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História

Músico funcional

História de: Fábio Miranda de Moura
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/07/2017

Sinopse

Nesta entrevista, Fábio conta como foi passar sua infância no quintal de sua casa, no Jardim Nakamura, na rua que já foi considerada a mais perigosa do mundo pela Organização das Nações Unidas. Fábio também relata como foi que virou músico e como evoluiu para o que chama de “músico funcional”, a partir de uma experiência em Tamera, em Portugal. Foi lá que ele teve a inspiração para criar uma série de invenções que acabaram resultando no projeto Periferia Sustentável, um programa do Instituto Favela da Paz. Ele fala, ainda, de suas viagens pelo mundo tocando músicas de autoria de compositores de sua comunidade para a banda Poesia Samba Soul, da qual faz parte com o irmão, Cláudio. O músico também conta como virou palestrante e fala de sua paixão pela bicicleta, a família e as artes marciais.

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História completa

Meu nome é Fábio Miranda de Moura. Eu nasci em 11 de setembro de 1978 e moro no Jardim Nakamura. Nasci nesse bairro. Hoje eu tenho um prazer imenso, um grande orgulho de viver nesse lugar, mas a gente viu muita coisa ruim acontecendo. A gente morava numa casa muito pequena, de aluguel. Nessa casa, nascemos eu e o Cláudio, que é meu irmão mais velho. A Valéria também. A Mônica, a caçula, nasceu nessa casa que a gente mora atualmente. A gente vivia num terreno compartilhado, não tinha muita opção de brincadeira. Quando a gente mudou, eu me vi num parque de diversão, porque era uma casa que tinha um terreno meio em declive. A rua não era acessível, porque a questão da violência era muito forte. Então, eu falo que a rua pra mim era só o buraco do bloco. Era o buraco que eu via do portão. Esse bairro foi considerado pela ONU o lugar mais perigoso do mundo. Hoje, graças a Deus, tenho um filho de 7 anos e uma sobrinha de 15 que não viram nada daquilo que eu vi naquela época.

 

 
Meu pai é músico, toca violão. Quando a gente era pequeno, começou a se envolver com a música. Nessa época, a gente não podia frequentar outro bairro, porque tinha aquela coisa de rivalidade. Muita gente foi embora de lá, mas o grande propósito nosso foi: “A gente vai mudar esse lugar sem mudar daqui.” Então, a gente começou a buscar referências, a envolver as pessoas, viu que tinha essa coisa de quebrar barreiras, de atravessar de um lugar para o outro, e disse: “Não, a ferramenta que a gente vai usar vai ser a música.” A gente começou com a banda, depois começou a ver que conseguia ter essa possibilidade de entreter as pessoas, de ter as pessoas mais junto e potencializar o sonhos, né? Em 2010, que surgiu o Poesia Samba Soul, a gente teve essa ideia de montar um estúdio.

 

 
O Cláudio passou por um processo de empreendedores. Era como se fosse um concurso, ia receber um financiamento para a realização de um projeto. E não conseguiu ganhar. Nosso propósito era montar um estúdio. E aí ele conheceu um dos diretores desse projeto, Marcelo Cavalcante. Em 2009, o Marcelo chegou pro Cláudio e falou: “Cláudio, tenho uma viagem pra fora do país, numa comunidade chamada Tamera, que eu não sei como que é também, mas vou financiar sua viagem pra lá.” E o Cláudio foi, sem falar inglês, sem falar espanhol, numa comunidade alemã, no Sul de Portugal. Ele ficou quatro meses lá.

 

 
Eu pisei lá em 2010. Foi aí que me identifiquei como um músico funcional. Quando eu participava das palestras, ia conversar com o cara que estava falando sobre biodigestão: “Nossa, que inteligente que ele é, né, supertécnico e tal”. E  perguntava: “Qual é a sua profissão?” O cara falava: “Sou marceneiro”. Eu ficava com aquilo na cabeça, a mão começava a coçar. Beleza, outra palestra, o cara falando sobre energia fotovoltaica, sistema de captação de água da chuva, sistema de lago, eu falei: vou perguntar, não custa nada: “Qual é a sua profissão?” – “Dirijo o carrinho elétrico aqui.” Então, quando eu voltei, eu falei: “Quero ser um músico funcional e desenvolver tecnologias. Vou desenvolver coisas funcionais”.

 

 
Comecei a desenvolver projetinhos pequenos, plaquinhas e coisinhas pequenas. Aí, a gente tinha um encontro que chamava Campus Global -- acho que umas 50 pessoas, de todas as etnias, gente do mundo inteiro, de organizações --, construiu o biodigestor e colocou o sistema pra funcionar. Fui modificando e o sistema começou a dar resposta, resposta, até que chegou um momento que estava funcionando 100%. E eu fui migrando. Migrei para energia solar, depois pulei para o sistema de captação de água da chuva, depois percebi que, não é só esse processo da biodigestão, que é a produção do gás metano, a gente também tem um segundo produto, um biofertilizante natural para as plantas. Então o que eu fiz: “Já que eu não tenho espaço pra plantar, de terra, vou fazer um sistema vertical”. Então, criei um sistema de bioponia na parede, onde cultivo hortaliças, alface, cebolinha, salsinha. Hoje, com esse projeto que eu intitulei de Periferia Sustentável, venho trabalhando biodigestão, energia solar, captação de água da chuva, e também uso consciente da água.

 

 
Eu fui, uma vez, fazer uma palestra numa escola da prefeitura para alunos do 4º ano, então 7, 8 anos. Aí teve um menino que veio conversar comigo. Ele chegou para mim e falou assim: “Oh tio, nossa, você é um cientista, eu sou assim que nem você. Faço umas coisinhas em casa assim, pego um motorzinho, faço umas coisas, mas eu mostro pra minha mãe e ela fala pra eu parar com esses negócios, que não tem nada a ver. Mas eu vi que posso ser que nem você.” Aquilo me tocou muito. Pensei: “Caramba, como é que eu estou aqui?” Saí tão feliz naquele dia. Eu pensei: “Realmente eu consegui potencializar esse sonho nele”. Ele me via como cientista, eu sou um músico, acho que ele nem captou isso, mas, quando ele me via ali, ele pensava: “Ele é um cientista”. Eu disse: “Não, continue fazendo suas coisinhas que um dia você vai ser um cientista que nem eu.” Nossa, aquele moleque ficou tão feliz. Naquele dia, eu disse: “Realmente eu vim para fazer isso.”

 

 
Só que, quando ia falar de sistema de captação de energia solar, as meninas falavam: “Tio, mas o que é uma placa solar? Mas o que é uma bateria estacionária? O que é um controlador de carga?” Eu falei: “Meu Deus do céu, de que forma eu vou fazer o olho dessa molecada brilhar, de que forma eu vou trazer essa inspiração pra eles? E se eu fizer um sistema portátil?” Aí, arrumei uma caixa, era uma caixa muito grande, era um trambolho, né, e não funcionou. Aí eu pensei, né, Gato Félix, tipo aquelas coisas de abrir a maleta e arrancar um monte de coisa de dentro, tudo bugiganga, e  falei: “Acho que vou fazer uma mala, que eu posso pegar aqui de um lado, pego baterias de outro, o painel boto debaixo do braço e bora correr com isso aí pra cima e pra baixo.” Só que eu tinha essa ideia na cabeça, mas de que forma que eu vou fazer uma mala, tinha toda uma questão eletrônica e tal e eu pensei: “Acho que eu vou pedir para algum técnico de eletrônica fazer um desenho pra mim, mas o que vai adiantar: eu sei ler nota, sei ler partitura, de que forma vou ler um mapa eletrônico?” É a mesma coisa de eu catar uma escrita em hebraico e virar de ponta cabeça. Eu falei: “Não, vou fazer meu próprio mapa eletrônico”.
Peguei um caderno e comecei a desenhar: “Ah, mas que símbolo é o diodo? Não importa, o diodo é pra mim mesmo, vou colocar do meu jeito.” E comecei a desenhar esse projeto que eu tinha na minha cabeça. Quando olhei praquilo, pensei: “Nossa, tenho um projeto aqui.” E comecei a buscar material em casa. Fui ao estúdio, tinha uma maleta de microfone: “Nossa, que legal, posso carregar comigo.” E fui seguindo esse conceito que eu tinha, desse meu mapa mental, e comecei a desenvolver. Quando comecei a montar a maleta, eu olhava assim, na hora de fazer o teste, né, pra ver se ia dar certo ou não. Eu nunca colocava o fio de uma vez só, eu colocava e dava uma encostadinha, porque se ligasse errado eu ia queimar os componentes. E aconteceu. Uma vez eu coloquei até fogo nela.

 

 
Chegou um momento que eu abri a maleta, na hora que eu liguei na bateria acendeu tudo. Eu falei: “Uau, realmente foi possível!” Daí, comecei a levar pras escolas e a molecada ficava louca. Eu faço todo um suspense, falo da maleta, vou mostrando as fotos e a maleta está fechada. Quando mostro a foto da maleta, que eu abro, a molecada não acredita. E aí eu tenho uma coisa que carrego muito comigo, que é essa coisa do impossível. Quando eu dizia para as pessoas: “Eu vou fazer uma maleta.” – “Ah, você é louco, isso não vai dar certo não, é superdifícil, você não tem conhecimento de eletrônica, mas de que forma você vai fazer isso, não vai dar certo, não vai dar certo”. E aí eu levo a inspiração dos grandes mestres, né? O Albert Einstein tem uma frase que fala assim: “O impossível existe até que alguém duvide e prove o contrário.” Então, eu venho carregando isso comigo. Cada vez mais duvido do impossível. Sempre encarei que seria possível, que eu ia conseguir, até conseguir.

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