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História

Nada na vida é por acaso

História de: Leonid Nosek
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 30/10/2017

Sinopse

Em sua entrevista ao Museu da Pessoa, Leonid Nosek conta a sua incrível história de vida. Nascido em Lodz na Polônia, nos conta sobre as perseguições da Alemanha nazista quando vivia no gueto, junto a outros judeus, até que conseguiu fugir a pé para a União Soviética. Conseguiu reencontrar seu pai e depois decidiu lutar na segunda guerra mundial, até que foi ferido em Leningrado, saindo somente no dia da libertação de Berlim em 2 junho de 1945. Leonid fala também sobre como veio parar no Brasil, onde começou como comerciante ambulante e se tornou dono da fábrica de móveis SpaçoArt. Em uma vida cheia de acasos, Leonid conta saudoso sobre todas as aventuras que viveu e o que aprendeu com o ser humano ao longo de sua história.

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História completa

P/1 – Primeiramente, seu Leonid, eu queria agradecer pelo tempo e pela disposição pra estar aqui com a gente fazendo essa conversa.

 

R – E eu estou contente de encontrar vocês. De você eu ainda não sei, você, já sei que você estuda História. E você leciona também História ou só estuda por enquanto?

 

P/1 – Eu estudo, ele leciona também.

 

R – Leciona História? Então que sorte porque tenho um pouco de história (risos).

 

P/1 – Mas vamos falar sobre o senhor, começando seu Leonid.

 

R – Pode eliminar o nome senhor e me chamar de você?

 

P/1 – Você.

 

R – Combinado?

 

P/1 – Combinado. Então pode me falar o seu nome completo, o local e a data de nascimento.

 

R – Leonid Nosek, que você anotou, 25 de novembro, 1923. Polônia, país. Cidade, Lodz.

 

P/1 – Seu Leonid, você conta pra gente um pouquinho qual o nome dos seus pais?

 

R – Meu pai, Benjamim. Mãe, Regina.

 

P/1 – Qual é a origem deles?

 

R – Polônia. Somos de nacionalidade judaica.

 

P/1 – E os seus avós também são da Polônia?

 

R – São também.

 

P/1 – Qual é o nome deles?

 

R – Ai, ai. Aí você me pegou. Israel e Rivka.

 

P/1 – E são todos de origem judaica?

 

R – Todos. E bem, bem religiosos. Meus avós eram muito religiosos. Meu pai foi criado também no sentido de ser bem religioso, de praticar. Meu avô até queria que ele se tornasse rabino! Mas ele na juventude entrou no movimento socialista, ele se tornou marxista. E dentro da minha infância e juventude ele me criou da maneira socialista dele, até ele era membro de um partido socialista e quando eu comecei, depois de dez anos, ele me levava, porque lá no partido tinha um grupo socialista juvenil. E eu comecei a frequentar. Tinha meninos e meninas, nós estávamos sendo educados no marxismo e estávamos tendo uma educação cultural também. Tínhamos um coro, danças, de vez em quando íamos fazer algumas excursões em uma ou outra exposição, um ou outro teatro, ou um outro cinema. Então eu me eduquei até os dezesseis anos, até que estourou a guerra quando nós estávamos vivendo na cidade de Cracóvia, e onde os alemães, no terceiro dia da invasão tomaram a cidade de Cracóvia. E nós ficamos um tempo no gueto. Eu continuo isto ou você quer entrar como outra pergunta.

 

P/1 – Vamos dar uma voltadinha ainda.

 

R – Vamos.

 

P/1 – Falando um pouco mais dos seus pais. E a sua mãe, seu Leonid?

 

R – A minha mãe judia, também educada, os pais dela também muito religiosos, ortodoxos, comos meus avós, os avós por parte da minha mãe também bem ortodoxos. E ela foi, mas como ela casou com meu pai, e meu pai na época era mais livre, mais socialista, ela deixou a parte fanática religiosa e participou com ele, acompanhando o idealismo socialista dele.

 

P/1 – Você sabe como eles se conheceram?

 

R – Exatamente, eu acho que dentro daqueles encontros juvenis, onde de vez em quando encontravam com os bailezinhos primitivos onde eles se encontraram, se conheceram, se apaixonaram e foi.

 

P/1 – E o senhor tem irmãos, seu Leonid?

 

R – Não. Eu tenho uma irmã que ficou quando eu fugi da Polônia, eu comecei a te contar, posso chegar mais a esse tema ou ainda estamos com os avós?

 

P/1 – Vamos ficar por enquanto na família. Você tem uma irmã, tinha uma irmã.

 

R – Eu tinha uma irmã que foi morta, como minha mãe também foi morta pelos alemães no campo de Treblinka, o segundo em tamanho depois de Auschwitz.

 

P/1 – Vamos voltar um pouquinho, a gente vai chegar aí. Vamos falar um pouquinho mais dessa situação familiar. Vocês moravam onde?

 

R – Em Cracóvia. Numa casa pequena, bastante primitiva. Meu pai, um artesão, ganhava pouco. A situação dos artesãos era bastante difícil e nossa vida material era bastante apertada.

 

P/1 – E como era dentro da casa de vocês?

 

R – Uma casa pequena, mobília pequena, a decoração pequena. Primitiva. Bastante, eu diria, não classe média, classe C.

 

P/1 – E em relação aos costumes? Você falou que tem essa questão da origem judaica, mas o seu pai...

 

R – Mas não religiosa. Como meu pai não praticava mais, não ia pras sinagogas, era contrário, era antirreligioso, e ele me educou desse jeito também. Apesar que meu avô no começo tinha me obrigado a frequentar aquelas pequenas escolas infantis religiosas onde eu tinha que aprender um pouco as rezas, a forma forçada do meu avô, mas que meu pai depois debochava e eu consegui parar aos poucos de frequentar aquele ensino religioso judaico.

 

P/1 – Como que era, você lembra como era?

 

R – Lembro algumas rezas que a gente não entendia nada, só repetia. Você vai na igreja repete simplesmente tudo aquilo que se tem que ser repetido e pouco se envolve no entender daquelas rezas todas. Eu não entendia nada, nem procurava entender, mas foi uma obrigação de seguir, foi bem obrigatório esse ensino e meus avós achavam que isto é obrigatório.

 

P/1 – E como era a relação familiar tanto seus pais entre eles como vocês?

 

R – Muito boa. Meu pai e minha mãe viviam muito bem e eu recebi a educação deles bem harmonizada, mais amorosa. Meu pai também. Eu acho que meu pai foi muito, dentro da teoria marxista, ele foi muito psicologicamente bem preparado para comigo. Ele me contava toda a vida dele, até íntima, e eu a minha vida toda, até íntima. Ele ouvia, participava e dava também as opiniões que me influenciavam muito. Eu até hoje tenho muito respeito pela aquela educação que o meu pai conseguiu me dar e pelo grande amor que eu sentia também da minha mãe até fugir da casa.

 

P/1 – O senhor tem alguma recordação da vida de vocês nessa casa?

 

R – Muitas recordações boas. Convívio bom, de vez em quando íamos para algumas festas, principalmente daquele do partido onde meu pai participava tinha muitos encontros, conferências, festas, isto eu me lembro muito bem de bom grado.

 

P/1 – E o senhor falou que o senhor nasceu em Lodz.

 

R – Nasci em Lodz, mas pequeninho nós mudamos pra Cracóvia. E eu até quando começou a guerra e até fugir da Polônia estivemos em Cracóvia. Meu pai também fugiu depois. Eu fugi antes, atravessei a fronteira, meu pai ainda ficou, depois ele também conseguiu fugir porque era um perigo, os judeus já começaram a ser muito perseguidos e ele também conseguiu e a gente se encontrou na Rússia com ele.

 

P/1 – Legal, a gente vai retomar essa história depois. Como que foi a infância em Cracóvia, como era a cidade?

 

R – A cidade culta, Cracóvia é uma cidade antiga, era a antiga capital da Polônia. Tinha palácios dos antigos aristocratas, até tinha palácio do rei antigo da Polônia. E uma população em Cracóvia muito culta, a língua polonesa era a mais bem falada, era a cidade mais culta da Polônia. E bastante festas cultas, bons teatros, uma vida cultural muito boa. A Polônia mantinha uma população, mantinha mais de seis anos uma população de 220 mil habitantes e não crescia, nem tinha mais ou menos os nascimentos com os falecimentos, regulavam (risos), mantinha-se 220 mil habitantes, falavam os historiadores, mais de cem anos. Então era bem, bem fechada a cidade, é um certo patriotismo para aquela cidade.

 

P/1 – E o senhor brincava na cidade?

 

R – Brincava, brincava muito no nosso clube com as crianças e no clube juvenil, onde eu comecei a frequentar. Mas sempre no sentido do marxismo, do socialismo. Tivemos educadores, tivemos professores sempre, além da cultura geral e cultura judaica, mais marxista.

 

P/1 – E como que era essa educação marxista, o que vocês aprendiam?

 

R – Que o mundo tem que ser igual, que não tem que ter aqueles ricaços que têm em São Paulo, que não tem que estar aquela corrupção desgraçada que tem por aqui, que tem que ter uma sociedade igualitária, justa. E que os partidos de esquerda devem chegar ao poder da Polônia. Nós estávamos quase, o nosso partido, do meu pai, estava quase ligado ao Partido Comunista Polonês. Só que houve uma divergência entre o partido nosso do Partido Comunista, porque o Partido Comunista achava que o proletariado tem que chegar ao poder com um partido comunista só e nós achávamos que tem que ter todos os partidos de esquerda, tem que chegar ao governo. Então nós nos unimos com o Partido Comunista.

 

P/1 – Qual era o nome do partido?

 

R – Partido Comunista Polonês. O nosso partido tinha o nome Bund, que traduzido para português seria Revolta.  

 

P/1 – E era de que linha?

 

R – Bund é em língua iídiche, língua judaica.

 

P/1 – Qual linha do marxismo?

 

R – A linha do marxismo que nós entendíamos era mais democrática, não de um partido só, não aquela rigidez do Partido Comunista que depois venceu a Revolução Russa.

 

P/1 – E como que era a escola que o senhor estudava?

 

R – Eu estudei, nós tínhamos a escola geral, comunal, da prefeitura, do Estado e tinha também escolas do nosso partido. Então eu estudava tanto no primário estadual, da prefeitura, e também estudava na escola do nosso partido.

 

P/2 – E era diferente um do outro?

 

R – Sim, bem diferente. A escola do partido era mais ensino da cultura judaica e do marxismo, enquanto que na geral era história da Polônia, patriotismo polonês, tudo aquilo que um país ensina em escolas públicas.

 

P/2 – Você gostava mais de qual?

 

R – Eu gostava mais da nossa pequena, mas frequentava também, me lembro muito das classes da escola normal. Tínhamos professores que a gente gostava e tinha os professores que nós aprontávamos muito contra eles.

 

P/2 – É? O que você fazia?

 

R – Tinha algum que era muito rígido, tinha uma régua, pegava alguém que aprontava e batia. E nós aprontávamos cada vez mais. Tinha um professor de coro, por exemplo, que se alguém falsificava no canto ele no grupo conseguia encontrar aquele que falsificava a voz. Então nós sempre achávamos um ou outro pra falsificar a voz e ele sempre errava pra apontar (risos), nunca conseguia. Mas tínhamos professores que nós gostávamos e que entre nós achávamos que contra eles a gente não pode aprontar.

 

P/1 – Você lembra de algum desses professores?

 

R – Lembro. A da História Geral era bom, um da Geografia também era bom. Mas aquele do Coro e da Aritmética nós aprontávamos muito pra eles.

 

P/1 – E nessa época você saía com seus amigos também?

 

R – Saíamos com os amigos. Nós nos encontrávamos, mas mais com os amigos do nosso clube.

 

P/1 – Que é o do partido.

 

R – O do partido, é, mais dentro daquele ensino marxista.

 

P/1 – E o que vocês faziam?

 

R – Brincando, jogando bola.

 

P/1 – Futebol?

 

R – É. E quando já com treze, catorze, quinze anos procuramos encontrar namoradinhos. Aos treze eu já tinha o primeiro namoro meu que fracassei tremendamente porque ela não gostava de mim, ela tinha um colega meu que ela estava apaixonada por ele. E eu sofria tremendamente, não dormia bem, não comia bem. Anota isso (risos).

 

P/1 – Mas depois o senhor conseguiu.

 

R – Não, não consegui.

 

P/1 – Não?

 

R – Depois eu tinha uma outra namorada, até que começou a guerra, quando eu fugi da Polônia eu me despedi com ela e nunca mais encontrei. Eu acho que ela ficou morta judia também, talvez foi morta por alemães, acredito, ou levada pros campos de concentração, nunca mais encontrei ela.

 

P/1 – E como que foi quando começou a guerra? Não quando chegou na Polônia, mas quando começou.

 

R – A guerra começou no terceiro dia da invasão alemã, eles chegaram a Cracóvia e já fizeram o regime do exército alemão, o comando alemão começou a dirigir a cidade. E começaram, antes de tudo, a perseguir judeus. Levaram pra praça pública e começavam a fazer torturas na frente de um, do outro, rindo todos, bêbados, do outro, isso eu já comecei a assistir porque em frente do público assistente eles faziam essas atrocidades. Isso foi logo nos primeiros dias. Eu fiquei oito meses no gueto de Cracóvia quando os judeus tiveram que morar, tinha o gueto separado pra judeus. Então eu fugi do gueto, nós estávamos morando há oito meses no gueto.

 

P/1 – Como foram esses oito meses no gueto?

 

R – Só aquelas ruas. É um bairro, aquele bairro era o gueto. Suponhamos, aqui é Alto de Pinheiros, né? É Alto de Pinheiros, ou Pinheiros.

 

P/2 – Vocês não podiam sair.

 

R – Não podia sair de lá. Tinha padarias lá, alimento vinha de fora do gueto, se não faltava, de vez em quando faltava. Já começavam a passar até, além da perseguição física, até dificuldades do alimento, já começamos a sentir fome.

 

P/1 – Os judeus tinham que ser diferenciados do resto da população?

 

R – Totalmente. Os judeus estavam totalmente, tinha marcado que era judeu. Eles faziam absoluta questão. E mesmo na Alemanha depois, nós soubemos, os judeus foram perseguidos, eles até anotavam se alguém na família tinha judeu também, era perseguido, até os ex-judeus. O cara até passou pra religião alemã, mas ele tinha algum parente judeu, alguma descendência, era excluído de participação coletiva.

 

P/1 – E os seus familiares ficaram todos com o senhor no gueto.

 

R – Meus avós, meus tios, toda a família ficava no gueto.

 

P/1 – Vocês ficavam todos juntos numa casa, como que era?

 

R – Não, em várias casas, não cabia, casas pequenas. Tipo oitenta, cinquenta metros quadrados.

 

P/1 – E onde o senhor morou ficava quem?

 

R – Eu, minha irmã, meu pai e minha mãe, ficávamos em quatro.

 

P/2 – O senhor tinha quantos anos quando eles entraram na cidade?

 

R – Eu tinha quinze. Com 16 eu já estava na Rússia. Eu fiquei oito meses no gueto. Eles entraram no dia três de setembro e no fim de oito meses já foi quase no começo do 40 eu fugi.

 

P/1 – Como que foi tudo?

 

R – Ah, eu fugi a pé até a fronteira de um rio que tinha a fronteira entre a Polônia ocupada pela União Soviética e a Polônia ocupava pelo alemão. Da parte alemã eu fugi a pé à noite, tinha mais dois colegas, nós fugimos juntos e numa noite atravessamos escondido o rio. Tinha alguns barqueiros que nos levavam durante a noite ilegalmente para a fronteira. E aí eu me encontrei na União Soviética. Algumas semanas logo depois meu pai conseguiu fazer a mesma coisa, fez o mesmo fugimento do que eu e a gente se encontrou na parte soviética. E de lá, nós, como houve um registro pra trabalhar dentro da União Soviética, meu pai e eu nos registramos e nós evacuamos como registrados para trabalhar na União Soviética. Nós caímos para uma cidade do sul da União Soviética, na região perto do Mar Negro, a região caucasiana e lá nós ficamos numa cidade que se chama Krasnodar. Fomos muito bem recebidos pela União Soviética, quando chegou o grupo de emigrados para Krasnodar, fomos recebidos com a orquestra da prefeitura, fomos muito bem recebidos! Um engenheiro da fábrica onde eu fui trabalhar até me convidou para morar na casa dele. E meu pai foi convidado também por um outro que trabalhava naquela fábrica pra morar na casa dele. E eu comecei a aprender a minha profissão posterior, de fazer modelos de madeira para fundição. Meu professor, olha a coincidência, era alemão fugitivo comunista da Alemanha, que ele aprontou na Alemanha, fez um atentado contra um nazista e fugiu! Conseguiu passar a fronteira e ficou em Moscou, dentro de vários fugitivos comunistas europeus, onde tinha lá espanhóis, franceses, alemães e ele ficou em Moscou por aquela organização internacional comunista que se chamava Comintern, pela história você já ouviu. Então é coincidência. Ele pelo comitê ficou sustentado em alguns hotéis em Moscou. E ele contou por que ele foi pra Krasnodar. Numa noite os refugiados que estavam vivendo naquele hotel estavam conseguindo ler o livro do Hitler, Mein Kampf, Minha Luta, que era proibido. E entrou a polícia secreta lá e fizeram um escândalo tremendo e todos eles foram mandados pra diversos lugares da União Soviética e o comunista foi mandado pra Krasnodar e ficou o meu professor para ele me ensinar a fazer modelos de madeira. E vou contar uma coisa mais adiantada: quando a Alemanha invadiu a União Soviética e quando ficou perto, no dia que a Alemanha invadiu a União Soviética a KGB sumiu com ele! Ele já era casado com uma russa, já tinha uma filha, mas ele sumiu, nunca mais me encontrei com ele! Porque a KGB, mesmo comunista com todo aquele histórico que ele tinha, acharam que ele era uma pessoa suspeita e sumiram com ele.

 

P/1 – Qual era o nome dele?

 

R – Harold. E por coincidência esse Harold, eu tinha quando eu veio pra Brasil, eu estava morando já, eu fiquei cinquenta anos em São Paulo antes de ir pra Bragança Paulista. Em São Paulo eu conheci um alemão nazista com o nome Harold também! Ele era ferido, ele lutava com o exército na África do Norte, no Tobruk, ele ficou ferido no Tobruk. Ele tinha medalhas e era nazista! Ele me mostrava e nós ficamos amigos. Eu naquela época já tinha feito a indústria de móveis e tinha uma loja também em São Paulo. Ele tinha uma mulher alemã que tinha artesanato de tapetes. E ele vendia esses tapetes pra mim e se tornou muito amigo meu. Ele tinha uma casa em Monte Verde dele e ele me levava, ele tinha um aviãozinho, esse Harold, e ele me levava com o teco teco dele pra Monte Verde! (risos) E eu sempre dizia: “Filho da puta, se você se encontrasse comigo no front, ainda bem que você lutava na África e eu lutava no Leningrado (risos), se a gente se encontrasse lá no front ou você ia me matar ou eu ia te matar e aqui nós estamos, por desgraça, estamos amigos.” E fomos! Ele se queixava comigo muito porque os filhos, ele educava numa rigidez alemã e eles, educados aqui no Brasil, estavam revoltados, sempre brigando com ele. E ele se queixava comigo: “Leonid, o que eu faço com meus filhos que eles não me obedecem”. E eu tinha que dizer: “Aqui você está no Brasil, você não pode dar a tua rígida educação alemã com eles, eles estão criados em outro clima aqui, você vai ter constante conflitos”. Eu era sócio da Hebraica, então um dia eu pensei, tinha uma conferência de um psicólogo, eu falei: “Harold, eu vou te levar pra essa conferência, ele vai falar sobre educação”. E ele foi comigo. E depois na saída ele me disse: “Esse cara não entendeu nada, eu vou continuar educando do meu jeito” (risos). E foi isto. Bom, ele faleceu aqui, eu soube depois, mas eu tinha boa amizade com ele, boa mesmo. Ele gostava muito de mim e eu gostei dele. Os filhos estavam sempre na minha casa se queixando do pai!

 

P/1 – Bom, vamos voltar um pouquinho.

 

R – É, vamos voltar. Eu fui muito adiantado, né? Me adiantei.

 

P/1 – Não, mas foi ótimo. Vamos voltar um pouquinho, seu Leonid. Você falou de quando o senhor fugiu. Esse rio que era divisa com a Polônia, ele era próximo de Cracóvia?

 

R – Não. Era dois dias de andar a pé, dois dias e duas noites de andar a pé. Em termos, Polônia é pequena, não é um país de grandes distâncias, mas eu acho que devia ter no mínimo uns 200, 210 quilômetros a pé até chegar à fronteira.

 

P/2 – Quem que teve a ideia inicial de fugir?

 

R – Criou-se a ideia de fugir, o perigo criou a ideia. O próprio futuro fez nascer essa ideia de como a gente se manda daqui, porque o futuro era temido, era medo de ser morto, eles matavam muitos, no gueto morreram muitos. Tinha uma fila pra comprar pão, se alguém estava brigando na fila, o alemão que corrigia no gueto essa fila, chegava e dava um tiro, simplesmente. Então houve uma necessidade de procurar a fuga.

 

P/1 – E vocês tiveram que sair escondidos da cidade, como que foi?

 

R – Não, estávamos no gueto mesmo, nós saímos do gueto.

 

P/2 – Mas como é que vocês saíram?

 

R – Ah, escondido, à noite. Escondido porque se alemão tivesse me pego na saída iria atirar. Atirava fácil. Plena liberdade de um soldado alemão fazer qualquer coisa que ele quer. Vocês não podem imaginar, tudo o que se fala a gente às vezes pensa que exageram.

 

P/2 – Como é que era isso pra você? Como você se sentia?

 

R – Com medo. Revoltado, mas sempre procurando se salvar. O instinto de sobreviver.

 

P/1 – E o senhor falou com a sua família que você ia...

 

R – Com o meu pai. O meu pai estava de acordo. Eu falei que eu ia fugir, ele sabia e concordou. Tanto que depois ele fez a mesma coisa.

 

P/2 – Vocês esperaram... que mês o senhor fugiu, o senhor se lembra?

 

R – Foi quase no outono, outubro, novembro, por aí, já começou o frio. Eu cheguei na parte russa com bastante frio já.

 

P/1 – E como foi reencontrar seu pai?

 

R – Ele sabia onde estavam os refugiados. Foi fácil de se encontrar. Nós nos encontramos no mesmo dia quando ele fugiu. Quando ele atravessou aquela parte da fronteira até aquela cidade onde nós estávamos hospedados.

 

P/2 – E a sua mãe e a sua irmã ficaram lá.

 

R – Minha irmã ficou lá com a minha mãe. Ela ficou no gueto. Nós recebíamos... bom, eu vou adiantar um pouquinho. Nós já no Cáucaso, como a Alemanha tinha – isso na história vocês devem conhecer – houve um pacto de Hitler, Molotov, houve um pacto Stalin e Hitler e fizeram uma certa amizade. E houve até correspondência. Eu recebia cartas da mamãe e eu mandava cartas pra ela, meu pai também. E nós sabíamos, ela estava ainda em Cracóvia. E nós sabíamos, ela em iídiche escrevia pra nós e se queixava, mas muitas coisas nas cartas que nós recebíamos lá no Cáucaso eram riscadas porque a censura censurava toda a correspondência e eles pegavam coisas, riscavam e tinha anotação pra parar de escrever coisa que não deve porque eles vão interromper a correspondência. Então ela sabia e nós falávamos algumas coisas em código que o censurador não entendia (risos). E nós recebíamos, até essa amizade não se sabia que a Alemanha vai ser atacada, apesar que talvez a direção soviética suspeitava e Hitler suspeitava que vai atacar, mas por enquanto funcionava aquele pacto, União Soviética – Alemanha. E consulado alemão, houve até uma possibilidade de meu pai e eu trazermos a minha mãe e a irmã pra cá, íamos escrever pra consulado alemão em Moscou, que talvez ia ter essa possibilidade. Mas depois houve o ataque, acabou tudo.

 

P/1 – E quanto tempo você e o seu pai ficaram no Cáucaso?

 

R – Porque Alemanha começou a invadir e eles chegaram, entraram muito fácil. A ofensiva dele foi quase, o exército soviético era indefeso, eles achavam, com tanta marcha, em duas, três semanas eles já tiveram toda a parte sul perto do Mar Negro e chegaram perto, eles queriam ir ao Cáucaso porque no sul do Cáucaso tinha a maior cidade petrolífera, Baku, isso você conhece. Eles iam pra lá. E quando eles começaram a chegar perto, nossa fábrica evacuou e nós fomos, com vários equipamentos da fábrica, perto do Mar Cáspio. Lá no Mar Cáspio, com navio, nós nos transferimos para a Ásia Central, conseguimos fugir, mas o Krasnodar foi ocupado pelos alemães, eles quase chegaram perto de Baku. E nós viajamos com a fábrica até uma república soviética que se chama Tajiquistão, isso você vai encontrar no mapa, perto da fronteira com o Afeganistão, perto dos Himalaias. E nós ficamos nessa fábrica. Lá meu pai continuou trabalhando, ele fazia coisas da profissão dele e eu continuei a fazer modelos de madeira para fundição. E nós começamos a receber cada vez mais, não tinha mais correspondência com a mãe, começamos a receber mais notícias, não sei, clandestinos pela rádio, pelos ouvidos de Londres, não sei, de outros países da Europa que existem campos de concentração, que eles estão levando a boa parte, já se falava daquela parte da cidade de Auschwitz, em polonês Auschwitz se chamava Oświęcim. E eu comecei a ficar com pensamento da mãe e da irmã e meu pai também, ficamos cada vez mais envolvidos com aquelas notícias tristes. Eu resolvi sair pro Exército, me alistei. Meu pai era contra: “Você está bem”. Esta indústria fornecia para armamentos, pra Exército, então nós tínhamos certeza de não ser mobilizados porque éramos útil, tínhamos uma certa reserva de não sermos mobilizados. E pai me dizia: “Fica aqui, você vai ficar até o fim da guerra aqui, por que você vai se matar, pra quê? Você é o meu filho, único filho que eu tenho.” Eu não consegui, não obedeci meu pai e fui me alistar. A secretária do partido da fábrica quando soube também não me aconselhou, mas eu fui me registrar e fui registrado. Ela ligou para o ponto de registro para eu voltar e me perguntaram lá no ponto se eu quero voltar. Eu recusei (risos) e depois me arrependi tremendamente. Aí começou o treinamento e nós fomos de lá com o nosso grupo do Exército, atravessando lá de toda a Ásia Central a caminho pra defesa do Leningrado, onde eu me encontrei na defesa de Leningrado, isso já comecei a te contar lá. Nós ficamos cercados oito meses com uma tremenda de uma fome porque estava bem cercado, rompendo esse cerco isso já foi em 44, os alemães já estavam regredindo, nós já sabíamos que começou o fim deles e nós começamos a perseguir pelos países bálticos. Começamos indo pela Estônia, Letônia e eu fiquei ferido perto da capital, Tallinn. Eu fiquei ferido depois de uma batalha por acaso, porque se eu tivesse ferido. Eu comecei na Artilharia, mas quando começou a faltar pessoal na Infantaria fomos mandados da Artilharia pra Infantaria, em cima dos tanques avançávamos contra os alemães. E eu fiquei ferido numa batalha, depois de terminar a batalha, estourou um petardo lá por acaso e eu peguei aquele ferimento que eu contei, o braço, o pulmão, a cabeça e mais um pedaço aqui. E aí, ferido, no primeiro hospital perto da fronteira eu comecei o meu tratamento. Esse primeiro hospital foi bombardeado pelos alemães. Era uma escola transformada no hospital e tinha a Cruz Vermelha em cima. E foi bombardeado. Eu estava muito mal, estava deitado, não consegui nem sentar, eram os primeiros dias do ferimento, eu não consegui nem levantar. E começaram a estourar bombas em cima do nosso prédio! Começaram a cair janelas, portas e os enfermeiros,  médicos, os que conseguiam andar, todo mundo se arrancou fora e eu, junto com aqueles iguais a eu, ficamos olhando: “Aqui é o meu fim, aqui acabou comigo não vai dar”. E não aconteceu nada, parou o bombardeio e eu fui transferido para um bom e grande hospital de Leningrado onde eu passei três meses com vários tipos de tratamento, onde eu fiquei com, o braço estava sem movimento, a ferida do braço, eu mostrei pra você esse ferimento, é duplo, então o braço era totalmente morto o nervo. E não resolveram operar, tentando tratar. E não deu em nada. E no pulmão era cheio de pus do estilhaço que ficou lá, começaram a fazer punções de pus, enfiaram uma agulha bem grossa lá (risos), a primeira ficou com mais de um litro de pus e todo dia faziam punções. E começaram a pensar na operação e meu médico resolveu operar. Eu fui anestesiado, fui pra mesa de operar. Anestesiado aqui. E anestesiado chegou o operador e disse: “Leonid, volta pra quarto, nós ainda vamos aguardar mais um pouquinho”. E nós estamos aguardando até hoje, eu acho que ele já morreu há tempos lá e eu fiquei com o braço bom e ficou com o estilhaço no pulmão, que não tiraram, e tá bom. E eu saí inválido e totalmente curado, totalmente curado. Me adiantei um pouquinho, né?

 

P/1 – Da cabeça também?

 

R – Ainda estou me lembrando bem das coisas. E o estilhaço continua lá. Eu saí do hospital foi no dia 2 de junho de 1945. Houve uma festa, minha empregada está preparando um bolo para amanhã. Eu saí do hospital no dia 2 de junho de 45 com atestado de 74% de invalidez. E peguei meu pai, consegui ter correspondência com o meu pai, meu pai foi mobilizado para exército de grupos de trabalho e também ficou livre. Ele soube da morte da mamãe, ele encontrou uma judia russa, casou com ela, aquela também sofreu quando os alemães invadiram a Ucrânia, ela perdeu o marido e três filhos. Eles se encontraram, se uniram. E eu peguei lá da Sibéria onde saí do hospital, peguei a Transiberiana perto de Moscou pra encontrar meu pai. Me adiantei de novo!

 

P/1 – Antes, só aproveitando, você tinha contado que no dia que o senhor saiu do hospital foi o dia da libertação de Berlim.

 

R – Foi! Nós recebemos toda a rádio, todos em festa, cantando, dançando e bebendo vodka até se embriagar. Eles entraram no Berlim no dia 2 de junho e nós recebemos, tudo estava. E vou te contar, já que estou me adiantando, no dia oito de maio foi o dia do rendimento da Alemanha, 45, né? Eu estava perto da chegada do meu pai. Nós viajamos da Transiberiana três semanas porque todo o trânsito estava ocupado mas com cargas e o trem de passageiros era muito parado sempre quando tinha vaga porque davam prioridade mais para grupos de transporte. No dia 8 de maio nós estávamos parados numa cidade e houve uma festa da vitória, houve uma total perdição, todo mundo na cidade dançando, cantando, se abraçando, se beijando, bêbados, dançando. Foi um dia 8 de maio inesquecível, inesquecível! Toda cidade louca, doida, totalmente adoidada.

 

P/1 – Qual cidade que era?

 

R – Nem me lembro o nome dela, era no caminho. A gente parava cada dia em uma cidade. Eu só vou contar mais uma que você se adiantou. No vagão que nós estamos viajando, tinha três prateleiras na nossa pequena divisão, seis prateleiras, três de um lado, três de outro. E tinha mulheres e homens viajando e eu era o único soldado lá. E três semanas cantando, dançando. Tinha lá uma senhora que cantava muito bem, ela dirigia todo o nosso divertimento, alegria e ensinava. E mais uma coisa que eu guardei, é pena que eu devia ter trazido, ela tinha um livrinho onde ela escrevia todas as canções conhecidas do folclore russo e ela me deu esse livrinho de presente! E eu trouxe esse livrinho, ele está comigo. Ela que escreveu. Ela gostou tanto, que ela sabia que eu sou do Exército, que eu fiquei ferido, então quando essa compaixão de um ferido da participantes ela me deu de presente esse livro. E eu tenho ele comigo, tenho ele. É pena, um dia eu vou convidar vocês a me visitar e vou mostrar em casa esse livrinho.

 

P/2 – Você se lembra de alguma canção dessa época?

 

R – Tenho muitas. Eu gosto muito, o folclore russo é riquíssimo, tem cada canção! Bom, vocês devem conhecer uma que é mais conhecida, “Os Barqueiros de Volga”. Vocês nunca ouviram falar? É o maior barítono russo que cantava muito e era famoso, o maior barítono russo que cantava depois na ópera de Paris, Feodor Chaliapin. Era muito gravada a canção “Barqueiros de Volga” cantada pelo Chaliapin.

 

P/1 – E o senhor sabe cantar?

 

R – Sei! Essa todo mundo conhece, não existe um russo que não conhece “Barqueiros de Volga”.

 

P/1 – Você quer cantar um pouquinho?

 

R – Era que nem nos Estados Unidos aquela canção da Amazônia, o The New River. É mais famosa nos Estados Unidos, né? Também é cantada pelo maior barítono russo, um negro.

 

P/1 – E você sabe cantar essa música?

 

R – Sei trechos dela porque é muito conhecida.

 

P/1 – Canta um pouquinho pra gente.

 

R – Mas o canto russo no Exército e mesmo na vida cotidiana e em todas as festas, o canto popular russo é muito, muito mais do que os atuais rocks, aquelas porcarias que não é música nenhuma, não é canto nenhum, é lixo puro o rock. Eu sou total inimigo do rock. Eu não sei por que só tem bagunça, sons tão altos para ensurdecer, pra machucar os nossos ouvidos. Mas o canto folclórico que nós temos aqui no Brasil é maravilhoso. Só que rock manda! Rock domina! Lindo canto, o que temos de folclore brasileiro, maravilhoso, maravilhoso. E no russo também tem rock. Hoje a Rússia, quando faleceu o regime soviético a Rússia se capitalizou, é um regime capitalista, estão copiando tudo o que acontece do capitalismo norte-americano e rock n’roll é muito usado pelo povo russo, também penetrou pela juventude esse rock n’roll. Vamos voltar.

 

P/1 – Então vamos voltar um pouquinho só.

 

R – Eu estou me adiantando.

 

P/1 – Imagina. Vamos retomar então. Como era o treinamento no Exército?

 

R – Vou aprender antes de tudo manejar arma, metralhadora, a manual, usar granadas, usar balas, treino de acerto da bala. E se comportar. Nós fomos ensinados pra não se entregar, é preferível, tivemos quatro granadas ou cinco de reserva pra explorar quando chegaram perto, para jogar granadas. Mas deixar a última pra não entrar, ser preso, manter a última pra nós, mas ninguém conseguiu obeceder isto, ninguém segurava essa última granada pra nós. E também posso te dizer que quando chegávamos a um lugar que eles guardavam, eles escolhiam perto lá da Letônia, na recua, eles escolhiam perto o lugar sabendo que nós vamos avançar e nós chegando perto eles estavam muito bem localizados e estavam atirando. Então o nosso comando sempre tinha uma tarefa de alguém chegar durante a noite se rastejando no chão cheio de granadas, chegar perto e explodir aquele ponto deles pra nós podermos passar. E quando o chefe do nosso grupo perguntou, nós estávamos em doze, treze, catorze: “Quem é que quer ir?” (risos). Ninguém levantava a mão. Então ele escolhia: “Você que vai”.

 

P/1 – E tinha algum canto de guerra que vocês aprendiam no treinamento? Você falou que o cancioneiro era muito importante.

 

R – Ah, nós cantávamos em marchas e também conhecidas canções que nós conhecíamos do folclore russo. Sempre marchando cantando canções que iam ser bem preparadas para o ritmo de marcha.

 

P/1 – O que vocês cantavam?

 

R – Várias conhecidas, não vou cantar pra vocês, várias conhecidas.

 

P/1 – Canta uma pra gente, seu Leonid.

 

R – Bom, quando vocês me visitam eu vou tirar uma de lá e vou cantar pra vocês (risos). Mas nós assistimos muitos filmes russos. Tinha vários filmes de propaganda heróica do Exército e nós fomos obrigados a assistir. Tem filmes soviéticos que eu assisti uma infinidade de vez no Exército. E conheço bem o cinema, tinha muitos bons, o cinema russo é muito bom. Tem a tradição do cinema russo. Eu assisti, antes do Exército, filmes muito bons e bons atores, todos eles teatrais. O teatro russo, muito bom, com alto nível. A arte dramática russa, o teatro russo de alto nível. O maior teórico teatral, você conhece bem um pouco o teatro? Tinha um método de arte dramática russa de um famoso teórico russo, ator também, eu vou lembrar daqui a pouco o nome dele. Esse método, nos Estados Unidos também foi montado, se chama Actors Studio. Stanislavski, Sergei Stanislavski [Sergeievich Stanislavski]. Esse método todo teatro russo, todo ator russo tinha que, eu tenho, deixei em Bragança o livro do Stanislavski, o método de ensaio do ator é o livro dele. O livro era uma bíblia para o ator russo que tinha. E vários atores de Hollywood, Marlon Brando tinha passado pelo curso do Actor Studio. O método do Stani, quem fez esse Actors Studio foi um russo emigrado, ele já é falecido e esse Actors Studio existe ainda, aquele método ainda está sendo ensinado. Marilyn Monroe que não era atriz nenhuma, era só beleza pura, era fantasia mesmo, que eu não aprecio ela como atriz, mas ela também foi jogada lá para estudar o método Stanislavski, mas duvido que ela aprendeu alguma coisa (risos). Era só a parte da beleza física dela.

 

P/2 – Quando você saiu do treinamento você foi destacado diretamente pra Leningrado, foi isso?

 

R – Nosso grupo foi unido para um grupo grande de um comando lá de Leningrado, de uma divisão que estava lá, nós fomos encaixados nessa divisão da defesa de Leningrado.

 

P/1 – E qual foi a sua primeira impressão, chegando em Leningrado?

 

R – Bom, a primeira impressão foi de pânico, de saber que estamos cercados e que tem fome, que não tem nenhum abastecimento.

 

P/1 – E como que estava a cidade?

 

R – Calma. Ela não foi invadida, não foi destruída, eles não conseguiram entrar.

 

P/2 – Como era a situação?

 

R – Quando eu fiquei ferido tinha uma lei no hospital que cada ferido tinha que ter uma enfermeira acompanhante. Não enfermeira do hospital, mas do público. Eu tinha uma acompanhante, além das minhas enfermeiras, era estudante de Medicina. E como ela estava vindo pra me acompanhar ela recebia alimentos do hospital, não passava fome. Mas no tempo que ela ficava comigo, me cuidando, morreu muita gente conhecida dela, muitos parentes morreram de fome. Sumiram os cachorros, gatos de fome, foram comidos de tanta fome que tinha. E ela ficou comigo até a minha evacuação pra Sibéria. A gente pegou muita amizade, eu mantive depois correspondência com ela, mantinha-se cartas, depois a gente se perdeu. Ela voltou como estudante de Medicina, vai ver que mais tarde ela se formou, eu perdi contato com ela. Mas conto mais uma coisa que me aconteceu, eu, com muitas dores, eu recebia sempre morfina pra dormir. Eu não conseguia dormir sem a morfina. Então toda noite a enfermeira e ela me aplicavam uma injeção para eu dormir. E eu dormia sem dor. Eu fiquei três meses lá. Depois, no segundo mês, o médico um dia de manhã disse: “Você já está melhor das dores, nós vamos parar com a morfina, essa noite você não vai receber”. Chegou a noite, eu acostumado com a morfina, ela disse que não pode, a outra enfermeira não pode. Eu arrumei um escândalo, xinguei a minha acompanhante, cheguei a enfermeira, joguei almofadas no chão e eles contaram isso pro médico. No dia seguinte o médico chegou e disse: “É, você arrumou um escândalo. Já que você arrumou um escândalo nós vamos continuar com morfina”. Três semanas depois de toda noite, eu dormindo sossegado recebendo toda a morfina. Três semanas depois, de manhã ele chega pra visita madrugal, ele disse assim: “Nós hoje vamos parar definitivamente com a morfina. Você sabe por quê?”, eu falei: “Não”. Ele disse que: “Dessas três semanas, duas semanas você só recebe água pura, primeira semana nós estávamos dando 90% de morfina, 10% de água destilada. No segundo dia, 70% de morfina, 30% de água destilada. Uma semana você recebe água pura e você não vai mais fazer escândalo nenhum.” E foi realmente, eu adormeci (risos). O método que eles encontraram bom eles aplicaram, era bem conhecido o método, mas eu não sabia.

 

P/1 – E quais eram as suas funções como soldado no cerco de Leningrado?

 

R – Bom, eu fiquei três meses hospitalizado, depois eu fiquei na unidade voltada. E nós ficamos na marcha para o Sul porque os alemães, já estava interrompido o cerco e eu estava junto com nossa divisão e marchando para os países bálticos seguindo a recua dos alemães.

 

P/1 – Então dos oito meses que o senhor ficou em Leningrado, três o senhor passou hospitalizado.

 

R – Três meses eu fiquei no hospital e até o rompimento fiquei na divisão normal.

 

P/1 – E como o senhor se feriu?

 

R – Perto da capital da Letônia numa batalha. Isto foi depois do rompimento do cerco, nós marchamos já fora do hospital, mas ainda meio ferido estávamos indo pra lá, mas estava do jeito mesmo que estava. Aí eu fiquei mais uma vez apanhado naquele cerco. E aí voltei e aí, bom, depois transferido para Ásia Central para um tratamento mais longo.

 

P/1 – O senhor tinha falado que começou na Artilharia.

 

R – Comecei na Artilharia, depois. Ah, começou ainda pior, quando nós chegamos da Ásia Central nós fomos mandados para um grupo que tirava minas. Os alemães estavam minando os lugares onde nós íamos avançar. Então eu fiquei naquele grupo que ia detectar as minas, elas estavam enterradas, tínhamos aparelhos para detectar e quando nós chegamos àquele grupo não tinha mais soldados. Nosso comandante, quando eu perguntava: “Onde é que tem alguém dos nossos soldados aqui, só o nosso grupo novo que tem”. Ele falava: “O soldado que está aqui só tem duas opções: ou é hospital ou ele é morto. Ou está descobrindo a mina que explode ou está ferido na explosão e vai para o hospital”. Então aquilo que nos esperou no início, eu pensei: “Que tristeza, que tristeza que eu peguei”. Imagine só que perigo que tinha! E tinha pouca gente lá porque sempre tinha renovação, sempre tinha renovação porque era muito perigoso. Mas depois fui transferido para a Artilharia. E depois quando começou a ficar falta no grupo de Infantaria, fomos pra Infantaria. E lá na Infantaria que houve esse ferimento.

 

P/1 – E como era na infantaria?

 

R – Ah, granadas, metralhadoras. Tinha uns vinte quilos de carga sempre pra carregar e nós estamos em ataques em cima dos tanques.

 

P/1 – E era pra ofensiva mesmo.

 

R – Ofensiva sim. Eles recuavam, nós tínhamos só quando eles se fortificavam só pra nos receber em alguns lugares escondidos por aí eles na defesa.

 

P/2 – O senhor ficou cara a cara com um alemão, situação de morte e vida?

 

R – Repete.

 

P/1 – Você teve algum confronto direto com um soldado?

 

R – Às vezes quando estamos parados, tinha arame farpado ainda, nossos autofalantes falavam, nós tínhamos presos alemães que em alto falantes falaram pras tropas que estavam em frente em alemão dizendo: “Vê se se entregam porque vocês estão perdidos mesmo. Não adianta a defesa”. E eles fizeram a mesma coisa conosco, eles tiveram presos os russos e em alto falantes, eles em russo, falaram pra nós: “Não adianta, nós temos uma arma”. E olha, eles falaram verdade. Eles falaram: “Nós vamos ganhar a guerra, nós estamos perto de ter uma arma que vai destruir o mundo.” Eles de fato, que nós soubemos e você soube isso pela História, faltou alguns dias ou semanas para eles soltarem a bomba atômica. Eles estavam já na fase final da água da bomba atômica, faltou pouco. E se eles tivessem realmente conseguido iam soltar. Então essa mentira deles era parcial, verdade.  “Não adianta, se entrega, nós vamos ganhar a guerra, não adianta vocês brigarem que nós vamos conseguir o mundo”. Porque Hitler disse, nós vamos ganhar o mundo.

 

P/1 – Teve algum ponto que você teve que manter na cidade, algum lugar que você precisou guardar do avanço alemão?

 

R – Como?

 

P/1 – Que você precisou ficar fortificado para interromper o avanço alemão na cidade?

 

R – Na cidade de Leningrado?

 

P/1 – Isso.

 

R – Não. Eles não conseguiram entrar. Eles estavam cercados, mas não entraram, não conseguiram penetrar. Naquele tempo que eu te contei que nós estamos com arame farpado, nós dávamos vodka pra eles, eles traziam cosméticos pra nós. Fazíamos até intercâmbio conversando.

 

P/1 – É mesmo, vocês conversavam?

 

R – Até chegamos a conversar. Porque estava arame farpado e não tinha briga. Então nessa noite nós estávamos fazendo intercâmbio com eles (risos).

 

P/1 – Mas os tanques estavam todos estacionados dos dois lados.

 

R – Estavam atrás, é.

 

P/1 – Tanto do lado de vocês com no deles.

 

R – É, mas era perto, um quilômetro, até menos.

 

P/1 – E era uma atmosfera tensa?

 

R – Claro. Morreu, não morreu, é a mesma coisa. Você estava com aquele tá vivo ou não.

 

P/1 – E você falou bastante dessa fome. Como era pra população civil da cidade?

 

R – Do Leningrado? Muita fome. Muitos mortos. Mas não houve invasão e não houve a entrega, eles se manteram mesmo com a fome, eu diria, bastante calmos.

 

P/1 – A população civil também.

 

R – A população civil. O Exército.

 

P/2 – Vocês achavam que vocês iam ganhar dos alemães mesmo ou achavam que ia ser mais difícil, como é que estava?

 

R – Nós estávamos sempre, a propaganda muito rígida, muito forte, sempre se elogiava Stalin nosso herói, gênio da humanidade, que ele vai conseguir, que nós vamos ganhar. Mas no começo quando estava trágico, quando eles marchavam em frente nós estávamos vendo, até com medo, eles estavam perto de Moscou, não chegaram a entrar. E também o pior de tudo foi que chegou o inverno e eles não conseguiram, o inverno russo é muito forte. Lá na parte perto de Moscou 35, 40 abaixo de zero. Na cidade siberiana onde eu fui no final, quando eu saí em junho, nós estamos no inverno ainda forte lá. Uma vez eu já estava bem mais curado, uma noite nós fomos num teatro musical já vestidos de toda roupa de pele, lá embaixo era inacreditável, 72 abaixo do zero. Era o pólo mais frio do mundo.

 

P/1 – E ainda em Leningrado quem que eram seus companheiros?

 

R – Do hospital?

 

P/1 – Soldados.

 

R – Muita amizade. O povo russo é muito amigo. Um soldado que está comigo, ele tem o último pedaço de pão, quebra em dois e te dá a metade. O povo russo é muito bom. Não existe aquele egoísmo puro, existe um bom instinto de fraternidade, de lealdade, é muito forte isto. Meu comandante, o capitão, quando estourou uma bomba, ele tinha a cabeça raspada porque tinha um modo do comando russo andar raspando a cabeça. Estourou um estilhaço na cabeça, ele morreu nos meus joelhos com tudo aberto aqui. Ele ficou comigo. Tinha épocas, quando estávamos no campo reto totalmente aberto e nós estávamos descobertos, não tinha pra se esconder, nós estávamos em cima do campo aberto. Então com os aviões eles estavam soltando bombas pequenas. E eles explodiam perto de nós e não tinha como esconder. O único instinto que tinha pra se proteger, sabe qual era? Fazer um pequeno buraquinho pra poder colocar a cabeça, porque pelo menos se pega uma perna, pega um braço, pega mesmo no tórax ainda está vivo, mas se pegar a cabeça. Então pelo menos esconder a cabeça. Único instinto de sobrevivência que funcionou, pelo menos esconde a cabeça.

 

P/1 – Você falou desse comandante, ele era muito amigo?

 

R – Sim, são muito colegas, muito camaradas. Não existe. Um general chega perto, fala com você, não existe aquela distância, não tem nada disso. Ele também é humilde, o comandante mais alto.

 

P/2 – Você chegou a matar alguém nessa guerra?

 

R – Quase, quase. Bom, você me faz adiantar, vou adiantar. Como a língua iídiche é parecida com a língua alemã, então eu conheço um pouco, através do iídiche, um pouco de alemão. E na nossa unidade pegamos três prisioneiros. Eles todos já calça rasgada, sapato rasgado, já todos assim em pânico. E eu tinha que traduzir o depoimento deles pro meu chefe e depois ele resolveu transferir eles para o nosso pequeno estado maior que estava bem pertinho, dentro de uma floresta. E eu fui comandado por ele pra levar eles lá naquele comando, eu com a metralhadora e não tinha nem cabos ligando com o grupo da nossa unidade. E a gente se perdeu lá, no Exército. E eles achando que eu vou fuzilar, porque com metralhadora, começaram a chorar pra mim: “Nós temos família, não sou Hitler, não sou nazista, temos filhos, não nos mate”. Eu comecei a perder caminho, não tinha como achar logo o nosso comando maior. Eu pensei: “Eu posso matar porque se eu me perder perto tinha os alemães eu poderia entrar até na posição deles e aí iam me matar na hora”. E pensei: “Mato ou não mato, mato ou não mato”, andando ainda, procurando. E eles chorando, chorando, achando que eu vou matar e eu não fiz nada, consegui encontrar o caminho, levei eles lá e prolonguei a tradução deles e eles ficaram lá. Mas você me perguntou se eu matei, não matei. Não deu pra matar, mas faltou pouco. Ia entrar no grupo deles, ia entrar na posição deles e estou perdido aqui com a metralhadora ia fazer o quê? (risos).

 

P/1 – E qual foi o pior momento que você passou nessa batalha, nesse cerco de Leningrado?

 

R – Em Leningrado no começo não, mas na marcha tinha momentos de perigo, em cima do tanque ele brrrr, tinha o perigo de você ser fuzilado, tinha perigo de ficar em cima do tanque mesmo. Tinha perigo. Eu tinha medo, claro, mais o instinto de querer sobreviver, instinto de como escapar.

 

P/1 – Esses foram os piores momentos então.

 

R – Sim, os piores.

 

P/1 – E você tem alguma outra lembrança mais vívida, que é a grande lembrança?

 

R – Olha, se você acha de um perigo, eu me lembrei uma coisa. Quando eu fugi de Cracóvia a pé, antes de chegar à fronteira, tinha uma pequena cidadezinha, quase aldeia, bem pequena, onde a gente tinha que dormir. E não tinha, os alemães estavam sabendo que tinha gente fugindo, eles estavam proibindo aos aldeões de acomodar qualquer um, não pode. E não tinha onde ir dormir. Imagina onde eu fui dormir? No Gestapo, lá onde estavam enquartelados. Lá mesmo. E eles à noite com aquelas lanterninhas estão procurando judeus e eu não tinha aparência muito judaica, eu não tinha, minha fisionomia dava pra despistar de polonês. E eles andando com a lanterninha assim, procurando, se não tem um judeu lá no meio e eu no meio. Isto você perguntou se eu estava com medo de morrer? Claro! Claro! Faltou o quê? O quê que faltou? Imagine onde fui dormir não tinha, nenhum aldeão ia me deixar dormir. E eu tinha que passar a noite lá. Então não tinha onde ir, a não ser na Gestapo. É.

 

P/1 – E como que foi o dia que vocês conseguiram romper esse cerco?

 

R – Do Leningrado? Bom, tinha bastante divisórias de vários lados, em toda a volta onde eles estavam já tinha divisórias preparadas e um comando de um ataque único. Foi uma ofensiva bem preparada, única, e eles regrediram.

 

P/1 – Os soldados estavam eufóricos, como que era o clima?

 

R – Urra! Todo mundo gritando, claro. Todo mundo vendo eles irem pra trás. E também nós fomos muito alimentados pela vodka. Cada soldado recebia diariamente 200 gramas de vodka de 45 percentual. E nós recebendo pelos mortos e feridos andávamos sempre bêbados. Eu não me lembro nenhum dia nas marchas que não estivesse bêbado. Às vezes não tomava tudo, mas tinha vodka à vontade. E essa vodka ajudava a gente a ficar sem medo, amenizava aquela parte de medo. Então vodka foi um grande calmante pra nós. E eu tomava muita vodka, mesmo depois voltando pra Polônia, não tem, na Rússia, é tão grande o uso de vodka, não existe nenhuma festa, nenhum aniversário, nenhuma comemoração sem tomar bastante, sem chegar de vez em quando até cair da mesa. Muito comum, é muito aceito. O Gorbachev tentou proibir, quando ele se tornou secretário do Partido, tentou proibir a produção de vodka. Fracassou totalmente. Nos Estados Unidos não houve a Lei Seca? Conseguiram alguma coisa?

 

P/1 – Só fechando essa parte da guerra em si. Houve o rompimento do cerco, etc, vocês foram pelos países bálticos.

 

R – É, Estônia, Letônia, eu não cheguei à Lituânia.

 

P/1 – E aí o senhor é ferido, etc.

 

R – Aí voltei pra Leningrado, voltou aquela coisa de evacuar depois de não ser operado em Leningrado, de ser mandado de volta para o quarto e de ir evacuado para a Ásia Central, pra Tajiquistão.

 

P/1 – E nesse momento o senhor reencontra com o seu pai.

 

R – Sim.

 

P/1 – Como que foi esse reencontro?

 

R – Eu me encontrei ainda em Krastodar, nós fomos juntos evacuados pra Tajiquistão, ele foi junto comigo.

 

P/1 – Não, mas depois de Leningrado.

 

R – Bom, isto foi antes, quando os alemães, isto foi antes de ficar o Exército. Eu estava trabalhando na fábrica que os alemães estavam chegando pertinho de Baku, entraram no Cáucaso e chegaram pra invadir, aí nós evacuamos a nossa fábrica, o meu pai estava no Krastodar também, junto comigo, e nós fomos juntos pra Ásia Central pelo mediterrâneo e ele ficou lá hospedado também, eu também. Quando eu fui no front ele continuou lá na Ásia Central.

 

P/1 – Sim, mas você estava falando que depois que o senhor passou pelos ferimentos, etc, depois de Leningrado, depois do fim da guerra o senhor se reencontrou com seu pai.

 

R – Sim, depois, quando eu me encontrei eu te contei. O meu pai depois, eu fui mobilizado, perdi meu pai, depois na correspondência eu soube que meu pai foi mobilizado para batalhões de trabalho e nós tivemos uma correspondência. E ele me contou que encontrou uma outra mulher. E depois quando eu saí dia 2 de junho do hospital com a invalidez já peguei a Transiberiana, onde peguei aquele livro dos cantos folclóricos, e eu ia perto de Moscou onde meu pai estava, eu já tinha endereço dele para me encontrar com ele. E depois de três semanas de viagem pela Transiberiana, perto de Moscou, me encontrei com papai e nós ficamos lá um pouco de tempo para evacuarmos juntos para os judeus poloneses, os cidadãos poloneses voltarem para a Polônia. Aí nós voltamos, ele junto com a minha madrasta, voltamos pra Polônia.

 

P/1 – Pra Cracóvia?

 

R – Eu fui pra Cracóvia, mas não tinha mais ninguém. Aí quando eu voltei pra Cracóvia eu encontrei meu amor. Eu desci do vagão, um grupo de transporte pra Cracóvia, logo saiu um outro grupo de transporte e entre os que saíram, saiu uma menina que também estava na Rússia há seis anos e estava perto no registro, ela se registrava e eu, dos que chegaram. Eu olhando por ela, ela olhando por mim (risos) e eu propus um passeio pra ela, pra ver a Cracóvia. Topou. E aí começou nosso namoro. E ela se tornou minha mulher e a mãe do Victor e do Leopold, os meus dois filhos. Ela casou comigo, ela ficou até na saída da Polônia pra Paris ela veio. O Victor, meu filho mais velho, nasceu na Polônia, nós fomos, em vez de ir pra Cracóvia, ela era de uma cidade perto da fronteira da Rússia, onde ela me convidou pra ir junto pra ver se encontra alguém dos sobreviventes. Eu fui com ela até lá e não queria mais saber de Cracóvia porque fiquei com aquele, não ter encontrado ninguém, preferia ficar com ela. E nós ficamos naquela cidade onde nasceu em 47 o meu filho mais velho. E ela não encontrou ninguém da família, não sobreviveu ninguém. E saindo da Polônia nós fomos pra Paris porque meu pai antes conseguiu ir pra França pelo grupo partidário dele, que eu te contei. Eles conseguiram um visto pra ele ir pra França. E ele conseguiu pra mim e pra minha mulher, Fanny, também um visto transitório. Naquela época a Polônia era comunista, o regime comunista na Polônia, e não era permitida a viagem, mas era só permitida a viagem pra judeus pra Israel. Então, pra nós podermos, sabendo que nós temos, diz que conseguiu esse visto lá, ele não me mandou esse visto, mas ele conseguiu e nós nos registramos, eu com a Fanny com o Victor, nós conseguimos registrar a ida pra Israel, como pretexto porque nós não queríamos ir pra Israel. Então a Fanny já estava grávida de oito meses, quase tempo de nascer, numa noite clandestina – eu ainda tenho que te contar que naquela cidade eu consegui ficar trabalhando. Houve lá uma nova cooperativa de calçados, eu consegui entrar nessa cooperativa e eu consegui ser diretor dessa cooperativa. Mas o Partido Comunista queria que eu, como dirigente dessa cooperativa, que eu me tornasse membro do partido comunista e eu não queria. Então inventei várias coisas que eu não sou maduro, que eu não entendo, que eu gosto de trabalhar, se eles gostaram do meu trabalho me deixam trabalhar assim que eu me realizo muito bem no trabalho. Mas eles começaram a insistir para eu entrar porque nenhum dirigente não pode não ser membro do Partido Comunista. Mas aí chegou o tempo de nós registrarmos ida pra Israel e numa noite a Fanny já quase no tempo de gravidez e o Leo já tinha quase dois anos e meio, numa noite pegamos o trem em Varsóvia pra fronteira como indo para Israel que era permitido. E nós em vez de irmos para Israel íamos passar por Paris e nós ficamos em Paris. Ficamos um ano em Paris. Nesse tempo, no segundo dia da nossa chegada a Paris a Fanny foi pra maternidade, quase o Victor nasceu no táxi. Começaram as dores dela, pegamos logo o táxi e foi no hospital judeu lá em Paris que se chama Hospital Rothschild. E nasceu o Victor lá no hospital. E aí o que está acontecendo? A Fanny, pela correspondência, encontrou um tio aqui no Brasil, em Taubaté e começou a correspondência. Ele soube que ela está salva, que ele tinha migrado pro Brasil no ano 27, 28 e ele soube que ela estava viva e resolveu nos levar para o Brasil. E ele resolveu arrumar documentos pra nós irmos. Ele arrumou um contrato de trabalho pra mim aqui em São Paulo pra trabalhar. E foi uma esperança: “Vamos pro Brasil”. Agora meu pai, a minha madrasta tinha parentes no Canadá e começou a correspondência dela do Canadá. Bom, eu comecei a procurar o visto para o Brasil, comecei, naquela época não se dava vistos para o Brasil, o consulado estava fechado pra vistos no Brasil, mas quando eu ia lá, a minha primeira visita no consulado brasileiro foi em 46. Eu fui lá sem saber nada em português, tinha um tradutor e quando ele me perguntava por que eu quero ir para o Brasil eu falei que a minha mulher tem um tio lá, ela quer nos levar pra lá e ele arrumou um contrato de trabalho pra mim. Mostrei. “Pra que cidade você quer ir?”. Eu falei: “Pra São Paulo”. Vocês não vão acreditar no que ele falou pra mim! “Por que vocês querem ir para São Paulo se a cidade de São Paulo é super povoada, não tem onde pôr um agulha, tem mais de 600 mil habitantes! Por que vocês vão pra lá? Brasil é grande” “Mas eu tenho contrato de trabalho e o meu tio está pertinho lá de São Paulo, nós queremos ficar porque ele vai nos organizar em São Paulo”. Mas a conversa dele que eu me lembro eu conto pra vocês. “Não tem onde pôr uma agulha, tem mais de 600 mil habitantes”. Conta isso pra ele hoje. Ele já morreu, esse cônsul (risos). O que vocês querem, não tem onde pôr uma agulha lá (risos). Daí chegamos em onze meses, ele pagou a passagem pra nós por uma organização judaica e nós pegamos em Marselha um navio que se chama Flórida, eu tenho a foto em casa, quando vocês vão me visitar eu vou mostrar a foto do navio que nos trouxe pro Brasil. Mas eu penso que vocês vão fazer uma pergunta por que vocês escolheram o Brasil. Eu ia contar pra vocês em anedota. Eu tinha um conhecido em Paris que morava no Brasil e ele recomendou pra mim: “Vão pra lá porque é um país bom, vocês vão gostar”. Então eu estou aqui mesmo arrependido, mas já passou tanto tempo que não dá pra voltar (risos).

 

P/2 – Como é que foi a viagem?

 

R – Boa, quinze dias de vômitos da Fanny e do meu pequeno, mas nós íamos durante a noite na parte de cima do navio onde tinha um monte de imigrantes, onde tinha gregos, italianos e portugueses e todo mundo cantava e dançava em cima nessas noites no tempo de atravessar o trópico (risos).

 

P/1 – E vocês chegaram onde?

 

R – Santos.

 

P/1 – Como que foi a chegada em Santos?

 

R – O meu tio e a minha tia estavam nos esperando com o carro dele e nós pegamos com o carro dele subimos a Anchieta. Ele já tinha alugado uma casa aqui em Pinheiros pra nós, a primeira casa, mas nós subindo a Anchieta, eu vou contar uma coisa humoresca pra vocês. Tem uma palavra de uma prostituta que é puta. Eu sabia, no navio, os que estavam sabendo do Brasil falavam essa palavra puta. Então nós subindo a Anchieta começamos a ver as entradas pra esquerda e pra direita, então tinha uma placa: “Atenção, curva”. Curva em polonês quer dizer prostituta, puta. Então estava escrito “Atenção, curva à esquerda”. Eu olhei e não falei nada. Mais um pouquinho: “Atenção, curva à direita”. Eu pensei: “O que é isto?”, não falei nada. (risos) Mais em frente tinha uma escrito: “Atenção: curva perigosa”. Aí eu não aguentei: “Tio, o que é isso?” (risos). Aí ele me explicou.

 

P/1 – E quando que vocês chegam aqui em São Paulo?

 

R – Nós fomos praquela casa em Pinheiros e comecei a conhecer patrícios aqui e começavam a me aconselhar. Como modelador e a trabalhar de operário não ia ganhar nada como estrangeiro, tenho dois filhos e começar como operário. Eles me aconselharam, a melhor coisa para um emigrado é fazer o quê? Se tornar vendedor ambulante. Me aconselharam, me explicaram como se trabalha, que a maior parte eram vendedores ambulantes. E eu entrei na conversa deles e comecei a trabalhar como vendedor ambulante sem saber falar português. Eu comecei pela Rua Iguatemi indo no sentido Itaim Bibi e parei casa em casa: “Precisa alguma coisa?”, peguei algumas coisas que eles me ensinaram a pegar no Bom Retiro: “Dão um crédito pra ele”. E os judeus do Bom Retiro acharam um novo chegado, vai ver ele tem vontade de trabalhar e deram de crédito pra mim algumas coisas para levar. Eu tinha uma mala e com essa mala de casa em casa comecei a oferecer, sabendo só o nome da coisa. Algumas falaram que quer uma, quer outra e eu anotava o que eles queriam sem saber o quê que é. E lá no Bom Retiro falava: “O que é isto que eles me pediram?”, aí os donos lá das lojas me explicavam o que era isso e aquilo e comecei a entregar. Resultado foi que eu comecei a organizar uma clientela, depois de alguns meses já estava no Itaim com clientes que repetiam, perguntavam de onde venho, começaram a ter compaixão comigo e começavam a pedir coisas. E eu indo lá, todo fim de semana ia lá com as minhas encomendas, pegava coisas e depois entregava. E novas encomendas. E começou esse ciclo. Depois de uns seis meses conheci um judeu na Joaquim Floriano que me ofereceu ficar com uma bicicleta. A bicicleta tinha atrás um meio de colocar uma mala. E eu peguei. Ele me facilitou, fez em pagamentos e eu fiquei com essa bicicleta e comecei a andar com a mala atrás, fazendo a clientela de bicicleta. Alguns já começaram a ficar: “Puxa, começou agora a andar de bicicleta”. E assim começou. E comecei a acumular dinheiro. Meu tio se transferiu de Taubaté, montou uma loja de móveis na Teodoro Sampaio, pertinho, atrás da casa onde eu morava. Eu comecei a visitar ele e começou a me sobrar dinheiro. (risos) E comecei a dar: “Segura esse dinheiro que não tenho onde pôr”. Não tinha nenhuma conta bancária, não tinha nada. E ele ficou contente daquilo, ele ficou gostando. Não passou um ano eu tinha dinheiro pra comprar um primeiro carro e comprei um Ford 1939 com 60 cavalos, aquele carro que não subia nem a Brigadeiro Luís Antônio em primeira, ele tinha um motor muito fraquinho. Mas andava na parte de baixo, não subia a Brigadeiro, não dava pra subir com ele. Mas os meus clientes com inveja: “Puxa vida, começou há pouco tempo, já está de carro”. Não demorou muito troquei esse carro por um com um motor também, outro Ford 39 com um motor de 80 cavalos. Aí já deu pra subir a Brigadeiro Luís Antônio. (risos) E meu mecânico que morava perto, atrás, em Pinheiros, me atendia, me consertava, gostou de mim, criei uma amizade com ele. Até quando eu ficava na rua com o carro, telefonava, ele vinha me socorrer e ficou bom. Troquei depois o 39 de 85 cavalos troquei por um Chevrolet Coupe 41 conversível. Puxa vida, que progresso que eu tinha! Bom, e comecei comprando, aqui me aconteceu meu sucesso. Vocês, tudo o que eu conto é tudo sorte. Eu sou adepto a pensar que tudo o que acontece na vida, não acredito em sorte, não acredito em calcular bem, não acredito de bom juízo, eu acredito no por acaso, acho que acaso dirige coisas na vida. Vocês acham que isto é viável? Por acaso, quanta coisa podia ter acontecido na tua história por acaso, pra você, por acaso? Então pra mim acontecia tudo o que estou contando. Não fiquei operado por acaso. Por que ele disse: “Volta pro quarto”? , por que ele disse: “Vamos aguardar mais um pouco”? Não foi por acaso. Ele já estava anestesiado, não é caso, não é sorte. Então vou voltar pro por acaso. Eu comprava no atacado na Ribeiro de Lima, no Bom Retiro, um atacadista de roupas de cama, mesa e banho, era atacadista e muitos ambulantes me levaram pra lá, me apresentaram lá e eu comecei a comprar lá. O dono da loja tinha um filho, o dono já era mais idoso, é um judeu ortodoxo bastante religioso, não abria a loja sábado e nem nas férias judaicas, mas ele brigava sempre com o filho. Cada vez que ia lá sempre houve briga, pai com filho brigando. E o filho, pai não criou muita amizade comigo, mas também conversava comigo normalmente. O filho começou a ter amizade comigo e se queixava sempre do pai. Uma vez ele se queixando contou por que eles brigam sempre, porque quando a mãe dele era grávida ele queria que nascesse uma menina e nasceu um filho. E ele até hoje não está gostando e está brigando com ele (risos), não aceita! Bom, agora vou chegar no por acaso. Um dia eu falei, Romeu é o nome dele: “Romeu, eu estou cansado de ser vendedor ambulante”. Depois de oito meses de ambulante eu já estava razoavelmente bem, eu falei: “Quem sabe, Romeu, se acontecer alguma coisa que você achar por aqui eu quero trocar um pouco a minha atividade”. Ele disse: “Pode acontecer um dia quando talvez menos você espera”. Uma noite ele chegava a entregar pra mim as encomendas. Uma noite ele chega pra mim e diz assim: “Leonid, tenho uma novidade pra você: meu pai gostou de você, ele quer que você entra de sócio. Ele passa sem dinheiro a parte dele e você vai se tornar o meu sócio, o que você acha?”. Eu falei (risos): “O que é isto? Você está doido”. Ele: “É verdade mesmo!”. E foi verdade mesmo. Eu fui lá e ele disse: “Só que não abram sábado e aceitem todas as festas religiosas”. Eu tinha que concordar com ele. E de repente eu me torno sócio e todos os meus colegas vendedores ambulantes ficaram com uma puta inveja comigo: “Como é que é isto?”. Agora eu pergunto pra vocês, não é por acaso? Não é? E ele ficou dez anos meu sócio, nós nos separamos depois de dez anos. Eu comecei a me lembrar a minha prática de móveis e comecei a pensar: “Por que eu não posso pensar em fazer alguma coisa em móveis? Quem sabe comercializar”. Ele concordou. Então nós alugamos uma loja onde tínhamos o atacado de cama, mesa e banho, continuamos e começamos a colocar móveis de terceiros. Eu comecei a me acostumar, ele também gostou. E eu comecei a trocar ideias com ele: “Por que nós não começamos a pensar em fabricar esses móveis?”, ele também estava de acordo. Eu comecei a pensar: “Então vamos alugar um galpão, vamos tentar comprar algumas máquinas porque eu sei como fazer, eu aprendi a fazer móveis”. Fizemos. Alugamos um galpãozinho, eu comecei a primeira máquina de fazer furos, a outra de lixar e começamos a fazer primeiro a mobília que eu pensei que são bons e começamos a vender nossa loja. E começaram a sair, agradamos com aqueles móveis. Eu comecei a bolar linhas. Naquela época já tinha muitos móveis de aglomerado, muitos móveis modernos de má qualidade, mas eu comecei a pensar em fazer móveis de madeira maciça. E eu gostei de uma madeira que até hoje eu gosto, a madeira chama imbuia, muito bonita. E ela tem uma aparência boa, ao natural, não pintando ela. Lixando bem e dando um verniz transparente aparece todos os veios da madeira e eu comecei a fazer móveis com imbuia. Linhas retas. E comecei a pensar em série, não fazer sob medida nada, tudo em grupos. Você quer fazer um bercinho? Faça vinte berços de uma vez, um tipo só. Quer fazer uma cama? Não uma cama por encomenda, bola um tipo de cama e faça uma série delas. Você olhou no relógio, tá bom para interromper?

 

P/2 – Não, tem muito tempo ainda.

 

R – Continua? Estou muito avançado.

 

P/2 – Fica tranquilo.

 

R – Deixa eu continuar com imbuia. E eu comecei a fazer em série e agradava porque eu penso: todo mundo tem casas pequenas, apartamentos pequenos, se tem móveis grandes da antiga está difícil de decorar. Comecei a criar com decorador pra tirar medidas das visitas. Tinha clientes que queriam mobiliar um apartamento, uma casa, mandava o meu orçamentista pra lá para tirar medidas, ele fazia planta e eu colocava, pela planta, os móveis que eu já tenho toda medida padronizada e era fácil pra colocar. E foi bem. E indo pra frente começou-se construir Shopping Center Iguatemi e estavam vendendo lojas. E nós estamos bem. E nós compramos uma loja no Shopping Center Iguatemi, no primeiro andar, de cem metros, dez por dez, e começamos a colocar móveis. Paramos de trabalhar com cama, mesa e banho e começou a fábrica crescendo, começamos a comprar mais máquinas e começou a venda boa no Shopping Center Iguatemi pegando uma clientela do Jardim Paulistano, do Jardim Europa, de regiões aqui do Morumbi, eu comecei a pegar casas muito grandes.

 

P/2 – Qual era o nome da loja?

 

R – SpaçoArt. Ficou bem conhecida, eu tinha uma propaganda boa e um cliente mandava outro. Comecei a crescer, comecei a crescer. Bom, houve meu problema com meu sócio, ele fez um abuso em dinheiro. Meu contador que era mais amigo meu do que do Romeu me contou. E nós rompemos a amizade.

 

P/1 – Você sentiu muito?

 

R – Não, ele só queria a parte dele. Eu consegui a parte dele. Comecei como, era bastante dinheiro, nós começamos a jogar na Bolsa de Valores, eu comecei a comprar ações. E tinha algumas indicações de alguns corretores de ações que indicavam: “Compra aquela que vai subir, compra aquela que não vai subir”. Eu havia comprado, por uma recomendação, uma quantidade bem grande, em dois meses aquela ação valorizou tanto (risos) que eu consegui pagar a parte do Romeu. Paguei a parte do sócio com aquelas ações ganhas por acaso porque mais tarde eu comprava algumas outras indicadas e perdia tudo porque não estava acertando (risos). Mas isso foi mais tarde. Bom, a fábrica estava indo bem, crescendo e eu resolvi vender a loja, consegui um bom preço. Terminou o contrato lá e eu consegui um bom preço. Tinha uma loja de sapatos que comprou, pagaram um bom preço e minha indústria começou, eu até trazia algumas máquinas de fora do Brasil, e eu comecei a andar bem. Mas começaram a mudar os tempos, veio um pouco de crises. Nos anos 90 as coisas começaram a ficar mais difíceis, eu já estava começando a ficar com mais de 70 anos e pensei de me aposentar. Olha, onde é que eu estou chegando. Estou chegando quase à minha aposentadoria, não está chegando tão perto ainda, eu estou chegando já. Então comecei a pensar na aposentadoria e comecei a pensar em vender a indústria. Nos anos 90 estava ruim, estava mal, não achava compradores, ofereciam preços muito baixos e não tinha compradores. E eu já me aposentei, já tinha conseguido a aposentadoria, já tinha os documentos de aposentado e eu já pensei: “Leonid, chega, você já fez tanta coisa na tua vida, chega! Vai descansar, vai pra praia”. Eu tinha comprado um apartamento em Guarujá na praia. Você conhece a principal praia de Guarujá, não conhece? Na ponta da praia principal tinha um prédio sobre as ondas, meu prédio estava em frente ao mar, bela vista, eu tinha no nono andar comprado um apartamento lá. Íamos, os filhos já estavam bem, já não nos visitavam mais. Bom, eu não contei a morte da Fanny. Ela começou a ficar doente em São Paulo nos primeiros anos, houve uma epidemia da coisa do cérebro, como é que chama aquelas famosas doenças do cérebro? Ela tinha esta doença, o Leo já estava na faculdade de medicina e ele arrumou um lugar pra ela no Einstein.

 

P/1 – Isso mais ou menos que época?

 

R – Nos anos 70 ainda, bem no começo. E ela faleceu. E eu fiquei viúvo. E eu pensei em vender a indústria, SpaçoArt, e não tinha compradores. Pensando na ideia do que fazer, eu já estava bem de vida, então como é que eu desfaço? Numa noite de sono me entrou uma ideia, não foi bem um sono: por que não forma uma cooperativa? Fui procurar o Sindicato dos Marceneiros e disse: “Eu quero passar essa fábrica, se vocês me ajudam a fazer essa cooperativa eu passo a minha parte pra eles e eles vão”. Tinha um deles que estava melhor, eu disse: “Você vai ficar. Vocês querem a cooperativa?”. Como é que não vão querer? Óbvio, eles vão se tornar proprietários da fábrica. Todos concordaram. E o sindicato também achou interessante: “Puxa, nossa atividade sindical, o que estamos fazendo como sindicato? Estamos ajudando a fazer a cooperativa”. Foi feito. O que eu ganhei com isto? Mais de 65 empregados, todos de longo prazo. Se eu vendesse a fábrica e se eu tivesse que indenizar todos eles com aquele prazo, eu não teria o dinheiro suficiente pra poder pagar, a indenização ia me custar mais do que a venda da fábrica. Então eu vendo de graça porque me livro dos encargos sociais. E de fato, meu advogado levou todos eles no Ministério do Trabalho, todos eles assinaram a desistência das leis trabalhistas deles, eu fiquei livre dos encargos sociais e entreguei a fábrica pra ele. Foi o fim da minha atividade social. E aí comecei a me tornar vagabundo e eu estou sentindo muito isso, eu fiquei com saudades da fábrica porque eu fiquei improdutivo. Veja, hoje com 92 anos eu estou com saudade de fazer alguma coisa, eu não consigo ser parado, eu até sinto solidão.

 

P/1 – Vou fazer algumas perguntas voltando.

 

R – Vocês não querem que eu ajude a vocês trabalharem aqui. Não quero ganhar (risos). Eu vou entrevistar os coitados que nem eu (risos).

 

P/1 – O senhor sente muita falta da sua esposa?

 

R – Sinto. Antes de tudo. Bom, eu não contei, já que estou indo longe. Conheci outra mulher depois da morte da Fanny. Ela se chama Miriam. Miriam era casada, tinha um filho, não gostava do marido, vivia com ela e ela começou a amizade comigo e eu notei que tinha algo mais do que amizade. Comecei a olhar mais por ela e vice-versa. E ela me contava, me telefonava e eu comecei a ver a vida infeliz dela. O marido dela era muito amigo meu, nós íamos para o banho turco junto, nós nos damos bem e ela cada vez mais contando mais pra mim e eu pra ela. Bom, acontece que ele tinha uma confecção e naqueles anos também não ia bem. Ele faliu, a empresa dele faliu e ele ficou devendo e resolveu ir pra Israel. E ela estava esperando esse momento e eu também. Ele queria que ela fosse, ela inventou qualquer desculpa que talvez ela não pôde ir porque ela tem, aqui está muito acostumada, que talvez vai mais tarde. Mas como ele tinha que sair porque as dívidas corriam atrás dele, ele foi. E aí a gente se aproximou e começamos a morar juntos. Miriam se tornou uma boa esposa pra mim, um amor muito bom. A gente combinou, eu fiquei 40 anos, até a morte dela em Bragança eu fiquei com ela. Nós ficamos 41 anos juntos, muito bem vividos, com muito amor. Ela me ajudava na fábrica, ela me ajudava, foi muito companheira de vida. Meus filhos não gostavam muito dela. Bom, saudades da mãe. Mas eles achavam que ela, mais o Leo do que o Vítor, mais o meu psicoanalista, achavam que ela está comigo pra me explorar e achava, como está em moda, ela 35 anos mais nova do que eu, então o que quer? Procurar um velho pra quê? Pra se aproveitar. Como está hoje muito comum isto, como se procuram hoje, mulheres que procuram um homem mais velho simplesmente pra melhorar de vida, sacrificam a parte romântica, a parte amorosa, mas vence a parte prática. Isto meus filhos acharam que eu estou sendo vítima dela (risos). E não foi nada disso. Ela faleceu, eles ainda não topando muito, mas não houve tanto problema. Depois da morte dela, há dois anos, eu acho uma outra mulher de descendência russa, a mãe russa, pai estoniano. Ela tinha filhos adotivos, não tinha casamento, era casada também, mas era solta. Um dia quando a Miriam morreu eu tinha algumas roupas dela e não tinha o que fazer com essas roupas. E aqui em Bragança num brechó pra vender de qualquer jeito, qualquer preço as roupas da Miriam, falecida. A dona lá do brechó disse: “Como é que é, você tem alguma coisa?”, eu contei, eu estava na guerra, estava na Rússia, um papo assim, despretensioso e tinha pegado uma mulher, ela disse: “Essa aqui, aqui pegado, ela é russa, você fala russo?” “Falo” “Ela russa também, você quer falar com ela?” “Quero”. Ela olhou pra mim, eu olhei pra ela e comecei: (fala em russo) _2:00:47_ a _2:00:50_. Comecei a falar em russo e ela começou a falar em russo comigo. Resultado: convidei ela pra ir lá me visitar. Ela vem com a filha pequena dela e começamos um namoro.

 

P/1 – Isso é recente?

 

R – Foi recente. E aí contei pros meus filhos. Aí estourou a bomba com meus filhos. Ela também, mais de 40 anos mais nova do que eu. Tinha quatro filhos adotados, ela gostou de adotar filhos. E a gente se entendia, nós namorávamos em russo, nós dormíamos falando russo (risos), fazíamos sexo falando russo (risos). E eles desgostando, achando que eu estou sendo explorado, vítima. E eles como filhos têm que cuidar do pai, começaram a fazer uma pressão contra mim. E bom, eu fiquei sete anos com ela, houve um desacordo entre nós, houve uma discussão, não pela influência dos meus filhos, mas nós não entendemos em uma coisa. E eu resolvi deixar ela. E contei para o Leo, o psicoanalista: “Não tem importância, você foi vítima, mas isso acontece muito no mundo, não fica sofrendo”. Mas falei: “Não, Leo, você já amou na sua vida? Você está casado há 40 anos, tem cinco filhos muito bem educados, vocês se amam, se gostam, você não acredita que eu amava esta russa, esta minha querida?”, Marina o nome dela. Eu tenho até hoje, nós nos desligamos, eu tenho conhecimento com ela. Eu tenho ainda encontros com ela, não mais sexo, não mais convívio, eu falei: “Nós não estamos mais amantes, mas nós podemos continuar amigos”. Como não? Ela quer conversar comigo, nós conversamos até a minha saída de Bragança. Foi quanto? Dois anos depois. Não, três anos depois que eu deixei com ela e meus filhos sempre achando que eu fui vítima, sempre vítima.

 

P/1 – Leonid, o que você achou e ainda acha, como é viver em São Paulo? O que você acha da cidade?

 

R – Infernal. Eu vivi muito bem, estou com uma saudade tremenda, fiquei 50 anos aqui. Eu voltei porque eles insistiram para eu voltar. Eu de ser vítima de mulheres mais novas porque depois da Marina eu arrumei mais uma menina viúva, três anos com ela, ela vinha três, quatro vezes em casa por semana e a gente se dava bem, um amor muito bonito. Nada disso de se aproveitar, nada disto. E eu contei, tem mais uma. Mais uma razão de eu ser explorado. “Vem pra nós”. E o Victor fez tudo. Eu vendi, tinha uma casa muito boa lá, tinha móveis ainda da minha fábrica. Ele diz: “Eu te arrumo tudo, eu te arranjo mais conhecidos aqui, tenho muitas amizades”. Então eles me trouxeram vítima, me trouxeram pra São Paulo. Eu estou há quase dois anos aqui com uma tremenda saudade de Bragança, deixei muitos amigos, deixei essa última minha namorada, Mara é o nome dela. Ela telefonou antes de ontem, que eu não conto pros meus filhos, telefonou pra minha empregada, telefonou contando que a mãe dela faleceu. E eu tenho saudades dessa também. Então vitimado eu venho pra São Paulo. Mas não gosto de São Paulo. E eu me sinto numa certa solidão.

 

P/1 – Deixa eu fazer mais umas perguntas para o senhor, seu Leonid. O senhor tinha me falado que o senhor gosta muito da cultura russa em geral. Como que foi para o senhor a queda da União Soviética?

 

R – Sinto muita falta da queda. Eu, por mais que eu não gosto da ditadura, por mais que eu acho que a ditadura de um partido, tudo o que acontece aqui com todas as tentativas de ditadura, todas elas fracassam, mesmo com o regime marxista. Cuba não aguentou, Cuba vai se tornar capitalista. Venezuela não está aguentando porque é um partido só que não vai aguentar. Bolívia também se tornou de esquerda. Lula aqui. Lula tentou o golpe aqui, Lula queria, ele organizou todo o funcionalismo público, petistas, ele estava preparando tomada do poder do partido dele. Não deu porque não dá. Mas eu tenho outras razões. Tudo aquilo que eu não gostei na União Soviética, tinha coisas boas lá. Eu passei seis anos lá, culturalmente eu cresci, minha mentalidade cultural foi formada lá. E eu tenho muita, seis anos, de 16 a 22 anos, são os mais belos anos da minha vida. Então eu sabia que eles prenderam muita gente lá, muitos contavam que aquele foi preso em 37, em 38, houve aqueles processos famosos que eles obrigaram confissões, tudo era mentira. Mas o que de bom tinha: ensino gratuito, estudos na faculdade gratuita, eu queria estudar cinema, eu ia estudar em Moscou cinema, tudo fácil. Ia assistir todas as óperas de graça, todas cantadas em russo. Eu tinha namoradinha lá, uma armênia, que o pai era gerente da orquestra sinfônica da cidade Krastodar. Ela me levava pra ver o concerto do pai dela. Eu ia na casa deles, foi bonito tudo aquilo. Quando eu soube aqui da queda da União Soviética eu sinto, não devia, porque eu acompanho tudo. Eu tinha no DVD em Bragança o Canal Moscou, Canal São Petersburgo da minha DVD, assistia toda noite todos os programas que acontecem lá. Adoro a língua e estou querendo falar, não tenho com quem falar, mas se tem com quem eu adoro falar em russo. Mas eu estou acompanhando o que está acontecendo, o Gorbachev queria algo que não deu certo. Por que não deu certo? Ele queria transformar a ditadura do Partido Comunista num socialismo social democrático tipo Suécia, tipo Dinamarca. Mas o povo já não estava querendo mais e preferia voltar ao regime capitalista. E aí o que está acontecendo hoje na Rússia? Total regime capitalista. Estão copiando tudo o que acontece nos Estados Unidos e estão fracassando, a economia está indo mal, eles estão com desemprego, eles estão com muita corrupção, muita droga, eles estão muito mal. Então eu sinto, estou frustrado, por que eles caíram? Não deviam, mas deviam se democratizar. Devia ter um regime marxista, mas democrático, isto era a saída, mas não consegue. E aí eu vou dar a minha visão. Eu vou dar a minha visão por que isto. Não sei se vocês concordar comigo o que eu vou contar. Eu estou estudando Jung. Você sabe alguma coisa do Jung.

 

P/1 – Um pouquinho.

 

R – Do Freud você sabe. Freud é pai do Jung. O Freud é professor, Jung começou a aprender com Freud. Mas Jung eu leio e eu estudo ele. E ele está me explicando alguma coisa que eu vou querer transmitir pra vocês, eu vou querer, vocês terem interesse e vão começar a estudar Jung também. Eu recomendo isso pra vocês. Jung estuda mais a psicologia humana do que Freud. Freud era muito drástico, ele não curava, ele só dava remédios, ele concordava com os problemas psicológicos, mas não curava. Jung vai mais longe, Jung acha que o ser humano, pelas qualidades que nós temos, nós não servimos pra Marx, nós não servimos pra igualdade, nós somos por natureza egoístas, gananciosos, querendo ter e não ser. Ele acha que nossos cérebros têm que ser reeducados, do jeito como nós somos o Marx não conseguia, o defeito do homem, porque enquanto o mundo é mundo, enquanto você vê a Bíblia, quanta porcaria tinha desde o nascimento, desde a Eva que enganou com a maçã e o trouxa do Adão que entrou no engano da Eva. O teu vizinho tem um apartamento de cinco dormitórios, ele quer um outro prédio que tem oito dormitórios. Ele não concorda. O Trump tem os maiores arranha céus em Nova York, ele quer comprar mais. Não dá. Assim que somos nós. E por isso a União Soviética não deu. Porque na tua vida, na minha vida, eu sou egoísta. Eu tinha uma fábrica pequena, eu queria aumentar ela. Eu me tornei sócio pra quê? Eu agora tenho um apartamento pequeno tá muito bom. Eu construí uma casa em Itapecerica com mais de 400 metros quadrados e estava eu sozinho, eu tinha que pegar a buzina pra achar minha mulher lá. Pra quê?! Isso que nós somos. E por isso o Marx não sabia nada do Freud e menos ainda do Jung. Você quando vai conhecer o Jung você vai ver, por isso que tem toda a desgraça. E o mundo não melhora. Eu penso que a única coisa que eu acho que tem esperança é a Neurociência. Ela está progredindo muito e eu estou prevendo um absurdo. A neurociência vai progredir tanto que nós vamos ter colocado um zíper no nosso cérebro, vamos tirar toda a porcaria que nós temos lá pra colocar coisas mais lógicas, sem querer ser eu, querer ser e não ter!

 

P/1 – Seu Leonid, quais são seus sonhos agora, pro futuro?

 

R – De me aperfeiçoar mais no Jung e de torcer pra Neurociência avançar muito rápido.

 

P/1 – Conta um pouquinho pra gente como foi essa experiência de contar a sua história pra gente.

 

R – Eu com vocês?

 

P/1 – Isso, contar como foi.

 

R – Eu simpatizei muito com vocês. Vocês estão me ouvindo e têm paciência comigo, nem sei porque (risos).

 

P/1 – Uma última pergunta e aí a gente encerra, que eu tinha esquecido. Como que é andar na Transiberiana, como ela é?

 

R – É muito alegre (corte) é único trem que tem, ele atravessa quase nove mil quilômetros de Moscou até Vladivostok. Nós levamos três semanas com intervalos parados porque devia ter mais duas ou três transiberianas porque a Sibéria não está desenvolvida, ela está pra crescer. O que tem de riquezas na Rússia, não exploradas, nenhum país do mundo tem. O Brasil que é muito rico, que tem muita coisa não explorada. A Rússia tem muito mais. Toda a Sibéria você não sabe, nem ninguém sabe, o que tem no subterrâneo da Sibéria, quanto ouro que tem lá, quantos metais, vários tipos.  O que vai se descobrir ainda. E só tem uma Transiberiana, quem quer ir de Moscou? Ninguém quer ir pra Sibéria porque tem um frio tremendo. E também não tem ajuda, o Estado não ajuda manter a cidade. Tem algumas cidades grandes lá, Krasnoyarsk, Novosibirsk, que são grandes. Você num campo de concentração, que tem muitos feitos na Sibéria, você não conseguia nem fugir de lá porque de uma aldeia pra outra você ia morrer no caminho de tanta distância entre o campo de concentração e a primeira aldeia, então você ia morrer de frio, não aguentava. Então isto eu sinto. Você perguntou da Transiberiana, tudo o que tem ainda pra explorar é uma fortuna. Estados Unidos estão no apogeu do crescimento, eles já estão regredindo. A Rússia ainda, o Brasil ainda vai ser superior aos Estados Unidos porque tudo o que nós temos aqui, se vamos chegar a explorar. Aqui nós não temos nenhuma Transiberiana, nós queremos fazer um trem que atravessa do Oceano Atlântico para o Pacífico, né? Ainda não se consegue. O Brasil é um país riquíssimo, é a Rússia, é outra Rússia. Mas devia ter mais Transiberiana. Em tudo o que eu cantei nessas três semanas eu estou com saudades. Aquele livro do folclore eu vou mostrar pra vocês!

 

P/1 – Beleza então. A gente pode encerrar.

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