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Na guerra e na paz, salmo 91

História de: Ricarda Strzyzykowski Dawidovicz
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 03/07/2019

Sinopse

Nascida em 1937, a polonesa Ricarda Struzuzukowski Dawidovicz sabe recitar o salmo bíblico 91 de cor. Quando tinha apenas seis anos, na Polônia, ela o ouviu de sua mãe, que rezava antes de sair a esmo pelo campo, com ela e sua irmã, fugindo de um grupo de ucranianos armados em plena Segunda Guerra Mundial. Em seu depoimento, Ricarda revive a fuga e as dificuldades que encarou, com a família, até a decisão de se mudarem da Europa para uma nova fase no Brasil. Estabelecida em São Paulo, ela logo aprendeu o idioma, estudou e chegou a trabalhar na famosa loja Mappin. Sua trajetória, no entanto, nunca foi fácil. Casada com um polonês, mãe de três filhas, ela sofreu um derrame antes de completar 30 anos e enfrentou uma difícil relação com a sogra. É ao salmo 91 que ela continua a recorrer toda manhã e toda noite, sempre pedindo uma única coisa: paz.

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História completa

Eu nasci na Polônia, no dia 5 de fevereiro de 1937. Chegou 1939, já estourou a guerra, e os ucranianos lá moravam junto com os poloneses nesse local que eu nasci. Não existia a Ucrânia. Eles ficavam com os poloneses sempre numa boa, eram vizinhos, tudo bem. Mas, depois, Hitler fez um pacto com Stalin: “Olha, então, vocês vão matar todos os poloneses moradores de lá e vocês ficam com a terra, vai ficar Ucrânia”. E, então, o que fizeram esses ucranianos? Eles atacavam todos os poloneses que moravam lá nesse local, queimavam fazendas, matavam pessoas, era um massacre mesmo. Isso era ano de 1943. Eu, na época, tinha seis anos, e a minha irmã, três. E a gente morava com os meus avós paternos, que eles tinham comprado aquela terra toda, já era fazenda e tudo. E chegou a minha tia correndo uma manhã, era fevereiro, mas era quase começo de março, porque era bem frio, ainda era neve. E ela chegou correndo, falou: “Olha, se arrumem rápido, porque os ucranianos estão vindo a cavalo, vão matar todos vocês”.

 

O meu avô, quando soube disso, saiu correndo da casa e foi correndo pelo terreiro. Nisso chegaram os ucranianos a cavalo e o mataram lá, ele caiu morto. E a minha mãe e nós fomos correndo pelos campos, chegamos à casa de uma ucraniana, que era conhecida nossa. Mas, quando chegou a noite, ela falou: “Vocês têm que ir embora, porque o meu filho é desse bando, quando ele chegar aqui, ele vai matar vocês e as crianças”. E o meu pai, nessa altura, já tinha ido embora. Deixou a gente e foi. Não se sabe nem para onde ele foi. Então, a minha mãe o que fez? Nós nos ajoelhamos ali mesmo, minha mãe orou bastante. Eu ainda era pequena, não sabia orar, mas ela orou muito o Salmo 91, o mais poderoso Salmo que tem. Minha mãe fez o sinal da cruz e fomos indo, fomos indo, a esmo, a esmo.

 

Chegamos a um lugar onde tinha um trilho de trem. Nós entramos nesse trilho para andar e, de repente, na nossa frente apareceu um ucraniano a cavalo, armado. Ele podia nos matar ali mesmo, porque éramos só nós naquele trilho, não tinha ninguém. A minha mãe me pegou, a minha irmã, e caiu. Não depois um vão embaixo do trilho? Caiu em cima de nós, cobriu e ficou. E ficou orando esse Salmo 91 o tempo todo. E ele passou e não viu a gente. E nós levantamos, minha mãe continuou andando.

 

Já era quase o ano de 1949. E a Alemanha perdeu a guerra e foi dividida em quatro partes: zona francesa, zona russa, zona americana e zona inglesa. Em todo lugar tinha estrangeiros, porque todo mundo que eles levaram dos outros países para lá para Alemanha, todo mundo estava lá perdido. E eles levaram a gente por lá perto, que tinha um convento de freiras alemãs. Elas tinham que desocupar um bloco todo, de três andares, para acomodar todos os estrangeiros que estavam lá. Ficamos lá e, aí, chegou o que hoje é ONU [Organização das Nações Unidas]: “Olha, vocês não podem mais ficar na Alemanha, só se vocês quiserem ficar. Mas vocês podem migrar e ficar em outros países”. Todo mundo queria ir para os Estados Unidos, mas eles só pegavam solteiros, não pegavam famílias. Inglaterra podia, mas lá o homem tinha que trabalhar numa mina de carvão, então, meu pai não quis ir para lá. Então, tinha o quê? Tinha Brasil, tinha Argentina, Chile, e pela Europa, podia voltar para a Polônia se quisesse. Mas nós íamos voltar para onde, se não tinha nada?

 

Minha mãe olhou os slides: “Nós vamos para o Brasil. No Brasil não tem neve e tem muita comida, muita fruta”. A gente via os slides, muita laranja, muita banana. Vamos lá. Embarcamos, todo mundo chorava tanto, tanto: “Meu Deus, vamos deixar a Europa. Aonde a gente vai? Para um desconhecido”. Nós viajamos durante mais de 21 dias nesse navio. E chegamos ao Rio de Janeiro. Mas chegou alguém lá do governo e falou: “Vocês não podem ficar aqui. Vocês têm que escolher um estado”. E a minha mãe, quando estávamos na Alemanha, os franceses já falaram uma vez: “Se vocês forem para o Brasil, escolham São Paulo, porque lá tem muito europeu, tem muita indústria, lá se pode trabalhar”. Então, a gente escreveu que a gente quer ir para São Paulo. E fomos com aquele trem, levamos uma noite. Chegamos a Campo Limpo. Desembarcamos, eram barracos e barracos e barracos, mas o clima já era um pouco melhor, mais fresquinho, não era tão quente como no Rio. 

 

Meu pai arrumou emprego em Cubatão e só voltava uma vez por semana para casa. E nós ficávamos lá em Campo Limpo. Só que aí meus pais se separaram. Porque, depois que meu pai nos deixou lá na Polônia, minha mãe ficou com aquele trauma e conheceu um polonês também, ele era um militar. E ele veio junto também, procurar a gente em Campo Limpo. Então, a minha mãe fez o quê? Procurou uma amiga que também veio com a gente e, com essa amiga, elas foram procurar uma casa para alugar. Onde? Na Freguesia do Ó. E era uma casa com o banheiro lá fora, de tapume, uma cozinha minúscula, que não tinha nada, era só piso de cimento pintado. E um fogão de lata, com duas bocas. E a gente comprava carvão, tinha um carvoeiro que andava de carroça pelas ruas e vendia carvão de saquinho. Era um horror a nossa vida. 

 

Depois, por meio de uma amiga minha, que já trabalhava no Mappin, a minha mãe falou: “Você não pode arrumar para ela um emprego lá no Mappin?”. E ela então me apresentou lá. E, como eu sabia datilografia, fiquei lá até quase me casar. Depois eu conheci o meu marido, num baile polonês que tinha na Avenida do Estado. Era um casarão velho e todos os poloneses jovens iam lá para dançar. Ele veio, me tirou para dançar, e já logo começou a perguntar: “E onde a senhorita trabalha?”. Eu falei: “No Mappin”. Não é que no dia seguinte eu fui trabalhar no Mappin, quem aparece na minha frente? Ele. Ele não acreditou que eu trabalhava no Mappin. Ainda falei que eu trabalhava no escritório, eu era entrevistadora das pessoas que queriam crédito. Eu sabia falar bem o português e sabia escrever à máquina – e todas as polonesas trabalhavam de operárias, porque não sabiam nem falar direito. Então, ele queria saber: “Ela está me enganando”. E foi assim. E acho que no prazo de um ano nós nos casamos. 

 

Santo André era onde ele morava. Quando eu me casei, eu odiei ter morado com os meus sogros. Eu queria morar eu e meu marido. E, por causa disso, não deu nada certo. Acho que eu não tinha nem 30 anos quando eu tive derrame. E fiquei sem andar, sem falar. E eu tinha a Lúcia, a minha filha mais nova, pequenininha. E eu tinha que ficar no hospital, porque eu estava doente, e a Lúcia ficou jogada lá com minha sogra. A minha sogra era uma caipira. Minha mãe ficava comigo no hospital, mas de vez em quando eu falava: “Vá lá ver como ela está”. Porque as outras duas filhas já eram maiorzinhas: a Danuta já tinha 12 anos, a outra tinha nove. E a Lúcia era pequenininha, não tinha nem dois anos, um ano e meio. Minha mãe chegava, ela falava: “Ai, meu Deus, a Lúcia está andando com sujeira pendurada nela”. Não a trocavam, ficava assim. E, quando eu voltei do hospital, a Lúcia não me reconheceu. Eu fiquei tão triste. Porque eu falava, mas a minha língua dobrava diferente, foi horrível. Foi por Deus, por isso Salmo 91, viu? É o único que salva. E depois, devagar, foi, foi, foi, e virei normal. 

 

Minha sogra era tão má, tão má, que, uma hora, eu estava na cozinha lavando a louça, ela parou assim e falou para mim: “Sua vaca, eu já estou esperando há 12 anos que você morra e você está viva”. Doze anos, porque eu tive esse derrame, eles pensaram que eu ia morrer logo. E eu não, eu me reabilitei. E ela falou isso na minha cara. E depois ficou insuportável ela ficar na mesma casa. Então, meu marido a levou para depois de Ribeirão Pires. Ele tinha construído lá uma casinha para a amante dele – ele tinha amante, isso é outra história. Então, ele pegou e a levou lá, com quatro mulheres cuidando dela. Eu sei que, uma hora, ele ligou para mim, falou assim: “Parece que a mãe morreu”. Ela morreu na cadeira de rodas. As empregadas que avisaram. E, para transportar o corpo dela de lá até Santo André, é longe e, em cada cidade que você passa, tem que pagar uma taxa. Para não fazer isso, as duas empregadas sentaram atrás no carro, a velha no meio, uma segurava de cada lado. Ela veio sentada, morta.

 

Depois, essa amante do meu marido parece que o traiu, e ele começou a ficar mais em casa, e a gente até viajou para a Polônia. Mas logo depois ele morreu, ele era diabético. Aí, eu falei: “Quer saber? Agora eu vou fazer tudo aquilo que eu não pude fazer”. Então, fui fazer ginástica, fui fazer trabalho manual, que eu gostava de aprender, eu fiz curso de bordado, de bijuteria, fiz curso de porcelana, fiz curso de arraiolo. Hoje, quando eu vou dormir, antes de dormir, eu janto, tomo banho, ponho minha camisola, assisto um pouco de TV, Salmo 91 e vou dormir. É assim que tem que ser agora. Porque agora eu sei o que é bom. Então, foi assim.


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