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História

Na educação, o orgulho da vitória

História de: Maria do Carmo Pantoja da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Ela nasceu onde corre o rio Epacucu, município de Parintins, estado do Amazonas, no dia 16 de julho de 1989. Como na comunidade onde morava - Itaboraí do Meio - dava muito peixe, costumava pescar com os irmãos tambaqui e pirarucu. Mas lá também era lugar de jacaré e sucurijú. Por isso que quando tinha que atravessar a pé dois rios para chegar na escola, morria de medo. Casou, teve filhos, foi morar numa comunidade indígena. E foi justamente lá que encontrou estímulo para voltar aos estudos - o Projeto Igarité, como o Telecurso é chamado no Amazonas. Foram muitos desafios a vencer. Uma vitória comparável aos campeonatos que disputou. Atualmente é zagueira do time local e quer se aprimorar como professora da educação infantil.

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História completa

Sou Maria do Carmo Pantoja da Silva, nasci em Parintins, Amazonas, lá onde corre o rio Epacucu, na comunidade Itaboraí do Meio, lugar de muito peixe, lugar onde eu ia com meus irmãos pescar tambaqui e pirarucu. Lugar também de muito jacaré e muita sucurijú. Foi lá que eu vim ao mundo, em 16 de julho de 1989. Meu pai sempre foi pescador. Trago na memória um episódio de perigo vivido por ele quando colocou o espinhel e a linha ficou presa no mato. Só que não era mato, era um jacaré. Um imenso e muito bravo jacaré.

 

(...) a gente brincava de pular na água, de jogar bola (...), eu jogo bola até hoje. Jogo também em campeonato. (...), minha filha de quatorze anos joga junto comigo (...). Eu sou zagueira.

 

Eu praticamente me criei na fazenda do meu avô e estudava também na comunidade. Eu ia com os meus irmãos para a escola, e era com muito sacrifício: a gente atravessava dois rios e andava uma boa distância, tudo a pé, até chegar à escola. Tinha que acordar às quatro da manhã. Aí atravessava o rio com a água na cintura, senão no pescoço. Suspendia a mochila para não molhar os cadernos e chegando na escola trocava a roupa, que uma muda já ia de reserva com a gente. Agora era muito arriscado por causa dos jacarés; eu, pelo menos, morria de medo.

 

A escola, essa escola que atravessava dois rios, ela era feita de madeira. Madeira coberta de telha, até porque não era uma escola mesmo, era uma sede de atividades da comunidade.

 

O ensino era o do tempo da palmatória. Mas cheguei a apanhar de régua também. Bastava errar o ditado, a tabuada. Levava até puxão de orelha. Inimaginável hoje. Bom, mas aí o meu avô morreu, as terras foram vendida e fui morar com a minha outra avó. Passei a estudar na área indígena, quarto ano, mas aí repeti. Fiquei longe da escola por um bom tempo. Nesse me deslocar com frequência por barco de linha, conheci meu esposo. Conheci, começamos a namorar, meus pais foram contra o casamento porque eu era nova demais, fomos morar juntos, fomos para a comunidade indígena a que ele pertence e aí engravidei com quinze anos. Nessa época, tentei voltar a estudar. Fui vencida pelas dificuldades - já dois filhos, filho pequeno, aula com bebê nos braços, não deu. Apesar das minhas tentativas e desistências, eu continuava a acalentar o sonho de estudar.

 

Então o Projeto Igarité, foi para lá. (...) conversaram com o Tuchaua. (...) estava ansiosa porque nunca havia estudado na tela assim, tendo professor presencial e tendo professor ministrante ao mesmo tempo.

 

E foi o professor Janderley, que anteriormente havia sido meu professor e que tinha acompanhado minhas desistências - assim como, é claro, minhas dificuldades -, quem mais me incentivou a retomar os estudos, a nunca desistir de meus propósitos e de meus sonhos. Foi também quem me alertou de que aquela seria, provavelmente, a minha última chance de estudar, de me formar. E foi assim que eu passei a integrar a turma do Projeto Igarité que chegou lá no meu lugar. Que chegou, pode-se dizer, na minha vida para fazer grande diferença. Treze alunos que, como eu e cada qual com seus motivos, estavam afastados da escola. Só que, de minha parte, desta vez havia um comprometimento, uma determinação: não desistir nunca. E era com essa vontade de ir até o fim que eu aguardei ansiosa o início das aulas. Queria logo experimentar a tecnologia, a metodologia, os trabalhos em grupo. Até a disposição da sala em círculo me trazia certa expectativa. E as equipes de Socialização, Coordenação, Síntese e Avaliação foram coisas novas para mim, que eu participei com entusiasmo. Além do Memorial, que me marcou bastante. Não deixava de fazer um, estão todos guardados lá na escola.

 

Então, o Igarité foi para mim uma história de aprendizagem sim, mas também de participação, de dedicação, de acompanhamento, de esforço - porque sempre lutei com dificuldades imensas para estudar, desde a infância, desde a travessia lá dos jacarés, até assistir aula com o meu pequeno dormindo no carrinho, ali do meu lado, em sala de aula. Mas, sobretudo, foi um episódio de superação na minha trajetória. E assim eu fiz o sexto, o sétimo, o oitavo e o nono anos. Quatro anos, cada um deles um novo desafio e uma nova conquista. E tudo o que eu aprendi no Telecurso hoje, de alguma forma, eu consigo aplicar no meu atual envolvimento com a educação - Educação Infantil.

 

Eu tenho muita gratidão por tudo isso. E muito orgulho também. Sinto que ao concluir o ensino médio ganhei forças para continuar. Por isso, a próxima etapa será, se Deus quiser, a faculdade. Torcida não me faltará, tenho certeza, como não me faltou ao concluir os estudos.

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