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História

Na luta pela poesia

História de: Emerson Alcalde de Jesus
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 22/06/2015

Sinopse

Emerson Alcalde de Jesus conta em seu depoimento para o Museu da Pessoa sobre sua infância e como era sua relação com seus pais. Fala sobre a morte precoce do pai quando ainda era criança, e como sua mãe os manteve financeiramente. Comenta sobre seu envolvimento com o rap na adolescência, como se relacionou com os livros e sobre o ingresso e permanência na faculdade, de Artes Cênicas no Anhembi Morumbi. Discorre sobre os trabalhos que teve depois, principalmente em oficinas e peças de teatro. Emerson comenta sobre o Slam e conta suas experiências na competição, fala sobre o seu livro e sobre seus projetos no mundo dos saraus atualmente. 

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História completa

Nasci no dia 20 de abril de 1982 em Itaquaquecetuba, SP. Meu pai é Vicente de Jesus. Ele nasceu no estado do Pará.  Ele foi adotado, eu tenho a minha avó, mas a mulher que teve ele não tinha condições e essa minha avó pegou ele pra criar. Isso foi na Ilha de Marajó, então não tenho certeza absoluta se a família dele é de lá, deve ser por ali, naquela região. Meus pais se conheceram aqui em São Paulo, namoraram e casaram. Ele era metalúrgico, tanto lá em Belém quanto aqui. Minha mãe Helena Martins Alcalde, depois Jesus que é o sobrenome dele. Nasceu no bairro onde sempre morou, no mesmo lugar, em Cangaíba.

Ele comprou um terreno e a gente se mudou para essa outra cidade, Itaquaquecetuba. Nasci lá. Casaram lá, até dois anos de idade, eu morei nessa casa da minha madrinha, que era no fundo de onde ele tinha alugado o quartinho. Ele comprou um terreno com uma casa, a gente foi para lá, morei até os oito anos. Meu pai morreu de infarto. Estava indo trabalhar, ele passou mal. Depois eu fui para casa da minha avó com a minha mãe. Ela pediu aposentadoria, a pensão depois de dois anos e passou a receber.

Estudei no Cecília Meireles, depois fui para uma outra escola chamada República do Uruguai.  Eu saí um pouco brigado dessa escola também, para falar bem a verdade. Eu tinha uma namoradinha, tinha 15 anos, já era adolescente. Ouvia Racionais, De Menos Crime, tinha um CD do De Menos Crime e uma fitinha do Racionais. Ouvia, ouvia, mas também ouvia música eletrônica, que a galera da escola gostava mais de música eletrônica, tinha umas baladinhas e a gente ia com essa turma. Eu conheci muita gente dessa comunidade, eu morava na vila, era uma casa muito pobre, mas era no asfalto. E metade da escola morava lá, eu fiz amizades, comecei frequentar esse morro e eu fiz um curso de DJ em Guarulhos. DMM Slick, estava começando a dar um curso eu fiz e lá, tinha uma galera que tinha um grupo de Rap. Entrei como DJ do Grupo, fizemos apresentações, cantávamos na escola, meu contato com a música. Comecei a escrever, no oitavo ano eu já escrevia poesias, letras, tinha já uma produção. Estava na escola, primeiro, segundo ano, comecei a estudar mais para escrever melhor, depois que eu virei MC, falei: “Preciso escrever mais”, passei a escrever e a estudar mais literatura, foi a época que eu comecei a ler os livros mesmo: Drummond, Shakespeare, fui lendo, até entrar na universidade. Eu parei de cantar rap, fizemos show só um tempo, eu fiz um cursinho pré-vestibular e a minha mente abriu mais e eu prestei vestibular, passei e ganhei uma bolsa. Anhembi Morumbi, o curso era nessa universidade, só que tinha um cursinho para alunos de baixa renda. E eu fiz Teatro, Artes Cênicas. Foi um choque de realidade, de cultura, que eu estava ali nesse bairro, só vivia ali, não viajava, era uma coisa muito simples, só ia para o centro em show de Rap ou em Pinheiros aqui quando tinha outros bares aqui que a gente vinha, mas só vinha e já voltava para lá, eu não tinha nenhuma vida aqui, não vinha aqui para outras coisas. E na faculdade, já conheci pessoas que moravam aqui, também tive outros contatos.

Assim que eu me formei, eu consegui um trabalho de Oficinas de uma professora na faculdade. Ela era política, ela era vereadora, ela fez um projeto de arte e educação no Sambódromo do Anhembi e eram uns camarotes e rolavam as aulas: teatro, dança, música e chamou a gente para dar aula, fomos os cinco dar oficinas. E a partir dali, fiz contatos e acabou o projeto, fui para outro projeto e fui sempre dando oficinas e fazendo umas peças de teatro. Era teatro para crianças e dei muitas oficinas em muitos lugares depois desse projeto.

Fui fazer escola livre de teatro em Santo André. Fiz a Dramaturgia também com o Luís Alberto de Abreu um pouco e depois, com o Quiu e sempre fiz curso de dramaturgia e escrevia as minhas peças nesse mesmo tema, eu fiz peças para eu mesmo atuar, nunca cheguei a alguém atuar, mas eu atuei em duas peças minhas, dois monólogos que diziam o que eu quero, com poesia, com rap. E sempre dando aula, paralelamente, dando aula que é onde eu vivia, que eu vivo, que é onde eu ganho dinheiro para viver e paralelamente, fazendo peças e cada vez mais autorais assim, chegou um momento que eu fiz algumas montagens. Eu comecei a escrever o que eu queria e em 2008, escrevi a peça “Pichologia”, sobre a pichação, eu comecei a falar sobre pichação, histórias que eu vivi, que amigos meus viveram e depois, fiz o “Boneco de Marcinho”, infantil, baseado nas histórias que eu ouvia das crianças, poesia, rap, até hoje eu faço essa peça desde 2007, 2009, faço até hoje. “Pichologia” eu parei, porque era mais adulto, mas era o que eu queria falar.

Encontrei o sarau em 2006, 2007. Eu escrevia mais dramaturgia, escrevia rap um período, depois dramaturgias e foi nos saraus, vendo que eu falei: “Acho que a parada é mais escrever quase um rap meio que uma dramaturgia, vou misturar os dois”, e eu acho que os meus textos estão um pouco nessa linha mesmo.

Fiz algumas peças desse meu tempo, fiz várias peças e escrevi alguma letra, escrevi alguma coisa, trechos de peças, eu lia esses trechos, eu ia e lia um trecho de uma peça, mais tímido. Eu chegava lá, eu lia, ficava com medo, tinha certo receio: não sei se o cara vai me aceitar, eu ia para Zona Sul. Eu tinha um texto chamado “Teatro dos Bonecos Reais”, uma coisa assim, baseado em Woyzeck, meio no hip hop, enfim. Eu sabia que existia teatro hip hop, eu tinha visto Bartolomeu e peças, e pesquisei nos Estados Unidos algumas coisas e nesse dia, eu fui e iniciei essa poesia, não passei nas fases, tinha a escrita, mas não era potente e nem eu falava direito e eu fali: “Porra, esse aqui é o lugar”, não parei mais de ir, desde 2008, novembro de 2008.

 “À Massa” foi o primeiro poema que eu escrevi para slam, quando eu fui no Zap eu vi, eu escrevi essa poesia, não passei, fui duas vezes, fui três vezes, fui quatro vezes, eu fiquei observando: como é que esses caras estão passando de fase. Foi a primeira que eu passei de fase. Eu vim, decorei, escrevi e falei: “Foi massa, foi massa”, fizeram uma piada assim, passei, falei: “Opa, dá certo”, entendi o jogo.

No slam, todo mundo se inscreve, dez, quinze pessoas e todo mundo fala e quando termina a vez de cada pessoa falar, são cinco jurados escolhidos na hora que dão notas de zero a dez e a maior e a menor cai e soma a nota, então os cinco melhores classificados passam de todo mundo que falou. Essa é a primeira fase, cinco e depois, três. E eu nunca passava, ficava em oitavo, décimo, mas esse dia fiquei em quinto, quarto, eu consegui passar. São poesias autorais, com duração máxima de três minutos, não pode usar adereços, nem figurinos, nem instrumentos musicais, é isso. Basicamente essas.

Passei, motivei, eu fiquei empolgado, fui feliz para casa, comecei a escrever mais, escrever, tinha só uma, tinha uma segunda que era ruinzinha, eu fui um dia e fiz uma terceira, eu passava de fase e eu comecei a segunda fase, passava de fase e perdia, mas quando chega no final, perdia. Um dia, estava bem ruinzinha, pegaram uns jurados bem cri-cri assim, cinco, uma nota super baixa. Por algum motivo, ele gostou de mim, eu falei de um jeito que eu ganhei a vez.

Ganhei em 2009. Quando eu ganhei a segunda edição mensal, são edições mensais. Em 2010 foi diferente, foi um ano em que eu entendi mesmo como é que rolava, eu ganhei uma vez, fui para final e ganhei a final, com “Senhor da Limpeza”. Mudou, a galera passou a me conhecer, até então nesse cenário, eu não era conhecido. Nesse dia tive uma projeção já, fui convidado para participar de eventos no Sesc, para circular pela cidade, convite para antologias, enfim, comecei a aparecer em 2010, muito forte. Me dediquei só a isso.

Eu cantava rap como falei no começo, era um grupo pequeno, tive uma certa faminha no bairro, eu chegava nos lugares, outro dia eu fui num lugar: “Pô, o cara aí ganhou”, os caras não paravam de olhar para mim: “Fala aquela poesia lá, À Massa”, e todo mundo dava aquela atenção, qualquer palavra que ia as pessoas vibravam. Estava o Gog, vários poetas: “Pô, quem é essa cara? Vamos chamar ele com a gente, vem com nós”, eu participei de um CD do Kamau, chamado Entre, e teve muitos fãs. Enfim e eu comecei a fazer shows com ele, eu abria shows, fazia aquelas poesias e o público dele passou a me conhecer e começou a ficar estranho andar na rua e as pessoas me reconhecerem, foi 2011 já, final de 2010 eu ganhei, isso tudo em 2011, 2011 foi um outro ano de entrevistas e matérias de jornal, foi uma coisa assim, absurda, estou na rua, autógrafo: “Autógrafo, deixa eu tirar uma foto com você?”, pra que tirar foto comigo.  Fui no Sesc e eu fiz um que chama Circuito Sesc de Artes. Em 2011, abril de 2011 eu lancei meu primeiro livro. E nessa viagem, eu aprendi também, tinham os espanhóis desse grupo de teatro e eles me falaram: “Você tem que promover o seu trabalho, você tem um trabalho muito legal, mas se você não promover ele, não vai acontecer”, e foi onde eu comecei a me preocupar mais na divulgação para fazer com que o trabalho acontecesse, porque até então, eu só ia em slam e falava, e isso acontecia, não programava a minha carreira, não pensava nela, o que fazer, programar projetos.  Palestras, oficinas, 2011, muitas antologias, participei de umas 12, 13 antologias de literatura, feira de livro, 2011, é foi mais nesse sentido. Eu entrei no curso de dois anos de dramaturgia, foi também muito bom, professores feras, eu tinha uma Bolsa de estudo na SP Escola de Teatro.

O sarau na Guilhermina vem em fevereiro de 2012, com a necessidade de criar um outro slam, porque tinha o ZAP que eu ganhei, mas chega uma hora que você tem que dar uma outra coisa, não tinha outro slam, ninguém entendia que era uma linguagem, entendia que o ZAP fazia isso, uns achavam que era burguês, o sarau da periferia, alguns iam, outros falavam: “Porra, é fechado, só tem galera de teatro”, que iam os amigos deles, o Bartolomeu no Bar Pompeia, eles são uma parte é do movimento negro, outra parte do teatro, simplesmente e também a galera dos saraus iam. Alguns tinham uma certa crítica, teve uma época que bombou, teve uma época que começou a não ir tanto, eu sempre adorei, sempre fiz a minha carreira, mas a Roberta falou assim: “Queria um outro slam, cara, pra gente poder ter esse outro ponto”, eu fiz na Leste, resolvi fazer lá, criei um sarau em principio, só que ela falou para fazer slam, slam, eu falei: “Então vamos tentar fazer slam”, no começo recebi muitas criticas: “ZAP, cara, você vai fazer um ZAP?” “Não é ZAP, vou fazer um slam” “Mesma coisa, nada a ver, cara, competição, divide as pessoas, movimento não é isso”, a galera tinha crítica: “Divide as pessoas, o sarau que é comunhão, onde todo mundo se aceita”, fizemos o slam, no primeiro dia já foi bastante gente. É mensal, Roberta foi, as pessoas foram e virou uma referência na leste, eu acho, e as pessoas começaram a fazer slam, veio o segundo, terceiro, quarto, quinto, sexto. Fica no Metrô Guilhermina Esperança, faz do lado do metro, sai do metro, tem uma pracinha, praticamente, dentro do metrô, acho que é até anexa e levamos lampião, fazemos em roda, tem 200 pessoas, 300 pessoas que se encontram. Movimento até dá problema de tanta gente que vai. Mas rolou porque queria fazer um outro slam, eu queria fazer isso e deu uma aquecida aqui, com o Guilhermina e outros que foram surgindo. Foi também de criar essa outra mídia, eu tinha que ter um material também, ter algo para as pessoas poderem assistir, pesquisei na gringa, vi algumas pessoas que faziam, aqui no Brasil não vi e tinha um amigo que estava fazendo vídeo, comprou uma câmera, tinha uma mesa de edição, e ele falou: “Vamos fazer uns vídeos”, e começamos a gravar, gravamos o áudio e fomos para a rua, começamos a gravar o vídeo, “Oqueelatinha” primeiro, depois fizemos outras coisas, isso me ajudou muito a divulgação.

Em 2013, falei: “Bom, agora é a minha vez… agora eu acho que eu tenho que ir, minha vez de ir, as pessoas foram, tal”, e me preparei bastante assim, eu fiquei me preparando como que eu ia falar, que tipo de poesia que eu ia falar, o que eu ia falar e eu ganhei no final do ano também, ganhei uma vez e ganhei o slam SP que eram com vários outros slams, tinham cinco slams e tinha pessoas de fora e eu ganhei uma poesia que falava da França, um texto falando dessa relação do Brasil com a Europa. Enfim, e fiz essa poesia e falei, ganhei aqui e chegando lá na França, são 20 países que a princípio tinha e eu queria passar de fase, os dois últimos poetas que foram, eles não passaram da primeira fase. Eu perdi e fiquei em segundo lugar nessa parada. Hoje tem cerca de 13 slams no Brasil, em são Paulo deve ter dez, nove, dez, comunidades slams.

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