 

R – Tocar em público, não sei, pra mim sempre eu pensei que ia ser uma vergonha. Por você olhar um monte de pessoa. Então, às vezes, até hoje, se eu vou subir no palco dá sempre aquele friozinho na barriga, que você não sabe a reação de cada público, né, meu? Então pela primeira vez quando você sobe, você tem aquele impacto do público, mas, meu, é normal, as pessoas te olham, então você vai pensar no que você vai fazer ali, pra ver se você vai agradar ou não. Aí você vê as formas que causam mais impacto: se quando você dá um grito, se quando você vai pra direita, se quando você vai pra esquerda, e você vê tudo isso.

 

P/2 – E essa sua banda de agora, dentro do reggae assim, como que foi essa transformação?

 

R – Filhos de Sião... Filhos de Sião era uma banda que chamava Parafaroots na antiga. Os caras faziam um reggae “pá”, não faziam reggae. Faziam uma música diferente com o som do reggae. Aí acontece: eu tava parado um pouco da música, e eu já estava compondo umas letras, eu curtia muito Bob Marley em casa desde 1998, já gostava de escutar. E uns camarada meu sabiam, e eles conheciam um pessoal de _____ . Eles foram ver essa bandinha e falaram: “Putz meu, essa banda...” né, “É legal, o sonoro é legal”, mas o vocal era ruim, o vocal ninguém gostava. Aí os caras pegaram, chamaram, sabiam que eu estava fazendo umas letras e falaram assim “Ô meu, cê num quer ir lá, fazer umas letra fazer um teste com os caras?”. Mas até então eu nunca tinha cantado com banda. Quando eu subi lá, tava sendo na quadra do “Só vou se você for” o evento, aí tinha um cara já cantando, tirando umas músicas pra ver quem ia ficar no vocal, aí os caras me chamaram, aí meu camarada falou assim: “deixa ele cantar uma” , aí eu subi e cantei uma música, cantei uma música pop do Bob Marley “I Wanna Love You”. Os caras gostaram. Eu fui pra minha casa nesse dia, normal, os caras, “pá”, cumprimentaram. Fui pra minha casa. Aí depois os caras ligaram e perguntaram se eu queria participar da banda. Quando eu me propus a entrar na banda eu já... A primeira coisa que eu pedi foi pra mudar o nome, que era Parafaroots, que é envolvido com parafina e raiz, “raiz da parafina”, que os caras gostavam de surfar. Nada contra, né meu, mas quando você vai fazer uma música os caras falaram pra mim que os caras iam tocar reggae, então quando eu cheguei também, já foi o nome, que o nome é a primeira coisa, ele é o impacto. O nome ele tanto pode trazer o seu sucesso, como a sua derrota também. Eu acredito muito em coisas positivas, então se você escolhe um nome positivo ele vai te influenciar muito, sabe, a ir pra frente, a crescer também. Aí eu já pedi pra mudar o nome e também o estilo do som, eu falei que eu não cantava certas bandas. Foi onde eu comecei a passar uns CDs pros caras, algumas coisas que eu escutava: Johnny Clark, Augusto Pablo, Pablo Moses. Aí já começou: Hugh Mendel, Max Romeo... Já comecei a passar umas coisas pros caras e os caras foram abrindo a mente e viram que reggae realmente não é aquele mundinho, aquele mundo de ilusão, né? Pode existir uma música que fale sobre isso, mas reggae não é, entendeu? O reggae ele pode falar da paz, mas de uma forma, da paz do seu espírito, do que há por dentro, do que você pode conquistar no mundo pra você adquirir sua paz, a forma que você pode viver pra você ter sua paz. Então meu primeiro contato e o nome da banda, essa banda surgiu daí, foi quando a gente começou a fazer “Filhos de Sião: reggae e raiz”.

 

P/1 – E tem uma maneira de, quando tá em público, tocando para o público, tem uma maneira de sentir aquela sua mensagem sendo passada e sendo absorvida?

 

R – A energia. Há muita dessa coisa meu, você transmite; e, ao mesmo tempo que você transmite a energia, o público ele te repassa aquela energia, mas só que em dobro, porque você vê: quando você faz uma música, ou pelo menos quando eu componho, eu gosto de estar num ambiente tranquilo e normalmente tem que ser um dia, eu componho de manhã, por quê? Você acorda, você não se estressou com nada, você não teve, sabe, nenhuma coisa contrária pra te distrair, então você tem que tá sempre com a mente limpa, e quando você tá com a mente limpa, você tá mais em contato com o Criador. Quanto mais contato com o Criador você tiver, tudo o que você fizer vai prover dele também, vai ser obra dele, porque você vai fazer as coisas mais perfeitas, as coisas melhores, entendeu? Porque só ele dá o dom pra você fazer as coisas melhores. Então acontece: conseguia compor com o coração, e quando você compõe com o coração, que nem eu falei: indiretamente você fala com a alma de todo mundo, porque Deus  é conhecedor de todas as coisas, Ele conhece a alma de cada um. Então com uma música você pode falar da alma de mil pessoas, pode falar o que ela está passando por dentro, que de repente elas pensam e querem expressar também e está lá oprimida por alguma coisa. Você vê que eu gosto muito, eu não gosto, eu não canto, não é que eu não gosto, eu não consigo cantar com olhar aberto, porque eu canto pra dentro, eu canto pra mim. Eu canto pra minha alma se alegrar. O pra fora, exterior, o que sai é a voz, porque a voz tem que sair pra alertar os outros tipos de ouvido, mas pra mim, eu canto pra minha alma, então sempre de olho fechado, e você percebe essa transmissão quando as pessoas fecham o olho também, que elas não começam a curtir pra fora, elas começam a curtir, vai pra dentro da sua alma, elas fecham o olho e absorvem. Que nem uma frase que eu sempre digo no evento: o reggae, da mesma forma que o reggae pode entrar por um ouvido e sair pelo outro, ele pode entrar por um ouvido e bater direto no coração, porque é mais que música, entendeu, é coisa de espírito. É revolução. Tudo o que é revolução você tem que guardar dentro de você, deixar escutar e deixar _____. Que com o olho aberto você não sente nada: até um beijo, dá de olho aberto pra você ver, não tem emoção, entendeu? Então fecha os olhos, se inspira. Música é assim.

 

P/1 – E você tinha alguma dificuldade em começar a compor reggae depois de compor por algum tempo rap? Foi muito diferente?

 

R – Foi, foi diferente. Que você cai meio, né? Que ó o que você cai: tá ali na mesma linhagem, na mesma árvore genealógica, mas só que, cai do mundo da rima porque se, pro reggae eu fosse cair pra rima eu já ia manda logo um raggamuffin, entendeu? Eu ia ter que mandar um ragga. Então quando é um reggae raiz, ele já decai, por quê? Ali não tá só valorizando uma ideologia, mas sim cultuando uma filosofia juntamente à música, o reggae não deixa de ser um hino de louvor dos rastafári. Então é a mesma coisa de você pegar uma música de igreja, quando eu digo de outros reggae, mesma coisa de você pegar uma música de alguma religião e difundir de outra forma. Queira ou não é um desrespeito. Que eu acho assim: existem diversos estilos, músicas pra se cantar, diversas coisas pra falar de amor, falar de tristeza, falar de paixão, entendeu? Falar de coisas ilusórias. O reggae veio pra falar da verdade, entendeu? (pausa) E eu perdi um pouco sobre o que eu ia falar... Falei demais.

 

P/1 – De, de compor.

 

R – De compor, isso! A composição foi um pouco difícil, porque era uma coisa mais lenta, eu sempre gostei do quê? Que nem eu falei: ouvir. Eu me inspirava nas notas e quando a banda começava a tocar, que eu via que os caras, a banda realmente era boa, que os caras tocavam, eu falava pros cara “começa a tocar” que eu não conseguia compor só escrevendo, então naquele sonoro, através do ritmo eu ia meio que com uma rima, mandando a letra, mas sem palavras pra rimar. Porque eu, na verdade, pra compor reggae até hoje eu aprendi assim: eu faço um texto e daquele texto eu tiro uma música, porque o reggae nada mais é do que você ler um texto de um protesto pras pessoas. Não é aquela coisa de você chegar “ãh, ãh, ãh”, rimar. Não. Tem que ter, sabe, a sequência do texto certinha então, pelo menos com o reggae é assim, eu escrevo um texto e desse texto eu tiro uma música. Também eu componho muito de estar no violão e ver umas escalas novas, umas notas e através daquele som trazer uma nova melodia.

 

P/2 – E como você acha que tá a cena do reggae aqui em São Paulo?

 

R – Sinceramente uma porcaria, porque é, tipo assim, com todo o respeito a todos os músicos, mas é como eu falei: a gente não pode começar vendendo um peixe bom e depois começar a vender um peixe estragado só porque todo mundo já comeu daquele peixe.  A gente tem que sempre procurar melhorar a qualidade porque o que você passa pras pessoas hoje é o que vai influenciar no pensamento de amanhã, então se você passa porcaria, mas você acredita só dento de você que aquilo é importante, mas você não traduz aquilo pra fora, você quer ser sentido figurado de protesto pra comover algumas pessoas a terem dread grande porque chama atenção, porque muitos vão te ver cantando, “putz, vai ser legal”, entendeu? Então você finge que é da filosofia e com isso não contribui nada com a filosofia, ajuda a decair, porque uma coisa, não que a gente queira pregar uma doutrina ao mundo, mas a paz ela é uma coisa que tem que ser passada, que nem diz Deus: minha verdade tem que ser passada de geração em geração. E o rastafarianismo passa uma palavra da verdade, porque a gente segue os preceitos da Bíblia. Acontece: quando a gente segue os preceitos da Bíblia, a gente tem que passar aquela mensagem. Então se você passar aquela mensagem difundida, ela perde o sentido. Porque as pessoas vão começar a pensar que é da maneira que você tá passando, que é, porque você tá demonstrando, você tá falando com a sua letra, mas ali no seu agir você está mostrando outra, porque eu nunca vi um show beneficente dessas bandas boa de reggae que tem aí. Que o pessoal diz que é boa, né? Mas nunca vi os caras fazendo um evento beneficente, com quilo de agasalho, só quinze reais, vinte reais, por quê? Os caras não são rastafari? Os caras não cultuam o que é bom? Não estão querendo passar a palavra da verdade? Expressar humildade? A humildade no vestir, no falar, no agir, no viver? Então por que tantos valores pra você ver uma banda de reggae, sendo que a gente é revolução? Minha banda tem sete anos, glória a Deus a gente já teve oportunidade, pra quem conhece os Filhos de Sião já teve oportunidade de ser uma banda de reggae, mas a banda de reggae que os outros queriam. Mas não. A gente não se propôs, porque a gente é a banda de reggae que a gente quer.  A gente é revolução, a gente faz show em periferia, dentro de favela, que o reggae tem que ser assim, levado pros gueto, independente de classe social, todo mundo tem que receber a palavra da verdade. Mas só que quando você se vende, entendeu? Pra você, de repente, passar uma coisa falsa, não vai ajudar nada porque aqueles que tão lá em cima vão olhar. E vai ver que é uma besteira, meu. É irrelevante o que você tá falando; que você é só mais um que tentou subir como protestante, e já caiu nas maquinarias porque eles já tão te manipulando.

 

P/1 – Espera só um pouquinho a gente trocar a fita aqui.

 

P/2 –Pensando na cena assim, a questão dos DJs que tem aqui em São Paulo, porque hoje tem um boom de DJs assim...

 

R – Tem um monte de DJ que diz que toca reggae, mas acontece: o estilo de reggae, pelo menos na Jamaica, é um sistema de som. Que é o sistema de som? Eles levam o reggae pra periferia. Monta aquela aparelhagem, sabe? Meio que tudo, várias das coisas inventadas, _______ ampliados. Mete aqueles reverbes, aquelas coisa loucas. Veste a parada de DJ, mas mistura com a música, sempre tem alguém ali mandando um raggamuffin em cima, rimando, a parada de DJ da cena do reggae, se fosse trazer a raiz, a cultura mesmo, ela tinha que ser difundida dessa maneira. Mas sempre voltada ao quê? Para os lugares periféricos, pra periferia, pra mensagem ser espalhada, a alegria ser espalhada, que não é nada mais que um movimento, pra você sacudir o dia de umas pessoas que de repente tiveram uma semana turbulenta. E o reggae não é uma música assim tão ruim que ninguém queira escutar, tanto que as batidas às vezes influenciam, se você fecha o olho acalma. Então cabe a você se você vai escutar com o ouvido ou se você vai escutar com a  alma, que, que nem diz o Bob Marley “o reggae não é pra se ouvir, é pra se sentir, quem não sente não conhece”, então pra gente conhecer alguma coisa até quando você tá com uma pessoa, me referindo ao amor de novo, você tem que sentir a pessoa, você tem que conhecer. Agora, se você não conhecer, se só ouvir as palavras que a pessoa fala você vai se iludir. Com o reggae a mesma coisa: quem ouvir e não sentir, vai se iludir, vai pensar que é aquilo e não é.

 

P/1 – Quando que entrou o rastafari na sua vida?

 

R – Rastafarianismo. Não sei, eu sempre tive um contato muito grande com a natureza, então a gente quer às vezes aderir a alguma doutrina, algo de importante, eu vi vários camaradas meus irem pra igreja, mas nenhuma doutrina tinha, sabe, feito o meu estilo, então eu pensava que era isso. Aí foi quando eu achei no rastafarianismo um modo de vida e não uma religião. É uma maneira de você viver respeitando o seu próximo, respeitando a natureza, respeitando seus limites, nunca deixando a ganância, a ambição serem acima da sua pessoa. Se tem, tem, se não tem, se conforma. Porque a vida é assim, a gente sempre tem que transparecer a humildade porque de repente é assim, se você chega a um ambiente em que as pessoas tão com pouco e você está com um tênis a mais, não que vá causar uma inveja nas pessoas, mas de repente você vai causar um pensamento nela “Putz, uma vergonha”. Por quê? Você tem a mais, entendeu? Então quando você tá no palco, até questão a do rastafarianismo foi isso e quando eu via Bob Marley assim, e outros cantores de reggae era a forma que ele se vestia: os caras não queriam ser pop stars, entendeu? Os caras não fingiam ser alguém, não subiam no palco maquiados, não faziam aquela sala no camarim, tipo pra entrar [com] mil seguranças ao lado. Somos seres humanos. Muitos caras se dizem rastafaris e começam até com isso, até com segurança. E aí? Onde você tá, você num deixa as pessoas entrarem em contato com você? Nem Jesus andou com segurança, deixou todo mundo relar nele, fez milagre com todo mundo. Então meio que assim, meu, eu aderi a esse estilo de vida, sabe, de você respeitar o mundo, você ser você e aceitar o que você é, respeitar a Deus em primeiro lugar, procurar conhecer a Bíblia, que é um livro importante pra todos nós, traz um conhecimento imenso, não só desde agora, mas desde a antiguidade. Então me ensinou todas essas coisas, sabe, você ter doutrina, você ter um limite. O mundo é cheio de coisas, mas nem tudo você pode fazer, entendeu? Então eu pus um limite na minha vida também. Foi onde eu me identifiquei, porque eu gostava muito dessas coisas: contato com mata, natureza, meditar, você ser um cara calmo pacífico. Foi tudo o que me chamou pro rastafarianismo, o modo de vida que não é bem uma religião, mas uma maneira de se viver, você respeitar o mundo, você ser você e aceitar o que é, respeitar a Deus em primeiro lugar, procurar conhecer a Bíblia, que é um livro importante pra todos nós, traz um conhecimento imenso, não só desde agora, mas desde a Antiguidade. Ensinou-me todas essas coisas, você ter doutrina, você ter um limite. O mundo é cheio de coisas, mas nem tudo você pode fazer. Então pôs um limite na minha vida também, foi onde eu me identifiquei porque eu gostava muito dessas coisas: contato com mata, natureza, meditar, você ser um cara calmo, pacífico. Foi tudo o que me chamou pro rastafarianismo, o modo de vida, que não é bem uma religião, mas uma maneira de se viver melhor.

 

P/1 – Mas alguém te levou?

 

R – Bem, o rastafarianismo eu conheci praticamente sozinho, pela minha curiosidade, que nem eu falei, porque eu tinha muitas visões. Como eu fiz artesanato também numa fase da minha vida, então eu colava com muitos malucos que não eram rastafaris, eram hippies. Muitas pessoas confundem os caras que vendem artesanato com os rastafaris. Rastafari tem um modo de vida, hippie é outro, e eles aderem o quê? O estilo rastafari, que o cabelo também é um modo de você protestar contra o sistema, você não aceita ser igual a todo mundo: todo mundo tem que ter o corte de cabelo assim, padrão, tem que usar camisetinha assim... Não, hum-hum. Entendeu? A gente é outra imagem; cada um é uma imagem.

Então quando eu comecei a colar eu vi assim, tirei muitas influências, porque os hippie, são caras bons, são viajantes, e eu amo viajar também, já fiquei um tempo também na loucura, viajando por vários lugares, mas só acontece: os hippies já não têm um pouco de doutrina, eles chapam. Às vezes brigam entre eles mesmos. Rastafari já é diferente. Foi quando eu comecei a comparar uma coisa com a outra e querer estudar, que até então até eu tinha a primeira imagem que hippie era rastafari, mas não é bem isso. Tem alguns hippies que podem até aderir à filosofia rastafari, mas hippie não é rastafari. Hippie é hippie, rastafari é rastafari.

 

P/1 – Quais são essas regras? Você falou de chapar e de beber; quais são as regras rastafari que têm?

 

R – Você passar do limite, porque tudo o que você faz a mais não pode, é ruim pra você. Come demais, você vai ter uma indigestão. Se você bebe demais, você vai ter um coma alcoólico. Se você usar droga demais, você vai ter uma overdose. Então tudo é com moderação, limite, entendeu? Tudo o que você for fazer você ter uma limitação na sua vida, pra quê? Pra que você não traga prejuízo nem pra você, nem para o seu próximo. Então a gente sempre pensa nisso e valoriza muito a vida. A vida é uma coisa que a gente cultua muito. Não que a gente viva o material, porque essa matéria ela cai, a gente vive o espírito. A gente se preocupa em valorizar nosso espírito, dar uma forma evolutiva pra ele. Por quê? Você com coisas positivas, você se livrando do mal, se safando de várias coisas, entendeu, vários limites a não serem ultrapassados, você tá engrandecendo o seu espírito, porque o seu espírito vai ficar elevado e com certeza você vai tá encaminhando ele pra um bom lugar. Que muitos só pensam na vida daqui, na vida da carne. A carne acaba. E depois, pra onde você vai mandar seu espírito? Entendeu? Então tem toda essa importância também, tem todo esse valor. A gente valorizar a nós mesmos, valorizar o interior, porque o ser humano só se conhece quando se conhece por dentro, porque por fora a gente não se conhece, por fora a gente é isso, a gente fala várias coisas, pode curtir várias coisas, pode pensar viárias coisas, vestir várias roupas, mas a alma, ela é diferente. A gente não se conhece por dentro às vezes, a gente não se dá oportunidade, escutamos muito o mundo, mas não escutamos a voz que tem dentro de nós. A gente passa o tempo querendo descobrir o mundo, e no final da vida você senta e não sabe por que é triste. Porque você não descobriu você. Você não deu uma chance pra sua alma falar com você e te dizer realmente o que você é, o que você tem que fazer, o que você tem que seguir. “Seja assim”, “Não, não faça isso”... Acontece quando se dá valor à voz interior. Isso que me atraiu também.

 

P/1 – E os seus pais, amigos, irmã, como eles lidam com sua, sua vida de músico?

 

R – Eu vou falar uma coisa, eu, graças a Deus, sempre tive uma família que todas as coisas, por mínimas que eu faço, desde que seja colar um chiclete, pô, bater um prego e falar “mãe, ó, o quê que eu fiz”, todo mundo me apoia, minha mãe fala “Faz mais”. Então minha família sempre foi assim. Minhas irmãs eram pequenas, minha mãe ia ao show de rap comigo e ficava lá balançando a mão com minhas irmãs do lado, nunca abandonando minhas irmãs, sempre levando elas, em todas minha mãe tava, entendeu, sempre me apoiando. Sempre tem aquelas crises né, meu, mãe sempre se preocupa no que o filho vai ser, que ele tá pensando, se ele tá perdendo tempo ali; toda mãe se preocupa, mas sempre minha mãe me deu um espaço pra eu escolher também, fazer minhas decisões, expressar pra ela, mostrar pra ela que o que eu quero também é verdadeiro. Minha mãe sempre me acompanhava, seja no show de reggae pra ela fechar o olho também, ir lá, curtir, ou falar bem do filho dela. Que mãe é coruja. Mãe sempre, o filho às vezes pode ser uma gralha cantando, mas “Ó, meu filho canta bem, você viu?”. Sempre é assim, minha mãe sempre me apoiou, minha família, minhas irmãs, eu tenho irmã de catorze anos, a de catorze ano já rima, tem umas três música escritas. Então você vê que também é uma influência, por isso que a gente tem que tomar cuidado nas coisas que a gente faz. Eu cresci com irmãs menores, então de repente se eu tomasse um outro rumo, ou cantasse outro estilo de música mais escandalizado, minhas irmã hoje em dia estariam curtindo a mesma coisa ou estariam escandalizadas também, juntamente com a minha música, de repente até fazendo as coreografias escandalizadas que eu fizesse. Imagina que vergonha.

 

P/2 – Você comentou também que trabalha com outras coisas de arte...

 

R – Hu-hum.

 

P/2 – Fala um pouquinho disso pra gente.

 

R – Ah, eu trabalho com massa durepox, faço escultura, faço carranca, faço totem, faço cogumelo, incensário, faço boneco, gnomo, mago, eu mexo com massa de durepox em geral: faço colar, pulseira, macramé, brinco de arame, então eu sempre gostei dessas coisas também, sempre fui levado para o lado da arte também, eu sempre gostei. Costura em couro, eu faço bolsa, gosto de costurar, gosto de fazer umas coisa diferente, camiseta, pinto camiseta. Então meu lado de arte sempre foi isso. Mas minha paixão mesmo é massa durepox, principalmente em espelho, eu ________ ficar fazendo espelho

 

P/2 – E desenhar, assim?

 

R – Desenhar. Eu gosto de fazer colagem. Você pegar as reportagens, você fazer uma colagem e meter um texto ou um poema sobre aquilo e por tinta por cima, fazer um grafite. E aquilo vira um protesto. Eu gosto disso, eu tenho vários quadros pintados em casa que é assim: colagem de jornal sobre alguns temas, seja guerra, seja ódio, amor, rancor, sempre com um texto do lado expressando, a minha opinião sobre aquilo, e uma pintura por cima, pra destacar a arte.

 

P/2 – E na rua, assim?

 

R – Na rua também eu gosto. Eu pinto na rua desde 1998. Primeira vez que eu saí pra grafitar foi quando eu tive o contato com o rap, que aí os caras, todo mundo da minha banca grafitava. Depois os caras que eu mais grafitei foram os caras da SDT. Aí um tempo os caras pararam de grafitar, eu fiquei um pouco afastado, mas agora faz duas semanas que eu voltei a riscar também, fiz os grafites.

 

P/2 – Lá, lá em Brasilândia?

 

R – Em Brasilândia... Já grafitei em bastante lugar. Brasilândia, Tatuí, Araçariguama, São Roque, Rio de Janeiro. Todos os lugares por onde eu passei, eu grafitei. Rio de Janeiro não, minto, Paraná. Todos os lugares onde eu passei, deixei uma marca minha. Sempre gostei do grafite e sempre me identifiquei também com a mensagem, me preocupei também com a mensagem, não só você fazer o desenho, fazer aquele conteúdo e deixar uma dúvida em cima sobre o que aquele conteúdo significa. Então nem que seja um bonequinho, às vezes gritando com o olho aberto expressando alguma coisa; no grafite eu também quis meter umas frases pra causar um impacto, tanto que minha __________ é “somos pobre”, entendeu? Que isso significa o quê? Às vezes o cara tá iludido passando no ônibus, viajando numa vida, sabe, cheia de superficialidades, aí tá o grafite ali, ele olha e encara a realidade dele, meu. Meu, acorda, somos pobres, entendeu? Mas independente disso não deixe de sonhar também, mas só que tem o limite dos seus sonhos, não faça maior seu sonho que sua vida. Então sempre o grafite eu me preocupei com o impacto também. E uma forma assim, que às vezes, também magoa, é a forma que hoje em dia o grafite é levado por muitos moleques, muitos garotos, principalmente a rapaziada da tag num respeita, faz tag dentro de grafite – pensa que em vez da gente fazer grafite no muro, a gente tá fazendo lousa pros cara riscar. Então, queira ou não, a juventude que vem hoje em dia, os mais novos - não juventude, que eu num sou tiozinho, né? Mas os mais novos, que hoje em dia já vem um pouco distorcidos com todas as influências, sejam do reggae, do rap, do graffiti, do hardcore. Então, tá tudo distorcido, hoje eles já vivem de uma maneira diferente do que a gente fazia antigamente. Aquela coisa mais oculta “quero ser oculto, mas quero protestar”. Agora hoje em dia não, “Quero ser conhecido e não quero falar nada”, “Quero que saibam que eu sou o Zyto, sou o Zyto. Grafiteiro, sou o Zyto”, “Ah, mas e aí Zyto, o que você...”, “Não. Sou o Zyto só, faço graffiti”. Entendeu? Então, meio aquela coisa de você criar uma marca registrada pra você, e querer fazer seu nome. Fazer uma marca pras pessoa. Eu não sou uma marca, já sou contra isso.

 

P/2 – Conte algum rolê perigoso, que você já passou?

 

R – Putz, cara, um rolê perigoso foi a gente pegando o prédio da Telefônica, ali perto da Broadway, na Edgar Facolli. Acontece, a gente pulou pra dentro desse prédio pela linha do trem. A gente entrou pela linha do trem, pintou uns vagões que estava lá parado, fizemos umas tags. Aí entramos pelo terreno de areia nesse galpão da Telefônica, um galpão grandão, azul, aí a gente ia fazer uns (trelapi?) lá,meu. A gente conseguiu, vimos que eram dois andares, que tinha uma parte que era aberta assim, tipo uma janela, mas só que era bem grandão, ia dar logo pra fazer um (trelapi?) bem no meio do murão, mano. Tinha um piche de uns caras lá, dos bêbados, ________________ dos bêbados lá em cima, eu peguei e falei assim “fazer do lado meu” era do lado do pico, os caras foram fazer um (trelapi?) lá em cima. A gente conseguiu destravar a porta, só que quando a gente abriu tinha uns materiais lá, que era tipo de computação. Aí, pá, falei com o moleque que tava comigo lá “Não. Vamos fechar porque senão os caras vão pensar que nós vamos roubar o barato, os caras ‘catam nós’ aqui”. Fechamos. Aí nós subimos pela outra janelinha. Nessa eu estou riscando, mano. Tô riscando, de repente vem um cachorro, bem “pequenininho”, começa a latir. Nessa que vem o cachorro, já vem o segurança, louco, mano, dando vários tiros – nossa, descarregou o revólver, meu. Nessa, descarregou o revólver, aconteceu: eu pulei, os camaradas todos pularam, e um rapaz, a gente não viu ele pular, que eu pulei pelo terreno de areia por onde a gente entrou. Mas só que outra cena impressionante foi que quando a gente entrou pelo terreno de areia, não tinha portão e nem tinha cachorro. Quando eu pulei de volta, que o cara tava dando tiro, apareceu um rottweiller e na hora que eu to correndo do rottweiller, me aparece um portão e não tinha portão! A gente teve que pular a grade. Esse já foi o primeiro milagre, porque Deus pôs logo um portão ali, e quando eu bati o portão o rottweiller já” berererrrrrr” no portão. Mas só que nessa, nós pulamos e o moleque ficou. E por ter havido tiro eu fiquei preocupado. “Cadê o moleque?”, tava eu, o _______ de Guarulhos, o moleque que faz o _______, tava o (Choco?), do (Cones?), e tava esse moleque, que o apelido dele é até “Morto”. Falei “pronto, mataram o Morto” (risos). Aí acontece: o cara deu vários tiros (risos) – É, é engraçado! – Aí aconteceu: mas só que eu fiquei preocupado com ele, pensei que os caras tinham catado ele. Dei a volta, demos a volta e fomos lá na portaria da Telefônica, fomos explicar pro cara. Falei “Não, nós só entramos pra fazer uns trabalhos, pensamos que estava abandonado”, joguei uma idéia, mas só que o cara não quis saber, já sacou o revolver e pan. Dois camarada correram, Johnny também estava, o Johnny correu, o Choco também, ficou eu e o moleque de Guarulhos, o ________ . Nessa que ficou nós dois os caras já pôs o revolver no nosso rosto, eu “Não, mano, só quero o moleque”, que num sei quê. Mas só que nessa, o moleque tinha conseguido pular: ele pulou pro (Nacional?). Ele pulou pro Nacional e saiu pro outro lado. Aí nós, por querermos resgata-lo, fomos. Aí os caras começaram a ameaçar, falaram: “Não, mano, que não sei quê, vocês entraram pra zuar” e trouxe uma escada da Telefônica enorme, e falou assim “Ó, eu vou chamar ao policia e vou falar que essa escada é sua!”. Eu falei “Senhor, pode falar: eu entrei pela linha do trem, os (PF?) viram, meu. Como eu vou entrar com uma escada desse tamanho? Eu moro lá na Brasilândia, como eu vou trazer isso dentro do ônibus? Vou vir a pé?” aí ele: “Não, que não sei quê, essa escada é sua, que não sei o quê”, queria que eu deitasse. Eu falei “Não, mano, vou deitar não, você não é polícia” aí falou: “Não, você é folgado” e começou a querer falar das coisas de Deus pra mim. Aí falei “Ô meu, você tá falando de Deus pra mim, me apontando uma arma? Que Deus é esse que você serve?”. Aí ele “Não. Que eu vou chamar a polícia!”, ainda falei pra ele, falei “Meu, não chama a polícia, você vai me prejudicar, só sou pintor de rua, pinto de final de semana. É o que eu gosto. Eu trabalho, pan, minha família”. Ele “Não, que num sei quê, vou chamar.”.

E chamou a policia. Quando chamou a policia a gente foi pra aquela delegacia que tem atrás do Parque da Água Branca, se não me engano é a 40. Quando fomos pra lá. Aí começou, os caras estavam acusando nós de invasão de privacidade e vandalismo. Chegou o investigador, já começou a passar um monte de folha, assim, ó: uma pá de foto de vários trens, mano, vários trens de vários pintores. “Vê aí, qual que é seu?”, “É você esse daqui?”, e eu “Não senhor, sou nenhum desses não”. Ixi, passavam várias fotos, muro de trem, várias coisa, passava os meu “E, não sou esse daí não, senhor, nem sei”. Aí ele falou para os caras da firma se os caras iam querer abrir Boletim de Ocorrência (B.O.), aí os caras abriram, mano. Abriram B.O, mas só que é o seguinte, o moleque de Guarulhos era “de menor”. Dei meu depoimento, normal, até então a gente tá sendo os acusado e eu estou lá em “danger”, de o polícia achar alguma coisa na minha mochila. Ele sempre falou pra mim ó “Dou cinco minutos pra você tirar tudo de errado que tem aí, porque se eu achar você vai ver”. O cara, mó gente fina, mano. Nessa parte, até Deus ajudou, que ele era polícia, nenhum é gente fina. Então acontece: nessa nós estamos sendo processados, e eu dei meu depoimento, mas só que na hora que o menor foi dar o depoimento dele, eu dei meu depoimento e não falei dos tiros, porque pra mim era irrelevante, eu já tava sendo acusado mesmo, pra mim eu já tava errado. Aí o menor falou dos tiros. Foi quando a delegada me chamou e falou assim “Você tá ocultando alguma coisa no seu depoimento?”, falei “Não, por quê?”, falou assim “Você tem certeza?”, “Não, só houve uns tiros”, aí ela falou assim “Como assim, houve uns tiro e você não me fala?”, falei assim “Ah, porque pra mim é irrelevante falar”. Aí ela falou assim “Não, eu sou delegada. Esses dias eu fui abordar o menor no sinal, dei um tiro pra cima, eu fiquei presa uma semana. Tiro pra cima agora é tentativa de homicídio.”.

Aí o B.O já inverteu. Eu dei meu depoimento; ao invés da gente ficar – tem até uma foto, uma das fotos que eu trouxe, eu e o moleque de Guarulhos; o investigador tirou uma foto de nós dentro da cela, que eu pedi pra ele; ainda depois ele até deu risada e falou pra nós pedirmos pro delegado de plantão pra nós fazermos um grafite lá dentro. Falei “Você tá louco, já estou preso por causa disso” (risos). Foi a cena mais engraçada que eu vi, porque eu só via isso em filme. Foi quando a delegada chegou nesse segurança, que ele até deu o depoimento e negou, mandou buscar a arma lá na firma. Falou que só tinha dado dois tiros, e o revólver com seis janela deflagrada. Fizeram exame de pólvora, constou mais do que o limite nele. Trouxeram a arma no saquinho, fizeram uma perícia rápida lá. Olharam. A delegada chegou nele, falou assim: “Você tem o direito de permanecer calado que você está preso. Quem da sua família você quer que avisar?”, “Tira seu cadarço e seu cinto, põe ele ali dentro”. Eu desacreditei, falei “Eu entrei lá, ia fazer, ia pintar o prédio dos caras e tipo, to sendo preso”, aí o cara chegou ao meu lado, e fez assim, ó, a única coisa que eu falei pra ele “Meu, eu falei pra você não fazer B.O que a gente só veio resgatar o moleque, a gente já ia embora. O quê que eu posso fazer?”. E eu tava sentado do lado dele, me afastei, sentei do outro lado. Ele que assumiu as próprias consequências dele. Ele tentou me prejudicar, o feitiço virou logo contra ele. Foi uma coisa louca que até hoje na minha vida eu não entendo, porque aí, até então, o moleque era menor de idade, a irmã dele só poderia vir de Guarulhos pra buscar ele, e eu já era maior de idade, e nessa eu já podia ir embora. Aí eu fiquei esperando a irmã dele, aí deram um papel pra gente comparecer no Fórum. Aí quando era pra eu comparecer no Fórum, o Fórum teve aquela greve de 2004, entrou em recesso, 16 anos pra regularizar os processos. Até hoje recebi nenhuma carta. Só Deus na minha vida.

 

P/2 – Fantástico.

 

(risos)

 

Zyto – Só Deus na minha vida... Foi engraçado.

 

P/2 – E cê tá trabalhando agora, assim?

 

R – Atualmente eu estou trabalhando numa associação, estou trabalhando não, dando um apoio, é um trabalho, mas ao mesmo tempo não é um trabalho, porque eu estou trabalhando numa associação que é no CEDECA (Centro de Defesa da Criança e do Adolescente), que é pra menores, pros menores, auxilia os menores que saem da Fundação para o Bem Estar do Menor (FEBEM) que vai lá pra assinar, então a gente faz atividades com eles. Eu to dando uma aula de grafite básico pra eles, aí a gente sai pra pintar. Agora eles querem fazer um curta-metragem sobre meio ambiente, como eu tenho um pouco de conhecimento também, estou ajudando eles nesse curta-metragem a fazer trilha sonora, fazer as filmagens, que a gente vai fazer uma grafitagem nas pedras, que os moleques vão fazer. No momento, trabalho com isso, meu. Com associação, entendeu? Mexer com criança, dar aula pras criança, nem que seja pra dar uma noção básica de basquete. E a música. A música é minha sobrevivência, sou compositor e eu não tenho estilo pra compor. Desde que seja música de consciência. Então eu acompanho MPB, reggae, soul, jazz, funk, samba-rock, samba-raiz, rap. Estão tudo na minha área. Eu vivo disso.

 

P/1 – Qual a importância de você passar a experiência para outras pessoas?

 

R – A importância é você ver a valorização, porque se todo mundo fizesse isso, passasse não só experiência, mas o conhecimento, com certeza você influenciaria aquela pessoa a no futuro querer ajudar alguém também, passar o que ela aprendeu, porque tudo o que a gente faz, se a gente retém pra gente mesmo pensando que “Ah, se o mundo aprender vai se tornar difícil pra mim”, não, se o mundo aprender, vai ser mais fácil pra todos nós. É aquela coisa de você saber que aquilo que você está passando não vai ser em vão, que você vai transmitir um conhecimento pra alguém que com certeza, mesmo que essa pessoa não tenha a mesma mente de passar pra outra pessoa, vai usar e  Deus abençoe dela usar de uma boa maneira, tudo o que a gente tenta passar.

 

P/1 – E qual a importância da arte? Você trabalha com um monte de tipo de arte; a importância da arte para o mundo, assim, o que ela pode fazer pro mundo? E como?

 

R – É expressão, porque todos nós somos artistas. Então, na mente das pessoas os artistas são aqueles que tão na mídia, que tão na televisão. Então não valorizamos a si mesmo, nem valorizamos o companheiro. A arte é isso, a gente fazer nossas exposições, fazer vários trampos, ir à casa de um camarada expor pra ele, ele vim expor pra mim e a gente pegar, juntar, fazer uma feirinha e expor a gente, o nosso trampo, entendeu? Sem ajuda de prefeitura, sem ajuda disso, sem ajuda daquilo. Porque a gente, mostrando a nossa arte pro nosso povo, que de repente inspira. Às vezes uma pessoa sabe fazer alguma coisa, ela quer fazer a arte, mas pro mundo, quem é artista não ganha dinheiro, principalmente de periferia, ou é artista vagabundo. Então quer dizer, pras pessoa tem aquela ilusão “Não, sempre tem que ser isso: médico, doutor. Tem que ser aquilo, tem que ser...”. Então se limita.

A arte é isso, a arte ela é expressão do mundo. Todo mundo tem uma arte pra fazer, desde que seja saber fazer uma escultura, expressar através de um desenho, mas é arte. Se a gente der valor pra arte que tá na gente, a gente não trabalha para os outros, a gente vai trabalhar pra gente mesmo, pra nossa satisfação. E a gente vai evoluir através disso, a gente evolui, a arte ela evolui conforme você vai fazendo, você vai se inspirar mais e fazer. Então de repente você tá misturando uma arte que você sabe com outra arte que você sabe, você tá mesclando e transformando em outra coisa. Arte pra mim é isso. E pro mundo ela é expressão, né? Expressão pras pessoas.

 

P/1 – Tem mais alguma história, dessa que você contou, mas alguma coisa com a música, tem um momento com a música que você passou algum problema ou então uma coisa que foi importante... Não precisa ser alguma coisa engraçada, pode ser alguma coisa que foi marcante pra você, algum show?

 

R – Um show que foi marcante pra mim? Pra mim, legal foi cantar, foi marcante assim porque eu também achei engraçada a atitude do cara, né, eu gostei, uma cena engraçada também. A gente foi tocar lá em Itupeva de Minas, e ia tocar o Ventania junto com a gente nesse dia, Ventania de Aleluia. Quando chegou o Ventania de Aleluia junto com os parceiros dele lá tinha um grandão, altão, baterista, monstrão (a gente o chamava de “Monstrão”), nossa, um cabelão... E imenso, cara. Uma barba tipo Homem-de-Neandertown mesmo. Inspiração de todo louco. Aí acontece: ele gostava muito mano, e toda hora, cara. Aí tipo, quando acabou a deles assim, eles pegaram, saíram e chegou, olhou pra nós assim, sabe uma criança quando vê um doce, mano? Isso aí. Você já viu uma criança quando ela fala “Me dá uma bala. É bala? É bala isso daí? É bala isso daí?”. Putz, o cara chegou assim, parecendo uma criança, um monstrão daquele parecendo um Homem-de-Neandertown e você, tipo, vendo uma expressão de uma criança baixar nele ali. Aquilo pra mim foi muito engraçado, ele nos chamou pra ficar no palco com eles lá, pra toda hora ficar dando balinha pra ele. Aí ele tipo “vai, então, não mano, quando nós tocamos, nós colocamos oito, oito, nove balinha aí...”. Tipo, muito doido, mano, tipo crianção. Foi uma cena marcante, porque também os caras tocando e os cara o chamando de Monstrão, as baqueta dele era uns tacape. Não era nem baqueta, mano, o cara era um monstro tocando, mano. Então ele “párarapápápá”, mas toca muito, né, mano. O cara toca muito, é legal o som dos caras.

Foi uma cena engraçada, que também era um show de reggae e o pessoal da cidade, acho que por, né meu, ou não por conhecer, ou por falta de “vou ler”, também tinha várias minas, que nesse dia choveu e a gente tocou num lugar chamado Mansão Árabe, então tinha um palco fechado, que era o eletrônico nesse ambiente, e um palco aberto. Só que quando o reggae começou a tocar todo mundo quis descer pro reggae, e tinha chovido nesse dia – cheio de lama. E o mais engraçado mesmo foi ver várias minas com salto agulha andando no meio da lama, você imagina, de calça branca, várias fita, tipo meu, tava parecendo um chiqueiro aquilo: todo mundo que nem porco, e curtindo o som. Foi engraçado.

 

P/1 – Queria que você pudesse cantar, pelo menos só um pedacinho de uma música sua de reggae.

 

R – De reggae? Vou cantar uma que se chama DespertaiDespertai para uma nova consciência. Porque ela é mais ou menos assim, tipo, como eu disse, né, eu gosto de escrever fazendo texto... No ritmo ou no texto?

 

P/1 – Os dois...

 

R – O texto é assim: “Somos reféns, por não sabermos dos nossos próprios direitos, mas temos direitos, mas também temos deveres a cumprir. A Babilônia te escraviza e lhe suga toda energia positiva. Despertai, despertai, mas despertai para uma nova consciência! Nós não concordamos com os prazeres da sociedade atual e sua maldade moderna. Pois vinde, cantemos a Jah, a Rocha da salvação, pois ele é rei sobre todos os reis e rei sobre todos os reis”, aí vem (canta) “Despertai, despertai, despertai, mas despertai para uma nova consciência. Somos reféns, por não sabermos o nossos próprios direitos, mas temos direitos, e também temos deveres a cumprir. A Babilônia lhe escraviza e lhe suga toda energia positiva. A Babilônia lhe escraviza e lhe suga toda energia positiva. Despertai, despertai, despertai, mas despertai para uma nova consciência! Nós não concordamos com os prazeres da sociedade atual e sua maldade moderna. Pois vinde, cantemos a Jah, a Rocha da salvação, e rei sobre todos os reis e rei sobre todos os reis, e rei sobre todos os reis, reis... Despertai, despertai...” . E í essa é a Despertai.

 

P/2 – Vocês gravaram CD?

 

R – Oi? É, a gente tem um demo, temos um deminho.

 

P/2 – Legal.

 

R – Gravado de 2005

 

P/2 – E como que chama?

 

R – Oi?

 

P/2 – Como que chama?

 

R – A, a demo? Não, não tem nome. Apesar de que a nossa música de trabalho é O dia, né? Que é de uma comunidade que a gente tentou difundir: Comunidade Rasta – Comunidade do Amanhã. Porque a gente é o pensamento de amanhã, a gente é o pensamento que pode fazer uma nova sociedade, entendeu?

 

P/1 – Quais as lições que você tirou da sua vida até aqui, uma vida curta, né, mas quais as lições tiradas da sua vida? Ainda tá tirando, né?

 

R – Ah, não sei. Apesar de muitas turbulências, sempre quando a gente vai falar de coisas, a gente fala das coisas boas, mas todo mundo passa por marés ruins, então muitas lições que eu tirei da minha vida, é o que eu falei sabe, em relação ao rastafarianismo: eu aprendi a ter responsabilidade. O que eu aprendi da minha vida foi isso, o que eu fiz de errado, eu não quero tornar a fazer. O que eu passei, se eu puder modificar lá pra frente eu não quero tornar a passar, entendeu? Porque a gente é responsável pelo nosso destino. Deus ele provê nosso dia, ele sabe o que vai acontecer lá pra frente mano, mas a gente é responsável por mudar, porque a gente tem dois caminhos: ou a gente pode ir por aqui, ou a gente pode ir por ali. Hoje eu creio que eu tenho uma vida mais responsável. E hoje eu creio que eu tenho uma estrutura maior até de pensamento. Se eu quiser difundir meu som, fazer minha música mesmo, e depois levar ela pra frente, hoje eu tenho uma capacitação de saber que o que eu vou passar vai ser algo de bom e ser algo pensado, algo refletido também. Algo que vai ser absorvido, diferentemente de, muitas vezes, das quais também já cantei assim, de às vezes só querer cantar por prazer, por vontade, e não acreditar que aquilo passasse nada, mas hoje não, hoje eu já acredito de outra forma. Isso eu aprendi que a liberdade da vida e a liberdade dos pensamentos são a mesma coisa – tenta se aprisionar na vida pra ver como você vai ficar. Então muitas pessoas se aprisionam no pensamento, é a mesma coisa. Então é assim, hoje eu sou liberto das duas partes, do corpo e da mente. Recebi uma libertação completa no decorrer da minha vida.

 

P/1 – Você tem filhos?

 

R – Não. Não tive a oportunidade de tê-los, apesar de já ter sido casado.

 

P/1 – Você já foi casado?

 

R – Já.

 

P/1 – Conta um pouco da história...

 

R – Fui casado dois anos. Eu casei com a irmã de um camarada meu. Não nos papéis, né. A gente diz casados porque na nossa lei, a gente casa quando a gente não tem doutrina, a gente casa. Então morei junto com uma pessoa, dois anos no mesmo espaço. Foram dois anos bons. Foram dois anos que também, deixei um pouco de fazer a música pra cuidar, por pensar que aquele era o momento de eu construir uma família, tomar uma postura séria na minha vida, de repente uma responsabilidade. Mas tudo na vida a gente aprende, tudo é um aprendizado. Se a gente de repente não viver, a gente de repente mais pra frente não vai compreender, então o que eu passei eu compreendi, porque foi uma fase curta. Foram dois anos namorando, dois anos morando juntos, realmente não era aquilo que eu queria e nem a pessoa que estava comigo tava preparada pra aquilo, por quê? Eu era músico, o que sempre me chamava mais atenção era tocar. Eu trabalhava, trabalhei até um tempo em São Roque, lá, trabalhava à noite, vinha só de quinze em quinze dias pra minha casa, sendo novo, entendeu? Tendo que ver sua esposa só de quinze em quinze dias. Então eram umas coisas, sabe, que eu não queria me limitar àquilo, sabe, viver pra aquilo. Eu queria uma família, eu sonhei em ter uma família, eu sonhei em ter um filho, mas só que eu não queria também me limitar, sabe, no meu mundo, nos meus pensamentos, nos meus afazeres, pra viver isso, sendo que eu posso viver isso de maneira diferente, sendo que eu posso primeiro atingir estrutura na minha vida, pra depois conseguir construir isso.  Então foi uma fase curta, assim, mas que eu aprendi bastante, gostei muito da pessoa.

Hoje infelizmente não somos amigos, não da minha parte, mas sim da parte dela, né. Houve interferência de pensamentos quando terminamos. Mas independente o que a gente tira é sempre um aprendizado. Aprendizado, e com certeza o que eu vivi antes com ela, que foram também momentos bons, momentos ruins, tudo isso eu transpasso pra hoje. Se eu vivi momentos bons com ela, hoje em dia se eu for ver momentos bons iguais aos que eu passei com ela, hoje em dia eu procuro fazer melhores momentos. Agora se eu vivi algo ruim com ela eu prefiro já evitar os maus momentos. Então tudo é um aprendizado. E já faz dois anos já que a gente tá separado.

 

P/1 – E você espera, quando for constituir uma família largar, largar não, mas diminuir um pouco o ritmo da música?

 

R – Ah, não sei. Que nem eu falei: eu pretendo, né, me tornar um músico, mas não um músico pro marketing, mas um músico aonde, que nem eu falei, se as pessoas se valorizassem a gente vivia entre nós, não esperando pelos outros, porque todo mundo tem um talento. De repente, você tem um amigo que só faz cinema, fazer filme, manja muito, tem um amigo que é webdesign, outro que faz umas paradas com textura. Então, quer dizer, meu, você vive do que você é, você consegue sobreviver disso. Não é que eu penso em abandonar a música não, eu penso em estar em um lado mais profissional da música. Conseguir, de repente, fazer uma produtora musical, escrever trilha sonora. Não que a gente vá cair no comercial, mas eu vou cair no comercial de uma parte o quê? Profissional, porque de repente eu posso escrever uma trilha musical. Posso desenhar o comercial e fazer animação. Então é tudo isso, eu pretendo levar a música pra esse lado mais profissional, sendo o meu serviço, só que o outro lado dela, é só minha maneira de expressar e viver.

 

? – Só um instante pra trocar a fita.

 

P/1 – Mas acabou?

 

Gravando

 

P/1 – Antes de encerrar eu queria que você dissesse o que você achou de ter dado a entrevista.

 

R – Ah, pra mim foi um privilégio. Foi importante, eu gostei da oportunidade também. Porque é que nem uma coisa interessante que quando eu conheci o Museu, que eu achei, porque todo ser humano tem uma história pra contar. Independente que ela não apareça numa tela, a gente tem algo de importante pra passar. Na vida são várias experiências; cada um vive as suas experiências de uma forma, mesmo que às vezes elas sejam iguais, mesmo que às vezes o cotidiano seja igual, independente da classe. Então são várias coisas que você vê, que de repente você vê a valorização da pessoa, do ser humano.  Museu da Pessoa, entendeu? Não a pessoa... Só a pessoa (pausa) sabe? Importante? Não. Museu da Pessoa. Somos todos pessoas, somos todos importantes. Então pra mim foi uma idéia diferente. E o que eu imaginei: “Putz, um dia lá, contar a minha história. Como vai ser?”. Independente de às vezes não ser interessante pra uns, mas pode servir de lição pra outros, como também muitas coisas que eu ouvi aqui de outras histórias foram interessantes pra mim, eu absorvi. Por quê? A valorização do ser humano. Isso pra mim é valorização, você valorizar a historia de cada um, o que cada um tem a contar, que de repente tem pessoa que às vezes ela é tão agoniada que não tem a oportunidade de expressar pra alguém e não tem ninguém pra ouvir ela, sabe, o que ela tem a falar, de repente sobre a sua experiência na vida. Sobre o que ela passou, sabe? Porque sempre a gente quer contar alguma coisa, daí a gente quer ter uma história. E aqui a gente tem oportunidade de contar nossa própria história, entendeu? E dessa história não sair uma fantasia, mas depois sair um algo, algo real, sabe? Algo que você sabe que alguém viveu realmente, não foi ficção, não foi inventado, não foi filmado, gravado, sabe? Não teve cenas, sabe? Hum-hum, num teve cenas, sabe? Porque a pessoa foi ali e mostrou o seu eu. Então é importante. Eu gostei de contar um pouco da minha história.

 

P/1 – Então, eu queria, pra terminar, que você olhasse pra câmera e falasse, “Meu nome é tal, apelido tal. Nasci em tal dia, tal lugar, e sou músico, e sou...” o que você quiser falar.

 

R – Meu nome é Anderson Luis Romão de Oliveira, sou o Zyto. Sou músico e artista plástico no momento também. A gente faz de tudo um pouco.

 

P/1 – Bacana.

 

P/2 – Muito obrigada.

 

P/1 – Muito obrigada, Zyto.

 

R – Eu é que agradeço.

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